Capitalismo e Socialismo – Maurice Brinton

O texto foi transcrito por Jonas Holmgren e publicado em Solidarity, volume 6, em dezembro de 1968. A tradução foi feita por Rodrigo Aguiar, e revisões de Breno Teles, Felipe Andrade e Gabriel Teles.

O que está basicamente errado com o capitalismo? Pergunte a um número de supostos socialistas e você terá um número de diferentes respostas. Estas dependerão da perspectiva de cada um do que o socialismo poderia ser e sobre de qual ação política se trata. Socialistas revolucionários libertários analisam estas coisas diferentemente da tradicional “esquerda”. Este artigo não é uma tentativa de contrapor duas concepções do socialismo e ação política. É uma tentativa de enfatizar uma particularidade do pensamento socialista que corre o risco de ser esquecida.

Quando escapamos das aparências, capitalistas “progressistas”, liberais, trabalhistas reformistas, macro-burocratas “comunistas” e micro-burocratas trotskistas, percebemos que todos eles enxergam o mal do capitalismo da mesma maneira. Todos eles o veem principalmente como problemas econômicos, provenientes de um padrão particular da propriedade dos meios de produção. Quando Khrushchev igualou o socialismo com “mais goulash para todos”[1], ele estava expressando uma visão amplificada. Inumeráveis citações poderiam ser encontradas para comprovar esta declaração.

Se você não acredita que “socialistas” tradicionais pensam desta maneira, tente sugerir a um deles que o capitalismo moderno está começando a resolver alguns problemas econômicos. Ele irá imediatamente denunciar você como tendo “desistido da luta pelo socialismo”. Ele não consegue compreender que as crises eram uma característica das sociedades em que o estado capitalista não tinha sido implantado suficientemente e que essas não eram características intrínsecas da sociedade capitalista. “Sem crise econômica” é, para o socialista tradicional, equivalente a “sem crise”. É o sinônimo de “o capitalismo resolveu os seus problemas”. O tradicional socialista se sente inseguro, como socialista, se disserem que o capitalismo pode resolver este tipo de problema, porque para ele esse é o problema, por excelência, que compromete a sociedade capitalista.

A “esquerda” tradicional hoje tem uma visão bruta do ser humano[2], da sua aspiração e necessidade, uma visão moldada pela sociedade podre na qual vivemos. Ela possui um conceito de consciência de classe limitado. Para eles, a consciência de classe é essencialmente uma compreensão da “não-propriedade”. Eles veem o “problema social” sendo resolvido com a maioria da população tendo acesso às riquezas materiais. Tudo ficaria bem, eles dizem ou sugerem, se em consequência de sua conquista do poder do Estado (e de seu particular ideal de planejamento), as massas pudessem ao menos ter a garantia de um nível de consumo maior. “Socialismo” é igualado com a ideia de barrigas cheias. O preenchimento dessas barrigas é visto como a fundamental tarefa da revolução socialista.

Intimamente relacionado com esse conceito de ser humano como essencialmente uma máquina produtora e consumidora, temos toda uma crítica da “esquerda” tradicional do capitalismo laissez-faire. Muitos na “esquerda” continuam a pensar que vivemos sob esta forma de capitalismo e continuam a criticá-lo por conta da sua ineficiência (no domínio da produção). Todo o trabalho escrito de John Strachey antes da Segunda Guerra Mundial foi dominado por estas concepções. Seu Why You should be a Socialist vendeu aproximadamente um milhão de cópias – e, contudo, as ideias de liberdade ou autogestão não apareceram nele como parte do objetivo socialista. Muitos dos líderes da “esquerda” atual se formaram na sua escola, incluindo os então chamados revolucionários. Mesmo a típica visão do comunismo, “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”, geralmente se relaciona, nas mentes dos supostos “marxistas”, para a divisão do bolo e de modo nenhum para a relação do ser humano consigo mesmo e entre o ser humano e seu ambiente.

Para o “socialista” tradicional, o principal objetivo da transformação social seria “elevar o padrão de vida”. Eles dizem que o capitalismo supostamente não consegue mais desenvolver a produção. (Qualquer um pego em um congestionamento no trânsito, ou em uma área comercial da classe trabalhadora em uma tarde de sábado, irá achar esta premissa estranha). Parece ser de menor importância para esse “socialista” o fato de que no capitalismo moderno as pessoas são brutalizadas no trabalho, manipuladas no consumo e no lazer, sua capacidade intelectual é atrofiada e seu gosto corrompido pela cultura comercial. O indivíduo tem que ser “maleável”, se considerar que a destruição sistêmica dos seres humanos valha a pena por uma grande festa do capitalismo. Aqueles que falam de objetivos socialistas como sendo liberdade na produção (assim como fora dela) são considerados como “utópicos”.

