A Luta de Classes na Interpretação de Kronstadt – Maurice Brinton

Publicado em: Solidarity Pamphlet 27 (November 1967) | Prefácio para a edição inglesa do livro “A Comuna de Kronstadt” de Ida Mett.

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa será abordado, analisado, celebrado ou lamentado de várias maneiras.

Para os negociantes do misticismo religioso e os advogados da “liberdade de empreendimento”, a deserção sensacional (e bem cronometrada) de Svetlana Stálin[1] “provaria” a resiliência de suas respectivas doutrinas, agora demonstradas como capazes de florescer naquilo que à primeira vista pareceria solo infértil.

Para os liberais incorrigíveis, a recente e cautelosa reintrodução da motivação pelo lucro em certos setores da economia russa[2] “provaria” que o laissez-faire econômico é sinônimo da natureza humana e que uma economia racionalmente planejada seria sempre um piedoso sonho impossível.

Para aqueles “esquerdistas” (como o falecido Isaac Deutscher) que viam na industrialização da Rússia uma garantia automática de atitudes mais liberais nos dias vindouros, a prisão de Daniel e Sinyavsky[3] por crime de pensamento (e a perseguição em andamento daqueles que os apoiaram) veio como um retumbante tapa na cara.

Para os “marxistas-leninistas” da China (e Albânia), a reaproximação da Rússia com os Estados Unidos, sua passividade na recente crise do Oriente Médio[4], sua assinatura do Tratado de Interdição de Testes[5] e sua influência reacionária nos desenvolvimentos revolucionários nos países coloniais dariam testemunho de seu acelerado deslizamento no pântano do revisionismo, após a morte do Grande Stálin[6] (Stálin, será lembrado como o autor de medidas tão revolucionárias e não revisionistas como a eliminação dos Velhos Bolcheviques, os Julgamentos de Moscou, a Frente Popular, o Pacto Nazi-Soviético, os Acordos de Teerã e Yalta e as dinâmicas lutas dos Partidos Comunistas francês e italiano no imediato pós-guerra, lutas que levaram à sua tomada direta do poder em seus respectivos países).

Para os iugoslavos, reintegrados afinal depois de sua errância adolescente fora do conjunto, a reemergência de “sanidade” em Moscou será vista como corroboração de suas piores suspeitas. Os “problemas” de 1948 foram claramente todos devidos às maquinações do maligno Beria[7]. Mihajlo Mihajlov[8] agora sucede Djilas[9] atrás das grades de uma prisão do povo… apenas para lembrar hereges políticos de que também na Iugoslávia, a “democracia proletária” está confinada àqueles que se abstém de perguntar as questões constrangedoras.

Para os trotskistas de toda laia, ao menos para aqueles capazes de pensar por si mesmos, o mero fato das celebrações do quinquagésimo aniversário deveria dar o que pensar. O que as palavras significam? O quanto uma sociedade em transição pode ser “transicional”? Quatro décadas de “bonapartismo” não podem fazer da palavra uma ninharia insignificante? Como os cristãos inabaláveis carregando sua cruz, os trotskistas inabaláveis vão seguir adiante carregando a marca da sua questão (relativa à evolução futura da sociedade russa) pelo resto da sua existência terrena? Pois por quanto tempo mais eles vão seguir adiante gargarejando com as velhas palavras de ordem de “restauração capitalista ou avanço rumo ao socialismo” propostas por seu mentor em sua Revolução Traída… trinta anos atrás! Certamente apenas os cegos podem agora deixar de enxergar que a Rússia é uma sociedade de classe de novo tipo, e tem sido por várias décadas.

Aqueles que descartaram essas mistificações – ou que nunca foram cegados por elas – verão as coisas diferentemente. Eles vão sentir que não pode haver vestígio de socialismo numa sociedade cujos governantes são capazes de aniquilar fisicamente os conselhos operários húngaros[10], denunciar igualitarismo e controle operário da produção como desvios “pequeno-burgueses” ou “anarco-sindicalistas”, e aceitar o assassinato a sangue frio de toda uma geração de revolucionários como meras “violações da legalidade socialista”, a serem retificadas – tão cautelosamente e cheio de tato – pela técnica de “reabilitação póstuma seletiva”. Será óbvio para eles que algo deu seriamente errado com a Revolução Russa. O que foi que deu errado? E quando a “degeneração” começou?

Aqui também as respostas diferem. Para alguns os “excessos” e “enganos” são atribuíveis a uma lamentável paranoia se insinuando lentamente sobre um Stálin em envelhecimento. Essa interpretação (além do fato de tacitamente aceitar o próprio “culto do indivíduo” que seus defensores dizem condenar) falha, entretanto, em explicar a repressão de revolucionários e a conciliação com o imperialismo perpetrados num período muito anterior. Para outros a “degeneração” se estabeleceu com a derrota final da Oposição de Esquerda como uma força organizada (1927), ou com a morte de Lênin (1924), ou com a abolição das facções no 10º Congresso do Partido (1921). Para os bordiguistas, a proclamação da Nova Política Econômica (1921) irrevogavelmente carimbou a Rússia como “capitalismo de estado”. Outros, rejeitando corretamente essa preocupação com as minúcias da datação revolucionária, destacam fatores mais gerais, embora, em nossa opinião, alguns dos menos importantes.

