Comitês de Fábrica e a Ditadura do Proletariado – Maurice Brinton

Publicado em “Critique, nº 4 (Spring 1975).

É um sinal bem-vindo dos tempos que uma séria mudança de opinião radical sobre o período formativo do Estado Russo esteja em andamento agora, e [a revista] Critique deve ser parabenizada por ter desempenhado um papel no início dessa discussão. O quão profundo o debate irá, é claro, dependerá de quão aberta a revista permanecerá para aqueles que, no movimento revolucionário, não aceitam o rótulo de “marxistas”[1], mas que sentem poder ter algo de relevante para contribuir.

Em sua última edição, Chris Goodey reivindica que “é apenas a prática corrente e a experiência do movimento mundial para a revolução socialista que está começando a nos permitir ter uma visão global dos postos de batalha, os quais nós temos mantido impensadamente por um longo tempo”. Em um sentido muito geral, isso é, claro, verdadeiro. Mas elementos de uma crítica séria antecederam – e por um período considerável – “Na França (maio de 1968), os eventos de Praga e a Revolução Chilena”. Além disso, alguns daqueles que iniciaram essa crítica estremeceriam ao se verem incluídos no “nós” a que Goodey se refere. Eles não esperaram até o final dos anos sessenta para expressar suas opiniões. Já em 1918, eles viram claramente a direção na qual a sociedade russa estava se movendo e proclamaram uma oposição com princípios, muitas vezes, ao custo de suas próprias vidas. É um fato trágico que os leninistas de todos os tipos (stalinistas, trotskistas, maoístas e os advogados de várias teorias sobre “o estado capitalista”, isto é, socialistas internacionais, bordiguistas, “humanistas marxistas” etc.) devem assumir toda a sua parcela de responsabilidade, pois nós sabemos menos atualmente sobre as primeiras semanas da Revolução Russa do que sabemos, por exemplo, sobre a história da Comuna de Paris.

“Infelizmente não são os trabalhadores que escrevem a história. São sempre ‘os outros’”[2]. Historiadores “oficiais” raramente têm olhos para ver e ou ouvidos para ouvir os atos e as palavras que expressam a atividade autônoma da classe trabalhadora. Eles pensam em termos de instituições, congressos e lideranças. Na melhor das hipóteses, eles exaltarão as atividades de base, desde que coincidam com suas próprias concepções. Contudo, eles “condenarão isso radicalmente ou imputarão os motivos mais vis tão logo se desvie dessa concepção”[3]. Aos historiadores “oficiais” parece faltar as categorias de pensamento necessárias para perceber a vida como ela realmente é. Para eles, uma atividade que não tenha líder ou programa, não tem instituições e nem estatutos, pode somente ser concebida como “problemas”, “desordem” ou “anarquia”. Nas palavras de Cardan, “a atividade espontânea das massas pertence, por definição, ao que a história suprime”[4].

Goodey está correto quando afirma que é “parte do processo revolucionário desmistificar nossa própria história”, e quando aponta que a luta por “formas diretas de poder dos trabalhadores no ponto de produção” tem sido “ocultada e ignorada”. (A formulação no passivo é, no entanto, falsa. Por quem foi ocultada? E por que foi ignorada?) Todavia, ele está profundamente enganado quando atribui esse silêncio da “esquerda marxista” a tais deficiências ideológicas como falta de “ousadia” ou “capacidade de autocrítica” insuficiente. Uma avaliação adequada dessas questões não pode deixar de ocasionar, a qualquer pessoa com moderadas pretensões à honestidade intelectual, uma ruptura completa com o leninismo em todos os seus aspectos, bem como a uma reavaliação de certas crenças marxistas básicas.

Um fluxo constante de documentação está agora chegando para clarear o papel dos Comitês de Fábrica na Revolução Russa[5]. Goodey vê esses Comitês como “a mais poderosa instituição na Rússia no final de 1917” – e nisso ele está certamente correto. Ele está correto também ao afirmar que “este poder afundou depois”. O que falta em seu artigo, no entanto, é a séria tentativa de explicar o que, quando, por que e a quem aconteceu. A “submersão” da qual Goodey fala estava bem avançada, senão praticamente completada, em maio de 1918, isto é, antes que a Guerra Civil e a intervenção “Aliada” tivessem realmente começado. As explicações tradicionais sobre a degeneração da Revolução Russa não são boas o suficiente.

