Desmistificando a Euromaidan: Revoltas e o Legado do Socialismo Real – Charles Reeve

[Nota do Crítica Desapiedada]: Face à invasão da Rússia na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, nada mais oportuno do que relembrar importantes eventos políticos na Ucrânia nos últimos anos. Em 2014 eclodiram enormes protestos da população ucraniana que levaram à destituição do governo Viktor Yanukovych – apoiado pela Rússia -, que, em seguida, foi substituído pelo governo de Petro Poroshenko, na época, alinhado com as potências imperialistas do lado Ocidental (sobretudo, os Estados Unidos). Naquele contexto, várias organizações de “extrema-esquerda” (anarquistas de várias correntes, etc.) apoiaram as protestos, juntaram-se à população, mobilizando e enfatizando a possibilidade do evento assumir um caráter “libertário”, uma transformação radical e total da sociedade. Contra aquela posição acrítica, Reeve alerta em seu texto que o núcleo dos protestos assentava-se em raízes nacionalistas, fascistas, racistas, contrariando qualquer possibilidade de uma revolta com caráter democrático-burguês, ou mesmo conduzida pela classe trabalhadora auto-organizada e com objetivos autogestionários (comunistas). Assim, comparando-se o evento com o que ocorre atualmente, alas do bloco progressista (a moderada e a extremista) se digladiam, de um lado apoiando o bloco imperialista da OTAN, por outro apoiando o bloco imperialista Russo, reforçando a ideologia nacionalista da classe burguesa, em uma disputa inter-imperialista que opõe-se radicalmente aos objetivos dos indivíduos e organizações realmente comprometidos com a emancipação humana. É por este e outros motivos que o artigo de Reeve nos traz contribuições e chama a atenção para a necessidade de senso crítico e compromisso com os interesses revolucionários do movimento operário, que, no caso atual, são mistificados pela guerra inter-imperialista e seus defensores ardorosos. Boa leitura!


Desmistificando a Euromaidan[1]: Revoltas e Legado do Socialismo Real

Os eventos na Ucrânia, a ocupação da Praça da Independência em Kiev e o massacre que levou à destituição de Yanukovych e sua gangue, não foram fáceis de acompanhar para quem procura entender o mundo em que somos forçados a viver! Especialmente considerando a falta de informações diretas e confiáveis, e o poder da propaganda pró-UE (União Europeia) e pró-democracia destilada pela mídia europeia. Também fomos confrontados com os excessos habituais daqueles que são rapidamente seduzidos por qualquer confronto de rua com a polícia. Entretanto, ver as barricadas e os confrontos violentos com os mercenários do regime como um sinal de radicalismo revela uma grave falta de pensamento crítico, assim como é errado atribuir um conteúdo democrático à revolta baseada na exigência de integração na UE.

O futuro de qualquer revolta social que permanece confinada ao campo da política é moldado pelos interesses das forças capitalistas e das relações inter-capitalistas. Como sabemos, a relação entre os interesses do capitalismo europeu – especialmente seu núcleo alemão – e os do capitalismo russo estão no centro da crise ucraniana. Mas um movimento social capaz de desequilibrar as relações políticas dentro de um Estado cria inevitavelmente situações imprevisíveis e pode pesar na lógica fria das relações inter-capitalistas. É por isso que a compreensão da natureza e dos projetos das forças políticas em ação dentro do movimento ucraniano são essenciais para que haja maior clareza.

Desde o início, duas forças políticas organizadas estiveram presentes na revolta de Maidan contra o regime Yanukovych e seu Partido das Regiões[2]. Ao lado dos partidos democráticos liberais pró-UE, outra força política gradualmente exerceu influência no curso dos acontecimentos. Trata-se da corrente ultra-nacionalista e racista, representada em particular pelo partido Svoboda, que tem uma verdadeira base de apoio e poder de mobilização em Kiev e na Ucrânia Ocidental. Por razões de oportunismo e interesse político, os democratas ocidentais e seus canalizadores optaram por minimizar, ou mesmo ignorar e passar em silêncio, sua intervenção, sua ideologia e seu projeto político.[3] Ora, este último não é idêntico ao das forças pró-UE, na medida em que esta corrente fanática nacionalista se opõe, pelo menos em teoria, tanto à dominação russa como à da Europa, vista como uma zona de valores decadentes e sujeita a “interesses judaicos internacionais”.[4]

A existência de pequenos grupos em Kiev com uma visão crítica do mundo e dos interesses capitalistas em jogo é um bem valioso para nos iluminar na nebulosidade da Euromaidan. Vários textos estão disponíveis na Rede. Por exemplo, esta entrevista com um camarada do Sindicato Autônomo dos Trabalhadores da Ucrânia, um anarcossindicalista, foi conduzida por uma rádio livre da Carolina do Norte (EUA). Outra entrevista e discussão podem ser lidas no site deste grupo em inglês. Finalmente, um texto menos interessante e mais ideológico da União Autônoma de Trabalhadores de Kiev está disponível em francês.

