Teses sobre a Revolução Chinesa – Cajo Brendel (Parte I)

[Nota do Crítica Desapiedada]: Disponibilizamos ao leitor a Parte I do panfleto escrito por Cajo Brendel. Nesta primeira parte da tradução, o leitor terá acesso ao prefácio do Solidarity, seguindo a versão inglesa publicada no jornal desse grupo. Junto ao prefácio, pode-se ler em seguida a introdução escrita por Cajo Brendel no ano de 1974.
Indicamos essas informações para dizer que as Teses, divididas em 60 tópicos, ainda não estão contidas nesse primeiro momento da tradução. Esperamos, daqui alguns meses, publicar o restante das Teses, trazendo para debate uma discussão atual, crítica e extremamente relevante sobre o desenvolvimento capitalista na China. Posicionando-se de forma antagônica em relação às interpretações ideológicas, Brendel resgata a perspectiva proletária e realiza uma das melhores análises da emergência e desdobramento do capitalismo de estado chinês. Boa leitura!!


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Prefácio da 2ª edição em língua inglesa

As Teses sobre a Revolução Chinesa foram escritas durante a primavera e o verão de 1967, quando a China passava pela chamada “Revolução Cultural”. As informações sobre estes eventos históricos eram insuficientes na época. Contudo, Cajo Brendel, o autor das teses, se esforçou para fazer uma análise social que destacou conclusões da totalidade do processo da Revolução Chinesa.

O ponto de vista do autor difere fundamentalmente não apenas daqueles maoístas, mas também de todo o tipo de leninistas (incluindo os trotskistas). Diferente do que eles pensavam – em contraste também com as apreciações burguesas – as Teses não admitem que os objetivos políticos do Partido Comunista Chinês determinaram os acontecimentos na China. Ao contrário, aqueles objetivos políticos e os acontecimentos foram aspectos do estágio do desenvolvimento da Revolução Chinesa. O processo revolucionário não foi nada além de uma transição de uma forma pré-capitalista de produção para uma sociedade moderna, baseada no trabalho assalariado, passando dessa maneira para algo como um Capitalismo de Estado.

As Teses sobre a Revolução Chinesa foram primeiramente publicadas em holandês no periódico mensal Daad em Gedachte (Ato e Pensamento). Na primavera de 1969, as Teses foram publicadas em francês no Cahiers du Communisme de Conseils. Em 1971, a primeira edição em inglês apareceu em formato de panfleto no Aberdeen Solidarity. Em 1973, uma edição em italiano foi publicada em Caserta. A respeito desta segunda edição em inglês, ela é como a primeira; nas Teses em si, nada foi mudado. Embora o autor tivesse recorrido a diversas fontes, entre estas, autores sinologistas e notáveis escritores comunistas chineses (como o próprio Mao), panfletos (publicados em inglês na República Popular da China) e artigos do Peeking Review, ele desistiu de notas de rodapé. Ele preferiu convencer, não por mencionar nomes ou títulos, mas por uma lógica de uma série de eventos que registrou.

Suficientemente, muitas explicações poderiam agora ser expandidas na base de maior conhecimento. Mas fazer isso nos levaria a se afastar muito além da característica original das Teses, embora isso não significasse qualquer reavaliação fundamental. Os novos fatos à disposição do autor não transformam basicamente seu ponto de vista. Ao contrário, como o autor percebe o atual desenvolvimento na China, apenas o confirmam.

Isto é mais compreendido se atentarmos a dois de seus outros escritos, adicionado aqui a título de introdução. O primeiro texto trata de alguns aspectos da política externa chinesa, e foi finalizado um pouco depois da restauração das relações diplomáticas entre a República Popular da China e os EUA. O ponto principal é um olhar crítico da atitude de Choun-Em-lai em relação às revoluções no Ceilão[1] e em Bangladesh. O segundo – especialmente preparado para esta edição – descreve os conflitos dentro do Partido Comunista Chinês, na ocasião do Décimo Congresso e durante a campanha anti-confucionista. Ambos os ensaios podem ser considerados como uma ponte entre sete anos atrás, quando as Teses foram concluídas e os acontecimentos presentes. O autor espera que tais Teses contribuam para tornar os eventos atuais compreendidos mais facilmente.

Introdução (1974)

1. Algumas reflexões sobre a natureza contrarrevolucionária da diplomacia chinesa

No último quarto do século XVIII, os EUA, com a atuação de George Washington, se libertaram do jugo colonial britânico. Mesmo antes do povo francês ter feito sua própria revolução de classe média, os americanos enviaram às cortes e aos governos predominantemente feudais[2] da Europa seus próprios representantes diplomáticos.

Para a corte de Luís XVI em Paris, foi enviado um dos embaixadores mais capacitados da América: nada menos que Benjamin Franklin. Nos anos anteriores ele não tinha sido apenas um caloroso defensor da independência americana, mas também adquiriu uma reputação internacional como físico. Duas coisas estavam combinadas nele. Ele foi envolvido pelo brilho da jovem república transatlântica, que por sua própria existência, anunciou aos príncipes absolutistas que seus reinados estavam terminando. Por outro lado, Franklin foi a personificação da ciência pura, desobstruída pelos dogmas eclesiásticos. Tal progresso técnico, baseado na nova ciência, possibilitou a ascensão da burguesia para construir suas próprias formas de produção nos países que estavam ainda dominados pela nobreza e pelo clero.

O fato é que Benjamin Franklin foi o primeiro a desembarcar na França como embaixador da desprezada república americana, tendo sido tolerado pela ordem já desgastada. Isto estimulou a própria consciência do Terceiro Estado Francês. Esse estímulo foi maior pelo comportamento deste representante diplomático dos primeiros empregadores americanos.