Na minha visão, o silêncio de Goodey nessas questões essenciais é inevitável. Isto flui diretamente da sua posição política honestamente declarada. Ele vê Partido e Estado como “formas indiretas de poder dos trabalhadores” e, explicitamente, absolve o Partido Leninista de qualquer culpa na degeneração. Ele alega que, “mesmo no nosso mundo atual, apesar do fato de que a degeneração burocrática é inerente ao ‘estado operário’ e ao ‘partido operário’, estes ainda são o complemento necessário às formas de poder direto dos trabalhadores”. Ele apenas concebe essas formas de poder direto dos trabalhadores como “efetivos anticorpos contra a degeneração”. Em nenhum lugar ele os posiciona como as unidades necessariamente dominantes no início da política ou, em outras palavras, como o núcleo básico de uma nova sociedade. Com esse tipo de perspectiva global, uma análise séria da destruição dos Comitês de Fábrica é praticamente impossível, já que o Partido Bolchevique desempenharia um papel dominante nessa tragédia. Não há nada mais utópico do que acreditar que a classe operária russa poderia ter mantido seu poder através do “Partido Operário” ou “Estado Operário”, quando já tinha perdido esse poder no momento da sua produção.

Em outro lugar[6], procurei compilar material de fontes diferentes e documentar da forma mais concisa e completa possível os vários estágios de um processo que conduziu, em um período curto de quatro anos, do enorme aumento do movimento do Comitê de Fábrica (um movimento que, implícita e explicitamente, visou alterar as relações de produção) ao estabelecimento de uma dominação inquestionável por uma agência monolítica e burocrática (o Partido) sobre todos os aspectos da vida econômica e política. Sustentei que, como essa agência não era ela própria baseada na produção, sua regra somente poderia resumir a contínua limitação da autoridade dos trabalhadores no processo produtivo. Isso necessariamente implicava a perpetuação na sociedade como um todo.

É impossível, dentro do espaço disponível, recapitular todas as evidências aqui. O primeiro estágio do processo em discussão foi a subordinação dos Comitês de Fábrica ao Conselho de Toda-Rússia [Pan-Russo] para o Controle Operário, no qual os sindicatos (eles mesmos já fortemente sob influência do Partido) estavam maciçamente representados. Isso aconteceu logo após a assunção do Governo Soviético ao poder. A segunda fase – que se seguiu quase imediatamente à primeira – foi a incorporação deste Conselho Pan-Russo para o Controle Operário à Vesenka (Supremo Conselho Econômico), ainda mais pesadamente a favor dos sindicatos, mas também composta por nomeados pelo Estado (isto é, pelo Partido). No início de 1918, os bolcheviques buscavam ativamente fundir os Comitês nas estruturas sindicais. A questão provocou discussões acaloradas no Primeiro Congresso Pan-Russo de Sindicatos (7-14 de janeiro de 1918), que viu tentativas desesperadas, lideradas principalmente por anarco-sindicalistas, em manter a autonomia dos Comitês contra o conselho de Ryazanov, que instou os Comitês a “cometerem suicídio, tornando-se um elemento integrante da estrutura sindical”[7]. Durante os dois anos seguintes, uma campanha contínua foi travada para conter o poder dos próprios sindicatos, pois estes, de forma indireta e distorcida, ainda poderiam ser influenciados pela classe operária. Era particularmente importante para a nova burocracia substituir este poder pela autoridade daqueles indicados diretamente pelo Partido. Esses gerentes e administradores, quase todos nomeados pela cúpula, gradualmente passaram a formar a base de uma nova classe dominante. O importante, no que concerne à reavaliação da história, é que cada um desses estágios era para ser resistido, mas cada luta foi perdida. A cada vez, o “adversário” aparecia com a roupagem de um novo poder “proletário”; e cada derrota tornaria mais difícil para a própria classe trabalhadora gerenciar diretamente a produção, isto é, alterar fundamentalmente o seu status de classe subordinada.

Goodey afirma que a “essência do argumento libertário é que o nível das forças produtivas desempenha papel menos determinante no desenvolvimento da história do que a existência da hierarquia; no processo revolucionário, essa hierarquia assume a forma de ‘autoritarismo’ entre os líderes (no caso, o Partido Bolchevique) e de ‘falsa consciência’ entre as massas em se submeter ao que eles consideram seus líderes naturais”. É difícil saber de onde ele pode derivar tal formulação psicológica tão grosseira do caso libertário. Até onde sei, nenhum libertário argumentou que o nível das forças produtivas é “mais” ou “menos” importante do que o papel das ideias e atitudes em influenciar o desenvolvimento histórico. Ambos são importantes. O que os libertários têm enfatizado (e a maioria dos marxistas se recusou veementemente a reconhecer) é que as concepções e atitudes do Partido dominante eram tanto um fato objetivo da história – influenciando a evolução dos eventos em momentos críticos – quanto eram as estatísticas de produção de eletricidade ou aço.

