Maio-Junho de 1968: O que aconteceu – Charles Reeve

[Nota do Crítica Desapiedada]: Em complemento à leitura desse artigo, recomendamos a leitura do relato pessoal de Charles Reeve (Jorge Valadas) sobre a sua participação no Maio de 68 francês: Luta de Classes na Folies Bergères (Maio de 1968).

Introdução

Ainda há muito para discutir e refletir sobre a experiência combativa do Maio de 1968 francês. Como não poderia deixar de ser, há uma luta em torno do significado político dessa contestação radical do movimento estudantil e de determinados setores da classe trabalhadora francesa. Em que pese as mais diversas tentativas de desacreditar as principais caraterísticas revolucionárias dessa experiência, fato é que ainda existem aqueles que buscam rememorá-la e trazer à tona o que realmente estava em jogo naquele momento histórico e a maneira como cada bloco social (dominante, progressista e revolucionário) se comportou e agiu – tanto para barrar e neutralizar a efervescência radical, quanto para potencializar e contribuir com o seu aprofundamento e generalização. O texto de Charles Reeve, agora traduzido e publicado pelo Crítica Desapiedada, se soma àqueles textos elucidativos (muitos aqui publicados em nosso portal) e importantes para rememorar o que realmente aconteceu e está ao lado daquelas interpretações que expressam a perspectiva revolucionaria.

O mérito do texto de Reeve é evidenciar a dimensão da rebelião estudantil que contaminou a totalidade da sociedade francesa. Todas as forças políticas se mexeram e evidenciaram seu caráter de classe. O que antes era nebuloso torna-se claro. O fundamento e a essência dos blocos sociais se apresentaram de maneira cristalina, na real crueza de seus objetivos de classe. A burguesia, no comando do bloco dominante, apavorada, se municiou com a brutal repressão que resultou em feridos, prisões e mortes. A burocracia, no comando do bloco progressista, em especial a burocracia civil representadas pelo Partido Comunista e a CGT, tentaram de tudo para frear e controlar o movimento desenfreado dos estudantes e trabalhadores; a intenção, nesse caso, era canalizar os objetivos do movimento para seus objetivos burocráticos; o texto de Reeve descreve bem esse processo. Já o bloco revolucionário, encabeçado, nesse momento, pela tendência revolucionária do movimento estudantil, colocava em xeque não apenas questões específicas de sua condição estudantil, mas a própria sociedade capitalista. Enquanto estudantes, ou seja, enquanto um grupo situacional, não podiam e nem tinham os requisitos necessários para alterar o conjunto da sociedade. É nesse momento que surge a aliança com o proletariado, a classe revolucionária de nossos tempos, aquela classe que possui as condições e os interesses históricos de transformar radicalmente a sociedade. Mas tal aliança, imbuída de avanços e recuos, de aprofundamento e contradições, não encontrou eco no conjunto do proletariado francês, se conformando apenas em determinados setores, especialmente entre os jovens trabalhadores e trabalhadores imigrantes. Encontra-se aqui um dos limites de tal experiência, além daquelas apontadas pelo Reeve ao longo de seu texto. Texto este, que descreve bem a dinâmica, a ascensão e queda, do maio de 68 francês.

Por ser tratar de um texto descritivo, no entanto, Reeve não fornece um panorama mais amplo que traz inteligibilidade do processo que engendrou e impulsionou tal movimento que, a propósito, não encontrava-se isolado no conjunto da sociedade capitalista. Milhares de greves, diversos protestos estudantis, a insurgência na primavera de praga, a radicalização de setores de outros movimentos sociais (movimento negro, etc.), entre diversas outras lutas, animavam tanto países de capitalismo imperialista quanto países de capitalismo subordinado. O que havia de comum entre o maio de 1968 francês (sem dúvidas, umas das experiências mais radicais desse período) e os demais conflitos? A crise de um período determinado do capitalismo. A crise de um regime de acumulação.

Do ponto de vista histórico, a época do Maio de 68 correspondia aos últimos suspiros daquilo que Nildo Viana chama de regime de acumulação conjugado (e que Harvey, ideologicamente, chama de regime de acumulação fordista) – fase do desenvolvimento histórico que o modo de produção capitalista estava passando naquela época. A era da acumulação conjugada se estabeleceu no mundo pós-Segunda Guerra mundial e tinha como elementos fundamentais o fordismo, enquanto processo de valorização hegemônico; a sua forma estatal integracionista (o que alguns chamam de Estado “bem-estar social”); e o imperialismo transnacional.