Nosso propósito em publicar este texto sobre os eventos de Kronstadt em 1921 não é esboçar um calendário alternativo. Nem estamos procurando ancestrais políticos. A construção de uma sucessão apostólica ortodoxa é a menor de nossas preocupações (num mundo em constante transformação, isso apenas daria testemunho da nossa esterilidade teórica). Nossa tarefa é simplesmente documentar alguns dos enfrentamentos reais – mas menos conhecidos – que tiveram lugar contra a burocracia crescente durante os primeiros anos pós-revolucionários, num momento em que os críticos posteriores da burocracia eram eles mesmos parte integrante do aparato.

O quinquagésimo aniversário da Revolução Russa nos presenteia com a absurda visão de uma classe dominante russa (que a cada dia se assemelha mais com sua contraparte ocidental) solenemente celebrando a revolução que derrubou o poder burguês e permitiu às massas, por um breve momento, visualizar um tipo totalmente novo de ordem social.

O que tornou possível esse trágico paradoxo? O que estilhaçou aquela visão? Como a revolução degenerou?

Muitas explicações são oferecidas. A história de como a classe operária russa foi despojada não é, entretanto, uma questão de discussão esotérica entre facções políticas, que compensam sua própria irrelevância por jornadas mentais no mundo encantado do passado revolucionário. Um entendimento do que teve lugar é essencial para todo socialista sério. Não é mero arquivismo.

Nenhuma classe dominante viável domina apenas pela força. Para dominar ela deve conseguir que sua própria visão da realidade seja aceita pela sociedade de modo geral. Os conceitos pelos quais ela tenta legitimar seu domínio precisam ser projetados no passado. Os socialistas têm reconhecido corretamente que a história ensinada nas escolas burguesas revela uma visão de mundo particular e distorcida. Que a história socialista tenha permanecido na sua maior parte não escrita é uma medida de fraqueza do movimento revolucionário.

O que passa por história socialista é frequentemente apenas uma imagem espelhada da historiografia burguesa, uma infiltração dentro das fileiras do movimento operário de métodos de pensamento tipicamente burgueses. No mundo desse tipo de “historiadores”, os líderes e gênios substituem os reis e rainhas do mundo burguês. Congressos famosos, rachas e controvérsias, a ascensão e queda de partidos políticos ou sindicatos, a emergência ou degeneração dessa ou aquela liderança substituem as batalhas mortíferas dos dominadores do passado. As massas nunca aparecem independentemente no palco histórico, fazendo sua própria história. No melhor caso elas “fornecem o vapor”, habilitando outros a dirigir a locomotiva, como Stálin colocou tão delicadamente.

“Na maior parte do tempo, historiadores ‘oficiais’ não têm olhos para ver ou ouvidos para ouvir os atos e palavras que expressam a atividade espontânea da classe operária… Lhes faltam as categorias de pensamento – alguém poderia dizer até que faltam as células cerebrais – necessárias para entender ou mesmo perceber essa atividade como ela realmente é. Para eles uma atividade que não tem líder ou programa, nem instituições e nem estatutos, pode apenas ser descrita como ‘problemas’ ou ‘desordens’. A atividade espontânea das massas pertence por definição ao que a história suprime.[11]

Essa tendência de identificar a história da classe operária com a história de suas organizações, instituições e líderes não é apenas inadequada – ela reflete uma visão tipicamente burguesa do gênero humano, dividido de maneira quase pré-ordenada entre os poucos que administram e decidem, e os muitos, a massa maleável, incapaz de agir conscientemente em seu próprio interesse, e para sempre destinada a permanecer o “objeto” (e nunca o “sujeito”) da história. A maioria das histórias da degeneração da Revolução Russa raramente alcança mais do que isso.

A burocracia stalinista foi única em ter apresentado uma visão da história baseada em mentiras absolutas, ao invés da mistura mais usual de distorção sutil e automistificação. Mas as revelações de Kruschev[12] e os desenvolvimentos subsequentes na Rússia fizeram com que as versões oficiais dos eventos (em todas as suas variações) fossem questionadas até mesmo por membros do Partido Comunista. Até os graduandos do que Trotsky chamou de “escola de falsificação de Stálin” estão agora começando a rejeitar as mentiras da era stalinista. Nossa tarefa é levar o processo de desmistificação um pouco mais adiante.

De todas as interpretações da degeneração da Revolução Russa a de Isaac Deutscher é a mais amplamente aceita na esquerda. Ela ecoa a maioria das pressuposições dos trotskistas. Apesar de ser uma melhoria em relação às versões stalinistas, está longe de ser suficiente. A degeneração é vista como sendo devida a fatores estritamente conjunturais (o isolamento da revolução em um país atrasado, a devastação causada pela guerra civil, o peso esmagador do campesinato, etc.). Esses fatores são indubitavelmente importantes. Mas o crescimento da burocracia é mais do que apenas um acidente na história. É um fenômeno de escala mundial, intimamente ligado a um certo estágio no desenvolvimento da consciência da classe operária. É o terrível preço pago pela classe operária por seu atraso em reconhecer que sua emancipação final e verdadeira só pode ser alcançada pela própria classe operária, e não pode ser confiada a outros, alegadamente agindo em seu nome. Se o “socialismo é autoconsciência total e positiva do homem” (Marx, 1844), a experiência (e rejeição) da burocracia é um passo nessa direção.