Goodey afirma que o argumento libertário “pode ser facilmente acertado” e eu acho um elogio que ele tenha escolhido meu ensaio para praticar suas habilidades como um carpinteiro. Ele concentra sua atenção em um episódio particular que descrevo na esperança de que, ao desafiar seu rigor factual, possa de alguma forma contestar a credibilidade dos demais. Ele define corretamente a área de discussão. “O argumento é que Lênin e os líderes bolcheviques suprimiram os comitês de fábrica imediatamente na tomada do Poder, pois eles realmente detinham muito poder”. Certamente! Goodey também está correto ao atribuir a mim a visão de que “a legislação sobre o controle dos trabalhadores imediatamente após outubro foi elaborada de formas totalmente diferentes por Lênin e pelos líderes dos comitês”. De novo, certamente! Há evidências abundantes (resumidas em meu texto) para dar suporte a esta visão. O calcanhar de Aquiles da minha tese é supostamente minha referência a um documento elaborado por certos membros do Conselho Central dos Comitês de Fábrica de Petrogrado sobre como a economia deveria ter sido administrada imediatamente após os eventos de outubro. Estou bastante preparado para aceitar o desafio nesta base bastante limitada.

De acordo com Goodey (e ele dedica três páginas ao assunto), meu conhecimento do documento em questão era de “quinta mão”. Eu teria herdado de um Didier Limon[8] “uma citação amputada, com data, título e autores errados”. Eu teria, então, “reescrito o texto”. Forte argumento. Infelizmente, em todos os pontos Goodey está errado.

Segundo Goodey, a história fatídica deste documento foi a seguinte. Foi originalmente publicado em parte no Izvestia (7 de dezembro de 1917) e integralmente no Narodnoe Khozyaistvo (nº. 1, 1918). Lozovscky, um sindicalista bolchevique, supostamente alterou seu título de “Projeto de instruções sobre o controle operário” (Draft Instructions on Workers’ Control) para “Manual Prático para a Execução do Controle Operário” (Practical Manual for the Execution of Workers’ Control). Isso foi feito em seu livro, Rabochii Kontrol, que, de acordo com Goodey, foi escrito “em novembro de 1917” (Goodey não explica como Lozovsky pôde, em novembro de 1917, ter distorcido o título de um texto que ainda não havia sido publicado, mas este é o menor dos problemas). Então, ainda conforme a cronologia de Goodey, Pankratova retomou o texto em seus escritos de 1923[9]. Por motivos próprios, ela o datou de 6 de fevereiro de 1918, isto é, após o Primeiro Congresso Sindical, que buscou “fundir por cima” os Comitês de Fábrica e os Sindicatos. Goodey está de parabéns em detectar esta primeira peça de falsificação por um dos historiadores de estimação de Stálin. Mas a relevância disso para o que eu ou Limon escrevemos me escapa totalmente: nenhum de nós deu a data errada para o texto em discussão.

De acordo com Goodey, Limon substitui de Pankratova “o título errado e a data errada e adiciona seus próprios enfeites”. Ele trunca uma citação no texto e muda a autoria do documento original, atribuindo-o aos “líderes não-bolcheviques do Conselho dos Comitês de Fábrica de Toda-Rússia”. Em todos esses pontos, Goodey está errado. Limon não conseguiu seus fatos[10] via Pankratova. O “segredo” pode agora ser revelado. Limon obteve seus fatos de alguém que viu a documentação em primeira mão – e antes que Pankratova sequer tivesse pensado em escrever sobre ela. Eu também vi essa fonte original. Até Goodey poderia ter tido acesso a ela, se ele estivesse menos preocupado em provar a má-fé daqueles de quem discorda politicamente, e se tivesse escolhido verificar com Limon. (Limon está, afinal, no Conselho Editorial da Autogestão, do qual Goodey é o “correspondente para Grã-Bretanha”).

