Abolir a Polícia? – Tristan Leoni

[Nota do Crítica Desapiedada]: Apresentaremos ao leitor do Portal uma breve nota biográfica de Tristan Leoni, juntamente ao seu primeiro artigo traduzido para o português.
Na contracapa do livro de Leoni sobre o Irã está escrito: “Nascido nos anos 1970, Tristan Leoni participa, a partir dos anos 2000, de diversas publicações anarquistas ou comunistas, com vários pseudônimos. Desde 2014, é um dos organizadores do blog DDT21, escrevendo principalmente sobre a revolução, o Oriente Médio ou sobre questões de defesa. Em 2018, publicou “Manu Militari”, uma obra crítica sobre o exército francês.”
Poderíamos acrescentar, a partir de correspondências via e-mail com o autor, que Leoni veio de uma família de proletários (na verdade, de operários e camponeses). Ele começou os estudos formais e interrompeu porque não queria se tornar professor nem universitário. Por isso, Leoni trabalha hoje em dia como técnico de iluminação na área de entretenimento. Nas palavras do autor, a sua “politização” ocorreu tardiamente: por meio das greves de 1995 na França, contatos com grupos radicais e leituras. No início, sua militância aproximou-se do anarquismo, depois ele acabou descobrindo os situacionistas e os escritos marxistas da “ultraesquerda”, e, hoje em dia, frequenta com maior regularidade o meio que reflete sobre a questão da comunização, o que é o caso do blog DDT21.
O leitor do Portal poderá encontrar todos os artigos de Tristan Leoni no blog DDT21. Seus três principais livros escritos até o momento são:
“Kalifat und Barbarei: Wie funktioniert der Islamische Staat?”, editora Bahoe books, 2016 (Trata-se da tradução em alemão da série de artigos que Leoni escreveu sobre o Estado Islâmico);
“Manu militari? Radiographie critique de l’armée”[1], editora Le Monde à l’envers, 2018. (Sobre o exército francês e o antimilitarismo hoje);
“La Révolution iranienne. Notes sur l’islam, les femmes et le prolétariat”[2], editora Entremonde, 2019. (Sobre a revolução de 1979).
Boa leitura.
Obs.: O ensaio em pdf pode ser acessado em: Abolir a Polícia? (Tristan Leoni).


[1] N.T.: “Manu Militari? Radiografia crítica do exército”.
[2] N.T.: “A Revolução Iraniana. Notas sobre o islã, as mulheres e o proletariado”.


Abolir a Polícia?

Como resultado dos motins generalizados, aconteceu mais em uma semana para desacreditar e limitar o poder da polícia do que em muitas décadas de ativismo.”
Shemon e Arturo, junho 2020[1]

A morte de George Floyd em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020 disparou explosões de violência por todo o país que inicialmente tomaram a forma de ataques à polícia e às delegacias, incêndios, motins noturnos e saques a lojas. Para os manifestantes – principalmente proletários de diversas cores de pele advindos de bairros urbanos pobres – a violência policial e racismo pareciam oferecer um pretexto para expressar um tipo mais profundo de raiva. Vale mencionar que certas lojas foram alvos independentemente da cor de seus proprietários. A repressão por parte da polícia e dos tribunais foi, entretanto, severa e eficaz. Após alguns dias, a revolta gradualmente tomou o sentido de um segundo tipo de mobilização, envolvendo principalmente manifestantes de classe média, negros e brancos, liderados por um vasto número de ativistas de organizações de esquerda e extrema-esquerda e associações cívicas, que frequentemente se identificavam, mais ou menos explicitamente com o movimento Black Lives Matter (BLM[2], em português Vidas Negras Importam). Os modos de ação mudaram: manifestações diurnas, derrubadas de estátuas, tentativas de ocupar espaços públicos (ao estilo dos movimentos Occupy e Nuit Debout) e não-violência foram largamente adotadas como bandeiras[3]. Indubitavelmente a polícia foi apontada como a inimiga – e o racismo como seu principal vetor. 

REFORMAR…

Todos parecem concordar, até mesmo policiais brancos mostraram-se unidos com manifestantes negros para denunciar o racismo, a violência e o ódio… Mas isso não é o suficiente. A polícia americana, uma das mais violentas do mundo, em um país igualmente violento, ainda está muito aberta à crítica. Porque nada – seja treinamento preventivo antidiscriminação, yoga ou o aumento da contratação de minorias – surtiu efeito. Apesar de ter tentado tudo, o departamento de polícia de Minneapolis, por exemplo, continua a matar muitos negros, quase exclusivamente pobres.

Com o movimento de 2020, a demanda por novas reformas para erradicar o racismo, o sexismo ou a discriminação LGBTQI+ entre os policiais tornou-se em algumas semanas um padrão para militantes, políticos democratas (e alguns republicanos), líderes religiosos, grandes empresas, manifestantes, artistas, a mídia ou até mesmo o candidato democrata à presidência, Joe Biden, que se ajoelhou em várias ocasiões para sinalizar sua adesão a este programa. Mas nada permite dizer que a maioria da população estadunidense americana esteja convencida. As redes sociais estão cheias de iniciativas como a campanha 8 Can’t Wait, que propõe oito medidas urgentes para diminuir a violência policial em 72% (proibição de certas práticas policiais, treinamento em técnicas atenuantes, endurecimento dos procedimentos disciplinares internos, câmeras corporais etc.).

…OU ABOLIR A POLÍCIA?

Ainda assim, tais medidas estão longe de ser suficientes para alguns militantes, como os de extrema esquerda, que não exigem nada menos que a “abolição da polícia” (abolish the police). Um grupo que se apresenta como um dos mais radicais, composto por feministas negras abolicionistas, e que lançou a campanha #8toaboliton (oito reivindicações para abolir a polícia) e explicou sua crença “em um mundo onde não há assassinatos policiais porque não há polícia”. Simples assim! A ideia de abolição da polícia, restrito a alguns pequenos círculos acadêmicos e militantes no início dos anos 2000 (ligados à denúncia do sistema penal e especificamente do complexo penitenciário-industrial americano), se popularizou amplamente após a morte de George Floyd, mas logo se transformou em um slogan aparentemente menos radical, Defund the police (“desfinanciar a polícia”). A mudança provavelmente ocorreu em junho, com uma informação que, à primeira vista, pareceu estonteante: os membros do conselho municipal de Minneapolis (uma cidade de 500.000 habitantes, ou seja, o equivalente de Lyon) votaram pela dissolução do departamento de polícia da cidade[4]! Outras tentaram seguir timidamente o exemplo, entre elas a prefeita afro-americana e democrata de São Francisco que anunciou que uma parte do orçamento do departamento de polícia seria redirecionado para a “comunidade negra” da cidade (“comunidade” que tem encolhido ao longo dos anos devido a uma gentrificação particularmente feroz).

