Ucrânia, Guerra e Auto-organização – Tristan Leoni

[Nota do Crítica Desapiedada]: Confiram todos os textos listados pelo Portal que debatem o conflito na Ucrânia na seguinte publicação: Dossiê: Guerra da Ucrânia (2022) – A Perspectiva Proletária – Crítica Desapiedada.

Adeus à Vida, Adeus ao Amor…
Ucrânia, Guerra e Auto-organização

A questão que nos confronta hoje é se a palavra de ordem de Liebknecht: “O inimigo está em casa!” é tão válida para a luta de classes hoje quanto era em 1914.
Assim indagou Otto Rühle em 1940.

A frase de Clausewitz sobre a “névoa da guerra” descreve apropriadamente o dilúvio — ou a barragem de artilharia — de informações midiáticas ao qual a guerra na Ucrânia nos submeteu desde 24 de fevereiro de 2022. Ambos os campos estão travando uma guerra de propaganda, agravada pelas redes sociais. Os ucranianos têm a vantagem: uma riqueza de fotos (tiradas por civis e repórteres) está disponível do seu lado, bem mais do que do lado russo (nenhum smartphone para os soldados, nenhum civil, poucos repórteres). Entre outros efeitos, isso resulta em uma abundância de veículos russos visivelmente destruídos. No entanto, o que é mostrado para os ocidentais (inclusive para nós) é apenas parte do quadro real e o uso de algoritmos significa que, além disso, maior peso é dado a informações que reforçam pontos de vista pré-existentes. Como o filósofo grego Diágoras, todos nós gostamos de identificar a explicação que se encaixa em nossas crenças, mas em tempos de guerra a sobrecarga de dados reprime o raciocínio. É difícil manter uma distância crítica e o raciocínio claro o suficiente para entender o que está acontecendo… e o que podemos fazer a respeito. Ainda mais se vivemos em um país beligerante ou cobeligerante.

O Bom, o Mau e o Feio

A Rússia invadiu a Ucrânia, e não o contrário. No entanto, a diferença entre “agressor” e “agredido” (democrata vs. ditador, mocinho vs. vilão…) não é suficiente para entender o quadro completo. Em 28 de julho de 1914, após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, o poderoso Império Austro-Húngaro (com mais de 50 milhões de pessoas) declarou guerra à pequena Sérvia (com apenas 5 milhões). Nos dias seguintes, quase todas as potências europeias entraram em guerra, e um dos argumentos da França e da Grã-Bretanha era a defesa dos fracos contra os fortes. “Ninguém pode honestamente acreditar que somos os agressores” disse René Viviani, primeiro-ministro da França, uma república eminentemente democrática contra a qual a Alemanha despótica e militarista acabara de declarar guerra.

No entanto, ao contrário de quase todos social-democratas da maioria dos países (além de alguns anarquistas como Piotr Kropotkin), que tomaram parte na política de “União Sagrada” ou “Burgfrieden” (trégua política entre os partidos) de seus respectivos países, o Partido Socialista da Sérvia rejeitou a defesa nacional e votou contra os créditos de guerra. Naquele ano, apenas um punhado de revolucionários resistiu à propaganda de guerra e à pressão política: na Rússia, os bolcheviques e parte dos mencheviques; na Alemanha, Karl Liebknecht e mais tarde Otto Rühle. Na Escócia, John McLean escreveu em setembro de 1914: “Até onde consigo ver, será impossível dizer se a Rússia ou a Alemanha são imediatamente responsáveis pela guerra”. Os internacionalistas, no entanto, eram exceção à regra.

Mais de um século depois, nenhum historiador sério e poucos políticos argumentariam que a Primeira Guerra Mundial foi causada por um único motivo, e a explicariam através dos mecanismos de todo um sistema de países inimigos e aliados. Quem inicia uma guerra ou o que desencadeia sua eclosão é apenas parte de uma situação mais complexa. Por exemplo, em setembro de 1939, a França e a Grã-Bretanha declararam guerra à Alemanha, que acabara de invadir a Polônia. Hitler era claramente o culpado… e seu aliado Stálin era cúmplice do crime graças ao pacto germano-soviético feito algumas semanas antes. Alguns meses depois, a França e a Grã-Bretanha planejaram um ataque militar à URSS, que, por sua vez, acabara de atacar a Finlândia. A operação Pike pretendia ser um grande bombardeio aos campos de petróleo em Baku, no entanto, a ofensiva alemã de maio de 1940 forçou os dois países a abandonarem o plano.

Quem atira primeiro não é a principal questão. Todo país em guerra pode, com razão, afirmar que está se defendendo, o invadido contra o invasor, é claro, mas também o invasor alega estar apenas agindo para impedir que um terceiro ocupe ou domine o invadido em seu próprio interesse. Foi o que a URSS fez na Hungria em 1956, França e Grã-Bretanha no Egito no mesmo ano, os EUA no Vietnã, a URSS no Afeganistão, etc. Os fracos existem somente porque os fortes os protegem contra algum outro poder forte, e todos se defendem para evitar serem atacados por um vizinho ou serem usados como base para um ataque.

Como em muitos outros conflitos anteriores, a guerra que agora está sendo disputada em território ucraniano, às custas de sua população, faz parte de um confronto entre grandes blocos. A natureza particular dos atores políticos (democráticos ou não) não é um determinante chave, assim como em muitos conflitos anteriores.

No Ocidente, alguns simpatizantes lamentam hoje o fato de que, em vez de dissolver a OTAN quando o Pacto de Varsóvia acabou após a dissolução da URSS em 1991, os EUA e seus aliados a expandiram gradualmente, de modo que ela inclui agora a maioria dos ex-satélites da URSS que estão ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia. Como os Estados Unidos se sentiriam se o México e o Canadá fizessem parte de uma aliança militar explicitamente dirigida contra os EUA? (Na verdade, os EUA estão bastante descontentes pelas Ilhas Salomão terem recentemente assinado um pacto de segurança com a China). Em 2022, a invasão russa da Ucrânia tem a vantagem de justificar retrospectivamente o alargamento da OTAN e logo sua extensão à Suécia e à Finlândia.

Não estamos à procura de culpados. Era natural que os EUA (e seus aliados ocidentais da OTAN) aproveitassem a oportunidade do fim da URSS para promover seus interesses e colocar limites ao poder russo. Assim como a URSS fez no passado. A Ucrânia possui grande valor estratégico para que um lado ou outro possa desistir tão facilmente, especialmente suas regiões ao leste e sul, devido a sua grande população e potencial força de trabalho, indústrias, agricultura, reservas comprovadas ou potenciais de petróleo e gás no Mar Negro, acesso e controle sobre esse mar, etc. “Parem a guerra. Não acredite na propaganda. Estão mentindo para você aqui”: foi preciso coragem para, em 14 de março de 2022, Marina Ovsyannikova denunciar publicamente a guerra que está sendo travada por seu próprio país. É improvável que o noticiário noturno ao vivo em um grande canal de TV francês ou britânico seja interrompido por um protesto contra a propaganda de guerra do Ocidente. Há mais pacifistas em Moscou do que em Paris ou Londres?

