Louco de entusiasmo pela revolução: Os combates de Paul Mattick – Charles Reeve & Laure Batier

Para além de um limitado meio, esse homem é pouco conhecido. Ele foi, entretanto, uma das “figuras” do comunismo de conselhos, movimento que rejeita a burocracia, a autoridade e a personalização do poder. Na ocasião da publicação de “La révolution fut une belle aventure” [A revolução foi uma bela aventura], retorno sobre a trajetória de Paul Mattick e sobre as lutas nas quais ele participou, acompanhado de Charles Reeve e Laure Batier.

Ele o expõe logo na primeira página, quando o pontificante entrevistador lhe pergunta o “objetivo” de seu trabalho recente. “Sempre o mesmo“, responde Paul Mattick, então com 70 anos: “me opor à teoria bolchevique, ao capitalismo de Estado, que todos apoiam sem exceção, quer seja sob uma forma ou outra, e lutar contra o desenvolvimento do capitalismo moderno“. Aí está. Uma frase para resumir uma existência. Para descrever uma vida dedicada à revolução e à propagação das ideias antiautoritárias. Como se tudo estivesse dito.

Tudo? Seria necessário ver para não exagerar. Sem dúvida, a frase resume bem o porquê de Paul Mattick ter lutado durante toda a sua vida. Ela nada diz – ao contrário – do ambicioso trabalho teórico realizado por quem a pronunciou, incansável propagandista do conselhismo (ou comunismo de conselhos, corrente marxista anti-leninista). Ela nada diz – tampouco – de seu ativismo, ao lado de pobres, de excluídos e de todos aqueles que sonham por outro mundo. Ela nada diz, enfim, de uma existência levada à batida de tambores, a revolução na linha de fogo, desde o movimento espartaquista[1] na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial até a profunda contestação dos anos 1960, passando pelo movimento dos desempregados[2] estadunidenses[3] durante a Grande Crise dos anos 1930. Paul Mattick atravessou tudo isso. Melhor: ele foi parte envolvida, incansável militante e corajoso combatente.

Para expor tudo isso, seria necessário um livro. Ainda bem: os amigos Charles Reeve[4] e Laure Batier, com o apoio de Marc Geoffrey e Gary Roth[5], acabaram de publicar um. A obra se chama La révolution fut une belle aventure. Des rues de Berlin en révolte aux mouvements radicaux américains (1918 – 1934)[6] (tudo recentemente publicado na editora L’échappée), e ele mapeia uma boa parte da vida de Paul Mattick e de suas lutas. Ao mesmo tempo um apaixonante romance de aventura política, um quadro histórico instrutivo e um precioso retorno sobre o que foi o conselhismo (que sobre o que ainda é).

Até a gênese da obra que se inscreve nessa história bem particular. No início dos anos 1970, o amigo Charles Reeve na verdade conviveu com Paul Mattick, se tornando próximo da família. As ligações estabelecidas não são negadas, mesmo depois da morte do revolucionário. “E há sete anos“, explica Charles Reeve, “sua viúva, Ilse Mattick, e seu filho, Paul Junior, chamaram minha atenção a respeito de uma longa entrevista que Paul Mattick tinha concedido em 1976 ao universitário alemão Michael Buckmiller. A transcrição em alemão dessa entrevista circulava de forma fragmentada pela internet, e a família de Mattick desejava que ela fosse traduzida, contextualizada, retrabalhada e publicada em boas condições. Nós então nos unimos para isso.” Como resultado: a publicação de La révolution fut une belle aventure. Laure e Charles falam dela aqui.

*

Charles, você conheceu Paul Mattick…

Charles Reeve: No começo dos anos 1970, eu vivi um ano nos Estados Unidos. E eu efetivamente encontrei e frequentei a casa de Paul Mattick, onze anos antes de sua morte. Eu me tornei próximo dele e de seu filho, Paul Junior, que fazia parte do coletivo que publicava então em Boston – em pleno período do movimento contra a guerra do Vietnã – a revista Root & Branch[7].

