Maio de 68 Francês: Implicações Teóricas – Maurice Brinton

Publicado: em Solidarity, V, 8 (Março de 1969).
A tradução foi realizada por Thiago Papageorgiou e revisado por Gabriel Teles, segundo a versão disponível no Marxists.org.

Introdução ao texto

O texto aqui agora traduzido trata-se da resposta de Maurice Brinton, militante do grupo Solidarity, a uma interpretação deformadora dos acontecimentos do Maio de 68. No Brasil, Brinton é conhecido por ter sido um dos grandes intérpretes da experiência radical do Maio de 1968 Francês.

O seu livro Paris: Maio de 68, editado pela Conrad em 2008, tornou-se um das grandes referências, a partir de uma perspectiva crítica, sobre esse acontecimento histórico fundamental da segunda metade do século XX. A obra foi escrita no calor do momento, em meio à ocupação das universidades feita pelos estudantes, aos piquetes dos trabalhadores (que efetuaram a maior greve geral da história francesa) e às barricadas feitas por todos aqueles que sonharam com um mundo radicalmente distinto. Brinton, como poucos, soube captar a efervescência revolucionária daquela experiência, relatando o que se produziu de mais radical e revolucionário. Em seu livro, ele nos dá diversos exemplos dessa radicalidade, como o caso da ocupação estudantil de um prédio da Faculdade de Letras da Universidade de Paris, Centre Censier:

Logo após o Censier ser ocupado, um grupo de ativistas controlou uma grande parte do terceiro piso. Esse espaço seria a sede das então propostas “comitês de ação trabalhador-estudante”. A ideia geral era estabelecer laços com grupos de trabalhadores, por menores que fossem, que compartilhassem a visão revolucionária-libertária desse grupo de estudantes. […] O que uniu os companheiros do Censier foi a nítida percepção das potencialidades revolucionárias da situação e o entendimento de que não tinham tempo a perder. […] Quais eram suas ideias? […] um rápido e autônomo desenvolvimento da luta da classe trabalhadora, a organização de comitês de greve eleitos que fizessem a ligação entre os sindicalizados e não-sindicalizados em todas as empresas e indústrias em greve, reuniões regulares dos grevistas de modo que as decisões fundamentais permanecessem nas mãos do trabalhador comum, comitês de defesa dos trabalhadores para defender os piquetes das intimidações da polícia, um diálogo constante com os estudantes revolucionários com o objetivo de restituir à classe trabalhadora sua própria tradição de democracia direta e sua própria aspiração à autogestão, que foi usurpada pelos burocratas dos sindicatos e partidos políticos (BRINTON, 2008, p. 50).

O título do artigo aqui traduzido, Maio de 1968 francês: implicações teóricas, já nos dá a pista de que se trata de um escrito posterior a esses acontecimentos. Feito em março de 1969, exatamente um ano após o início da experiência francesa, Brinton volta ao tema para criticar algumas interpretações vulgares e deformadoras do Maio de 68 e colocar uma questão importante que são as implicações teóricas das novidades e especificidades dessa experiência ante as experiências passadas. Temos aqui um Brinton preocupado com as novas possibilidades de ação dos estudantes, as ideologias que colocavam a classe operária como integrada ao capitalismo, entre outras questões.

O mérito de seu texto é exatamente se esquivar das interpretações contrarrevolucionárias, sejam elas vindas da burguesia ou do pseudomarxismo. No entanto, o texto possui limites que são derivados da perspectiva ambivalente de Brinton, que ora oscila em direção ao marxismo (adesão ao materialismo histórico), ora ao autonomismo (muito influenciado, também, pelas mudanças que posteriormente se cristalizaram no pensamento de Cornelius Castoriadis, que se conformou ao pós-estruturalismo). Dentre estes limites está a não percepção da dinâmica da divisão internacional do trabalho e da relação entre os países de capitalismo imperialistas (países “desenvolvidos”) e países de capitalismo subordinados (países “subdesenvolvidos). E isso se torna um problema em sua análise ao não perceber que a aparente “bonança” dos países imperialistas, como a França, se dava pela superexploração dos países subordinados. Apesar de ele perceber que a questão, naquele momento, não era simplesmente “econômica”, o autor se esquece que o problema não era apenas o capitalismo francês, mas sim o capitalismo mundial (e mesmo assim a França não passava por um momento estável). Logo, as mudanças que Brinton coloca em seu texto sobre a dinâmica das classes sociais em França não pode ser transplantado para outros países, especialmente os subordinados, onde a miséria absoluta e relativa ainda existe e são fundamentais para manter o já fissurado estado integracionista (bem-estar social) francês. Perder de vista a totalidade da dinâmica da luta de classes é não perceber o quadro completo das mudanças sociais daquele momento histórico, que significou a mudança do regime de acumulação da sociedade capitalista. Todo esse processo é derivado da a falta de domínio, por parte do Brinton, da teoria do modo de produção capitalista de Marx e seus elementos.