A fonte “original” é o capítulo 8 (“Soviéticos de fábrica trabalhando” – “Les Soviets d’usine à l’oeuvre) do livro de Max Hoschiller, Le Mirage Sovietique (A Miragem Soviética – Paris: Payot, 1921). Hoschiller era um revolucionário francês que falava bem a língua Russa. A autenticidade do seu relato é atestada por nada menos que André Merrheim que escreveu o Prefácio do livro de Hoschiller[11]. Na verdade, foi por sugestão de Merrheim que Hoschiller foi à Rússia.

Agora, o que Hoschiller diz sobre sua autoria, o título e o conteúdo do documento controverso?

Hoschiller deixa claro que, nas semanas que antecederam a revolução, eram os anarquistas que tocavam a melodia (“donnaient le la”) nos Comitês de Fábrica e que os Bolcheviques somente poderiam segui-los (“étaient bien obligés de marcher à leur remorque”). No dia 07 de dezembro de 1917, foi publicado o decreto estabelecendo a Vesenkha (Supremo Conselho Econômico)[12]. A Vesenkha compreendia alguns membros do Conselho Pan-Russo de Controle dos Trabalhadores (uma concessão muito indireta aos Comitês de Fábrica), representação massiva de todos os novos Comissariados e um número de especialistas, nomeados de cima, com capacidade consultiva. De acordo com Hoschiller, os líderes dos Comitês de Fábrica, insatisfeitos com as concessões de Lênin (“mécontents en dépit de toutes les concessions du chef du gouvernement”), não implementaram as decisões, mas elaboraram seu próprio decreto na forma de um “Manual Prático para a Implementação do Controle Operário” [“Practical Manual for the Implementation of Workers’ Control”] (“élaborerent leur propre décret sous forme d’un ‘Manuel Pratique pour l’Execution du Contrôle Ouvrier”). Hoschiller descreve quão zelosamente guardou as oito grandes folhas in-folio, impressas em colunas duplas, que foram amplamente distribuídas pelas ruas de Petrogrado. Ele claramente viu o original, o qual é mais do que pode ser dito com qualquer confiança de Lozovski, Pankratova… ou mesmo de Goodey.

Goodey, então, questiona a atribuição de Limon deste texto aos “líderes não-bolcheviques do Conselho dos Comitês de Fábrica de Toda-Rússia”. Ele está realmente sugerindo que o “Manual” era um documento do Partido? A referência ao texto de Hoschiller mostra que não era bem assim. Uma prescrição particular do “Manual” resume este ponto. O “Manual” falava de “Federações Regionais de Comitês de Fábrica” e da necessidade de uma “União Nacional dos Comitês de Fábrica”. Todavia, até Deutscher é forçado a destacar que tais demandas eram diametralmente opostas à política do Partido na época. “Algumas semanas depois do levante, os Comitês de Fábrica tentaram formar sua própria organização nacional… Os bolcheviques agora pediam aos sindicatos que prestasse um serviço especial ao nascente Estado Soviético e disciplinar os Comitês de Fábrica. Os sindicatos se manifestaram firmemente contra a tentativa dos Comitês de Fábrica de formar sua própria organização nacional. Eles impediram a convocação de um planejado Congresso dos Comitês de Fábrica de Toda-Rússia”[13]. Depois de tudo isso, não caberia aos Bolcheviques denunciar os Comitês de Fábrica como tendo apenas preocupações paroquiais.

Dois outros fatos enfatizam a ampla divergência de abordagem já óbvia neste estágio entre os leninistas e os líderes dos Comitês de Fábrica. Primeiramente, as reais dificuldades experimentadas por Lênin para obter amplo apoio para os seus “Projetos de Decretos sobre o Controle dos Trabalhadores” (“Draft Decrees on Workers’ Control”). Esses projetos foram originalmente publicados no Pravda (em 3 de novembro de 1917), mas somente ratificada pelo V.Ts.I.K. (Comitê Executivo Central dos Sovietes de Toda-Rússia) onze dias depois, após uma acalorada oposição das bases dos Comitês de Fábrica[14]. Em segundo lugar, o fato de que Izvestiya (13 de dezembro de 1917) achou necessário publicar um texto, “Instruções Gerais sobre o Controle Operário na Conformidade com o Decreto de 14 de novembro” (“General Instructions on Workers’ Control in Conformity with the Decree of November 14”), que ficou amplamente conhecido como um “Contra-Manual” (“Counter-Manual”).

