Nenhuma Guerra Senão a Guerra de Classes: um chamado à ação – Tendência Comunista Internacionalista

[Nota do Crítica Desapiedada]: A Tendência Comunista Internacionalista (ICT) [ver as suas publicações disponíveis em português: ICT (Internationalist Communist Tendency)] publicou recentemente algumas teses que resumem a sua posição sobre a guerra na ucrânia, e ao final do texto, a organização realiza um chamado à ação para aqueles que concordam com a sua análise e buscam realizar determinada intervenção política nesse acontecimento atual. O Crítica Desapiedada considera que o panfleto possui teses próximas da perspectiva proletária (a ideia de guerra de classes no lugar de guerra entre nações, por exemplo) e apesar de não concordar integralmente com todos os itens (a tese da “decadência”, por exemplo), nem com os fundamentos ideológicos da organização, ressaltamos que o texto merece avaliação e convidamos todos a consultarem também o dossiê que elaboramos a respeito do tema: Guerra da Ucrânia (2022) – A Perspectiva Proletária.
Boa leitura!


Nenhuma Guerra senão a Guerra de Classes

1. A invasão russa da Ucrânia não é um ato isolado. É o início de um novo período de competição imperialista que traz a ameaça de uma guerra generalizada de forma não vista desde 1945.

2. Nenhum país hoje está fora do sistema capitalista. A intensificação da rivalidade imperialista é um produto da crise econômica ainda não resolvida do capitalismo, que já tem décadas. Naquela época, o capitalismo foi obrigado a recorrer a muitos expedientes para administrar uma crise econômica provocada pela queda da taxa de lucro. O que isso trouxe para a classe trabalhadora mundial foi uma exploração mais intensa, maior precariedade dos empregos e um declínio contínuo na participação dos trabalhadores na riqueza que produzem. Não apenas esse sistema está levando à guerra, mas sua busca insaciável pelo lucro está levando à destruição do planeta.

3. A globalização, a financeirização e o chamado neoliberalismo, todas as respostas à queda da taxa de lucro, acabaram no dramático estouro da bolha especulativa global em 2008. Eles apenas detiveram a crise — não a resolveram. As contradições do sistema estão aumentando e nenhum Estado está imune a elas.

4. Uma das contradições mais gritantes é que o Ocidente transferiu investimentos para economias de baixos salários na década de 1980. A China foi a maior beneficiária, construindo sua economia através da exploração maciça da força de trabalho local com baixos salários para fornecer mercadorias baratas para aliviar a pressão sobre a renda decrescente dos trabalhadores ocidentais. Esse arranjo aconchegante para o capitalismo mundial começou a desmoronar assim que a ascensão econômica da China a permitiu começar a competir com os EUA em todo o planeta. O casamento de conveniência econômica atingiu seu pior ponto e se tornou mais transparente após o estouro da bolha especulativa em 2008, intensificando assim as contradições já existentes no sistema.

5. O estouro dessa bolha teria levado a uma crise capitalista global não vista desde 1929 se os Estados não tivessem intervindo para absorver as dívidas do sistema financeiro. Mas nem a flexibilização quantitativa [quantitative easing] nem o aumento da exploração para níveis desumanos resolveram a crise geral. O que o capitalismo exige é uma desvalorização maciça do capital que vai além da mera desvalorização dos ativos existentes e isso requer uma guerra generalizada. Esse impulso rumo a uma guerra generalizada vem ganhando força há algum tempo. Com cada vez menos opções abertas aos líderes mundiais, há cada vez menos espaço para comprometer os “interesses nacionais”. Quanto mais desesperados eles se tornam, maior a probabilidade de usarem armas de destruição em massa que ameaçam o futuro da humanidade (de modo ainda mais rápido do que a ameaça real representada pelas mudanças climáticas). De fato, a ameaça da guerra global está ligada à catástrofe ambiental que já está ocorrendo como resultado do esgotamento acelerado dos recursos naturais e da destruição do meio ambiente por um sistema cada vez mais cheio de crises.

