Diários de Portugal: Revolução dos Cravos – Maurice Brinton

Diários de Maurice Brinton descrevendo algumas das experiências em Portugal durante agosto de 1975 e julho de 1976.

Diário Português 1: Agosto 1975

As lutas no Alentejo

A Évora está no coração do Alentejo, e o Alentejo é a região central da revolução agrária. Os latifúndios são vastos e negligenciados há décadas. O solo é seco e duro, e nele crescem oliveiras e sobreiros. Trigo e milho também cresceriam prontamente se fosse arado e regado. Mas isso interferiria com as alegrias da caça.

É aqui que a luta de classes irrompeu em uma de suas formas mais avançadas. Os trabalhadores agrícolas tomaram diversas das grandes propriedades. Em algumas, os antigos donos fugiram, deixando, ocasionalmente, “gerentes” para defenderem seus interesses. Em outras, eles permanecerem, buscando retomar a posse por meio da justiça ou da ação direta. A relação de forças varia de vilarejo para vilarejo, de propriedade para propriedade.

Nós dormimos no chão de uma fazenda grande e isolada a cerca de 5 quilômetros da cidade. Em torno de quinze camaradas portugueses estão se alojando lá todas as noites há vários meses. A fazenda foi expropriada pelo Instituto da Reforma Agrária (IRA) local, onde revolucionários libertários trabalham numa aliança intranquila com o representante do Ministério da Agricultura e membros do MFA (Movimento das Forças Armadas) local. Seu objetivo é ajudar os trabalhadores agrícolas a resolver alguns dos problemas práticos que imediata e inevitavelmente surgem após ocupações. Os libertários querem auxiliar, sem substituir aqueles que buscam ajudar. É uma tarefa quase impossível.

A fazenda consiste de uma grande sala de estar comunal na qual são realizadas as refeições no alvorecer e no pôr do sol. Corredores levam a uma série de quartos conectados, sem nenhum mobiliário e acessórios, exceto por colchões esparramados pelo chão. Há água encanada e eletricidade, cerveja na geladeira e pão e queijo são trazidos da cidade todos os dias. Há também sten-guns em meio aos violões. Proprietários despossuídos têm ameaçado enforcar os jovens revolucionários no poste mais próximo na primeira oportunidade, “quando retornarmos ao poder”. Sob tal ameaça, o vinho é mais doce e a vida é mais bem vivida.

Em nossa primeira noite, saímos num jipe umas 30 milhas até Santana do Campo. Os aldeões têm um problema. Eles querem representantes do IRA lá, “para ajudá-los a pôr pressão no governo”. Diversas fazendas foram ocupadas na manhã. Os donos não pagam salários há várias semanas. Dois gerentes presos naquela mesma tarde “para ajudar o proprietário ausente a assumir suas responsabilidades”.

As pessoas estão reunidas na escola local – 130 agricultores com suas esposas e filhos, e um número considerável de idosos. Como é frequente no campo, a escola é o único auditório público. As luzes podem ser vistas à distância. Iluminam rostos brutos, tão variados quando seus donos, e bem diferentes dos modelos crus e estereotipados dos pôsteres maoístas. Todo o vilarejo compareceu para eleger o Conselho e decidir o que fazer com os dois homens encarcerados no estábulo. Todo mundo conhece todo mundo. Qualquer um com mais de 16 anos pode ser nomeado e votar. Pequenos bilhetes são distribuídos. Algumas das mulheres mais velhas se recusam a recebê-los. Qualquer um pode escrever o nome de qualquer outra pessoa no pedaço de papel. As oito pessoas com o maior número de votos constituirão o Conselho. Falas são desnecessárias. É na luta dos últimos meses que as credenciais foram conquistadas. Os nomes selecionados são lidos em voz alta por quatro “contadores” e os bilhetes arrumados em pequenas pilhas. O novo Conselho foi eleito.

