Uma Vida Comunista – Felix Baum

Junto com o retorno da crise econômica e das lutas sociais em todo o mundo, o termo “comunismo”, supostamente desacreditado de uma vez por todas pela experiência da Rússia e seus estados satélites no século XX, parece estar desfrutando de um certo retorno nos últimos anos. Conferências sobre “a ideia do comunismo” têm atraído multidões significativas, livros de declarados comunistas como Alain Badiou e Slavoj Žižek encontram leitores e chamam a atenção da mídia. No entanto, na maior parte dos casos esse retorno (certamente limitado) não parece ser impulsionado por um desejo genuíno de recuperar o conteúdo emancipatório que o termo carregava nos escritos de Karl Marx e críticos afins, bem como em movimentos práticos a partir do século XIX em diante. Em vez disso, maîtres-penseurs[1] como Badiou e Žižek preferem posar como enfants terribles[2], defendendo o maoísmo e flertando com o terror bolchevique, reafirmando, assim, precisamente as tradições profanas com as quais um “comunismo” para o século XXI teria que romper.

Em sua nova biografia de Paul Mattick, um operário nascido na Alemanha que imigrou para os Estados Unidos em 1926 e mais tarde emergiu como um dos mais importantes críticos radicais de seu tempo, Gary Roth conta a história de uma corrente em grande parte esquecida no século XX que desde cedo fez uma ruptura com as caricaturas estatistas do comunismo, às quais os intelectuais de esquerda dos meios de comunicação ainda hoje se agarram[3]. Notando que esta história é sobre “épocas passadas em que uma classe operária radicalizada ainda constituía uma esperança para o futuro”, Roth se afasta da melancolia e da nostalgia, em vez de procurar uma justificação para sua obra na reconfiguração mais recente “da população mundial em uma vasta classe operária que se estende às classes médias nos países industrializados e aos agrupamentos de trabalhadores agrícolas subempregados em todos os outros lugares”. De fato, embora longe de constituir um ataque sustentado e consistente às condições existentes, algumas lutas recentes de partes desta classe, mais notavelmente os “square movements”[4] que se espalharam do norte da África através da Europa para Istambul, exibem certos traços de auto-organização horizontal (ou “sem liderança”), ação de massa direta contra as forças estatais e foco em ocupações – que apontam muito menos para a tradição bolchevique-leninista do que para o que Roth descreve, comumente referindo-se ao comunismo de conselhos, embora as semelhanças certamente não devam ser exageradas.

Nascido em 1904 em uma família da classe trabalhadora de Berlim, Mattick encontrou seu caminho para essa corrente durante os levantes no final da Primeira Guerra Mundial, quando ainda era um adolescente. Enquanto o papel infame do Partido Social-Democrata Alemã naquele período (incluindo a participação no assassinato de seus antigos membros Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht pela ala da direita Freikorps) é amplamente aceito como fato hoje, mesmo por historiadores liberais; o fascinante cenário do radicalismo operário daqueles anos permaneceu em grande parte um tema para os especialistas. Mesmo na Alemanha, muitos da esquerda não sabem quase nada sobre o KAPD, o Partido Comunista dos Operários (Communist Workers’ Party), que se separou do recém-fundado Partido Comunista (KPD – Communist Party), pois este abandonou sua posição inicial de abstinência da política eleitoral e do movimento sindical estabelecido. Acompanhando a onda de agitação proletária, o KAPD foi inicialmente capaz de levar com ele a maioria dos membros do KPD, deixando esta organização remanescente que, lenta mas seguramente, transformou-se em uma filial local dos bolcheviques vitoriosos na Rússia. Embora fascinados, no início, não só pelo Outubro Vermelho, mas pelo papel que os bolcheviques desempenharam nele, os comunistas de conselhos logo tomaram uma distância crítica da URSS, lendo os eventos ocorridos ali como o estabelecimento de uma nova forma de capitalismo de estado sob rígido controle partidário. Opondo a atividade autodirigida dos operários à ditadura partidária, eles entenderam os conselhos que surgiram na Rússia pela primeira vez em 1905 não apenas como uma forma de luta sob o capitalismo, mas simultaneamente como o embrião de uma nova sociedade sem classes sob o controle direto dos produtores, e fizeram da “abolição do sistema de salários” o seu grito de guerra.