Paul Mattick era um personagem bem intenso. Caloroso e fascinante. Mas não fácil, também: ele era muito exigente e seguro de si. E ele fazia poucas concessões na discussão. Seu viático? “Nunca saia com idiotas“. Um conselho ainda pertinente.

Para além desse encontro, vocês também são, Laure e você, experientes no conselhismo…

Charles: Eu não diria assim: soa como um pertencimento a um setor político… E isso não faz nenhum sentido com as ideias levadas pelo conselhismo. Mas é verdade que nós dois vivemos o Maio de 68. E que nós fazíamos parte de um meio que leu muitas coisas sobre a revolução espartaquista e sobre a vertente do comunismo de conselhos.

No fim dos anos 1960 e no início dos anos 1970, houve um nítido aumento no interesse pela democracia operária, a autonomia, a independência em relação às organizações burocráticas. E era necessário encontrar referências históricas para apoiar essa reflexão. Foi nesse período que nós, e outros, descobrimos Rosa Luxemburgo e o papel desempenhado pelos espartaquistas alemães em 1919. Mas nós também mergulhamos na história da revolução russa, para percebermos que a tomada de poder pelos bolcheviques dissimulava um movimento revolucionário de um tipo novo, o dos sovietes. Esse movimento precedeu a tomada de poder político pelo partido bolchevique; ele continha muitas tendências, vertentes contraditórias.

Tudo isso já tinha sido estudado e exposto por muitas vertentes pequenas dissidentes do marxismo e do anarquismo, tanto na França quanto em outros lugares. Mas seus revezamentos permaneceram limitados. A agitação de 1968 mudou isso: o comunismo anti-autoritário subitamente voltou a saborear o dia. Donde o interesse pela Revolução Alemã. É preciso dizer que esta última é apaixonante. Primeiramente porque com a Revolução Russa, ela coloca um fim à carnificina da Primeira Guerra Mundial. E em seguida porque ela fornece uma belíssima ilustração desses movimentos revolucionários impulsionados pela auto-organização e pela democracia direta. De fato, a Revolução Alemã viu o nascimento de uma vasta rede de conselhos que rapidamente questionaram o poder e a mudança social.

Espartaquistas em Berlim em março de 1919.

Mas a Revolução Alemã mostra também que não é o tipo de organização que conta, mas o conteúdo da luta. Pois a maioria dos conselhos permaneceram finalmente sob controle da social-democracia e foram integrados no Novo Estado da República de Weimar. Ou seja: a existência em si da forma de conselho não é suficiente. E também é isso que Paul Mattick conta no seu relato em primeira pessoa.

Laure Batier: As questões colocadas pela Revolução Alemã – o lugar dos sindicatos, da social-democracia, do parlamentarismo – também são muito mais próximas das realidades do mundo moderno do o que aconteceu na Rússia. Se você se pergunta sobre o parlamentarismo, é muito mais lógico ir bisbilhotar na Revolução Alemã ao invés da Revolução Russa, ler a belíssima obra de Rosa Luxemburgo, La Crise de la social-démocratie [A Crise da Social-democracia][8], do que espiar os escritos de Lenin. Nosso interesse se inscrevia essa realidade: a Revolução Alemã ocorreu em uma sociedade moderna e questionou as mesmas coisas que nos interessavam. Nós encontramos aí então uma certa quantidade de respostas.

Rosa Luxemburgo na tribuna.

Charles: Na medida em que a Revolução Alemã é também uma revolução urbana. Nada a ver com a Rússia pré-revolucionária, onde o campesinato desempenhou um papel essencial, ou com a Espanha de 1936, quando os coletivos camponeses levantam uma certa quantidade de questões importantes para a reorganização da sociedade. Quando Paul Mattick narra seus anos revolucionários na Alemanha, não é questão de campesinato: tudo, ou pouco se preciso, acontece nas cidades.

Hoje, dificilmente se ouve falar do conselhismo. Isto quer dizer que ninguém se interessa mais?