O problema principal é então delineado aos visitantes da Évora IRA. Surgem duas opiniões: um sindicato representativo necessita de cuidado. (O Sindicato dos Agricultores está afiliado à federação sindical Intersindical, dominada pelo PCP. O Ministério da Agricultura, que é simpático ao Partido, não deve ser constrangido.) Outros sugerem uma estratégia diferente. “Não dê comida e ou bebida a eles. Deixe as notícias serem publicadas. O Banco pagará em breve”. Ninguém discute o PCP ou suas políticas. As duas alternativas se excluem mutuamente. A proposta radical garante uma maioria. O cheque se materializa dentro de 24 horas.

No dia seguinte, pegamos o jipe, no sol quente do começo da tarde, para visitar uma grande fazenda na qual os trabalhadores estão relutando em impor qualquer tipo de controle sobre o proprietário. A fazenda, construída em 1945, é lindamente planejada. Os prédios principais e os celeiros são pintados de azul e branco. Vacas pastam nos campos e nos veem passar impassivamente. Só os perus anunciam ruidosamente nossa chegada quando o jipe passa por entre eles, levantando uma grande nuvem de poeira.

Os trabalhadores da fazenda estão reunidos num grande celeiro, oito ou dez deles, sentando em sacos de grãos, conversando apaixonadamente. Nosso grupo entra com três jovens agrônomos do Instituto da Reforma Agrária de Évora (com cabelos longos e expressões determinadas), um jovem policial de uniforme (com cabelos ainda mais longos) e nós dois, turistas políticos. Uma discussão animada se inicia e dura cerca de uma hora. O MFA local está determinado em garantir que os trabalhadores elejam um comitê que exerça algum “controle” sobre o proprietário e impeça que ele realize qualquer “sabotagem econômica” – como matar o gado, se desfazer de seus tratores ou vender os grãos (em vez de guardá-los para semeio). Os trabalhadores não estão convictos. A fazenda é uma “fazenda-modelo”. O chefe manteve uma relação razoável com seus funcionários, frequentemente trabalhando entre eles. O paternalismo teve seus efeitos. Os homens não se sentem confiantes. Um trabalhador velho e desdentado articula seus medos mais íntimos: “Se elegermos um comitê, o chefe demitirá alguns de nós. É difícil encontrar trabalho esses dias. Se dificultarmos as coisas para ele, ele vai continuar pagando nossos salários? Ora, meu jovem, sim, tu com a arma, nos responde. Olha todos os problemas nas outras fazendas da região!”. É estranho ver seu conservadorismo inato bater de frente com a visão dos jovens revolucionários. Os visitantes vão embora: missão não cumprida.

Depois, na mesma tarde, vamos à outra grande fazenda, a 35 milhas da direção oposta. No caminho, passamos pelos vilarejos branqueados do Alentejo, salpicados de slogans vermelhos. Estes vilarejos são redutos do PCP. Os agricultores são comunistas naturais, genuínos e realistas. Eles querem compartilhar. Ninguém quer apropriar nada individualmente. O Partido se reivindica comunista. Os trabalhadores votam nele. É simples (e complicado) assim. A incapacidade de ler fomenta e sustenta um radicalismo feroz. Os trabalhadores não estão confusos pelas tortuosas ambiguidades dos políticos.

A fazenda, perto de Oriola, agora é propriedade de um espanhol ausente. As duas últimas milhas foram um caminho muito acidentado, que só pode ser desbravado pelo jipe. Os trabalhadores tomaram a fábrica, apesar dos esforços parciais do governo em não permitir a expropriação de propriedades de estrangeiros. Os homens não eram pagos há dez semanas. Há grandes estoques de cortiça, empilhados organizadamente, para serem vendidos, mas o caminhão foi roubado. Também há problemas com a produção de legumes, que será vendida nas cidades e precisa de refrigeração. As pessoas não aguentam mais comer tomates.