6. A única força capaz de impedir essa catástrofe, e a guerra em geral, é a classe trabalhadora mundial, cuja força coletiva pode primeiro paralisar o esforço de guerra e depois derrubar a ordem capitalista. Trabalhadores assalariados em todo o mundo compartilham uma posição material comum como criadores da riqueza do mundo que acaba nas mãos de seus exploradores. Como tal, eles não têm nenhum país e nenhum interesse nacional para defender. Apenas eles estão em posição de criar uma nova sociedade sem classes na qual não há estados, onde a produção é cooperativa e projetada para atender às necessidades de todos e não aos lucros de alguns. Assim, as condições existem para uma comunidade mundial de produtores livremente associados, na qual as pessoas dão o que podem e tomam apenas o que precisam.

7. Para conseguir isso, a classe trabalhadora precisa se organizar, ou talvez, se reorganizar. Na luta diária contra cortes salariais, etc., os trabalhadores serão compelidos a formar comitês de greve para unir sua luta, eleitos e com mandatos revogáveis por todos os trabalhadores. Mas isso por si só não vai acabar com os ataques dos capitalistas. Lutas isoladas em um setor ou local de trabalho são facilmente encerradas pelos chefes e seus cúmplices sindicais. Todos os comitês de greve precisam se unir em um movimento de classe mais amplo que pode iniciar o processo de superação do estado existente.

8. Nesse processo, é inevitável que alguns trabalhadores reconheçam o beco sem saída da existência capitalista antes que outros. É imperativo que os primeiros se organizem politicamente de forma internacional, de modo a oferecer um caminho claro. Isso não acontecerá imediatamente, especialmente não após décadas de declínio nas lutas dos trabalhadores frente ao ataque capitalista. No entanto, a situação hoje na Ucrânia é um aviso do que os governos reservam para os trabalhadores em todos os lugares e precisamos responder, não apenas à exploração diária, mas aos planos políticos de “nossos” líderes.

9. Na atual situação de desastre humanitário, não temos ilusão de que um movimento da classe possa surgir em breve, mesmo que a história tenha feito agora uma nova e desesperada reviravolta. Precisamos construir algo juntos em oposição à exploração e à guerra. Mesmo que a atual crise na Ucrânia acabe em algum acordo mal costurado, isso só lançará as sementes para a próxima rodada de conflito imperialista. A invasão da Ucrânia já lançou a Rússia ainda mais nos braços da China e reuniu a OTAN e a UE em torno dos EUA e seus objetivos.

10. Capitalismo significa guerra e é o capitalismo que tem que ser parado. Propomos, portanto, a criação de comitês de “Nenhuma Guerra senão a Guerra de Classes” onde quer que existamos e convidamos a participar neles os indivíduos e grupos que se opõem a todos os nacionalismos e reconhecem que a única guerra que vale a pena lutar é a guerra de classes para acabar com o capitalismo e seus sangrentos conflitos imperialistas. Isso permitirá que as minorias revolucionárias, hoje dispersas, combinem suas forças e levem para a classe trabalhadora em geral a mensagem de nossa necessidade de lutar.

11. “Nenhuma Guerra senão a Guerra de Classes” é uma iniciativa internacional, mas não é a Internacional. Essa só surgirá quando a guerra de classes se transformar em um movimento capaz de derrubar a ordem capitalista global. No entanto, a iniciativa oferece uma bússola política para revolucionários de diferentes origens que rejeitam toda a política social-democrata, trotskista e stalinista de se aliar abertamente a um imperialismo ou outro, decidindo qual é o “mal menor” que deve ser apoiado, ou endossando o pacifismo, que rejeita a necessidade de transformar a guerra imperialista em uma guerra de classes, confundindo, desarmando e impedindo a classe trabalhadora de assumir sua própria luta.

12. Finalmente, precisamos enfatizar que este não é um apelo ao pacifismo, que é basicamente apenas um apelo para se retornar ao “normal”. O problema é o “normal” — o próprio sistema capitalista que gera as forças que levam à guerra. Ser contra a guerra sem pedir o fim do capitalismo é como esperar que o capital não produza lucros sem derrubar o sistema de exploração, quando esse último é a condição necessária para a existência do primeiro.

Se esses pontos forem um resumo amplo de onde você se situa, gostaríamos de ouvir você.

Camaradas da Tendência Comunista Internacionalista

Traduzido por Marco Túlio Vieira, segundo a versão disponível em: http://www.leftcom.org/en/articles/2022-04-06/no-war-but-the-class-war-a-call-for-action.

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