Violência e consciência de classe na luta revolucionária – L’Ouvrier Communiste

Original in Italian: Violenza e coscienza di classe nella lotta rivoluzionaria

Violência e consciência de classe na luta revolucionária. L’Ouvrier Communiste N° 12 – Outubro de 1930
Link: https://archivesautonomies.org/spip.php?article4721

Todos ou quase todos os ditos líderes do movimento proletário negaram a possibilidade do desenvolvimento autônomo da consciência operária ao limitá-la à consciência econômica, ao estimulante do estômago, à consciência trabalhista ou pensaram que essa consciência devia se desenvolver segundo diretrizes já traçadas por eles. Os sociais-democratas, os bolcheviques, praticamente todos esses políticos, que nunca decidiram definitivamente abandonar a classe não operária da qual se originaram ou que abandonaram o proletariado no ventre em que nasceram, separaram com um cuidado enciumado a ideologia do movimento proletário, levando a crer que essa ideologia era um produto exclusivo de seus cérebros. Mesmo os anarquistas, quando proclamaram a imortalidade da ideia anarquista, destacam sua ideologia do movimento proletário. Idealistas anarquistas, como aqueles dos “Studi Sociali”, sobrepõem essa sua ideologia sobre a massa, fazem dela uma mística particular de cérebros privilegiados, reveladora da palavra anarquista. E, nisso, não são nem um pouco diferentes do pensamento de Lênin que considerava a ideologia comunista como o produto fatal da elaboração intelectual de grandes pensadores provenientes da classe burguesa. Dessa forma, o problema da consciência proletária é resolvido de maneira dogmática, apriorista. Se a ideologia é alguma coisa que precede o movimento operário, se ela é uma antecipação intelectual, só resta ao próprio movimento operário se deixar impregnar por essa ideologia para o desenvolvimento de sua consciência revolucionária. Mas ainda: uma vez que o proletário não pode hoje, em regime capitalista, se instruir – e isso é sobretudo um pensamento de Rosa Luxemburgo que, mesmo que não tendo a qualidade de uma líder, tem a de uma heroína –, só lhe resta confiar nos comunistas que, uma vez feita a revolução, poderão criar essa consciência para ele.

É um fato incontestável que esse modo particular de considerar o problema da consciência proletária na revolução constitui um círculo vicioso. Se essa consciência é apenas um reflexo, em todos os casos, antes e depois da revolução, ela nunca será revolucionária, se o proletariado e, consequentemente, o novo agregado social, sofrerá sempre com uma ideologia da elite, uma dominação da elite intelectual, essa teoria tem então um aspecto nitidamente burguês na medida em que ela conduz ao ceticismo e ao desânimo, na medida em que afirma como impossibilidade o desenvolvimento real de energias cerebrais, espirituais, da massa. A massa não tem e não terá iniciativas intelectuais próprias, pois mesmo quando a revolução for feita, só lhe restará assimilar teorias já elaboradas e desenvolvidas.

E é ainda um fato incontestável que essa teoria esteja em plena contradição com a dialética materialista, isto é, com a maneira de considerar a história como um processo de conflitos entre forças agentes na base fundamental da força econômica. De fato, essa forma de ver e considerar o desenvolvimento da história não nos permite de forma alguma considerar a ideologia, isto é, o reflexo consciente da realidade, como algo que essa realidade ultrapassaria e que se manteria fora dela. O esoterismo, isto é, a forma difícil e misteriosa que a ideologia assume em todos os momentos, aparece, na verdade, como um estratagema particular para torná-la inacessível aos espíritos simples, aos cérebros não muito desenvolvidos. É característico notar que a imensa dificuldade que os teóricos de todas as escolas políticas, supostamente revolucionárias, atribuem à digestão ideológica, que esse ar de espantalho que adotam quando falam difícil é o que têm em comum com os filósofos burgueses como Hegel, Kant e Schopenhauer, os quais, como os sacerdotes egípcios, guardavam os segredos herméticos da ideologia burguesa. Muitos dizem: todos os operários não podem se tornar teóricos; consequentemente, os poucos que o podem continuam a fazer a lei – não importa se eles são comunistas ou anarquistas.

