Maio de 68 francês: Reforma ou Revolução? – Maurice Brinton

Publicado em “Solidary Leaflet” (Maio de 1968)

A sociedade burguesa francesa está, atualmente, sendo abalada em sua base. Dez milhões de trabalhadores estão em greve. Fábricas, prédios em construção, estaleiros, lojas, escolas e universidades foram ocupadas por seus trabalhadores. Todo o sistema de transporte está paralisado. A bandeira vermelha foi hasteada pelas linhas de trem e nos teatros estaduais, minas de carvão e nas instituições educacionais. Dezenas de milhares de pessoas de todas as idades estão discutindo sobre todos aspectos da vida em assembleias lotadas ocorrendo dentro de todas as salas de aulas e auditórios disponíveis. Até os camponeses estão dirigindo seus tratores no meio dos mercados das cidades do interior e desafiando autoridades. O poderio policial está oscilando. Até as formações paramilitares “elitistas” do estado burguês – a CRS [Empresas de Segurança Republicanas] – estão sendo rechaçadas nas ruas.

Ninguém “convocou’’ essa greve geral. Ninguém previu essa explosão tremenda das massas, que pegou todas as organizações tradicionais da “esquerda’’ de surpresa. As críticas reprimidas, a raiva, o ressentimento e a frustração de milhões de jovens, que eram tratados como objetos pela sociedade, está explodindo no maior desafio enfrentado pela sociedade francesa desde a Comuna de Paris. Tais circunstâncias estão evidenciando o verdadeiro papel dos diversos setores da “esquerda’’ francesa. Os políticos burgueses não conseguem ver nada além de uma mísera reforma ministerial. Estão dispostos a sacrificar alguns políticos poderosos para tentar canalizar o movimento de volta à lógica parlamentar segura.  A estratégia deles é tão óbvia que provavelmente ninguém vai cair nela. O “Socialist Party (SFIO)” [Partido Socialista – Setor Francês na Internacional Operária] perdeu credibilidade depois de anos praticando políticas oportunistas e de conciliação de classes. Afinal, foi um Ministro do Interior “socialista’’, chamado Jules Moch, que deu origem a tão odiada CRS. No dia 13 de maio, quando a manifestação gigantesca passou pela sede da SFIO na Boulevard de Magenta, os manifestantes começaram a gritar “Guy Mollet, vá para o museu!’’.

O Partido Comunista e a CGT [Confederação Geral do Trabalho] foram arrastados para dentro de um tornado que não puderam prever ou entender, e cujo desenvolvimento tem constantemente escapado de seus controles. Desde o início, eles se preocupavam mais em serem ultrapassados pela esquerda do que com o desenvolvimento de um movimento gigantesco das massas.  Durante as últimas três semanas, todas as publicações da “L’Humanité’’ continham denúncias de estudantes e avisos contra “provocadores”, “elementos irresponsáveis”, “anarquistas’’ e ‘’trotskistas’’. (A imprensa burguesa fala praticamente a mesma língua). Os Comunistas estão chamando o Cohn-Bendit, um dos líderes estudantis, de agente da CIA infiltrado (enquanto o Primeiro Ministro Pompidou sugere que ele seja um agente chinês). Aparentemente, nunca passará pela cabeça deles que Cohn pode ser o que afirma ser: um “agente’’ dos estudantes de Nanterre.

As demandas feitas pela CGT são bastante limitadas: aumento no salário, redução da jornada de trabalho, diminuição da idade mínima para se aposentar, abolição das cobranças recentemente impostas nos benefícios previdenciários e o reconhecimento das organizações sindicais nas fábricas. Tais demandas são perfeitamente legítimas e justificadas, mas também perfeitamente compatíveis com a manutenção da dominação burguesa. É exatamente essa dominação que a ala avançada dos trabalhadores e estudantes estão dispostos a confrontar. Nenhuma das demandas industriais apresentadas pela CGT são, de alguma forma, revolucionárias. Mesmo que as demandas sejam concedidas, a classe dominante poderia pegá-las de volta por meio da inflação e desvalorização.

