Teses sobre os Núcleos Revolucionários da Empresa, sobre o Partido e a Ditadura – Grupo de Comunistas Internacionalistas (GIC)

[Nota do Crítica Desapiedada]: O leitor deve notar que o GIC utiliza um vocabulário bastante peculiar para a sua época: partido, núcleos revolucionários da empresa, ditadura, conquistar o poder, etc. Em uma primeira leitura, o texto poderia ser visto como uma interpretação bolchevique de processos revolucionários, reivindicando a ideia de um “partido proletário” que seria fundamental para a luta do movimento da classe trabalhadora. Porém, em uma leitura mais atenta, o leitor deve perceber que o conteúdo, a argumentação do GIC, difere e critica radicalmente a perspectiva contrarrevolucionária do bolchevismo e de outras tendências ligadas ao bloco progressista, e o chamado “partido proletário” é, na verdade, uma organização revolucionária, distinta dos partidos políticos propriamente ditos, isto é, organizações burocráticas. Neste sentido, a leitura do GIC deve feita com senso crítico, notando que diversos termos termos são inoportunos hoje em dia (a exemplo de “partido”) e precisam ser atualizados com conceitos adequados, como associação dos revolucionários em organizações autárquicas (revolucionárias), autogoverno da classe operária, luta pela autogestão social e outros. O Portal, portanto, recomenda a leitura de outras análises teóricas* que possibilitam uma atualização e assimilação crítica do GIC. No lugar do dogmatismo e da leitura acrítica, incentivamos a reflexão e aprofundamento das teses que aqui disponibilizamos de forma inédita em português. Boa leitura!
* Conferir: A Organização Revolucionária como expressão política do Proletariado – Nildo Viana, O que são partidos políticos? – Nildo Viana & Organizações: Reprodução ou Transformação Social – Nildo Viana. Para uma crítica do construto (falso conceito) “massas”, termo recorrente em artigos dos comunistas de conselhos, confiram o artigo Para Além da Crítica dos Meios de Comunicação (Nildo Viana).


Teses sobre os Núcleos Revolucionários da Empresa, sobre o Partido e a Ditadura[1]

Introdução à tradução inglesa por Fredo Corvo[2]

Em seu folheto Teses sobre os Núcleos Revolucionários da Empresa, sobre o Partido e a Ditadura, o Grupo de Comunistas Internacionalistas (GIC), comunista de conselhos, apresentou sua posição sobre o novo conteúdo e forma que o movimento operário havia assumido desde a 1ª Guerra Mundial. O GIC também resolveu as duas seguintes questões colocadas pelo Partido Comunista Operário da Alemanha (KAPD), a União Geral dos Trabalhadores da Alemanha (AAUD) e a AAU-E [Allgemeine Arbeiter-Union – Einheitsorganisation; União Geral dos Trabalhadores – Organização Unitária] de Otto Rühle:

— Os futuros conselhos operários surgirão da AAU? Todos consideravam equivocadamente a AAU uma organização revolucionária de massa que substitui os sindicatos e a partir da qual os Conselhos Operários surgiriam.

— Os revolucionários devem participar das lutas salariais?

Numa carta, publicada na revista Der Kommunist [O Comunista] do KAPD em julho de 1920, Anton Pannekoek já havia criticado a visão da União Operária no programa do KAPD. Esta crítica ressurgiu nas posições do GIC, onze anos depois, quando o grupo fez uma distinção clara entre organizações de massa e as organizações de minorias. Ainda assim, o GIC manteve a ideia de ter duas organizações de minorias, uma no nível da organização da empresa e outra num nível regional.

O partido parlamentar de massa e o sindicato tornaram-se obsoletos como organizações proletárias de luta. Durante as lutas abertas dos trabalhadores, a organização da empresa toma o lugar das organizações de massa permanentes na forma de assembleia geral do pessoal em luta com comitês de luta eleitos e com mandatos revogáveis[3]. Apenas em épocas de lutas permanentes dos trabalhadores os conselhos operários aparecem como coordenação sobre áreas geográficas maiores que podem sobreviver por um período mais longo. O GIC descreve também a função de duas organizações minoritárias, a saber, aquela dos núcleos revolucionários da empresa e dos grupos de opinião (ou, no caso de crescimento numérico, aquela dos partidos revolucionários). De acordo com o GIC, os grupos de desempregados tinham a mesma função que os núcleos revolucionários da empresa (ver a nota de rodapé 11 sobre a organização dos desempregados[4]).