Com relação ao conteúdo da passagem em questão, o texto de Hoschiller deixa cristalino que Limon não “amputou” nada. Ao citar a tradução do “Manual”, Hoschiller (p. 167) escreve que o controle dos trabalhadores “ne doit pas être considere dans le sens étroit d’une révision mais dans le sens plus large de ‘l’ingerance”’[15]. Ponto final (um ponto final colocado por Hoschiller, não por Limon, e em um lugar razoável, eu teria pensado, no qual terminar uma citação). O fato de minha própria referência a este documento ter incluído, por meio da negligência de um desavisado, algumas palavras que eram de Limon dificilmente constitui “reescrever o texto” e não altera coisa alguma na substância do assunto[16].

Então, aí está. Sem drama. Sem “conhecimento de quinta categoria” de uma citação “suja”. Sem Lozovsky como fonte original secundária “evidente” de todo o resto. Sem datas erradas herdadas de Pankratova. Sem Limon alterando a autoria de um documento. Sem citações truncadas. Tudo isso é fruto da imaginação de Goodey – e ele deve, claramente, parar de tagarelar sobre “atitudes em relação a fatos verificáveis”. Se isso for realmente o melhor que o seu colaborador pode fazer para “pregar” o argumento libertário, aqueles que fabricam bandagens para polegares doloridos estão prestes a explodir.

Voltemos ao argumento principal. Goodey argumenta que “se… havia uma burocracia nascente em 1917, então os Comitês de Fábrica faziam parte dela”. Isso é realmente não entender o conceito de burocracia. Atribui-se à palavra um significado restrito, de pouco valor para quem busca mudar radicalmente a sociedade. As clássicas concepções marxistas são, aqui, totalmente inadequadas. Uma burocracia não é apenas “oficialismo” ou um “estrato social gozando de certos privilégios materiais” ou um “gendarme, garantindo um certo padrão de distribuição em condições de pobreza”. Para que o conceito de autogestão tenha algum significado, a burocracia deve ser vista como um grupo que visa gerenciar de fora as atividades alheias. Se esse grupo tiver o monopólio de uma autoridade decisória, seu potencial burocrático será amplamente aprimorado. Nesse sentido, se houvesse uma burocracia nascente no final de 1917 na Rússia, certamente não seria encontrada nos Comitês de Fábrica. Estaria no próprio partido. Certas atitudes do partido, aqui, desempenharam um papel muito importante. O próprio Trotsky (se é que devemos nos referir a ele) descreveu tudo isso com perspicácia. Referindo-se ao Terceiro Congresso do Partido (25 de abril a 10 de maio, de 1905), ele falou dos “jovens burocratas revolucionários que já surgiam como grupo social específico. Eles eram muito mais intransigentes e severos com os operários revolucionários do que com eles próprios, preferindo dominar”[17]. Ninguém menos do que Lênin escreveu que “um agitador-operário que mostra algum talento não deve trabalhar na fábrica”[18]. É de se admirar que, com todas essas concepções, o Partido logo perdeu todo o contato com a classe?

Goodey procura provar seu ponto de vista de que os Comitês de Fábrica pertencem à burocracia nascente ao observar os percursos posteriores de determinados líderes dos Comitês de Fábrica: homens como Chubar, Matvei, Zhivotov e Skrypnik. É indiscutível que esses líderes não-bolcheviques dos Comitês de Fábrica, mais tarde, apoiaram os bolcheviques. Mas, e daí? Não é inédito que delegados sindicais acabem virando capatazes. Isso realmente prova alguma coisa além da capacidade do poder estabelecido de, em suas várias roupagens, recuperar a dissidência? O fato de Alexandra Kollontai ter se tornado mais tarde uma embaixadora stalinista invalida seus escritos anteriores de emancipação da mulher? O bolchevismo posterior de Trotsky invalida suas advertências proféticas de 1904 sobre a questão do Partido substituindo a classe trabalhadora?[19]

Se Goodey está realmente interessado na história do que aconteceu aos trabalhadores dos Comitês de Fábrica (e não somente a alguns de seus líderes), um campo frutífero pode ser a história de diversos grupos sindicalistas e, em particular, do “Centro Revolucionário dos Comitês de Fábrica”, um corpo de inspiração anarquista que competiu por um tempo com o Conselho de Comitês de Fábrica de Toda-Rússia, sem nunca conseguir suplantá-lo, tantos foram os obstáculos colocados no seu caminho. A busca será, acredito, frustrante. A perseguição sistemática de dissidentes de “esquerda” logo se tornou um estilo de vida. Os Proletários partidários dos Comitês de Fábrica tentaram resistir e se reagrupar, mas sua resistência foi facilmente superada[20]. A pesquisa também pode abranger o destino de agregações de origem bolchevique, como o Grupo dos Trabalhadores de Masnikov (uma cria da Oposição dos Trabalhadores) e da Verdade dos Trabalhadores de Bogdanov. Um fato que tal busca revelará – e quanto a isso não há dúvida – é que esse grupo havia percebido (já no início de 1921, sem o privilégio de uma retrospectiva, e muito mais claramente do que Chris Goodey) que a “ditadura do proletariado” tinha sido liquidada pari passu com a eliminação dos Comitês de Fábrica.