O esgotamento deste regime de acumulação, entre a década de 60 e 70, a partir de sua dificuldade em resolver a tendência da queda da taxa de lucro; os conflitos sociais postos pelas lutas de classes daquele período, etc., trouxeram descontentamentos e contestações em vários lugares do mundo[1]. Na crise desse regime de acumulação, longe de ser sentida de forma homogênea, cada país se viu acometido de maneiras distintas e, por consequência, a reação dos explorados e oprimidos não fora igualmente homogênea.

Não é mero casuísmo que a década de 60, especialmente a sua segunda metade, seja denominada, por muitos de seus pesquisadores e militantes, como “década do conflito”[2]. No mundo insurgiram conflitos dos mais diversos possíveis, tanto nos países de capitalismo subordinado (“3° mundo”, países “em desenvolvimento”, etc.), quanto nos países de capitalismo imperialista (países de “capitalismo desenvolvido”, capitalismo “central”, etc.), bem como no bloco dos países de capitalismo estatal (“socialismo real”) influenciados e subordinados pela União Soviética (URRS). Nesse sentido, podemos ver conflitos, antes mesmo do 68 francês, nos Estados Unidos da América (EUA), Japão, Alemanha, Itália, Brasil, México, Leste Europeu, China, Vietnã, Argélia, etc.

Isto significa que as lutas de classes se intensificaram, de modos distintos e específicos de acordo com cada país, em todo o globo. E o Maio de 68 pode ser considerado um dos conflitos internacionalizados mais importantes da história do capitalismo, se não o primeiro. A socialização da miséria e da exploração capitalista traz, em seu bojo, também a socialização da resistência e da contestação. É nesse contexto, então, que podemos compreender o ponto de partida da experiência que Reeve nos traz uma ótima síntese descritiva. Boa leitura.

Gabriel Teles, agosto de 2021.


Maio-Junho de 1968: O que aconteceu

Depois do ano de 1967, marcado por fortes conflitos operários em grandes fábricas por toda a França, o mês de maio de 1968 abriu com intensa agitação estudantil em Paris e em universidades provinciais: manifestações, ocupações de prédios universitários e confrontos com a polícia. A crítica da rigidez da vida estudantil sob o autoritário regime gaullista junto com o impulso de adaptar a universidade às novas necessidades do capitalismo deu origem a uma crítica do próprio sistema social. Os estudantes também se mobilizaram em torno da oposição à Guerra do Vietnã e da intervenção estadunidense. A agitação centrada na universidade em Nanterre, subúrbios de Paris, onde existiam os elementos mais radicais do movimento estudantil, criou uma nova organização (o Movimento de 22 de março) na qual tendências anti-autoritárias e revolucionárias eram dominantes. Eles não apenas desenvolveram uma crítica afiada do uso capitalista do conhecimento produzido pela universidade [ver Documento 1, Por que sociólogos?], como também focaram sua agitação e ação direta tanto dentro quanto fora da universidade, fazendo esforços para se conectar com outras lutas [ver Documento 2, Um Fogo Repentino?].

Manifestações de rua tornaram-se constantes e cada vez mais radicais; em 7 de maio, milhares manifestaram em Paris, cantando a “Internationale” (“Internacional”) sob o símbolo patriota e militar do Arco do Triunfo, provocando um grande escândalo político. Três dias depois, confrontos povoaram o centro de Paris e barricadas foram erguidas no Quartier Latin[3]. Em 13 de maio, a universidade da Sorbonne foi ocupada por uma multidão mista de pessoas comuns que haviam se juntado aos estudantes nas ruas. Alguns dias depois, greves começaram em fábricas importantes – entre elas a grande fábrica de aviões Sud-Aviation em Nantes, e a fábrica de automóveis Renault em Cleon e nos subúrbios de Paris – que foram ocupadas por trabalhadores, sob a liderança de sindicatos.

Alguns dias depois disso, o Teatro do Odéon – no centro de Paris – foi ocupado por uma multidão de pessoas, a maioria do mundo da “cultura”, e se tornou uma espécie de ágora e centro de agitação.

Muitos outros locais de trabalho, de grandes empresas a pequenas lojas e escritórios, foram ocupados por trabalhadores e uma atmosfera geral de subversão da ordem normal das coisas espalhou-se por todo o país. Em poucos dias havia mais de 10 milhões de pessoas em greves e o país inteiro parou: sem sistema de transporte, sem serviço público, logo sem gasolina… Em muitos casos, os grevistas não tinham demandas específicas; as pessoas simplesmente pararam de trabalhar. Antes dos sindicatos elaborarem qualquer demanda concreta para negociar, o país estava paralisado.

