Contra a mumificação da Comuna: descobrir Leó Frankel – Charles Reeve

[Nota do Crítica Desapiedada]: Jorge Valadas nasceu em Lisboa em 1945. Aos 18 anos, ele entrou na Escola Naval. Na posição de dissidente da sociedade portuguesa, dos seus conservadorismos e do ambiente opressivo do regime salazarista, Valadas decidiu não participar na guerra colonial e desertou em 1967 para Paris. Exilado em Paris, ele participou das lutas sociais no Maio de 68 francês[1] através dos comitês de trabalhadores-estudantes, desenvolvidos naquele período, e como participante do núcleo dos Cadernos de Circunstância[2]. No ano de 1971, ele emigrou para os Estados Unidos, acompanhou o movimento pacifista contra a Guerra no Vietnã e entrou em contato com Paul Mattick através de camaradas do Maio de 68 pertencentes às tendências “marxistas antiautoritárias”. Nos EUA, conheceu também o filho de Mattick, Paul Mattick Jr., estudante naquela época na universidade de Cambridge, e lá colaborou na revista Root and Branch que ele animava. Após regressar à França, Valadas tornou-se eletricista, trabalho que lhe permitia viver e não comprometia a sua independência intelectual[3]. A partir daí, ele começou a publicar os seus próprios ensaios, assumindo o pseudônimo de Charles Reeve em homenagem a um imigrante escocês – sindicalista-revolucionário – condenado em 1916, Sidney, a dez anos de exílio por sabotar o “esforço de guerra”. Em 1972, Reeve publicou seu primeiro livro, uma análise do funcionamento do capitalismo de estado na China, intitulado O Tigre de Papel. Entre 1996 e 2007, ele publicou outros livros sobre a China, como o último, denominado de China Blues. Entre os anos de 1974-1978, Valadas colaborou com o jornal Combate[4], envolvendo-se com a revolução portuguesa e, depois de várias décadas, publicou reflexões sobre esta experiência revolucionária, como visto nas obras Crônicas Portuguesas (2001) e A Memória e o Fogo (2006). Até o momento, o seu último livro publicado é O Socialismo Selvagem – Ensaio sobre a auto-organização e a democracia directa nas lutas de 1789 até aos nossos dias (Editora Antígona, Lisboa, 2019).
Atualmente, Valadas mora em Paris e Tavira (Portugal) e colabora com várias revistas e livros em vários países. Dentre as suas colaborações atuais, podemos citar as publicações de artigos no The Brooklyn Rail de Nova York, Salamandra na Espanha e Lundi Matin e CQFD em França. Escreve também uma crônica política regular para a revista de contra informação portuguesa, MAPA[5].  Deste modo, o autor que apresentamos ao leitor do Portal Crítica Desapiedada na presente tradução é um pensador radical com imensa trajetória política, um indivíduo que se envolveu ativamente em diversas experiências de lutas sociais e desenvolveu várias análises importantes para a perspectiva política revolucionária que defendemos. Em correspondência por e-mail com Valadas, ele contou que a sua formação política fez-se no Maio de 1968 e no contato com os camaradas que encontrou naquele período. Valadas conta que a breve participação na experiência revolucionária foi mais rica do que dez anos de cursos universitários e de militância partidária, o que revela muito sobre como em períodos revolucionários, a cultura contestadora se fortalece e amplia sobre a sociedade, influenciando diversos indivíduos que acabam entrando em contato com o marxismo autêntico, o anarquismo revolucionário, o comunismo de conselhos, etc. Em outros termos, nos períodos revolucionários as correntes “anti-autoritárias” ressurgem e são resgatadas, ganhando força em diversos espaços da sociedade, o que fortalece o que chamamos de hegemonia proletária. Foi nesta cultura contestadora que Valadas formou sua orientação política que se mantém até hoje, criando um intenso vínculo com o “marxismo anti-autoritário” (Marx, Pannekoek, Paul Mattick, etc.), correntes anarquistas (Bakunin, etc.) e outras ideias emancipadoras. A lição essencial que deve continuar nos guiando, diz Valadas, é a defesa da autoemancipação contra os “emancipadores profissionais” (os partidos políticos, o estado capitalista, a democracia burguesa, etc.). O desafio urgente para a contemporaneidade fundamenta-se na necessidade de construir, nós próprios, uma sociedade emancipada, uma vez que o capitalismo está aniquilando as condições de vida dos seres humanos nesse planeta. O que nos resta é lutar e não desistir de acreditar na possibilidade de um mundo radicalmente distinto.
É com essa lição que recomendamos a leitura do artigo de Valadas (Charles Reeve), não deixando de lado o espírito crítico e o compromisso com as ideias que reforçam a luta pela realização da utopia concreta, a autogestão social ou o autogoverno dos produtores.