A solução do Partido Comunista para todos esses problemas é simples, eminentemente “praticável”. Todas as fazendas ocupadas devem se tornar fazendas estatais. O Ministério da Agricultura eventualmente pagará os salários. Um truste estatal será estabelecido para comprar a produção, fornecer os caminhões e cuidar dos problemas de distribuição. Os trabalhadores se sentem tentados, mas instintivamente desconfiados. Eles querem se reunir com outros trabalhadores noutras fazendas para discutir essas questões com eles, para criar cooperativas, para lidar diretamente com a população nas cidades. Eles desconfiam dos oficiais parasitas, sentados em seus escritórios na distante Lisboa, mas precisam desesperadamente de dinheiro para comprar sapatos, camisas, sabão, corda, pregos e instrumentos agrícolas. Os homens que trabalham a fazenda depois da colina têm um trator que não está sendo usado em tempo integral. Será que o Exército pode mandar que eles a disponibilizem por um tempo? Uma reunião conjunta é organizada para se discutir o problema e encontrar uma solução. O Instituto tentará obter um empréstimo intercalar do banco local. Um caminhão será providenciado para levar a cortiça à cidade. Soluções ad hoc são improvisadas. O lobo é mantido longe da porta por um tempinho. O Instituto realizou um trabalho de primeiros socorros. A esperança sobreviverá mais um pouco.

Em meio às vespas, uma mulher idosa está lavando seu linho na fonte. Os grilos estão piando. O céu está inacreditavelmente azul.

O Segundo Congresso dos Conselhos

O Segundo Congresso dos Conselhos Revolucionários de Trabalhadores, Soldados e Marinheiros (CRTSM) foi realizado em 2 e 3 de agosto de 1975, no Instituto Tecnológico de Lisboa, um enorme edifício de concreto no alto de um morro. Pôsteres o divulgando (no melhor estilo “realista-socialista”) haviam irrompido por toda a cidade vários dias antes. Uma vez que a cola havia secado, eles eram facilmente descolados, para a alegria do grande contingente de turistas revolucionários em busca de suvenires.

Fomos à sessão da tarde no segundo dia. Na entrada, uma vasta exibição de literatura copiada, distribuída gratuitamente. Pôsteres estão à venda, com seu preço crescendo rapidamente na medida em que se torna óbvio que a demanda excederá a oferta.

O saguão está lotado de jovens. A maioria parece ser estudante e uma parcela considerável não é de Portugal – se escuta tanto francês e alemão quanto português. Jovens apoiadores do PRP respondem a perguntas. Poucas são sobre trabalho, seus problemas, sua tirania, sua organização, sua suprassunção. A maioria é sobre Cuba, ou Chile, ou as alianças políticas deste ou daquele comandante do Exército. As respostas frisam o particularismo português. O Exército estará ao lado das pessoas. Otelo (Saraiva de Carvalho) fez comentários simpáticos ao PRP.

Subimos uma lance de escadas de pedra, com colunas impressionantes de ambos os lados. A reunião está marcada para começar num vasto salão que, sem dúvida, abrigou muitas cerimônias, formaturas ou algum serviço público. Colunas e mais colunas de cadeiras de madeira. Cerca de 600 pessoas presentes. A mesma mistura de antes. Pouquíssimos trabalhadores (aparentemente, um número considerável comparecera no dia anterior, mas não viera para uma segunda dose”). Não dava para reconhecer marinheiros prontamente. Cartazes nas paredes tentavam recapturar nostalgicamente a atmosfera – e até mesmo o vocabulário – de Petrogado em 1917: “Fora com a canalha! Poder a quem trabalha! Viva a revolução socialista”. Na bruma da fumaça dos cigarros, os esquerdistas continuam sonhando: O Instituto Tecnológico é Smolny; os estaleiros de Lisnave, a fábrica de Putilov.

No final do saguão há um palanque levado, sobre o qual foi montada uma longa mesa. Atrás dela, talvez uma dezena de camaradas, a maioria com barbas, duas mulheres. Na frente dos líderes pilhas organizadas de notas mimeografadas. Ligeiramente para o lado da Mesa Alta estão as esquipes de televisão com seus cabos, luzes e seus equipamentos, ocupados filmando. Os anos 1970 chegaram.