Charles: O comunismo de conselhos é sem dúvida menos reivindicado no mundo militante hoje do que era ao longo dos anos 1970. Mas é necessário especificar essa afirmação. Pois nos anos 1970, essa reivindicação foi levada por um meio confidencial demais. Embora encontremos hoje o conteúdo desse movimento – ou seja, o anti-autoritarismo, o anti-burocratismo, o igualitarismo, a rejeição da delegação permanente do poder, a democracia direta – em muitas das lutas que questionam a lógica capitalista. Por exemplo, nas recentes manifestações do Occupy e dos Indignados[9]. Ou seja, esses princípios políticos são mais compartilhados do que há quarenta anos, mesmo que as pessoas não os formalizem mais em um corpus ideológico identificável sob o termo de conselhismo ou de comunismo de conselhos.

Isso não é tão ruim. Na verdade, significa que essas ideias se inscrevem no movimento da sociedade sem que seja necessário passar por uma defesa ideológica de uma vertente. De qualquer forma, o conselhismo não é nem uma receita, nem um modelo. A constituição de conselhos não garante coisa nenhuma, não constitui uma panaceia – os conselhos vêm e vão. Para parafrasear um pensador dessas questões – infelizmente pouco conhecido -, Anton Pannekoek, um conselho não é uma forma de organização, é um espírito de luta[10]. O que conta é romper com a visão partidária e vertical de um movimento operário seguidor, que delega aos seus chefes a determinação do objetivo a se alcançar e os deixa conduzir o barco. Sabemos hoje onde levam tais derivas: não à emancipação social, mas ao totalitarismo.

É algo que Paul Mattick nunca perdeu de vista?

Laure: Na verdade, ele foi um inabalável defensor dessa ideia de conselhos operários. Não apenas em teoria: ao longo de sua vida, que tem tudo de um romance de aventura, ele praticou muito essa forma de organização. Com dois momentos principais. Primeiramente, o momento revolucionário alemão, que se desencadeou logo após a Primeira Guerra Mundial. Depois – após a imigração de Paul aos Estados Unidos – o movimento dos desempregados estadunidenses durante os anos 1930. Dar de novo a palavra a Paul Mattick é assim uma forma de reviver, de maneira bem concreta, esses anos de combate e de lutas largamente esquecidos.

Não se trata então de uma biografia, mesmo que Paul Mattick relate nessa obra a primeira parte de sua vida. Nossa ambição era mais mostrar as lutas revolucionárias meio esquecidas acompanhando um de seus autores. É necessário dizer que Paul Mattick começou bem cedo: aos 14 anos, em 1918, ele se junta à ala esquerda do Spartakusbund[11], aderindo à Freie Sozialistische Jugend (Juventude Socialista Livre), um movimento jovem que reagrupava tanto partidários da social-democracia quanto espartaquistas e anarquistas. Ele podia ser apenas um adolescente, mas ele já queria derrubar o capitalismo.

Manifestação Espartaquista em 1917.

Charles: 1918, também é o ano em que Paul Mattick entra como um aprendiz mecânico na fábrica Siemens, um enorme complexo industrial onde seu pai trabalhava. Ele não tem escolha: vindo de uma família operária numerosa e pobre. Desde a mais tenra idade, ele foi confrontado pela miséria, compartilhando o cotidiano desses bandos de crianças de rua que passam então seu tempo nos quintais de imóveis populares berlinenses, abominam o patriotismo, sobrevivem graças a pequenos furtos e esperam a mínima oportunidade para roubar comida. Ao longo dos anos de guerra, essa existência marginal, marcada pelo ódio da autoridade, se fez profundamente contenciosa, constituindo uma “revolta surda contra o degradamento das condições sociais“, assim como o escreve Gary Roth no prefácio do livro.

Está aí um primeiro ponto essencial: a ligação desses bandos trazidos pela necessidade da rapina com o movimento revolucionário. Essas crianças se tornaram realmente políticas. Aliás, Mattick o disse várias vezes: sem a revolução, ele teria sem dúvidas se tornado um “vagabundo“, confirmando os medos de seu pai. Mas então: há revolução. E em novembro de 1918, quando, em Berlim, enormes manifestações conduzidas pelos espartaquistas partem de bairros populares para convergir para o centro da cidade[12], Paul Mattick está ali, como muitos garotos dos bairros operários.