Ao contrário da nova organização de massas, a organização da empresa, os núcleos revolucionários da empresa e os grupos de opinião poderiam existir fora da luta a fim de tirar lições disso e dar início a novas lutas. Porém, isto não significava que se as minorias revolucionárias se tornassem tão grandes, elas não se chamassem mais de grupos, mas sim de partidos, e que estes teriam a tarefa de tomar o poder.

O que é notável é a ligação direta que o GIC estabelece entre a associação dos produtores livres e iguais após a revolução proletária e a autonomia proletária nas lutas cotidianas pelos interesses diretos dos trabalhadores. Como um grupo marxista, o GIC não traça esta ligação com base em “um ideal pelo qual o movimento real deve se orientar”, mas sim com base nas novas formas de organização e nos objetivos de classe revolucionários relacionados às greves de massa e ao movimento de conselhos desde a virada do século XX.

Nossa época difere de muitas maneiras do período no qual o GIC extraiu muitas lições das lutas revolucionárias dos trabalhadores de 1917 a 1923 e das contrarrevoluções democráticas, fascistas e stalinistas. Os revolucionários de hoje devem lutar por seu próprio conhecimento, tanto pela compreensão da continuidade social que nos une ao passado como pela compreensão das particularidades que nos separam da história pregressa.

F. C., junho de 2020


Teses sobre os Núcleos Revolucionários da Empresa

I. Propósito

1. Os núcleos revolucionários da empresa fazem propaganda na fábrica pela derrubada do sistema de produção capitalista e pelo início da produção de acordo com as necessidades com base na associação dos produtores livres e iguais: a administração e a gestão estão nas mãos dos próprios trabalhadores por meio de suas organizações e conselhos da empresa.

2. Nesta luta, a classe trabalhadora só pode ser vitoriosa se, como ações lideradas pelos próprios trabalhadores, ela agir como uma unidade, como um todo, contra o enorme poder econômico (trustes, monopólios) da burguesia e seu poder político (o Estado). A própria luta de classes é um solo fértil a partir do qual esta unidade cresce em vontade, pensamento e ação para retirar os meios de produção da burguesia e destruir seu Estado. A ascensão a esta unidade é o conteúdo essencial dos próximos movimentos da classe.

3. A destruição do Estado é a realização dos princípios da Comuna de Paris de 1871. O “esmagamento” do Estado é a abolição do velho aparato de funcionários públicos inimigos dos trabalhadores e da casta militar-burocrática da burguesia que governam as massas como agentes da burguesia.

O “esmagamento” do Estado consiste em “transferir a responsabilidade de todos os funcionários para baixo”. Assim como os trabalhadores devem controlar suas organizações, assim como os funcionários das organizações não devem ser nada mais que os “executivos” da vontade dos trabalhadores e, portanto, responsáveis para baixo, então os funcionários devem implementar na sociedade nada mais do que a vontade dos trabalhadores. Isso só é possível se os próprios trabalhadores retiverem, através de seus conselhos e organizações da empresa, o direito de nomear e destituir funcionários. Todas as medidas gerais e normas gerais de trabalho são, então, de responsabilidade das organizações de conselho que se desenvolvem a partir das organizações das empresas. Desta forma, o aparato burocrático arbitrário, que é fechado às massas e domina as massas, será abolido e as funções sociais se tornarão uma parte viva das massas, a administração e a gestão da vida social serão entregues às próprias massas.

II. A Próxima Batalha

1. A posição dos núcleos revolucionários da empresa na luta de classes prática é totalmente apoiada pelo princípio da revolução proletária. A liderança e a administração de todos os eventos sociais devem estar nas mãos dos trabalhadores. Deste ponto de vista, a velha discussão de se os trabalhadores revolucionários devem rejeitar as greves por salários – como reformistas – ou apoiá-las aparece sob uma nova luz. Deste ponto de vista, resulta que a pergunta foi feita de maneira incorreta e que, portanto, a resposta correta não poderia ser dada.

