Terrorismo em França e Guerra Mundial (2015) – Paul Mattick Jr.

[Nota do Crítica Desapiedada]: Um texto complementar que auxilia a entender o contexto do ataque terrorista em Paris, ano de 2015, pode ser visto em: Carta de Paris – O Terrorismo e o Estado policial socialista (Charles Reeve). O “Estado Policial Socialista” é uma referência ao governo de François Hollande, eleito à presidência em 2012 pelo Partido Socialista e que teve o término do seu mandato em 2017. Boa leitura!


Terrorismo em França e Guerra Mundial (2015)

Cresci em torno de adultos que sobreviveram à 2ª Guerra Mundial – deixando a Europa a tempo, escapando da ou recusando a conscrição nos Estados Unidos ou estando entre aqueles que tiveram a sorte de sobreviver a um período em um campo de concentração. Muitos destes esperavam uma nova guerra mundial na década de 1950, tendo em vista a ferocidade da rivalidade entre os EUA e a URSS, e estavam particularmente apreensivos com a iminência de um holocausto nuclear. Mais tarde, conheci pessoas que tinham trocado a Europa pela América do Sul para se protegerem da precipitação radioativa quando a guerra começasse; e, pela mesma razão, outras que pensaram em se mudar – ou realmente emigraram – para a Austrália.

Como se viu, o esperado conflito nuclear entre as grandes potências não aconteceu. Em vez disso, tivemos – desenvolvendo-se a partir das guerras anticoloniais de libertação nacional que se seguiram à 2ª Guerra Mundial – uma série de guerras por procuração assassinas na Ásia, África e América Central, onde conflitos locais foram provocados ou ampliados pelo envolvimento das grandes potências. O colapso da União Soviética, em 1989, levou a uma aparente diminuição da ameaça [do princípio] de destruição mútua assegurada pelas grandes potências, embora tanto a Rússia quanto os Estados Unidos continuassem a manter frotas de aviões, navios e mísseis equipados com armamento nuclear, enquanto o número de potências nucleares aumentava. A guerra continuou na periferia das áreas economicamente desenvolvidas, conforme as forças etnicamente orientadas que lutavam para reorganizar o controle dos Bálcãs, África Central e vários países asiáticos, enquanto o que equivalia a gangues do tamanho de um exército lutavam pelo controle de recursos naturais – diamantes e outros minerais, petróleo, pastagens – na África e nas rotas de drogas na América Central e do Sul.

Ao mesmo tempo, é claro, as nações “avançadas” não haviam desistido de seu interesse na guerra. Na última década da Guerra Fria, os EUA, além de seus persistentes e gigantescos gastos militares, investiram bilhões na criação de um exército de islâmicos a fim de expulsar os russos do Afeganistão. Os interesses dos jihadistas eram mais abrangentes do que os interesses americanos e envolviam a destruição dos governos da Arábia Saudita (apesar do apoio saudita à jihad) e do Egito, juntamente com Israel – todos estes aliados dos EUA. Com a ajuda da “força aérea dos pobres” – carros e caminhões bombas – os combatentes islâmicos expulsaram os americanos do Líbano e destruíram bases militares e embaixadas na Arábia Saudita e na África, assim como um navio de guerra e outras instalações militares. Em 11 de setembro de 2001, os americanos não podiam mais fingir que esta luta não os envolvia diretamente. Quando a administração Bush aproveitou a situação para demonstrar o poderio americano atacando o Iraque, o resultado foi um completo desastre: a remoção do regime de Saddam Hussein levou diretamente a uma renovada luta sectária entre os grupos xiitas e sunitas do Islã que, em combinação com as complexas rivalidades nacionais e étnicas da região, transformou o Oriente Médio em um inferno vivo para seus habitantes, levando milhões deles ao exílio.