Uma frase muito em voga nas redes sociais, na mídia e em cartazes, “desfinanciar a polícia”, tem a vantagem de reconhecimento por um amplo espectro de militantes que vão desde feministas militantes queer abolicionistas afro-americanas (do sistema penal) até líderes do partido democrata. Para uma das co-fundadoras do BLM, Alicia Garza, o slogan significa “rever as prioridades”da sociedade; para outros, é um passo em direção ao conceito bastante difuso de revolução, sinônimo para eles de progresso em direção a uma sociedade diferente. Mas a vantagem do termo desfinancialização é também seu caráter mais tranquilizador do que o termo abolir.

PARA COMUNIDADES MAIS FORTES

De fato, a ideia de acabar com a polícia é geralmente apresentada como um projeto muito concreto, embora longo e complexo. Os militantes, incluindo os mais radicais, geralmente tentam tranquilizar e explicar que isto de forma alguma implica no fechamento imediato de delegacias ou na demissão abrupta dos funcionários, mas sim na implementação gradual de medidas que visam “reduzir a escala, escopo, o poder, a autoridade e a legitimidade das instituições criminalizadoras” (#8toabolition). A campanha é muitas vezes resumida em três palavras de ordem: desempoderar, desarmar, desmantelar, ou seja “enfraquecer”, “desarmar” e “dissolver”. Trata-se de desempoderamento, “a perda de poder, de força”, que tem ela mesmo duas dimensões:

Em primeiro lugar, o enfraquecimento da polícia através de uma série de ações e medidas; as propostas são múltiplas: oposição à construção de novas delegacias e à contratação de mais policiais, fazer pressão sobre as federações sindicais para que desfiliem os sindicatos policiais, exclusão das associações de policiais LGBT do Orgulho Gay, etc. Isso passa também por uma redução do escopo da ação policial proibindo, por exemplo, a sua presença em escolas e universidades ou removendo de sua competência a gestão de emergências ou resultantes do abuso de substâncias[5]. Limitar os pontos de contato entre a população e a polícia reduz o risco de violência policial.

Porém, ao mesmo tempo é uma questão de construir relações sociais alternativas que permitam que as pessoas vivam sem a polícia. Uma estratégia gradual combinada com o estabelecimento de “comunidades mais fortes“, notadamente pela criação de “condições que façam com que as pessoas não precisarem chamar a polícia porque as razões pelas quais elas geralmente utilizam a polícia para sua segurança podem ser tratadas em uma estrutura comunitária com laços sociais extremamente fortes, pessoas que cuidam umas das outras e cuidam da segurança umas das outras, etc.[6]” Não faltam ideias e projetos: construir redes de solidariedade e ajuda mútua, aprender os nomes dos vizinhos, criar associações locais, de bairro ou de pais de estudantes, grupos de discussão, “círculos da paz”, “alternativas ativas”, linhas telefônicas para emergências psiquiátricas ou de dependentes, distribuir alimentos nas ruas, organizar atividades com os jovens, formar a população na resolução não-violenta de conflitos, orientar jovens infratores ou ex-presidiários a fim de evitar reincidência, etc. Em resumo, criar laços sociais, promover a “convivência” onde, durante décadas, o capitalismo destruiu todos os laços preexistentes (o que quer que se pense deles), deixando apenas massas de indivíduos urbanos isolados que sobrevivem unicamente graças a seus smartphones, aos auxílios das autoridades públicas e às drogas (álcool, maconha, antidepressivos e ansiolíticos, etc.).

Este vasto programa poderá ser implementado, segundo os militantes, através de reajustes orçamentários muito razoáveis para alcançar um equilíbrio mais equitativo do mais-valor social global coletado através dos impostos: uma transferência gradual do orçamento da polícia para aquele dos serviços sociais (saúde, educação, transporte, habitação etc.), o que deveria, mecanicamente, provocar uma redução da pobreza (ou pelo menos sua melhor aceitação) e, portanto, mecanicamente, uma redução da criminalidade. O orçamento da polícia de Nova York, por exemplo, é de 6 bilhões de dólares (ou seja, 5,3 bilhões de euros!), imagine quantos projetos comunitários poderiam ser financiados, quantos assistentes sociais poderiam ser contratados com até a metade dessa quantia!

Vale a pena ressaltar que os grupos políticos mais radicais associam o da polícia a outras exigências, como a libertação em massa de prisioneiros, a revogação de decretos e leis que penalizam ou criminalizam diversas atividades, como a prostituição, o uso e o tráfico de drogas, a ocupação de casas vagas para abrigar desabrigados, a gratuidade do transporte público ou a devolução às comunidades indígenas de “sua terra”.

UM CONTROLE SOCIAL ALTERNATIVO É POSSÍVEL

Isto resolve a questão específica da segurança? A resposta é sim para os abolicionistas estadunidenses, que consideram que é exatamente a presença da polícia o que gera insegurança. Paradoxalmente, um dos argumentos levantados nos debates é que a polícia, ao criar distúrbios, não garante suficientemente a segurança da população, que ela não é eficaz. Aliás, todos parecem concordar que, após a abolição da polícia, ainda haverá conflitos a serem resolvidos, mesmo se o trabalho das associações para estabelecer a “convivência” limite sua frequência. Assim seja. Um acadêmico que promove essas teorias na França explica de fato que o trabalho policial não é “a única maneira de garantir a segurança da população” e que, efetivamente, o movimento abolicionista permite “repensar radicalmente os métodos de controle social [7]. Isto envolveria, nesta visão, o investimento em abordagens coletivas de segurança pública, incluindo “programas não carcerários de prevenção e intervenção em questões de violência e formação baseada em habilidades, na intervenção de espectadores, no consentimento e nos limites, e em relacionamentos saudáveis” (#8toabolition). Ideias que, como vimos, só serão aplicadas progressivamente, a população deve, num primeiro momento, aprender a não chamar mais a polícia para “conflitos menores”, tais como disputas de vizinhança (#8toabolition)…, mas somente para questões graves e sérias! No entanto, compreensivelmente, isto exigirá um importante trabalho de formação junto da população, especialmente no que diz respeito à gestão comunitária de conflitos interpessoais e violência (voltaremos a este ponto mais tarde). Os assistentes sociais e as organizações voluntárias terão muito trabalho pela frente.

Uma pedra no caminho potencialmente geradora de tensões poderia muito bem ser a propriedade privada, cuja proteção é a função primária da polícia. Por exemplo, como será tratado o roubo? A vigilância cidadã complicará as coisas para os proletários passarem manteiga (e salmão orgânico) em seus espinafres[8], ao encher suas sacolas quando o lojista lhes virar as costas?? As regras e práticas de segurança e justiça serão administradas pelos moradores de cada bairro, de acordo com as características específicas de cada um destes (subdivisões residenciais, zonas comerciais ou bairros pobres)? Ou estas responsabilidades serão harmonizadas por regras comuns municipais ou estatais?