Foi essa perspectiva básica, formada no calor das lutas que às vezes se transformaram em guerra civil, que informaria as atividades de Mattick e dos seus escritos mais sofisticados até o fim de sua vida. Seguindo Mattick através de greves de fábrica e bares, suas atividades como militante da organização juvenil do KAPD e sua vida pessoal, Roth fornece uma imagem colorida do ambiente único que engloba o KAPD e o mais sindicalista Unionen, que contou com várias centenas de milhares de membros no começo dos anos vinte, bem como círculos de arte de vanguarda e intelectuais em torno de revistas como Die Aktion.

Com o declínio das lutas e o rápido declínio do KAPD e do meio em torno dele, Mattick decidiu partir para os Estados Unidos em 1926. Foi lá, em Chicago, que o segundo maior episódio de atividade prática em sua vida se desdobrou. Enquanto ele continuou escrevendo para o que restou da imprensa radical na Alemanha e começou a ler teoria seriamente, adquirindo assim de forma autodidática as habilidades que mais tarde o fariam um autor de textos teóricos marcantes, Mattick estabeleceu contatos com os Trabalhadores Industriais do Mundo (Industrial Workers of the World – IWW), assim como com a comunidade socialista de imigrantes alemães. Mais uma vez, Roth traz à vida o ambiente de uma época passada, um meio de trabalhadores politizados, suas organizações marcadas por constantes brigas e divisões. A partir de 1932, Mattick, tendo perdido seu emprego na fábrica Western Electric, participou do movimento dos desempregados em Chicago. Mais tarde, ele descreveu esses anos como os melhores de sua vida, uma vez que ele foi capaz de viver dentro do movimento em tempo integral. A descrição de Roth deste movimento é interessante de se ler como um contraste à tranquilidade social nos Estados Unidos durante a crise mais recente. Embora bastante limitado em comparação com a agitação social na Europa após a Primeira Guerra Mundial, o movimento radical de desempregados no qual Mattick participou foi caracterizado por formas de ação direta, que combinavam autoajuda material e ativismo político:

Os desempregados começaram a usar a frente das lojas[5] abandonadas para seus próprios fins. As fechaduras eram quebradas e as lojas tornavam-se lugares de reunião, com cadeiras retiradas de cinemas abandonados. Mattick estimou que havia cerca de cinquenta ou sessenta desses locais em Chicago […]. Eram instaladas máquinas de mimeográfos[6] para a produção de folhetos e literatura do movimento. O papel era fornecido por quem ainda estava empregado, que roubava material do escritório dos seus locais de trabalho. […] As linhas de gás eram aproveitadas sem disparar os medidores […] Cozinhas improvisadas eram montadas nas frentes das lojas e refeições eram preparadas 24 horas por dia.

No entanto, rapidamente essas tendências mais radicais foram superadas pelas organizações de desempregados dos maiores partidos de esquerda, enquanto a expansão do bem-estar e do emprego público sob a administração Roosevelt levou a um eventual eclipse do movimento como um todo.

Two snapshots of Mattick (center of group, with pipe) and friends in Chicago during the 1930s, page from a photo album.
Dois retratos de Mattick (centro do grupo, com cachimbo) e de amigos em Chicago durante os anos 30. Página de um álbum de fotos.

Ao lado do grupo dos comunistas de conselhos em Chicago, Mattick começou a publicar a revista International Council Correspondence (ICC) em 1934, que mais tarde foi renomeada para Living Marxism e, finalmente, New Essays. Junto com Karl Korsch (um ex-membro do SPD e do KPD e o homem que supostamente ensinou a Bertolt Brecht seu marxismo), Mattick contribuiu com a maior parte dos textos. Concentrando-se em desenvolvimentos atuais como a Grande Depressão e o New Deal, a Guerra Civil Espanhola e a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa, bem como debatendo questões teóricas mais gerais, a ICC foi um excelente exemplo de crítica social independente, sem afiliações acadêmicas ou partidárias, produzida por alguns intelectuais precários e teóricos autodidatas como Mattick. Com numerosas traduções de textos por europeus radicais, também serviu de ponte entre a América e o velho continente numa era de rivalidade imperialista exacerbada[7].

Durante os mesmos anos, Mattick teve relações frouxas e bastante difíceis com o exilado Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. O Instituto, conhecido principalmente através de seus membros mais famosos Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse, encarregou-o de escrever uma análise extensa do desemprego e do movimento dos desempregados nos Estados Unidos, mas depois se esquivou de publicá-la, porque presumivelmente o texto de Mattick demonstrava claramente a orientação marxista, na qual o Instituto estava agora ansioso para minimizar a fim de não pôr em perigo o seu status nos EUA. Essa lúcida análise sobre o movimento dos desempregados foi publicada pela primeira vez em 1969 por uma pequena imprensa alemã e nunca foi traduzida para o inglês[8]. A relação de Mattick com o Instituto de Frankfurt durante os anos de guerra está entre os assuntos dos quais uma discussão mais aprofundada teria sido interessante, mas que a estrutura de uma biografia não permitiu desenvolver. Enquanto alguns membros do Instituto começaram a trabalhar para o Escritório de Serviços Estratégicos, fornecendo análises do fascismo nazista para o aparato estatal norte-americano e, assim, contribuindo para o seu esforço de guerra, Mattick pertencia a uma pequena minoria de radicais para quem a Segunda Guerra Mundial exigia essencialmente a mesma rejeição de todos os lados que a Primeira Guerra Mundial.

