Raramente assisti com sentimentos tão mistos um filme como o que Margarethe von Trotta fez sobre Rosa Luxemburgo. Eu havia visto, em 1973, o monólogo teatral completamente fracassado com que a atriz Josephine van Gasteren tentou dar forma à socialista, nascida na Polônia em 1870, atuante tanto lá quanto na Alemanha. Era uma apresentação que alternava entre despertar o riso e a irritação; um feito teatral que melhor poderia ser caracterizado como “o segundo assassinato de Rosa Luxemburgo”. Com essa lembrança na memória, fui ao cinema cheio de maus pressentimentos. O simples fato de que, a julgar pelas fotografias, Barbara Sukowa, a atriz principal, apresentava apenas uma semelhança extremamente vaga com a “heroína” contribuiu para que minhas expectativas não fossem particularmente elevadas. “Será o terceiro assassinato de Rosa”, cheguei a pensar. Mas não foi.
Uma série de coisas positivas podem ser ditas sobre o filme em questão. Em primeiro lugar, Barbara Sukowa, provavelmente também graças à sua atuação, apresentou na tela muito mais semelhança com Rosa Luxemburgo (sobretudo a jovem) do que nas fotografias de jornais e revistas de cinema. Em segundo lugar — assim como na série britânica de televisão Days of Hope — todas as demais figuras históricas que apareciam no filme tinham uma semelhança quase perfeita com aqueles que deveriam representar: August Bebel era August Bebel; Karl Kautsky era Karl Kautsky; Karl Liebknecht era Karl Liebknecht; Jean Jaurès parecia Jean Jaurès. O mesmo vale para as atrizes que interpretaram Luise Kautsky, Clara Zetkin e Sonja Liebknecht. A única exceção foi o ator que interpretou o papel de Leo Jogiches, colaborador polonês e amante de Rosa. Mas, mesmo em meio a muitas boas representações, isso mal alimentou alguma objeção, ainda menos porque ele conseguiu criar um caráter que correspondia em grande parte àquilo que conhecemos sobre o caráter do Jogiches histórico.
Há mais que pode ser observado a favor do filme. Os alemães falavam, naturalmente, alemão; mas, também, os poloneses falavam polonês e Jaurès falava francês, resultando em uma narrativa cinematográfica que parecia muito mais autêntica do que teria sido de outra forma. Essa autenticidade foi ainda mais ampliada, pois as palavras pronunciadas por Barbara Sukowa (Rosa Luxemburgo) ou eram literalmente extraídas das cartas, discursos e ensaios de Rosa, ou eram mais ou menos baseadas neles. Naquele outro caso, o texto de Josephine van Gasteren ao menos se baseou também naquelas cartas; mas a atriz holandesa as recitava de uma maneira que deixava pouca dúvida de que ela não havia compreendido absolutamente nada sobre Rosa Luxemburgo. Isso certamente não pode ser dito de Sukowa. Era evidente que ela havia se colocado na pele da pessoa que deveria interpretar.
De fato, o filme também dá atenção à compaixão de Rosa por um búfalo maltratado, ao prazer que ela sentia com o canto do chapim-real e à admiração que sempre nutria por belas paisagens. Mas, ao lado desses aspectos de sua personalidade — com os quais cidadãos respeitáveis se espantam até os dias de hoje, porque mal conseguem imaginar que uma social-democrata radical também possua características humanas absolutamente comuns —, o frequentador do cinema também vê outros lados. A Rosa Luxemburgo do filme revela ter — em completa conformidade com a realidade — mais de um amante e, por meio de uma observação feita de passagem por Leo Jogiches, chega-se até mesmo a fazer referência ao fato de que seu advogado e posterior companheiro de luta, Paul Levi, também foi um deles. Além disso, o que é ainda mais importante, o espectador também conhece Rosa como uma escritora engajada e suas qualidades de agitadora.
O trabalho de câmera deste filme merece elogios e, nos momentos certos, foram inseridas imagens de arquivo: da multidão que avançava pelo Portão de Brandemburgo em novembro de 1918 e da situação no front em um dos últimos meses da Primeira Guerra Mundial. Os figurinos são de trajes que eram usados naquela época e a diretora parece ter conseguido se aproximar consideravelmente da atmosfera do início desse século. Uma pequena objeção é que algumas coisas, ao que nos parece, nem sempre serão claras para aqueles que sabem pouco ou nada sobre a vida de Rosa Luxemburgo.
O filme começa com imagens que aqueles que estão familiarizados com isso reconhecem imediatamente: mostra-se a fortaleza de Wronke, transformada em prisão feminina, na qual ela estava encarcerada desde o fim de 1916. Quem desconhece os acontecimentos de sua vida se perguntará o que significa essa cena sombria. Naturalmente, isso se torna muito mais claro para ele ou ela mais tarde, mas o nome Wronke não é mencionado em momento algum e também permanece oculto que Rosa Luxemburgo, antes e depois de Wronke, esteve em outras prisões.