Para resolver tais questões, os abolicionistas propõem a substituição do sistema de justiça penal estatal por uma justiça alternativa: uma justiça social e métodos não-carcerários, talvez não-punitivos de resolução de conflitos baseados em um ideal de participação, reparação e emancipação dos indivíduos com o objetivo de reparar os “danos” causados à “vítima”, bem como, em última instância, reinserir o “perpetrador” na sociedade. A esse respeito, enquanto uma janela quebrada por uma criança que joga uma pedra não parece ser, a priori, um problema muito sensível ou complexo, o mesmo não se pode dizer da violência sexual, que muito rapidamente se torna um assunto candente em tais discussões (e nada indica que desaparecerá automaticamente com o desmantelamento da polícia). Sabe-se que na França, a relação com a justiça (“patriarcal” e/ou “burguesa”) divide as feministas desde pelo menos os anos 70[9], quando o MLF[10] fez campanha para que estupradores fossem julgados por um “júri popular” em vez de um tribunal penal comum. Devemos denunciar o fato de a polícia e o sistema judicial por não serem suficientemente escrupulosos e eficazes? Em outras palavras, por não serem suficientemente repressivos? É lamentável que os infratores não sejam todos jogados na prisão? Ou que eles o sejam muito frequentemente?[11] Devemos encontrar outras soluções? São necessários esforços pedagógicos? Encorajar as mulheres a se auto-organizarem e praticarem esportes de combate? Tentar fazer justiça com as próprias mãos? Apostar na construção de redes de apoio mútuo?

Muitas iniciativas diferentes de apoio às “vítimas”, a maioria delas feministas, coexistem hoje (na França), incluindo centrais de atendimento, grupos, associações, oficinas, coletivos informais, etc.; ainda que essenciais, por definição, só tratam as consequências… um trabalho sem fim enquanto a causa persistir, neste caso, a dominação masculina. Ainda assim, pode haver uma solução satisfatória em nossa sociedade? Alguns abolicionistas parecem pensar assim e, portanto, procuram estendê-las a todos os lugares e, eventualmente, estruturá-las no quadro modo de justiça alternativo… financiado pelo poder público. Isto pode ser tecnicamente possível. Desde 2014, o Ministério da Justiça francês vem conduzindo uma experiência de “justiça restaurativa”, que se concentra na “vítima” e visando sua “recuperação emocional e física”, e inclui eventualmente a participação do agressor infrator pode ser chamado a participar; um dispositivo semelhante está sendo testado para a gestão da violência nas escolas. É possível ver, portanto, que alternativa não é, necessariamente, sinônimo de subversivo.

Como no caso da energia nuclear, há defensores do fim imediato da atividade policial; recusando-se a negociar com o Estado, eles se envolvem em ação direta ilegal e insurrecional; eles são, no entanto, uma minoria minúscula. A maioria das pessoas do movimento abolicionista (incluindo os radicais) não vê o fim imediato da polícia nem como desejável nem tecnicamente realista, mas defende, como alguns ecologistas contra o monstro nuclear, um fim gradual a fim de preparar os espíritos e as populações – quem sabe quantas décadas isso vai levar? Um programa apresentado como sério e realista, mas que tem o inconveniente de insinuar que a polícia, apesar das múltiplas deficiências, tem alguma utilidade social hoje… Mas qual? Que tarefa a população não seria ela mesma capaz de assumir? Que tarefa seria tão importante para aceitarmos manter por mais um tempinho a polícia, uma instituição que tem sido criticada por ser estruturalmente racista e violenta? Que mistério…

AMÉRICA DESCONCERTANTE

A popularidade da palavra de ordem “Desfinanciar a polícia”, embora possivelmente desconcertante para os observadores europeus, é menos para os americanos.

Em primeiro lugar, as forças policiais nos EUA são muito diferentes das forças policiais francesas, muito mais violentas[12] e racistas, como a sociedade em que atuam. Ao lado dessa instituição, um sistema de justiça criminal particularmente severo produz a taxa mais elevada de encarceramentos do mundo: os 2,3 milhões de pessoas atrás das grades nos Estados Unidos representam um quarto da população carcerária global[13]. Os programas de assistência social criados desde os anos 70 por Lyndon B. Johnson (destinados a acabar com os distúrbios nas favelas negras) foram “desfinanciados” para aumentar os orçamentos policiais, que explodiram nos últimos trinta anos. Os Estados Unidos hoje gastam coletivamente mais de 100 bilhões de dólares (88 bilhões de euros) por ano para a manutenção da ordem. Um bom número de representantes eleitos e outros membros da classe dominante provavelmente consideram o projeto de lei muito abrupto e que o dinheiro hoje poderia ser utilizado de forma mais judiciosa, apesar de este montante não ameaçar a economia americana, pelo contrário.

Além disso, a ideia de abolir a polícia não é tão surpreendente em um país onde, historicamente, o conceito de liberdade pessoal tem um status quase sagrado e a tutela do Estado (especialmente federal) é limitada e frequentemente vista com desconfiança por grandes setores da sociedade, como se ocorresse um leve desvio do acordo originalmente alcançado entre a cidadania e o Estado, a segurança em troca de obediência. Daí a importância cultural do armamento dos cidadãos, o que é ridicularizado na França – ah, aqueles rednecks idiotas! –, embora historicamente este direito inalienável tenha sido inscrito na Constituição para impedir a instauração de uma ditadura… Emmanuel Todd não chegou a dizer, com um toque de humor, que “um golpe de Estado não é possível nos Estados Unidos, porque a população está armada”. Mais de 300 milhões de armas de fogo estão em circulação nos Estados Unidos e 43% dos civis possuem uma arma (em 2018). A autodefesa não só é uma cultura enraizada no passado do país, mas também é uma prática extremamente difundida, sujeita a uma regulamentação às vezes muito branda (em alguns estados)[14]; estas armas de fogo são frequentemente usadas contra ladrões e assaltantes, cujo efeito dissuasivo explica a taxa relativamente baixa de roubos (assim como o grande número de homens violentos mortos a tiros por seus cônjuges). Assim que os primeiros tumultos eclodiram em maio de 2020 e a polícia pareceu estar sobrecarregada, houve casos de moradores que se auto-organizaram quase que rotineiramente para proteger sua vizinhança, de lojistas se agrupando em milícias, geralmente pela cor da pele – brancos, latinos, asiáticos ou negros – para proteger suas respectivas lojas dos saqueadores. – todos, é claro, evidentemente equipados com fuzis de assalto; seria esta uma forma embrionária de gestão de segurança coletiva? Outra estranha manifestação desta relação com o gun power [poder das armas], ainda mais surpreendente para os franceses, que a descobriram recentemente, é sem dúvida o Boogaloo: um movimento exótico com uma estética improvável que defende o direito de portar armas e advoga em favor da resistência ao Estado policial e ao qual alguns dos membros, embora considerados de extrema-direita, se juntaram às fileiras das manifestações do BLM… O escárnio para quando a gente constata que, em certos estados, os militantes de extrema-esquerda ou anarquistas têm, eles também, o direito de desfilar na rua com armas de guerra; o que basta para que mais do que algumas pessoas fantasiaram com isso deste lado do Atlântico.