Há outras questões que poderíamos discutir aqui, mas deixaremos isso para um trabalho específico sobre o pensamento do Brinton que se encontra em preparação. De todo modo, a sua tradução é importante por: primeiro, combater determinadas interpretações ideológicas sobre o Maio de 68; segundo, contribuir com a divulgação do pensamento de Maurice Brinton e permitir que se analise o seu desenvolvimento intelectual e político; terceiro, relembrar uma das experiências mais importantes do século passado com a qual ainda temos muito a aprender. Boa leitura.

Gabriel Teles, maio de 2020.

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Maio de 68 Francês: Implicações Teóricas – Maurice Brinton

Esse panfleto[1] produzido cinco meses após os acontecimentos que descreve não é realmente uma tentativa de analisar os acontecimentos franceses de meio e junho de 1968. Neste nível – como demonstraremos –, ele resume a incapacidade teórica até mesmo dos representantes mais sofisticados da dita esquerda marxista contemporânea. O artigo de Cliff e Birchall é algo muito diferente. É um documento faccionário que busca primeiramente influenciar a discussão da “questão organizacional” que está ocorrendo agora no Socialismo Internacional entre leninistas e revolucionários libertários.

Depois de um grande terremoto, todo mundo anseia por um retorno à ordem. Os acontecimentos na França não são exceção. Hoje, a Préfecture de Police quer ordem nas ruas. O Ministro da Educação quer ordem nas universidades. A CCT e o Partido Comunista querem ordem nas fábricas. E os “revolucionários” tradicionais querem ordem… no reino das ideias.

Mas é característico de todos os acontecimentos revolucionários que todos eles não demonstrem mais respeito pelas ideias estabelecidas do que pelas instituições estabelecidas. Todas as maiores convulsões sociais na história foram muito além das expectativas até mesmo dos revolucionários mais radicais do período anterior. Levantaram novas questões, reconhecidas imediatamente ou não, produziram novas formas sociais e criaram novos problemas de teoria e prática. A Revolução Francesa de 1968 não foi uma exceção.

Durante a Comuna de 1871, os trabalhadores parisienses apresentaram as demandas por um teto salarial e em favor da eleição e revogabilidade de todos os delegados. Estas demandas não tinham – e não poderiam ter – sido previstas nos escritos de Marx. Quando os primeiros sovietes surgiram na Rússia em 1905, sua importância não foi óbvia para Lenin ou para os bolcheviques. Não os haviam previsto no programa do Partido. Mas tanto Marx como Lenin incorporariam as criações autônomas dos trabalhadores franceses e russos em seus próprios quadros teóricos. É um sintoma da degeneração da esquerda contemporânea que não tenha acontecido nada parecido – ou que isso não tenha sido percebido como necessário – em relação aos acontecimentos recentes na França.

O panfleto em análise é como uma fatia de queijo Gruyère, cheio de buracos e com uma crosta um tanto grossa e bolorenta. Não consegue reconhecer nenhum dos novos fenômenos (eles próprios novos ou novos para a teoria tradicional) presenciados este ano na França. Não consegue  compreender as enormes implicações do novo tipo de questão (“autogestão”) ao redor do qual a luta foi inicialmente travada. A questão da nacionalização, adotada por revolucionários há décadas, simplesmente não veio à cabeça de ninguém. Não vale a pena comentar isso?

