Confira também o artigo “Teses sobre a Rebelião George Floyd“, escrito pelo mesmo autor, Shemon, em colaboração com Arturo.
A Ascensão da Contrainsurgência Negra
Introdução
De 26 de maio a 1º de junho de 2020, uma rebelião proletária multirracial liderada pelos negros incendiou delegacias, destruiu viaturas, atacou policiais, redistribuiu bens e se vingou do assassinato de inúmeras pessoas negras e não negras pela polícia. Na primeira semana de junho, tudo parecia ter mudado, todos pareciam ter esquecido o ocorrido e, em vez disso, nos tornamos bons manifestantes, nos tornamos não violentos, e nos tornamos reformistas. Em vez de atacarmos a polícia, suportamos incontáveis marchas sem outro propósito além de continuar marchando. De abolicionistas revolucionários, nos tornamos abolicionistas reformistas. O que aconteceu?
Existem muitas respostas fáceis, todas elas incorretas. Uma potencial resposta apontaria para a repressão policial ao movimento, que resultou na prisão de mais de 14.000 pessoas. Outra apontaria para os brancos que se juntaram ao movimento e que trouxeram consigo todas as suas políticas e estratégias liberais. Finalmente, a resposta mais ridícula de todas sustenta que a fase militante da rebelião nunca foi um movimento genuíno de proletários negros e não negros, mas sim um produto de agitadores externos.
Na realidade, algo muito mais perigoso e sinistro aconteceu, algo orgânico ao capitalismo racial, com raízes que remontam ao tráfico de escravos africanos e à Revolução Haitiana. Uma campanha de contrainsurgência alterou fundamentalmente o curso do movimento. Embora o recuo e a derrota do movimento que ela induziu possam se revelar temporários, tais campanhas representam obstáculos significativos ao avanço da radicalização e, portanto, devem ser enfrentados. Essa campanha de contrainsurgência em campo foi liderada pela classe média negra, políticos negros, acadêmicos negros radicais e ONGs negras. Isso pode ser um choque para aqueles que tendem a pensar nos negros como um grupo político monolítico. Essa concepção é falsa.
Este não foi um fenômeno local em uma ou duas cidades, mas uma dinâmica que ocorreu em todos os Estados Unidos. Uma rebelião generalizada exigia uma contrainsurgência generalizada. E embora não haja dúvida de que por trás da contrainsurgência liderada por negros estejam organizações filantrópicas bilionárias, universidades, o Estado e a classe média branca, a verdade incômoda é que uma rebelião liderada por negros só poderia ser esmagada por um programa de contrainsurgência liderado por negros. Nada disso teria sido possível se não houvesse uma camada significativa de contrainsurgentes negros em todos os Estados Unidos.

A ascensão da classe média negra é um desenvolvimento orgânico da estratificação de classes sob o capitalismo racial. É o ponto de partida para a compreensão da contrainsurgência que atualmente sufoca a Rebelião de George Floyd. Esta última tem sua base social na classe média negra, que busca, no máximo, uma reforma restrita do sistema, ou seja, a transformação do capitalismo racial em simples capitalismo.
A longo prazo, a classe média negra é inimiga do proletariado negro: os desempregados, os assalariados, as trabalhadoras sexuais, etc. Os verdadeiros parceiros ou cúmplices do proletariado negro são os proletários latinos e brancos, os povos indígenas de Turtle Island[1] e o proletariado internacional. Até agora, poucos neste país parecem ter percebido isso, muito menos as implicações políticas e estratégicas que daí decorrem. Embora nenhum desses problemas seja novo, vale a pena retornar a eles mais uma vez.
A Classe Média Negra
Sempre houve uma tensão na luta pela libertação negra em relação à questão da classe média negra: médicos, advogados, professores, gerentes e empresários. Não em relação à sua existência, mas sim sobre seu papel político e comportamento na luta contra a supremacia branca.