Benjamin Franklin sempre teve uma vida simples. Isto foi, por um lado, resultado do puritanismo (produto do capitalismo ascendente). De outro, pode ser explicado pelas demandas de austeridade, criadas por causa do problema de acumulação em um país de classe média pioneira. Franklin nunca teria sonhado em desistir de seu estilo de vida, depois de se mudar para o extravagante bairro da casa real francesa. Ele andou em Paris e Versalhes com uma roupa facilmente reconhecida por todos como um traje do Terceiro Estado. Ele usava suas roupas com o mesmo orgulho com que os marqueses e duques da França usavam seus casacos de seda. Profundamente convencido que seu país de classe média – e a forma republicana de governo-representavam o futuro, Franklin forçou, por sua aparência, a nobreza francesa a honrar sua personalidade. Neste andamento, ele também forçou o reconhecimento de uma nova classe, que estava reivindicando seu aumento na posição de direito na sociedade.

Agindo dessa maneira, Franklin deu um exemplo de uma diplomacia revolucionária que o mundo nunca tinha visto. Ele poderia ser caracterizado como um agitador de classe média, que diariamente desafiou seu detestado inimigo de classe, dando assim um novo ânimo aos seus companheiros de classe da França. Mais tarde (depois que a revolução burguesa triunfou na França e em outros lugares) tal conduta perdeu totalmente seu significado. A burguesia, tornando-se ela própria classe governante, não estava mais engajada em uma prática revolucionária. Começou a imitar as maneiras e o estilo de sua classe inimiga anterior. Assim, nada poderia ser encontrado de diplomacia revolucionária.

Muito mais tarde, o mundo foi levado por um momento a acreditar que os bolcheviques russos (em circunstâncias diferentes, mas de uma maneira parecida) repetiram o que Benjamin Franklin tinha feito quando intimidou a nobreza para ativar o Terceiro Estado. Em março de 1918, quando o governo soviético estava em negociação com o imperialismo alemão em Brest-Litovsk, os representantes moscovitas vieram a esta cidade polonesa com chapéus usados pela classe trabalhadora e casacos de camponeses. Os bolcheviques russos mal haviam introduzido a Nova Política Econômica, assim como mal haviam tomado o caminho do capitalismo de Estado, e seus diplomatas começaram a se comportar exatamente como se esperaria de representantes oficiais de uma república capitalista de estado.

A delegação que se sentou em Brest-Litovsk, em frente aos generais imperiais alemães, era composta de políticos idealistas. Quando o idealismo se foi, o caráter burguês da Revolução Russa se tornou óbvio, as roupas dos diplomatas russos se tornaram tão formais e convencionais quanto pode-se imaginar. Ao mesmo tempo, a totalidade do caráter burguês da política externa russa e os traços da diplomacia russa apareceram.

Não é difícil ilustrar isso com alguns exemplos. Na França feudal pré-revolucionária, Benjamin Franklin se guardou contra o menor gesto que poderia ter sido entendido como um sinal de aliança ou simpatia com aqueles no poder. Por outro lado, os diplomatas do estado capitalista russo (no tempo de Lenin e Trotsky, bem como na época de Stalin e seus sucessores) mostraram dia após dia sua afinidade interna com o capitalismo e com a burguesia.

Chicherin, como Comissário do Povo para as relações exteriores, expressou sua calorosa simpatia para com o liberal Secretário de Estado alemão, Dr. Stresemann, sobre a morte do Presidente Ebert (um homem que uma vez declarou que “odiava a revolução como o pecado”). Depois houve muitas expressões de simpatia na morte de outros dignitários da classe média europeia. Os diplomatas do Kremlin mantiveram relações amigáveis com Chiang Kai-Shek e com Kemal Pasha, enquanto este último massacrava comunistas chineses e turcos. Representantes do Kremlin homenagearam Mussolini, Churchill e Roosevelt. Eles firmaram um pacto com Hitler. E no início da década de 1930, chegaram à Liga das Nações, que no apogeu revolucionário foi chamada de “cozinha dos ladrões”.

De onde estas claras e importantes diferenças com a diplomacia revolucionária de Benjamin Franklin surgiram? A explicação é simples. Franklin na França do século XVIII estava cercado por seus inimigos de classe. Os diplomatas do estado capitalista da Rússia se moveram para a classe média da Europa Ocidental, entre pessoas de origens políticas e sociais similares. Longe de terem cometidos erros diplomáticos ou psicológicos, os representantes russos fizeram apenas o que se esperava que eles fizessem.

Por algum tempo, a Revolução (burguesa) russa parecia ter grandes consequências para similares desenvolvimentos burgueses localizados na Ásia e África. Bolcheviques, como o anteriormente mencionado Chicherin, ou como Borodin (que na década de 1920 era o conselheiro político do Kuo Min Tang chinês), eram políticos idealistas. Eles sonhavam com uma luta anticolonial em que os povos orientais golpeariam o capitalismo ocidental. Mas este sonho tinha um pré-requisito: os idealistas políticos na Rússia precisariam de uma garantia de que eles não despertassem de repente e horrivelmente de outro sonho, o sonho que eles não estavam vivendo, de qualquer maneira, em um país capitalista.

Assim, quando a natureza capitalista da sociedade bolchevique veio à tona, o tempo dos sonhos políticos terminou. Os políticos idealistas abriram caminho para os realistas. Ao invés de ilusões sobre o apoio revolucionário na Ásia ou na África, de lá veio a realidade de conceder favores a esta classe particular da sociedade oriental que tendia a retardar a ruptura com o capitalismo moderno (com a ajuda do imperialismo ocidental). Isso se harmonizou melhor com os próprios interesses da Rússia e com a política externa na qual o Kremlin tinha optada desde 1921.

Assim acontece hoje com a política externa e a diplomacia chinesa. A Revolução Chinesa teve essencialmente (não em detalhes) o mesmo caráter que na Rússia em 1917. Pode haver diferenças entre Moscou e Pequim, contudo a China – como a Rússia – está no caminho de um capitalismo de estado. Assim como Moscou faz, Pequim segue uma política externa que tem pouco a ver com a revolução em outros lugares na Ásia (nem mesmo as revoluções de classe média).

Como a Rússia na década de 1930, a moderna China maoísta tem, por mais de vinte anos, buscado ser estado membro das Nações Unidas. A política externa chinesa não é direcionada a estimular a revolução burguesa em todo o resto da Ásia e na África. Está direcionada a obter alianças. É uma política na qual Mao Tse-Tung e Chou En-lai mostram uma pequena finesse do mesmo modo que Stalin e Litvinov mostraram em suas épocas.