O período revolucionário que se anuncia aqui vê acumular os problemas e as greves insurrecionais. E a repressão que atinge os militantes revolucionários se revela feroz: os mortos se contam aos milhares. Também é isso, a República de Weimar. O próprio Paul Mattick várias vezes escapa da morte por um triz. Em março de 1920, com apenas 16 anos, faz parte daqueles que se opõem ao golpe[13] do político de direita Kapp, apoiado por uma parte do exército e pelos milicianos do Freikorps[14]. Ele é preso, levado a um quartel onde outros militantes de esquerda esperam, alinhados contra um muro, conta ele no livro. E continua: “Soldados armados com metralhadoras […] se colocaram em posição em nossa frente. Ils étaient suivis par un officier […]. Ele caminhava de um lado para o outro frente à fileira das pessoas que estavam coladas contra o muro, e de tempos em tempos, ele tirava uma. De repente, ele se dirige até mim […] e me tira da fileira. […] Naquele dia, todos os que continuaram frente ao muro foram mortos“.

Defensores do Kapp (golpe) em Berlim, em março de 1920.

Laure: Escapar da morte aos 16 anos! Isso deve ter sido um trauma profundo. E entretanto, Paul Mattick fala dele com simplicidade, não adiciona nada mesmo que isso tenha sem dúvidas o marcado mais do que ele gostaria de mostrar. Eu acredito que o que o salvou foi o coletivo. Havia então uma tamanha força coletiva, uma tamanha solidariedade, que a ideia da morte era como que rejeitada. Aliás, Paul o declarou na entrevista: apesar dos mortos e da repressão, seus anos de ativismo na Alemanha, de 1918 até 1926, estavam entre os mais belos de sua vida. Porque ele nunca estava sozinho, mas sempre acompanhado de camaradas e ativistas. “Para mim, a revolução foi sobretudo uma grande aventura“, ele resume. “Estávamos todos loucos de entusiasmo pela revolução“. Ele carregava esses momentos com ele sem nunca falar deles. Além disso, trabalhando no texto, nós ficamos surpreendidos ao descobrir que Paul Mattick nunca tenha mencionado tudo isso aos seus amigos e amigas mais próximos, que o descobriram lendo essas páginas.

O que também me impressionou, além da violência da repressão e do entusiasmo de Mattick, foi descobrir o quanto as práticas de expropriação estavam indo bem na Alemanha no início dos anos 1920…

Charles: Na verdade, elas eram bem comuns nos meios revolucionários marginalizados pela política dita oficial. Uma grande ruptura foi escavada entre os partidários de um comunismo clássico, mais ou menos inscrito no jogo democrático, e os membros de uma grande movimentação que agrupava principalmente os militantes do partido comunista não-bolchevique (o KAPD), os anarquistas e os sindicalistas revolucionários. Eles realmente passaram por muita coisa: eles não encontravam mais emprego, as listas proibidas circulavam, eles eram perseguidos sem descanso pela polícia… E eles eram bem numerosos na prisão: no final da República de Weimar, milhares entre eles mofavam atrás das grades. Esses militantes tinham muita dificuldade para viver e para fazer viver suas organizações, publicações, famílias… A ilegalidade era assim o único meio de financiar essas atividades políticas e de garantir a sobrevivência material dos operários e militantes revolucionários que não encontravam mais trabalhos ou que eram procurados pela polícia.

Max Hölz[15] foi o mais conhecido desses expropriadores. Mas ele estava bem longe de ser o único. Além de Karl Plättner, membro do KAPD, que assaltava bancos para benefício do partido, citamos também Karl Gonschorek, um amigo de Mattick que foi por um tempo líder de gangue, em 1920-1921. Sua prática era bem muito interessante: ele saqueava casas burguesas, depois estendia sobre a estrada o saque do dia – cada um podia pegar o que tinha necessidade. Depois ele incendiava a casa pilhada, uma vez que não se pode dividir uma construção. Ele foi condenado à prisão perpétua, mas depois foi finalmente solto em 1927, pois estava gravemente doente: ele morreu de tuberculose um ano mais tarde.