Os trotskistas negam que as oposições iniciais ao desenvolvimento da burocracia tinham qualquer conteúdo revolucionário. Ao contrário, eles denunciam a Oposição Operária e os rebeldes de Kronstadt como basicamente contrarrevolucionários. Oposição real, para eles, começa com a proclamação, dentro do partido, da Oposição de Esquerda de 1923. Mas qualquer um ao menos familiarizado com o período saberá que em 1923 a classe operária já tinha suportado uma derrota decisiva. Já tinha perdido o poder na produção para um grupo de gerentes apontados desde cima. Já tinha também perdido poder nos conselhos[13], que eram agora apenas um fantasma da sua antiga forma, um carimbo para a burocracia emergente. A Oposição de Esquerda lutou dentro dos limites do partido, que já estava ele mesmo altamente burocratizado. Nenhum número substancial de operários marchou por sua causa. A vontade de lutar dos operários já tinha sido consumida pelos longos enfrentamentos dos anos precedentes.

A oposição às medidas antioperárias tomadas pela liderança bolchevique nos anos imediatamente seguintes à revolução tomou muitas formas e se expressou por muitos canais diferentes e em muitos níveis. Ela se expressou dentro do próprio partido, através de numerosas tendências de oposição, das quais a Oposição Operária (Kollontai, Lutovinov, Shlyapnikov) é a mais conhecida[14]. Fora do partido a oposição revolucionária encontrou expressão heterogênea, na vida de numerosos grupos, frequentemente ilegais (alguns anarquistas, alguns anarcossindicalistas, outros professando ainda uma fidelidade básica ao marxismo[15]). Ela também encontrou expressão na atividade espontânea e frequentemente “não organizada” da classe, como as grandes greves em Leningrado[16] em 1921 e a revolta de Kronstadt. Ela encontrou expressão na crescente resistência dos operários à política industrial bolchevique (e em particular à tentativa de Trotsky de militarizar os sindicatos). Ela também encontrou expressão na resistência proletária às tentativas bolcheviques de expulsar todas as outras tendências dos conselhos, dessa forma efetivamente amordaçando todos aqueles que buscavam reorientar a construção socialista conforme linhas inteiramente diferentes.

Num estágio inicial, várias tendências lutaram contra a degeneração burocrática da Revolução. Ao excluí-los postumamente das fileiras revolucionárias, trotskistas, leninistas e outros cometem uma dupla injustiça. Primeiramente eles excomungam todos aqueles que previram e enfrentaram a burocracia nascente antes de 1923, dessa forma se tornando surdos a algumas das mais pertinentes e válidas críticas já enunciadas contra a burocracia. Secundariamente, eles enfraquecem sua própria causa, pois se as demandas por conselhos livremente eleitos, por liberdade de expressão (democracia proletária) e por gestão operária da produção estavam erradas em 1921, por que elas se tornaram parcialmente corretas em 1923? Por que são corretas agora? Se em 1921 Lênin e Trotsky representavam os “reais interesses” dos operários (contra os próprios operários), por que Stalin não poderia? Por que Kadar[17] não poderia na Hungria em 1956? A escola trotskista de santificação tem ajudado a obscurecer as verdadeiras lições da luta contra a burocracia.

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Quando se estuda seriamente os anos cruciais após 1917, quando o destino da Revolução Russa ainda estava em ebulição no caldeirão, tem-se a atenção repetidamente voltada para os trágicos eventos da revolta de Kronstadt de 1921. Esses eventos são, de uma maneira sangrenta e dramática, a epítome da luta entre dois conceitos de Revolução, dois métodos revolucionários, dois tipos de ethos revolucionário. Quem decide o que é e o que não é interesse da classe operária em longo prazo? Quais métodos são permitidos para acertar as diferenças entre revolucionários? E quais métodos têm dois gumes e são capazes de, na longa duração, prejudicar a própria Revolução?

Há notavelmente pouco de natureza detalhada disponível em inglês sobre os eventos de Kronstadt. As histórias stalinistas, revisadas e reeditadas de acordo com as fortunas flutuantes dos funcionários do partido, não valem o papel em que são escritas. Elas são um insulto à inteligência de seus leitores, tratados como incapazes de comparar os mesmos fatos descritos em edições anteriores e posteriores do mesmo livro.

Os escritos de Trotsky sobre Kronstadt são poucos e mais preocupados com justificação retrospectiva e com a marcação de pontos no debate contra os anarquistas[18], do que em analisar seriamente esse episódio particular da Revolução Russa. Trotsky e os trotskistas são particularmente atentos ao perpetuar o mito de que eles foram a primeira e única tendência anti-burocrática coerente. Todos os seus escritos buscam esconder o quanto a burocratização tanto do partido como dos conselhos já tinha ido longe em 1921, isto é, o quanto já tinham ido longe durante o período em que Lênin e Trotsky tinham controle total e indisputado. A tarefa para os revolucionários sérios hoje é ver a ligação entre as atitudes e pronunciamentos de Trotsky antes e durante o “grande debate sindical” de 1920-21 e a saudável hostilidade ao trotskismo das camadas mais avançadas e revolucionárias da classe operária industrial. Essa hostilidade se manifestaria, de armas na mão, durante a revolta de Kronstadt. Ela se manifestaria também dois ou três anos depois, dessa vez de braços cruzados, quando essas camadas avançadas deixaram de marchar em apoio a Trotsky, quando ele finalmente decidiu desafiar Stálin, dentro dos estreitos limites da máquina do partido, para cuja burocratização ele tinha contribuído significativamente[19].