Estes textos não devem ser tomados como A verdade sobre a situação na Ucrânia. Dada a confusão que reina e os aspectos contraditórios e mutáveis da situação, as divergências de análise são legítimas e devem ser expressas. Mas é uma questão de ler estes textos respeitando a inteligência daqueles que se expressam e de extrair deles elementos para estender a reflexão, para compreender um movimento que não vai necessariamente na direção de nossos desejos e expectativas. Pois, como outros desenvolvimentos nas sociedades que emergiram do colapso do bloco estatal-capitalista, estas revoltas são impulsionadas e carregam tendências profundamente reacionárias contra as quais as correntes emancipatórias estão em minoria, senão em perigo.

Vamos agora rever brevemente alguns dos aspectos discutidos por esses camaradas ucranianos.

A composição social dos manifestantes na Euromaidan mudou ao longo dos meses. No início, a maioria dos manifestantes eram membros das classes médias pró-ocidentais, apoiadores dos partidos de oposição ao regime de Yanukovych. Então, com o desencadeamento da repressão policial e a chegada de elementos das classes mais populares, a composição da multidão na praça tornou-se mais diversificada. O equilíbrio de poder entre os partidos presentes também mudou e o papel dos partidos extremistas nacionalistas e racistas, Svoboda em particular, tornou-se mais importante. Segundo esta análise, as classes médias e os jovens estudantes de Kiev são a principal base de recrutamento para os quadros e ativistas destes partidos nacionalistas, Svoboda e Praviy Sektor – que também têm uma forte presença entre os trabalhadores da Ucrânia Ocidental. É provável que muitos jovens e desempregados, enfurecidos pela miséria e seduzidos pela histeria nacionalista, fossem facilmente recrutados para os grupos paramilitares e enviados para o abatedouro. Um pouco apática e menos militante, a grande massa de trabalhadores via esses grupos paramilitares dos partidos fascistas como uma “vanguarda” protegendo o povo contra uma classe dirigente corrupta. Em geral, esses camaradas anarcossindicalistas observam que a presença dominante desses partidos corresponde à atmosfera geral da Euromaidan, onde as ideias nacionalistas uniram em grande parte os ocupantes.

Outro aspecto que ilustra os limites do movimento é o fato de que, fora da Euromaidan e das ruas vizinhas, a vida seguia seu curso “normal” em Kiev. Naturalmente, em todos os lugares, nas empresas, na cidade, na Ucrânia ocidental em geral, os confrontos na Euromaidan estiveram no centro das conversas e preocupações. Entretanto, nenhum movimento de solidariedade coletiva, nenhuma greve, foi relatado. O apelo de uma greve política por parte de algumas organizações da esquerda liberal não teve eco, e mesmo a greve dos trabalhadores dos transportes da cidade, em janeiro, ocorreu sem nenhuma ligação concreta com a agitação na Praça. Uma tentativa de greve em algumas universidades foi interrompida por milícias fascistas.

De acordo com as informações fornecidas por esses camaradas, a ocupação da praça permaneceu dominada por aparatos partidários – desde partidos de oposição até partidos ultra-nacionalistas e racistas. Este último assumiu a maior parte das atividades práticas e a organização da ocupação. Devido à sua natureza militarista e machista, eles se estabeleceram desde o início como os “especialistas” em violência e assumiram a “autodefesa” da Euromaidan. Apesar de a ocupação ter durado mais de dois meses, as práticas de ação independente e de auto-organização foram quase inexistentes, os líderes e as hierarquias dominaram e decidiram. Não houve assembleias ou outras decisões coletivas, os debates políticos foram limitados a questões nacionalistas e políticas. Qualquer tentativa de abordar a questão social foi imediatamente atacada por líderes nacionalistas e neonazistas, que recorriam ao grito de “provocação”! A vida interna da praça era – reconhecidamente – variada, mas as organizações ultranacionalistas mantinham o controle das atividades. Os grupos paramilitares, os Sotnia, permaneceram sob a liderança de líderes nacionalistas e fascistas, alguns dos quais estavam ligados a setores da polícia. Estes são grupos só de homens, onde os valores machistas são particularmente fortes. Portanto, não é surpreendente que, logo após Yanukovych e seu clã serem depostos, esses grupos assumiram o controle do centro de Kiev e dos prédios oficiais, juntamente com a polícia de Kiev, que tomou partido das forças da oposição.

