Trotsky e sua lenda – Paul Mattick

Publicado em Living Marxism, 1940

Com a morte de Leon Trotsky, faleceu o último dos grandes dirigentes do bolchevismo. Foi sua atividade durante os últimos quinze anos que manteve vivo algo do conteúdo original da ideologia bolchevique – a grande arma para transformar a Rússia atrasada em sua forma capitalista de Estado atual. 

Como todos os homens são mais sábios na prática do que na teoria, assim também Trotsky alcança muito mais importância por suas conquistas do que através dos raciocínios que os acompanharam. Próximo de Lênin, ele foi sem dúvida a maior figura da Revolução Russa. Porém, a necessidade de dirigentes como Lênin e Trotsky, e o efeito que estes dirigentes tinham, trazem à luz a total impotência das massas proletárias para resolver suas próprias necessidades efetivas diante de uma situação histórica imatura e implacável.

As massas tiveram que ser dirigidas; mas os dirigentes só podiam dirigir de acordo com suas próprias necessidades. A necessidade de uma direção do tipo praticado pelo bolchevismo não indica, finalmente, outra coisa que a necessidade de disciplinar e aterrorizar as massas, de modo que podem trabalhar e viver em harmonia com os planos do grupo social dominante. Este tipo de direção demonstra, em si mesma, a existência de relações de classe, de política e economia de classe, e uma oposição irreconciliável entre dirigentes e dirigidos. A personalidade exagerada de Leon Trotsky revela o caráter não proletário da Revolução bolchevique justamente como o Lênin mumificado e deificado no Mausoléu de Moscou.

Para que alguns possam dirigir, os outros devem estar impotentes. Para ser a vanguarda dos operários, a elite tem que usurpar todas as posições sociais chave. Como a burguesia antigamente, os novos dirigentes tinham que tomar e controlar todos os meios de produção e de destruição. Para sustentar seu mandato e mantê-lo eficaz, os dirigentes devem fortalecer-se constantemente mediante a expansão burocrática, e dividir continuamente aos governados. Só os amos podem ser os dirigentes.

Trotsky era um amo desse tipo. No princípio era o propagandista hábil, o grande e incansável orador, estabelecendo sua posição dirigente na revolução. Logo se converteu no criador e amo do Exército Vermelho, lutando contra a Direita e a Esquerda, lutando pelo bolchevismo, que também esperava dominar. Mas nesse caso fracassou. Quando os dirigentes fazem história, aqueles que são dirigidos já não contam; mas nem desaparecem. Confiando na força dos grandes espetáculos históricos, Trotsky deixou de ser, nos bastidores do desenvolvimento burocrático, o oportunista eficiente que estava diante da história mundial.

Hoje os grandes homens já não são necessários. Os instrumentos de propaganda modernos podem transformar qualquer fraude em um herói, qualquer personalidade medíocre em um gênio onisciente. Efetivamente, a propaganda transforma, através de seus esforços coletivos, qualquer dirigente médio, senão estúpido, como Hitler e Stálin, em um grande homem. Os dirigentes se transformam em símbolos de uma vontade organizada, coletiva e realmente inteligente, para manter as instituições sociais dadas. Fora da Rússia, Trotsky foi logo reduzido a amo de uma pequena seita de “revolucionários” profissionais e seus provedores. Ele era “o Velho”, a autoridade indiscutível de um crescimento artificial da cena política, destinado a acabar absorvido. Tornar-se o amo de uma Quarta Internacional, quando seu adversário Stálin era o amo da Terceira, seguiu sendo a ilusão com a qual morreu.

Não há aqui necessidade alguma de expor o desempenho individual de Trotsky; sua autobiografia é suficiente. Não é necessário enfatizar suas muitas qualidades, literárias e de outro tipo. Suas obras, e acima de tudo sua História da Revolução Russa, imortalizará seu nome como escritor e político. Contudo há uma necessidade real de se opor ao desenvolvimento da lenda de Trotsky, que fará deste dirigente da revolução capitalista de Estado russa um mártir da classe operária internacional – uma lenda que deve ser rejeitada, juntos com todos os demais pressupostos e aspectos do bolchevismo.

Louis Ferdinand Céline disse que as revoluções devem ser julgadas vinte anos depois. E fazendo isto, encontrou só palavras de condenação para o bolchevismo. A nós, porém, parece que uma reavaliação do bolchevismo na atualidade poderia bem ser feita sem nenhuma classe de moralização. Em retrospectiva, é bastante fácil ver no bolchevismo o princípio de uma nova fase de desenvolvimento capitalista, que se iniciou com a I Guerra Mundial. Sem dúvida, em 1917, a Rússia era a ligação mais fraca da estrutura capitalista mundial. Mas o conjunto do capitalismo em sua forma de propriedade privada estava já a beira da estagnação. Erigir e expandir um sistema econômico viável do tipo do laissez-faire já não era possível. Só a força do centralismo completo, do governo ditatorial sobre o conjunto da sociedade, poderia garantir o estabelecimento de uma ordem social exploradora capaz de uma expansão da produção apesar do declive do capitalismo mundial.