[1] Um relato pessoal de Valadas sobre a sua participação no Maio de 1968 pode ser visto no texto Luta de Classes na Folies Bergères (Maio de 1968), publicado no jornal Mapa. Para uma breve análise crítica do autor sobre os eventos na França em 1968, conferir: Maio-Junho de 1968: O que aconteceu.

[2] Sobre os Cadernos de Circunstâncias, pode-se conferir a apresentação que Valadas escreveu em 2012: https://vosstanie.blogspot.com/2013/04/circunstanciasjorge-valadas.html. Todas as edições dos Cadernos foram disponibilizadas em português no seguinte link: https://vosstanie.blogspot.com/2011/09/cadernos-de-circunstancia.html.

[3] Importante destacar que quando Valadas chegou à França, ele realizou vários trabalhos precários e não qualificados. Ele escolheu o ofício de eletricista porque este emprego poderia lhe dar estabilidade e garantir seus meios de sobrevivência. A sua escolha não foi motivada por uma preocupação obreirista de querer se inserir na classe trabalhadora, como estava presente nos meios maoístas e trotskistas. Assim, após ser um exilado na França, Valadas trabalhou como eletricista, de forma independente, pois não esteve ligado às organizações políticas tradicionais, não teve apoio da família, nem interesse em estudar e trabalhar ao mesmo tempo.

[4] No caso do jornal Combate, Valadas não participou diretamente do coletivo do jornal, mas colaborou com a publicação de um texto de sua autoria. Na época, ele residia na França e sua colaboração com o Combate situou-se mais no plano da proximidade política com as posições do coletivo e com as pessoas vinculadas a ele que depois foram para a França.

[5] Os artigos publicados por Valadas nessas revistas podem ser conferidos nos seguintes link’s:
The Brooklyn Rail: https://brooklynrail.org/contributor/charles-reeve;
Lundi Matin: https://lundi.am/Contre-la-momification-de-la-Commune-decouvrir-Leo-Frankel;
CQFD: https://cqfd-journal.org/Charles-Reeve;
SalamandraIntervention surrealista (Madrid):
https://aideiablog.wordpress.com/2021/08/17/salamandra-revista-do-grupo-surrealista-de-madrid/;
MAPA: https://www.jornalmapa.pt/author/jorge-valadas/.


Contra a mumificação da Comuna: descobrir Leó Frankel[1]

Quem ainda se demora frente aos painéis metálicos de exibição eleitoral que a Prefeitura de Paris instala de forma recorrente na frente de todas as escolas? Entretanto, nesse mês cinza de abril de 2021, fomos muitos a nos surpreendermos de encontrar aí, no meio de uma iconografia revolucionária muito bem reproduzida e esboçada, citações assinadas por Louise Michel, Karl Marx, assim como Victor Hugo, pois deve-se evitar de quebrar o cidadão médio.

Seguros do fato de que não nos encontramos frente a uma última ação agitprop[2] de uma oficina de extrema-esquerda, compreendemos que se trata mesmo de comemorações oficiais, uma versão espetacular e de boa consciência de uma esquerda que se procura sem mesmo ter certeza de ainda existir… Em suma, uma operação com o objetivo eleitoral, à procura de um povo-eleitorado.