Enquanto isso, o presidente general De Gaulle anunciou que ele estava aberto a algumas reformas e anistiou alguns dos milhares de presos. Ele também afirmou a sua recusa do “caos”. Por sua vez, os sindicatos e partidos de esquerda declararam que estavam abertos a discussões com o governo. Mas o movimento continuou a se espalhar. Em 24 de maio, a bolsa de valores de Paris foi incendiada; confrontos e instabilidade se espalharam para todas as grandes cidades da França. Em 25 de maio, a rádio e a televisão pública nacional foram ocupadas pelos seus empregados, jornalistas e técnicos. Em 27 de maio, após a primeira rodada de negociações entre o governo e os sindicatos, algumas importantes reformas foram anunciadas, tais como o aumento do salário mínimo e pensões, a redução das horas de trabalho, redução da idade de aposentadoria e uma maior presença dos sindicatos nos locais de trabalho. No entanto, a maioria dos operários e trabalhadores das grandes empresas, reunidos em assembleias gerais, rejeitou essas propostas que os sindicatos apresentaram como uma vitória, e votaram para continuar o movimento.

Até então, os operários e trabalhadores mais radicalizados estavam em constante contato e misturados com os estudantes nas manifestações e ações. Mas os sindicatos mantinham um controle rígido sobre os locais de trabalho ocupados e fizeram tudo o que podiam para se oporem ao contato com os estudantes, a quem eles retravam como contaminados pelo “extremismo” e manipulados pelos “provocadores”. Assim, eles transformaram os locais de trabalho em guetos isolados. Em resposta, os operários mais radicais começaram a organizar comitês independentes fora dos locais ocupados, em nível local dentro das grandes cidades e subúrbios, procurando influenciar o resto dos trabalhadores. Ideias e projetos revolucionários se tornaram mais aceitos entre estudantes, operários e trabalhadores radicalizados. Grupos maoístas e trotskistas influenciaram alguns operários radicalizados, assim como as tendências comunistas anti-autoritárias, desde anarquistas até situacionistas [ver Documento 3, Poder aos Conselhos Operários]. Em Paris, e em outros lugares, foram feitas tentativas de criar redes desses novos comitês de ação a fim de reforçar o fortalecimento independente dos grevistas [ver Documento 4, Defenda Nossa Greve!].

Ao final de maio, De Gaulle parecia estar contra uma situação que era difícil de controlar; ele contava principalmente com a repressão direta, mas também com o papel moderado desempenhado pelos sindicatos para manter a ordem pública. Neste ponto, as forças políticas que governavam procuraram o apoio do exército. Algumas unidades militares foram transferidas para os arredores de Paris. O presidente dissolveu a Assembleia Nacional, mudou o governo e anunciou novas eleições. Rapidamente, uma frente unida do medo ganhou forma concreta ao redor de uma nova aliança entre o tradicional partido gaullista e seus antigos inimigos da direita, que haviam apoiado a manutenção da Argélia como parte da França (as consequências da Guerra da Argélia, que tinha recém acabado quatro anos antes, ainda eram bem presentes na sociedade). Essa aliança foi fortemente apoiada por quase todos os setores burgueses da sociedade, os quais arrastaram por trás deles vários grupos dentro da população que imploravam por lei e ordem, desde pequenos comerciantes até trabalhadores e operários conservadores. Os “Comitês para Defender a República” foram formados por essas forças reacionárias, e começaram a tomar ações violentas contra grevistas e estudantes, bem como contra locais de trabalhos ocupados e instituições.

Em 30 de maio, uma grande manifestação foi organizada em Paris contra os “agitadores”, os “elementos anti-nacionais”, o “perigo do comunismo” e outros medos míticos. No lado oposto, o Partido Socialista francês se mobilizou para canalizar o movimento em direção ao quadro institucional das eleições, se apresentando como uma alternativa dentro do sistema. O Partido Comunista Francês e seu grande sindicato, a CGT[4], jogaram diferente. Eles lutaram para controlar um movimento que ameaçava escapar-lhes. Pela primeira vez em sua história, eles encaravam um movimento social longe de sua esquerda. Ao controlá-lo, eles pretendiam usar o movimento e a onda de greve – uma das maiores da era contemporânea – para sua própria agenda: em direção a uma transformação intervencionista estatal da sociedade e da economia.