As organizações tradicionais, quando confrontadas com uma onda humana desse tamanho, foram inicialmente varridas para longe. O influxo maciço nelas, profetizado por diversos revolucionários por anos, simplesmente não se materializou. Na verdade, estas conchas vazias só mantiveram alguma influência residual na medida em que pessoas tinham reservas quanto à sua própria capacidade de administrar as coisas por si próprias. Isso sequer é percebido. Ao invés disso, o panfleto eruditamente disseca as menores flutuações dos votos do CGT e do CFDT, sem enfatizar que menos de 20% dos trabalhadores franceses faziam parte de um sindicato de qualquer tipo – e sem buscar avaliar a profunda importância desse fenômeno, num momento em que dez milhões de trabalhadores estavam preparados para ocupar suas fábricas na maior greve geral da história.

O panfleto não percebe o novo peso específico que agora deve ser alocado no processo revolucionário a camadas antes marginais da sociedade, a novos estratos da classe trabalhadora ou até mesmo a novos grupos etários. Por exemplo, nunca antes na história se viu as demonstrações políticas maciças e militantes de estudantes de quinze ou dezesseis anos.

O panfleto também não reconhece a nova dinâmica através da qual a luta se desenvolveu, uma dinâmica que é ela mesma um produto da crescente burocratização de todas as instituições sociais no capitalismo moderno. Numa sociedade na qual tudo é planejado e previsto (exceto de que os manipulados deveriam irromper contra sua própria manipulação), “provocação” deliberada e sistemática – como aquela desfrutada pelo movimento de 22 de março – pode ter, e teve, repercussões profundas. Os novos revolucionários (de cujas ideias e estilo de ação sequer se suspeita como um elemento novo na situação) claramente previram as respostas burocráticas às suas novas alfinetadas, cada uma das quais logrando em intensificar o conflito na direção desejada.

Em suas conclusões, o panfleto de Cliff e Birchall não faz mais do que reiterar o que Trotsky escreveu sobre os acontecimentos na França… de junho de 1936. (As opiniões de Trotsky provavelmente já estavam desatualizadas naquela época) Ao discutir, finalmente, o que é necessário agora na Grã-Bretanha, os autores defendem um Partido Revolucionário construído nos princípios do “centralismo democrático”, princípios definidos diretamente a partir dos escritos de L. D. B. de… 1924. Parturiunt montes; nascetur ridiculus mus[2].

Os acontecimentos na França em maio e junho de 1968 tocaram o sino da morte da sociedade capitalista ocidental burocrática. Mas também anunciam o fim de todos esses grupos “revolucionários”, cujos conceitos básicos de “liderança estruturada hierarquicamente” refletem tão integralmente a sociedade em torno deles que não conseguem reconhecer que as massas mesmas já foram além destas concepções. A decomposição da política “vanguardista” será uma parte integral da decomposição do autoritarismo burguês-burocrático em geral. Quando este cão morrer, suas pulgas morrerão junto.

Para revolucionários que querem compreender eventos (e não apenas segui-los ou vivê-los como visitas do espaço), a convulsão na França tem implicações teóricas profundas. Neste artigo, só podemos formular algumas das questões mais urgentes que ninguém parece fazer, e muito menos responder.

1. O aspecto mais claro e óbvio sobre os acontecimentos na França é que um mês antes de ocorrerem, sua iminência e qualidade não estava clara e óbvia para ninguém. Por que nem o establishment francês nem os revolucionários franceses previram o que estava prestes a acontecer?

O Gaullismo estava prestes a adentrar em seu décimo ano e gozava de autoconfiança complacente. Havia “modernizado” a economia francesa, libertado a França do imbróglio argelino, se libertado do abraço americano, desenvolvido uma Bomba de Hidrogênio francesa, e até mesmo limpado as fachadas do Louvre e da Ópera Nacional. Neste período, o produto interno bruto (PIB) crescia a uma taxa média de 5% ao ano (em termos de volume, isto é, a preços constantes) e os salários reais a uma taxa parecida. De fato, durante os últimos dezoito meses, o desemprego estava crescendo ligeiramente[3], mas em geral a base econômica do regime parecia bastante estável. Nem mesmo o mais percipiente dos gaullistas poderia ter pressentido o cataclisma social que estava imediatamente à frente.