Em muitos aspectos, a classe média negra não difere de outras classes médias. Em sua essência, toda a política da classe média é eleitoral, legislativa e reformista. Suas estratégias giram em torno da respeitabilidade, da proteção da propriedade privada e, em última instância, do cumprimento da lei. As classes médias sempre se sentiram no direito de falar em nome de seus respectivos proletariados e representá-los. Eles defendem a unidade multirracial entre seus pares de classe, ao mesmo tempo que usam a lealdade racial para promover suas próprias posições sob o capitalismo racial. Todas as análises sobre a classe média enxergam o proletariado como ameaça ou vítima; nenhuma o vê como uma classe revolucionária. Os poucos membros da classe média que enxergam o proletariado como revolucionário ou trabalham para reprimi-lo, ou acabam se unindo a ele na luta.
Em 1931, W. E. B. Du Bois argumentou que, enquanto as leis de segregação racial (Jim Crow) limitassem as oportunidades da classe média negra, o proletariado negro e a classe média negra precisariam lutar juntos contra a supremacia branca. Contudo, na década de 1960, o Partido dos Panteras Negras e a Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros já estavam convencidos de que a classe média negra e o proletariado negro haviam se separado. Com a derrota das leis Jim Crow na década de 1960, os negros da classe média encontraram um caminho para o sucesso, resultando em grandes diferenças entre eles e seus vizinhos desfavorecidos.
O movimento para derrotar as leis de segregação racial não destruiu o capitalismo racial nem o racismo e o sentimento antinegro; pelo contrário, embora tenha aberto novos caminhos para um pequeno grupo dos negros, sua vitória se tornou, ao mesmo tempo, uma derrota devastadora para as massas de proletários negros que permanecem presos em suas condições miseráveis, com a única diferença de que seus locais de trabalho e bairros agora são administrados e policiados pela classe média negra “vitoriosa”. Nesse sentido, a classe média negra não está totalmente mentindo quando se apresenta como o ápice do Movimento dos Direitos Civis e do Poder Negro. Essas contradições existiam antes dos movimentos da década de 1960 e nunca foram esclarecidas de forma massificada desde então. A classe média negra tem sido, e continua sendo até hoje, a contradição do Movimento de Libertação Negra.
A diferença essencial entre a classe média negra e a classe média branca é estratégica: a classe média negra utiliza as lutas proletárias negras para promover sua própria causa. Como não é forte o suficiente para avançar por conta própria, ela se aproveita do medo de tumultos e protestos de rua para impulsionar sua agenda. A classe média negra não pode se dissociar completamente da fase militante da rebelião porque precisa usar os tumultos e a violência como uma ameaça potencial para o resto da sociedade. Ao mesmo tempo, a classe média negra não pode se identificar com os tumultos, pois fazê-lo contradiria seu próprio desejo de integração ao Estado capitalista, cujas leis e ordem garantem a existência da propriedade privada.
O resultado é uma relação confusa e contraditória marcada por uma dinâmica tripla: (i) a classe média negra se esforça para alcançar a riqueza e o poder da classe média branca, (ii) mas isso exige que ela esteja disposta a disciplinar o proletariado negro, (iii) com quem, no entanto, compartilha um senso de destino comum, impulsionado pela incapacidade da polícia e de outros brancos de distinguir os negros pobres das periferias de seus pares suburbanos. Essa dinâmica tripla encontra expressão no ímpeto geral no mainstream dos protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), cujos ativistas da classe média defendem simultaneamente (i) que a polícia pare de confundir a classe média negra com os negros das periferias, (ii) que o Estado invista mais em reprodução social na esperança de catapultar mais negros para a classe média negra e (iii) a criação de mais vagas para a classe média negra em universidades, conselhos administrativos de empresas, etc.