Laure: Aliás, é esse mesmo Gonschorek que incitou Paul Mattick a se lançar na escrita. É aí que podemos ver que não havia separação entre o mundo da ação e o do pensamento – um tema que era muito caro para Paul Mattick.

De forma geral, é difícil imaginar hoje o que significaria ser militante revolucionário na Alemanha do pós Primeira Guerra Mundial. O engajamento e a tomada de riscos não tinham muita coisa a ver com o que conhecemos hoje em dia. Por exemplo, Paul Mattick e seus camaradas refletiram muito sobre uma ação que permitiria libertar Jan Appel, um revolucionário preso em novembro de 1923 para suas ações de expropriações. Eles tinham assim previsto ajudá-lo a fugir do tribunal durante seu processo e apareceram vinte pessoas na sala de audiência, escondendo em si armas e granadas de mão. Finalmente, eles não fizeram nada, pois Jan Appel lhes pediu, mas se não fosse por isso eles não hesitariam em atacar o tribunal.

Na época, as armas circulavam em massa nesse meio. Principalmente aquelas recuperadas e escondidas por militantes no momento do colapso da Primeira Guerra Mundial. Além disso, durante um tempo, Mattick foi encarregado pelo KAPD de transportar armas, da Alemanha central para a Renânia.

Soldados e operários revolucionários em Berlim – foto tirada do site Spartakus  1918.

Apesar dos riscos, as armas e as ações clandestinas, há uma certa leveza, no sentido bom do termo, do relato que faz Paul Mattick desses anos…

Charles: Sim, e principalmente porque esse meio clandestino era então bem variado em sua composição. Mattick lembra assim que, até o fim dos anos 1920, os militantes bolcheviques e os comunistas antiautoritários mantinham ligações entre eles, se conheciam e agiam frequentemente juntos sem dar muita importância às questões de capela. Mas já que as direções se misturavam, ele ia para outra direção: geralmente, os dissidentes eram violentamente perseguidos. Quanto ao KAPD antibolchevique, ele contava também com membros de sensibilidade anarquistas em suas fileiras.

A vertente do anarcossindicalismo era então importante na Alemanha. Entretanto, o papel essencial desempenhado pelos sindicalistas revolucionários e pelos anarquistas na Revolução Alemã permaneceu ignorado por muito tempo. Do mesmo modo que a terrível repressão que os atingiu, particularmente durante a greve geral contra o golpe de Kapp e durante o esmagamento do Exército Vermelho em Ruhr, em 1920-22[16].

Todas essas pessoas se cruzavam, se ajudavam. E pouco importava saber se ele preferia Marx ou Bakunin. Paul Mattick conta assim que o primeiro livro político que ele leu e discutiu no seio da Freie Sozialistische Jugend foi Ajuda Mútua, de Kropotkin. Eu duvido que hoje se aconselhe os jovens que se aproximam da Luta Operária a ler Kropotkin… Em suma, se tratava de um período extremamente aberto. Porque se tratava de um período revolucionário.

Laure: Mais amplamente, Paul Mattick sempre esteve ligado, seja na Alemanha ou nos Estados Unidos, com o mundo artístico de vanguarda. Também é isso que é muito interessante nele: não é só a política. Em Colônia, ele frequenta a casa de pintores expressionistas ou os círculos de poetas. Mais tarde, nos Estados Unidos, muitos são os pintores, poetas e fotógrafos que evoluem no pequeno movimento do comunismo de conselhos. É que, ao contrário de certos meios políticos muito fechados, Mattick e seus amigos se interessavam pela escritura, pela pintura e pela arte em geral. Eles achavam que a criação artística não é separável da criação de um mundo novo.

Esse período revolucionário alemão tem definitivamente fim em meados dos anos 1920. Mais ou menos o momento em que Paul Mattick decide emigrar para os Estados Unidos: em 1926, ele se instala em Chicago. E a partir de 1931, enquanto a Grande Depressão atinge o país, ele se empenha nas assembleias de desempregados…

Charles: Na época, as ajudas sociais eram inexistentes, existiam apenas restaurantes populares com filas de espera muito longas. Se eles não queriam morrer de fome, as pessoas eram obrigadas a tomarem controle de suas vidas. Esse movimento se inicia com a criação das assembleias de desempregados, sobretudo nas grandes cidades, de Nova Iorque à São Francisco. Depois comitês e conselhos de desempregados começam a aparecer, se estruturando em uma rede nacional.