Na primeira semana de junho, o clima nos locais de trabalho começou a mudar e, ao mesmo tempo, a energia coletiva enfraqueceu. Era possível sentir o renascimento da confiança nos sindicatos e na tradicional política eleitoral superarem a atmosfera de antes de intenso desejo de mudar a vida e o mundo. Sentimentos utópicos foram substituídos pelas velhas garantias e promessas reformistas [ver Documento 5, Sindicatos e Operários]. O slogan de maio, “Reforma = clorofórmio”, expressou claramente a virada do momento. Em diversas empresas do setor privado e público, as pessoas começaram a voltar ao trabalho. Em algumas outras empresas mais militantes, os sindicatos conseguiram superar a resistência das minorias ativistas e, apoiados pela maioria passiva, impulsionaram para o fim do movimento. Em alguns casos, em fábricas e manifestações de rua, confrontos violentos com a polícia causaram centenas de feridos e algumas mortes. Certos grupos radicais foram banidos, milhares de ativistas foram detidos e presos, e a campanha para as eleições parlamentares pôde começar.

Em 16 de junho, a Sorbonne foi tomada pela polícia e “liberada” dos elementos radicais; outras universidades seguiram. Dois dias depois, centenas de milhares de metalúrgicos, na indústria automobilística e em outros lugares, votaram para acabar com a greve e “liberar” as fábricas. Os sindicatos clamaram vitória, enquanto o sentimento geral era de derrota e traição. Para deixar claro que a burguesia havia retomado o controle, o governo declarou uma anistia para os oficiais militares de alta patente envolvidos – em anos precedentes – em uma tentativa de golpe contra De Gaulle e sua política de descolonização na Argélia. Apesar de uma forte campanha dos setores mais engajados do movimento contra a participação nas eleições, as eleições gerais de 23 de junho e 30 de junho levou ao poder um considerável grupo de deputados da direita, ao passo que tanto o Partido Socialista quanto o Partido Comunista perderam muitas cadeiras.

Por enquanto, a lei e ordem do velho mundo foi restabelecida e o futuro se apresentou como uma continuação normalizada do passado. O espírito do Maio de 68 foi, no entanto, suficientemente forte para durar no futuro, como vemos hoje no surgimento de novos movimentos e na crise dos partidos políticos e dos sindicatos tradicionais. Os eventos de maio e junho de 1968 foram o sinal do fim de uma era, o fim da Esquerda, e o início de uma nova visão da ação política – uma mudança que também criou um espaço para o desenvolvimento de uma nova reação, de uma direita dura, a face política da violência de um novo período da exploração capitalista.

A Alquimia do Maio de 68

Durante as manifestações, confrontos e ações em espaços públicos, ligações informais foram desenvolvidas entre os estudantes e os jovens trabalhadores rebeldes. Essas ligações se tornaram os meios de circular um espírito de rebelião e desempenhou um papel determinante na provocação de greves e as primeiras ocupações de locais de trabalho. Entretanto, nada disso era claro no início.

O historiador Eric Hobsbawm escreveu: “paradoxalmente, a falta de importância do movimento estudantil o tornou um dos mais efetivos detonadores para a mobilização dos trabalhadores[5]“. Esta afirmação é questionável na medida em que exclui um dos aspectos particularmente subversivos e contagiosos da revolta estudantil: o eco que parte do seu conteúdo encontrou no local de trabalho. Veja, por exemplo, o texto de alguns estudantes de Nanterre, “Por que sociólogos?”, escrito em março de 1968 em resposta aos protestos sindicais sobre a situação precária de estudantes pobres da classe trabalhadora, que teve importante repercussão em eventos subsequentes. O texto dos estudantes atacava a amplamente difundida ideologia do conhecimento como poder, mais precisamente, a função prática do conhecimento nas ciências sociais[6]. Essas questões ecoaram a preocupação expressa pelos jovens trabalhadores que, em sua revolta contra a autoridade, queriam mais controle sobre suas vidas. Ao contrário de seus colegas mais velhos, esses trabalhadores “se sentiram menos inclinados a obedecer às ordens do sindicato… e frequentemente se juntavam aos estudantes em seus combates nas ruas e em seus desejos de autodeterminação e responsabilidade”[7]. O conhecimento de líderes políticos e sindicalistas experientes não tinha mais tanto peso frente a uma insatisfação não negociável expressa no slogan encontrado aqui e ali nas portas das fábricas durante a greve: “Já tivemos o bastante“)[8]. Uma minoria de jovens operários expressou “uma confusão noção sobre a necessidade de uma mudança profunda no estilo de vida, o que implicava uma profunda mudança em toda a estrutura social. Para aqueles que iam para as barricadas do Quartier Latin ao entardecer, parecia que as tampas do Velho Mundo estavam desmoronando sobre nossas cabeças e era hora de explodi-las”[9]. A alquimia especial do Maio de 68 reside no sucesso dessas transmissões informais, confusas e elusivas, no fato de que o espírito do protesto anti-hierárquico rapidamente assumiu os locais de trabalho, se impondo ali como um critério, e unificou o movimento estudantil e as greves operárias. Essa derrubada do quadro corporativista do protesto tradicional gerido pelas organizações sindicais foi o primeiro sinal da autonomia do movimento.