Toda a sociedade negra de classe média está prestes a se beneficiar dos esforços dos proletários negros. Nos próximos meses, as vitórias conquistadas com a rebelião virão na forma de novas e inúteis posições de “diversidade”, conferências e artigos acadêmicos sem propósito e aumentos salariais irrisórios. Por ora, os protestos atuais precisam manter sua relação parasitária inicial com a Rebelião de George Floyd. Após a fase militante da rebelião, os protestos entraram em uma fase zumbi de marchas intermináveis, muitas vezes por ruas e rodovias já vazias. É como se delegacias de polícia nunca tivessem sido sitiadas, depredadas e incendiadas. Protesto após protesto acontece, sem uma reflexão significativa sobre o que ocorreu naquela primeira semana. Enquanto 2014 introduziu os bloqueios de rodovias ao repertório tático da luta contra a polícia, poderíamos ter pensado que as “delegacias incendiadas” seriam lembradas como a contribuição de Minneapolis. Em vez disso, os avanços conquistados em Minneapolis estão sendo soterrados pelas marchas de rua em todo o país, enquanto a liderança negra reforça as divisões reacionárias entre manifestantes pacíficos e manifestantes “bons”.
Abolição Revolucionária versus Abolição Reformista
Existem dois tipos de abolicionismo: o abolicionismo revolucionário e o abolicionismo reformista. O abolicionismo revolucionário é a autoatividade do proletariado na luta contra toda a lógica carcerária do Estado e o capitalismo racial. Isso inclui incendiar delegacias, destruir viaturas policiais, atacar policiais e redistribuir mercadorias de lojas como Target e Versace. O abolicionismo revolucionário alia-se ao anticapitalismo revolucionário, pois compreende que o abolicionismo só é possível quando atrelado ao anticapitalismo, ao antiestatismo, ao anti-imperialismo, à luta contra a homofobia e contra o patriarcado. As prisões precisam ser abolidas, mas também as escolas, os assistentes sociais e o exército de instituições da classe média e os benfeitores. O dinamismo expansivo que ele denomina, portanto, não pode parar na polícia, mas deve estender seu ataque ao muro que separa os chamados Estados Unidos e México, aos centros de detenção, aos tribunais e à vasta infraestrutura do Estado carcerário e do capitalismo.
O abolicionismo revolucionário atingiu rapidamente um ponto crítico durante a primeira semana da rebelião, registrando um novo ressurgimento na semana passada, em 25 de julho. Nesse intervalo, o abolicionismo revolucionário foi amplamente substituído por um abolicionismo reformista — uma corrente definida sobretudo pela atuação e pela política de ativistas profissionais, ONGs, advogados e políticos, e voltada primordialmente para o corte de verbas, políticas públicas e mudanças legislativas. Essa perspectiva continua a ver os políticos como os principais agentes históricos, em relação aos quais se posiciona como um grupo de pressão. Dessa forma, o abolicionismo reformista afasta os proletários do terreno da luta.

Embora seja correto apontar a flagrante injustiça na alocação de orçamentos policiais em comparação com os gastos em saúde, infraestrutura, educação e outros serviços, as propostas de “cortar o financiamento” não passam, na prática, de um remanejamento de recursos de uma esfera do Estado para outra. Além disso, mesmo quando o abolicionismo reformista começa a cogitar a abolição da polícia — como é o caso atualmente em Minneapolis — ele parece não compreender que a polícia não pode ser abolida por meio de legislação. O que escapa à visão do abolicionismo reformista é que a escravidão foi abolida, sempre e exclusivamente, por guerras revolucionárias — sejam elas efetivas ou apenas temidas. O caminho mais curto para desmantelar a polícia e as prisões é, e sempre foi, a revolta; vimos isso no ano passado, quando uma insurreição no Haiti levou ao esvaziamento de prisões inteiras. A insurreição constitui o elemento central da abolição revolucionária.
