Quem Somos Nós?

No ano passado, em fins de março de 2020, surgiu o Portal Crítica Desapiedada como mais um espaço de luta cultural na perspectiva marxista autogestionária. O Portal é promovido pelo Grupo de Estudos Expressão Revolucionária (GEER)* e é administrado por Felipe Andrade e Gabriel Teles. Desse modo, o Portal é um projeto paralelo, independente e autônomo em relação a qualquer organização política. Ele é mais um espaço de luta cultural e, principalmente, de divulgação teórica e propagandística que possui o intuito de contribuir com o estudo e acesso aos materiais do que consideramos marxismo autêntico através do seu conteúdo principal: Manifesto Inaugural, os Vídeos presentes no canal do YouTube, os Guias de Autoformação, os Cursos de Formação, a divulgação de Artigos Marxistas Autogestionários Brasileiros, as Entrevistas com militantes autogestionários e Podcasts.

Em complemento ao objetivo central, a divulgação do marxismo autogestionário, também objetivamos divulgar tendências próximas do marxismo, vistas nos trabalhos de tradução/transcrição produzidos pelo Portal em colaboração ou não com outras pessoas e nos trabalhos (artigos, traduções, etc.) de outros grupos e páginas na internet que possuem proximidade conosco[1]. A divulgação de todo esse material é realizada através das redes sociais, via Instagram, Facebook e Twitter, que são importantes meios de comunicação na atualidade e responsáveis por atingir uma grande quantidade da população. Através desse trabalho de divulgação, várias pessoas podem entrar em contato com o material disponibilizado no Portal, acessando um material crítico e que possibilita avanço teórico e político[2]

Por ser um Portal na internet que possui como objetivo central o trabalho de divulgação, existe da nossa parte uma proximidade com as necessidades das redes sociais virtuais, já que estamos presentes nos canais mencionados anteriormente. De um lado, buscamos publicar com uma frequência maior do que revistas acadêmicas, jornais, etc., porque nosso público, o caráter do site (de divulgação semanal/quinzenal) e as necessidades das redes virtuais exigem, em alguma medida, um alto número de postagem. Por outro lado, a alta frequência pode prejudicar o conteúdo do que propomos divulgar, o que nem sempre ocorre, mas reconhecemos que é uma situação bastante comum hoje em dia. No entanto, diante do grande número de informações, mal-entendidos, deficiência teórica e falta de formação política das pessoas, etc., o Portal mantém certo rigor e coerência com a sua proposta política[3]. Assim, a maioria das atividades do Crítica Desapiedada (CD) segue o propósito de divulgar material teórico, aprofundado e analítico, não cedendo ao grande número de informações superficiais, simplificadas, ao anti-intelectualismo, irracionalismo, etc., comumente encontrados na internet.

Dentre as atividades do CD, consideramos importante traduzir, transcrever e divulgar artigos de duas das principais correntes marxistas que se desenvolveram durante a sua história: o comunismo de conselhos e o marxismo autogestionário francês. Estas duas são as principais tendências que focalizamos em nosso trabalho de divulgação, não deixando de lado que, por mais que esses dois grandes momentos do marxismo tenham seus méritos bem como limites, não ignoramos outras correntes próximas[4] da nossa perspectiva, cujos textos são marginais e desconhecidos do debate marxista autêntico aqui no Brasil. Essas tendências próximas possuem contribuições para o nosso próprio desenvolvimento político. Podemos citar, por exemplo, o Solidarity (Solidariedade), uma organização política britânica fundamental para a consolidação do autonomismo radical nos anos 60 aos 70. Outros exemplos são as produções de autores como Gilles Dauvé, Tristan Leoni, David Adam, Paul Mattick Jr., Charles Reeve, Serge Bricianer, Henri Simon etc., e organizações como Root and Branch, Aufheben e ICO (Informations Correspondance Ouvrières), etc[5].

À primeira vista, o trabalho de divulgação (o que envolve transcrição de textos publicados, pesquisa e seleção dos textos para tradução e posteriormente revisão[6]) não significa concordância total com a posição política presente nos artigos. Significa apenas o primeiro momento do trabalho, o que, posteriormente, será sucedido (sem prazo definido) por análises fundamentadas sobre essas tendências. Para citar um exemplo: traduzimos diversos textos do Maurice Brinton, divulgamos a sua perspectiva e compilamos um material significativo do autor em português[7]; daqui um tempo, postaremos artigos na perspectiva do marxismo autogestionário que realizarão uma análise crítica (e desapiedada) do pensamento do Brinton[8]. Portanto, não estamos fazendo concessões ou concordando plenamente com Brinton quando divulgamos seus textos, mas assumimos que o trabalho de analisar um autor demanda tempo e o CD não conseguirá fazer isso em um prazo curto.