Deutscher no “Profeta Armado” retrata o pano de fundo da Rússia durante os anos da Guerra Civil, o sofrimento, o deslocamento econômico, a exaustão física absoluta da população. Mas o retrato é unilateral, ele se propõe a afirmar que a “vontade de ferro dos bolcheviques” era o único elemento de ordem, estabilidade e continuidade numa sociedade que estava pairando à beira do colapso total. Ele presta atenção reduzida às tentativas feitas por grupos de operários e revolucionários, tanto dentro do partido como fora de suas fileiras, de tentar a reconstrução social numa base inteiramente diferente, desde baixo[20]. Ele não discute a permanente oposição e hostilidade dos bolcheviques à gestão operária da produção[21] ou na verdade a qualquer empreendimento em larga escala que escapasse à sua dominação e controle. Dos eventos de Kronstadt em si, das calúnias dos bolcheviques contra Kronstadt e da repressão frenética que se seguiu aos eventos de março de 1921, Deutscher diz quase nada, a não ser que as acusações dos bolcheviques contra Kronstadt eram “infundadas”. Deutscher falha totalmente em enxergar a relação direta entre os métodos usados por Lênin e Trotsky em 1921 e aqueles outros métodos, aperfeiçoados por Stálin e depois usados contra os próprios velhos bolcheviques durante os notórios julgamentos de Moscou de 1936, 1937 e 1938.

Nas “Memórias de um Revolucionário” de Victor Serge há um capítulo dedicado a Kronstadt[22]. Os escritos de Serge são particularmente interessantes pelo fato de que ele estava em Leningrado (sic) em 1921 e apoiava o que os bolcheviques estavam fazendo, mesmo que relutantemente. Entretanto, ele não recorreu às difamações e deturpações de outros membros da liderança do partido. Seus comentários trazem luz ao estado mental quase esquizofrênico dos militantes de base do partido naquele momento. Por diferentes razões, nem os trotskistas nem os anarquistas perdoaram em Serge sua tentativa de reconciliar o que havia de melhor em suas respectivas doutrinas: a preocupação com a realidade e a preocupação com princípios.

Escritos anarquistas de algum valor e facilmente disponíveis (em inglês) sobre o assunto são virtualmente inexistentes, apesar do fato de que muitos anarquistas consideram essa área relevante para suas ideias. “Vivendo Minha Vida” de Emma Goldman e “O Mito Bolchevique” de Berkman contém algumas páginas vívidas mas altamente subjetivas sobre a rebelião de Kronstadt. “A Revolta de Kronstadt” de Anton Ciliga (produzido como panfleto em 1942) é um excelente relato curto que encara diretamente algumas das questões fundamentais. Está indisponível há anos. O relato de Voline, por outro lado, é muito simplista. Fenômenos complexos como a revolta de Kronstadt não podem ser significativamente interpretados por generalizações carregadas do tipo “como marxistas, autoritários e estatistas, os bolcheviques não poderiam permitir nenhuma liberdade ou ação independente às massas”. (Muitos argumentaram que há fortes traços blanquistas[23] e até mesmo bakuninistas no bolchevismo, e que é precisamente esses afastamentos do marxismo que estão na raiz da ideologia e prática “elitistas” dos bolcheviques). Voline até mesmo reprova os rebeldes de Kronstadt por “falarem em poder (o poder dos conselhos) ao invés de se livrarem da palavra de uma vez…” A luta prática, entretanto, não era contra “palavras” ou “ideias”. Era uma luta física contra sua encarnação concreta na história (na forma de instituições burguesas). É um sinal da confusão dos anarquistas nessa questão que eles possam igualmente reprovar os bolcheviques por terem dissolvido a assembleia constituinte[24] e os rebeldes de Kronstadt por proclamarem que defendiam o poder dos conselhos! Os anarquistas nos conselhos claramente percebiam o que estava em jogo, mesmo que muitos dos seus sucessores falhem em fazê-lo. Eles lutaram para defender a conquista mais profunda de outubro, o poder dos conselhos, contra todos os seus usurpadores, incluindo os bolcheviques.

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Nossa contribuição às celebrações do quinquagésimo aniversário não consiste nos usuais panegíricos às aquisições dos mísseis e foguetes russos. Nem cantaremos odes às estatísticas da produção russa de aço. A expansão industrial pode ser um pré-requisito para uma vida melhor e mais completa, mas não é de forma alguma um sinônimo de uma tal vida, a menos que todas as relações sociais tenham sido revolucionadas. Nós estamos mais preocupados com os custos sociais das conquistas russas.

Alguns perceberam quais seriam esses custos num estágio bem inicial. Nós estamos interessados em trazer suas advertências proféticas a uma audiência bem mais ampla. O massacre final em Kronstadt teve lugar em 18 de março de 1921, exatamente cinquenta anos depois do extermínio dos comunardos por Thiers e Callifet. Os fatos sobre a Comuna são bem conhecidos. Mas cinquenta anos depois da Revolução Russa nós ainda temos que buscar informações básicas sobre Kronstadt. Os fatos não são fáceis de obter. Eles quedaram soterrados por montanhas de calúnias e distorções despejados sobre eles por stalinistas e trotskistas igualmente.

A publicação deste panfleto em inglês, neste momento particular, é parte deste empreendimento. O livro de Ida Mett “A Comuna de Kronstadt” foi publicado pela primeira vez em 1938. Ele foi republicado na França dez anos depois, mas esteve indisponível por muitos anos. Em 1962 e 1963 certas partes dele foram traduzidas em inglês e apareceram em Solidarity (II, 6 a 11). Nós agora temos o prazer de trazer aos leitores falantes de inglês uma versão levemente abreviada do livro como um todo, que contém materiais até agora indisponíveis na Inglaterra.