Sob a luz do surgimento do abolicionismo revolucionário no país — marcado por ataques a escritórios do DHS[2] em Atlanta e através do incendiamento de tribunais, o abolicionismo reformista constitui um ataque direto a essas formas mais militantes de abolição. Em nenhum outro lugar essa tensão e essa relação entre o abolicionismo reformista e o revolucionário manifestaram-se de forma particularmente aguda como em Minneapolis. Os reformistas vinham se preparando há anos na cidade, e a rebelião lhes proporcionou a oportunidade de agir. O que começou como um ataque frontal às forças da lei e da ordem em Minneapolis acabou se transformando em uma infinidade de projetos políticos inócuos. À medida que o proletariado negro recua, o ativista profissional negro assume o protagonismo, até que tudo volte a ser “bom e sagrado” de novo.
ONGs e Acadêmicos
Organizações não governamentais (ONGs) negras, incluindo os grupos do movimento Black Lives Matter, desempenharam um papel fundamental nesta campanha de contrainsurgência. Sua base social não é o proletariado negro, mas sim a classe média negra e — o mais importante — a burguesia branca, por meio da mediação de organizações filantrópicas. Para cooptar o movimento, a burguesia despeja dinheiro sobre os problemas gerados pelo capitalismo racial. Nas ONGs, ela encontrou um grupo de pessoas dispostas a aceitar de bom grado seus dólares. O dinheiro cai do céu: se você é negro, de classe média e consegue dizer “Black Lives Matter” três vezes, o dinheiro aparece magicamente no seu colo. Embora essas ONGs variem politicamente, elas tendem a ter pouca ou nenhuma trajetória de luta, nenhuma preocupação real com os movimentos e, em última análise, nenhum interesse em derrubar o capitalismo racial. Elas são apenas um reflexo dos vários parasitas que sugam o sangue da luta histórica dos proletários negros. Elas não resolvem nada a longo prazo, e é improvável que qualquer uma delas realmente lidere o movimento, uma vez que não possuem base. No entanto, como o movimento gerado pela Rebelião George Floyd é recente, muitos de seus participantes ainda se deixam confundir facilmente e, assim, continuam a demonstrar uma disposição servil em seguir qualquer pessoa negra que apareça com um megafone. Embora seja inevitável que alguns ativistas de ONGs voltem a se desligar de seus grupos para se unir aos elementos mais radicais do movimento, qualquer orientação estratégica que aposte nessa energia potencial é equivocada. Ficar à espera de uma radicalização das ONGs é como esperar que os sindicatos se radicalizem. De alguma forma, as ONGs acabarão tendo de ser expulsas do movimento.
E quanto aos chamados “intelectuais negros revolucionários”? Visto que a palavra “revolucionário” carece de sentido em tempos não revolucionários, e que a prática restrita de ser “intelectual” torna-se inoperante durante tempos revolucionários, estamos diante de uma contradição em termos. Enquanto, em tempos não revolucionários, as atividades dos intelectuais acadêmicos refletem a divisão capitalista padrão do trabalho entre pensadores e trabalhadores manuais, em momentos de insurreição essa divisão tende a colapsar e a ser reorganizada, de modo que muitos proletários se veem, de repente, engajados em formas de leitura, escrita e teorização que, anteriormente, eram tarefa exclusiva dos intelectuais.

Vamos dizer isso claramente: a Rebelião George Floyd é o novo critério pelo qual todas as teorias e políticas devem ser aferidas. Não em relação a exigências de estabilidade na carreira acadêmica, periódicos acadêmicos ou a uma comunidade de supostos estudiosos, mas sim ao fogo e ao calor da luta proletária. Elas devem responder às demandas de revoltas, greves, ocupações, bloqueios, insurreições, guerra e revolução. E, nesse aspecto, é preciso admitir que os resultados têm sido, até agora, um desastre. O Marxismo Negro (Black Marxism), o Afropessimismo (Afro-pessimism), o Anarquismo Negro (Black Anarchism) e o Feminismo Negro (Black Feminism) foram todos postos à prova nesta insurreição, e todos fracassaram. Essas teorias tiveram pouco ou nenhum impacto significativo sobre o proletariado negro. Em certos casos, elas até impulsionaram carreiras, ao emprestar sua voz a ONGs contrarrevolucionárias que estão apenas satisfeitas em pagar honorários.