Mas isso também não tinha sido pressentido pelos revolucionários. Uma leitura do Voix Ouvrière, do Révoltes, ou do Avant-Garde nos primeiros meses de 1968 não fornece nenhum indício de consciência de que a França estava no limiar de uma convulsão importante. O conteúdo destes documentos poderia ter sido escrito em qualquer momento dos últimos dez (ou vinte ou trinta) anos. Continham as denúncias usuais da política econômica do governo, as “exposições” das “traições” do CGT e do Partido Comunista (combinada com descrições das tentativas perenemente malsucedidas da tomada de posições nestes grupos), os habituais prognósticos quanto à probabilidade da recessão no futuro mais ou menos distante (em razão das “contradições econômicas insuperáveis do capitalismo”), a denúncia costumeira do último crime da burocracia stalinista, e o epílogo ritual: a necessidade de construir o partido revolucionário de tipo leninista (do qual cada uma das tendências se via como o único núcleo historicamente pré-determinado). No começo de 1968, tudo isso estava sendo recitado como de costume, mas sem qualquer sentido especial de urgência.

Esta convergência de perspectivas entre o establishment e os “revolucionários estabelecidos” é realmente do maior interesse. Suas raízes profundas estão no fato de que ambas usavam o mesmo tipo de critério. Olhavam para a produção, o consumo, os salários e o emprego. Usavam o mesmo tipo de termômetro para avaliar a condição clínica do corpo político. Procuravam o mesmo tipo de sintomas da possível doença. Nenhuma parecia ter consciência de que novas doenças poderiam se desenvolver, com sintomas completamente novos, ou de que o próprio termômetro poderia ser agora o tipo errado de instrumento para diagnosticá-las. Compartilhavam uma visão comum da vida de lados opostos das barricadas (então em grande parte metafóricas). Marx, quando dizia que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”[4], pouco sabia o quão verdadeira esta afirmação seria um dia.

Pouco interessa aos revolucionários que a burguesia deveria ter sido incapaz de prever a crise para a qual estava caminhando. O que deveria interessar a eles, todavia, são as deficiências de sua própria filosofia, com sua afirmação corajosa de ser o meio “não só de interpretar o mundo, mas de transformá-lo”[5].

Não queremos ser mal interpretados. Nossa crítica não é de que a teoria tradicional fracassou em prever o momento exato no qual a convulsão ocorreria. Não é uma questão de cronometria revolucionária defeituosa. (Somente os deterministas mais crus tentam usar o marxismo desta maneira.) É uma questão de se categorias marxistas estabelecidas podem fornecer agora sequer uma percepção básica do tipo de convulsão que está na agenda histórica. Em relação à França, elas claramente fracassaram. Por quê? E quais são as implicações deste fracasso? O que pilotos de avião diriam de um tipo de radar que sequer suspeitava da presença na vizinhança imediata de uma montanha de 6 mil metros de altura?

2. O segundo grupo de questões resulta automaticamente do primeiro. Os critérios tradicionais (nível de emprego, nível de consumo, etc.) ainda são adequados para avaliar as tensões sociais numa sociedade determinada e, logo, a proximidade ou não de uma convulsão revolucionária? Ou precisam ser substituídas ou amplificadas por outros critérios, mais difíceis de se quantificar (sensação de alienação, de insatisfação com a natureza do trabalho ou da qualidade de vida, rejeição de valores estabelecidos, diferença entre as expectativas e a realidade, desejo de romper com a condição proletária, independentemente do nível dos salários, etc.). O principal perigo aqui é evitar uma queda no misticismo. Mas até mesmo marxistas devem admitir que o “homem não vive só de pão”…

Tanto historiadores burgueses e revolucionários viram até agora as precondições da revolução social em termos principalmente econômicos. Homens se revoltaram porque o sistema social foi incapaz de provê-los com as necessidades econômicas básicas da vida. Convulsões revolucionárias passadas tenderam a ocorrer em condições de constrição econômica, ou após guerras, ou em ambas (Paris em 1871, Rússia em 1905 e 1917, Alemanha em 1918, Hungria em 1919, a greve geral britânica em 1926, a greve geral belga em 1960-61). Esta nunca foi uma explicação completamente satisfatória das convulsões revolucionárias (Espanha em 1936 e Hungria em 1956 sempre foram notoriamente difíceis de interpretar com base nisso). Acreditamos que este tipo de interpretação provavelmente será cada vez menos satisfatório no futuro.