No nível político, o Partido Comunista não quer nada mais do que a substituição do regime Gaullista por uma “frente popular’’ liderada por Mitterand na qual o PC estaria “adequadamente’’ representado.  Num tempo em que todas as instituições sociais (de “lycées” à Federação de Futebol, das autoridades gerenciais das fábricas ao próprio Parlamento) estão sendo questionadas e confrontadas, o Partido Comunista não quer nada mais que uma simples troca de cadeiras no Palais Bourbon [Palácio Bourbon].

O atual movimento surgiu no início do ano na cidade de Nanterre, perto de Paris, quando grupos de estudantes começaram a confrontar os pressupostos centrais da educação burguesa por meio de ações diretas (interrupção de palestras, realizando assembleias politizadas dentro do campus etc.). Eles afirmavam que rejeitavam toda a estrutura hierarquizada que existia na universidade, seu processo seletivo e provas de admissão, seus métodos de administração e mais especificamente sua função como provedora de sociólogos industriais e psicólogos, cujo único propósito na vida seria o de ajudar a controlar e manipular a classe trabalhadora. Confrontados com essa “provocação’’ bem definida e abertamente defendida, as autoridades do estado cometeram, um atrás do outro, vários erros burocráticos. Cada um desses erros fez com que o movimento estudantil crescesse cada vez mais. Eventualmente, a polícia acabou sendo chamada para as universidades, provocando um descontentamento amplo e irreversível por toda a comunidade estudantil.

Nenhum dos partidos tradicionais compreenderam o que os estudantes estavam em busca… ou em vez disso, compreendem bem demais. Nenhum deles estão preparados para encarar o desafio imposto pelos estudantes, pois destruir a base de classes existente na universidade é também uma ameaça intolerável à sociedade estabelecida. É por esse motivo que o Partido Comunista ainda fala da “agitação estudantil” em termos de “aumentar a verba pra educação”, “mais professores”, “melhoria nas instalações” etc., ao invés de descrever seu real e profundo conteúdo revolucionário.

Isso também explica por que todas as tentativas dos estudantes de se juntarem aos operários, que agora ocupam as fábricas, estão sendo vigorosamente e, muitas vezes, fisicamente reprimidas pelo aparato da CGT. Os estudantes estão falando do poder dos trabalhadores, de uma sociedade livre, assuntos que os burocratas não querem que os trabalhadores pensem muito. Em Nantes, uma delegação de estudantes de Paris enviada para entrar em contato com uma fábrica ocupada, foi entregue a polícia por um grupo de piquetes a mando da CGT, que por acaso eram stalinistas traidores. Essas tentativas de dividir o movimento estudantil, que funcionavam no início, estão perdendo força à medida que os estudantes mostram, em ação, sua militância e prontidão com a luta até o fim.

É essa militância estudantil que aterroriza cada camada conservadora da sociedade francesa, desde os leitores de “Figaro” aos funcionários idosos da CGT. Os estudantes mostraram que o Gaullismo não é onipotente, que é possível lutar contra o aparato repressivo do estado burguês, e que é possível passar de uma crítica à educação burguesa para uma crítica total à sociedade burguesa.

Sozinhos, obviamente, os estudantes não vão conseguir transformar a sociedade. Porém, a militância estudantil desencadeou uma resposta massiva da classe dos trabalhadores, composta de simpatia, ódio à polícia, e defesa de suas próprias demandas específicas. Atualmente, o futuro da revolução depende de uma questão importante, porém ainda sem resposta. As demandas dos trabalhadores continuarão presas a meras melhorias dentro da sociedade capitalista? Ou eles vão, assim como os estudantes, transformar a luta em algo bem mais amplo? Será que vão lutar contra todas as múltiplas manifestações existentes na sociedade burocrática capitalista moderna? A revolução só terá real êxito se os trabalhadores aceitarem tomar o rumo mais difícil dessa luta, rumo do qual ninguém pode tomar por eles, que implicará numa luta implacável contra suas “próprias” organizações representativas. Somente à base de tal luta que será impossível as lideranças burocráticas retomarem o controle do movimento e fazê-lo entrar em um beco sem saída.

E os outros grupos que estão à esquerda do Partido Comunista? Em um tempo em que tudo é possível, quando as pessoas estão começando a perceber que o futuro da sociedade dependerá do que fizerem agora, a imaginação de muitos dos autointitulados “revolucionários” continua presa à forma de pensar burocrática de um período anterior.