O que aconteceu com a teoria revolucionária negra? Há mais de cinquenta anos, as teorias vêm se refugiando na academia. A universidade mercantilizou completamente o pensamento radical negro, dissociando-o do proletariado negro ao determinar quem tem acesso a ele e quem consegue compreender sua linguagem densa e obtusa. As questões e os problemas relevantes para o proletariado negro jamais são abordados a partir dos termos, conceitos e tradições desse próprio proletariado; em vez disso, são discutidos sob a ótica muito mais restrita e reformista da academia. Nenhuma ideia acadêmica presta contas ao proletariado negro — segmento social em relação ao qual a estabilidade no cargo oferece ao acadêmico radical um isolamento absoluto. Essa ausência de responsabilidade protege ideias obsoletas e inúteis, permitindo que teorias antigas e empoeiradas — há muito derrotadas na luta de classes real — continuem vivas na academia, transformando-se em um peso morto para a consciência do movimento.
Isso acaba agora. A força plena de uma rebelião removeu os escombros de uma maneira que a crítica jamais conseguiria. Embora a consolidação política da rebelião tenha ficado, por ora, a cargo de contrainsurgentes negros, a Rebelião George Floyd permitiu que a próxima geração de revolucionários negros do proletariado — bem como alguns dissidentes da classe média — surgisse e reconhecesse a si mesma. Nos meses e anos que virão, devemos fazer o possível para ajudá-los a se libertar das falsas divisões entre atividade intelectual e atividade revolucionária que há muito assolam nossos movimentos.
Conclusão
Se o capitalismo algum dia for abolido, se um futuro comunista libertador algum dia ver a luz do dia, o proletariado deve emancipar-se através da força de sua dependência da ordem social burguesa. Mas, antes que o antagonismo possa chegar a esse ponto, outra batalha também precisa ocorrer, na qual o proletariado negro acerte as contas, política e materialmente, com a classe média negra. Essa não é uma realidade nova, mas sim uma com a qual toda revolução envolvendo pessoas negras teve de lidar. Até agora, o proletariado negro perdeu todas essas disputas, resultando em um capitalismo e um Estado com rosto negro.
Se a classe média negra tem conseguido conduzir a contrainsurgência de forma tão eficaz, isso se deve, em parte, ao fato de ter conquistado posições-chave dentro do Estado. Lori Lightfoot em Chicago, Keisha Lance Bottoms em Atlanta, Chokwe Antar Lumumba em Jackson e Bernard Young em Baltimore oferecem apenas alguns exemplos de uma camada gerencial movida por aspirações de ascensão, consciente de seus interesses de classe de uma maneira que o proletariado negro ainda não assimilou. Eles frequentam as melhores escolas do país, o que lhes permite mobilizar o tipo de argumento cínico necessário para articular um programa reformista e de contrainsurgência.
As classes médias dispõem de suas universidades, eleições, corporações e outras instituições para desenvolver sua versão da “coalizão arco-íris”. O proletariado permanece à margem desse processo.
O proletariado negro pode liderar e deflagrar a luta, mas não vencerá batalhas decisivas sem aliados no proletariado branco e latinx, bem como entre as nações indígenas. Ao saquear o maior número possível de lojas, o proletariado negro lutou lado a lado com outros proletários. Durante uma semana, formou-se uma aliança orgânica, à medida que diferentes grupos oprimidos lançavam fogo contra a polícia e redistribuíam bens por toda a Turtle Island.
No entanto, essas alianças orgânicas não conduzem automaticamente a alianças mais duradouras. As enormes explosões de solidariedade em revoltas e levantes tendem a recuar rapidamente para relações antagônicas entre os proletários logo em seguida. Afinal, compartilhar um momento de combate não é o mesmo que construir confiança e solidariedade a longo prazo. O que é mais real: uma semana de unidade compartilhada ou uma vida inteira de conflitos entre proletários?