A essência do próximo movimento de classe é o processo de revolução rumo à implementação independente do que vive na própria classe trabalhadora, o desenvolvimento da autoconsciência e a autoatividade. Os núcleos revolucionários da empresa sempre tentam, portanto, implementar este “princípio da comuna de Paris” em todos os movimentos dos trabalhadores. O conteúdo destes movimentos, independentemente de eles dizerem respeito aos salários ou a outras demandas, não pode ser determinado pelos núcleos revolucionários da empresa. Portanto, estes núcleos não são um substituto para o velho movimento sindical. A melhoria das condições de trabalho não é de modo algum sua função.

2. Nesta luta por “sua autoliderança”, a classe trabalhadora encontrará todas as antigas organizações operárias do lado oposto. O motivo para isto é o fato de que em todas estas organizações a relação burguesa dos líderes com as massas predomina. No topo está a liderança que determina o conteúdo, mas, acima de tudo, o curso dos movimentos. Estas organizações desenvolveram um aparato de funcionalismo público que está separado da massa de seus membros e leva uma vida independente. A responsabilidade dos diferentes funcionários públicos nunca acontece “para baixo”, mas sempre “para cima”. O direito de nomear e destituir funcionários públicos não se encontra com as massas, mas nos escalões superiores, que permitem que todas as funções do aparato organizacional sejam tomadas por pessoas que consideram apropriadas para suas políticas de liderança. A organização do antigo movimento operário demonstra, assim, as mesmas características que a organização do Estado. É por isso que destruir o Estado é como destruir estas organizações. Portanto, eles resistem ao extremo (e com metralhadoras) contra uma revolução proletária, assim como a burguesia. A burguesia encontra, portanto, seu maior suporte no antigo movimento operário contra uma revolução proletária.

3. Resulta desta situação que não há diferença significativa entre a luta pela implementação imediata da revolução proletária e da luta de classes prática que diz respeito aos salários. A luta pelos princípios de “liderança própria” em todos os movimentos operários é essencialmente uma luta pelo próprio comunismo.

III. A “Greve Selvagem”

1. Os sindicatos são os refúgios mais importantes da burguesia contra a revolução proletária. Totalmente presos na cooperação entre capital e trabalho por meio de acordos coletivos, eles estão completamente fundidos com o capitalismo. Incapazes de assumir a luta contra o truste moderno e o capitalismo monopolista com as associações profissionais[5], eles não conseguem nem sequer pensar em se opor ao empobrecimento da classe trabalhadora sem colocar sua própria organização em risco. E onde os próprios trabalhadores estão se movimentando para assumir a luta contra o capital, eles [isto é, os sindicatos] se associam diretamente ao lado dos capitalistas, pois esta movimentação é tão perigosa para eles quanto para a burguesia.

Estas movimentações, que nascem dos próprios trabalhadores, quase sempre (como a própria prática lhes ensinou) assumem a forma de “greves selvagens”. Os sindicatos quebram imediatamente estas greves selvagens, usando métodos diferentes dependendo das circunstâncias. O procedimento mais vantajoso para eles é assumir a liderança da greve, e depois disso, eles entram em um acordo com os empresários e simplesmente cancelam a greve. Se isso não é bem-sucedido diretamente, eles obrigam seus membros a quebrar a greve.

2. É muito importante investigar o curso destas greves selvagens. E, se nos questionarmos seriamente após o final da movimentação qual método teve o melhor efeito, se as “deliberações” dos sindicatos nas salas de reunião da direção ou se a greve selvagem liderada por um comitê de greve dos trabalhadores, então a prática demonstrou que ambas acabaram em derrota na maioria dos casos. A greve selvagem colapsou depois de algum tempo, ao que as manipulações do sindicato, que não excluíam quaisquer meios de obter a derrota dos trabalhadores, não contribuíram pouco.