A COMMUNITY ORGANIZING [ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIA], UMA DIGRESSÃO?

Já vimos que o projeto de abolição da polícia deve, de acordo com seus defensores, ser implantado gradualmente. Vários acadêmicos e militantes (pertencentes mais ou menos à classe média) reconhecem que a população (ou seja, principalmente o proletariado) atualmente não está pronta para viver sem a polícia e que um importante trabalho de educação com esta população é necessário a fim de prepará-la. Eles só raramente entram em detalhes, mas o essencial é que isso exigiria inúmeras ONGs, nas quais, naturalmente, militantes e acadêmicos participaram (como líderes, treinadores, palestrantes, etc.) para ajudar os proletários a se auto-organizarem em bases sólidas (com a ajuda da conscientização sobre questões como intolerância, racismo, sexismo, LGBTQI+fobia ou ecologia), tudo com o apoio e suporte financeiro dos poderes públicos. No final, isto se resume a exigir que o Estado ponha em prática medidas para que os cidadãos, anteriormente submissos e resignados, se transformem em defensores libertários de esquerda da autogestão na vida cotidiana. Devíamos ter pensado nisso antes!

Nos parece que essa criação de novas sociabilidades nos bairros, caso venha a ser realizada, não sem invocar (ou não será sem) o trabalho da organização comunitária (OC), ainda relativamente desconhecido na França que pode ser traduzido como “organização cidadã” ou “cívica”.[15] As bases da OC remontam aos anos 30 com os trabalhos e teorias do sociólogo Saul Alinsky (1909-1972), mas ela se desenvolveu consideravelmente nos Estados Unidos nos últimos vinte anos, refletindo-se beneficiando do descontentamento com partidos políticos e sindicatos[16]. A OC é antes de tudo um modelo de militância à qual se referem certas associações; no espírito, ela visa as populações geralmente esquecidas pelas organizações de esquerda tradicionais, as minorias; visa, em particular, encorajar a auto-organização dos habitantes dos bairros populares e a constituição de contrapoderes locais a fim de melhorar a vida cotidiana. Aqui, não há nada muito comum para quem está familiarizado com instituições de caridade ou associações de cidadãos francesas… Nada senão algumas grandes diferenças.

Primeiro, a OC é um conceito bastante avançado, pois depende de militantes profissionais remunerados, os chamados organizadores (como Barack Obama em Chicago nos anos 80). Estes últimos aplicam técnicas de militância comprovadas altamente racionalizadas (por exemplo, a prospecção porta-a-porta e entrevistas pessoais) que, desde 2008, foram objetos de programas de graduação especializados disponíveis em certas universidades americanas. Internamente, a OC opera quase como uma empresa convencional e tem a reputação de adotar uma abordagem gerencial da militância. Diariamente, os organizadores estão no campo e realizam um duro trabalho para “mobilizar” os residentes do bairro selecionados pela organização. Contudo, embora o suposto objetivo seja ajudar esses moradores a tomar seus assuntos em suas próprias mãos, um dos princípios por trás da OC é, na realidade, identificar aqueles entre eles que provavelmente se tornarão líderes influentes, priorizar seu recrutamento e, então, treiná-los para este fim.

A segunda particularidade é aquela do financiamento. No início dos anos 80, o desmembramento do Estado de bem-estar social dos Estados Unidos levou à privatização de certos setores  que beneficiam uma miríade de associações (assistência médica, assistência alimentar, apoio escolar, etc.), e a OC começou a crescer à margem desse sistema. Enquanto isso, fortalecidas por incentivos fiscais, as fundações privadas de caridade fizeram rápidos progressos, servindo como ferramentas de poder suave para as grandes corporações e os bilionários; ao financiar as organizações OC, eles lhes ofereceram uma independência frente às autoridades públicas, que podem então ser criticadas com menos risco – as organizações sem fins lucrativos geralmente tentam obter os financiamentos de várias fundações para conquistar sua total independência[17]. Diante de críticas frequentes, certos dirigentes da OC assumem plenamente e não hesitam em proclamar que “the revolution will be funded”[a revolução será financiada].

Uma terceira diferença com as empresas francesas sem fins lucrativos é que a OC é eficaz. Primeiro, porque seus militantes vivem em tempo integral nos bairros e são demitidos se não atingirem seus objetivos. Segundo, porque os organizadores, familiarizados com a vida e os problemas do dia a dia dos moradores selecionados, mudam através de expressões locais de raiva ou fúria para encontrar aqueles que possam levar a uma campanha que valha a pena e, possivelmente, a uma vitória. Em algum lugar entre o lobby e o sindicalismo de bairro, a OC depende para atingir seus objetivos de manifestações convencionais, ação direta não violenta, democracia direta ou referendos de iniciativa cidadã; as diferentes organizações sem fins lucrativos (inquilinos de um determinado bairro ou usuários de tal transporte público), que muitas vezes se agrupam em federações, também podem formar coalizões no nível de um estado para ter mais peso e propor referendos – às vezes em conjunto com sindicatos ou igrejas – a fim de avançar demandas específicas. O objetivo geralmente é pressionar as autoridades governamentais a financiar ou melhorar programas em áreas como saúde, educação, moradia, etc., e a OC tem uma reputação de pragmatismo: visam vitórias locais, em pequena escala e parciais e, de fato, as alcança… no limite do razoável, uma vez que este modelo tem mais a ver com pacificação social do que com incentivo ao conflito (para manter os doadores felizes)[18]. Embora as técnicas da OC possam ser aplicadas em muitos campos diferentes, como a ecologia, a ambição é definitivamente a participação cidadã no processo democrático. Nós veremos mais tarde que, há alguns anos, algumas pessoas tentam importar este tipo de militância para a França; estes promotores insistem muito, a gente entende, nesta terceira diferença, e insistem menos nas duas primeiras.