Não há dúvida que os dirigentes bolcheviques, criando sua estrutura capitalista de Estado – que se converteu, em vinte anos, no exemplo da evolução subsequente de todo o mundo capitalista – estavam profundamente convencidos de que sua construção era conforme as necessidades e desejos do seu próprio proletariado e do proletariado mundial. Até mesmo quando compreenderam que não poderiam alterar o significado deste feito oferecendo como desculpa uma teoria que identificava a dominação dos dirigentes com os interesses dos dirigidos. A força motora do desenvolvimento social na sociedade de classes – a luta de classes – foi teoricamente suprimida; mas, praticamente, tinha que se desenvolver um regime autoritário, disfarçado de ditadura do proletariado. Na criação deste regime, e no esforço para camuflar, Trotsky ganhou a maioria de suas conquistas.  Mas confiou demais nelas até o último momento. Só é necessário se atentar no eminente papel que Trotsky desempenhou nos turbulentos primeiros anos da Rússia bolchevique para entender por que não podia admitir que a revolução bolchevique só foi capaz de mudar a forma do Capitalismo, mas não pôde suprimir a forma capitalista de exploração. Era a sombra desse período que escureceu seu entendimento.

No atraso geral que prevalecia na Rússia tzarista, a intelectualidade tinha poucas oportunidades para melhorar sua posição. O talento e as capacidades das classes médias educadas não encontravam nenhuma realização nesta sociedade em estagnação. Mais tarde esta situação encontrou seu paralelo nas condições da classe média na Itália e Alemanha depois de Versalhes e da seguinte crise mundial. Nos três países, e em ambas situações, a intelectualidade e amplas camadas da classe média se politizaram e se converteram em contrapeso do declinante sistema econômico. Na busca de ideologias úteis como armas, e a busca de aliados, todos tinham que apelar para a camada proletária da sociedade, e a todos os demais elementos descontentes. A direção do movimento bolchevique, tanto como a dos movimentos fascistas, não era proletária, mas de classe média: o resultado da frustração dos intelectuais debaixo das condições de estagnação e atrofia econômica.

Na Rússia, antes de 1917, uma ideologia revolucionária se desenvolveu com a ajuda do socialismo ocidental – com o marxismo -. Mas a ideologia serviu só no ato da revolução, nada mais. Teve que ser alterada continuamente e adaptada para servir as necessidades em desenvolvimento da revolução capitalista de Estado e seus beneficiários. Finalmente, esta ideologia perdeu toda conexão com a realidade e serviu como religião, uma arma para manter a nova classe dominante.

Com esta ideologia, a intelectualidade russa, apoiada por operários ávidos, pôde tomar o poder e sustentá-lo devido a desintegração da sociedade tzarista, a ampla brecha social entre camponeses e operários, a consciência operária subdesenvolvida e a debilidade geral do capitalismo internacional depois da guerra. Chegando ao poder com a ajuda de uma ideologia marxiana russificada, Trotsky, depois de perder o poder, não teve escolha senão manter a ideologia revolucionária em sua forma original contra a degeneração do marxismo a que se entregavam os stalinistas. Ele poderia permitir este luxo, pois havia escapado das férreas consequências do sistema social que havia ajudado a produzir. Agora poderia levar uma vida de dignidade, melhor dizendo, uma vida de oposição. Mas se ele tivesse subitamente retornado ao poder, suas ações não poderiam ter sido outras que as de Stalin que tanto desprezava. Afinal, este último não é mais que a criatura das políticas de Lênin e Trotsky. É um fato que os stalinistas, particularmente, são – enquanto são controláveis – exatamente o tipo de homem que líderes como Lênin e Trotsky precisam e amam mais. Mas às vezes o verme se agita. Aqueles subalternos bolcheviques, elevados a posições de poder, entendem com a maior plenitude que a única garantia de segurança descansa no encarceramento, no exílio e no assassinato.