Não fosse por esse entendimento equivocado sendo agora estabelecido como um modo de vida da “esquerda”, seria desnecessário enfatizar que enquanto milhões de pessoas no mundo tem comida e roupa insuficientes, a satisfação de necessidades materiais básicas deve ser uma parte essencial do programa socialista (na verdade de qualquer programa social que seja, o qual não exalta as virtudes da pobreza). O ponto é que: ao se concentrar totalmente nesse aspecto da crítica ao capitalismo, a propaganda da “esquerda” tradicional se priva de uma das armas mais expressivas da crítica socialista. A crítica socialista busca expor o que o capitalismo faz com as pessoas, particularmente em países onde as necessidades básicas foram, em geral, supridas. Quer os amigos Guevaristas ou Maoístas gostem ou não, são nesses países, onde há um proletariado, que o futuro socialista da humanidade será decidido.

Esta particular ênfase na propaganda das organizações tradicionais não é acidental. Quando eles falam de aumentar a produção a fim de aumentar o consumo, reformistas e burocratas de um tipo ou outro sentem-se em terreno seguro. Apesar do absurdo falado por muitos “marxistas” sobre “estagnação das forças produtivas”, o capitalismo burocrático (tanto as formas Ocidentais, quanto Orientais) pode desenvolver os meios de produção, já o fez e ainda está fazendo em escala gigantesca. Isto pode proporcionar (e historicamente tem conseguido) um gradual aumento no padrão de vida – ao custo da intensificação da exploração durante a jornada de trabalho; pode fornecer um razoável nível de emprego; assim como uma prisão bem administrada. No entanto, no terreno da submissão do ser humano às instituições que não são da sua escolha, a crítica socialista do capitalismo e da sociedade burocrática mantém toda sua validade. De fato, sua validade aumenta enquanto a sociedade moderna simultaneamente resolve o problema da pobreza em massa e torna-se cada vez mais burocrática e totalitária.

Provavelmente, será contestado que algumas tendências excêntricas no movimento “marxista” fiquem entregues a esse tipo de crítica e, em certo sentido, isso é verdade. No entanto, o que quer que seja que as organizações critiquem, a sua crítica geralmente articula-se, por fim, na noção de distribuição desigual de riqueza. Ela consiste em variações no tema da influência corruptora do dinheiro. Quando eles falam, por exemplo, do problema sexual ou da família, eles falam dos entraves econômicos para a emancipação sexual, da fome forçando mulheres para a prostituição, da menina pobre vendida para o homem rico, das tragédias domésticas que resultam da pobreza. Quando denunciam o que o capitalismo faz à cultura, eles o farão em relação aos obstáculos que as necessidades econômicas colocam no caminho do talento, ou dirão sobre a venalidade dos artistas. Tudo isto é indubitavelmente de grande importância. Mas isso é somente a superfície do problema. Aqueles socialistas que somente falam nesses termos, veem o ser humano como muito menos do que sua estatura completa. Eles o enxergam como a burguesia faz: como um consumidor (de comida, de patrimônio, de cultura, etc.). O essencial para o ser humano, contudo, é satisfazer a si mesmo. Socialismo deve dar ao ser humano uma oportunidade para criar, não somente no âmbito “econômico”, mas em todos os campos dos esforços humanos. Deixem os cínicos sorrirem e fingirem que tudo isso é utopismo do pequeno-burguês. “O problema”, Marx disse, “é organizar o mundo de tal maneira que o ser humano experiencie a autêntica humanidade, que se torne acostumado a ele mesmo como um ser humano, afirmando a sua verdadeira individualidade”.

Conflitos na sociedade de classes não são simplesmente resultado da desigualdade de distribuição, ou circulação de uma dada divisão do mais-valor – este último resultado de um determinado modelo da propriedade dos meios de produção. Exploração não somente resulta em uma limitação do consumo para a maioria e enriquecimento financeiro para poucos. Este é apenas um aspecto do problema. Igualmente importante estão as tentativas do capitalismo privado e do capitalismo burocrático para limitar – e finalmente suprimir totalmente – a função humana do indivíduo no processo produtivo. O ser humano é progressivamente expropriado do controle de seus próprios atos. Ele é cada vez mais alienado durante todas as suas atividades, sejam individuais ou coletivas. Pela sujeição do ser humano à máquina – e através da máquina para uma abstrata e hostil vontade – a sociedade de classe priva o indivíduo do real propósito dos esforços humanos, qual é a constante, transformação consciente do mundo em torno dele. Que a coletividade resiste a este processo (e sua resistência implicitamente levanta a questão da autogestão), é tanto uma força motriz na luta de classe quanto o conflito pela distribuição do mais-valor. Sem dúvida, Marx teve estas ideias em mente quando ele escreveu que o proletariado “considera sua independência e senso de dignidade pessoal como mais essencial do que o pão diário”.