Evidentemente, o idealista que admite que o espírito, ou melhor dizendo, não seria uma energia material, uma função da matéria, como diria Engels, tem boas razões para afirmar uma coisa parecida. Mas nesse caso, se o espírito, se a atividade intelectual, não é um elemento em desenvolvimento, a coisa é subitamente concluída, pois, nessas bases, a revolução permanece um puro arbítrio das elites conscientes, uma perturbação de pensamento na aristocracia intelectual. Mas muitas outras considerações seriam feitas sobre o lado cômico da doutrina desses menestréis hegelianos inconscientes que, no século XX, dão profundos suspiros anacrônicos sob a varanda de uma velha dama romântica. E sua revolução resultaria em um estado tão piedoso que acabaria por dizer que não vale mais a pena fazê-la.

O que é estranho é que essa mentalidade burguesa se manifesta nos representantes da dialética marxista, naqueles que se excomungam e recomungam, ora de Moscou, ora de Constantinopla: melhor dizendo, é cômico.

Em geral, o homem do partido é assim, ele assume importante ares caricaturais que farão nossa posteridade proletária rir com gosto.

Karl Marx nunca pensou realmente que a consciência proletária devesse ser uma cópia idêntica a seu pensamento e, por outro lado, também não pensou ter oferecido ao proletariado uma nova concepção do mundo, isto é, uma nova filosofia, quando pensou que, pela crítica dos filósofos burgueses, o proletariado deveria mandar pastar todas as filosofias e que ele deveria substituí-las pela experiência, isto é, pelas ciências experimentais. Marx nos falou, na verdade, de um salto do mundo da escravidão para aquele da liberdade. Qual é esse mundo da escravidão senão o capitalismo no qual as forças econômicas dominam o processo de produção, a organização social e até mesmo sua superestrutura ideológica? Onde então os cérebros estão ligados ao jogo dominante das forças burguesas? E se isso é um fato, o único resultado é que, se as formas de ideologia proletária aparecem, se abrem um caminho, isso se deve precisamente à luta de classes que começa a se desenvolver. E essas formas ideológicas não estão nem um pouco acima das formas de luta, mas, mesmo que sejam dominadas por elas, apenas refletem sinteticamente, por assim dizer, o estado mental das massas e muitas vezes – uma pena que até mesmo se contradizendo às vezes, como dissera Lênin – fiquem para trás, e aliás, isso é natural, todas as formas de luta e do estado mental das massas. Como vemos, os depositários das urnas ideológicas não fazem nada além de seguir passo a passo a realidade e serem eles mesmos seus falsificadores.

Consequentemente, resta um fato adquirido, a saber, que a experiência, que é o fundamento das formas teóricas, é a base de todo o desenvolvimento consciente e que o proletário pode, então, realizar na experiência a sua consciência de classe. E não é um fato adquirido que o simples conforto econômico seja uma fonte de desenvolvimento consciente. Ao contrário, o fato de que hoje devemos constatar uma corrupção psicológica na aristocracia operária nos faz pensar que apenas a árdua experiência poderá levá-los ao caminho da unidade de classe e somente em parte. Em consequência, ninguém pode pensar que essa consciência operária seja um desenvolvimento contínuo e gradual sobre a base de uma democracia burguesa eterna. Que essa seja o processo de uma evolução pacífica ou o produto de um simples trabalho de propaganda. Ela é o produto de um conjunto de elementos: é indiscutível que seria falso afirmar que o cérebro dos operários não tenha dado passos adiante ao longo do último período histórico e, igualmente, que a longa fase de lutas econômicas não tenha dado resultados; uma grande parte dos operários tinha aprendido a começar a raciocinar com seus próprios cérebros, mesmo se de uma forma insuficiente. Naturalmente, esse desenvolvimento da mentalidade operária acabou por degenerar dado que, no período de prosperidade do capitalismo, ela acabou por considerar esse último como alguma coisa estável com o qual valia a pena viver, mesmo que só um pouco. Mas eis que uma nova época lhe sucede, eis que a prosperidade do capitalismo declina, e aqui estamos nós no limite de crises cada vez mais gigantescas, aqui estamos nós em questão, em pleno período econômico. E eis então que essa consciência operária obrigada a dar ainda um passo adiante pois o pensamento operário se encontra em conflito com problemas maiores. Na Itália, por exemplo, esse novo passo adiante da consciência operária conduz a classe operária à ocupação das fábricas. Dois elementos estavam em luta durante esse período da história do movimento operário italiano no espírito coletivo do proletário: a tradição social-democrata e o novo fator consciente revolucionário: a expropriação do capital. Infelizmente, o primeiro fator prevaleceu. De luta em luta, na guerra civil, o proletariado, como massa, cresceu cada vez mais sua força consciente: somente um elemento, o da esperança de uma evolução pacífica para o socialismo, voltou a prevalecer. Mas se esse fator pesou tanto na balança, um outro fato permanece claro: para que o proletariado superasse as hesitações, para que passasse a um nível superior de consciência, a violência era um elemento necessário. A luta de classe na Itália e na Europa Ocidental entrou em uma nova fase: esse fator que parecia diminuir cada vez mais aos olhos dos fanfarrões da política parlamentar aparece outra vez na história como um elemento decisivo. A burguesia, na fase mortal de sua crise definitiva, ataca aqui abertamente e instaura o regime de terror, como na Itália: lá, ela começa a lançar sua ofensiva reacionária, como na Áustria e na Alemanha. Em toda parte, ela afia suas armas, em toda parte por meio da arbitragem obrigatória e das políticas sociais, como na França, ela se prepara para desferir a ofensiva contra os salários, contra o nível de vida da classe operária.