[1] [N.T.] Importante notar que Brinton utiliza marxistas entre aspas para designar o pseudomarxismo, isto é, aqueles que não expressam uma perspectiva revolucionária. Porém, ele não desenvolve uma explicação da perspectiva de classe que distingue o pseudomarxismo do marxismo. O primeiro expressa a perspectiva de classe da burocracia, enquanto o segundo expressa a perspectiva de classe do proletariado.

[2] Paul Cardan, “O papel da ideologia bolchevique no nascimento da burocracia”, Socialismo ou Barbárie, nº. 35 (Janeiro-Março, 1964). Esse texto foi publicado subsequentemente em inglês como Panfleto Solidário, 24, From Bolshevism to the Bureaucracy (1967).

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] A Revolução Bolchevique, de Carr, 1917-1923 (Macmillan, 1952), A Consciência da Revolução, de Daniels (Harvard University Press, 1960), Os Anarquistas Russos, de Avrich (Princeton University Press, 1967), e Ideologia bolchevique, de Kaplan (Owen, 1969), fornecem um excelente ponto de partida para qualquer pessoa interessada na discussão.

[6] Os bolcheviques e o controle dos trabalhadores, 1917-1921 (Solidarity, 1970).

[7] B. Ryazanov em: Primeiro Congresso de Sindicatos de Toda a Rússia, 7-14 de janeiro, 1918. (First All-Russian Congress of Trade Unions, January 7 to 14, 1918) (Moscow, 1918), p. 235.

[8] Didier Limon, “Lênin e o controle operário” (Autogestion, Paris, nº. 4, 1967).

[9] Artigo de Pankratova sobre “Os Comitês de Fábrica na Rússia no Tempo da Revolução (1917-1918)”, foi publicado na edição mencionada anteriormente de Autogestion.

[10] Comunicação pessoal de Didier Limon.

[11] Merrheim, ex-secretário da Federação Francesa dos Metalúrgicos e coautor da Carta de Amiens, foi uma das figuras importantes do movimento anti-guerra na França, durante a Primeira Guerra Mundial. Ele foi um participante ativo na Conferência de Zimmerwald de socialistas anti-guerra.

[12] Assembleia de legitimação, 1917-1918, nº. 4, art. 58.

[13] Isaac Deutscher, Sindicatos soviéticos (London: Royal Institute for International Affairs, 1950), p. 17.

[14] De acordo com Carr (A revolução bolchevique, Vol. 2 (Pelican edition, 1966), p. 73), “na controvérsia nos bastidores que se seguiu à publicação do projeto de Lênin, os sindicatos tornaram-se os campeões inesperados da ordem, disciplina e direção centralizada da produção; e o projeto de decreto revisado, finalmente apresentado a V.Ts.I.K. em 14-27 de novembro de 1917. foi o resultado de uma luta entre os sindicatos e os Comitês de Fábrica que repetiu a luta na Conferência de outubro”. (A Primeira Conferência Pan-Russa de Comitês de Fábrica foi realizada em 17-22 de outubro de 1917)

[15] [N.T.] Tradução livre: não deve ser considerado no sentido estrito de uma revisão, mas no sentido mais amplo de ingerência.

[16] Brinton, op. cit., p. 62.

[17] León Trotsky, Stalin (London: Hollis and Carter, 1947), p. 61.

[18] Lênin, Ensaios, IV, p. 44.

[19] Veja: Nossas tarefas políticas.

[20] Maurice Dobb, Desenvolvimento econômico soviético desde 1917 (New York, 1948), pp. 89-90.

Traduzido por Vyctor Grotti, a partir da versão disponível em: https://www.marxists.org/archive/brinton/1975/factory-committees.htm. Revisado por Priscila Olin Silva e José Santana da Silva. Para conferir o artigo de Chris Goodey, respondido por Brinton no presente texto, consulte o seguinte link: https://libcom.org/history/factory-committees-1918-chris-goodey-debates-maurice-brinton.

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