Kipling talvez nunca tenha escrito que “a verdade é a primeira vítima da guerra”, ainda assim… era de se esperar, e, por mais de um século, sabemos que “a imprensa diária fabrica mais mitos em um dia do que poderia antes ser feito em um século“, mas é sempre impressionante observar a rapidez com que a mídia de cada país reflete um consenso correspondente à política governamental. A aceitação geral da gestão estatal da crise da Covid-19 não impediu atos de resistência, em escala minoritária, mas repetidos com alguma ressonância pública. A guerra atual, por outro lado, não apenas gera submissão, mas também consentimento – pelo menos enquanto o conflito não se arrastar ao ponto de seus objetivos perderem credibilidade. Em 2022, dezenas de milhões de homens não são mais chamados às armas: centenas de milhões de espectadores se reúnem na frente de suas telas. Em Paris, assim como em Marselha, todos são contra a guerra…, mas desejam a vitória ucraniana e pedem que sejam fornecidas mais armas, ou mesmo que militares franceses sejam enviados para apoiar o exército ucraniano (o que equivaleria a declarar guerra contra a Rússia). As atuais manifestações “pacifistas” de amarelo e azul são bastante modestas e comportadas em comparação com os protestos antiguerra em 2003, quando, é importante lembrar, ninguém desejava que o Iraque ganhasse ou pedia que mísseis fossem enviados a Bagdá para derrubar aviões estadunidenses… é verdade que o suposto motivo era derrotar o terrorismo, acabar com o regime do Baath e transformar o Iraque em uma democracia. Como um enredo com viradas emocionantes [plot twists] demais.

Então por quê?

“- Essa é uma guerra antifascista.
– Isso é guerra. Com suas origens profundas, seus motivos e suas causas históricas. Nacionalismo, o Tratado de Versalhes, a competição entre poderes expansionistas
.”
(Louis Mercier-Vega)

Por que a Rússia embarcou em uma aventura militar com possíveis consequências catastróficas, inclusive para si mesma? Onde está o seu interesse?

Vamos abandonar as explicações psicológicas ou mesmo patológicas comumente usadas contra um oponente. Por mais senil ou mentalmente confuso que um líder político possa ser, ele em nenhum momento governa sozinho.

A história nos lembra que começar uma guerra pode parecer um ato de loucura, mas, na verdade, em um determinado momento, pode parecer ser a opção mais “razoável” para um Estado. A lógica e os interesses das classes dominantes diferem muito dos das pessoas comuns e dos proletários.

É provável que nem sequer saibamos quais eram os objetivos iniciais exatos da guerra russa.

Primeiro, a natureza e o escopo da operação pegaram quase todos os observadores e especialistas de surpresa. Se havia o risco iminente de uma invasão, se ela estava sendo preparada (todo Estado-Maior têm planos de contingência com múltiplas alternativas) e sendo precedida por grandes manobras na Bielorrússia, não é verdadeiramente certo dizer que houve uma decisão a respeito da operação, e ainda menos sobre a data de seu início: ela pode muito bem ter sido imposta aos governantes russos pela dinâmica complexa e eventualmente fatal do confronto entre a OTAN e a Rússia, especialmente desde 2014, notavelmente:

– A rivalidade entre os EUA e a Rússia no que diz respeito ao fornecimento de energia para a Europa;

– O aumento do envio de tropas da OTAN para países da região (Países Bálticos, Polônia e Romênia);

– O aumento do fornecimento de armas à Ucrânia em 2021, cuja crescente capacidade militar poderia permitir, em algum futuro próximo imprevisível, reconquistar o Donbass secessionista, ou pelo menos impedir com sucesso uma nova intervenção russa;

– A evolução e o fracasso das negociações sobre a situação da Ucrânia (neutralização? Desmilitarização? Adesão à OTAN?) e do Donbass (autonomia? Independência?), até as semanas anteriores à ofensiva;

– Enquanto os EUA denunciavam a ameaça iminente de uma invasão russa, Joe Biden declarou em 25 de janeiro: “Não temos intenção de colocar forças estadunidenses ou forças da OTAN na Ucrânia“, o que poderia ser visto no discurso diplomático como um não-comprometimento.

– A aparente fraqueza e divisão entre os países europeus, que parecem muito dependentes da Rússia para impor novas sanções à sua economia;

– Elementos que até agora escapam ao nosso alcance – especialistas mencionam uma possível mudança da política russa entre os dias 21 e 23 de fevereiro;

– Senso de urgência: “é agora ou nunca!”.

A invasão foi pensada pela primeira vez como uma hipótese, depois brandida como uma ameaça em um jogo de pôquer diplomático, provavelmente uma decisão foi tomada, e depois adiada, talvez mais de uma vez: a decisão final foi provavelmente tomada no último minuto, perdendo assim várias semanas, o que explica a ofensiva ter sido lançada em meio a condições climáticas terríveis devido à Rasputitsa1A Rasputitsa é uma estação do ano em que as viagens em estradas não pavimentadas ou através do país se tornam difíceis, devido às condições lamacentas da chuva ou do derretimento da neve [Nota do Crítica Desapiedada] lamacenta.

Desdobramento das operações militares

Nenhum plano de batalha sobrevive ao primeiro encontro com o inimigo.
(Moltke, marechal prussiano, 1800-1880)

Especialistas “bem informados” ficaram perplexos em um primeiro momento pelo fato da ofensiva terrestre não ter sido precedida por várias horas de bombardeios aéreos e ataques de mísseis balísticos e de cruzeiro contra quartéis ucranianos, aeródromos, sistemas antiaéreos e radares. Ao contrário, o exército dos EUA e seus auxiliares europeus raramente se aventuram em campo antes de bombardear posições e cidades inimigas por semanas, meses às vezes (Iraque, 1991; Sérvia, 1999; Iraque, 2003; Mossul, 2017, etc.) O que realmente diferencia esses exércitos são suas respectivas relações com a morte, ou seja, com a vida de seus soldados.

