Os Guias de Autoformação são roteiros de estudo e seleção de textos que contribuirão para autoformação sobre diversos temas ligados à perspectiva revolucionária.
No presente roteiro, Gabriel Teles oferece aos leitores um guia de autoformação sobre o pensamento de Maurice Brinton, trazendo elementos introdutórios para o estudo desse autor. Confira.
Introdução – Maurice Brinton: Socialismo, Autogestão e Dominação
A obra de Maurice Brinton não deve ser lida como um conjunto ocasional de textos históricos ou como uma intervenção marginal no interior do marxismo. Ela constitui um esforço sistemático de enfrentar um dos problemas centrais da história do socialismo no século XX: a distância crescente entre a promessa de emancipação e as formas reais assumidas pelas revoluções, pelos Estados ditos socialistas e pelas organizações que falaram em nome da classe trabalhadora. Brinton não se ocupa de denunciar traições individuais nem de corrigir desvios pontuais. Seu alvo é mais profundo. Ele interroga as próprias formas políticas, organizativas e conceituais que permitiram que projetos de libertação se transformassem em novas estruturas de dominação.
O ponto de partida dessa crítica aparece de modo particularmente claro no texto Capitalismo e Socialismo. Ali está condensada a ruptura fundamental que orienta toda a sua obra. Para Brinton, a crítica tradicional da esquerda ao capitalismo é limitada porque identifica o problema central do sistema na esfera da propriedade ou da distribuição da riqueza. O capitalismo aparece como injusto porque produz pobreza, desigualdade ou consumo insuficiente. Essa crítica, embora não falsa, é superficial. Ela ignora que o capitalismo moderno é plenamente capaz de garantir crescimento produtivo, estabilidade econômica e níveis elevados de consumo sem abolir a dominação social. O núcleo do capitalismo não está apenas na exploração econômica, mas na expropriação da capacidade humana de decidir, criar e controlar conscientemente a própria atividade social.
Esse deslocamento reorganiza completamente a noção de socialismo. Para Brinton, socialismo não pode ser definido como abundância material, planejamento estatal ou simples elevação do padrão de vida. Essas características podem existir, e historicamente existiram, em sociedades profundamente autoritárias, burocráticas e alienadas. O socialismo, se quiser ser algo distinto do capitalismo burocrático, precisa significar a restituição do controle da vida social aos próprios produtores. Isso implica autogestão na produção, participação direta nas decisões e destruição das hierarquias políticas que separam dirigentes e executantes. Essa concepção atravessa toda a sua obra e dá coerência aos seus principais livros.
Os bolcheviques e o controle operário ocupa lugar central nesse percurso. Nele, Brinton analisa detalhadamente o processo pelo qual os bolcheviques neutralizaram e destruíram as formas de controle operário surgidas em 1917. Os comitês de fábrica e os sovietes não foram vítimas colaterais da guerra civil ou do atraso econômico, mas obstáculos conscientes ao projeto de centralização estatal da produção. A estatização não significou socialismo. Ela preservou a separação entre aqueles que decidem e aqueles que executam, núcleo da alienação capitalista. Esse livro deve ser lido como o fundamento histórico da crítica de Brinton ao chamado socialismo real.
Essa crítica se aprofunda em textos como Comitês de Fábrica e a Ditadura do Proletariado e A Luta de Classes na Interpretação de Kronstadt. Kronstadt não aparece como erro trágico nem como episódio marginal. Ele surge como momento decisivo de confronto entre duas concepções de revolução. De um lado, trabalhadores e marinheiros que reivindicavam poder dos conselhos, eleições livres e controle direto da produção. De outro, um Estado que já havia se autonomizado e que não hesitou em usar a violência contra aqueles que ousaram questionar essa separação. Kronstadt revela, de forma nua, o nascimento de uma nova sociedade de classes.
O retorno à Comuna de Paris de 1871 reforça esse diagnóstico. No texto escrito com Philippe Guillaume, Brinton desmonta a leitura que transforma a Comuna em exemplo da necessidade de uma direção forte. O que torna a Comuna historicamente decisiva não é aquilo que lhe teria faltado, mas aquilo que ela ousou fazer. Mandatos revogáveis, supressão de privilégios e dissolução da separação entre política e vida cotidiana expressaram, ainda que de forma embrionária, a intuição de que a emancipação não poderia ser delegada.
Essa mesma preocupação orienta a leitura do Maio de 1968. Em Paris: Maio de 1968, Brinton captura o caráter profundamente subversivo daquela experiência. O Maio francês não foi uma simples revolta estudantil nem um conflito cultural. Foi a maior greve geral da história da França, marcada pela emergência de assembleias, ocupações e comitês de ação que escaparam tanto ao controle do Estado quanto à tutela dos partidos e sindicatos. Os textos Maio de 68 Francês: Reforma ou Revolução? e Maio de 68 Francês: Implicações Teóricas aprofundam essa análise, mostrando como o Partido Comunista Francês e a CGT atuaram como forças de contenção, reconduzindo o movimento aos limites da negociação salarial e da recomposição institucional.