A sessão da tarde começa com mais ou menos uma hora de atraso. Vários discursos acontecem no palanque, a maioria deles durando meia hora ou mais. Nos são contadas “várias análises” da situação atual. Sem interrupções. Sem risadas. Sem protestos. Sem ovações. Na medida em que os palestrantes se seguem, os textos de suas “contribuições”, já fotocopiados, são distribuídos por mordomos. Apenas um palestrante evoca algum entusiasmo – um soldado à paisana. Se revela que ele está fazendo uma “análise crítica” dum texto publicado recentemente pela COFCON (a seção da MFA dedicada à Segurança Nacional!). Algumas das formulações estão sendo contestadas na melhor tradição pedante da “dialética”. A legitimidade dessa fonte particular de sabedoria revolucionária não está, contudo, sendo questionada.

As pessoas entram e saem silenciosamente por todo o evento. Ele é formal, bem-comportado, disciplinado e incrivelmente enfadonho – um exercício de masoquismo “revolucionário”. Tem em si a marca da morte – ou de um natimorto prolixo. Os corredores fora dele estão cheios de pôsteres. A revolução está sufocando sob a palavra escrita. Nos banheiros masculinos, em meio ao costumeiro grafite, um espertinho escreveu: PCP = Joaquim Agostinho (Primeiro Ciclista Português).

Depois de 3 horas nós saímos. Perto da saída passamos por um grande quadro de avisos. Nela estão listados os locais de trabalho “representados” no Congresso. Parece impressionante: fábricas de todos os tipos, depósitos de transporte, estaleiros, centrais telefônicas, hospitais, bancos, lojas, escritórios, todas as áreas da sociedade moderna onde as pessoas são exploradas e oprimidas. Mediante uma pergunta direta – e depois de nos recusarmos em aceitar respostas evasivas – se admitiu que apesar de membros ou apoiadores do PRP trabalharem nestes diversos locais, pouquíssimos compareciam na condição de delegados. Todo o episódio deixou um gostinho de manipulação.

Duvido que ouviremos muito mais do CRTSM. Quando o próximo surto se desenvolver, encontrará formas diferentes e um conteúdo diferente.

Os Limites da Autogestão

Guimarães é uma cidade industrial pequena, a umas 40 milhas de Porto. A fábrica têxtil Sousabreu lá é típica de muitas na região, refletindo muitos dos problemas do capitalismo português.

A fábrica, que faz toalhas, foi ocupada em 14 de setembro de 1974, após ter sido abandonada por seu dono. Mais no começo do ano, o chefe, que tinha outra fábrica na cidade havia começado a retirar o equipamento mais moderno que estava morrendo sob o pretexto de consertos. Também tinha retirado o caminhão.

Trinta e três trabalhadores (22 homens e 11 mulheres) ocuparam a fábrica para preservar seu sustento e decidiram manter a produção. Tiveram que aprender tudo do zero. Compraram o algodão a preços de atacado locais e venderam diretamente aos lojistas, visitantes, simpatizantes políticos e mesmo nos portões das fábricas locais. Para começar, eles haviam vendido parte dos estoques para pagarem seus próprios salários. Receberam pouca ajuda das seções têxteis locais e metalúrgicas da Intersindical, que são dominadas pelo PCP. O apoio do Partido às unidades autogeridas era bastante seletivo. E a Sousabreu não era uma unidade que o Partido aprovava.

Os trabalhadores haviam eleito um Comitê de sete que se encontrava quase que diariamente. Também havia assembleias bem frequentes reunindo todos na fábrica. Todos trabalhavam 48 horas por semana. Houvera uma tentativa sustentada de igualar os salários. O salário médio era de 127 escudos (pouco mais de £2) por dia. Os cuidadores das máquinas ganhavam 190 escudos. Os recém-contratados aprendizes, 70 escudos. O tema principal discutido nas assembleias gerais recentes fora sobre se tomar mais ou menos trabalho.