Por coincidência, durante as comemorações – mais ao norte, no limite científico dos 10 quilômetros do confinamento estabelecido pela ciência do poder – os terminais ainda abertos do gigantesco aeroporto de Roissy se tornaram o maior antro informal da Cidade das Luzes. Durante meses, dezenas de “sem-abrigos”, de deixados-por-conta das consequências do CAC 40[3], os fracassados do neoliberalismo, elegeram como “residência” os halls, os corredores e os centros comerciais fechados devido à Covid-19 e aos bloqueios quase totais do tráfico aéreo. “As partes públicas dos aeroportos lhes oferecem um teto, e mais conforto que o metrô ou as ruas de Paris.[4] Podemos também pensar que essa “oferta de conforto” permite aos oficiais esconderem os sem-abrigo ali onde ninguém vai mais hoje e de reservar as ruas de Paris para a comemoração da Comuna. O capitalismo produz esquizofrenia e mentira como lucro, e continua até mesmo a produzi-los enquanto a produção de lucro está mal.

Após essa breve digressão, voltemos às tais comemorações da Comuna. Três anos depois do Maio de 68, ainda sofremos a comemoração de uma insurreição social. É repetitivo, é cansativo. Filmes, programas, cerimônias mais ou menos oficiais, dezenas de livros e de publicações, em cores, papel brilhantes e iconografia cuidadosamente feita. Pode-se discutir sua utilidade, pode-se também defender que tudo foi dito e escrito sobre a Comuna, o essencial em todo caso. Sem dúvidas, podemos voltar nesse ou naquele aspecto, rever essa ou aquela análise, podemos folhear os arquivos, as testemunhas, recontar os mortos, produzir teses e antíteses. Estamos mais avançados? Mas o estudo mais científico sobre a Comuna e sua derrota não se encontra, na verdade, na permanência do capitalismo mortífero e destrutivo que vivemos cotidianamente? É normal repetir: uma comemoração é um momento morto da história; quanto mais falamos sobre ela, menos o espírito revolucionário se faz presente. As revoluções são momentos vivos, as comemorações são momentos mortos. As figuras históricas evocadas, Karl Marx, Louise Michel, são elas mesmas esvaziadas de sua substância e se tornam rostos sem seres. As comemorações integram o trabalho da lenda e do mito da história. Não os mitos que dão energia e sentido ao espírito de revolta. Não, mitos no sentido alienante, resignado, quase religioso do que foi e não é mais. Um mito construído sobre lamentações, sobre a derrota dos “fracos”, dos “fracassados” e das “vítimas”.

Nessa paisagem de passado imóvel, encontramos ainda, e é mesmo na exceção que a regra se confirma, trabalhos sobre a memória histórica que religam momentos revolucionários ao presente, que estimulam o impulso para um futuro diferente. Neste contexto, você já ouviu falar de Leó Frankel?

O livro de Julien Chuzeville, Léo Frankel, communard sans frontières[5], chega no momento certo e preenche um vazio na vasta biblioteca da Comuna. Essa primeira biografia de um dos membros socialistas revolucionários da AIT[6], único estrangeiro eleito da Comuna, está em sincronia com seu autor. Historiador fora do comum do movimento operário, não frequentando os cursos universitários, Julien Chuzeville não é um “pesquisador do Estado”, fórmula risível em Maio de 68 e que começou a ser usada nos dias de hoje[7].

Com Frankel e seus camaradas da AIT, entramos na Comuna por uma porta dos fundos que nos deixa entrever não apenas o que a Comuna foi, mas também o que ela poderia ter sido. Suas posições, suas ações, contam com as possibilidades do momento revolucionário, com um futuro emancipador. E os limites colocados em sua atividade são o máximo de luzes sobre os próprios limites da Comuna. Estamos então longe de um relato que participa da lenda ou da construção do mito. Muito pelo contrário, as possibilidades da Comuna, suas potencialidades, ajudam a trazer essa experiência ao presente e lhe dão seu verdadeiro interesse histórico, ou seja, fazem dela um marco do presente e do futuro.