Não obstante, esta não é a causa real da derrota. A principal razão é que a greve selvagem ainda está em seu primeiríssimo estágio de desenvolvimento. Com a clara bancarrota do movimento sindical, os trabalhadores estão dando apenas o primeiro passo em direção à ação independente. Mas, por enquanto, eles permanecem dentro das velhas barreiras do antigo sindicato, na medida em que se diz respeito à greve “limitada”. Assim como os sindicatos fazem de vez em quando, eles estão paralisando parte de uma indústria a fim de forçar o capital a fazer concessões. Em alguns casos, isto pode ser um sucesso, mas, em geral, especialmente em grandes conflitos, isso leva à derrota, como ocorre com os sindicatos. Então uma “liderança melhor” não é de modo algum uma cura milagrosa para a vitória. A questão é esta, que nenhuma greve limitada (que se restringe meramente a um ramo de negócio determinado) na época atual do capitalismo de trustes é dirigida contra a burguesia.

A bonzocracia [Bonzokratie][6] do movimento sindical sabe muito bem disso e é por isso que ela nem sequer a inicia.

3. Os núcleos revolucionários da empresa têm que, portanto, transformar a “frente profissional” em uma “frente de classe”; eles têm que fazer um esforço para garantir que toda greve seja imediatamente transferida a outros ramos da indústria. Esta tática de greve só é possível se os sindicatos forem excluídos da direção da greve porque os sindicatos estão pouco dispostos e não têm força para fazê-lo. Eles relutam porque seu aparato é totalmente orientado a “consultas” entre o trabalho e o capital. Eles não têm força, pois estão amarrados pelos acordos coletivos e, conforme o movimento se expande, eles adentram imediatamente no campo ilegal, de modo que suas posses estão em perigo.

IV. Organização da Empresa e Núcleo da Empresa

1. Os núcleos revolucionários da empresa[7] concentram sua atividade na atividade dos trabalhadores como um único homem, independente de qualquer partido ou sindicato. Eles pedem que o pessoal não se deixe ser dividido, de acordo com o espírito divisor dos diferentes diplomas, mas que determinem juntos sua atitude na luta.

Assim, todo trabalhador deve lutar individualmente entre a disciplina do partido ou do sindicato e a solidariedade de classe. Se a solidariedade de classe vencer, derrotando as políticas de liderança herdadas da burguesia, suas próprias políticas de classe tomarão seu lugar.

2. Quando os trabalhadores, organizados desta maneira, assumirem a luta, se eles estiverem organizados segundo a fábrica, então naquele momento eles formam uma organização da empresa que é uma real organização de classe. Estas organizações da empresa lideram a luta; elas decidem sobre a luta nos comitês de greve, possivelmente negociam com os chefes e encerram elas mesmas as lutas.

3. Não se deve confundir estas organizações de luta com os núcleos da empresa. O núcleo não é o representante da classe: ele não foi eleito como tal e, portanto, não pode tomar a liderança da greve. Na medida em que membros de um núcleo têm um lugar na liderança de greve, eles estão lá apenas como trabalhadores instruídos pelo pessoal como tal.

4. No final de uma luta, as organizações da empresa se desintegram porque os trabalhadores não atuam mais como uma unidade organizacional: na maior parte do tempo, a disciplina do partido e do sindicato divide novamente os trabalhadores em categorias diferentes. O que resta são os núcleos revolucionários da empresa, que estão sempre prontos para apelar ao sentimento de classe.

5. A organização da empresa como uma expressão da unidade da classe trabalhadora vai, portanto, desaparecer de novo e de novo antes da revolução e reaparecerá novamente a fim de ser a forma organizacional permanente dos trabalhadores apenas no ponto de transição das relações de poder. Os trabalhadores agem, então, independentemente de qualquer partido ou sindicato como uma unidade de produção e, através de sua rede de relações, eles estabelecem a associação dos produtores livres e iguais.

1931

Escrito originalmente como a contribuição do GIC ao congresso do grupo anarquista Alarm Groep (Grupo Alarme) em Haia e distribuído até 1940 com as teses sobre o partido e a ditadura como um panfleto do GIC com os títulos “A todos os trabalhadores revolucionários” e “Teses sobre o núcleo revolucionário da empresa, sobre o partido e a ditadura”. O último título foi mantido aqui.


Teses Sobre o Partido e a Ditadura

I. Inversão das Velhas Tradições

1. As tradições do antigo movimento operário cresceram historicamente; elas são o resultado de um período anterior no qual as velhas táticas provadas podiam alcançar vantagens. Várias gerações usaram com sucesso essas táticas de modo que estas formas de luta ainda estão presentes na consciência das massas como saber empírico. Somente toda uma série de derrotas, como nós vimos nos últimos dez anos, pode abrir a nova verdade para a geração mais jovem. É por isso que no período atual está surgindo a luta dentro da classe trabalhadora para romper com a obediência aos partidos políticos e às lideranças sindicais e para estender a luta a outros grupos através de movimentos de solidariedade. Assim, nós estamos em um período de transição para a ação independente das massas.