Os especialistas também ficaram surpresos com a ousadia do plano inicial – não muito diferente de uma jogada arriscada de dados em um jogo de guerra. Provavelmente o objetivo era forçar a Ucrânia a capitular em poucos dias após uma operação em grande escala com tropas transportadas por helicóptero [heliborne] contra um aeroporto nos subúrbios de Kiev, levando à intervenção de tanques, à captura da capital e à queda do governo. Na verdade, os paraquedistas conseguiram tomar o aeroporto, mas foram repelidos por uma contraofensiva e a operação falhou. Enquanto isso, em vários lugares, colunas de veículos blindados cruzaram a fronteira e penetraram no país, embora com pouca precaução ou proteção, sem apoio aéreo tático e, mais importante, sem apoio prévio da artilharia, o que foi uma surpresa: o exército russo geralmente segue a tradição soviética de “uso extensivo de artilharia” e “ataque aéreo com bomba de queda livre”, como explica o analista militar Michel Goya. Também não houve destruição de locais estratégicos, nenhuma interrupção das redes de comunicação ou da rede elétrica (na Sérvia, em 1999, a OTAN tinha como alvo pontes e usinas). O que quer que a mídia ocidental esteja dizendo, nas duas primeiras semanas a Rússia mostrou-se bastante “comedida”. Parte do motivo foi a vontade de impedir que a mídia mundial desse uma visão muito negativa da operação e também de preservar as infraestruturas e indústrias de bens pesados do país nas áreas que a Rússia queria incorporar. A principal causa, no entanto, era o desejo de não alienar os falantes de russo. Os invasores esperavam ser recebidos hospitaleiramente, tanto mais que o suposto objetivo da operação era libertar a Ucrânia do jugo nazista.

Essa estratégia falhou. A inteligência russa se equivocou completamente a respeito da situação. A população foi hostil e até improvisou uma resistência armada, inclusive às vezes jogando bombas incendiárias improvisadas. Além disso, os invasores foram recebidos por um exército ucraniano muito mais determinado do que o esperado. As tropas não poderiam se beneficiar de nenhum efeito surpresa: semanas de manobras na Bielorrússia, é claro, colocaram os ucranianos em alerta, e eles receberam informações detalhadas da operação que se aproximava pela inteligência dos EUA. Assim puderam se preparar para a luta espalhando soldados e materiais de modo a limitar o impacto dos primeiros bombardeios russos.

Em vez de avançar em campo aberto, as colunas russas de tanques e caminhões de abastecimento foram confrontadas por uma guerrilha feroz: elas eram os alvos principais, não tanto para civis armados, mas para pequenas unidades de soldados usando temíveis mísseis antitanque (o Javelin estadunidense ou o NLAW sueco), ou drones de combate (o Bayraktar turco). O avanço do exército também parece ter sido retardado pela falta de combustível, comida, talvez munições, ou seja, logística inadequada ou possivelmente má preparação. Isso resultou em um espírito de luta relativamente baixo, especialmente após semanas de manobras exaustivas.

Após uma quinzena, com o degelo avançando e as estradas se tornando lamacentas, as linhas de frente tendiam a se estabilizar. Os atacantes começaram então a mostrar muito menos moderação ao bombardear os subúrbios de cidades sitiadas onde a infantaria do exército ucraniano estava se posicionando. A Força Aérea Russa permaneceu bastante inativa: aparentemente ela possuía poucas munições de precisão, por isso teve que operar à vista, mas o tempo estava ruim e o céu nublado, o que forçou os aviões a voar ao alcance dos Manpads ucranianos (mísseis terra-ar portáteis) e vários aviões foram derrubados (até 23 de fevereiro de 2022, forças especiais dos EUA, britânicas e canadenses estavam no país, treinando soldados locais no uso dessas armas: elas saíram algumas horas antes da ofensiva russa, mas seus membros são conhecidas por sumir dos registros e adquirir uma nova nacionalidade por um tempo, nesse caso, ucraniana). O esforço militar ucraniano logo foi fortemente apoiado pela OTAN, que ajudou com equipamentos (fornecendo mais e mais armas e materiais), treinamento (no país e no exterior), gestão (os estadunidenses foram vistos supervisionando e verificando a inscrição de voluntários estrangeiros no exército ucraniano). A assistência da OTAN inclui também inteligência: satélites espiões ocidentais, é claro, mas também aviões eletrônicos ou drones voando através das fronteiras ucranianas e da costa russa, fornecendo a Kiev informações em tempo real vitais para o combate.

A mídia ocidental enfatizou o fato de que os russos fizeram questão de bombardear escolas, hospitais, maternidades, jardins de infância…, mas a verdade era que os invasores tiveram problemas para derrotar as forças ucranianas. É da natureza da guerra moderna se desenrolar em áreas urbanas, onde os civis vivem e trabalham. Quando o exército ucraniano toma uma área habitada de volta dos russos, usa os mesmos métodos que eles, com quase o mesmo equipamento (exceto pela força aérea), e aproximadamente a mesma doutrina.

Logo se tornou uma crença generalizada que os russos estavam falhando ou sendo contidos, mas isso levanta a seguinte questão: o que o Kremlin visava inicialmente? Há uma diferença entre objetivos políticos e militares: o último deve ser mais amplo do que o primeiro, a fim de obter o controle sobre territórios que servirão de moeda de troca quando chegar a hora das negociações. Tomar toda a Ucrânia provavelmente não é o objetivo russo: ocupar todo o país seria muito caro e muito complexo, ao passo que faria mais sentido manter a Ucrânia limitada às suas partes ocidentais (mesmo que apenas para receber milhões de refugiados e populações deslocadas que são hostis à Rússia). Anexar novas províncias (a fronteira ocidental do Dnieper, parte ou toda a costa do Mar Negro) é o mais provável – e é isso que o Kremlin quer mais ou menos abertamente. De qualquer forma, a menos que arrisque ser humilhada aos olhos do mundo e de sua própria população, a Rússia não pode parar antes de conquistar um mínimo de posições estratégicas. Como disse o general francês Vincent Desportes em 3 de março de 2022:

Putin está na exata postura de um apostador. Ele fez uma aposta e perdeu no início. Até onde ele continuará apostando para não sair com os bolsos vazios? É a isso que tudo se resume. E o Ocidente deve entender que Putin não pode sair com bolsos vazios, porque se ele tem a sensação de que corre esse risco, vai continuar apostando. Essa é a miragem da vitória que se apodera de todos os líderes que se envolvem em uma operação militar.”

No final de março, quando ficou claro que as tropas russas estavam atoladas, para evitar um fracasso dramático, elas se afastaram das áreas que haviam tomado em torno de Kiev e no norte do país, e se realocaram no leste do país. Agora, o objetivo oficial do Kremlin com a guerra mudou para completar a conquista do Donbass e garantir uma continuidade territorial entre essa região e a Crimeia, e possivelmente a Transnístria muito mais longe a oeste. Assim, os russos reviveram sua doutrina clássica e fizeram amplo uso da preparação por parte da artilharia e do bombardeio aéreo. No final de abril, eles seguiram em frente lenta e metodicamente. O confronto humano e material tornou-se impiedoso, e as forças se mantiveram aproximadamente equilibradas de cada lado. Moscou mobilizou números bastante pequenos, cerca de 200.000, em comparação com cerca de 150.000 a 200.000 ucranianos, mas se beneficia de uma certa supremacia aérea (limitada pelos mísseis terra-ar ucranianos) e mais artilharia (apesar das robustas fortificações ucranianas). Se não conseguir quebrar a resistência no Donbass, a Rússia terá que procurar outra opção para evitar ser desmoralizada… e uma reviravolta poderia acontecer com possíveis ofensivas ucranianas contra a Transnístria ou Crimeia. Como poucos países parecem estar comprometidos com a desescalada, o risco de um aumento até uma situação extrema agora se tornou bastante real, seja na guerra atual, ou em uma posterior na mesma região.