Além de vários textos publicados no próprio local em março de 1921, o livro de Ida Mett contém a carta aberta de Petrichenko de 1926, endereçada ao Partido Comunista Britânico. Petrichenko foi o presidente do Comitê Revolucionário Provisório de Kronstadt. Sua carta se refere às discussões no Bureau Político do Partido Comunista Britânico sobre a questão de Kronstadt, discussões que parecem ter aceito que não houve intervenções estranhas durante a revolta (membros do partido e outros podem buscar esclarecimento adicional sobre a questão em King Street[25], cujos arquivos sobre o assunto devem proporcionar uma leitura interessante).

Ida Mett escreve de um ponto de vista anarquista. Seus escritos, entretanto, representam o que há de melhor na tradição revolucionária do “anarquismo de luta de classes”. Ela pensa em termos de uma solução coletiva, proletária, aos problemas do capitalismo. A rejeição da luta de classes, o anti-intelectualismo, a preocupação com moralidade transcendental e salvação pessoal que caracteriza tantos dos anarquistas de hoje não deve desviar os “marxistas” de prestar atenção seriamente ao que ela escreve. Nós não necessariamente endossamos todos os seus julgamentos e em algumas notas de rodapé corrigimos uma ou duas imprecisões factuais menores em seu texto. Algumas das suas generalizações parecem para nós muito sumárias e algumas das suas análises do fenômeno burocrático muito simples para ter algum uso real. Mas como uma crônica do que teve lugar antes, durante e depois de Kronstadt, seu relato permanece insuperável.

Seu texto joga uma luz interessante sobre a atitude em relação à revolta de Kronstadt mostrada no momento por várias tendências políticas russas (anarquistas, mencheviques, Socialistas Revolucionários – SR – de esquerda e de direita, bolcheviques, etc.). Alguns para quem a abordagem da política é superficial ao extremo (e para quem uma difamação ou palavra de ordem é substituto para o entendimento real) vão apontar acusadoramente para alguns desses testemunhos, para alguns desses manifestos e resoluções, como uma evidência condenando irrevogavelmente os rebeldes de Kronstadt. “Veja”, eles vão dizer “o que os mencheviques e SR de direita estão dizendo. Veja como eles estão defendendo um retorno à Assembleia Constituinte, e ao mesmo tempo proclamando sua solidariedade com Kronstadt. Isso não é uma prova positiva de que Kronstadt era um levantamento contrarrevolucionário? Vocês mesmos admitem que renegados como Victor Tchernov, presidente eleito da Assembleia Constituinte, ofereceu ajuda a Kronstadt? Que evidência adicional é necessária?”

Nós não temos medo de apresentar todos os fatos aos nossos leitores. Deixe que julguem por si mesmos. Temos a firme convicção de que a maioria dos leninistas e trotskistas é mantida tão ignorante desse período da história russa quanto os stalinistas do período dos julgamentos de Moscou. No melhor dos casos eles pressentem vagamente a presença de esqueletos no armário. No pior, eles papagaiam vagamente o que seus líderes lhes contam, intelectualmente preguiçosos demais ou politicamente muito bem condicionados demais para pesquisar por si mesmos. Revoluções reais nunca são “puras”. Elas desencadeiam as paixões mais profundas dos homens. As pessoas participam ativamente e são tragadas ao vórtice de tais acontecimentos por uma variedade de razões frequentemente contraditórias. Consciência e falsa consciência estão inextricavelmente misturadas. Um rio em plena cheia inevitavelmente carrega consigo uma certa quantidade de escombros. Uma revolução em plena vazão carrega inúmeros cadáveres políticos, e pode até mesmo momentaneamente dar-lhes um aspecto de vida.

Durante a Revolução Húngara de 1956 foram muitas as mensagens de apoio verbal ou moral aos rebeldes, emanando do ocidente, piedosamente pregando as virtudes da democracia burguesa e da livre empresa. O objetivo daqueles que falavam nesses termos era qualquer coisa menos a instituição de uma sociedade sem classes. Mas o seu apoio aos rebeldes permaneceu puramente verbal, particularmente quando se tornou claro para eles que os verdadeiros objetivos da revolução eram: uma democratização fundamental das instituições húngaras sem a reversão para a propriedade privada dos meios de produção.

A espinha dorsal da Revolução Húngara era a rede de conselhos operários. Sua principal demanda era por gestão operária da produção e um governo baseado nos conselhos. Esses fatos justificavam o apoio dos revolucionários ao redor do mundo. Apesar dos Mindszentys[26]. Apesar dos pequenos proprietários e socialdemocratas, ou suas sombras, agora tentando pegar carona no bonde revolucionário. O critério de classe é o decisivo.

Considerações similares se aplicam também à rebelião de Kronstadt. Seu núcleo eram os marinheiros revolucionários. Seus principais objetivos eram do tipo com os quais nenhum revolucionário de verdade poderia discordar. Que outros buscassem tirar vantagem da situação é inevitável, e irrelevante. A questão é quem está decidindo a melodia.