As sociedades de classes inibem profundamente a natural tendência do ser humano de se satisfazer nos objetos da sua atividade. Em todos os países do mundo este estado de acontecimentos é experienciado dia após dia pela classe trabalhadora como um absoluto infortúnio, como uma permanente mutilação. Isto resulta em uma constante luta no nível mais profundo da produção: o da participação consciente e voluntária. Os produtores rejeitam totalmente (e com razão) um sistema de produção no qual é imposto sobre eles de cima e no qual eles são meras engrenagens. Sua inventividade, sua capacidade criadora, sua ingenuidade, sua iniciativa podem ser mostradas, em aparência, na própria vida, mas certamente não são mostradas na produção. Na fábrica essas atitudes podem ser usadas, mas para um fim bastante diferente e “não-produtivo”! Elas se manifestam como uma resistência à produção. Isso resulta em um desperdício constante e fantástico, comparado com o qual o desperdício resultante da crise do capitalismo ou da guerra capitalista é realmente bastante trivial!

A alienação na sociedade capitalista não é simplesmente econômica. Ela se manifesta de várias outras maneiras. O conflito na produção não “cria” ou “determina” conflitos secundários em outros campos. A dominação de classe se manifesta em todos os campos, ao mesmo tempo. Seus efeitos não poderiam ser entendidos de outra forma. Exploração, por exemplo, pode somente ocorrer se os produtores são expropriados da gestão da produção. Mas isto pressupõe que eles estão parcialmente expropriados ao menos da capacidade do controle – em outras palavras: da cultura. E esta expropriação cultural, por sua vez, reforça os que estão no comando da máquina produtiva. Similarmente, uma sociedade na qual a relação entre as pessoas é baseada na dominação, manterá atitudes autoritárias em relação ao sexo e à educação, atitudes que criam profundas inibições, frustrações e muita infelicidade. Os conflitos gerados pela sociedade de classes tomam lugar em cada um de nós. Uma estrutura social contendo antagonismos profundos reproduz estes antagonismos em graus variados em cada indivíduo que a compõem.

Existe uma profunda interpelação dialética entre a estrutura social de uma sociedade e as atitudes e comportamentos dos seus membros. “As ideias dominantes de cada época são as ideias da classe dominante”, o que qualquer sociólogo moderno pode pensar. Sociedade de classes somente existe na medida em que consegue sucesso na imposição generalizada de suas normas. Desde os seus primeiros dias, os indivíduos são submetidos às constantes pressões e designados a moldar sua visão em relação ao trabalho, à cultura, ao lazer, ao próprio pensamento. Tais pressões tendem a privá-lo do natural prazer de sua atividade e até mesmo fazê-lo aceitar esta depravação como algo intrinsecamente bom. No passado, este trabalho era auxiliado pela religião. Hoje a mesma função é desempenhada pelas ideologias “socialistas” e “comunistas”. No entanto, o ser humano não é infimamente maleável. Este é o motivo pelo qual o projeto burocrático será interrompido. Os seus objetivos estão em conflito com as aspirações humanas fundamentais.

Nós mencionamos tudo isto somente para sublinhar a identidade essencial das relações de dominação – seja em suas manifestações na fábrica capitalista, na família patriarcal, na educação autoritária das crianças ou nas tradições culturais “aristocráticas”. Também mencionamos estes fatos para mostrar que a revolução socialista terá que tomar todos estes campos dentro do seu compasso, e imediatamente, num futuro não tão distante. A revolução deve, com certeza, começar com a derrocada da classe exploradora e com a autogestão dos trabalhadores na produção. Mas isto imediatamente terá que enfrentar a reconstrução da vida social em todos os seus aspectos. Se isto não acontecer, certamente morrerá.


[1] [N.T.] O termo “goulash” possui origem em um prato popular na culinária húngara que é feito com uma variedade de ingredientes. A partir disso, o “goulash” foi utilizado como metáfora para designar o “comunismo” da República Popular da Hungria a partir da década de 1960 até o final do ano de 1989. Desse modo, Brinton faz uma alusão à mistura entre “capitalismo” e “socialismo” que caracterizava a Hungria naquele contexto histórico. Aplicar “mais goulash”, segundo Khrushchev, seria abrir mais espaço para o capital privado em um suposto país “socialista”.  Sobre o termo “goulash”, pode-se conferir o seguinte site: https://pt.qwe.wiki/wiki/Goulash_Communism?ddexp4attempt=2.

[2] [N.T.] No lugar do termo original “man”, traduzido como “homem” em referência à humanidade ou ser humano, preferimos utilizar apenas o termo “ser humano”. Assim, evitamos a utilização de uma linguagem sexista e alteramos por uma palavra que não deixa de lado o significado original do termo.

* Maurice Brinton é o pseudônimo de Christopher Agamemnon Pallis (1923-2005). Ele foi um neurologista e intelectual marxista. Através de alguns pseudônimos, como Maurice Brinton e Martin Grainger, Pallis escreveu e traduziu para o grupo britânico chamado Solidarity, entre a década de 1960 até o começo de 1980. Para mais informações sobre o autor, cf.: https://en.wikipedia.org/wiki/Chris_Pallis

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*