Em 1925, os métodos opressivos não estavam tão avançados para assegurar o poder absoluto do grande líder. As tradições do capitalismo democrático ainda eram obstáculos aos instrumentos ditatoriais. A direção seguiu depois da morte de Lênin; já não havia o Líder. Embora Trotsky tenha sido forçado ao exílio, a imaturidade da forma autoritária de governo poupou sua vida por quinze anos. Logo poderiam ser facilmente destruídas as velhas e novas oposições ao governo de Stálin. O enorme sucesso de Hitler na “noite das facas longas”, quando exterminou com um golpe atrevido a toda a oposição efetiva contra ele, ensinou a Stálin a maneira de se ocupar de seus próprios problemas. Qualquer um que fosse suspeito de, em um momento ou outro, haver abrigado ideias desagradáveis ao gosto de Stálin e ao governo absoluto, qualquer que, devido as suas capacidades críticas, era suspeito de ser capaz no futuro de alcançar os ouvidos ansiosos dos desvalidos e decepcionar os burocratas, era eliminado. Isto não foi feito à maneira nibelunga em que os fascistas alemães se livraram de Roehm Strasser e seus seguidores, mas de maneira oculta, intrigante, cínica dos julgamentos de Moscou, para tirar proveito até da morte de potenciais opositores para a maior glória do líder onipresente e querido, Stálin. O aplauso daqueles que tomavam as oficinas que ficavam vazias pelos assassinados estava assegurado. Fazer que as amplas massas aceitassem alegremente o fim miserável dos “velhos bolcheviques”, foi meramente um trabalho para o ministro de propaganda. Assim, a totalidade da Rússia, não só o grupo burocrático dirigente, acabou com os “traidores da pátria dos trabalhadores”.

Mesmo celebrando em segredo a morte de Trotsky em festas particulares, os defensores do stalinismo, com candidez comovedora, perguntarão por que Stálin deveria estar interessado em se livrar de Trotsky. Depois de tudo, que dano poderia fazer Trotsky ao poderoso Stálin e a sua grande Rússia? Porém, uma burocracia capaz de destruir milhares de livros porque contém o nome de Trotsky, de reescrever e reescrever de novo a história para apagar cada conquista da oposição assassinada, uma burocracia capaz de organizar os Julgamentos de Moscou, certamente é também capaz de contratar um assassino, ou de encontrar um voluntário para silenciar a única voz discordante, e ao mesmo tempo, manter a perfeita harmonia de louvores para a nova classe dominante na Rússia. A auto exaltada identificação com seu líder do último pária do Partido Comunista, o fanatismo idiota desdobrado por estas pessoas quando o espelho da verdade se sustenta diante seus olhos, não permite surpresa alguma diante do assassinato de Trotsky. Só seria surpreendente se ele não fosse assassinado antes. Para entender o assassinato de Trotsky, só é necessário observar o mecanismo e o espírito de qualquer organização bolchevique, a de Trotsky incluída.

Que mal poderia fazer Trotsky? Precisamente porque ele não estava disposto a prejudicar sua Rússia e a seu Estado operário, era tão intensamente odiado pela burocracia bolchevique. Pela mesma razão que os trotskistas, nos países onde tinham uma posição estabelecida, não estavam dispostos a mudar no mais mínimo instrumento do partido inventado por Lênin, que seu espírito seguia sendo o espírito do bolchevismo, eram odiados pelos proprietários dos distintos Partidos Comunistas.

Os passos rápidos da história tornam possível qualquer impossibilidade aparente. A Rússia não é imune às vastas mudanças das experiências mundiais atuais. Em um mundo que cambaleia, todos os governos se tornam inseguros. Ninguém sabe onde o furacão atingirá a próxima vez. Cada um tem que contar com todas as eventualidades. Devido a insistência de Trotsky em defender a herança de 1917, devido a que ele seguia sendo o bolchevique que viu o capitalismo de Estado a base para o socialismo e na dominação do partido a dominação dos operários, devido a que ele não queria outra coisa a não ser a substituição de Stálin e da burocracia que o apoiava, era realmente perigoso para o último.

Que ele tivesse outros argumentos, tais como esse da “revolução permanente” contra o slogan do “socialismo em um só país”, etc., é bastante insignificante, porque a permanência da revolução, assim como o isolamento da Rússia, não depende de slogans e decisões políticas, mas de realidades sobre as quais até mesmo o partido mais poderoso não tem controle. Tais argumentos só servem para disfarce dos interesses completamente comuns pelos quais os partidos políticos lutam.