O verdadeiro caráter da política externa chinesa e de sua diplomacia pode ser visto à luz de dois exemplos extraídos de uma história muito recente. Queremos dizer: à atitude de Pequim aos eventos revolucionários no Ceilão e no Paquistão, respectivamente. No Ceilão, onde a coalisão governante da então chamada Frente Esquerda Unida, sob a Primeira-Ministra Senhora Sirimavo Bandaranaike, colidiu com o movimento revolucionário que representava um futuro capitalismo de estado, Pequim não ficou do lado dos revolucionários. Deu total apoio à Senhora Bandaranaike. O mesmo aconteceu no Paquistão quando uma guerra civil eclodiu entre a ditadura feudal reacionária do General Yahya Khan e a população do Paquistão Ocidental.

A revolta armada no Paquistão Oriental[3] foi a resposta desesperada à exploração colonial do país pelo grupo fechado do Paquistão Ocidental. Foi dirigida contra o padrão de grandes propriedades de terra e contra as condições sociais que intencionalmente mantiveram o país atrasado. O Sheik Mujibur Rahman encabeçou a revolta em um curto período. Mesmo que a insurreição não tivesse sido derrotada, ele nunca poderia ter mantido esta posição. Atrás dele (e atrás das forças sociais que ele representava) forças mais radicais estavam surgindo, assim como na Rússia. Os bolcheviques surgiram por trás daquelas forças políticas que emergiram depois da Revolução de Fevereiro.

No entanto, a chegada ao poder do Sheik Mujibur significaria progresso em comparação ao governo brutal de Yahya Khan, que estava ligado ao imperialismo. (Falamos claro do progresso no quadro do desenvolvimento burguês). Mujibur se autodenominou “socialista”. Nem ele nem aqueles que são chamados para completar a revolução no Paquistão Oriental merecem qualquer denominação. Nem o Paquistão Ocidental ou o Oriental tiveram uma agenda socialista. O Sheik Mujibur representa a burguesia do Paquistão Oriental. Esta burguesia é fraca, assim como é nos outros países asiáticos. Isso explica o porquê a classe média revolucionária nesta parte do mundo tende a ser promulgadas em formas que primeiro se manifestaram na Rússia, e depois na China.

Se – e apenas por conveniência – alguém quisesse dar os nomes aos atores no drama do Paquistão, poderia chamar o Sheik Mujibur como menchevique. Alguém poderia designar como bolcheviques as forças revolucionárias em segundo plano, para as quais Tariq Ali, o escritor político, pertencem. O General Yahya Khan poderia ser comparado a algum general tsarista ou outro, talvez a um Kornilov (um Kornilov sucedido na parte ocidental de seu país bipartite, mas que enfrentou sérias resistências em sua parte oriental).

Pequim – cuja política é nosso assunto – não apoiou os “bolcheviques” paquistaneses. Nem mesmo apoiou o “menchevique” Sheik Mujibur. Pequim deu ajuda diplomática, política e militar ao “Kornilov” do Paquistão, o General Yahya Khan. O ministro chinês das relações exteriores, Chou Em-Lai, enviou uma mensagem para Yahya Khan que foi primeiramente publicada no Peking Review, e então no Pakistan Times (o porta-voz do governo reacionário do Paquistão Ocidental). Na mensagem, Chou Em-Lai declarou: “Vossa Excelência e líderes de vários setores no Paquistão têm feito um trabalho muito útil para defender a unificação do Paquistão e prevenir os movimentos que levariam a uma divisão. Nós acreditamos que mediante consultas sábias e esforços de Vossa Excelência e dos líderes de vários setores no Paquistão, a situação aí será certamente restaurada ao normal. Em nossa opinião a unificação do Paquistão e a união do povo de Paquistão Ocidental e Oriental são as garantias básicas para o Paquistão alcançar prosperidade e força”. O significado era suficientemente claro: Pequim estava se opondo ao levante nacional de classe média no Paquistão Oriental. A República Popular da China considerou os revolucionários (burgueses) do Paquistão Oriental como “um punhado de pessoas que querem sabotar a unificação do Paquistão”[4], daí que vem as palavras de Chou citadas na mensagem.

A China, como já havíamos dito, fez mais. Ela forneceu armas e equipamento ao contrarrevolucionário governo de Yahya Khan. Estas armas-tanques feito na China – não foram usados somente contra os insurgentes do Paquistão Oriental. Também foram usados contra os trabalhadores do Paquistão Ocidental, em uma luta de classes contra seus governantes.

Em outras palavras, a política chinesa em relação ao Paquistão foi como a política de Moscou em relação a China no final da década de 1920. Naquele período, a ajuda russa possibilitou a Chang Kai-shek massacrar os trabalhadores em Shangai, da mesma forma, o General Yahya Khan massacrou os trabalhadores do Paquistão com ajuda chinesa.

Em uma reunião pública em Amsterdã, o paquistanês ocidental trotskista, Tariq Ali, apontou esses fatos. Os maoístas holandeses presentes na ocasião ficaram escandalizados. Evidentemente, eles ainda não tinham lido a carta de Chou Em-Lai para Yahya Khan, que apareceu no Peking Review. Eles se comportavam como stalinistas da década de 1930, sem saber das últimas mudanças na linha de Stalin. Um simpatizante dos maoístas, escrevendo ao jornal britânico New Society (e mais bem informado sobre o que realmente tinha acontecido), sugeriu que os chineses poderiam ter apoiado Yahya por “motivos a longo prazo”, a saber, para capacitá-lo a esmagar a (“menchevique”) Liga Awami do Sheik Mujibur e preparar o caminho para a esquerda bengali[5]. Alguém poderá perguntar a um simplório por que Lenin em 1917 não apoiou Kornilov, permitindo-lhe (Lenin) entrar em acordo com o governo Kerensky, depois de um golpe bem-sucedido!

Tariq Ali não falaria tais absurdos. Ele considerou a política externa chinesa para o Ceilão e para o Paquistão como políticas “erradas”. Rejeitamos suas opiniões bolcheviques. Vemos a política que nós denunciamos como a consequência lógica de um caráter de capitalismo de estado na república chinesa.