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As atitudes em relação aos eventos de Kronstadt, expressas quase cinquenta anos depois do evento, fornecem uma visão profunda sobre o pensamento político de revolucionários contemporâneos. Elas podem de fato fornecer uma visão mais profunda do interior de seus alvos conscientes e inconscientes do que muitas discussões eruditas sobre economia ou filosofia, ou sobre outros episódios da história revolucionária.

É uma questão das atitudes básicas a respeito do que é o socialismo afinal de contas. O que foi sintetizado nos eventos de Kronstadt são alguns dos problemas mais difíceis de estratégia e ética revolucionárias: o problema dos meios e fins, das relações entre partido e massas, ou mesmo de que sequer um partido é necessário afinal de contas.

A classe operária pode desenvolver por si mesma apenas uma consciência sindical?[27] Ela deveria até mesmo ser autorizada, em qualquer circunstância, a ir tão longe?[28]

Ou a classe operária pode desenvolver uma consciência e compreensão mais profundas de seus interesses do que qualquer organização alegadamente agindo em seu nome? Quando os stalinistas e trotskistas falam em Kronstadt como uma “ação essencial contra um inimigo de classe”, quando revolucionários mais “sofisticados” se referem a isso como uma “necessidade trágica”, tem-se o direito de pausar por um momento. Tem-se o direito de perguntar o quão seriamente eles aceitam o dito de Marx de que “a emancipação da classe operária é uma tarefa da própria classe operária”. Eles levam isso a sério ou apenas repetem as palavras da boca para fora? Eles identificam o socialismo com a autonomia (organizacional e ideológica) da classe operária? Ou eles veem a si mesmos, com sua sabedoria sobre os “interesses históricos” dos outros, e com seus julgamentos sobre o que deveria ser “permitido”, como a liderança em torno da qual a futura elite vai se desenvolver e cristalizar? Tem-se o direito não apenas de perguntar… mas também de sugerir a resposta!


[1] [N.T.] Svetlana Stalin (1926-2011) era a filha mais nova de Stalin, sendo formada em inglês e história dos Estados Unidos. Em 1967, justamente o ano da comemoração do 50º aniversário da Revolução Russa, ela desertou para os Estados Unidos, evento que foi explorado de maneira sensacionalista pela imprensa anticomunista. Na década de 1980 ela chegou a retornar para a URSS, e viveu alternadamente entre Inglaterra e Estados Unidos, até morrer naquele país.

[2] [N.T.] Em 1965 o governo recém-empossado de Brejnev (1964-1982) lançou medidas de descentralização da economia, dando maior autonomia aos dirigentes das empresas para planejar suas metas de acordo com parâmetros que simulassem a busca do lucro (evidentemente, a burocracia jamais cogitaria em medidas que dessem algum poder aos operários). Entretanto, essas medidas foram logo hostilizadas pela burocracia do partido e refreadas, de modo que a economia soviética entrou num longo período de estagnação, até a adoção definitiva de reformas de mercado por Gorbatchev na década de 1980.

[3] [N.T.] Andrei Sinyavsky e Yuli Daniel foram dois escritores russos condenados em 1966 ao confinamento em campos de trabalho forçado (gulags) por publicarem no exterior e sob pseudônimo obras satíricas contra a sociedade russa. Receberam a solidariedade de vários intelectuais no país, no que foi um dos pontos de partida do movimento de dissidência no campo da literatura e das artes.

[4] [N.T.] Evento depois conhecido como Guerra dos Seis Dias, em que Israel, apoiado pelos Estados Unidos, derrotou Egito, Síria, Jordânia e Iraque e ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza (os chamados “territórios palestinos ocupados”, os quais retêm até hoje e nos quais aplica uma política de limpeza étnica contra a população palestina) e a península do Sinai (depois devolvida ao Egito em 1982). A URSS não interveio no conflito.

[5] [N.T.] O Tratado de Interdição Parcial de Testes Nucleares foi assinado em 1963 entre Estados Unidos, Reino Unido e URSS, sendo depois aberto para a assinatura e ratificação por mais de uma centena de países (inclusive o Brasil), como uma forma de tentar impedir a proliferação de armas nucleares e refrear a corrida armamentista.

[6] [N.T.] O autor ironiza o discurso dos governos da China sob a liderança de Mao Tsé-Tung e da Albânia de Enver Hoxha, que supostamente se mantinham fiéis aos princípios do socialismo, que teriam sido abandonados pela URSS. Eles atribuíam o abandono do socialismo na URSS ao “revisionismo” de Kruschev (ver nota 11), que sucedeu Stálin e introduziu algumas reformas cosméticas no regime de terror policial com o qual a burocracia submetia o conjunto da sociedade. Na sequência, o autor também ironiza as medidas ditas revolucionárias de Stálin.

[7] [N.T.] Laurenti Beria (1899-1953) foi um dos chefes da policia soviética, na sua época chamada de NKVD (depois KGB), sendo assim um dos braços direitos de Stálin, responsável por inúmeras perseguições e massacres contra adversários reais ou supostos do dirigente máximo. Era uma das pessoas mais temidas da antiga URSS, até ele próprio ser condenado à morte e executado pouco depois da morte de seu líder. O autor alude à versão de que as intrigas de Beria seriam responsáveis pela ruptura entre Stálin e Josip Broz “Tito” (dirigente máximo da Iugoslávia desde o fim da II Guerra até a sua morte em 1980). Na realidade, a relativa independência da Iugoslávia em relação ao restante do bloco soviético deveu-se ao fato de que naquele país a guerrilha comunista (partisans) foi responsável por expulsar a ocupação nazista do país, sem depender do apoio dos aliados ou do Exército Vermelho da URSS (assim como na Albânia). Isso deu autoridade a Tito, dirigente militar e político do PC iugoslavo, para não se submeter totalmente a Stálin e buscar um rumo próprio para o socialismo (que na realidade não era muito diferente do da própria URSS, no sentido de que também não permitia nenhum grau de controle direto dos operários sobre a produção e sobre as demais instituições). Posteriormente, Tito chegou a um acordo com Kruschev em 1955 e seu país se reconciliou com a URSS.