Quando foi eleito aos 27 anos, em 26 de março de 1871, no 13º arrondissement[8] de Paris, o joalheiro Leó Frankel já tinha atrás dele um percurso militante. Membro do conselho federal de Paris da AIT, ele foi um dos acusados quando o poder bonapartista acusou e processou a Internacional no verão de 1870. Sua defesa impressionou Marx e Engels entre outros[9]. Frankel foi condenado a uma pena leve. Mal começara a guerra entre a França e a Prússia quando a AIT publicou em Paris um manifesto contra a guerra e pela solidariedade internacional. Havia, entre os socialistas internacionalistas, a consciência de uma lei incontornável: se a barbárie da guerra pode às vezes dar luz às revoluções, contrariamente, a dinâmica revolucionária é invariavelmente abafada pela guerra. Eles teriam essa confirmação nos meses seguintes. Julien Chuzeville relembra que a corrente patriótica estava impossível de derrubar nesse momento, corrente que cegou até mesmo os militantes blanquistas. Membros da AIT, Frankel entre eles, assinam uma chamada ao povo alemão. Em vão.

Depois, veio a derrota militar frente aos prussos e a insurreição popular em Paris. Leó Frankel faz parte dos “coletivistas” da AIT, com Eugène Varlin, Jules Nostag, Benoît Malon e outros. Ele se engaja também na Guarda Nacional. Ativos na câmara sindical das sociedades operárias, membros da AIT fazem da questão social o centro de sua atividade e de sua propaganda. Eles publicam um manifesto que coloca a “revolução comunal” como o meio de alcançar a igualdade social. Ele será assinado por vários membros da Internacional, como Leó Frankel, Eugène Pottier e Albert Theisz. Sempre alinhado com a questão social, Julien Chuzeville enfatiza o quanto o desemprego em massa “é um motivo essencial do engajamento de vários parisienses” na Guarda Nacional com seu soldo diário. Entretanto, a questão da Guarda Nacional já colocava a questão do compromisso entre as classes, as classes burguesas estando muito presentes na instituição militar. Sobre essa questão de participar ou não no comando dessa instituição, Frankel se opõe a outros no seio da AIT, como Eugène Varlin.

Durante as eleições de 26 de março de 1871, Leó Frankel é então eleito em Paris. Dois dias depois, a Comuna é proclamada com seu Conselho. A diversidade da AIT era contínua, ela não era uma organização unificada, rígida e, além disso, seus representantes constituíam apenas uma minoria no seio da Comuna. Isso fazia eco à diversidade das correntes presentes no movimento. Com precisão, Julien Chuzeville nos relembra que: “A Comuna é primeiramente uma retomada das classes populares pelo espaço público, pela cidade […]. Está aí o aspecto de ‘Paris livre que marca a experiência comunal“. Dito isso, é necessário compreender que “se há socialistas no seio da Comuna, ela não é propriamente ‘socialista’“. Aproxima-se aí de uma das lendas da Comuna vista como um movimento unificado, o que Julien Chuzeville chama de “a lenda rosa, uma superestimação acrítica do que ela foi é comum, assim como a ignorância das contradições que existiam em seu seio“. O posicionamento e a ação de Frankel e de alguns de seus amigos e amigas são particularmente esclarecedores para descobrir o significado dessa lenda da Comuna.