O último exemplo desta política estritamente lógica é a aproximação da China às Nações Unidas e aos EUA. Pequim deseja manter boas relações com ambos[6]. Quando um número de jovens apoiadores da esquerda americana (e simpatizantes de Mao) estiveram recentemente em Pequim, Chou Em-Lai deixou claro o fato de que sua resistência a Nixon era, claro, apenas seu próprio problema. A China estava procurando relações amigáveis com a Casa Branca, em atitude similar à de Moscou com Hitler e Mussolini. Esta é a cínica política da diplomacia zigue-zague diante dos piores inimigos da classe trabalhadora. Nem Mao nem Chou Em-Lai podem ser culpados por isso, pois eles não estão em função de promover os interesses da classe trabalhadora chinesa. Eles estão no cargo para promover os interesses do capitalismo de estado chinês. Não são os líderes chineses, que estão na “contramão”, mas aqueles que esperam uma política ou diplomacia revolucionária vinda da China maoísta.

2. O Décimo Congresso do Partido Chinês e depois

Se alguém deseja rotular a peça que foi atuada a portas fechadas em Pequim no último verão (sobre o título de “Décimo Congresso do Partido Comunista Chinês”), poderia defini-la como uma “Comédia dos Erros”. Mesmo um mero espectador, se sentiria como o Duque Solinus que, cercado por dois pares de gêmeos, não sabia quem era quem.

Não foi nesta ocasião que o Secretário de Relações Exteriores, Chou En-Lai, declarou que “a luta que os povos asiáticos, africanos e latino-americanos para obter ou defender a independência nacional estava se aprofundando e ampliando como o resultado de uma irresistível tendência histórica”? Chou não expressou simultaneamente sua “solidariedade com as nações oprimidas do mundo inteiro, aqueles países que foram expostos à tirania e dominação” ao mesmo tempo que deplorou o que ele chamou de “mutilação do Paquistão” causada por (claro, ele não mencionou) um levante social por autonomia, um levante social que ele (o próprio Chou En-Lai) em vão ajudou a suprimir? De tais palavras, o povo simples pode concluir que os padrões chineses de “solidariedade com os oprimidos” não significam que sejam realmente para os oprimidos. Poderão concluir que por trás dos muros de Pequim reina uma confusão de línguas. Esta primeira impressão poderia ser fortalecida por tudo o que o Congresso revelou sobre o que foi logicamente sua principal preocupação: a própria atuação chinesa.

Neste sentido, o Congresso atribuiu grande importância aos feitos do falecido Lin Piao, ex-ministro de Mao e “camarada íntimo no exército”. Morto em um acidente aéreo quando estava indo para a Rússia em 13 de setembro de 1971 (consequentemente morto há dois anos), seu fantasma ofuscou a conferência em Pequim. A reunião lembrou tanto dele, e foi tão dominada por sua personalidade, que os 1249 delegados procederam em expulsá-lo do partido “de uma vez por todas”, como se ainda estivesse no mundo dos vivos.

Não era confuso que este homem, Lin Piao, que há um ano tinha sido postumamente acusado de “extremismo de esquerda”, fosse agora chamado de “criminoso de direita” que sempre (!) teve uma visão burguesa e teve como objetivo a restauração do capitalismo na China. (Acidentalmente, as formas de produção existente na China, baseadas na escravidão assalariada, não necessitavam de tal “restauração”, sendo em sua própria essência, capitalistas).

Não era ainda mais confuso que Lin Piao (um fervoroso vencedor da então chamada “Grande Revolução Cultural Proletária”), cuja ascensão ao poder ocorreu imediatamente depois da tempestade política na qual sairia fortalecida a posição do partido, poderia então ter sido descrito como líder de um grupo contra o Partido? Liu Shao-chi, oponente de Lin Piao naqueles cruciais anos de 1966 a 1968, e contra a quem todo o peso do Partido havia sido lançado, era apenas descrito como um “revisionista”, de uma maneira séria, como tal cobrança pode ser.

Não foi constrangedor que Wang Hung-wen, um jovem trabalhador de Shanghai que desempenhou um importante papel na batalha contra aquele ex-chefe de estado, Liu Shao-chi, tenha sido escolhido como um dos cinco (em vez de um) vice-presidentes do Partido, e como membro do seu Comitê Central, apenas para ser confrontado fora da reunião por ex-amigos políticos de Liu, como Teng Chiau-ping, reabilitado, como foram muitos outros deste tipo, apesar de um ataque a Liu Shao-chi por Chou Em-Lai?

Não se pode evitar de perguntar o que realmente significa no jargão chinês, termos como “socialismo” e “capitalismo”, “revisionismo” e “grupo antipartido”. Talvez a confusão de línguas em Pequim é tão grande como foi no capitalismo de Estado da Rússia no início da década de 1960, quando os líderes de Moscou estavam lutando contra suas diferenças escondidas por trás de definições enganosas? Não foi um abuso dos “grupos anti- Partido” que indicaram naquela ocasião algo muito diferente daquilo que se poderia esperar? Na verdade, um exame curto, mas minucioso destas batalhas de mímica é útil para esclarecer a correspondente situação chinesa.

O espetacular jogo russo foi precedido por outro. Nos anos 1920 e 1930, as contradições mediante a realidade social e a realidade bolchevique deram origem a uma discussão teórica sobre o pensamento leninista, sobre a verdadeira questão de quais eram as estruturas de classe do chamado Estado soviético. No início dos anos 1960, a interpretação do leninismo não estava em questão. Embora o leninismo (seja lá o que ele signifique) tenha permanecido como a teoria oficial bolchevique, sua função social especial (isto é, conter a verdade sobre a exploração do capitalismo estatal, discutindo-a em uma fraseologia “socialista”) tornou-se menos urgente. É claro que o leninismo ainda forneceu esta necessidade ideológica, mas ao mesmo tempo outra necessidade surgiu.