Fila de espera para o restaurante popular em Nova Iorque, em 1932.

Em Chicago, onde Paul Mattick se mostra particularmente ativo, os desempregados ocupam locais, se unem, publicam jornais. Todos os grupos políticos da esquerda, do Partido Socialista da América ao Partido Comunista dos Estados Unidos da América, stalinista, estão presentes na luta. Mas esses últimos exigem sobretudo a intervenção do Estado, enquanto as tendências mais radicais – aquelas carregadas por Paul Mattick e por seus amigos do IWW[17] assim que por outros pequenos grupos comunistas dissidentes – colocam em vez disso a necessidade da auto-organização e da expropriação de bens necessários para a sobrevivência e para a luta. Eles organizam também debates políticos e, de forma geral, se esforçam para que os desempregados se afirmem autônomos e conscientes.

Esse movimento permanece bem pouco conhecido, mesmo nos Estados Unidos – Howard Zinn fala dele brevemente em seu livro História Popular[18]. Entretanto, é um movimento importante, de uma grande radicalidade e de uma atualidade evidente. Por exemplo, os membros dos comitês de desempregados interviam quando ocorria um despejo, desembarcando numerosamente para reinstalar das famílias atingidas nas casas das quais haviam sido retiradas; outros se ocupavam de estabelecer ligações ilegais para a eletricidade, o gás. Muitas ações aconteceram nos subúrbios negros. Tratava-se de um movimento inter-racial, o que era particularmente radical para a época e para a sociedade norte-americana.

Laure: Essa forma de ação contra os despejos foi principalmente apresentada na frente da cena com o movimento Occupy nos Estados Unidos, e em seguida na Espanha com o dos Indignados. O que é impressionante aqui é que o que tinha existido e o que tinha sido esquecido, essa forma de ação contra os despejos, reapareceu. A experiência nunca está perdida; é a necessidade que cria as condições da ação e desperta a consciência.

Tocamos aí em um ponto essencial para Paul Mattick…

Charles: Sim, ele rejeitava fundamentalmente todo vanguardismo. Ele se inseria em uma vertente pela qual não bastava agitar ideias para que as (ditas) massas as seguissem, um modelo levado até a caricatura pelos partidos comunistas tradicionais. Em sua prática e de seus camaradas, a luta acompanhava sempre uma reflexão. Com essa ideia de que é preciso lutar, se expressar, construir um pensamento próprio: a circulação das ideias e da energia depois permitirá a essas ideias ajudarem outras pessoas a pensarem sua emancipação de forma autônoma.

Antigos combatentes acampando em frente ao Capitólio, em 1932.

Laure: Tomando o exemplo da revolução alemã e do movimento dos desempregados nos Estados Unidos, Mattick mostra bem que em períodos no qual isso começa a ferver, a necessidade de pensar as coisas se impõe. Necessidade de ler, de se reunir, de discutir. Porque em situação de sobrevivência, é importante refletir juntos para tentar fazer com que soluções se sobressaiam. Paul Mattick evocou assim o exemplo dos desempregados ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial que caminham para o Capitólio em junho de 1932. Ele explica que a manifestação foi finalmente violentamente dispersada pelo general Mac Arthur. E ele declara: “Enquanto grupos tão reacionários se tornam radicais e combatem o poder político, é o signo que a situação realmente alcançou um limite crítico“. Ele vê aí, com razão, uma confirmação dessa ideia essencial: na ação, as pessoas podem começar a pensar. Eu vivi isso: eu era aluna do liceu em 1968, e em dois meses de agitação, reflexões e discussões permanentes, eu aprendi mais que em dez anos de curso.