O Raio Francês caiu de um céu econômico bastante limpo. Os estudantes cuja luta teve um papel tão importante não estavam morrendo de fome. Mais de 90% deles eram de origens burguesas ou pequeno-burguesas. Os trabalhadores na Sud-Aviation e na Renault, que começaram as ocupações de fábrica, estavam entre os mais bem pagos no país. Os critérios “tradicionais” não ajudam a compreender a natureza real desses eventos.

Não duvidamos que aqueles que não conseguem desenvolver uma ideia própria agora dedicarão suas energias e tempo ao uso hábil do “retrospectivoscópio”. Discernirão tardiamente no padrão da luta industrial na França, durante os primeiros meses de 1968, os prenúncios óbvios do que de fato se seguiu. O panfleto em análise faz isso em certa medida. O esforço, contudo, é um tanto inútil. As horas de trabalho perdidas para greves durante 1967 e os três primeiros meses de 1968 foram certamente excedidas em muitas ocasiões durante outros períodos de três ou doze meses do reinado gaullista. A violência policial razoavelmente recente contra trabalhadores da Rhodiaceta (em Lyon), Caen e Redon teve seus antecedentes sangrentos durante a grande greve dos mineiros de 1949 e o massacre de Charonne de 1962. O nível de desemprego pode ter subido de 1,5% para 2% da força de trabalho durante os últimos meses, mas isto por si só dificilmente representa a transgressão de um ponto crítico abaixo do qual nada acontece e acima do qual tudo de repente se torna possível (níveis de desemprego são incidentalmente mais altos na Grã-Bretanha).

Deve se procurar noutro lugar o começo de uma interpretação. A “velha toupeira da história” estava se entocando lá no fundo. A sociedade burocrática havia gerado suas próprias novas tensões – algumas das quais estão claramente previstas no livro de Paul Cardan, Modern Capitalism and Revolution [Capitalismo Moderno e Revolução][6]. O abismo entre as expectativas e a realidade crescia constantemente e não só em relação ao consumo. Também crescia o abismo entre os dirigentes e os dirigidos, em todos os níveis da sociedade. As atitudes vinham mudando – até mesmo atitudes quanto à existência de 40 mil desempregados. Valores tradicionais estavam se desintegrando. Novas camadas inteiras da sociedade haviam sido proletarizadas, não segundo o modelo marxista de pauperização absoluta ou relativa, mas no sentido de uma transformação profunda da natureza de seu mundo. A crescente burocratização da sociedade em todos os níveis não só havia tornado a organização tradicional insignificante para centenas de milhares de jovens, mas também garantido que aqueles em posições de autoridade eram cada vez menos capazes de compreender e controlar uma realidade cuja natureza real lhes escapava.

É com base em considerações como esta – ainda que tênues e inadequadamente definidas no momento – que se deveria tentar uma reconstrução da teoria revolucionária. Ideias não podem permanecer estáticas enquanto a realidade muda – e uma nova realidade não pode ser compreendida sem uma revolução nas ideias. A religião pode refletir uma insegurança neurótica quando confrontada com o desconhecido. É uma forma de falsa consciência. A teoria tradicional está agora em perigo de desempenhar exatamente o mesmo papel.

Mas não há nada tão doloroso quanto uma ideia nova. Alguns negarão a necessidade de qualquer tipo de um quadro teórico ou – na melhor das hipóteses – se agarrarão a uns poucos slogans primitivos (Estado: ruim; autoatividade: bom). Outros preferirão se agarrar a um esquema que percebem como inadequado em vez de embarcarem na tarefa difícil, ainda que imperativa que agora confronta revolucionários sérios – aquela da elaboração coletiva de uma nova teoria revolucionária.

3. Por que a convulsão revolucionária começou entre os estudantes? Por que eles lutaram com tanta militância e coragem? Sua revolta foi só uma “faísca” ou um “pavio” que “fez explodir” a classe trabalhadora? Ou ela tem um significado mais profundo em seu próprio nível?

Duas atitudes parecem surgir neste assunto. Ambas são inadequadas.

Uma atitude, resumida na Black Dwarf  (e também apresentada em alguns dos escritos da SDS[7] alemã, vê os estudantes como a “nova vanguarda revolucionária”). Atribui a eles o papel atribuído ao proletariado na teoria revolucionária clássica. Avança mais ou menos explicitamente a visão de que a classe trabalhadora está se tornando ou se tornou integrada à “sociedade afluente” e que ela perdeu toda seu potencial revolucionário.