2. Esta transformação não é revelada imediatamente em formas de luta claras pela ação independente das massas, mas, por enquanto, permanece misturada com partes importantes das antigas. Não obstante, as outras visões também são refletidas aqui em uma forma organizacional diferente: o OSP[8], a RGO[9] e a 3ª Internacional. Estas formações correspondem à compreensão que a luta de classes não pode mais ocorrer com as greves profissionalmente limitadas[10]. Portanto, elas exigem que os sindicatos estendam a greve. Estas formações também são consistentes com a velha crença tradicional sobre a liderança dos movimentos de classe, que elas querem pôr nas mãos dos sindicatos ou de seus escritórios de partido. Contudo, nesta época de mudança, estas são hesitações remanescentes que só levam a um beco sem saída. Um domínio de classe militante só pode surgir quando os grevistas, em associação com os desempregados[11], por sua própria iniciativa, incluem trabalhadores de outros setores em seu movimento ao irem en masse para estas outras fábricas.

3. A velha atitude tradicional das massas para com a liderança ainda é um reflexo das relações sociais capitalistas, na qual dominadores e dominados, senhores e servos, os contratantes mais altos e os executivos mais baixos entram em relações sociais autoevidentes. Na luta de classes, isto leva a uma superestimação do poder individual, da capacidade individual dos líderes e uma subestimação do automovimento psicológico das massas. Portanto, tais organizações buscam fundar um partido de massas guiado por uma liderança revolucionária consciente a fim de determinar o curso e o conteúdo do movimento. As massas são o “material” com o qual os líderes levam a cabo o trabalho de libertação.

II. Os Partidos-Líder e a Revolução

1. Nos assim chamados partidos revolucionários de massa, esta libertação da classe trabalhadora encontra sua redação reduzida no slogan: “Socialismo agora!”, com o qual se busca a implantação do capitalismo de Estado, mais ou menos de acordo com o modelo russo. É por isso que a industrialização russa através da exploração estatal é apresentada tanto pelo OSP como pela 3ª Internacional como a construção do socialismo. De acordo com esta visão, um movimento de massa tem que derrubar a classe dominante, e depois disso um governo de “trabalhadores e camponeses” assume o controle, expropria os latifúndios e os entrega ao Estado. A gestão da economia passa, então, para o Estado, mas o Estado só pode funcionar se ele controlar as massas. Para o antigo movimento operário, a dominação do trabalho não diferente em nada da dominação organizada dos trabalhadores assalariados. Desta visão do “socialismo agora”, nasce a atitude da 3ª Internacional de destruir mesmo agora qualquer organização de trabalhadores revolucionários que não se submeter à sua liderança. Deste ponto de vista, a tirania executiva dos líderes para com os membros de sua própria organização se torna compreensível. Assim como a liderança da 3ª Internacional exige obediência absoluta e cega de seus membros, ela também quer a submissão absoluta de toda a classe trabalhadora à sua liderança quando ela tiver se tornado o partido dominante sob o pretexto da “ditadura do proletariado”.

2. Mas uma revolução proletária nos países capitalistas avançados[12] é afetada diretamente por um governo operário “socializante”. O “governo operário” sempre tenta consolidar o movimento em certo ponto a fim de organizar sua “socialização”. Porém, as massas que ganharam vida não podem parar diante de tal consolidação; elas estão tentando transformar todas as relações sociais para colocá-las em uma nova base. O “governo operário” tem que agir contra elas para criar “ordem” e evitar o “caos”.

Mas em termos sociais, este “caos” é precisamente o nascimento das novas relações sociais que os próprios trabalhadores criam. Quanto mais as forças sociais são descarregadas, mais profundamente opera a charrua da revolução.