Em última análise, qual é o conteúdo social da Comuna? Suas potencialidades residem na espontaneidade e na auto-organização do movimento social, na mente criativa das forças de trabalho. Mas, no seio da organização da Comuna, somente uma minoria batalha pelas medidas abertamente socialistas. Frankel é nomeado responsável pela Comissão do Trabalho. Com o apoio de outros radicais, ele incita a necessidade de criar os ateliês cooperativos operários, luta para regulamentar o trabalho noturno e pela igualdade entre homens e mulheres. Aí estamos nós, o imperativo da guerra e a desorganização que ela implica, entrava o impulso internacionalista e de emancipação social, bloqueia a tentativa de construir uma nova organização econômica sob o controle da coletividade. A Comuna apenas esboça uma tendência, elementos capazes de “favorecer a passagem, sem dúvida progressista, mas inevitável, de uma organização capitalista do trabalho a um trabalho socializado. Ou, nos termos de Marx, em A Guerra Civil na França: “Essas medidas particulares podem apenas indicar a tendência do governo do povo pelo povo“. Frankel e seus camaradas da AIT – Malon, Nostag, Teisz e Elisabeth Dimitrief – estão conscientes disso e confiam em uma evolução do Conselho da Comuna no sentido de uma sensibilidade mais forte à questão social. Essa evolução não ocorreu, essa sensibilidade era minoritária. E assim permanecerá.

Como todo movimento vivo de grande escala, a Comuna estava atravessada por correntes e orientações políticas diversas, divergentes, às vezes opostas, indo de republicanos jacobinos aos coletivistas da AIT. As sensibilidades e posições do início foram, bem evidentemente, diferenciadas, modificadas, abaladas, pelas vicissitudes da revolta social e as urgências da guerra. Por vezes, também suas oposições se endurecem. Inevitavelmente, essa evolução e essas confrontações são expressadas nas lutas no seio do Conselho da Comuna. A luta foi particularmente difícil cada vez que as medidas de caráter social eram propostas, discutidas. Sobre a questão da igualdade entre homens e mulheres, Frankel defendia sempre posições avançadas e o fazia com duas militantes da AIT e da União das Mulheres[10], Nathalie Le Mel e Elisabeth Dmitrieff, uma jovem de 20 anos, internacionalista russa da AIT, próxima da família Marx e muito influenciada pela experiência das comunas e cooperativas russas.

As páginas que Julien Chuzeville dedica à esclerose interna da Comuna são importantes. Para Leó Frankel, como para a minoria radical da AIT, tudo o que a Comuna fazia sempre o teria feito com e pela auto-organização dos trabalhadores. E no entanto, não!

“A ligação com a criatividade na base é apenas indireta, a Comuna tendo sem dúvidas sido insuficientemente ligadas aos clubes populares. Essa criatividade foi, por outro lado, limitada, primeiramente pela guerra civil, em seguida por uma parte das decisões da maioria da Comuna. A Comuna é então fundamentalmente um movimento revolucionário truncado, tanto por seus limites geográficos, pelas ambições reduzidas de uma boa parte de seus eleitos, enfim, por sua duração evidentemente, mesmo que o esmagamento militar da Comuna tenha paradoxalmente impedido que realmente se expresse as tendências mais autoritárias da maioria do Conselho. Nesses limites, a Comuna não podia florescer, o que leva a considerar – talvez imaginar – suas potencialidades reais ou supostas. Com o movimento da Comuna se exprimiam tendências para uma democracia direta”.

Como isso se produz geralmente em um movimento social de amplitude ou em uma revolução, a tentativa autoritária se mostra como uma solução enquanto o movimento não tem mais energia criativa para saltar e ampliar sua base. Como Varlin e Theisz, Frankel será um inimigo declarado dessa deriva autoritária – fortemente apoiada pelos jacobinos e pelos blanquistas. Ela ganha forma, nos últimos dias da Comuna, na criação do Comitê de Salvação Pública. A incisiva resposta de Albert Theisz aos argumentos táticos da “necessidade temporária do despotismo”, da eficácia de uma reviravolta autoritária, não perdeu nada de sua atualidade: “Depois de muitos anos, ouvimos essas palavras: “mais tarde”. Quando os acontecimentos estiverem feitos, então, você terá a Liberdade, a Igualdade, etc. Nós protestamos contra palavras parecidas, são sempre os mesmos meios. Não!” O manifesto da minoria que se opõe à deriva autoritária o afirma claramente: “a Comuna de Paris abdicou de seu poder entre as mãos de uma ditadura, à qual ela deu o nome de Comitê de Salvação Pública“. Frankel o assina com Vallès, Courbet, Theisz e alguns outros. Eles evitam por pouco serem presos pelo tal Comitê. Um dia depois, em 18 de maio, o Comitê de Salvação Pública coloca um fim à liberdade de imprensa e em 21 de maio as tropas de Versalhes entram em Paris. A Comuna vive seus últimos dias. A burguesia francesa pode alcançar seu projeto de supressão no sangue das “classes perigosas”. Um projeto que libera o horizonte do capitalismo e abre o caminho às práticas “realistas” do reformismo. Após ter sido ferido em uma barricada em 25 de maio, Leó Frankel deixa Paris com Elisabeth Dmitrieff, atravessa clandestinamente as fronteiras de Versalhes e entra na Suíça.