No passado, as batalhas teóricas refletiam principalmente o desenvolvimento de contradições entre os trabalhadores russos e uma nova classe dominante em ascensão. Na segunda metade do século, essas contradições se tornaram uma realidade generalizada. A nova classe dominante estava em processo de se tornar um fator dominante e influente na sociedade. Contra esse pano de fundo social, as tradições do Partido, nascidas em circunstâncias sociais inteiramente diferentes, eram consideradas uma farsa teórica, um obstáculo no caminho da nova classe para o desenvolvimento genuíno. A nova classe dominante não podia mais colaborar com uma burocracia que se entregava a práticas nada adaptadas à nova situação, práticas que dificultavam o desenvolvimento da produção.

O que a nova classe queria era um partido bolchevique mais ou menos “novo” adaptado à situação atual, um partido que reconhecesse a posição de poder da nova classe. As exigências da nova classe levaram a uma luta interessante entre a velha burocracia do Partido e os representantes da direção da fábrica que haviam surgido e que formavam a base da nova classe. A luta durou muitos anos. Ambas as facções se equilibrando, o resultado foi por muito tempo incerto. Em uma época, o antigo Partido ocupava as posições mais fortes, em outras ocasiões, a facção gerencial o fazia.

Tudo isso começou na escuridão, antes da morte de Stalin. Tornou-se visível na era pós-Stalin. Alcançou seu ponto culminante nos dias de Khruschev, que conquistou o poder porque era o homem certo naquela época em particular. Sua personalidade – como escreveu seu biógrafo, George Paloczi-Horvath – era tão enigmática quanto o mundo soviético. O verdadeiro conteúdo deste enigma era que a situação russa havia produzido o caráter instável de Nikita Sergeyevich Khruschev, e que, inversamente, um homem instável como Khruschev (mais do que qualquer outro entre os notáveis ​​do governo), era adequado para uma situação em que nem a burocracia nem a nova classe dominante poderiam clamar a vitória final. Khruschev era um desajustado na burocracia à qual pertencia formalmente. Mas ele não se identificou com a gestão russa, nem os estratos gerenciais o consideraram um apoiador confiável. Talvez apenas por causa dessas qualidades, Khruschev teve um sentimento inequívoco acerca do que estava acontecendo. Quando seus adversários bateram em seus ouvidos com citações do morto Lenin, Kruschev apontou que as pessoas viviam em outra época: o que era válido então havia perdido o valor. Com essas palavras, ele divulgou com precisão o que estava acontecendo nos bastidores.

Com Khruschev no cargo, a luta entre a nova classe e o velho Partido atingiu seu estágio final. A longa guerra de trincheiras deu lugar a uma guerra de movimento. As posições no Kremlin mudaram com tanta frequência e rapidez que, quando Suslov e Mikoyan retornaram a Moscou após uma curta visita a Budapeste (onde, como representantes da nova classe, estavam preparados para uma atitude flexível em relação ao governo de Imre Nagy, a quem tinham garantido a retirada das tropas russas) foram confrontados com um estado de espírito totalmente diferente[7].

Durante este período, o ataque da nova gestão aos tradicionalistas do Partido tornou-se mais violento. O constrangimento provocado por seus slogans mistificadores era maior do que nunca. Aqueles que defendiam o domínio da nova classe dominante sobre a velha burocracia não se cansavam de proclamar do Partido sua herança legal. Ao mesmo tempo, os defensores do Partido (ao velho estilo) foram estigmatizados como o “grupo antipartido”. O que estava por trás dos slogans e estigmatizações ficou claro no debate (embora não tenha sido feito em russo claro, mas em uma língua que se poderia definir como chinês do partido). Apresentamos aqui algumas citações com traduções (entre colchetes) para a linguagem do dia a dia.

KOSYGIN (membro do Presidium do Comitê Central, defendendo a classe dos dirigentes): “Os membros do grupo antipartido se opuseram a tudo o que era novo ou progressista. Com tal atitude, de fato, eles destruíram a política econômica do Partido e do país …” (“O grupo antipartido se opôs à ascensão da nova classe de dirigentes e destruiu sua política econômica”). “Eles eram contra qualquer proposta que pudesse ter melhorado a economia soviética” (“Eles se opuseram a propostas que não estivessem de acordo com a política da nova classe”). “Molotov se opôs à nova política econômica e agrícola” (“Molotov era um adversário dos dirigentes”).

MIKOYAN (o campeão mais ilustre da nova classe): “Eles – os membros do grupo antipartido – se apegam a pontos de vista conservadores e dogmáticos que impedem a introdução de inovações” (“Eles defenderam o passado e se opuseram a qualquer acomodação à realidade do poder crescente da nova classe”). “Molotov é o ideólogo de tempos passados” (“O pensamento de Molotov é adaptado à realidade de ontem. Essa realidade não existe mais devido à crescente influência da classe gerencial”).

MOLOTOV (em defesa do grupo antipartido): “O novo programa do Partido é revisionista e contrarrevolucionário” (“O novo programa do Partido visa fazer do Partido uma ferramenta da nova classe. Transforma os princípios do stalinismo. Ele é dirigido contra tudo o que o antigo Partido representava”).

SATJUKOV: “Molotov sempre foi um desastrado nos assuntos internos” (“O conhecimento político é estritamente reservado para a classe que tem poder e regras”).

KHRUSCHEV: “A União Soviética tem grande necessidade de capital” (“A acumulação de capital não acompanha as necessidades da nova classe gerencial”).

Juntando-se ao debate dessa forma, Khruschev de fato ficou ao lado dos vencedores. “Vida longa à nova classe dominante” foi o verdadeiro significado de sua intervenção tardia. Em pouco tempo, ele descobriu que havia agido tarde demais. Ele foi demitido assim que a nova classe dominante não mais se sentiu seriamente ameaçada. Com a nomeação de Kosygin como primeiro-ministro, deu-se início a um novo capítulo na história da Rússia.