A esse respeito, Claude Lefort escreveu: “Foi dito várias e várias vezes que a revolta estudantil serviu como um detonador. Isto é uma forma de evitar sua importância, para se afastar do que pode ser pensado como o que era mais estranho e novo nessa situação, para restabelecer o esquema clássico da luta de classe, para deixar que fosse pego nas vicissitudes do jogo entre sindicatos e chefes ou o Estado”[10]. De fato, essa forma de apagar o novo, subversivo, conteúdo introduzido pela revolta estudantil foi para negar o fato de que ele despertou o desejo de confrontar o poder estatal diretamente. Tanto a revolta estudantil quanto as greves desafiaram a ordem social. Uma não era subordinada à outra, e, da mesma forma, uma não iniciou a outra. Houve uma convergência das duas lutas nascidas da mesma insatisfação social. E se a greve, que se tornou uma greve geral, provou ser um evento de grande importância, foi precisamente porque ela começou como uma greve selvagem totalmente fora do controle sindical – pois ela entrou “na estranheza e na novidade da situação”. De novo, “no momento em que os operários explodiram na cena política, eles tomaram uma iniciativa cujo alcance excedia demais o escopo restrito das demandas circunscritas pelos sindicatos”.[11]

Eric Hobsbawm abordou a questão de forma diferente: “A própria profundidade da crítica da sociedade expressa ou formulada pelo movimento popular de esquerda a deixou sem objetivos específicos… A longo prazo, isso não diminui sua importância ou sua influência histórica. A curto prazo, se provou fatal”.[12] Agora, o curto prazo é sempre o período das demandas concretas enquanto que o conteúdo subversivo se abre para outro tempo. O que foi fatal foi a vitória do curto prazo, não a ausência de objetivos específicos. Inversamente, o alcance do longo prazo foi precisamente o que ultrapassou o escopo das demandas tradicionais e que permitiram o surgimento das tendências positivas para a auto-organização. A leitura do Maio de 68 que gostamos tem grande interesse nesse transbordamento de protestos, ultrapassando o domínio sindical, um quadro limitado incorporado da luta de classes. Nossa leitura analisa pontos de ruptura, a divisão que acontece entre os dois conceitos do movimento socialista. De um lado está a corrente autoritária representada pelos partidos e sindicatos – dos quais o PCF (Partido Comunista Francês) e a CGT (sindicato do partido comunista) eram então as duas maiores forças na França – reivindicando “experiência revolucionária” e democracia representativa, e incorporando o princípio do reformismo. Frente a essas forças situava-se um movimento de base espontâneo que defendia os princípios da ação e democracia direta, e reivindicava uma soberania real dos trabalhadores e estudantes dominados na luta. Esses princípios foram colocados em prática pelas novas organizações nascidas ao longo do movimento: as assembleias gerais, os comitês de base em locais de trabalho sob ocupação ou em greve e comitês de ação operário-estudantil. A maré de ruptura do anti-reformismo foi o portador de elementos que remontam ideias e práticas do “socialismo anti-autoritário”, que surgiu de forma embrionária durante as revoluções no início do século XIX.

O PCF e a CGT consideravam essas novas formas de auto-organização como expressões da imaturidade política, porque elas escapavam de seu controle. Era impensável que operários “inexperientes” pudessem ser guiados por sua própria experiência para criar e desenvolver organizações independentes que exercessem seu poder sem mediação. Sabedoria partidária, a “ciência do marxismo-leninismo”, deveria ser o suficiente para eles.