Assim, reiteramos que no Portal Crítica Desapiedada divulgamos artigos de outras tendências políticas, alguns com introduções críticas – quando é possível[9] – que apontam para determinados limites do texto, e outras com apenas a tradução inédita, em português. O importante é perceber que todo o material divulgado, excetuando-se os casos dos textos que não correspondem à nossa posição política fundamental, o marxismo autogestionário, está subordinado ao nosso conteúdo principal. Dessa maneira, o Portal é um espaço orientado pelo marxismo autogestionário, concepção que nem sempre aparece em certos trabalhos divulgados (traduções e/ou transcrições) mas que, como dito no começo, está visível para os leitores que acessam à página do Portal, bem como declarada em nosso Manifesto Inaugural e reforçada novamente neste texto Quem Somos Nós? Em certos aspectos, existem limites, ambiguidades e ecletismos, que, no entanto, estão subordinados ao objetivo e compromisso principal do Portal: a divulgação da perspectiva revolucionária.

Outro ponto para ser lido no CD é o acervo que construímos, visto nas páginas que possuem breves descrições sobre seus propósitos: Biblioteca e Biblioteca Secundária. Assumimos nestes espaços o compromisso de disponibilizar um simples acervo para consulta e pesquisa àqueles leitores que nos acompanham e não necessariamente concordam com a nossa perspectiva política. No acervo Biblioteca, pode-se encontrar diversos textos de tendências políticas que correspondem ou possuem proximidade com a posição do Portal: marxismo original, comunismo de conselhos, marxismo autogestionário, etc. No acervo Biblioteca Secundária, pode-se encontrar tendências políticas opostas e até mesmo antagônicas (como o pseudomarxismo, o bordiguismo, a psicanálise freudiana, etc.), que não possuem material de fácil acesso na internet. O acervo é um instrumento de pesquisa, fornece atalhos para travar o conhecimento desse material não tão acessível e indica obras que possuem contribuições em nossa formação política e intelectual (por exemplo, a psicanálise). Em várias dessas obras, existe discordância em relação ao núcleo essencial que pode ser considerado como falso, o que é o caso de toda ideologia. Para nós, a Biblioteca (Geral e Secundária) trata-se de um acervo, uma forma de listar obras, textos e autores que possuem importância política e intelectual e, em alguns casos, importância ideológica, desde que seja lido com criticidade e destacado os momentos de verdade que existem em toda ideologia[10].

Diante dessas colocações sobre parte do trabalho do Portal, visto em seu acervo (Bibliotecas), em seu conteúdo principal e nas traduções gerais (comunismo de conselhos, marxismo autogestionário francês e tendências próximas), reforçamos que nosso compromisso é pela transformação social, vinculada à autoemancipação humana através da revolução proletária. O Portal é organizado informalmente, entre Felipe Andrade e Gabriel Teles. Ele não possui a pretensão de se tornar uma organização política à parte, não realiza atividades de intervenção (participação em protestos, propaganda pelo voto nulo, etc.), tampouco recruta membros para si. Possuímos caráter informal, a nossa principal atividade é a divulgação e estamos abertos à colaboração externa de pessoas que tenham interesse em contribuir conosco nesse sentido. Este último ponto é importante para ser frisado. Quem tiver interesse em colaborar conosco no trabalho de tradução e revisão, em textos listados de acordo com as nossas diretrizes, pode enviar e-mail e conversar conosco. Além disso, quem tiver interesse em conversar e debater sobre o conteúdo postado no Portal pode também enviar e-mail que sempre responderemos quando tivermos condições, seja através do Gabriel ou Felipe. Também estamos abertos a divulgar o seu artigo ou projeto (blog, site, etc.), desde que concordemos com a sua perspectiva política.

Assim, concluímos o nosso breve texto de esclarecimento sobre Quem Somos Nós? com a intenção de deixar o caráter do Portal transparente a todos os leitores que nos acompanham. Esperamos manter a existência desse projeto e a continuidade do trabalho, com o rigor e criticidade, durante muitos anos.

Saudações Autogestionárias a todos e todas,

Portal Crítica Desapiedada.


* O GEER não iniciou suas atividades. Planejaremos um cronograma, os autores que serão discutidos, entre outros detalhes, e no futuro convidaremos as pessoas para integrarem efetivamente esse grupo de estudos.