As pessoas se auto-organizam

Como vimos, a Rússia esperava uma recepção calorosa nas áreas de língua russa ao leste e ao norte, mas praticamente não a obteve. Nos primeiros dias, a mobilização da população ucraniana foi muito comentada, tanto pela mídia burguesa quanto pela radical. No entanto, parece que estamos testemunhando duas coisas diferentes.

Primeiro, houve a solidariedade material básica como reação ao desastre: ajudar e dar apoio aos refugiados que fugiram das zonas de combate (eles acabaram de chegar da cidade mais próxima e agora estão sentados à nossa porta, então vamos fazer algo), fornecer primeiros socorros a pessoas feridas, resgatar pessoas enterradas sob os escombros, etc. As pessoas organizam-se como podem, em coordenação com os serviços de segurança pública, as autoridades locais, uma ONG ou simplesmente entre vizinhos. Isso foi interpretado como o surgimento da auto-organização proletária que poderia levar à emancipação se fosse desenvolvida e se espalhasse. Tal visão nos parece um exagero: essas ações expressam gestos mínimos de ajuda mútua que são bem comuns entre seres humanos.

Em segundo lugar, há uma mobilização que podemos chamar marcial, relacionada à guerra, por ser seu objetivo lutar contra a ofensiva russa. A auto-organização ocorre novamente, especialmente onde os serviços públicos são deficientes ou estão sobrecarregados. Artistas criam uma oficina que fabrica bombas incendiárias. Funcionários de restaurante organizam uma cantina para fornecer pacotes de ração aos soldados. Uma fábrica passa a fazer obstáculos antitanque. Mulheres se reúnem para tecer redes de camuflagem. Aposentados enchem sacos de areia. Habitantes locais erguem uma barricada, etc.

O que espanta as pessoas não familiarizadas com a guerra (ou seja, pessoas como nós) é ver civis fazendo fila para vestir um uniforme e se juntar às Forças de Defesa Territoriais (TD), a parte do exército ucraniano composta de reservistas e voluntários. Dezenas de milhares de rifles de assalto foram entregues à população, e presos foram libertos em troca de participarem dos combates. No entanto, logo são as armas e os equipamentos que estão em falta, não os voluntários. No início, aqueles que se alistaram tinham que possuir a maioria de seus equipamentos pessoais ou pagar por isso em lojas militares (uniformes, correias, capacete, colete à prova de balas, etc.). Quanto aos outros, principalmente aqueles colocados em listas de espera, a menos que tivessem experiência militar, o governo pedia principalmente que voltassem ao trabalho – outra forma de fato essencial de resistência.

É fácil perceber que o valor tático de tais unidades é realmente muito limitado. O papel real das TD é aliviar soldados devidamente treinados das tarefas mais ingratas e demoradas: vigiar pontes e depósitos atrás das linhas, patrulhar as cidades, impor o toque de recolher e lutar contra saqueadores. Isso abre caminho para abusos e excessos. Os postos de controle e os controles de identidade se multiplicam sob a guarda do seu vizinho, seu lojista ou seu colega de trabalho. Os cidadãos ficam atentos, denunciam figuras suspeitas e caçam suspeitos (espiões, sabotadores, pró-russos?), que são presos e transferidos ninguém realmente sabe para onde para serem interrogados. Como os tribunais não funcionam mais, as TD geralmente recorrem à justiça sumária, particularmente em relação a ladrões e saqueadores (aqueles que não são baleados no local são amarrados a um poste na rua, suas calças puxadas até os tornozelos no frio congelante).

Mais significativas para nós são as iniciativas de civis para bloquear estradas e rotas de tráfego, parando as colunas de tanques através de ações não-violentas, como aconteceu antes no Irã (1979), Pequim (1989) e Eslovênia (1990). Ainda assim, mais uma vez, isso não expressa uma rejeição direta à guerra, um pacifismo um tanto ingênuo, mas sim um nacionalismo profundamente arraigado: as pessoas não são vistas balançando bandeiras de paz, apenas a bandeira ucraniana. A crise atual provavelmente nos permite testemunhar a conclusão da formação da nação ucraniana, o fim de um longo processo que começou com a independência em 1991: independente das línguas que falam, uma população de repente se torna consciente de sua especificidade passada e presente, cultural e talvez também religiosa (a Igreja Ortodoxa que dependia de Moscou agora está afirmando sua independência). Para além das diferenças de classe, uma realidade nacional está surgindo… embora em termos históricos essas características específicas possam ser descritas como superficiais e criadas a partir do nada para uma ocasião, como aconteceu quando a Iugoslávia se separou na década de 1990. Algumas pessoas acham isso bastante comovente, e o fato não parece incomodar um certo número de humanistas e social-democratas ocidentais, geralmente intensamente sensíveis a qualquer coisa que cheire a sentimentos nacionais. Um excelente exemplo foi dado pelo cineasta francês Mathieu Kassovitz ao dizer a um repórter que os ucranianos, que ele diz conhecer muito bem, são “ultranacionalistas no bom sentido: têm orgulho de seu país e querem absolutamente protegê-lo”. O mesmo vale para alguns ativistas franceses de extrema-esquerda que geralmente consideram a mera presença da bandeira de três cores [a bandeira francesa] em uma manifestação como um sinal de protofascismo. Na verdade, alguns anarco-sindicalistas ucranianos já estão promovendo um “nacionalismo criativo e libertador”.

Esse sentimento está logicamente em sintonia com o apoio dado pela população ao exército, um apoio ardente e de longa data, combinado com atitudes viris que parecem um pouco fora do lugar na Europa Ocidental, mas que “naturalmente” explicam a vontade de pegar em armas para defender o país. Ao mesmo tempo, “treinar, dar manutenção e armar a Ucrânia, além das exigências do FMI em relação aos seus empréstimos ao Estado [ucraniano], também são estruturalmente responsáveis pelo desmantelamento de hospitais, investimento deficitário em escolas, aposentadorias mais baixas e nenhum aumento salarial no setor público” (Carta da Ucrânia). Vale a pena repetir que defender o país é defender os interesses da própria burguesia contra uma burguesia rival.