3. Esta contradição irreconciliável entre as massas autoativas e um “governo operário” que deve estabelecer a “ordem” leva ao fato de que um partido que quer limitar a atividade das massas aos limites de seu programa de partido tornando-se o poder dominante no Estado deve desempenhar um papel contrarrevolucionário na revolução. Ele proclama a ditadura do proletariado para lutar contra a contrarrevolução da burguesia e implementar gradualmente a nova ordem nas relações sociais, como o Manifesto Comunista de Marx quer. Porém, na verdade, esta ditadura também é dirigida contra os conselhos operários, que ultrapassam os limites do programa do partido ao se socializarem ao tomarem eles próprios a liderança. Eles são então destruídos pela ditadura do partido dominante como contrarrevolucionários. Assim, nos países capitalistas avançados, toda ditadura de partido é uma ditadura sobre a classe trabalhadora e a precursora da contrarrevolução capitalista.

4. O propósito de uma revolução proletária não pode ser nenhum outro senão transformar todas as relações burguesas, até mesmo em seus cantos mais remotos. Portanto, as energias revolucionárias não podem estar restritas às linhas de um programa de partido. Os próprios trabalhadores, através de seus conselhos e organizações da empresa, devem moldar a vida de acordo com suas novas percepções e dominar a sociedade. Isto também é uma ditadura, mas aquela dos trabalhadores, baseada no real poder de classe do proletariado.

III. A Ditadura Política

1. O automovimento da classe trabalhadora por meio de seus conselhos e organizações da empresa é o mesmo que a ditadura do proletariado. Ele quer dizer meramente que todas as funções sociais são realizadas por estes órgãos e tanto o poder legislativo como o poder executivo são transferidos para eles. Em outras palavras, eles tomam todo o poder sem compartilhá-lo com sindicatos, partidos políticos ou outras formações.

2. A fim de fazer cumprir o poder executivo dos conselhos, esta ditadura deve dissolver todas as organizações que queiram subjugar o movimento de conselhos enquanto tal. Na base do movimento de conselhos, na base da ditadura de classe, contudo, a liberdade completa de propaganda política é necessária para as diversas nuances dentro do movimento operário, na medida em que eles aceitam a ditadura de classe. Esta luta de nuances políticas é uma parte essencial da luta de libertação. Sua repressão, como a Rússia demonstra sob a ditadura do Partido Comunista, não é nada senão a repressão da própria revolução nos países capitalistas avançados, levando ao oposto daquilo pelo que pretende lutar.

IV. A Ditadura Econômica

1. Na revolução, os partidos políticos e o movimento sindical tentarão obter poder econômico através do desvio do Estado. Os conselhos e organizações da empresa só podem reter seu poder se não dirigirem as fábricas através do Estado, mas gerirem e administrarem diretamente eles mesmos a produção sem desvios. Esta liderança direta só é possível se as antigas leis de movimento da economia forem abolidas e o movimento dos bens se basear no tempo de produção, com a hora de trabalho social média se tornando, então, a categoria central tanto da produção como do consumo[13].

V. O Partido Proletário

1. Com o entendimento de que o proletariado só pode conquistar [o poder] e introduzir a economia comunista como uma unidade de conselhos, o relacionamento dos partidos proletários com a classe deve mudar. Se no passado tratava-se de formar partidos de massa para se tornar o poder dominante, agora se trata principalmente de fortalecer não o partido, mas a classe. Os revolucionários, portanto, trabalham em estreito contato com as massas; eles são uma parte real das massas. Eles carregam a propaganda pelo desenvolvimento independente das forças de classe e as apoiam ativamente sempre que elas se manifestam.

2. Antes, durante e após a revolução, haverá visões diferentes dentro da classe trabalhadora sobre o desenvolvimento da sociedade e, portanto, visões diferentes sobre as medidas que são necessárias, o que é um motivo para a formação de partidos políticos diferentes. Na medida em que eles não reivindicam o poder para si mesmos, não buscam o poder sobre a classe trabalhadora, não é necessário para eles construir um instrumento de poder organizacional. Estes grupos são, portanto, grupos de trabalho locais que se juntam no nível distrital e nacional para fortalecer a propaganda e determinar em conjunto sua posição nos conflitos de classe. A este respeito, uma fusão organizacional de diferentes percepções é danosa.