Em parte, essa postura parece lógica. Como Roth relata:

Sob a bandeira do antifascismo, o Partido Comunista abraçou Roosevelt e o New Deal, impulsionou as políticas econômicas e militares do país, e encontrou um novo público entre os intelectuais e profissionais para os quais a Rússia ofereceu um meio de apreciar as realizações do planejamento estatal. Quanto mais patriótico o partido se tornava, mais membros ele atraía.

Em parte, no entanto, essa postura parece ter sido baseada em noções problemáticas como a de uma tendência geral para o Estado autoritário, uma incompatibilidade geral do capitalismo e da democracia, levando à ideia de que o resultado da guerra não fazia diferença. “Se Hitler vencer, é verdade”, escreveu Mattick na edição de Inverno de 1941 da Living Marxism, “não haverá paz, nem socialismo, nem civilização, mas apenas a preparação para maiores batalhas que virão, para a destruição futura. Mas se as ‘democracias’ vencerem, a situação não será diferente.” Este nivelamento mais tarde se estendeu a uma equação do sistema nazista de campos de concentração com a política dos Aliados na Alemanha ocupada. Sob a impressão de relatos de amigos e familiares na Alemanha sobre uma dramática falta de comida (e referindo-se ao campo de concentração Bergen-Belsen), Mattick escreveu em uma carta em 1947: “Se os alemães reduziram uma minoria a uma dieta Belsen, os Aliados conseguiram colocar quase toda a população numa dieta abaixo de Belsen.”

Ao mesmo tempo, deve ser dito, a discussão da guerra e do fascismo em Living Marxism e New Essays foi altamente sofisticada; a revista forneceu um dos poucos lugares onde as mentes independentes poderiam tentar chegar a um acordo sobre uma situação profundamente preocupante e desconhecida. Korsch, por exemplo, observou que o slogan da Primeira Guerra Mundial, “Abaixo a guerra imperialista!”, tinha “perdido toda a sua antiga força revolucionária no momento presente, quando ele se encaixava tão perfeitamente nas tendências dos apaziguadores burgueses e isolacionistas”, enquanto o slogan “Derrota do próprio país!” havia se tornado “uma política prática daquela parte substancial da classe dominante em vários países europeus que preferiam a vitória do fascismo à perda de sua supremacia econômica e política.” Ao mesmo tempo, a nota um tanto triunfalista em que o artigo de Korsch terminou – “Não a Grã-Bretanha, não a ‘democracia’, mas a classe proletária é a campeã mundial na luta revolucionária da humanidade contra o flagelo do fascismo” – acabou por ser um pensamento ilusório. Está muito além do âmbito desta resenha o aprofundamento destas questões. Mas nas seções dedicadas a elas, Roth, que parece compartilhar com as perspectivas de Mattick sem exceção, a meu ver, não consegue desenvolver o problema em questão.

Em qualquer caso, a Segunda Guerra Mundial, ao contrário da anterior, não terminou com grandes convulsões sociais. No período pós-guerra, Mattick geralmente se absteve da atividades política, retirando-se temporariamente com sua esposa Ilse e seu filho Paul para uma vida tranquila no campo em Vermont. No entanto, foi durante esta segunda metade de sua vida que ele finalmente surgiu como um dos principais pensadores da emancipação social inspirada por Marx, precisamente rejeitando praticamente todas as variedades do marxismo acadêmico ou partidário da época. Mais importante ainda, Mattick retomou a teoria da crise, uma vertente no pensamento de Marx altamente fora de moda durante os chamados anos dourados após a Segunda Guerra Mundial, quando até mesmo a maioria dos marxistas acreditava que a gestão estatal da economia tinha finalmente conseguido a criação de uma eterna “sociedade afluente”, neutralizando a tendência do capitalismo para a crise. A principal obra de Mattick, Marx e Keynes, publicada em 1969, dissipou tais noções alguns anos antes de sua insustentabilidade tornar-se flagrantemente óbvia e, definitivamente, garantiu-lhe um público leitor mais amplo. Tendo narrado (às vezes em detalhes um pouco cansativos) as dificuldades dos Mattick’s para publicar seus textos, Roth descreve seu sucesso tardio, mais notavelmente na Europa Ocidental, onde algumas partes da Nova Esquerda, que não tinham inclinação para descer os becos sem saída neo-bolcheviques ou maoístas, desenvolveram uma verdadeira Mattick-mania por alguns anos. Acontecimentos como o do Maio de 68 em Paris e as prolongadas lutas operárias autônomas na Itália proporcionaram um terreno fértil para uma redescoberta da tradição comunista de conselhos da qual Mattick foi um dos poucos expoentes vivos.