Sabe-se o quanto a experiência da Comuna marcou os debates no movimento operário, particularmente no seio da AIT. Se Marx enfatizava que a Comuna foi “uma revolução contra o próprio Estado[11]“, insistindo sobre sua dimensão política, revolucionários como Frankel e alguns outros não pararam de lutar para que a dimensão de revolução social se afirme nas criações concretas, crescendo na experiência comunal. Pensa-se aqui na leitura crítica que Karl Korsch fez dessa visão de Marx, essa ênfase colocada sobre o elemento negativo, “contra o Estado”, relegando para o segundo plano o elemento positivo, construtor da Comuna, seu caráter federativo, anticentralista, cooperativo[12].

Para Leó Frankel e muitos outros, começam então os anos difíceis do exílio da contrarrevolução. Períodos em que o ativismo da vida organizacional, seus impasses e suas pequenezas, suas desilusões, vêm substituir o ardor de momentos revolucionários. Instalado em Londres, Frankel se investe ali na vida da AIT, da qual se tornou membro do conselho geral. Na medida do possível, ele continua a colaborar com a imprensa socialista na França, mantendo ligações próximas com Engels e Marx mesmo que ele nunca se torne, como enfatiza Julien Chuzeville, “um pequeno soldado disciplinado“, exprimindo na época seus desacordos. “Frankel não tentou ‘capitalizar’ seu papel importante na Comuna para criar para si uma notoriedade particular, preferindo defender suas ideias ao permanecer um militante entre outros“. Ele permanece próximo da ideia da unidade necessária da classe dos trabalhadores, desafiador em relação aos conflitos da organização, as divisões e as separações. Em seu impulso, ele tem por vezes dificuldades em dissociar o espírito unitário de base necessário à criação de uma força coletiva da unificação organizacional. A explosão da Internacional, organização composta de correntes diversas, não o satisfez, ele teme suas consequências sobre o movimento. Em 1876, ele volta à Budapeste, onde nasceu em 1844 e onde se engaja na organização do movimento socialista, participa em sua imprensa, não para de trabalhar na formação de uma nova Internacional. O objetivo, ambicioso e nada fácil de alcançar, levou Leó Frankel a conviver com personalidades do movimento operário, de Piotr Kropotkin a Karl Kaustky, de Wilhelm Liebknecht a James Guillaume, de Friedrich Engels e August Bebel aos antigos camaradas da Comuna. Em 1880, fiel a suas posições, ele publica na Hungria um texto antimilitarista que vai lhe custar uma condenação de dois anos na prisão. Em sua saída da prisão, Frankel se instala em Viena e depois em Paris onde, na última década do século XIX, reencontra um movimento socialista dividido em várias capelas às quais ele se recusa a aderir. Mais uma vez, batalha pela unificação, critica as lutas de poder pessoal e procura, em vão, o apoio de Engels. Ele se concentra na atividade de jornalista e de tradutor e sobre o debate de ideias em clubes e associações. Continua incessantemente a defender três princípios que considera essenciais ao movimento revolucionário: a unidade na base, o antimilitarismo e o internacionalismo. Enquanto a Segunda Internacional se constitui em 1889, ele se junta a ela sem nunca desempenhar um papel de primeiro plano, apesar do respeito que sua figura impunha.