O proletariado negro enfrenta a concorrência por empregos e moradia, bem como a disputa por outros recursos escassos contra outros proletários. As respectivas classes médias prometem garantir esses benefícios, desde que os proletários negros continuem votando em políticos negros, os proletários latinxs votem em políticos latinxs, e assim por diante. Embora essa lógica represente um beco sem saída para a solidariedade proletária multirracial, ela atende a objetivos de curto prazo que, muitas vezes, são difíceis de ignorar para pessoas despossuídas. Dessa forma, a unidade frágil forjada em momentos de revolta acaba se dissolvendo novamente nas relações sociais segregadas do cotidiano. Os proletários ocasionalmente constroem solidariedade entre si no dia a dia, mas, de modo geral, carecem dos mecanismos ou instituições — no âmbito do capitalismo racial — para desenvolver essa unidade. É por isso que os ataques à infraestrutura do capitalismo são fundamentais e por que novos espaços de reprodução social são vitais.

No entanto, nossa aposta deve ser a de que a revolta transformou o proletariado. Devemos acreditar na possibilidade de que as relações cotidianas também estejam começando a mudar. Essa é uma hipótese, que precisa ser testada na luta.
Em última análise, será necessário algum tipo de processo mais amplo de crise — guerra, crise econômica, pandemias, colapso ecológico — para forçar uma unidade estratégica entre os diferentes grupos racializados de proletários. Sem fetichizar as organizações, serão necessárias certas formas organizativas para cristalizar e concentrar essa aliança. O proletariado terá de desenvolver seus próprios interesses — articulando classe, raça e gênero — em oposição à classe média negra e branca, simultaneamente, por meio da ação, da organização e de um programa.
Desde a crise econômica de 2007/2008, o mundo inteiro entrou em um período de lutas de massa. Esse processo tem sido desigual — ora a Grécia, ora a Primavera Árabe, depois Marikana ou o Haiti, sempre acompanhados por contrarrevoluções ou contrainsurgência como parte da dinâmica. A rebelião por George Floyd insere-se nesse processo contínuo de enfrentamento da desigualdade extrema, da violência policial e de outras formas de opressão. Tenho enfatizado a dinâmica de derrota e recuo no momento atual, pois é isso que enfrentamos de imediato. No entanto, num futuro próximo, o movimento voltará a atacar, pois não haverá outra escolha. A derrota é temporária; a luta é permanente.
Referências
Embora eu não tenha citado referências, as seguintes obras embasaram meu argumento e minha análise:
Bitterly Divided by David Williams
Force and Freedom by Kellie Carter Jackson
The Black Jacobins by C.L.R. James
How Europe Underdeveloped Africa by Walter Rodney
Black Reconstruction by W.E.B. Du Bois
The Revolution Will not be Funded by INCITE
Black Awakening in Capitalist America by Robert L. Allen
Black Marxism by Cedric Robinson
Top Down by Karen Ferguson
The Negro and Communism by W.E.B. Du Bois
[1] Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome usado por alguns povos indígenas das Américas para se referir à América do Norte. Mais informações em: https://en.wikipedia.org/wiki/Turtle_Island. [N.T.]
[2] O Department of Homeland Security (DHS), ou Departamento de Segurança Interna, é o departamento do governo federal dos Estados Unidos encarregado de proteger o território americano contra ameaças, sejam elas terroristas, criminosas ou decorrentes de desastres naturais. Cf. https://en.wikipedia.org/wiki/United_States_Department_of_Homeland_Security. [N.T.]
Traduzido por Guilherme Henique, a partir das versões disponíveis em: https://illwill.com/print/the-rise-of-black-counter-insurgency & https://libcom.org/article/rise-black-counter-insurgency
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