A fábrica consistia de um número de cabides grandes e bastante dilapidados um ao lado do outro, num dos quais estavam os teares. As máquinas pareciam ter no mínimo trinta anos e eram barulhentas e estavam empoeiradas. Havia teias de aranha em todos os lugares e pouca luz entrava nos salões. A primeira tarefa da revolução socialista seria um ataque sustentado à tecnologia capitalista. Mas aqui mal havia dinheiro suficiente para os salários, quanto mais para modernizar a fábrica.

Nos cômodos adjacentes, mulheres verificavam as toalhas, as dobravam, embalando-as em embalagens de plástico. O cômodo estava mais bem iluminado e elas conversam entre si. Me aproximei de uma mulher com uns quarenta anos que trabalhara lá há 15 anos. O que era diferente agora? “Primeiro”, disse, não há mais supervisores fungando no seu pescoço. Tinha 3 supervisores só nessa sala… agora nós decidimos a velocidade do nosso trabalho e não vivemos mais com medo de desagradar alguém. Nós mesmos administramos o lugar. Se eu quiser ir às compras uma tarde ou se uma das crianças estiver doente, nós podemos deliberar e ter um tempo de folga, sem perder renda. Ninguém tira vantagem disso. Nós sabemos que nosso sustento coletivo depende de produzirmos um número dado de toalhas todo mês”.

A adversidade criara uma forte solidariedade. Quando os ganhos eram muito baixos, os mais necessitados tinham sido pagos primeiro. Todo mundo tinha consciência dos problemas dos outros. Recentemente, as coisas não estavam tão ruins. Este ano, pela primeira vez, tinham gozado de duas semanas de férias remuneradas.

Suas principais reclamações eram sobre como as pessoas deformavam o significado do que faziam. Seus pôsteres mostravam uma intensa consciência de sua própria condição. Não podem existir muitas fábricas cheias de trechos dos Manuscritos Econômico Filosóficos nas paredes. Sabiam muito bem que ainda eram escravos assalariados, que o que estava sendo autogerido era sua própria alienação. Agora trabalhavam mais duro do que antes, mas tinham ganhado uma autoconfiança que não tinham antes. Realizaram fóruns de debate com representantes de outras fábricas autogeridas para estabelecer relações e trocar experiências e produtos. Haviam inclusive permutado camisas por toalhas, um deles nos contou com brilho nos olhos. Haviam descoberto muito sobre o funcionamento da sociedade capitalista que seria útil para eles “quando chegasse a hora”. Também haviam aprendido muito rapidamente sobre os sindicatos, que tinham se recusado a ajudá-los ou só os condenando com falsos elogios. Sobretudo, aprenderam muito sobre si mesmos.

Colhendo os frutos

A sede do PCP em Famalicão, ao norte de Porto, estava estilhaçada. Antes de abril de 1974 os dirigentes acreditavam que a alfabetização produzia subversão. Só havia um lugar na cidade onde os ricos podiam obter educação secundária: uma escola particular cara, construída solidamente atrás de uma coluna de árvores altas.

Com o colapso do regime de Caetano, o edifício fora tomado pela célula do PCP local. Não conseguia deixar de pensar como ela era um reduto stalinista ideal, separada por seus altos muros, sua impressionante entrada evocativa com respeitabilidade. Daqui o Partido havia realizado suas manipulações do governo local, dos ramos sindicais, das cooperativas, da concessão de créditos agrícolas. As coisas tinham sido dadas de mão beijada à reação[1].

Após uma reunião ao ar livre, no começo de agosto, uma multidão protestando contra a natureza sub-representativa dos diversos órgãos locais havia sitiado a escola e tentado incendiá-la. Militantes do Partido haviam atirado das janelas superiores, ferindo dois manifestantes. A MFA havia chegado à cena para “restaurar a ordem” (seus tiros mataram mais dois manifestantes).

Intervenções da MFA nesses episódios tinham, nos contaram, sido interessantes de assistir. Às vezes os soldados ameaçavam a multidão com suas armas, virando suas costas para os stalinistas sitiados. Em outras ocasiões viravam suas costas para a multidão, confrontando os membros do Partido com suas armas. Atitudes variavam de local para local, de regimento para regimento, de momento para momento. Em Famalicão os soldados encararam a multidão, buscando restringi-la. Após um sítio de 48 horas, os escudeiros do Partido local receberam ordens da Sede do Partido em Lisboa para evacuar as instalações. Durante todo o sítio não houve sinais de apoio proletário na cidade, nem mesmo uma grevezinha. As instituições controladas pelo aparato do Partido eram conchas vazias. O Partido não tinha raízes na vida real.