EM BUSCA DE INSPIRAÇÃO

Não será na história do movimento operário nem nos episódios revolucionários do século XX que os militantes abolicionistas e acadêmicos americanos se basearão para retirar referências e experiências para um mundo sem polícia e, se o fizerem, nem sempre encontrarão exemplos muito atraentes[19]. O próprio Engels não escreveu sobre o que ele chamou de lumpemproletariado: “Quando os operários franceses escreveram nas casas durante as revoluções [de 1848] ‘Morte aos ladrões!’ e até atiraram em alguns deles, eles o fizeram não por entusiasmo pela propriedade, mas porque consideraram, com razão, que era necessário segurar essa faixa à distância de um braço.[20]

Em vez disso, eles encontram exemplos principalmente entre os povos indígenas, em sua história e suas tradições, mas também entre o que aparentemente subsiste de organizações pré-capitalistas do tipo comunitário em alguns poucos territórios: este é particularmente o caso em vários estados mexicanos, como Chiapas ou Guerrero, onde estão em funcionamento milícias de autodefesa, forças policiais e justiças comunitárias[21]. As zonas ideias para sucumbir às sirenes do exotismo e da idealização. Os mais autoritários e vanguardistas entram em êxtase sobre Rojava e sua famosa academia de polícia, responsável pelo treinamento de toda a população, para que uma força especializada não seja mais necessária no futuro… apesar de certas unidades estarem sendo treinadas pela SWAT estadunidense para a “luta antiterrorista” e outras estarem caçando adolescentes que fogem do serviço militar obrigatório.

A gente pode descobrir óbvio e transformá-lo num conceito, como com uma das experiências humanas mais antigas: quando surge um grave perigo, uma ameaça externa ao grupo, seres humanos indefesos se organizam coletivamente e, às vezes, até portam armas. Além disso, o Estado estiver ausente por um período prolongado, eles são forçados a estabelecer algum tipo de justiça para resolver seus conflitos: “o que fazer com este homem que tentou roubar nossa vaca?”… Durante a guerra na Síria, a polícia e a justiça foram as duas primeiras instituições a serem recriadas pelos residentes nas cidades “rebeldes”, onde Damasco não mais exercia sua autoridade. Hoje, na verdade, os residentes de um bairro, cidade ou região se auto-organizam mais frequentemente porque não têm outra escolha senão compensar as falhas do Estado. Ainda assim, é preciso dizer que as experiências mais notáveis geralmente são encontradas em áreas situadas nas margens do modo de produção capitalista (embora nunca completamente desconectadas) e, por várias razões, negligenciadas pelo governo central. Atualmente, no entanto, a maioria da população vive no coração das zonas de acumulação capitalista, absorvida por relações sociais capitalistas que não podem ser mudadas apenas por uma simples boa vontade. Essas experiências podem fornecer pistas para imaginar outras formas de organização (neste caso de justiça), mas elas claramente não fornecem um manual de instruções que pode ser usado hoje ou amanhã. Além disso, não se pode dizer que a maneira com que nos auto-organizamos para sobreviver no mundo de hoje prefigura os modos de funcionamento de uma sociedade futura, livre do capitalismo.

Nos movimentos sociais, a questão da segurança ou autodefesa sempre foi levantada e muitas vezes resolvida com a criação de uma equipe de administradores; embora evitemos hoje o termo em manifestações ou ocupações como as ZADs [Zones à Defendre] na França, a realidade dum grupo de especialistas que garante a proteção (de manifestantes e/ou vitrines de lojas) está frequentemente presente. A constituição de tal grupo pode ser feita coletivamente numa assembleia geral ou pode ser assumida naturalmente pelo grupo político mais poderoso, como foi o caso da ZAD em Notre-Dame-des-Landes. A fantasia da “autodefesa popular” que deve servir como modelo pode, na França, enganar os filósofos, nosso que dizer dos Estados Unidos, onde as pessoas têm o direito de portar armas nas ruas? Em junho de 2020, por exemplo, os ocupantes da zona autônoma de Seattle (Capitol Hill Autonomous Zone) chegaram a um acordo com a cidade para que a polícia não interviesse na área; um grupo de voluntários foi então colocado a cargo da segurança, com ênfase em estratégias de atenuação e prevenção, enquanto grupos antifascistas armados com fuzis de assalto trataram da proteção contra eventuais ataques externos (mas e as lojas do bairro?). Os ocupantes se inspiraram na organização da Praça Tahrir de Bagdá em 2019, que por sua vez pode ter se moldado no Occupy de 2011?

Há muitas experiências em todo o mundo de auto-organização e autodefesa das pessoas, mas nem todas elas são exemplos úteis a serem exibidos em uma manifestação abolicionista. A forma nem sempre garante um conteúdo livre de exação, autoritarismo, sexismo ou racismo, o que se torna difícil de descrever como “estrutural”. A França, por exemplo, viveu recentemente greves gerais e movimentos sociais muito poderosos, nos quais os proletários implementaram vigorosamente a auto-organização e a autodefesa popular… mas contra pequenos infratores e migrantes. Foi, como lembrança, em 2017 na Guiana – quem esqueceu o grupo muito viril dos 500 Irmãos?[22] – e em 2018, em Mayotte

Durante grandes épocas revolucionárias no passado, as questões de segurança e justiça – ou qualquer que seja seu nome – sempre foram particularmente complexas de se entender, como continuarão a ser no futuro, se houver uma revolução global. Para as pessoas que têm que enfrentá-las, a tarefa não será fácil. Ela exigirá muita imaginação e esforço, mas um mundo livre do Estado, do dinheiro, do trabalho assalariado, da propriedade, do valor, das classes, do gênero e assim por diante (isto é, o que poderia se designado como uma sociedade comunista) proporcionará um quadro muito mais favorável para a resolução de conflitos do que aquele que temos hoje[23]. Tentar se preparar para isso agora é, sem dúvida, bastante ilusório. Em todo caso, o choque será brutal e os mecanismos de controle social alternativos, e, portanto, paraestatais, serão, como os outros, derrubados pela insurreição proletária que os considerará, justificadamente, obstáculos.

IMPORTADO PARA A FRANÇA?

Por uma variedade de razões, as fundações beneficentes americanas começaram a se interessar por organizações sem fins lucrativos nos subúrbios franceses desde os tumultos ocorridos lá em 2005, e forneceram financiamento a algumas, ao passo que outras, localmente, procuraram adaptar as técnicas militantes de organização comunitária. Muitos jovens militantes foram convidados a ir aos Estados Unidos para estudar a OC em primeira mão e fazer treinamento, enquanto na França, publicações periódicas científicas e simpósios se perguntavam se um transplante poderia ser realizado, o que geraria um mercado lucrativo[24]. No entanto, atualmente, o que falta é de dinheiro, já que as fundações francesas não são tão ricas nem tão generosas quanto suas congêneres americanas. Na França, as organizações sem fins lucrativos dependem ainda de subsídios das autoridades locais e estão frequentemente integradas à mecânica clientelista local, embora tenham um papel fundamental a desempenhar: desde os motins de 2005, os assistentes sociais e as organizações “big brother” têm ajudado muito a manter a paz social em alguns dos chamados bairros proletários (aqueles onde vivem muitos proletários de origem não europeia), onde são um complemento particularmente eficaz ou um substituto à polícia local, e até mesmo para as CRS (Companhias Republicanas de Segurança)[25].