Pequenos grupos de radicais foram marginalizados, excluídos da organização da ocupação, da Praça (exceto os grupos de assistência médica, onde muitos radicais e mulheres puderam se envolver). Assim que tentaram expressar suas ideias ou levantar questões sociais, foram violentamente atacados, acusados de serem “provocadores” e expulsos da Euromaidan. Ousar ir contra o mito pró-UE dos partidos da oposição, lembrando-lhes que a Europa também é sinônimo de austeridade social, era o mesmo que ser chamado de apoiadores da Rússia…

Alguns radicais tentaram se reagrupar e formar um Sotnia independente. Mas as milícias Svoboda os atacaram imediatamente e os expulsaram da Euromaidan, acusando-os de ser um grupo “racialmente impuro”. De acordo com as informações fornecidas por esses camaradas, os poucos anarquistas e radicais que conseguiram se integrar na Sotnia se resignaram, por razões táticas ou por oportunismo, a aceitar os valores nacionalistas e racistas dos líderes! A confusão e a força do nacionalismo é tal que até mesmo a figura de Makhno é adulada pelos ultranacionalistas e racistas. Ele lutou contra os bolcheviques, por isso é apresentado como um verdadeiro nacionalista ucraniano…

Os três textos mencionados acima também abrem o debate sobre uma questão importante, a saber, as causas e os fundamentos da ascensão da ideologia nacionalista e do racismo nas sociedades do antigo bloco capitalista de Estado. É como se o vácuo ideológico deixado pelo colapso dos regimes totalitários comunistas tivesse sido substituído pela ascensão do nacionalismo, e a velha ideologia do “socialismo científico” pela do “nacionalismo científico”. A atual passividade e seguidismo dos trabalhadores em relação aos partidos populistas está ligada à cultura de subserviência que prevalecia sob o “socialismo realmente existente”. Para seus propósitos de propaganda, as autoridades russas estão em plena marcha, reduzindo todo o movimento Euromaidan a uma aquisição fascista. Ora, no leste do país, o Partido Comunista da Ucrânia desempenha o mesmo papel populista que o partido Svoboda no oeste. Ele organiza suas próprias milícias paramilitares e desenvolve um nacionalismo pró-russo feroz e belicoso. É fascismo marrom versus fascismo vermelho, e vice-versa.

Os bárbaros desenvolvimentos a que estamos assistindo são uma continuação do antigo sistema opressivo de exploração, que usava os nomes do socialismo, marxismo e comunismo como uma cobertura ideológica. Nos próximos anos, não estaremos fora desta liquidação.

Quando perguntado pelo jornalista da rádio livre norte-americana qual a forma concreta de solidariedade que se poderia ter com os anarcossindicalistas ucranianos, o camarada entrevistado respondeu: “o melhor que se pode fazer é o que se está fazendo: tentar desmistificar a situação atual. Porque entendemos que muitos anarquistas nos países ocidentais tendem a ser super otimistas sobre o que está acontecendo na Ucrânia”. A solidariedade internacional deve se recusar a ver uma situação complexa de forma simplista. Parece claro que o que estamos testemunhando aqui não é um movimento que está lançando as bases para a emancipação social, mas sim um movimento que é em sua maioria controlado por formações políticas autoritárias e impulsionado por ideologias mortificantes e reacionárias. Existem provavelmente, nas zonas cinzentas e nos raros espaços não assumidos pelos líderes nacionalistas e racistas, as sementes de outra maneira de ver o mundo, de outras formas de ação. Mas tudo na evolução da situação tende a provar que ainda estamos longe do caminho da emancipação social. Reconhecer isto é um ato de solidariedade com nossos camaradas que lutam para se fazer ouvir.

Fevereiro de 2014.


[1] Em ucraniano: Євромайдан, Yevromaidan, literalmente “Europraça”, ou “Esplanada da Europa”. Refere-se à Praça da Independência (Maidan Nezalejnosti), a principal praça da capital Kiev, onde os protestos da chamada “Primavera ucraniana” estiveram centrados (Nota do tradutor).

[2] “O Partido das Regiões (ucraniano: Партія регіонів; russo: Партия регионов) é um partido político russófono da Ucrânia, criado em 26 de outubro de 1997 antes das eleições parlamentares de 1998 com o nome de Partido da Renovação Regional da Ucrânia e sob a liderança de Volodymyr Rybak. O partido contém diferentes grupos políticos com ideologias diferentes. A base eleitoral e financeira do Partido das Regiões se situa no leste e sudeste da Ucrânia, onde goza de grande apoio popular. No Oblast de Donetsk, o partido afirma ter mais de 700.000 filiados. Em todo o país, teria um milhão de filiados. O partido é apoiado por pessoas com mais de 45 anos de idade. O atual líder do partido é o ex-primeiro ministro da Ucrânia Mykola Azarov.” Cf. Wikipedia. (Nota do Crítica Desapiedada).

[3] Uma exceção a ser destacada é o artigo de Emmanuel Dreyfus, “Na Ucrânia, os radicais do nacionalismo”, publicado no Le monde Diplomatique, de março de 2014 (Nota do autor).

[4] Sobre o assunto, devemos também mencionar este texto, que traz um tom diferente à questão do racismo, mas que confirma o retorno da religião e a predominância de ideias nacionalistas e autoritárias (Nota do autor).

Tradução: Erick Corrêa

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