Será que os acontecimentos do ano passado na China se assemelham de alguma forma ao que descrevemos como ocorrendo na Rússia? Também na China de hoje existem forças em ação mais ou menos favoráveis ​​ao surgimento de uma “nova classe”. Tentativas de analisar essas forças foram feitas nas Teses. Não há necessidade de repetir o argumento. Tampouco é necessário explicar novamente – como foi feito nas Teses – por que a Grande Revolução Cultural pode ser considerada a resposta a desenvolvimentos sociais semelhantes aos que, na Rússia, fortaleceram posições gerenciais. Houve muitas indicações subsequentes sugerindo que a Revolução Cultural não foi tão bem-sucedida quanto Chou En-lai teria feito os delegados do Décimo Congresso acreditarem. Essas forças sociais de fundo que, mesmo que não tenham dado origem a uma “nova classe”, no entanto prepararam seu caminho (empurrando os gerentes individuais), ainda existem. Eles provaram ser mais fortes do que a violência dos Guardas Vermelhos e pareciam ser totalmente entrelaçadas com as relações sociais chinesas. No entanto, ao contrário da “nova classe” na Rússia, sua contraparte chinesa até agora não se mostrou mais forte do que o Partido Chinês. No decorrer da Revolução Cultural, o Partido foi transformado com o objetivo de melhor resistência. Esses fatos deveriam ser um aviso contra uma analogia muito simplificada.

As coisas na China não são o que eram antes na Rússia. Não obstante, o fenômeno de uma (futura) classe gerencial é a chave para todos os problemas chineses. Por exemplo, Chou En-lai estava muito claramente criticando o ponto de vista gerencial em seu discurso no Décimo Congresso quando se dirigiu a “aqueles que fingiam que após o Nono Congresso (realizado em abril de 1969) o desenvolvimento da produção deveria ser a principal tarefa do partido” e “para aqueles que afirmavam que não era o antagonismo entre a classe trabalhadora e a burguesia a contradição mais importante na China, mas a contradição entre o sistema socialista avançado e as forças produtivas atrasadas na sociedade”.

Mas na China as coisas são bem mais complicadas do que isso. O mesmo Chou En-lai, no mesmo discurso, sublinha a necessidade de uma “transformação de todas as partes da superestrutura que não estão coordenadas com a base econômica”. Isso soa como uma concessão às demandas gerenciais. Aparentemente, as coisas não foram levadas a extremos. A já mencionada presença de reabilitados adeptos do campeão gerencial Liu Shao-chi e o fato de alguns desses homens terem novamente conseguido obter cargos de influência no país apontam na mesma direção.

A única explicação possível é que até então as forças pró-gerenciais e pró-burocráticas estavam equilibradas. Não se deve esquecer que essas não são as únicas forças sociais na China, onde também existe um campesinato muito grande. Finalmente, se o Partido foi reformado durante a Revolução Cultural, em parte em resposta às opiniões dos camponeses, foi apenas para tirar o vento das velas da classe gerencial. Para concluir: o antagonismo entre o Partido e a nova classe na China ainda não atingiu o ponto alcançado na Rússia quinze anos antes. Esta é a situação que explica várias declarações sobre a perfeita unidade do Partido aplaudidas pelos delegados em Pequim.

Como reconciliar o fato de que essa unidade foi tão alardeada com o fato de que os delegados estavam proclamando, ao mesmo tempo, “a necessidade inevitável de muito mais lutas no futuro”? E por que, se a unidade era tão sólida quanto se fazia crer, as deliberações eram estritamente secretas, com apenas os textos dos discursos e da nova constituição publicados, juntamente com um pós-escrito oficial sem sentido?

A contradição implícita nada mais é do que um paradoxo. A aparência de unidade se destaca porque Partido e gestão são igualmente fortes. Atrapalhados pelo campesinato, eles não se enfrentam da mesma forma que na Rússia. É por isso que a Revolução Cultural permaneceu inacabada. Nos bastidores, as tendências gerenciais (as forças que levaram ao desenvolvimento da nova classe) ainda estão em ação. Mais cedo ou mais tarde, o equilíbrio será perturbado. A nova constituição do Partido enfatizava o clássico “centralismo democrático” leninista como o princípio organizacional básico, ao mesmo tempo em que acrescentava que seria “absolutamente inadmissível suprimir críticas e retaliar” e que, pelo contrário, “o Partido deveria encorajar outras opiniões e grandes debates”. Esta foi uma tentativa de atrasar o confronto o máximo possível.

No entanto, os oficiais estão bem cientes de que tal adiamento não pode ser permanente. “A queda do grupo antipartido”, Chou En-lai disse aos delegados, “não termina a luta entre as duas linhas do Partido”. Não foi a unidade que caracterizou o Décimo Congresso, mas o bom senso de que as tendências representativas da nova classe não podiam desaparecer e que a luta contra elas decidiria o futuro do Partido. Para colocar nas palavras de Mao: “dentro de alguns anos, outra revolução provavelmente terá de ser realizada. Demônios e diabos vão romper a superfície”. Desde então, a história mostra que, se alguém falar no diabo, ele com certeza virá.

Antes de nos preocuparmos com o diabo, falemos dos demônios. Assim como Molotov na Rússia, o fantasma de Lin Piao foi atacado com a acusação de defender uma “linha antipartido”. O que nos impressiona é a semelhança formal das acusações. É verdade que os chineses em seu Congresso falavam russo-partidário da mesma forma que os russos falavam chinês-partidário. Isso não implica automaticamente que as palavras em chinês do partido tenham o mesmo significado que em russo.

Na Rússia, o “grupo antipartido” defendeu o (antigo) Partido. Portanto, foi atacado pela nova classe. Na China, a nova classe foi atacada pelo Partido reformado, que buscou novas forças por meio de sua autorreforma. Lin Piao resistiu? Se fosse o caso, sua posição teria sido oposta à Molotov. Em vez de defender o Partido contra a gestão como Molotov havia feito, Lin Piao teria ficado ao lado da nova classe. Ele teria ficado ao lado de Liu Shao-chi, que foi seu maior inimigo na Revolução Cultural. Embora seus nomes tenham sido relacionados no último Congresso, tal conclusão não é reforçada pelos discursos de Lin Piao. Nenhum deles contém a menor indicação para tal mudança de frente.