Alguns na França aproveitaram a oportunidade das manifestações do BLM em 2020 para tentar importar, como inovações, novos modelos, slogans e conceitos americanos, aqui o “Desfinanciar a polícia”, cujos militantes usam constantemente a palavra community. Nos EUA, a palavra geralmente tem em primeiro lugar um significado geográfica – que frequentemente, mas não sistematicamente, se sobrepõe a uma dimensão “racial” e também se refere historicamente às paróquias que estruturam historicamente a vida local –, mas  seus propagandistas franceses às vezes traduzem-na preguiçosamente como “communauté” ou “communautaire”. Contudo, expressões como “organisation comunautaire” [organização comunitária], “justice communautaire” [justiça comunitária] ou a necessidade “communautés plus fortes” [comunidades mais fortes] não tem o mesmo significado na França[26]… Elas denotam outras ideias e outras fraudes políticas. Quais são as comunidades com as quais os sociólogos e filósofos sonham? E com que tipo de organização? Por cidade ou por bairro? Por grupo “racial”, étnico ou religioso? Na França, a importação do programa “Desfinanciar a polícia” – defasada das realidades locais do país –aumentaria ainda mais do que nos EUA uma desculpa militante para uma mobilização ligada a questões de “raças” ou “comunidades”, ou seja, em última instância e teoria à parte, tendendo para uma abordagem etno-diferencialista da sociedade.

Nestes tempos de “Todos podres”, do demagogismo e dos riscos de explosão social, vale tudo para reconquistar os moradores dos bairros populares, isto é, para tentar “politizá-los” e convertê-los ao jogo democrático. A tomada de bairros ou até mesmo de comunas por seus moradores através de múltiplas organizações e coletivos, tal como sonhado por seus militantes, traz à mente a era idílica das cidades e subúrbios “vermelhos” da época de triunfo do Partido Comunista Francês (nos anos 50 e 60) que, reconhecidamente, tinha seus pontos positivos. Entretanto, é provável que o caminho para este tipo de “conscientização de massa” seja longo e cheio de armadilhas.

HOJE E AMANHÃ

Abolir a polícia – quem acredita seriamente que essa demanda pode se tornar realidade?[27] Que este mundo poderia ser abolido pouco a pouco? Se assim fosse, por que não começar abolindo a propriedade, o trabalho assalariado, ou mesmo o Estado?

É possível ver o slogan como um apoio à uma mobilização política: os militantes mais radicais o ligam à luta contra o Estado e o capitalismo, cuja abolição implicaria necessariamente a da polícia; para outros, é o primeiro passo para melhorar a sociedade, ou seja, para melhorar o capitalismo. O problema é que a crítica radical tem sido tão diluída ao longo dos anos que não desafia mais (ainda que teoricamente) os fundamentos do modo de produção capitalista, que em vez disso se naturalizaram (propriedade, dinheiro, empresa, trabalho assalariado, valor[28]). No entanto, enquanto existir propriedade privada, ela terá que ser protegida de alguma forma. Essa é a principal função da polícia de hoje, e a decisão de abolir a instituição nesta sociedade exigiria encontrar outras formas de controle, que se se revelarem mais agradáveis, terão que ser no mínimo tão eficazes quanto ela. Poder-se-ia imaginar organizadores amigáveis – talvez nem mesmo usando uniformes[29] – que andam pelas ruas para lembrar aos transeuntes ausentes as regras da convivência. Não há nada de errado em sonhar com uma utopia capitalista, e somos até encorajados a fazê-lo, mas não nos iludamos. Se a polícia fosse abolida na sociedade atual, isso implicaria mais do que apenas aumentar o número de assistentes sociais, envolveria outros aspectos e abriria outros caminhos: enorme crescimento das agências de segurança privada (com poderes ampliados); condomínios fechados ou mesmo bairros fechados; maior recurso às novas tecnologias de segurança (geolocalização, reconhecimento facial, rastreamento, drones etc.); um controle social reforçado no qual uma importante parcela da população participaria através de seus smartphones ou próteses conectadas (aplicativos antifurto já estão se democratizando); sistema de crédito social; manutenção de forças especiais do tipo SWAT (para casos “graves” que não poderiam ser tratados de outra forma), etc.

Enquanto isso, sob o pretexto do radicalismo, o clássico “Sem justiça, sem paz, combata a polícia” cedeu lugar nos Estados Unidos para “Sem justiça, sem paz, abolir a polícia” e depois para “Desfinanciar a polícia”.

Estes slogans, por mais simplistas que sejam por definição, refletem a forma com que a realidade é apreendida; o que se reflete aqui são dois pontos de vista contrastantes sobre como fazer a polícia recuar.

Primeiro há a rua, a vida cotidiana e a luta de classes; deles, independentemente de qualquer pensamento político, flui um relacionamento com a polícia como uma instituição que varia de uma pessoa para outra, variando de indiferente a desconfiado a visceralmente oposto. Em tal realidade, assim que você se junta a uma luta que ameaça a ordem estabelecida, você se depara com a polícia. “De repente, o Estado revela seu lado repressivo, mais ou menos diluído na vida cotidiana, diluído também dependendo do bairro em que se vive e do trabalho que se tem. […] Para o manifestante, o Estado aparece como uma visão, como uma Virgem Maria de Fátima. É uma revelação. Em casos extremos, alguém tem o poder de decidir em que lado da rua você pode andar, e se você escolher o lado errado, para chutar você de volta para a fila. Portanto, esta coisa que impede você de atravessar a rua é o Estado. Mas se você a atravessar, e forçar a coisa a recuar, é o Estado que recuará[30]. Sem dúvida, é isso que podemos chamar de “abolicionismo revolucionário” ou, no mínimo, de “insurrecional”. É uma atividade proletária muito antiga que liberta certos espaços das garras da polícia (que não são alvos, apenas obstáculos), espaços nos quais é possível realizar experiências e esboçar novas relações sociais, desde que a luta continue.