Ao seguir Mattick através deste “século perdido”, Roth fornece um rico relato de uma tradição radical que, após certo renascimento nos anos 60 e 70, caiu hoje novamente no esquecimento. A forma da biografia impede naturalmente um envolvimento detalhado e profundo com as questões políticas e teóricas em jogo. Roth afirma explicitamente que ele não quer enfatizar o trabalho teórico de Mattick porque vê “pouca razão para resumir o trabalho que é melhor lido no original” (e do qual partes importantes podem ser encontradas na internet hoje). Ainda assim, em alguns casos, os contornos e o significado contemporâneo dessa teoria poderiam ter sido deixados mais claros, enquanto certos detalhes biográficos parecem bastante dispensáveis. Para os leitores que se sentirão inspirados a aprofundar os escritos de Mattick e os de seus companheiros, os pontos fortes do livro de longe compensam esta deficiência.


[1] Esta expressão francesa pode ser traduzida literalmente como “mestres do pensamento”. Isto significa que Badiou e Žižek são dois filósofos que possuem muita influência nos meios intelectuais. [Nota do Crítica Desapiedada – CD]

[2] Outra expressão francesa utilizada por Felix Baum que pode ser traduzida literalmente como “crianças terríveis”. Baum quer dizer que os dois filósofos são inteligentes, mas suas posições políticas geram constrangimento e problemas. Ou seja, as posições políticas de Badiou e Žižek são “terríveis”, pois defendem o velho bolchevismo sob nova roupagem ideológica. [Nota do CD]

[3] Gary Roth, Marxism in a Lost Century. A Biography of Paul Mattick (Leiden and Boston: Brill, 2015).

[4] Em nota do tradutor ao artigo “A Narrativa Conspiratória” (Charles Reeve) foi dito o seguinte: “Movement of the Squares: Movimento anti-austeridade que englobou o movimento Occupy, em 2011. Ocorreu na Espanha com apoio do Movimento dos Indignados espanhol”. [Nota do CD]

[5] Eles utilizavam as vitrines ou mostruários envidraçados de um estabelecimento comercial, através do qual os produtos ficavam expostos à venda. [Nota do CD]

[6] O mimeógrafo foi um instrumento utilizado para fazer cópias de papel escrito em grande escala. Foi um dos primeiros sistemas de cópias em série utilizados. Cf.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mime%C3%B3grafo. [Nota do CD]

[7] A editora Greenwood Press republicou as três revistas na íntegra em 1970 em uma edição de seis volumes que hoje, infelizmente, está fora de catálogo; o próximo movimento Occupy nos Estados Unidos deve aproveitar a sede da Greenwood Press (130 Cremona Drive, Santa Barbara, CA 93117) e forçar a empresa a republicar esta edição para ser distribuída livremente aos ativistas que precisam urgentemente de teoria crítica. Alternativamente, se tal movimento não se materializar, alguém deveria disponibilizar esses excelentes textos na web. [Todos os textos da ICC já foram disponibilizados na web. Eles podem ser lidos no site Arquivos Pannekoek, na seção sobre a ICC: http://aaap.be/Pages/International-Council-Correspondence.html – Nota do CD]

[8] O artigo original em alemão (“Arbeitslosigkeit, Arbeitslosenfürsorge und Arbeitslosenbewegung in den Vereinigten Staaten”. Em tradução livre: “Desemprego, assistência social ao desemprego e o movimento dos desempregados nos Estados Unidos”) encontra-se disponível na internet: https://www.marxists.org/deutsch/archiv/mattick/1936/arbeitslosigkeit/index.htm.  O artigo foi publicado apenas em 1969, 33 anos depois de ter sido escrito. [Nota do CD]

O artigo foi traduzido por Brenda Santos, a partir da versão disponível em: https://brooklynrail.org/2015/12/field-notes/a-communist-life. Revisado por Felipe Andrade.

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