[8] [N.T.] Mihajlo Mihajlov (1934-2010) foi um acadêmico iugoslavo estudioso de literatura russa condenado em 1965 por publicar no exterior um texto que “difamava” a URSS, que já era então um país aliado.

[9] [N.T.] Milovan Djilas (1911-1995) foi um dos dirigentes do PC iugoslavo e do movimento partisan, que divergiu de Tito em razão da forma centralizadora do regime político, tendo sido expulso do partido em 1954. Djilas foi preso por vários períodos nas décadas de 1950 e 1960 por suas declarações contrárias ao regime iugoslavo e ao stalinismo. Na prisão ele dedicou-se a escrever história e literatura e, ao contrário de outros dissidentes, nunca emigrou e viveu até o fim em seu país.

[10] [N.T.] Referência à revolta húngara de 1956, em que o governo stalinista do país foi derrubado, num movimento em que o protagonismo coube aos conselhos de operários das fábricas. Entretanto, a URSS interveio com tropas para reprimir a revolta, dissolver os conselhos e reinstalar um governo fantoche. Até a altura em que o texto foi escrito, em 1967, essa revolta permanecia sendo o principal exemplo de luta contra o sistema stalinista em um país do leste europeu, uma vez que a Primavera de Praga, que teve igual destino, só aconteceria no ano seguinte, e ficou mais famosa devido ao contexto dos diversos outros acontecimentos marcantes de 1968. 

[11] Paul Cardan, Do Bolchevismo à Burocracia (Solidarity Pamphlet 24).

[12] [N.T.] Referência ao discurso de Nikita Kruschev (1894-1971) em fevereiro de 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS. Kruschev tinha sucedido Stálin desde 1953 e permaneceria como dirigente máximo até 1964. Depois de haver expurgado os colaboradores mais diretos do antigo líder, tornou pública a denúncia dos “crimes contra a legalidade socialista” cometidos por Stálin (referência ao extermínio dos antigos dirigentes do partido, os chamados velhos bolcheviques) e repudiou o que foi chamado de “culto da personalidade” do líder. Na verdade, tratava-se de uma forma da burocracia stalinista “mudar para que tudo continuasse como antes”, ou seja, fazer algumas concessões e distensionar o clima de terror e desconfiança em que viviam os integrantes do próprio aparato do partido, do Estado e o conjunto da sociedade russa, mas sem abrir mão do poder político e privilégios. Na prática, reconheceram-se “erros” e “excessos” de Stálin, mas atribuiu-se tudo à pessoa do antigo líder, e manteve-se inalterada a estrutura de uma ditadura de partido único, sem qualquer margem de autonomia para a classe operária, nem na gestão da produção, nem nas demais instituições. Naquele mesmo ano, a repressão à revolta húngara mostrou que a mal chamada “desestalinização” não significaria também abrir mão do controle da URSS sobre os seus chamados estados-satélites do leste europeu.

[13] [N.T.] Optamos por traduzir “soviets”, como está no texto original em inglês, e também como já vem sendo usado em português há várias décadas; diretamente como conselhos. O uso da palavra russa soviet para designar os conselhos operários, embora já esteja consagrado na nossa língua, acaba por atenuar impacto e o significado profundo do destino dessas instituições. Dizer que o poder dos “soviets” foi usurpado pelos bolcheviques não causa tanto impacto quanto dizer que os bolcheviques suprimiram e usurparam o poder de conselhos operários. É esse impacto que buscamos realçar ao traduzir diretamente soviet como conselho.

[14] Para informações sobre o seu programa ver A Oposição Operária por Alexandra Kollontai. Essa obra foi pela primeira vez publicada em inglês em Workers Deadnough de Sylvia Pankhurst em 1921 e republicado em 1961 em Solidarity Pamphlet 8.

[15] A história de grupos como Verdade Operária e Luta Operária ainda precisa ser escrita.

[16] [N.T.] A cidade de São Petersburgo foi fundada pelo Czar Pedro, o Grande, em 1703, e foi capital do império russo até 1918, em plena Revolução, quando a sede foi transferida para Moscou, que é até hoje a capital. De 1914 a 1924 a cidade de São Petersburgo foi rebatizada como Petrogrado (era esse o seu nome no momento dos acontecimentos citados pelo autor), e só a partir de 1924 ela teve o nome de Leningrado, que é como aparece no texto, com certa imprecisão, portanto. Desde 1991, com a queda da URSS, ela voltou a ter o nome original de São Petersburgo.

[17] [N.T.] Janos Kadar (1912-1989) foi o burocrata colocado pela URSS como ditador da Hungria depois que as tropas soviéticas derrotaram a Revolução dos Conselhos de 1956. A revolução tinha temporariamente derrubado o governo stalinista anterior, até ser sufocada pela URSS. Kadar permaneceu no cargo até 1988.