A reflexão de Brinton não se limita à Europa central. Nos Diários de Portugal: Revolução dos Cravos, ele acompanha de perto experiências de ocupação no campo e tentativas de autogestão no Alentejo. O texto revela tanto a potência quanto a fragilidade dessas experiências. A insegurança material, o paternalismo e a intervenção estatal aparecem como fatores que corroem a iniciativa coletiva, mesmo em contextos revolucionários abertos.
Essa análise histórica desemboca numa crítica mais ampla da esquerda enquanto forma social. Em O Mal-Estar na Esquerda, Brinton mostra como demandas históricas do movimento operário foram absorvidas pelo capitalismo burocrático. Nacionalização, planejamento e welfare state deixaram de ser ameaças sistêmicas. A esquerda tradicional, ao identificar socialismo com gestão racional da economia e crescimento produtivo, tornou-se parte ativa da modernização capitalista. A crítica socialista foi neutralizada a partir de dentro.
O irracional em política e Suicídio pelo Socialismo? ampliam essa crítica ao plano subjetivo. Brinton analisa como a política moderna, inclusive a política socialista, produz abdicação do julgamento crítico, culto à liderança e adesão irracional à causa. O caso de Jonestown aparece como expressão extrema, mas não aberrante, dessas tendências. Quando o socialismo se separa da liberdade concreta, ele deixa de ser emancipação e pode se converter em negação da vida.
Nada disso se sustenta sem uma crítica frontal à forma partido, desenvolvida em A Organização Revolucionária. Para Brinton, o problema não é a ausência de organização, mas a reprodução, no interior da esquerda, da mesma divisão social que estrutura o capitalismo. Alguns pensam, decidem e dirigem. A maioria executa. Partidos, sindicatos e Estados ditos socialistas tornam-se gestores da alienação que afirmam combater.
A entrevista concedida em 1990 ajuda a compreender esse percurso. Ao narrar sua ruptura com o trotskismo e sua aproximação com Castoriadis e o grupo Socialisme ou Barbarie, Brinton deixa claro que sua crítica não vem de fora do marxismo. Ela nasce de uma tentativa de levá-lo a sério. A ideia de que a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores funciona, em sua obra, como critério rigoroso para julgar experiências históricas, organizações políticas e concepções de socialismo.
Este guia de formação não propõe Maurice Brinton como autor canônico nem como resposta definitiva aos impasses da esquerda. Ele propõe Brinton como instrumento crítico. Ler sua obra é aceitar que o problema do socialismo não começa quando ele fracassa, mas quando se afasta da autonomia humana. Capitalismo e socialismo não se distinguem apenas pela propriedade ou pela distribuição da riqueza, mas pela forma como a sociedade se organiza para decidir sobre a própria vida. Sem autogestão, sem participação direta e sem destruição das hierarquias políticas, o socialismo deixa de ser emancipação e se converte em administração racional da dominação.
Leituras Recomendadas
Livros de Maurice Brinton
- The Bolsheviks and Workers’ Control [Os Bolcheviques e o Controle Operário – 1970]
Análise clássica sobre a destruição do controle operário na Revolução Russa e a consolidação do capitalismo de Estado. - Paris: May 1968 [Paris: Maio de 68 – 1968]
Relato e análise do Maio francês a partir da autoatividade das massas, das ocupações e das formas não mediadas de organização. - The Irrational in Politics
Crítica da política enquanto esfera separada e da produção de adesões irracionais, culto à liderança e passividade.
Textos e panfletos complementares
- Capitalismo e Socialismo [1968]
Texto fundamental para compreender o núcleo da crítica de Brinton à esquerda tradicional e sua concepção de socialismo como autogestão e autonomia humana. - Comitês de Fábrica e a Ditadura do Proletariado [1975]
Debate fundamental sobre a incompatibilidade entre poder dos trabalhadores e centralização estatal. - A Luta de Classes na Interpretação de Kronstadt [1967]
Leitura decisiva sobre Kronstadt como confronto entre autogoverno e burocracia. - A Comuna de Paris, 1871 (com Philippe Guillaume) [1961]
Crítica às leituras burocráticas da Comuna e resgate de seu caráter autogestionário. - Maio de 68 Francês: Reforma ou Revolução? [1968]
Intervenção escrita no calor dos acontecimentos de 1968. - Maio de 68 Francês: Implicações Teóricas [1969]
Reflexão posterior sobre os limites e as novidades teóricas do Maio francês. - Diários de Portugal: Revolução dos Cravos [1975-1976]
Relato direto das experiências de ocupação e autogestão em Portugal. - O Mal-Estar na Esquerda [1974]
Análise da integração da esquerda tradicional à gestão do capitalismo. - Suicídio pelo Socialismo? [1979]
Crítica radical ao autoritarismo, ao culto à liderança e à negação da autonomia em nome da causa. - A Organização Revolucionária [1961]
Síntese política da crítica de Brinton à forma partido e às organizações hierárquicas. - Entrevista com Maurice Brinton [1990]
Texto fundamental para compreender o percurso intelectual e político do autor.
Boa leitura!
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