No entanto, há um limite para o que a exaltação do solo, sangue e democracia pode alcançar. Desde os primeiros dias da invasão, o serviço militar obrigatório foi introduzido, o que tornou possível recrutar todos os homens de 18 a 60 anos, além da proibição deles deixarem o país: nem todo ucraniano parece estar interessado em estar no exército ou nas TD. Há fugitivos do alistamento e desertores, o que explica por que há controles de fronteira nos locais onde os refugiados estão deixando o país. Outros prudentemente se tornam parte da sua TD local, longe da frente, para evitar serem incorporados à força em uma unidade de combate. Infelizmente para eles, graças à OTAN, o exército agora está abastecido com dezenas de milhares de capacetes e coletes à prova de balas, e pode equipar mais recrutas (e membros da TD) e enviá-los para a tão temida frente oriental… resultando mecanicamente em um número crescente daqueles contrários à guerra, e até provavelmente nos primeiros protestos contra o serviço militar obrigatório, em Khust, no oeste do país.

No entanto, depois de algumas semanas de muita hesitação, o governo recuperou rapidamente o controle, principalmente, vamos ser honestos, devido ao apoio de seus cidadãos: eles não se organizaram contra o estado ou porque esse havia desaparecido, mas para evitar que se desintegrasse sob os golpes dos russos. Essa foi uma reação bastante “normal” em um país com um forte sentimento de unidade nacional, reforçado pela propaganda ad hoc. O que mais uma vez confirma que a auto-organização não é revolucionária em si mesma.

O que fazer… debaixo de um bombardeio?

Não vivemos a vida dos ucranianos, nem conhecemos a situação dos anarquistas ou comunistas que vivem na Ucrânia. Não sabemos o que deve ser feito lá, não podemos julgar sua atividade, porque, seja o que for que pensemos, não sabemos como reagiríamos em seu lugar. Tendo uma perspectiva histórica, pode parecer fácil avaliar uma situação porque sabemos como ela se desenrolou e terminou. Mas é verdadeiramente impossível saber que posição “internacionalista” teríamos tomado em agosto de 1914 ou em junho de 1940. Dito isso, nossos camaradas ucranianos deveriam ser imunes às críticas apenas porque são eles os envolvidos? O que eles fazem é, naturalmente, da sua própria conta; mas é a maneira como eles entendem e justificam sua atividade, seu discurso ecoado no exterior por outros grupos, que merece no mínimo uma discussão.

As reações dos ativistas radicais ucranianos parecem bastante diversas, às vezes mesmo contraditórias. Alguns camaradas antimilitaristas e pacifistas mantêm posições de “derrotismo revolucionário”, mas afirmá-las em seu país parece tão arriscado quanto na Rússia, enquanto outros se comprometem a ajudar refugiados e feridos.

Fora da Ucrânia, certamente foi uma surpresa ouvir que os anarquistas ucranianos haviam se alistado no exército ou nas TD. Parece que alguns grupos aproveitaram a oportunidade da distribuição de armas para organizar unidades de combate. Um panfleto menciona a criação de “dois esquadrões”, e cerca de vinte ativistas são fotografados usando roupas militares e segurando Kalashnikovs em meio a uma bandeira preta com um A cercado por um círculo: a legenda diz cautelosamente que essas unidades “provavelmente têm um certo grau de autonomia” dentro da TD, o que deve ser lido como um certo grau de subordinação. De fato, após um curto período caótico, o exército obviamente tentou controlar os grupos de civis armados, especialmente se expressassem de forma aberta uma ideologia política incompatível com o domínio do Estado. As unidades militares anarquistas ou antifascistas provavelmente não contam com mais do que algumas dúzias de combatentes locais (além de talvez um número semelhante de pessoas do Ocidente) em zonas de guerra onde dois exércitos gigantes se enfrentam, feitos de centenas de milhares de homens. (“Homens” soa como um sinônimo antiquado para “soldados”, mas ambos os exércitos mostram pouca preocupação com as recentes evoluções ocidentais em relação à questão de gênero. Com possíveis raras exceções nas TD, os soldados são do sexo masculino, enquanto aqueles que fogem das zonas de combate são mulheres, crianças e idosos). Vamos ter em mente que o famoso (e infame) batalhão Azov – apenas um entre muitos ramos militares da extrema-direita ucraniana – é uma unidade TD permanente, abarcando vários milhares de combatentes, com seus próprios veículos blindados e tanques (a maioria deles destruídos durante o cerco de Mariupol).

Os primeiros vídeos de moradores locais emboscando e derrotando comboios russos criaram a ilusão de que, se o Estado ucraniano estivesse em colapso, o exército russo seria desafiado por uma vasta guerrilha popular composta por grupos autônomos, cada um agindo em sua própria área: grupos em sua maioria patrióticos, mas no meio dos quais os anarquistas poderiam finalmente conseguir desempenhar um papel influente…

Isso não leva em conta que uma resistência armada só pode ser bem-sucedida se for estruturada e disciplinada, assim como financiada e apoiada por outros Estados (a menos que o invasor ou ocupante seja assediado por deserções e motins – o que não é o caso do exército russo).

O que aconteceu foi que, depois de alguns dias lutando, com atos espetaculares de tecno-guerrilha por pequenas unidades de soldados profissionais (especificamente treinados por estadunidenses), os encontros rapidamente assumiram uma forma mais clássica: confronto entre grandes unidades fortemente armadas, no qual coordenação, movimento, duelos de artilharia e suprimentos de combustível e munição desempenham um papel vital. O que aconteceu com os “esquadrões” anarquistas em meio a tal turbilhão? É improvável que isso os tenha ajudado a obter mais autonomia.

Então, por que optar por se alistar? Em vários textos, anarquistas e radicais ucranianos explicam seu desejo de “participar e ter influência” no curso dos eventos e de estar prontos “apenas em caso…”, para evitarem serem cortados do resto da sociedade:

Se ficarmos longe dos conflitos entre Estados, ficaremos longe da política real. Este é um dos conflitos sociais mais importantes que ocorrem hoje em nossa região. Se nos isolamos desse conflito, nos isolamos do processo social atual. Então temos que fazer parte disso de um jeito ou de outro.” (Entretien…)

Esse texto e outros semelhantes buscam explicar a necessidade de defender a “sociedade”, não o Estado, é claro. Quando alguns anarquistas admitem que suspenderam a luta contra o Estado, eles dizem ser apenas por um tempo, até chegar a hora de retomar a luta após a guerra. Primeiro vamos vencer a guerra, depois voltaremos à ação revolucionária… já ouvimos isso antes. Parece que não foram tiradas lições da guerra civil russa ou espanhola. Algumas pessoas justificam a adesão ao esforço anti-russo referindo-se às guerras que precederam a Comuna de Paris ou as revoluções russas de 1905 e 1917, ou mesmo o suposto papel do conflito afegão no fim da URSS. Seja como for, para o desenrolar de uma guerra e, acima de tudo, seus efeitos posteriores causarem uma revolução, é necessário que uma situação revolucionária esteja amadurecendo. Não há nenhum determinismo aqui. Além disso, nada prova que participar ativamente do conflito, muito menos se juntar a um exército contra o outro, possa contribuir para esse amadurecimento.