A raiva popular havia, então, irrompido. O lugar parecia ter sido atingido por um tornado. Um carro virado, queimado, jazia grotescamente na rua em frente. A entrada estava cheia de papéis, pôsteres e cartões do Partido queimados. Um panfleto desconsolado anunciando uma reunião que nunca ocorreria. No prédio em si todas as janelas haviam sido quebradas. Projetores instalados na sacada superior haviam sido esmagados. Não havia mais nenhuma mobília no prédio. O lugar agora estava desprotegido. Visitantes passavam em frente, olhando os destroços. Tinham que tomar cuidado ao pisar, pois os “vitoriosos” tinham deixado cocô por todo o lugar. O MRPP (maoísta) emitiu uma declaração acolhendo a “retribuição popular contra os socialfascistas”. Mas não era simples assim. A bandeira vermelha fora queimada. Uma bandeira portuguesa agora tremulava provocadoramente de uma janela do sótão. Sob ela, uma grande inscrição proclamava: “Edifício será tomado por refugiados de Angola”.

Publicado em: Solidarity: For Workers’ Power, Vol. 8, No. 3 (Dezembro 1975), pp. 17-23

Diário Português 2: 1976

Dezenove de abril de 1976: uma equipe da Rádio Televisão Português está filmando, num furgão, um programa sobre “a visão do socialismo”. Está parando nas ruas, nos portões de fábrica, em mercados, conversando com as pessoas e gravando suas respostas. Dentro do furgão é bem apertado: sete pessoas e muitos equipamentos.

Vamos a Barreiro, uma cidade industrial do outro lado do rio de Lisboa. Depois de chegarmos lá, não há problemas em chegar às gigantescas obras químicas da CUF. O dia está cinzento, parte nublado, parte fumaça. As paredes também são cinzas, as torres d’água acima de nós parecem ter sido construídas no século passado. Longas ruas de hangares, lojas, galpões, muitos com janelas quebradas. Há barulho, e a poeira e o reboco está descascando da frente de muitos edifícios. Odores pesados permanecem no ar. A rua está em mau estado de conservação. Um capitalismo à moda antiga coabita em paz com o novo.

Passamos por ruelas de casas avarandadas miúdas e decrépitas. “Rua Ácido Sulfúrico”. “Rua Cera de Vela”. O capitalismo inclusive mata a imaginação. As casas foram construídas seis ou sete décadas atrás, talvez mais. As pessoas ainda moram ali – quer dizer, mais ou menos.

Este é o reduto do PCP, seu domínio ideológico e físico. Seus pôsteres estão em todos os cantos. Um gigantesco balão do PCP está amarrado a uma corda entre dois telhados. “Unidade com a MFA”. “Vote no PCP”. O furgão para e a equipe toma suas posições perto de um grupo de dez mulheres indeterminadas, entrando. Eles não são nem um pouco tímidos e falam prontamente: “Socialismo?”; “Um emprego estável!”; “Assim?”; não recebem resposta. Uma garoa firme está caindo. “Assim?”, repete o produtor. As mulheres, percebendo algo estranho, se viram contra ele, xingam a televisão e vão embora, com seus punhos erguidos, gritando “PCP! PCP!”

***

Também há momentos alegres. Caminhando pela orla do rio Tejo, entre a Estação e a Praça do Comércio, paramos em frente a um exemplo particularmente belo de arte no muro. Enorme. Inesquecível. O “realismo socialista” no seu mais horrendo e melhor.