Mas há outro abolicionismo, aquele hoje tão valorizado do outro lado do Atlântico, que consiste em travar uma batalha política para fazer o Estado concordar em substituir sua polícia por outro sistema de controle baseado na autogestão das populações. É verdadeiramente surpreendente, mas também significativo, que na ampla gama de textos que lemos, o escopo sempre tenha sido restrito a este mundo e a fazer com que as instituições concedessem mais espaço aos “excluídas” (negros, mulheres, LGBTQI+ etc.), um maior orçamento, iniciem novos programas, etc. O fato de a vida cotidiana de algumas pessoas realmente melhorar é uma coisa muito boa. No entanto, é de se perguntar se é realmente adequado chamar um slogan de “radical”, “subversivo” ou “revolucionário” quando ele é adotado por uma faixa muito ampla do espectro político americano (incluindo uma parte dos republicanos) e apoiado pela mídia, os principais intelectuais e artistas, os sindicatos, as maiores corporações americanas ou fundações beneficentes (os bilionários do país)… Não surpreende, portanto, que uma parcela crescente da esquerda americana tenha começado a questionar este tipo de estratégia[31].

Por mais que todos temessem ou esperassem uma explosão social após a crise sanitária, que revelou a centralidade do trabalho dos proletários e da exploração, e à medida que violentos tumultos incendiaram os Estados Unidos, os protestos foram canalizados para demandas aceitáveis para uma parte substancial da população e da mídia, e úteis na luta eleitoral contra Donald Trump[32]. Nada além do convencional. Como o slogan “Desfinanciar a polícia” evoluiu do radicalismo marginal até a institucionalização mostra mais uma vez a capacidade de assimilação do modo de produção capitalista, em que, às vezes, “tudo deve mudar para que tudo fique na mesma” (Giuseppe Tomasi di Lampedusa) tudo, inclusive, se necessário, o controle social. Que espantoso.

Portanto, alguns observadores americanos não hesitam em descrever um processo mais amplo, como uma “campanha de contra insurgência”, cuja vanguarda seria a “classe média negra, políticos negros, acadêmicos radicais negros e ONGs negras”, ou seja, aqueles que mais têm a ganhar com a remoção dos tetos de vidro específicos para cada setor empresarial e uma integração mais completa na gestão do capitalismo americano, aqueles cujo interesse é pacificar a agitação social. É fácil entender, então, que “nos próximos meses, as vitórias obtidas com a rebelião virão na forma de novas e inúteis posições de ‘diversidade’, conferências e artigos acadêmicos inúteis, e pífios aumentos salariais[33]; as muitas iniciativas em favor de ações afirmativas ou da contratação da diversidade anunciadas na esteira dos protestos beneficiarão, de fato, muito logicamente, as classes média e alta negra, e não os proletários negros[34].

Podemos decifrar os contornos de um espaço político que vai surgindo gradualmente tanto nos Estados Unidos quanto na França para um novo reformismo e, portanto, para mais uma nova esquerda, que provavelmente não terá esse nome, que não contará com o apoio dos partidos tradicionais, mas da sociedade civil, através de um conjunto de organizações sem fins lucrativos e de coletivos que representam várias categorias “oprimidas” ou indignadas da população em torno de uma interseccionalidade que, definitivamente, deixará de lado as questões relativas à exploração sob o modo capitalista de produção (salários, aposentadorias, desemprego, condições de trabalho, produtividade, etc.). Caso surja um novo Estado de bem-estar social, as restrições orçamentárias o manterão muito modesto e, portanto, claramente mais “societário” do que social, e beneficiará, antes de tudo, a classe média e os profissionais. Compreensivelmente, sociólogos, filósofos e candidatos a doutorado, os potenciais futuros gerentes deste novo reformismo, têm todo o interesse em importar novos slogans e conceitos dos EUA que possam imediatamente e sem esforço captar a atenção da mídia e das instituições paraestatais. Isto (talvez) leve a algumas vitórias eleitorais, mas nada que interesse, fundamentalmente, e muito menos satisfaça, à maioria dos proletários. A questão é se isso será ou não suficiente para colocá-los para dormir.

Tristan Leoni, setembro de 2020.


[1] Shemon and Arturo, “Theses on the George Floyd Rebellion”, illwilleditions.com, 24 de Junho, 2020. [Em português: TESES SOBRE A REBELIÃO GEORGE FLOYD • SHEMON & ARTURO]

[2] O slogan “Black Lives Matter” (BLM) designa não apenas o movimento contra o racismo e a violência policial lançado nos Estados Unidos em 2014 (sob a presidência de Barack Obama), mas é também o nome de uma organização política específica.

[3] Um exemplo é o Muro das Mães em Portland. Este desenvolvimento relativamente comum ecoa movimentos como os protestos iraquianos em 2019, que passaram de tumultos e destruições espontâneas para um festival de ativistas e confrontos codificados ao redor da Praça Tahrir. Cf. a segunda parte de nosso artigo, “Iraq from riot to impossible reform”, 2019. [Em português: Iraque, de um motim a uma reforma impossível 2018-2019 (entre novembro e dezembro de 2019)]

[4] Embora a aplicação da lei funcione através de agências relevantes a nível federal, estadual e municipal, a maioria dos policiais nos Estados Unidos é empregada por agências municipais.

[5] Nos Estados Unidos, através do número de emergência 911, geralmente é a polícia que administra as emergências psiquiátricas. Note que os serviços de atendimento psiquiátrico sofreram grandes cortes no orçamento desde 2009.

[6] Gwenola Ricordeau no vídeo “Un futur sans police. Vers l’abolition des forces de l’ordre social” [Um futuro sem polícia. Rumo à abolição das forças da ordem social] no sortirducapitalisme.fr (em francês).

[7] Gwenola Ricordeau, “Peut-on abolir la police? La question fait débat aux Etats-Unis”[A polícia pode ser abolida? A questão em debate nos Estados Unidos], theconversation.com, 14 de junho, 2020.

[8] A expressão francesa “mettre du beurre dans les épinards” [passar manteiga nos espinafres] significa melhorar suas condições de vida, especialmente no aspecto financeiro. [N. T.]

[9] Se dizemos que as feministas estão divididas sobre esta questão, é porque são praticamente as únicas a se debruçarem sobre ela.

[10] Mouvement de libération des femmes [Movimento de libertação das mulheres], movimento feminista autônomo e não-misto francês que surgiu nos anos 1970. [N. T.]

[11] Aproximadamente 10% dos presos nas prisões francesas estão cumprindo pena por agressão sexual.

[12] Os policiais americanos matam cinquenta vezes mais, relativamente falando, do que seus colegas franceses.

[13] Apesar do racismo desenfreado, 65% da população carcerária não é afro-americana (e praticamente ninguém tem um diploma universitário). “A taxa de encarceramento de brancos é mais alta do que na maioria dos outros países do mundo”. cf. Keeanga-Yamahtta Taylor, Black Lives Matter. Le renouveau de la révolte noire américaine [O ressurgimento da revolta negra americana], Marseille, Agone, 2017, p. 356 (em francês).