Historicamente, a esmagadora maioria dos proletários, por ocasião de cada conflito bélico, alinhou-se com seu capital nacional e a frente imperialista da qual fazia parte (na era do imperialismo, todo o capital nacional é potencialmente imperialista, assim como qualquer guerra é, por definição, imperialista). É somente quando o conflito se arrasta – para além das expectativas dos próprios governos que o promoveram – a ponto de ter um forte impacto nas condições de vida e de trabalho, que eles se opõem mais ou menos vigorosamente a ele [..].” (Lato Cattivo)

Não precisamos salientar que a história da humanidade abunda em guerras que, em quase todos os casos, tiveram consequências catastróficas para os proletários.

Poderia o descontentamento generalizado ou a rebelião proletária fazer com que o exército e em seguida o regime russo desmoronasse? No início da invasão, o baixo moral das tropas levou alguns observadores a acreditar que os ventos do motim estavam soprando sobre o exército russo em campanha, o que não era o caso. A retirada de Kiev aconteceu de forma ordenada, e a ofensiva do Donbass em abril prova que as oscilações e erros das primeiras semanas foram remediados.

Protestos pacifistas certamente estão ocorrendo em várias cidades russas, mas grande parte da opinião pública (mesmo em alguns partidos da oposição) apoia a invasão. Como sabemos, a guerra com outros países é geralmente uma boa maneira de unir os cidadãos ao redor do governo e distraí-los dos males sociais com uma chuva de propaganda (como aconteceu com a Guerra da Líbia em 2011). Nessa situação, as sanções econômicas empobrecem a população, mas também muitas vezes reforçam os sentimentos nacionais e, portanto, o regime (por exemplo, Cuba, Iraque, etc.). Mesmo assim, se a guerra se arrastar até o ponto de enfraquecer o governo e uma revolta popular estiver se formando, e se a repressão se revelar ineficaz, a classe dominante tentaria desviar o descontentamento para uma alternativa política: ou uma política mais extrema (os falcões do Kremlin lamentam a falta de assertividade no funcionamento da guerra), ou um regime mais democrático (embora sem ir tão longe quanto substituir Putin por Alexei Navalny, o favorito do Ocidente).

Uma revolta popular na Ucrânia parece ainda mais improvável. Como explicado anteriormente, os cidadãos estão se auto-organizando com base em um sentimento nacional. Isso está consolidando o Estado, assim como o governo é mais legítimo graças à sua gestão da crise. Um grande impulso popular que fortalece um sentimento de pertença nacional é, por natureza, interclassista e contrarrevolucionário.

É difícil prever o quanto a guerra promoverá uma Ucrânia mais democrática (ou seja, mais espaço para o Parlamento e as instituições locais). Até agora, o que vimos foi uma verdadeira militarização da sociedade, com censura da mídia, proibição da oposição de esquerda e uma caçada aos fugitivos do alistamento. As forças nacionalistas e reacionárias estão de vento em popa – o que não é uma novidade na Ucrânia. Se Anatole France ainda estivesse aqui, ele poderia resumir bem a situação, como fez exatamente um século atrás:

Você acha que está morrendo por seu país; você está morrendo pelos industriais.” (Ele também escreveu: “Um povo que vive sob a ameaça perpétua de guerra e invasão é muito fácil de ser governado.”)

Sabendo que o papel desempenhado por anarquistas e radicais no conflito não é grande, o leitor pode se perguntar porque dedicamos tantas linhas a essa questão.

Primeiro, a importância de um assunto não está no número de pessoas envolvidas.

Em segundo lugar, muitos meios de comunicação, incluindo os meios burgueses tradicionais e, claro, as redes sociais, mencionam esses compromissos. Aqueles ativistas radicais agindo em apoio ao exército ucraniano dão muito destaque ao seu envolvimento, e sua mensagem aparentemente ressoa na França e em outros países. Em um futuro próximo, é possível que a figura do lutador anarquista na Ucrânia se torne uma referência para o radicalismo político, ombro a ombro com o soldado curdo de Rojava. Nem precisa ser dito, outra fonte deplorável de confusão.

O que fazer… fora da Ucrânia?

Acima de tudo, não se deixe levar pelo aspecto imediato dos eventos, pela propaganda, pela facilidade da simplificação. Há momentos em que não temos controle sobre o curso das coisas. É melhor sabê-lo e não esconder nosso desamparo com gesticulações ou, pior, embarcar em um barco que não é o nosso.” (Louis Mercier-Vega)

Arriscando soar negativo, vamos admitir que há pouco que pode ser feito concretamente. A posição mais clássica, a mais em sintonia com os princípios já calejados do derrotismo revolucionário, pelo menos para aqueles que pensam que os proletários não têm país, seria lutar aqui contra a nossa própria burguesia. Isso faria sentido em países cobeligerantes, como França, Alemanha, Grã-Bretanha ou os EUA. Tal posição internacionalista revolucionária está agora sendo mantida por uma variedade de anarquistas, ultra-esquerdistas, comunistas libertários ou mesmo alguns trotskistas, mas não é de forma alguma seguro que seja compartilhada pela maioria dos ativistas ou pessoas envolvidas em “lutas sociais”. Estamos bem conscientes do estado atual da luta de classes na França (e em outros lugares), e de como ele gera um sentimento de impotência, desespero e desorientação. Na verdade, parece que quanto mais sombria é a situação, mais premente se torna a necessidade de agir: as pessoas querem ser eficazes, “impactar” o mundo real… enquanto talvez o movimento revolucionário na verdade nunca tenha tido tão pouco impacto sobre os eventos. Isso explica o apelo das lutas distantes e a pressão para tomar partido, o que implica em compromissos e resulta ou em uma má consciência, ou na obrigação moral de ajudar “aqueles que fazem alguma coisa”, seja lá qual for.

(Nas últimas eleições presidenciais francesas, quando alguns radicais pediram votos para um candidato de esquerda, alguém reagiu com um comentário mordaz no Twitter que poderia ser aplicado a alguns realinhamentos políticos sobre a questão da Ucrânia: “Esses caras acham que seu apelo por votos é uma quebra com sua militância habitual, enquanto é na verdade a sua mera culminação.” Ácido, de fato.)

Então, o que fazer? Pedir que a OTAN forneça armas, como alguns libertários fizeram no caso de Rojava, não faz muito sentido: armas estão sendo entregues em abundância e bilhões de dólares estão sendo creditados. Da mesma forma, pedir que soldados franceses sejam enviados para o campo de batalha, como alguns humanistas queriam, assim como impor uma zona de exclusão aérea, equivaleria a declarar guerra contra a Rússia.

A crença no Bem lutando contra o Mal (de uma forma ainda mais crua do que nos romances de J. R. R. Tolkien) resulta logicamente na necessidade de ter um forte exército do bem, capaz de defender a democracia e “nossos valores”, o que no mundo real significa a OTAN. Isso anda lado a lado com pedir por orçamentos de defesa maiores e um poderoso e inovador complexo militar-industrial que possa superar seus rivais russos e chineses. Quem quer o fim também deve querer os meios.