Como no passado, o princípio da democracia direta não adquiriu uma forma separada do conteúdo do movimento. A luta pelo autogoverno e soberania dos trabalhadores sempre foi inseparável do desejo de reorganizar a sociedade porque são os meios práticos e indispensáveis para fazê-la. Em Maio de 68 foi também o desejo de mudar a vida e, portanto, a organização da sociedade, o que exigiu a criação de novos tipos de organização.

Deixados para trás desde o início pela espontaneidade do movimento, os sindicatos reagiram energeticamente a todas as iniciativas autônomas, bloqueando-as e isolando as massas de trabalhadores dos estudantes manifestantes e, posteriormente, dos operários mais combativos[13]. Estes últimos apoiaram-se na revolta estudantil: “Quando vamos para as fábricas e temos discussões – o simples fato de os trabalhadores concordarem em discutir as coisas com a gente já é notável”.[14] Em alguns raros locais de trabalho, a ligação entre esses trabalhadores combativos e os estudantes tornou mais difícil para o aparato sindical controlar a greve. Mas, em geral, os sindicatos conseguiram isolar os grevistas de uma empresa dos grevistas de outra, inclusive entre fábricas da mesma empresa, como foi o caso da indústria automobilística. O grau da atividade autônoma operária também influenciou claramente a natureza dos comitês de greve – que, em geral, eram criaturas do sindicato – e influenciou especialmente as barricadas, onde os trabalhadores demonstraram grande autonomia. Alguns comitês de greve permaneceram mais subordinados às assembleias gerais nas quais membros não sindicalizados, frequentemente chamados de “desorganizados”, também falavam. O Movimento de 22 de Março teve essa reflexão: “Enquanto houver uma ruptura, uma fissura na instituição burguesa, na CGT, e o partido não for feito coletivamente, dirigido pelos operários de dentro dos locais de trabalho, nós nunca mudaremos nada; sempre será recuperado pelo aparato; mas se essa ruptura for feita, só pode ser feita conjuntamente com a criação de uma assembleia permanente… e isto corresponderia à criação de conselhos operários”.[15]

Durante o movimento do Maio de 68, foi na cidade de Nantes que os comitês de greve manifestaram sua presença mais vigorosamente, ao ponto de se tornarem embriões de um poder paralelo, ou pelo menos um poder complementar para a administração local[16]. Embora fundados na intensa atividade de estudantes, operários locais e camponeses, esse poder nunca se livrou dos líderes sindicais[17], que supervisionavam um comitê de greve inter-sindical. Este comitê se instalou na prefeitura e tomou conta dos suprimentos, rotas de transporte, ligação com as organizações camponesas, e a distribuição de produtos alimentares e gasolina. Rapidamente as relações entre esses comitês inter-sindicais e os comitês de bairros azedaram. Estes últimos se mostraram “muito mais eficientes na organização dos suprimentos e sua atividade será muito mais importante do aquelas dos sindicatos. Começando pela criação de um mercado direto para produção, eles vão se tornar as células que politizam os bairros da classe trabalhadora”.[18] Mas finalmente, o antigo princípio do governo foi restaurado e o comitê inter-sindical tomou controle dos comitês de bairro.

Gradualmente, estudantes e trabalhadores começaram a levar suas reivindicações para a prefeitura, onde o comitê inter-sindical foi entronado, pois costumavam ir ao prefeito e às autoridades locais. “Nós claramente vemos aqui como, dada a falência das antigas autoridades (prefeitura, municipalidade), mas também com seu apoio ativo, os sindicatos unidos usam suas respectivas organizações… para estabelecer uma nova estrutura de autoridade… Preso entre essa “base” e o antigo aparato administrativo (e policial), o comitê inter-sindical foi obrigado a manobrar de forma mesquinha até o dia do “retorno à normalidade”[19].”