Cliff e Birchall corretamente repreendem Wright Mills e Marcuse por “negarem a potencialidade revolucionária da classe trabalhadora” e por “descreverem estudantes e intelectuais como o principal veículo para a ação revolucionária agora e no futuro”. Mas é interessante – embora pouco surpreendente – que não conseguem identificar a fonte real desta doutrina perniciosa. Em 1901, Kautsky, em seu esboço do programa do Partido Socialdemocrata Austríaco, escreveu que era “absolutamente falso” que a consciência socialista era um “resultado necessário e direto da luta de classes proletária”. “A consciência socialista moderna poderia surgir apenas com base num conhecimento científico profundo”. “O veículo da ciência não era o proletariado, mas a intelligentsia burguesa”. “A consciência é algo introduzido à luta proletária de fora”[8]. Lenin, em seu O que fazer, endossou as opiniões de Kautsky sobre esta questão descrevendo-as como “profundamente justas e importantes”[9]. A premissa ideológica de Lenin para essa conclusão foi a de que “a classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver uma consciência trade-unionista”[10]. Não é necessário muito esforço para compreender todas as práticas substitucionistas que devem fluir – e fluíram, inevitavelmente – dessa concepção. Em sua rejeição absoluta da noção de que a classe trabalhadora, através de suas próprias experiências na sociedade industrial moderna, pode, deve e acede autonomamente a uma consciência socialista, Marcuse e Lenin têm mais em comum do que os seguidores deles gostariam de acreditar.

A falácia desta primeira atitude deveria ser óbvia. Se a classe trabalhadora não pode compreender o socialismo – e querê-lo –, não pode haver perspectiva socialista. Só pode haver a substituição de uma elite dominante por outra. Independentemente de quão “iluminada” e “revolucionária” é essa nova elite, cedo ou tarde ela representará seus próprios interesses em vez daqueles da classe trabalhadora.

A segunda atitude quanto aos estudantes (compartilhada pela maioria dos marxistas “ortodoxos”) é menos ingênua, mas tão míope quanto. Vê corretamente os estudantes como uma minoria na sociedade industrial moderna, a necessidade de que a maioria se movimente para que algo fundamental aconteça e o fato de que esta maioria, nos países industriais avançados, é a classe trabalhadora. Sua inadequação é que ela não pode transcender a concepção da ação estudantil como um “catalisador”, “pavio” ou “faísca”, capaz de acender os barris de pólvora da insatisfação industrial, mas está desprovida de qualquer significado mais profundo.

Isto é subestimar a crescente importância (e crescente vulnerabilidade) atual tanto da universidade como da educação em geral. Ambas ajudam a manter a coesão social da sociedade de classes. Reforçando a autoridade patriarcal, ambas auxiliam a perpetuar (no nível ideológico) as relações predominantes de hierarquia e dominação. A longo prazo, ambas se provam como mecanismos mais eficientes para ajudar os escravos a aceitar sua escravidão do que a polícia ou a prisão. No reino das ideias, elas provém o mecanismo básico para a replicação da sociedade burguesa democrática, de seus valores e pressuposições, geração após geração. Mas os liceus e universidades da França agora estão cheios de estudantes, com cabeças cheias de pensamentos “subversivos”. As discussões por toda a noite entre jovens nas escolas e faculdades ocupadas em maio passado deixarão marcas indeléveis.

A universidade produz, em quantidade, os tecnólogos, sociólogos, psicólogos industriais, programadores de computador, gerentes, especialistas no tempo e movimento, em suma, todo a equipe administrativa da máquina industrial moderna. Na França, um número substancial de estudantes começaram a recusar o papel futuro de “cães de guarda do capital” atribuído a eles. Se esse estado de espírito durar (e particularmente se ele se espalhar para além das faculdades de sociologia, filosofia e psicologia), os efeitos podem ser profundos. Em maio, mesmo aquelas disciplinas tradicionais como medicina e Direito não estavam imunes à fermentação geral. Fechar faculdades específicas ou até mesmo universidades inteiras seria uma arma de dois gumes para as autoridades, uma admissão manifesta de fracasso, uma mutilação permanente da imagem liberal que  se esforçou tanto para proteger.