[1] As traduções de outros blog’s e páginas da internet foram citadas no informe do site de 1 aniversário do Crítica: Proelium Finale, Humanaesfera e Sobinfluência. Foram traduções de artigos que consideramos de qualidade e próximos da nossa posição política.

[2] Em várias das nossas postagens nas redes sociais, diversas pessoas comentam, expressam sua identificação ou não com a perspectiva do texto, ou, em casos excepcionais, entram em contato conosco para debater sobre questões específicas não relacionadas ao Portal. Nestes casos, tratamos de deixar evidente que não somos uma organização política, não recrutamos membros para o CD, e nossa colaboração externa – como comentaremos no final do texto – é estritamente em termos de divulgação de material.

[3] O Portal defende o marxismo autêntico e este é um saber teórico, complexo, cuja profundidade não é acessível imediatamente à consciência do indivíduo. Desta maneira, o marxismo – como qualquer outra forma de saber complexo – exige tempo de estudo, dedicação, esforço intelectual e psíquico, características que se tornaram escassas nas postagens presentes nas redes sociais. Portanto, não buscamos divulgar textos simplórios, pouco aprofundados, e, pior ainda, distantes da nossa perspectiva. O anti-intelectualismo e a falta de aprofundamento dos textos são duas armadilhas comumente vistas na internet e, geralmente, estão relacionados com a abundância de informações disponíveis em vários sites, de um lado, e com a falta de rigor e criticidade, por outro lado. Para uma discussão sobre esse assunto, conferir: Os Dilemas da Formação na Contemporaneidade, escrito por Nildo Viana. Pode-se acrescentar que os textos divulgados são, na maioria das vezes, produto de pesquisa, leitura, depois tradução e revisão. O trabalho segue determinado critério, apesar de que no começo do Portal nem sempre isso ocorreu.

[4] Quando dizemos tendências próximas, isto significa dizer que são textos que apresentam uma perspectiva semi-proletária e pertencente ao bloco revolucionário, como o autonomismo, “comunização”, “conselhismo”, anarquismo etc. (conferir a nota de rodapé 5). Não se trata de divulgar artigos cuja perspectiva é o leninismo, maoísmo, a social-democracia, etc., ou seja, posições políticas típicas do bloco progressista e antagônicas ao que o Portal almeja defender (a autogestão social). Em outras palavras, traduzimos e divulgamos tendências opostas, ao invés de antagônicas, à nossa perspectiva. Cf. Marxismo Autogestionário e Leninismo: Oposição ou Antagonismo? (Gabriel Teles). 

[5] A lista completa dos autores e organizações traduzidas pode ser vista em nosso informe de 1 ano de aniversário do Crítica Desapiedada. No entanto, podemos ir além daquelas informações e acrescentar – provisoriamente, pois falta ainda estudos e análises mais profundas – que autores como Gilles Dauvé e Tristan Leoni pertencem a uma tendência semi-proletária, próxima da herança do Bordiga e da chamada “esquerda italiana”, com a qual poderíamos denominá-la de “comunização”, observando suas contribuições e limites [conferir nota do CD no seguinte post: “Jean Barrot e “O Movimento Comunista” – Lucas Maia”]; David Adam é um autor marxista ambíguo, que iniciou sua militância no anarquismo, posteriormente inspirou-se nas contribuições intelectuais do chamado “marxismo aberto”, Karl Marx e comunismo de conselhos, e atualmente (desde 2016 em diante) defende posições social-democratas [algumas informações sobre o David foram fruto de correspondência por e-mail do CD com o autor]; autores como Charles Reeve e Paul Mattick são dois representantes do marxismo que buscam resgatar a herança do comunismo de conselhos para a atualidade, em maior ou menor grau e com diferenças de posicionamento, o que poderíamos chamar de “conselhismo” [para informações sobre Mattick Jr., conferir sua entrevista publicada no Portal: O Comunismo de Conselhos e a Crítica do Bolchevismo; para informações sobre Reeve, conferir a nota do Crítica na seguinte publicação: Contra a mumificação da Comuna: descobrir Leó Frankel]; organizações políticas como o Aufheben e Root e Branch são marxistas “libertárias”: a primeira mais próxima do chamado “bordiguismo” e “comunismo libertário”, e a segunda mais próxima do “conselhismo” e do “autonomismo radical”. Há uma dificuldade maior nestes dois casos por se tratarem de organizações políticas com suas diferenças internas e menor homogeneidade [para mais informações sobre o Aufheben, conferir: Aufheben (1992-…), tópico Quem Somos; para mais informações sobre o Root and Branch, conferir: Ponto de Vista: Solidarity]; o militante Henri Simon é um intelectual que participou do Socialismo ou Barbárie, ICO e depois o Échanges et Mouvement, organização que ele continua participando ativamente até os dias de hoje. Ele é um intelectual que possui proximidade com o autonomismo radical, comunismo de conselhos e ainda exige mais informações e traduções para análises mais profundas; Fredo Corvo é um militante comunista conselhista contemporâneo, ou melhor dizendo, conselhista. Trata-se de um pseudônimo para um indivíduo holandês que começou sua trajetória no anarquismo, posteriormente começou a estudar Marx, Pannekoek e assim tornou-se um crítico radical do bolchevismo. Após encontrar publicações de dois grupos comunistas conselhistas remanescentes na Holanda nos anos 1970 (Spartacusbond e Daad & Gedachte), Fredo começou a contribuir com traduções e publicação de artigos e cristalizou vínculo íntimo com os autores comunistas conselhistas na Holanda, como Cajo Brendel [para conhecer publicações do Corvo, conferir o artigo: O G.I.C. e a economia do período de transição]; por fim, Serge Bricianer e ICO ainda serão traduzidos e analisados em seu devido momento. Tratamos de citar estes exemplos e de acrescentar essas breves informações para indicar alguns elementos provisórios sobre a posição desses autores e organizações que foram e serão divulgados no Portal em 2021 e que fazem parte do conjunto de textos pertencentes às tendências próximas (e não antagônicas) que nos interessam. Reforçamos que é necessário também divulgar artigos que possuem qualidade, proximidade com o marxismo autogestionário e fornecem debates importantes sobre temas de grande relevância. Por sua vez, a análise desse amplo espectro de autores e organizações é uma urgente necessidade para o próprio esclarecimento da história do marxismo autêntico, tarefa que não cabe apenas a nós, mas a todos os militantes revolucionários que querem contribuir com essa luta cultural e avanço teórico.