[14] Para mais sobre autodefesa nos Estados Unidos, recomendamos (em francês) Maurice Cusson’s “Paradoxes américains: autodéfense et homicides” em Revue internationale de criminologie et de police technique et scientifique, 1999, vol. 52, #3, pp. 131-150.

[15] Isto é mais apropriado do que traduzi-lo como “organização comunitária”; é palavra comunidade é usada muito frequentemente pelos estadunidenses em casos muito diferentes e são muitos os falsos cognatos encontrados pelo tradutor. Muitos autores preferem, portanto, conservar a versão original de community organizing.

[16] Na França, em particular depois dos anos 1970, os textos de Saul Alinsky foram às vezes usados na formação de assistentes sociais.

[17] A “filantropia” tem sido historicamente uma fonte de financiamento do bem-estar nos Estados Unidos, um país perpetuamente dividido entre defensores e opositores da intervenção estatal e no qual as instituições de caridade religiosas nunca se enraizaram realmente.

[18] Com base neste tipo de funcionamento específico dos Estados Unidos, alguns afirmam que Wall Street financiou os tumultos de 2020. As organizações sem fins lucrativos ligadas à BLM têm sido apoiadas há muito tempo por uma variedade de fundações, não apenas a Fundação Ford, mas muitas outras, incluindo a Soros. Nada de anormal. Na década de 1960, as fundações subsidiaram o movimento de direitos civis, escolhendo organizações comprometidas com o registro de eleitores, por exemplo, em vez de protestos radicais. Os maiores beneficiados, obviamente, tendem a ofuscar as muitas organizações sem fins lucrativos de menor porte, que são financiadas por voluntários e completamente não subsidiadas. Veja Keeanga-Yamahtta Taylor, op. cit., pp. 301-307.

[19] Isto ecoa nas descrições de Rudolf Rocker ou Victor Serge do estado bolchevique, que em 1917 enviou unidades compostas por anarquistas (considerados mais confiáveis, menos corruptíveis e, portanto, mais eficazes) para sufocar grupos de saqueadores e bêbados nas ruas de Petrogrado.

[20] Friedrich Engels, prefácio de 1974 a La Guerre des paysans en Allemagne [A Guerra Camponesa na Alemanha].

[21] Nós abordamos brevemente as polícias comunitárias do México em 2017, no artigo “Police DIY” [Polícia Faça Você Mesmo], disponível em ddt21.noblogs.org.

[22]Ver “Révolte en Guyane: La possibilité d’une île?” [LINK: https://spasme.noblogs.org/2017/08/30/revolte-en-guyane-la-possibilite-dune-ile%E2%80%89/] [Revolta na Guina: A possibilidade de uma ilha?] , Spasme, nº 13, verão de 2017, p. 28-40.

[23] Sobre estas questões, ver, por exemplo, o capítulo “The Jailbreak” em “A to Z of Communisation” em Everything Must Go! The Abolition of Value, Bruno Astarian e Gilles Dauvé, Little Black Cart Books, Berkeley, 2015.

[24] O sociólogo francês Julien Talpin ajudou a criar o Instituto Alinsky em 2017, que comercializa treinamento de organização comunitária.

[25] É interessante ler este artigo do blog Bondy sobre os “tumultos” que ocorreram nos subúrbios de Paris durante o bloqueio: Ilyes Ramdani, “À Villeneuve-la-Garenne, retour sur une colère rasionée” [LINK: https://www.bondyblog.fr/societe/a-villeneuve-la-garenne-retour-sur-une-colere-raisonnee/], bondyblog.fr, 25 de abril de 2020.

[26] Vimos o que aconteceu com a importação do termo raça: inicialmente elaborado pelos universitários como um conceito teórico particularmente sofisticado, “raça enquanto construção social, etc.”, a palavra foi democratizada numa velocidade tal que é agora utilizada por certos manifestantes franceses… mas infelizmente em sua acepção mais rústica. Veja o que escrevemos sobre este assunto em 2018 em “Race et nouvelle droite” [Raça e a nova direita], artigo disponível em ddt21.noblogs.org.

[27] Há aqueles que contrariam que a abolição do sistema feudal ou da escravidão parecia impossível até que finalmente desaparecessem. A questão, porém, é que eles eram substituíveis, e nós sabemos pelo que.

[28] É verdade que o grupo Pantera Negra dos anos 70, por exemplo, defendeu uma forma de socialismo/capitalismo de Estado inspirado na China maoísta e ainda é reconhecidamente percebido como o auge do radicalismo (devido em parte às fotos de membros do partido portando armas de fogo carregadas abertamente).

[29] Alguns podem até se arrepender, como o personagem principal do filme Bernie de Albert Dupontel de 1996, que comentou “A sociedade é na verdade bastante inteligente, eles colocam uniformes nos babacas para que possamos reconhecê-los”.

[30] A Grin Without a Cat, Chris Marker, parte um “Fragile Hand,” 1977.

[31] Claire Levenson, “Aux États-Unis, des voix de gauche critiquent Black Lives Matter” [Nos Estados Unidos, vozes de esquerda criticam o Black Lives Matter], slate.fr, 6 de outubro de 2020.

Nos EUA, algumas pessoas estão começando a falar de blackwashing (em referência ao greenwashing e pinkwashing), o que permite às empresas, através do apoio (midiático e financeiro) ao movimento BLM, darem a si mesmas uma imagem boa e, assim, se autorizar a uma exploração mais intensa de seus funcionários (independentemente de sua cor de pele).

[32] Embora em menor escala, a morte de Adama Traouré desencadeou um fenômeno semelhante na França, envolvendo algumas mobilizações surpreendentes, especialmente através das mídias sociais e slogans bastante incontroversos (contra o racismo e a violência policial). No entanto, eles não duraram muito e foram assumidos por ativistas de esquerda até o fim das férias escolares. É provável que o movimento volte, especialmente com a perspectiva da candidatura providencial de Christiane Taubira, em 2022. A exploração do anti-racismo para ganho eleitoral não é um fenômeno novo para a esquerda francesa, que dependia fortemente dele nos anos 80 para permanecer no poder (um bom exemplo é a criação do SOS Racisme.).

[33]The Rise of Black Counter-Insurgency”, Shemon, 30 de julho, 2020.

[34] Dadas as significativas e crescentes desigualdades e diferenças entre a “elite negra” e os negros mais pobres – os primeiros tendo alcançado seu status em detrimento dos segundos, é impossível falar de uma única comunidade afro-americana nos Estados Unidos. No entanto, o mesmo pode ser dito da chamada comunidade branca. Veja Keeanga-Yamahtta Taylor, op. cit., pp. 133-144, 353-355 (em francês).

Traduzido por Murillo Amboni Schio, a partir da versão disponível em: https://ddt21.noblogs.org/?page_id=3014. Revisado por Thiago Papageorgiou.

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