As perspectivas da luta se tornam cada vez mais nítidas. Em toda parte, o proletariado se vê diante de manifestações policiais ou fascistas brutais. Na Itália, esse método parece ser o único para lutar contra o regime. A violência: a violência de alguns hoje, a violência de muito amanhã, a das massas. Homens saem e saltam subitamente do seio da classe operária e atacam. São os isolados, mas não como Bresci, Passannante[1] e outros precursores da epopeia revolucionária.

Se essas grandes figuras épicas do movimento proletário foram durante um tempo mais belas em seu isolamento, hoje, por trás dos Lucetti, dos Donati, dos Della Maggiora e outros, um murmúrio de aprovação se eleva, uma voz surda da consciência se desenvolve, uma maré de espíritos revoltados os segue de uma distância não muito grande. Esses homens que, para criar o novo espírito proletário, para colaborar com a formação do novo nível de consciência proletária, deram sua vida – trinta anos de prisão é também a morte – não devem ser simplesmente justificados, mas exaltados e seguidos. Serem violentos, baterem, incitarem novas lutas, novos conflitos, é um dever para os revolucionários. A velha historinha de covardes que temem provocar a reação com golpes não tem mais partidários hoje, a não ser entre os sicofantas políticos, entre os oportunistas concentracionistas e entre os mercenários bolcheviques que, pelos interesses da casta da neo-burguesia russa, deram o sinal de parada da guerra civil em 1924, entre os chorões devotos da vítima Matteotti que apodreceram o ar com sua covardia e os sujos difamadores de Lucetti[2] que ofereceram ao proletariado da Itália a desonra da farsa Bombacci[3]. E também entre os oportunistas da imigração na França e os redatores desse “torchon [pano]” mal limpo parisiense que é A Humanidade que encontram hoje no ato individual um método nocivo à revolução. Esse monte de covardes, essa covardia concentrada, para usar a expressão do valente velho Paolo Schicchi, que teme a luta aberta e o ataque da fronte, esse bando de mercenários imundo consegue hoje apenas difamar o heroísmo daqueles que eles nunca imitariam, mas sempre renegarão.

E é nesse processo complexo, no qual novas desilusões se preparam certamente para o proletariado, que a classe operária encontrará o meio de atacar de maneira consciente e de vencer de maneira consciente.

Consciência e violência são dois fatores que se completam, um e outro não podem se desenvolver de maneira separada. E, nas novas lutas, na nova fase de luta civil que se abre de novo na Itália, que nós desejamos na Alemanha, na Áustria e nos outros países capitalistas que a consciência operária atinja nível suficiente para vencer.

E isso mesmo sem suas elucubrações teóricas ou as velhas múmias da ortodoxia marxista.


[1] Bresci: atentado contra o rei Humberto I°, 1900; Passannante: atentado contra o mesmo rei, 1878. [n. t. f.]

[2] Fazia parte dos Arditi del popolo e foi responsável por um atentado contra Mussolini. [n. t. f.]

[3] Bombacci pertencia a minoria do PCI que era favorável à ação dos Arditi del popolo, contrariamente à linha do partido. Excluído do PCI em 1926, ele se reaproxima em seguida nitidamente dos fascistas. [n. t. f.]

Traduzido por Lucca Lobato. Revisado por Thiago Papageorgiou.

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