Trabalhadores em greve podem parar linhas de montagem. Mas uma implantação profunda de “subversivos” nas universidades pode perturbar a produção em massa de quadros conformistas e se provar como mais uma pedra na engrenagem da sociedade burguesa. O establishment pode tolerar os estudantes exigindo mais dinheiro para a educação superior. Ele não pode tolerar demandas de que as universidades “sejam convertidas em bases vermelhas”, ou que elas “forneçam instalações para fóruns políticos contínuos, abertos para todos”, etc. Os revolucionários na França agora veem as universidades como focos permanentes de contestação da ideologia burguesa, ferindo permanentemente o corpo da sociedade burguesa. O atraso atual do movimento estudantil na Grã-Bretanha torna difícil para nós soberbamente concebermos isto aqui, mas, no ano passado, poucos na França teriam imaginado isso possível. A teoria do “excepcionalismo” francês – baseado nessas realidades incontestáveis como a rigidez das instituições oficiais francesas, o ódio disseminado dos flics (policiais) na França e a inquestionável aptidão francesa para o pensamento revolucionário crítico – não deveria ser levada tão longe.

Estes aspectos do que os estudantes fizeram em maio de 1968 diferem daquilo que os “intelectuais” fizeram em revoluções anteriores (1871, 1917, ou até mesmo na Hungria em 1956). Então, ajudaram a articular demandas populares. Agora, ao fazer suas próprias demandas radicais, demandas que não podem ser contempladas pelo sistema, estão abrindo um segundo fronte na investida contra a sociedade burguesa. Totalmente conscientes dos perigos de estarem presos num “gueto” de políticas universitárias, os revolucionários franceses modernos também rejeitam a falsa alternativa de lutarem por demandas puramente estudantis ou imersão total e exclusiva na luta da classe trabalhadora. Este novo tipo de consciência sequer é sugerido no panfleto de Cliff e Birchall.

A totalidade da rejeição estudantil à sociedade burguesa explica a totalidade de sua dedicação à causa revolucionária e a totalidade de seu envolvimento na luta nas ruas. Não era produto de miséria econômica. Refletia algo mais fundamental. O direito dos estudantes de serem eles mesmos estava sendo negado – e eles tinham tomado consciência deste fato. Não estavam arriscando a perda da visão e de seus membros (em meio as bombas de gás e aos cassetetes da CRS) por um aumento anual de 3% ao orçamento da educação. Estavam lutando pelo direito de reapropriar aquilo que a sociedade burguesa tirava deles. Quando esta consciência adormecida for despertada em outras camadas da população, o efeito será irresistível. Esta é a lição e a esperança reais dos eventos de maio de 1968 na França.


[1] Tony Cliff & Ian Birchall, France: The Struggle Goes On, London: Socialist Review Publishing Co.

[2] Parirão montanhas, nascerá um ridículo ratinho. [Nota do tradutor]

[3] Segundo as estatísticas oficiais, cresceu de 240 mil para 280 mil. Elas podem não ser confiáveis por uma série de motivos, mas mesmo que os números aumentem em 50%, isto ainda representa apenas em torno de 2% da força de trabalho. Esse crescimento no desemprego, que afeta principalmente pessoas jovens, não é “cíclico” nem “tecnológico”, mas “demográfico”. Está relacionado ao repentino aumento nos nascimentos nos anos seguintes à guerra (1945-50). A “sobrelotação” nas universidades se deve parcialmente a isso. Se as autoridades deveriam ter escolhido lidar com esse “inchaço” em vez de expandir a produção ou aumentar o número de salas de aula é outra questão.

[4] A Ideologia Alemã, Boitempo, p. 47.

[5] Brinton parafraseia a famosa tese 11 d’A Ideologia Alemã, p. 535, “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

[6] Este livro é essencial para uma compreensão de nossa época.

[7] Sozialistischer Deutscher Studentenbund [Federação Socialista Alemã de Estudantes].

[8] Neue Zeit, XX, 1901-02, I, nº 3, p. 79.

[9] Lenin, O que fazer?, tradução retirada da edição disponível no www.marxists.org.

[10] Ibid.

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