Agosto de 1932


[1] Tradução de Theses on Revolutionary Workplace Nucleus, Party and Dictatorship, do GIC, feita a partir da tradução de Fredo Corvo e disponível aqui. Ocasionalmente, a tradução para o alemão também foi consultada. Nossas notas estão indicadas como [N. T.] e as de Fredo Corvo como [F. C.]. [N. T.].

[2] Introdução escrita por Fredo Corvo como prefácio à primeira tradução do folheto ao alemão e traduzida pelo próprio autor para o inglês; comparamos as duas versões e mantivemos as escolhas estilísticas e acréscimos do autor em sua tradução para o inglês, mas corrigimos uma omissão e uma tradução equivocada ao inglês, ambas devidamente indicadas nas notas de rodapé. [N. T.]

[3] Na tradução para o inglês, Corvo traduziu “abwählbaren” [revogáveis] equivocadamente como “re-electable” [reelegíveis]. [N. T.]

[4] O texto entre parênteses foi omitido por Corvo na tradução para o inglês. [N. T.]

[5] Ao contrário dos Estados Unidos, a maioria dos sindicatos na Europa não se organizaram como federações industriais após a 2ª Guerra Mundial. Os comunistas de esquerda na Alemanha e na Holanda nos anos 1920 e 1930 consideravam, portanto, entre outras coisas, o Industrial Workers of the World (IWW) [Trabalhadores Industriais do Mundo] estadunidense, que foi organizado de acordo com uma linha industrial, como um passo adiante em relação aos sindicatos organizados profissionalmente. Portanto, as “Arbeiter Union” (sindicatos de trabalhadores) foram organizadas por indústria. Porém, a história dos sindicatos até agora (por exemplo, a AFL-CIO [American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations; Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais] mostra que organizar por indústria ou por profissão não é o ponto crucial na diferença entre organizações proletárias e estatais. [F. C.]

[6] A palavra Bonzokratie é empregada de forma depreciativa aqui pra se referir à influência excessiva de indivíduos no topo da hierarquia, sejam eles os chefes da empresa, do partido, do sindicato, da repartição pública ou até mesmo de uma gangue de criminosos, “funcionários superiores alienados do povo” (dicionário Duden), figurões, mandachuvas, caciques. [N. T.]

[7] Ver também a nota 11 sobre a organização de desempregados.

[8] Onafhankelijke Socialistische Partij, partido político holandês, formado em 1932 como um racha do Partido Social-Democrata (SDAP). Em 1935, o OSP se fundiu com o RSP [Revolutionaire Socialistische Partij; Partido Socialista Revolucionário] de Sneevliet para formar o Revolutionair-Socialistische Arbeiderspartij [Partido Operário Socialista Revolucionário] (RSAP). Durante a ocupação alemã, ele continuou ilegalmente como a Frente Marx-Lenin-Luxemburgo, a qual se recusou a defender a URSS. Depós que Sneevliet e outros nove camaradas foram executados pelos nazistas, o resto da frente internacionalista proletária MLL, após um racha dos trotskistas, se fundiu com camaradas do GIC para formar a comunista de conselhos Communistenbond “Spartacus” [Liga Comunista Esparta].

[9] Oposição sindical vermelha liderada pelos bolcheviques.

[10] Ver nota 5.

[11] Mais ou menos ligado ao GIC, estava ativo em Amsterdã um grupo de desempregados que, como uma organização minoritária, cumpria a mesma função de propaganda que os núcleos revolucionários da empresa.

[12] O GIC, seguindo Herman Gorter e o KAPD, fez uma distinção entre a estratégia para a Rússia, de um lado, e para a Europa Central e Ocidental, de outro, com base em condições sociais diferentes. Isto resultou em uma justificativa parcial da política bolchevique na Rússia. Mas se não se olhar – como todos os marxistas na época e muitos ainda o fazem – para a Revolução Russa a partir da perspectiva da revolução permanente ou da dupla (burguesa e proletária) revolução, seguindo o modelo da política de Marx para a Alemanha de 1848, então a crítica do bolchevismo pelos comunistas de esquerda também é útil para uma análise da contrarrevolução levada a cabo pelos bolcheviques na Rússia [F. C.]

[13] Ver GIC, Fundamental Principles of Communist Production and Distribution [Princípios Fundamentais da produção e distribuição comunistas].

Traduzido por Thiago Papageorgiou.

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