[6] Não é demais lembrar que toda tradução está envolvida na perspectiva, valores, interesses, sentimentos, do indivíduo concreto, um ser humano social e histórico. Por isso, toda tradução é lida, revisada e avaliada por militantes autogestionários ou pessoas próximas de nossa perspectiva. Todas assumem o compromisso de manter as traduções de acordo com os pressupostos que consideramos adequados, em correspondência com a perspectiva marxista, ou seja, mantendo-se o rigor e a fidelidade às ideias do autor. Neste último caso, a fidelidade, priorizamos a tradução dos textos diretamente do original, seja em inglês, francês ou espanhol, para que assim possamos evitar o máximo possível as más traduções e deformações que podem ocorrer em traduções das traduções. No entanto, qualquer tradução pode ter equívocos, limites e imprecisões, o que pode ser reavaliado e corrigido futuramente pelo Portal, mantendo-se o contato com este através de seu e-mail: [email protected]

[7] Importante notar que a tradução de textos para o português possui grande relevância, uma vez que grande parte dos autores traduzidos são marginais, pouco traduzidos, e sabemos que vários indivíduos que acompanham o Portal não dominam outros idiomas, como o inglês, espanhol e francês. Desse modo, a tradução é relevante para divulgar material mais acessível e ampliar o material informativo disponível em português dos autores/organizações selecionados.

[8] Brinton é exemplar por ter sido o primeiro autor divulgado pelo Portal e o principal autor traduzido no ano de 2020, chegando ao número de 9 artigos e 1 entrevista traduzida. Em duas oportunidades, Gabriel Teles escreveu introduções críticas aos seus artigos: A Comuna de Paris, 1871 – Maurice Brinton & Philippe Guillaume e Maio de 68 Francês: Implicações Teóricas – Maurice Brinton. Trata-se, portanto, de um autor que em breve receberá novas análises, dado a grande quantidade de traduções que foi realizada até o momento.

[9] Novamente, precisamos repetir que o trabalho de tradução, revisão e divulgação é um, o trabalho de escrever uma introdução crítica é outro. Nem sempre – devido ao tempo curto com os afazeres cotidianos, compromissos profissionais, limites pessoais e teóricos, problemas de saúde, etc. – conseguiremos fazer os dois trabalhos ao mesmo tempo e fornecer ao leitor a divulgação de material com a melhor qualidade possível. A nossa intenção é sempre disponibilizar uma introdução crítica e/ou notas de rodapé críticas nas traduções inéditas publicadas, mas na maioria das vezes é impossível.

[10] Uma posição adequada do conceito de ideologia pode ser vista em: A Força da Ideologia, capítulo 1 do livro Cérebro e Ideologia de Nildo Viana.

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