No máximo, pode-se lembrar que foi Lin Piao quem freou os Guardas Vermelhos quando a Revolução Cultural ameaçou mergulhar o país em um desastre econômico. Mas ele o fez com total concordância do próprio Mao e do Partido. Será que Lin Piao não concordou com essa política moderada? Se for assim, isso pode explicar por que o Partido o acusou de “extremismo esquerdista”. Não explica, entretanto, por que tal reprovação só foi ouvida três anos depois.

Ou Lin Piao era realmente tão moderado quanto se mostrava? Ele não estava à esquerda do Partido muito antes da Revolução Cultural, cujos frutos não eram tão vermelhos quanto muitas pessoas esperavam? O que apoia essa visão é a posição de seu suposto cúmplice número um, Chen Po-ta, outro chefe do recrutamento da Revolução Cultural e um fiel transmissor do pensamento de Mao em todos os momentos de sua vida. Há boas razões para a visão de que Lin Piao era um radical temperado e que isso o levou a ser visto como de esquerda quando o Partido, retirando-se da linha da Revolução Cultural, desviou para a direita. Após a morte de Lin Piao, sua posição parecia estar certa porque o pêndulo havia oscilado e porque o Partido, em reação a outro perigo de nova classe, havia sofrido uma radicalização.

Contra essa visão, pode-se citar a posição mais ou menos “gerencial” de Lin Piao em relação à produção. Mas isso é bastante incerto, já que as reprovações de Chou En-lai a esse respeito foram dirigidas mais contra Liu Shoa-chi, com quem Lin Piao estava ligado apenas por meio de uma manobra política. A favor dessa visão, por outro lado, estão as próprias palavras de Chou, de que a chamada linha antipartido “havia sido e ainda era uma das duas linhas dentro do Partido”.

Seja como for, a radicalização do Partido era óbvia. A nomeação para a liderança de Wang Hung-wen, que teve de ser chamado à ordem porque tinha ido “longe demais” durante a Revolução Cultural, foi, portanto, sintomática. Mas que ninguém pense que a radicalização em questão tem algo a ver com a luta da classe trabalhadora contra o capitalismo. No Décimo Congresso não se pronunciou nenhuma palavra nem sobre o exercício do poder pelos próprios trabalhadores, nem sobre a abolição do sistema salarial, nem sobre uma sociedade baseada na produção. Chou En-lai comentou com satisfação sobre “a estabilidade dos preços e a posição próspera do mercado”. Sua declaração foi característica tanto pela falta de qualquer análise proletária quanto pelo que revelou a respeito da verdadeira natureza das relações econômicas e sociais chinesas.

Essas relações econômicas e sociais básicas, evidentemente, não estão em jogo. Consequentemente, a verdadeira questão não é a escolha entre uma alternativa proletária ou burguesa. Tudo depende se o partido foi transformado (ou ainda mais transformado) ou se a classe gestora comandará o poleiro. É isso que está por trás da radicalização do Partido, seja o que for que Chou possa ter dito sobre “um conflito entre os interesses proletários e burgueses, no qual seria necessário distinguir os falsos comunistas dos sinceros”. Falando assim, Chou estava apenas espalhando o jargão do Partido, cuja aparência enganosa mascarava diferenças reais.

Quando o processo de radicalização começou, onde estavam realmente os líderes tradicionais e proeminentes como Mao e Chou? No Congresso, o último nunca se cansou de citar Mao e de enfatizar sua hostilidade a Lin ou Liu. Mas isso não necessariamente questiona sua posição real[8]. O que exatamente Chou representa não está claro. Em parte, isso se deve ao fato de que, desde algum tempo antes do Décimo Congresso, tudo na vida social e política da China voltou a estar em movimento. As posições firmes se tornarão visíveis com o passar do tempo. Isso se aplica a todos na cena chinesa.

Com relação a Mao, por exemplo, Chou informou aos delegados que depois do Nono Congresso o presidente havia feito várias advertências a Lin Piao, todas em vão, tentando “salvá-lo”. Isso significa que Mao Tse-tung, Lin Piao e Chen Po-ta não tinham essas diferenças fundamentais afinal? Foi apenas em uma data posterior que a cisão aumentou? Nesse caso, não é apenas a declaração oficial sobre Lin Piao que é contestada. Também é sugerido que Mao não estava encabeçando a radicalização, mas apenas dando fim a ela.

Como, em conexão com tudo isso, alguém deveria tentar entender os três atentados contra a vida de Mao, nos quais Lin Piao teria estado intimamente envolvido como o principal conspirador? Essas tentativas foram feitas porque o presidente tendia a um ponto de vista ainda mais gerencial? Ou foram feitos por que Mao se recusou firmemente a adotar tal posição? Ouvindo o jargão do Partido, olhando para a cortina de fumaça chinesa, os acontecimentos permanecem obscuros. No entanto, podem-se tirar conclusões que vão muito além das fixações comuns sobre uma “batalha pelo poder”. Essas descrições nada nos dizem sobre as forças sociais que levam os atores a aparecerem diante das luzes da ribalta. É muito mais importante entender esse fato do que saber quem é quem. Do ponto de vista histórico, não importa tanto se este ou aquele representa o Partido ou a classe gerencial. Os atores são de interesse secundário. A peça: esse é o ponto. A batalha pelo poder não é importante. O que importa são os quadros econômicos e sociais que determinam seus limites e pelos quais se caracteriza. É por esta razão que colocamos no centro de nossa análise a luta entre a nova classe e a burocracia do Partido, independentemente das questões atuais da política. A precisão desse método é confirmada quando examinamos a campanha anti-Confúcio, uma campanha que atingiu seu pleno desenvolvimento após o Décimo Congresso.

A campanha foi lançada em 7 de agosto de 1973 por um artigo no People’s Paper em Pequim. O autor foi Yang Chung-kuo, decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Canton Sun Yat-sen (e desde então referido como o teórico nº 1 do anti-confucionismo). A campanha não começou como uma discussão puramente filosófica. O filósofo Yang disse, “a batalha de palavras com Confúcio tem um significado muito real. Criticar seus pensamentos reacionários pode ser útil sempre que alguém participa da luta de classes atual …”.