Imediatamente após a cena que acabamos de descrever, segue-se outra com a legenda “Varsóvia 1906”. Rosa encontra-se novamente em uma prisão, detida durante a Revolução Russa de 1905. Será que todos os espectadores sabem que a Polônia e, portanto, também Varsóvia faziam parte do Império Russo dos czares naquela época? Será que sabem das atividades de Rosa na jovem social-democracia polonesa, de suas experiências russas durante a primeira revolução naquele imenso país? Duvidamos disso. Muito mais adiante, assiste-se em uma espécie de flashback Rosa quando criança. Aquilo que a pequena menina faz é prontamente compreendido por aqueles que alguma vez já se aprofundaram em sua trajetória de vida. Trata-se daquilo sobre o que, dentre outras coisas, Henriëtte Roland Holst falou no primeiro capítulo de sua biografia de Luxemburgo:
“… que ideias originais tem esta criança: ela escreve bilhetinhos comoventes aos moradores de sua casa; dirige-se a eles com versinhos encantadores e os coloca em um lugar fixo…”
Embora as imagens em questão comprovem mais uma vez que Margarethe von Trotta levou seu tema a sério, fica a dúvida se elas são transmitidas com clareza suficiente e se não teria sido melhor mostrar outros episódios da juventude de Rosa Luxemburgo.
Em contraposição a essas (ressaltamos) pequenas objeções, há outras coisas. O que faz deste filme um trabalho muito importante, em nossa opinião, é o fato de ele demonstrar de maneira convincente que os líderes da social-democracia eram intelectuais abastados, completamente burgueses: cidadãos respeitáveis, para não dizer espírito inflexível, ou, na melhor das hipóteses (como no caso de Rosa Luxemburgo), idealistas entusiasmados. Em todo o filme — e, tendo em vista o que acabamos de observar, consideramos isso correto —, a classe operária não aparece. Durante uma hora e meia, não surge uma única vez na tela a figura de algum operário ou de alguma operária. Mesmo nas poucas cenas em que Rosa Luxemburgo fala em reuniões, o público é evidentemente (e em conformidade com a realidade) composto de representantes que não se distinguem diretamente como “condenados da terra”.
E então: as imagens do escritório de Rosa ou do de Kautsky. Elas correspondem exatamente ao que conhecemos pelas fotografias. Mas são tipicamente cômodos de pessoas em situação financeira bastante confortável e mobiliados segundo o gosto burguês da época. Margarethe von Trotta manteve-se fiel à realidade e, consequentemente, iluminou a essência da social-democracia, despida de todos os mitos e lendas. Não pensamos que essa tenha sido sua intenção. Mas certamente isso não diminui em nenhuma medida o significado do resultado.
E, no entanto… apesar de tudo o que foi dito anteriormente, não consideramos o filme de Margarethe von Trotta sobre Rosa Luxemburgo um bom filme. E isso pela razão de que partes essenciais de sua vida e obra não são mencionadas. Isso, parece-nos, é uma consequência daquilo que a diretora evidentemente tinha em mente. Ela coloca a ênfase na ação de Rosa Luxemburgo contra a ameaçadora Primeira Guerra Mundial e contra a corrida armamentista. Os discursos que se ouvem — tanto de Rosa quanto de Jaurès — são discursos contra a guerra e o militarismo. Von Trotta utiliza de maneira muito clara as advertências de Rosa Luxemburgo daquela época como uma mensagem que também é atual no presente e deve ser proclamada o mais alto possível. Não só fica completamente oculto ao espectador que, para Rosa Luxemburgo, a luta contra a guerra estava intrinsecamente ligada à luta de classes, como também o espectador recebe, dessa forma, uma visão extremamente unilateral da protagonista.
Vemos Rosa, na prisão, ocupada intensamente com estudos botânicos. Novamente, isso corresponde inteiramente à realidade. Mas nada se sabe sobre o fato de que, durante seu encarceramento, ela escreveu tanto seu famoso “Folheto Junius”contra a atuação da social-democracia, quanto, em um momento posterior, uma crítica feroz à prática dos bolcheviques. Por certo que, algumas vezes, e de maneira bastante passageira, ela se expressa criticamente sobre a social-democracia alemã e o movimento sindical alemão, mas essa parte de sua atuação — a parte mais importante, a nosso ver — permanece totalmente pouco iluminada. Somos desconfiados o suficiente para nos perguntar se isso é intencional; se Margarethe von Trotta talvez não quisesse colocar em risco sua mensagem antiarmamentista por meio de detalhes (que para nós, são questões principais) que devem ser extremamente desagradáveis ao Partido Social-Democrata (SPD) na atual República Federal da Alemanha.
Será talvez, perguntamos-nos ainda, por essa razão também que, no final do filme, nos é apresentada uma reconstituição bastante fiel do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, mas nada, absolutamente nada, se aprende sobre a responsabilidade da social-democracia da época e do governo dos chamados Representantes do Povo da Primeira República Alemã? Será por essa razão que se discutem as Cartas Espartaquistas, mas não o que a Liga Espartaquista defendia e qual era, de fato, sua relação com o SPD?
Ao contrário da caricatura ridícula que Josephine van Gasteren certa vez levou ao palco, Von Trotta se mantém continuamente fiel à realidade, mas… a uma parte da realidade. Com isso, não fez justiça a Rosa Luxemburgo e não é mérito da cineasta que, apesar disso, seu filme desfaça certos contos de fadas. A Rosa Luxemburgo que ela mostra pode ser admirada por qualquer pessoa: isso não fala a favor do filme, fala justamente contra ele. É o tipo de engano que não surge por meio da falsificação da realidade, mas que justamente em consequência disso é ainda mais perigoso. E isso sem sequer considerar que pouco do contexto histórico transparece no filme.
Traduzido por Vinícius Posansky, a partir da versão disponível aqui.

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