Com as reviravoltas mais recentes desses eventos – o surgimento do Estado Islâmico, do ramo mesopotâmico da Al Qaeda, e, nas últimas semanas, o redirecionamento das [ações] terroristas do EI/ISIS para o exterior – por que não admitir que a 3º Guerra Mundial chegou? (Provavelmente não sou o primeiro a pensar isso – além do sempre presente Papa, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores do Iraque, al-Jaafari, chamou os ataques em Paris de uma nova etapa em uma guerra mundial em curso). Ela não começou, como as duas primeiras, com declarações formais das principais forças mundiais. Em vez disso, emergiu gradualmente, no contexto da rivalidade entre grandes potências e num sistema mundial que carece dos meios alternativos para a resolução de conflitos em torno de questões tão básicas como o controle de recursos. Ela é fomentada pela disponibilidade mundial de armas, desde a onipresente AK-47 até os sofisticados caminhões de mísseis que inundaram o mundo para atender às necessidades de várias guerras por procuração (e não podemos esquecer da considerável contribuição da indústria de armas para o PIB americano, russo, chinês, francês e israelense), além dos bilhões de carros e das toneladas de fertilizantes disponibilizados a fabricantes de bombas cada vez mais ambiciosos em todo o mundo. Ao contrário das primeiras guerras mundiais, os lados não estão claramente definidos: para exemplificar, na Síria, a Turquia (oficialmente aliada do Ocidente) está mais preocupada em evitar o surgimento de um Estado curdo do que em apoiar a guerra contra o Estado Islâmico, agora combatido com mais sucesso [exatamente] pelos curdos; os ricos sauditas financiam a jihad enquanto a força aérea saudita bombardeia os jihadistas na Síria (e os anti-jihadistas no Iémen); os EUA e o Irã encontram-se do mesmo lado em relação aos talibãs afegãos e ao Estado Islâmico, enquanto de resto são ferozes inimigos; a França e a Rússia, em conflito na Ucrânia, coordenam bombardeios na Síria. Mas é precisamente essa confusão de “lados” que constitui o novo globalismo da guerra, que já não pode ser localizada, sendo tão suscetível de eclodir em Nova Iorque, ou em Londres, quanto em Mali ou nas Filipinas.

Outro novo aspecto desta guerra mundial é a dificuldade de imaginar um fim para ela. Mesmo na Síria, considerada em si mesma, a fragmentação das forças contrárias ao governo e as relações incoerentes entre as forças externas envolvidas tornam improvável que o regime de Assad, ainda que este fosse mais forte do que é e mesmo contando com considerável auxílio estrangeiro, possa derrotá-las mais do que os russos puderam derrotar as forças conflitantes que se opunham a eles no Afeganistão[1]. E as débeis perspectivas de “solucionar” o “problema” se estendem para além da situação síria. Pode-se ter uma noção da indefinição apocalíptica do conflito mundial lendo a opinião de especialistas: a linha mais dura em um recente exemplo do pensamento estratégico sobre o que fazer em relação ao Estado Islâmico veio de Shabtai Shavit, ex-chefe da Mossad, que declarou na rádio israelita que “temos que deixar de lado as considerações sobre a lei, a moralidade e as comparações entre segurança e direitos individuais”. Em vez disso, temos que fazer “o que eles fizeram na 2ª Guerra Mundial a Dresden. Eles a apagaram do mapa”. Mas, como comentou um especialista em matéria de Oriente Médio no Brookings Institution, isso geraria apenas “uma onda de terrorismo que o mundo jamais viu”. Talvez este dilema pudesse ser resolvido com a invenção de uma versão alternativa e “construtiva” do Islã, capaz de afastar o domínio do jihadismo dos corações e mentes de um grande número de jovens muçulmanos. Para além da reforma religiosa, é necessário, tal como o The New York Times resumiu as opiniões de vários especialistas de think tanks, “uma maior responsabilização” dos governos do Oriente Médio, conjuntamente à “justiça imparcial, escolas melhores [e] mais oportunidades de emprego[2]”.

Um pedido muito exigente, pode-se dizer. (E já que tocamos nesse ponto, por que não proporcionar empregos e condições de vida decentes, juntamente com o fim da intimidação policial, para a vasta população muçulmana amontoada nas favelas que circundam as cidades francesas?) Ao menos tais opiniões passam pelo reconhecimento de que o atual jihadismo – que não é um reavivamento da tradição, mas um produto contemporâneo, amplamente inspirado nos escritos de Sayyid Qutb, o ativista da Irmandade Muçulmana executado por Nasser em 1966 – é uma resposta ao fracasso do crescimento capitalista no pós-guerra em se estender às áreas anteriormente colonizadas de África, Ásia Central, e Médio Oriente. É este fracasso, igualado ao fracasso do socialismo árabe e do nacionalismo secular na promoção de responsabilidade governamental, justiça imparcial, melhores escolas e boas perspectivas de emprego, que levou à rejeição, de caráter religioso, da modernização “ocidental” e facilitou o recrutamento de dezenas de milhares de muçulmanos em todo o mundo, prontos para matar e morrer no esforço para construir uma existência socialmente significativa dentro do nosso estagnado sistema social e econômico. A ideia de que uma versão “moderada” do Islã preparada por imãs receptivos ao Ocidente pudesse afastar a verdadeira reforma islâmica, o Islã para o nosso tempo, desenvolvida por Qutb e aprimorada por Bin Laden, al-Zarqawi e al-Baghdadi apenas comprova a falência da imaginação política e cultural oficial.