[18] Uma tarefa fácil depois de 1936, quando alguns bem conhecidos “líderes” anarquistas (sic!) entraram no governo da Frente Popular na Catalunha no começo da Guerra Civil Espanhola e foram autorizados a continuar lá pelos anarquistas de base. Essa ação, numa área em que os anarquistas tinham uma base de massas no movimento dos trabalhadores, condenou-os irrevogavelmente, assim como os desenvolvimentos da Revolução Russa condenaram irrevogavelmente os mencheviques, como incapazes de resistir ao teste dos eventos.

[19] Três declarações de Comunismo e Terrorismo de Trotsky (Ann Harbor: University of Michigan Press, 1961), publicadas originalmente em 1920, vão ilustrar esse ponto: “a criação de uma sociedade socialista significa a organização dos operários sobre novas fundações, sua adaptação a essas fundações e sua reeducação ao trabalho, com uma finalidade inalterável de aumentar a produtividade do trabalho…” (p. 146). “Eu considero que se a Guerra Civil não tivesse espoliado a nossa economia de todos que eram mais fortes, mais independentes, mais dotados com iniciativa, nós deveríamos indubitavelmente ter seguido o caminho da gerência por um homem só na esfera da administração econômica muito mais cedo e muito menos dolorosamente” (p.162-163). “Nós temos sido mais de uma vez acusados de ter substituído a ditadura dos conselhos pela ditadura de nosso próprio partido… Na substituição do poder da classe operária pelo poder do partido não há nada acidental, e na realidade não há substituição nenhuma. Os comunistas expressam os interesses fundamentais da classe operária…” (p. 109). Eis aí os antecedentes anti-burocráticos do trotskismo. É interessante que o livro tenha sido altamente exaltado por Lênin. Lênin apenas entrou em discussão com Trotsky sobre a questão sindical na reunião do comitê central de 8 e 9 de novembro de 1920. Durante a maior parte de 1920 Lênin endossou todos os decretos burocráticos de Trotsky em relação aos sindicatos.

[20] Para um relato interessante do crescimento do Movimento dos Comitês de Fábrica e da oposição a eles pelos bolcheviques no Primeiro Congresso dos Sindicatos de toda a Rússia (janeiro de 1918) ver A Guilhotina em Ação de Maximov (Chicago, 1940).

[21] No Nono Congresso do Partido (março de 1920) Lênin apresentou uma resolução para efetivar que a tarefa dos sindicatos fosse explicar a necessidade de uma “máxima redução da administração colegiada e a introdução gradual da gerência individual nas unidades engajadas diretamente na produção” (Robert V. Daniels, A Consciência da Revolução, Cambridge, Massachussets, 1960, p. 124).

[22] Os escritos de Serge sobre esse assunto foram trazidos a atenção dos leitores no Reino Unido pela primeira vez em 1961 (Solidarity I, 7). Esse texto foi depois reimpresso como panfleto.

[23] [N.T.] Louis August Blanqui (1805-1881) foi uma figura célebre nos movimentos revolucionários franceses do século XIX, sendo a representação mais acabada do projeto de que a tomada do poder depende muito mais da ação de um pequeno grupo de indivíduos muito determinados, do que de uma ampla base de apoio social e de um projeto de transformação geral, baseado em alguma leitura prévia da sociedade, etc. Foi uma espécie de precursor daquilo que no século XX ficaria conhecido como “foquismo”, a ideia de que um pequeno grupo armado, inicialmente clandestino, pode dar início a uma revolução. Como encarnação desse tipo de concepção, ele dedicou sua vida a inúmeras conspirações para tomar o poder, sempre acompanhado de um pequeno punhado de colaboradores, todas fracassadas, resultando em que ele passou boa parte de sua vida (ao todo 37 anos) na prisão. Nesse mesmo trecho, o autor também se refere a Bakunin, um dos pilares do anarquismo, que era bem menos alheio do que Blanqui à teoria social e ao estudo, mas igualmente propenso a organizar pequenas seitas conspirativas de seguidores.

[24] Ver o artigo de Nicolas Walter em Liberdade (28 de outubro de 1967) intitulado “Outubro de 1917: revolução de forma alguma”.

[25] [N.T.] Endereço da sede do Partido Comunista Britânico em Londres.

[26] [N.T.] József Mindszenty (1892-1975) foi cardeal da Igreja Católica na região da capital húngara, Budapeste. Ele foi opositor da República dos Conselhos de 1919-1920 e depois, já no posto de cardeal, também se colocou contra o regime stalinista instalado em 1945, pelo qual foi preso em 1949. Durante a Revolução de 1956, na qualidade de preso político, ele foi retirado da prisão e se refugiou na embaixada dos Estados Unidos, de onde se exilou para a Áustria, onde morreu, como uma espécie de mártir católico anticomunista.

[27] Lênin disse explicitamente que sim em seu Que Fazer? (1902)

[28] Numa declaração ao Décimo Congresso do Partido (1921) Lênin se refere a uma mera discussão sobre os sindicatos como um “luxo absolutamente inadmissível” que “nós” não deveríamos ter permitido. Essas observações revelam involuntariamente volumes inteiros não escritos sobre o assunto (e incidentalmente resolvem decisivamente a questão daqueles que buscam desesperadamente por uma “evolução” no seu Lênin).

Traduzido por Daniel Menezes Delfino, a partir da versão disponível em: https://www.marxists.org/archive/brinton/1967/11/mett.htm.

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