A que tipo de luta de classes Yang poderia estar se referindo? Nem em seu artigo nem no debate que se seguiu o assunto foi abordado. Em nenhum lugar foi tratado do ponto de vista de que o pensamento humano está vinculado à sociedade e, portanto, é justo enquanto existir a sociedade que o deu origem, tornando-se incorreto na medida em que uma dada sociedade se perde em sua sucessora. Tal tratamento, vinculado à convicção dos oprimidos de que nem a sociedade nem o pensamento são invariáveis ​​e eternos, não convém a nenhuma classe dominante. As classes dominantes nunca têm um olho para a relatividade de seu próprio domínio. Do mero fato de que as coisas não foram colocadas dessa maneira, pode-se tirar algumas conclusões plausíveis.

Confúcio não foi interpretado como um filho de seu tempo, que refletia as relações sociais e as contradições da dinastia Chou na antiguidade chinesa. Suas ideias foram consideradas à parte de seu terreno de origem. Elas foram descritas como intrinsecamente reacionárias. Nenhuma tentativa foi feita para entender Confúcio de dentro da sociedade chinesa. Ao contrário, a sociedade chinesa foi explicada enfatizando a influência de Confúcio. Esse método naturalmente levou à substituição da compreensão social pelo julgamento moral.

Consequentemente, a campanha anti-Confúcio não foi um ataque filosófico às raízes essenciais do poder de classe. Isto permanece inconteste. As discussões tornaram-se condenações morais de certos políticos em nome de outros. Para tanto, Confúcio, que morrera 2.000 anos antes, foi ressuscitado de seu túmulo e criticado. Se tudo isso era realmente dirigido ao morto Lin Piao, ou a seus concorrentes vivos, é menos claro. Mas, mais uma vez, isso é de importância secundária.

Para nosso propósito, é mais importante perceber que há uma conexão direta entre a campanha anti-Confúcio e as questões da Revolução Cultural. Somos informados pelo filósofo Yang, que Confúcio “reservou sabedoria absoluta para o monarca. Os reformadores de seu tempo, entretanto, queriam liberdade de pensamento em nome de uma centena de escolas filosóficas, com opiniões diferentes e opostas”. Confúcio “prometeu ao seu monarca todas as terras. Os reformadores, ao contrário, estavam lutando pela propriedade privada da terra e pela agricultura individual”.

Os tópicos não precisam de mais explicações. Yang, cuja origem foi a Liga Democrática não-bolchevique da China (que uma vez havia tomado uma posição intermediária entre o Partido Comunista e o Kuo Min-tang) parece ser uma voz clara da nova classe. Quando ele fala de um filósofo menos importante, enviado por ordem de Confúcio, pode-se acreditar que ele não está apenas apontando para a trama de assassinato de Lin Piao contra Mao, mas que – de uma posição oposta – ele também está se referindo ao boato de que Lin não morreu em um acidente de avião, mas foi morto por Chou En-lai. Se Yang condena Confúcio por chamar de volta “aqueles que já estavam enterrados no esquecimento, com o objetivo de restaurar a velha ordem”, isso também parece preocupar Chou. Afinal, Chou foi o homem que por muitos anos foi o arquiteto da nova política de classe. Além disso, ele tinha sua própria responsabilidade pela reabilitação daqueles que haviam sido sacrificados na Revolução Cultural.

Yang pode, portanto, ser interpretado de maneiras diferentes, possivelmente porque sua contribuição filosófica para uma luta real sofre das contradições da própria luta. Outra possibilidade é que essas contradições sejam pura consequência do jargão filosófico do Partido, ou que tenham sido criadas deliberadamente, por razões de segurança em tempos turbulentos.

Pois os tempos são turbulentos na China. Citando Confúcio, burocratas e gestores marcham uns contra os outros. O diabo que surge é uma segunda Revolução Cultural, conforme previsto pelo presidente Mao. De quem é o futuro em jogo? De Chou ou de Mao? O tempo vai dizer. No entanto, uma coisa parece certa: o resultado da luta não mudará em nada a natureza capitalista (de estado) da sociedade chinesa. O domínio do Partido-burocracia ou o domínio gerencial? Essa é a questão para os próximos anos. Seja qual for a resposta, a longo prazo, a nova classe parece ter os melhores depoimentos.

O Filósofo Confúcio

[1] Atual Sri Lanka. [Nota do Revisor – NR]

[2] O Reino Inglês (desde as revoluções de 1641 e 1688) e a República Holandesa eram as únicas exceções.

[3] Atual Bangladesh. [NR]

[4] A mensagem de Chou Em-Lai na íntegra, foi publicada também na New Left Review, Julho/Agosto de 1971.

[5] A sugestão deste engenhoso maoísta foi reimpressa na mesma edição da New Left Review, anteriormente citada, p. 39.

[6] Quando este ensaio foi escrito, os resultados provisórios dos eventos no Paquistão ainda eram desconhecidos e não havia nenhuma questão da mais recente abordagem chinesa ao Japão. Acreditamos que as explicações acima podem dificilmente ser mudadas por estes fatos.

[7] Informações básicas são fornecidas por Tibor Meray em um dos livros mais interessantes sobre a Revolução Húngara: Treze dias que abalaram o Kremlin (Thames & Hudson, 1958).

[8] Chou disse aos delegados, que o “Relatório oficial ao Nono Congresso Nacional”, entregue por Lin Piao, havia sido escrito por Mao; que o próprio Lin, em colaboração com Chen Po-ta, havia elaborado outro documento (que havia sido cancelado); e que Lin não concordava com o texto que ele estava entregando. Qualquer que seja a verdade desta história (e o que quer que não seja), permanece que o que poderia ser verdade para Lin, também poderia ser verdade para Chou.

O presente ensaio do Cajo Brendel foi traduzido por Thiago Oligon e Guilherme Henrique, a partir das versões presentes em: https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/nonfrenchpublications/english/solidarity60-77/pamphlets/solidarity-pamphlet-n46-12-1974.pdf & https://libcom.org/library/theses-chinese-revolution-cultural-revolution-cajo-brendel. Agradecemos também a leitura do Fernando Monteiro e suas ricas observações.

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