O fracasso da onda revolucionária que se seguiu à 1º Guerra Mundial deu mais uma chance ao capitalismo; a depressão e a nova guerra mundial a que conduziu abriram caminho para um novo período de prosperidade, a “Era de Ouro” do pós-guerra, que terminou em meados dos anos 70. O recuo da maré do crescimento econômico, que havia possibilitado o acúmulo de riquezas em poucas mãos e lugares enquanto deixava para a grande maioria da população mundial uma parcela decrescente da riqueza que ela produz, arruinou a esperança de progresso que outrora ajudara as pessoas a tolerar a vida sob o capitalismo. Com um futuro tão sombrio, não é de surpreender o surgimento de todo tipo de postura apocalíptica retrógrada, das várias formas de fundamentalismo cristão em cena nos Estados Unidos à ultra-ortodoxia judaica e ao Estado islâmico. O que estamos testemunhando não é um “choque de civilizações”, mas a autodestruição de uma civilização, aquela que outrora se autodenominara “modernidade”. Como observa Adam Schatz em um penetrante artigo:

Os ataques em Paris não refletem um choque de civilizações, mas sim o fato de que vivemos efetivamente em um só mundo, ainda que desigual, onde os flagelos em uma região inevitavelmente transbordam sobre outra, onde tudo se conecta, às vezes com consequências letais. Com toda sua atmosfera medieval, o califado ergue um espelho para o mundo que fabricamos, não apenas em Raqqa e Mosul, mas em Paris, Moscou e Washington[3].

O apocalipse que [nos] ameaça não é, portanto, aquele prometido pelos vários deuses invocados pelos cultos do mundo, mas aquele produzido pela incapacidade do capitalismo de administrar as forças que ele próprio desencadeou. A título de exemplo, os líderes mundiais parecem finalmente ter compreendido que as mudanças climáticas são um problema real, no entanto, e de modo geral, supõe-se que a próxima rodada de negociações sobre o clima em Paris [COP-21] realizará muito pouco das mudanças necessárias para que o agravamento da catástrofe em curso seja evitado. Os interesses econômicos (logo, políticos) que precisariam ser deixados de lado são simplesmente muito poderosos por serem elementares demais para a forma como o mundo funciona. Do mesmo modo, enquanto as limitações da economia capitalista tornam impossível a resolução dos problemas sociais que causam a miséria por detrás da jihad mundial, as nações líderes se veem estruturalmente inibidas de abordar a situação por quaisquer outros meios que não o militar. Os meios militares tornaram-se fundamentais para o próprio funcionamento da principal potência econômica: como Gabriel Kolko assinalou em seu valoroso livro, Century of War, após a 2ª Guerra Mundial o orçamento militar dos EUA “tornou-se um substituto muito bruto para obras públicas ou ações sociais e, por si só, possibilitou déficits governamentais […], sustentando assim o conjunto da economia […] A própria existência de preparativos militares carregava consigo uma predisposição intrínseca ao ativismo, com todos os riscos que isso implicava[4]“. Mas mesmo os Estados que não dependem tanto do keynesianismo militar quanto os EUA têm investimentos econômicos e políticos no militarismo. Enfim, o que mais eles devem fazer?

Como resultado, os principais Estados estão tentando se portar como “grandes potências” num momento em que já não existem grandes potências no sentido do século XIX; um momento em que as forças que estrangulam o sistema mundial excedem a capacidade de resistência até mesmo de seus mais resistentes elos. O resultado é a barbárie, que Rosa Luxemburgo alertou ser a alternativa ao socialismo. A 3ª Guerra Mundial pode muito bem revelar-se a mais terrível de todas se a população mundial não lhe der fim, rompendo, de uma vez por todas, com as condições que a estão produzindo.

Brooklyn Rail, Dezembro de 2015.


[1] Para uma análise informativa da situação síria considere o artigo Understanding Syria: From Pre-Civil War to Post-Assad, de William Polk’s, The Atlantic, 10/12/2013.

[2] Todas as citações em “Envisioning How the Global Powers Can Smash a Brutal Enemy”, de Tim Arango, New York Times, 18/11/2015.

[3] A. Schatz, “Magical Thinking About ISIS”, London Review of Books 37:23 (3/12/2015).

[4] G. Kolko, Century of War: Politics, Conflicts, and Society Since 1914 (New York: The New Press, 1994), 475.

Traduzido por R. d’Arêde. Revisado por Thiago Papageorgiou.

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