(Falando de valores, em comparação com a Rússia homofóbica racista e sexista, a OTAN pode facilmente passar como aliada LGBTQIAP+. Que os aliados falem por si mesmos: “A OTAN está comprometida com a diversidade. A política de organização proíbe estritamente a discriminação com base na orientação sexual, bem como gênero, raça ou origem étnica, religião, nacionalidade, deficiência ou idade. A OTAN também foi líder mundial no reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A organização garantiu benefícios conjugais iguais a casais do mesmo sexo em julho de 2002, numa época em que apenas um país do mundo – a Holanda – reconhecia o casamento entre pessoas do mesmo sexo.” No que diz respeito aos direitos das mulheres, no entanto, as refugiadas ucranianas na Polônia percebem que esse país recentemente reforçou o que já era uma proibição quase total do aborto).

A “união sagrada” de 1914 (rica em tons religiosos) foi centrada na pátria (ou na mãe pátria) e no orgulho nacional: o consenso de 2022 enfatiza a democracia e o bem comum. Em vez de nacionalistas (o nacionalismo é um nome ruim atualmente), é melhor apresentar os patriotas ucranianos como combatentes da liberdade. Como aconteceu na guerra do Kosovo em 1999, essa lógica permeou até mesmo o grupo mais radical de militantes (embora uma pequena minoria esteja do lado de Moscou com base em um antiamericanismo simplista).

Alguns grupos optaram por apoiar financeiramente os anarquistas e antifascistas que lutam nas fileiras do exército ucraniano: quando organizam shows e eventos de solidariedade, eles geralmente diminuem o aspecto militar da questão e, provavelmente um pouco envergonhados, manipulam as palavras para torná-las adequadas à sua política atual. A mesma revista de ativistas que, em 2016, denunciou a criação na França de uma Guarda Nacional de reservistas, aprova a que existe agora na Ucrânia. Em vez de “exército” e “soldados”, nos falam de “resistência” e “voluntários armados”, ou “milícias”, evocando a Espanha de 1936 (embora, na Ucrânia de 2022, a guerra oponha dois concorrentes nacionalistas). Apesar de sua forte presença no exército de Kiev, a importância da extrema-direita é minimizada. Na França, por exemplo, os políticos de extrema-direita Marine Le Pen e Eric Zemmour são comumente acusados de serem fascistas, enquanto o batalhão Azov se beneficia de mais clemência, apesar de ter uma ideologia muito mais extremista… que seus líderes dizem pertencer somente ao passado. Na verdade, existem poucos países no mundo onde uma organização de extrema-direita tem suas próprias unidades militares legítimas no interior do exército nacional.

No Ocidente, textos ucranianos estão sendo traduzidos e disseminados, muitas vezes com um grau de desconforto ou tolerância, da mesma forma condescendente que os dos curdos sírios – exceto que desta vez não há ilusão alguma sobre a mudança social que está acontecendo agora na Ucrânia.

Aqui novamente, nosso ponto de vista pode ser distorcido pelo fato óbvio de que as pessoas escolheram pegar em armas e arriscar suas vidas, enquanto “militantes de teclado” apenas analisam o que elas estão fazendo. Além disso, aqueles que defendem a emancipação social não estão imunes à sedução exercida pelas armas e uniformes, ou ao prestígio do cara que usou um rifle de assalto. Embora isso seja obviamente criticado quando se trata da extrema-direita, também pode ser encontrado entre os radicais, da Guerra Civil Espanhola à Nicarágua e Rojava… Apoiar os desertores do exército é uma atividade revolucionária clássica nos tempos de guerra: organizar redes para cruzar fronteiras, obter identidades falsas, abrigar fugitivos… o que é mais possível nos países limítrofes ao conflito. Na França hoje em dia, as pessoas marcham com cartazes ou fazem eventos para apoiar “russos da resistência, fugitivos do alistamento e desertores”, mas nada parece ser feito em relação aos seus equivalentes ucranianos, embora haja cada vez mais deles. A situação pode mudar, mas, por enquanto, nos lembra que, durante a guerra na Síria, os curdos que evitaram o serviço militar obrigatório no YPG e buscavam refúgio nas cidades europeias foram convenientemente ignorados pela opinião pública de extrema-esquerda (A França não tem mais recrutamento militar, apenas um exército profissional, mas há cerca de 2.000 desertores todos os anos que põe fim ao seu alistamento fugindo ou vivendo fora da lei. Alguns acabam indo parar nos tribunais. Ninguém se importa. Isso pode mudar no futuro). Mais uma vez, não queremos criticar como algumas pessoas reagem ao bombardeio de sua cidade ou país: apenas, se necessário for, a maneira como interpretam o que estão tentando fazer na Ucrânia e a maneira como seu discurso é interpretado fora da Ucrânia.

Há uma forte e bem conhecida tendência nos círculos ativistas de perceber “potenciais” em todos os lugares, especialmente em lugares exóticos e distantes, muitas vezes a ponto de distorcer a realidade. Mas, para além desse reflexo, os espectros que assombram a questão ucraniana, de modo mais fascinante e talvez mais aberto do que em outros “teatros de operação”, nada mais são do que o militarismo, nacionalismo e a união sagrada – todas mórbidas variações do interclassismo. Como a história tristemente prova, se as circunstâncias permitirem, mesmo os ativistas mais talentosos com uma doutrina radical profunda podem se deixar levar por essas ideologias.

Quanto a nós, não estamos sendo bombardeados, nenhuma luta está ocorrendo na rua e não corremos o risco de ser mortos a cada minuto. Portanto, não temos desculpa para termos um pensamento confuso e vagaroso. Podemos nos beneficiar de uma posição relativamente confortável para pensar e avaliar os eventos atuais. Na verdade, seria um erro não o fazer, porque essa situação pode não durar tanto quanto as pessoas acreditam.

Então a guerra voltou?

“A guerra voltou”: o que fica implícito é que isso só está acontecendo na Europa.

Mas em algum momento a guerra acabou? A diferença é que em 2022 ela atinge o centro da Europa em vez de sua periferia, como aconteceu na década de 1990 na ex-Iugoslávia, até a ofensiva da OTAN contra a Sérvia em 1999. É certo que hoje essas guerras beneficiaram a União Europeia (UE) e a OTAN, que integraram novos membros. Sarajevo pode estar mais perto de Paris do que Kiev, mas a Sérvia nunca desafiou a dominação dos EUA e da UE sobre a Europa, exatamente o que a Rússia está fazendo hoje. Ao contrário do destino da Bósnia três décadas atrás, o que está em jogo na Ucrânia é crucial porque esse país está no coração de uma Europa que é uma das principais potências industriais, comerciais e financeiras do mundo. É crucial como um lugar de conflito entre algumas das hegemonias do planeta, incluindo grandes potências nucleares, mobiliza vastos recursos mecânicos e humanos, com consequências econômicas que já são enormes. Se algo está de volta, é a guerra de alta intensidade. No momento em que escrevo, o resultado provável e “razoável” é que a Rússia complete sua conquista dos oblasts do Donbass, com o fim das hostilidades, a abertura de negociações e um acordo de paz que possa legitimar de um jeito ou de outro a ligação dessas áreas com a Federação Russa. Se tal ajuste de fronteiras pudesse ter sido negociado em 2021 sem recorrer à guerra, teria sido benéfico tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia. Um conflito que se arrasta seria prejudicial para todos, em primeiro lugar para a Rússia, que não tem interesse em ficar atolada na Ucrânia como já o esteve no Afeganistão. Todos… exceto o país que decidirá como a situação evolui: os EUA. Concederá ele à Rússia uma vitória limitada, deixando a guerra continuar por mais alguns meses, ou decidirá lutar até o último ucraniano?