Leó Frankel faleceu em Paris, em 29 de março de 1896. Até o fim, carregará a ideia de uma Comuna que não se realizou, mas que ele e seus camaradas sustentaram como possível, como uma orientação rumo ao futuro da emancipação social. Em um texto escrito seis anos após a derrota, Frankel insistia: a Comuna “não foi apenas uma revolução a mais, se juntando a tantas outras, ela foi essencialmente uma nova revolução, nova pelo objetivo que tentava alcançar, nova porque foi uma revolução operária”.

Esse caráter novo, esse conteúdo autoemancipador, não pode ser o objetivo de comemorações. Pode apenas ser encontrado na busca pelo propósito de subversão da desordem capitalista e suas consequências bárbaras, cujas manifestações são mais evidentes a cada dia que passa.


[1] A escrita em francês é Léo Frankel, como usa Reeve, com acento agudo no ‘e’. No nome original, em húngaro, o acento vem no ‘o’ final. Em português, geralmente a escrita húngara é mais utilizada. (NT).

[2] Agitprop (do russo), palavra-valise que mistura as palavras para agitação e propaganda, é a promulgação de ideias, considerando a propaganda comunista utilizada na União Soviética, através de meios de comunicação populares. (NT).

[3] CAC 40, Cotation Assistée en Continu (cotação assistida em contínuo), é um índice da bolsa de valores que reúne as 40 maiores empresas da França. (NT).

[4] « Sans abri à Roissy: le terminal, c’est leur maison » [Sem-abrigo em Roissy: o terminal é sua casa], Libération, 2 de abril de 2021.

[5] Julien Chuzeville, Léo Frankel, communard sans frontières [Leó Frankel, comunardo sem fronteiras], Libertalia, 2021.

[6] AIT, Associação Internacional dos Trabalhadores. (NT).

[7] Julien Chuzeville é também o autor de um trabalho original sobre um outro personagem esquecido da história oficial do Partido Comunista da França, de suas origens ao período que precedeu sua bolchevização, em meados dos anos 1920, Fernand Loriot, le fondateur oublié du Parti communiste [Fernand Loriot, o fundador esquecido do Partido Comunista], L’Harmattan, 2012.

[8] Arrondissement é uma região administrativa usada por países francófonos e dos Países Baixos. Pode ser traduzido como “distrito”, porém, uma vez que em Paris os arrondissement já têm certa fama, o termo permaneceu. Em Paris, os arrondissements também ditam a classe social e a condição econômica da pessoa. (NT).

[9] Seu discurso no Processo da AIT, em 5 de julho de 1870, está republicado em Anexo no livro de Julien Chuzeville.

[10] Reeve se refere à Union des femmes pour la défense de Paris et les soins aux blessés, em tradução livre, União das mulheres pela defesa de Paris e dos cuidados dos feridos. Para conferir os Manifestos desse grupo em português: A União das Mulheres pela Defesa de Paris e os Cuidados dos Feridos. Manifestos durante a Comuna de Paris, de abril e maio de 1871. Os estatutos do grupo estão disponíveis em francês: Union des femmes pour la défense de Paris et les soins aux blessés — les statuts (NT).

[11] Karl Marx, A Guerra Civil na França.

[12] Para uma introdução sobre esse debate, Charles Reeve, Le Socialisme sauvage, essai sur l’auto-organisation et la démocratie directe dans les luttes de 1789 à nos jours [O Socialismo selvagem, ensaio sobre a auto-organização e a democracia direta nas lutas de 1789 até os dias de hoje], capítulo 2, “A Comuna de Paris (1871), os limites ao exercício de ‘a democracia pura’, p. 27-38, L’Échappée, 2018.

Traduzido por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://lundi.am/Contre-la-momification-de-la-Commune-decouvrir-Leo-Frankel. Revisado por Breno Teles.
Em Espanhol: Contra la momificación de la Comuna: descubrir a Leo Frankel
Em Russo: Против мумификации Парижской Коммуны: открытие Лео Френкеля

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