Sempre que operários e trabalhadores eram pegos no espírito de protesto do movimento, eles se encontravam isolados em seus locais de trabalho e silenciados pelo sindicato[20]. A formação de comitês de bairro e de ações em locais de trabalho, comitês operário-estudantil e comitês de ligação entre empresas, foi melhor indicado para esse espírito e começou a ir além das tradicionais formas de partido e sindicatos[21]. Essas tentativas de auto-organização surgiram contra dois tipos de obstáculos. Era necessário ultrapassar a crença no controle centralizado incorporado na sociedade francesa durante os longos anos de práticas leninistas e stalinistas. Assim, os grupos de extrema-esquerda tendiam a identificar os trabalhadores com o aparato sindical e um número de militantes agiu abertamente em organizações de base como emissários de grupos que pretendiam dirigir a classe operária. Igualmente complicado foi a experiência negativa que muitos trabalhadores tiveram com o funcionamento burocrático das organizações autoritárias. Isso forjou um medo que levou a rejeição de toda forma de organização como “burocrática por natureza”, e terminou com o fetichismo das assembleias e fé no espontaneísmo ao ponto de paralisação, o que finalmente deu espaço para manipulações por dezenas de ativistas. A organização tomou a forma “de uma assembleia geral cotidiana, em que horas são perdidas em conversas desnecessárias que não levam a nada, cansando mesmo o ouvinte mais indulgente. Nessas condições, é impossível alcançar qualquer tipo de decisão coletiva ou votar sobre qualquer proposta específica”[22] – uma conclusão que passa um pouco rápido demais sobre a descrença da manipulação política e a necessidade de reapropriação do poder da fala.

Como acabamos de ver, a questão do isolamento das lutas entre si, especialmente a separação do movimento estudantil do movimento operário, foi um problema essencial para o destino do movimento social do Maio de 68. Acima de tudo, a burguesia temia a união dessas duas forças, na qual ela viu a criação de um ingrediente explosivo com novas possibilidades de subversão da ordem social. Isso explica o medo agonizante que o movimento inspirou na classe burguesa e suas auxiliares na classe política, um medo visível no ódio e calúnia desencadeados na maioria dos setores radicais do movimento estudantil, apresentado como agentes de uma trama contra a nação. O extremo dessa emoção podia ser visto na ativação retórica de fantasmas do passado recente, cristalizado na figura do “judeu alemão, Cohn Bendit[23]“. Para o Partido Comunista e a CGT, não havia nenhuma questão de permitir que a barreira social que existiu entre estudantes e operários fosse derrubada, porque isso arriscava o início do fim do controle organizacional sobre as massas exploradas. E daquela situação que poderia muito bem abrir um caminho para a construção de uma nova força cuja energia contagiosa se libertaria dos planos dos experientes e sábios líderes do projeto comunista autoritário. O medo da classe burguesa e a preocupação da classe comunista burocrática – que se tornariam claros mais tarde – foram duas características essenciais do movimento do Maio de 68. Se o retorno à normalidade tranquilizasse a burguesia, o medo que experienciou foi indelevelmente inscrito em seu comportamento de classe, ressurgindo sempre que um movimento social de qualquer tamanho irrompe na França. Quanto às forças do comunismo burocrático, seu rápido declínio confirmou a fraqueza exposta pela sua preocupação daquele momento.


[1] Para análises pormenorizadas acerca do esgotamento deste regime de acumulação, ver: HARVEY, 1992 (Condição Pós-Moderna. Edições Loyola, São Paulo, 1992); VIANA, 2009 (O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. Ideias e Letras, Aparecida, SP, 2009); BIHR, 2010 (Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise. Boitempo, São Paulo, 1998).

[2] No entanto, a grande maioria dos “analistas”, pesquisadores, etc., não conseguiram desvendar os motivos desta onda massiva de conflitos. Cada qual se agarrava a uma determinação isolada, sem visualizar a totalidade da sociedade seus rumos apontados. Nesse sentido, constituem como ideologias que mais contribuem para ofuscar a realidade e, portanto, contribuem para a resolução dos conflitos para o lado da classe dominante.

[3] No original em inglês, Latin Quarter. Traduzido literalmente, seria o Bairro Latino. É um bairro parisiense que se encontra na margem esquerda do Rio Sena, conhecido por ser próximo da Universidade de Sorbonne e outras instituições de ensino superior, além de ser um bairro boêmio. Na tradução, foi optado por utilizar o termo original do francês, uma vez que não é usado a tradução para o português. (NT).

[4] CGT, no original francês, Confédération générale du travail. Em tradução, Confederação geral do trabalho. (NT).

[5] Eric Hobsbawm, “May 68” [Maio de 68], (New York Review of Books, 1969).

[6] Jean-Pierre Duteuil, Nanterre 1965-1968, vers le mouvement du 22 [Nanterre 1965 – 1968, ao movimento de 22](Paris: Acratie, 1988). Também, De la misère en milieu étudiant considérée sous ses aspects économique, politique, psychologique, sexuel et notamment intellectuel et de quelques moyens pour y remédier [Da miséria no meio estudantil considerada sob seus aspectos econômico, político, psicológico, sexual e principalmente intelectual e de alguns meios para remediá-los] por membros da Internacional Situacionista, Strasbourg, 1966.