Mas não se trata nem um pouco de ampliar essa reflexão nascida da ação: ela pode também se mostrar versátil, gregária ou idiota. Mattick nota assim, a propósito do movimento dos desempregados, que as pessoas podem mudar bem rápido de opinião em função dos encontros, das discussões, de influências temporárias, de interesses ocasionais. E será sempre assim. Mas isso não muda nada: em um período de grande agitação social, não há separação entre pensamento e ação. Para Mattick, essa ligação permanente entre a teoria e a prática é essencial – ele sempre se recusará a separá-las. Aliás, o livro termina em uma viva discussão que o opõe ao universitário Michael Buckmiller sobre esse assunto.

Além disso, ele pagará demais por esse posicionamento, não? Sua recusa reivindicada da estatura do intelectual, do expert, ou do universitário lhe valerá entrar na boca do lobo por toda sua vida – e particularmente nos anos 1940, 50, 60…

Laure: Paul Mattick era um autodidata que aprendeu no fogo da ação e da coletividade daqueles que lutam. E quando ele desembarcou nos Estados Unidos, ele não integrou o meio universitário. Porque ele não tinha diplomas. E porque ele não pertencia àquele mundo. Ele devia então, por um lado, trabalhar em fábricas para sustentar sua família, e por outro, conseguir até mesmo encontrar tempo para escrever e refletir, para conduzir suas pesquisas. Uma luta de verdade!

Charles: De qualquer forma, ele não estava preparado para fazer concessões. É por isso que vários de seus escritos nunca foram publicados. Isso muda um pouco depois da Segunda Guerra Mundial: graças ao apoio de alguns de seus amigos, ele publica então alguns artigos nas revistas da esquerda independente estadunidense. Nos anos 1960, ele morava em uma periferia de Boston, e havia agrupado um pequeno grupo de pessoas que começavam a questionar diferentemente – nada de evidente nesses anos de pós-guerra marcados pela Guerra Fria e pelo macarthismo. É assim que Paul Mattick frequentou Herbert Marcuse, Howard Zinn e Noam Chomsky: eles se viam, mesmo que não compartilhassem as mesmas convicções. É também assim nesses anos que seus escritos encontraram uma nova juventude, que eles redescobriram. Mas tudo isso permanecia bem confidencial. E é o caso: sua obra mestra[19], uma crítica do keynesianismo como solução dos problemas da crise capitalista, permanece ainda amplamente ignorada hoje enquanto ela joga uma nova luz crítica sobre a crise atual e sobre a questão da intervenção do Estado na economia.

Herbert Marcuse e Paul Mattick se estimavam. Aliás, o primeiro dizia que a crítica de Mattick de O Homem Unidimensional era a melhor que já tinha sido publicada. Mas embora eles se gostassem, eles também não eram do mesmo mundo. Uma anedota ilustra lindamente. Nós estamos no final dos anos 1960, Marcuse e Mattick se reencontram por acaso no aeroporto de Paris: eles se preparam para pegar o mesmo avião para voltar à Boston. Marcuse relembra então: “Perfeito, vamos poder discutir“. E Mattick responde: “Não, não, não…“. Reação de Marcuse, surpreso: “Por quê?“. Mattick: “Porque eu tenho certeza de que você viaja de primeira classe…“. Marcuse: “Oui“. E Mattick conclui: “Viu, sempre haverá uma classe entre a gente“.

Gerd Arntz, Utopia?, 1969.

[1] O movimento espartaquista é mencionado devido à breve passagem do jovem Mattick em suas fileiras. No ano de 1918, aos 14 anos, Mattick juntou-se à organização de juventude da Liga Espartaquista e participou da experiência revolucionária na Alemanha. Confira as indicações bibliográficas na próxima nota para acessar mais informações sobre essa questão. (NT)

[2] Paul Mattick e companheiros próximos participaram ativamente do movimento dos desempregados nos Estados Unidos, que eclodiu no início da crise de 1929 e se concentrou principalmente na região de Chicago. Foi nessa época que Mattick aprofundou seus estudos sobre Marx, Grossmann, participou de comitês de desempregados e mobilizou diversas outras atividades. Para mais informações sobre o movimento dos desempregados nos EUA e Mattick, confira: Paul Mattick: A paixão da revolução ou a impossível separação entre pensamento e ação (Valadas) e Uma Vida Comunista – Felix Baum. (NT).