Foi o caráter não revolucionário das políticas de Trotsky com respeito ao cenário russo que o fez tão perigoso. A burocracia russa sabe muito bem que a presente situação mundial não é dada a mudanças revolucionárias de acordo com os interesses do proletariado mundial. Os ditadores e os burocratas pensam em termos de ditadura e burocracia. São os pretendentes ao trono que o temem, não a ralé da rua. Napoleão achou fácil controlar qualquer multidão insurgente; achou mais difícil tratar com as maquinações de Fouché e Talleyrand. Um Trotsky, enquanto viveu, poderia ser chamado outra vez com a ajuda das camadas mais baixas da burocracia russa sempre que surgisse um momento oportuno. A oportunidade de substituir a Stálin, de triunfar finalmente, dependia de que Trotsky restringisse sua crítica a pessoa de Stálin, a sua segurança brutal, as nauseantes novas atitudes dos novos ricos que são satélites de Stálin. Ele compreendeu que só poderia voltar ao poder com a ajuda da maior parte da burocracia, que poderia tomar de novo seu assento no Kremlin apenas seguindo a uma revolução de palácio, ou a um exitoso putsch de Roehm. Era realista demais – apesar de todo o conveniente misticismo de seu programa político – para não compreender a tolice de um apelo aos operários russos, esses operários que devem haver aprendido agora a ver em seus novos amos seus novos exploradores, e os tolerar sem medo e por não ter necessidade. Não tolerar e não aprovar a nova situação significa renunciar a oportunidade de melhorar a própria situação de alguém; e enquanto a economia russa estiver se expandindo, as ambições e a apologia individuais dominarão aos indivíduos. Os diários se aproveitam de uma situação que percebem que está muito além de seu poder alterar. Precisamente porque Trotsky não era um revolucionário, mas meramente um competidor pela direção sob as condições russas existentes – sempre pronto para seguir o chamado de uma burocracia em reorganização se uma crise nacional exigisse a abdicação de Stalin -, voltou crescentemente mais perigoso para a cúpula governante atual, comprometida como está em novas e vastas aventuras imperialistas. O assassinato de Trotsky é uma das muitas consequências do renascimento do imperialismo russo.

Hoje o bolchevismo se revela como a fase inicial de um grande movimento que, esperando perpetuar a exploração capitalista, está de modo lento e seguro abarcando todo o mundo e transformando a economia da propriedade privada, que já não funciona, em grandes unidades capitalistas de Estado. O governo do comissário bolchevique encontra sua conclusão lógica nas ditaduras fascistas que se ampliam pelo globo. Tão pouco como Lênin e Trotsky souberam o que estavam fazendo realmente quando estavam lutando pelo socialismo, tão pouco sabem hoje Hitler e Mussolini o que estão fazendo lutando por uma Alemanha maior e o Império Romano. No mundo tal e como é, há uma ampla diferença entre o que os homens querem fazer e o que eles estão realmente fazendo. Os homens, mesmos grandes, são muito pequenos diante da história, que vai em frente deles e sempre os surpreendem de novo com os resultados de seus próprios surpreendentes esquemas.

Em 1917, Trotsky soube tão pouco como sabíamos nós mesmos que a revolução bolchevique tinha que terminar em um movimento internacional fascista[1] e na preparação e execução de outra guerra mundial. Se tivesse conhecido a tendência do desenvolvimento, ou acabaria sendo assassinado há vinte anos, ou ocuparia hoje o lugar de Stálin. Sendo assim, ele acabou como uma vítima da contrarrevolução fascista contra a classe operária internacional e a paz mundial.

Contudo, apesar do fato de que Stálin assassinou Trotsky, e apesar do deslocamento de todas as formas de bolchevismo pelo fascismo, uma avaliação final do papel histórico de Trotsky terá que o colocar em linha com Lênin, Mussolini, Stálin e Hitler, como um dos grandes dirigentes de um movimento mundial que tentava, conscientemente ou não conscientemente, prolongar o sistema de exploração capitalista com os métodos inventados primeiro pelo bolchevismo, logo completados pelo fascismo alemão, e finalmente glorificados, na carnificina geral que agora estamos experimentando. Depois disso, o movimento operário pode começar.


[1] [N.T.] Aqui Mattick parece fazer referência ao que expôs Otto Rühle em A luta contra o fascismo começa com a luta contra o bolchevismo, publicado na revista dirigida pelo Living Marxism, Vol. 4, nº 8 de setembro de 1939. Neste artigo, Rühle defende o que depois se tornará a tese dominante do comunismo de conselhos: que o bolchevismo e o fascismo são parte de um mesmo movimento mundial contrarrevolucionário que funda suas raízes na necessidade de fortalecer a dominação sobre o proletariado diante do esgotamento histórico do capitalismo, e cujo modelo econômico seria o capitalismo de Estado em distintas formas – adequados aos níveis de desenvolvimento histórico das forças produtivas em cada país -. Mais tarde, na década de 1960, Mattick se direcionará para rejeitar a generalização do conceito de capitalismo de Estado para as formas de “economias mistas” dos países avançados ocidentais, mas isto não nos diz respeito aqui.

O presente artigo foi traduzido por Thiago Oligon e revisado por Gabriel Teles a partir da versão em espanhol disponível em: http://www.geocities.ws/cica_web/consejistas/mattick/trotsky.htm.

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