[7] “The Mass Strike in France” [A Greve em Massa na França] em Root & Branch: The Rise of the Workers Movements [Raíz & Ramo: a ascensão do movimento operário] (Greenwich : Fawcett, 1975), p. 317.

[8] Ibid., p. 335. [No original em francês, “Nous en avons assez”. Pode ser traduzido de diversas formas. (NT).]

[9] Ngo Van, Au pays d’Héloïse [Ao País de Heloísa] (Paris: L’Insomniaque, 2006), p. 72.

[10] Claude Lefort, “Le désordre nouveau”, [A nova desordem] em Cornelius Castoriadis, Claude Lefort, e Edgard Morin, Mai 68: La Brèche [Maio de 68: a brecha] (Paris: Editions Fayard, 1968, 2ª ed., Editions Complexe), p. 39. Cornelius Castoriadis (1922 – 1997) e Claude Lefort (1924 – 2010) foram, junto com outros menos conhecidos, os fundadores do jornal Socialismo ou Barbárie (1949 – 1967) antes de seguirem seus caminhos individuais.

[11] Ibid, p. 40.

[12] Eric Hobsbawm, “Mai 68″ [Maio de 68], New York Review of Books, 1969.

[13] Sobre esses excessos, o papel dos jovens operários em greves e a criação do comitê de ação, ver Jacques Baynac, Mai retrouvé [Maio reencontrado], Robert Laffont, 1978. Ver também “A Greve em Massa na França”.

[14] Mouvement du 22 mars [movimento do 22 de março], Ce n’est qu’un début continuons le combat [É apenas o início continuemos o combate], p. 99, Cahiers libres, Maspero, 1968.

[15] Mouvement du 22 mars, Ce n’est qu’un début continuons le combatIbid., pp. 99-101.

[16] Sobre a greve em Nantes em Maio de 1968, ver “A Greve em Massa na França”, pp. 346, 348-51; Les Cahiers de Mai, Juin 1968; Mouvement du 22 mars, Ce n’est qu’un début continuons le combat, Ibid., pp. 94-95 e 110-111.

[17] Em Nantes, o FO (Force Ouvrière Chu), um grande sindicato com um papel importante no comitê de greve, foi dominado por militantes trotskistas e anarquistas. [Em tradução, Força Trabalhadora. O Chu ao final quer dizer “Centre hospitalier universitaire”, Centro hospitalar universitário. (NT).]

[18] Cahiers de Mai, 15 de junho de 1968.

[19] “A Greve em Massa na França”, p. 350.

[20] O cenário sindical na época foi dominado pela poderosa CGT, totalmente subordinada ao PCF stalinista. O FO era um grande sindicato, ainda muito influenciado pelo espírito anti-comunista da Guerra Fria, mesmo que militantes trotskistas e anarquistas tenham encontrado refúgio lá. A CFDT, mal emergindo de suas origens cristãs, alegou uma certa abertura tática e em alguns lugares acolheu ativistas militantes operários. [CFDT significa Confédération française démocratique du travail. Em tradução, Confederação Francesa Democrática do Trabalho. Está entre os cinco maiores sindicatos franceses. (NT)]

[21] Jacques Baynac, Mai retrouvé [Maio reencontrado] (Paris: Robert Laffont, 1978).

[22] “O Comitê de ligação entre empresas, balanço de uma experiência”, texto por GLAT (1964-1978), um grupo ativo em Censier durante o movimento do Maio de 68. Alguns dos textos desse grupo estão disponíveis no site Archives Autonomies.

[23] Daniel Cohn Bendit foi um dos energéticos ativistas estudantes na Universidade de Nanterre. Um dos autores do texto Por que sociólogos?, ele também foi um militante anarco-comunista e um dos fundadores do Movimento de 22 de março. Vindo de uma família alemã judia, ele foi violentamente atacado vivendo na França por suas origens tanto pela direita quanto pelo Partido Comunista e a imprensa, que o retratava como um arquétipo de agitador judeu de fora. Manifestantes responderam com o canto “Somos todos judeus alemães!” Ele se tornou um ícone midiático do movimento, foi expulso da Alemanha e passou à clandestinidade por um tempo. Mais tarde, ele se tornou um membro proeminente do Partido Verde alemão e um político europeu.

A tradução foi feita por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://brooklynrail.org/2018/05/field-notes/May-June-1968-What-Happened. A revisão foi realizada por Felipe Andrade.

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