Enquanto isso, os suprimentos de armas para Kiev, que eram consideráveis antes da invasão, se transformaram agora em milhões de toneladas de aço e bilhões de dólares. E há mais a caminho. Uma tendência que já era forte há vários anos agora está se ampliando. Os orçamentos militares estão crescendo nos países da UE e da OTAN, que estão competindo para fazer pedidos de tanques, aviões de guerra, etc., para a indústria militar estadunidense. Na guerra atual, até agora os EUA são o verdadeiro vencedor. Enquanto o setor de armas do velho continente é superado pelos concorrentes dos EUA, os planos para a defesa europeia estão sendo finalmente arquivados em favor de uma OTAN reanimada. Muitos países estão agora abertamente optando por se curvar a Washington. Essa submissão deliberada (e muito cara) só poderia ser interrompida pelo surgimento de uma nova potência militar na Europa – o que é altamente improvável, pois um dos papéis da OTAN é precisamente evitar que isso aconteça. Como seu primeiro Secretário-Geral, Lord Ismay, explicou uma vez, a OTAN foi criada para “manter a União Soviética fora, os estadunidenses dentro, e os alemães curvados.” Um dos efeitos imprevistos da guerra ucraniana, no entanto, é a remilitarização da Alemanha, que acaba de anunciar um orçamento militar suplementar de 100 bilhões de euros para 2022 (adicionado às despesas de defesa de cerca de 50 bilhões, em comparação com 40 bilhões na França). No momento, isso será gasto em armas “feitas nos EUA”. Ainda assim, podemos esperar algumas surpresas.

Os governos ocidentais podem ser tentados a ajudar a Rússia a se desgastar na Ucrânia, mas isso pode levar os países marginalmente envolvidos a uma escalada incontrolável, com o risco de o conflito se espalhar a ponto de forçar a OTAN – portanto os EUA – a uma intervenção direta. Isso poderia acontecer no caso de um bloqueio russo do estreito de Suwalki (o corredor que separa Kaliningrado da Bielorrússia), ou se uma Rússia duramente pressionada invadisse os Estados Bálticos. Isso não levaria necessariamente à guerra nuclear, mas os EUA poderiam ficar atolados na Europa, uma situação desaconselhável no caso de uma Terceira Guerra Mundial ocorrer no Pacífico: enormes remessas de armas para a Ucrânia são prejudiciais para os estoques reservados para Taiwan, e os 7.000 mísseis antitanque Javelin enviados para a Ucrânia representam um terço de todo o estoque estadunidense. A questão é quão longe – e possivelmente muito longe – um Estado pode ir. Além das baixas no campo (que nunca incomodam muito a classe capitalista), o principal dano colateral no caso é que a Rússia está rompendo com a Europa e se movendo em direção à Ásia, principalmente à China. Isso é um problema? A ilusão de um entendimento e possivelmente uma aliança entre a União Europeia e a Federação Russa chegou ao fim e, com ela, o sonho de uma Rússia mais democrática. Blocos estão aparecendo e se cristalizando. Apesar de seu rastro de horrores, a guerra ucraniana pode não ser mais que uma escaramuça anunciando conflitos muito maiores a curto ou médio prazo. Enquanto isso, aqueles que pagam a conta, como de costume, são os proletários: agravamento da crise, competição mundial feroz, aumento da exploração, inflação, aumento dos orçamentos militares, portanto, mais impostos e menos serviços sociais (saúde, educação), etc. Rebeliões locais haverá, particularmente na França, mas nada que pareça agora capaz de destruir a ordem capitalista ou pôr fim às tensões entre os Estados. No caso de a França ou seu exército se envolverem mais diretamente na guerra de alta intensidade (semelhante ao que a Ucrânia está passando), podemos supor que o governo e a mídia nos dirão que tudo se dá com o propósito de defender a justiça, a lei e a democracia, assim como em 1914! Então, se queremos permanecer coerentes com nós mesmos, o que devemos fazer?

Em 1940, quando o que agora é chamado de Segunda Guerra Mundial estava se desenrolando, Otto Rühle respondeu: “Não importa para que lado o proletariado se ofereça, ele estará entre os derrotados. Portanto, não deve ficar do lado das democracias, nem dos totalitários.

Tristan Leoni, 8 de maio De 2022.


Nota: Esta é uma tradução ligeiramente modificada de Adieu la vie, adieu l’amour… Ucrânia, guerre et auto-organização.

Também por Tristan Leoni: Manu militari? Radiographie critique de l’armée, Le Monde à l’envers, 2020 (em francês).

Referências

O título é emprestado de um verso (“Adieu la vie, adieu l’amour”) da Chanson de Craonne, uma famosa canção antimilitarista escrita nas trincheiras francesas durante a Primeira Guerra Mundial.
Otto Rühle, Qual Posição Tomar?, Living Marxism, outono de 1940.
A imprensa diária fabrica mais mitos… Carta de Marx para Kugelmann, 27 de julho de 1871.
Louis Mercier-Vega (1914-1977), sindicalista e anarquista Belga, lutou com a coluna Durruti. Citação de La Chevauchée anonyme, Éditions Noir, 1978 (Fr.).
Nacionalismo criativo e libertador“: citação de Perrine Poupin, ” L’irruption de la Russie en Ukraine Entretien avec un volontaire de la défense territoriale de Kiev », Mouvements, 29 de março de 2022 (Fr.).
Carta da Ucrânia (Fr.): tousdehors.net.
Sobre a autonomia anarquista (Fr.) : Entre deux feux. Recueil provisionoire de textes d’anarchistes d’Ukraine, de la Russie et de la Biélorussie à propos de la guerre en cours, 13 de março de 2022.
Il Lato Cattivo, Ukraine ‘ Du moins, si l’on veut être matérialiste (Fr.).
OTAN aliada aos LGBTQIAP+
Sobre “internacionalistas do terceiro campo” (“aqueles que se recusam a apoiar qualquer lado imperialista”) na França de 1940-1952

Traduzido por Marco Túlio Vieira, a partir da versão disponível em: https://ddt21.noblogs.org/?page_id=3460.

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