Os vermelhos e amarelos estão espalhafatosos como de costume – caricaturas da cor real. Os oprimidos têm queixos bem quadrados, cabelo bem curto, braços enormes e um olhar bem determinado. O proletariado, como visto pelos maoístas é claramente mais músculo que cérebro: o tipo de animal que qualquer leninista habilidoso conseguiria conduzir à revolução! Mas os “anarco-cinicalistas” fizeram sua parte. O capitalismo moderno exige o transporte moderno. O líder do MRPP está chamando um táxi.

***

Outra história sobre táxis. Em Elvas, no leste, algumas das propriedades dos latifundiários foram tomadas por aqueles que trabalham nelas. O padrão usual é os trabalhadores ocuparem primeiro e buscarem a autoridade depois – do centro local do IRA.

Um latifundiário expropriado recentemente também tinha o maior negócio de táxis da cidade. Seus motoristas o odiavam bastante e estavam muito impressionados com as novas movimentações na cooperativa. Então tomaram os táxis. Mas não é fácil matar o culto à autoridade. O ato precisava ser “legitimado”, registrado “nos livros”. Então, todos os motoristas de táxi comparecem numa manhã à sede do IRA para uma sanção “oficial”. O Ministério da Agricultura tem arquivos sobre os inquilinos, árvores e touros… e ajuda técnica – mas nada sobre como se apropriar legalmente de uma frota de táxis. A Revolução cria seus próprios precedentes surreais.

***

Primeiro de maio de 1976. Avenida Almirante Reis em Lisboa. O ato convocado pela Intersindical está passando. Trabalhadores municipais nos seus melhores trajes. Ferroviários em colunas compactas, caminhões decorados cheios de trabalhadores agrícolas carregando forquilhas. Às vezes cantando. Rindo bem de vez em quando. Comerciantes vendem adesivos políticos estrondosamente, às vezes para aqueles assistindo à procissão: adesivos para a Associação de Fazendas Coletivizadas, para o Fundo de Habitação, para grupos estudantis ou de mulheres. Professores, trabalhadores da construção e de hospitais cantam “Intersindical, Intersindical” enquanto passam, dez ou doze lado a lado. Vinte mil pessoas marcham – aparentemente muito menos do que no ano passado. O trânsito foi prudentemente interrompido, embora os motoristas portugueses tenham aprendido a ser pacientes da forma mais difícil.

É belo dia quente. Bandeiras, inacreditavelmente, ainda exigem “Unidade com o MFA” – o mesmo MFA que é agora o principal freio da revolução. Também exigirem o direito ao pleno emprego e a vigilância contra fascistas.

Estou sentindo um desânimo? Não há nenhuma da exaltação ou da euforia nem de uns meses atrás, como se as pessoas tivessem percebido que seria preciso mais do que grafitti para derrubar os muros do capital. O Partido está em todos os lugares, embora em nenhum esteja com sua roupa verdadeira. Na Associação dos Professores Universitários. Na Associação das Associações Municipais. Os bancários marcham gritando “Não à Reação!” Um ou dois Comitês de Inquilinos carregam bandeiras coloridas… exigindo empréstimos do governo. Os dois grupos marcham um ao lado do outro. Alguém deveria apresentá-los um ao outro!

No fim da procissão uma massa de bandeiras vermelhas e umas centenas de pessoas muito jovens gritam roucamente: “Unidade sindical, unidade sindical”. Poder-se-ia estar sonhando. Querem que o PCP e o PS (Partido Socialista) tomem o poder, para expô-los. E a Intersindical também. Formar um governo “sem generais ou capitalistas”. Sim, os trotskistas. No seu lugar legítimo. No final de uma manifestação stalinista.

Publicado em: Solidarity, VIII, 4 (Julho 1976)


[1] A reação já tinha uma base econômica e ideológica no Norte (com base na estrutura da propriedade da terra, no medo de os pequenos fazendeiros pobres se tornarem ainda mais pobres e na propaganda sistemática da Igreja).

A tradução foi realizada por Thiago Papageorgiou, segundo as versões disponíveis em: https://libcom.org/history/portuguese-diary-1-august-1975-maurice-brinton & https://libcom.org/history/portuguese-diary-2-1976-maurice-brinton.

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