Inúmeros grupos trotskistas não conseguem imaginar as tremendas potencialidades que podem provir da atual situação. A preocupação de tais grupos se resume em tentar implantar suas lideranças no movimento da massa. Tudo que dizem é que está faltando no movimento o Partido (Partido no qual interpretam como se fosse o partido deles). Nenhum deles confiam na capacidade que os trabalhadores e estudantes possuem de resolver seus problemas sem esse tipo de tutelagem.  Alguns pedem para que os Comunistas tomem o poder (da mesma forma como pediram para você votar no Partido Trabalhista na última eleição) para “levar as massas através da experiência”. Suas demandas apenas diferem dos stalinistas na forma quantitativa. Todos eles estão tentando participar de uma espécie de leilão revolucionário. Por exemplo, o “Voix Ouvrière” [Luta Operária] defende um aumento de 1000 novos francos no salário mínimo, diferente da CGT que defende um aumento de 600 novos francos.

Grupos trotskistas como a FER [Federação dos Estudantes Revolucionários] defendem novas medidas organizacionais, como a criação de uma hierarquia nos comitês de greve (um comitê nacional de greve estaria no topo) representando as várias fábricas e empresas ligadas à greve. Dado as atuais relações de forças, os stalinistas seriam a maioria em tais comitês. A ideia é “expor” que os stalinistas tentarão liquidar a greve em troca de concessões monetárias dos empregadores ou concessões parlamentares do estado burguês. Os trotskistas iriam se beneficiar dessa “exposição”. O dano incalculável causado a classe dos trabalhadores seria descartado como uma sobrecarga inevitável.

Os atos práticos dos trotskistas acabaram sendo igualmente nefastos. Na “Noite das Barricadas” (10 de Maio, 1968), apesar dos repetidos pedidos de ajuda, a FER se recusou a cancelar sua assembleia geral, que estava ocorrendo na Mutualite, para enviar reforços aos estudantes e trabalhadores que estavam envolvidos em uma luta amarga contra a CRS na Rua Gay-Lussac à 1,6 km de distância. As centenas de membros da FER e seus simpatizantes só apareceram às 1:00 da manhã para pedir para os estudantes se dispersarem. Nas palavras de Chisseray, um dos líderes “trotskistas”, era “necessário a todo custo preservar a vanguarda revolucionária e evitar um massacre desnecessário”. O fato foi amplamente discutido nas assembleias gerais que ocorreram na noite seguinte nos anfiteatros da Censier and La Sorbonne. Milhares de pessoas estão aprendendo na prática a natureza do stalinismo e do trotskismo e como ambos buscam manipular o movimento das massas em prol de seus próprios interesses.

No início, poucos dos revolucionários anarquistas e socialistas apreciaram as tremendas oportunidades que estavam sendo criadas. Tais grupos, que tendem a se unir cada vez mais, agora estão falando de uma total revolução social, da gestão dos trabalhadores da produção (autogestion) e na necessidade de conselhos operários. Atualmente, esse ponto de vista radical está sendo o maior desafio enfrentado pela esquerda tradicional em sua história. Partindo da iniciativa dos revolucionários, Comités d’action [Comitês de Ação] foram criados em várias fábricas e distritos de Paris e outras cidades grandes. Estes comitês são formados por estudantes e trabalhadores dispostos a realizarem um programa de ação direta em um determinado local ou empresa e que também compreendem a necessidade de ampliar e desenvolver o movimento de massas da forma mais rápida e radical possível. Suas ações já estão gerando respostas entusiásticas, não só das grandes camadas da população estudantil, mas também das pequenas camadas dos trabalhadores. Se, e quando, todos os trabalhadores decidirem aceitar essas demandas com carne e osso, a porta será aberta para um possível confronto final à sociedade capitalista francesa, um confronto que não poderá mais ser evitado.

Traduzido do inglês por Igor Santos e revisado por Mateus Alexandre. A tradução foi realizada a partir da versão disponível em: https://www.marxists.org/archive/brinton/1968/05/reform-revolution.htm.

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