[3] Não traduzo o termo “américains” por “americanos” pois não se trata de todos os americanos, de todas as Américas, como América do Sul, Latina e América do Norte, mas especificamente das pessoas dos Estados Unidos. (NT).

[4] Que assinou seis artigos no site do Article 11, disponível para leitura AQUI. Por vezes, a amizade é muito boa.

[5] A tradução é de Laure Batier e Marc Geoffrey, a organização das notas de Charles Reeve, o prefácio de Gary Roth, e o Posfácio de Laure Batier e Charles Reeve.

[6] Em tradução literal, “A revolução foi uma bela aventura. Das ruas de Berlim em revolta aos movimentos radicais estadunidenses (1918 – 1934)”. (NT).

[7] Root & Branch, em tradução literal, “Raiz & Galho”. (NT).

[8] Há uma tradução portuguesa: LUXEMBURGO, Rosa. A crise da social-democracia. Lisboa: Presença, 1974. (NT).

[9] Movimento Occupy, ou Occupy Wall Street, foi uma série de movimentos que ocorreram nos Estados Unidos entre 2011 e 2012. Os Indignados espanhóis fizeram parte de uma série de protestos espontâneos na Espanha que começaram em 2011 e acontecem até hoje. Outros nomes são Spanish revolution (Revolução Espanhola) e Movimiento 15-M, por terem ocorrido em 15 de maio. (NT).

[10] Anton Pannekoek, Les conseils ouvriers [Os conselhos operários], Spartacus, 1982.

[11] O Spartakusbund foi criado em 1914 sobre bases anticapitalistas e antimilitaristas. Em 1917, os seus membros, entre eles Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, se juntam ao USPD (Partido Social-democrata Independente da Alemanha), que reagrupa os militantes socialistas opostos às posições chauvinistas do SPD (Partido Social-democrata da Alemanha, principal partido da Segunda Internacional). Mas no final de dezembro de 1918, após o fracasso da revolução de novembro, os antigos membros do Spartakusbund deixaram a USPD para fundar a KPD, o Partido Comunista Alemão. Rapidamente, divergências apareceram aí. E em outubro de 1919, a direção do KPD exclui quase totalmente organizações de base opostas ao “parlamentarismo revolucionário” e à ação sindical clássica. Em abril de 1920, os excluídos criam o KAPD (Partido Comunista Operário da Alemanha), que se considerava “um partido de massa” oposto ao “partido de chefes”. (Os autores usam o termo Spartakusbund, do original alemão, em referência à Liga Espartaquista – NT).

[12] São essas manifestações que forçam o Imperador a renunciar. Os chefes social-democratas proclamam então a República e decretam o fim da Revolução, antes de assinarem o armistício. Por sua vez, os espartaquistas reivindicam, sem sucesso, a instauração de uma República socialista.

[13] No original, os autores usam o termo alemão putsch, que significa um golpe de Estado que visa a tomada do poder, geralmente com apoio militar. (NT).

[14] No original, “corps francs”, como os franceses se referem aos Freikorps, grupos paramilitares que se espalharam na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. (NT).

[15] Ler sua autobiografia, Un rebelle dans la Révolution, Allemagne 1918 – 1921 [Um rebelde na Revolução, Alemanha 1918 – 1921], Spartacus, 1988.

[16] O Exército Vermelho de Ruhr era uma facção comunista armada que contava com dezenas de milhares de membros.

[17] IWW (Industrial Workers of the World), em tradução livre, Trabalhadores Industriais do Mundo. O IWW foi uma organização sindical que ganhou certa notoriedade nos EUA pela radicalidade em suas lutas e adesão à concepção sindicalista revolucionária. (NT).

[18] O título original, em inglês, é A People’s History of the United States: 1492 – present. (NT).

[19] Marx et Keynes, les limites de l’économie mixte [Marx e Keynes, os limites da economia mista], Gallimard, 1972 (reedição 2010).

Traduzido por Lucca Lobato, a partir da seguinte versão: http://www.article11.info/?Fou-d-enthousiasme-pour-la. Revisado por Arielle Vieira.

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