Marxismo e teoria revolucionária: leitura de Cardan, releitura de Castoriadis – Yvon Bourdet

Marxismo e teoria revolucionária: leitura de Cardan, releitura de Castoriadis[1][2]

As observações que seguem não são um resumo do conjunto de textos escritos com os pseudônimos de Pierre Chaulieu e Paul Cardan, reeditados por Cornelius Castoriadis e que, em uma edição precedente, apontamos o início das publicações.[3] Também não se trata, propriamente falando, de um comentário cobrindo o todo do seu último livro: A instituição imaginária da sociedade.[4] No “quadro” do presente debate “aberto” sobre o marxismo, me detive apenas às cem primeiras páginas, intituladas “Relatório temporário” (do marxismo), publicadas anteriormente, em 1964, nos números 36, 37 e 38 da revista Socialisme ou Barbarie [Socialismo ou Barbárie], intitulado de forma mais genérica como “Marxismo e teoria revolucionária”.

Apesar de Castoriadis reconhecer, no prefácio do I.I.S., o caráter heterogêneo do seu livro[5], não pretendo justificar minha ponderação parcial por nada mais que a conveniência conjuntural do programa da nossa revista. Se Castoriadis colocou na sequência uma série de textos, não pode ser unicamente pela preocupação que havia Marx de “fazer muito” para impressionar os leitores alemães. Uma “leitura” temática de conjunto, por meio da diversidade em um primeiro aspecto e um amontoado de curiosidades ou, como adora dizer Castoriadis, um legein,[6]seria certamente a melhor forma de compreender essa obra; além disso, mas continuando dentro dos limites da nossa crônica relacionada aos debates atuais sobre o marxismo, não vou me proibir de fazer qualquer referência fora das cem primeiras páginas que continuarão, entretanto – e somente elas –, o objeto deste estudo.

Permitam-me uma segunda observação preliminar: a discordância quase total que manifestarei em relação ao conjunto e aos detalhes desse “resumo temporário do marxismo” não deve ser interpretada como uma recusa ao conjunto da obra de Castoriadis.  Eu não poderia me esquecer da riqueza do espaço intelectual que me foi oferecido – há cerca de vinte anos – quando, envolvido pela filosofia clássica, começava a participar das atividades do grupo Socialisme ou Barbarie. Guardo com admiração uma lembrança da quantidade de discussões acaloradas e eminentes da parte de Castoriadis, a tal ponto que a versão escrita desses debates sempre me decepcionou um pouco, como a passagem de Platão a Aristóteles. Pelo seu tom frequentemente declamatório, sempre muito seguro e por vezes inutilmente injurioso, os escritos dessa época[7] me davam a sensação de um desperdício (enquanto frequentemente é o contrário que acontece) em relação ao que apresentava o comparecimento do autor, que me impactava pela sua generosidade intelectual e pelo caráter caloroso de sua amizade. Mas, hoje em dia e já há muito tempo, trocamos praticamente só dedicatórias de livros… tornemo-nos, portanto, aos textos.

Sempre fiquei impressionado pelo rápido desvio de uma crítica do marxismo à rejeição a Marx. Esse caminho é observável particularmente naqueles que haviam aderido a um “partido marxista” (comunista ou trotskista, tanto faz) antes de terem lido bastante Marx. Para mim – mesmo se por sorte – que tinha lido Marx sem aderir a nenhum desses partidos, essa abordagem sempre[8] me pareceu injustificada. Enquanto minhas observações sobre esse assunto foram publicadas em uma pequena coleção,[9] Castoriadis escreveu em uma pequena nota crítica que o meu estudo, nesse ponto, era “impactante e de uma violência irônica justificada”.[10] Todavia, alguns meses mais tarde, Castoriadis começava a publicação de seu balanço-rejeição do marxismo. Certamente, o que Castoriadis havia aprovado na minha polêmica contra os principais líderes da revista Arguments [Argumentos] era a denúncia de um “abandono” de Marx em benefício de (se pudermos dizer) um “vão desejo por um pensamento novo”. Sem dúvidas eu teria a ocasião, em uma outra oportunidade, de tentar determinar em qual medida Castoriadis escapou da repreensão que ele pensava ser pertinente contra “a orientação da Arguments”; nas linhas que seguem – repito – me limitarei a um exame crítico das razões que Castoriadis dava para rejeitar o marxismo enquanto teoria revolucionária. Farei isso de uma forma puramente “negativa”, ou seja, me limitando a mostrar as insuficiências da exposição de Castoriadis e sem apresentar, por outro lado, como justificativa, a “boa interpretação” do marxismo, a “verdadeira” teoria revolucionária. Já me exprimi em outro lugar sobre esse assunto e não podemos repetir a todo momento.

Que me entendam bem: não estou me apresentando aqui como um “defensor” do marxismo, nem mesmo do “marxismo ortodoxo”, nem do homem chamado Karl Marx, pois o destino do marxismo não depende em nada das nossas discussões em meio ao microcosmo da margem esquerda de Paris.[11] Desde sua formulação, o marxismo foi regularmente “refutado” e “superado” a cada geração e, mesmo assim – da mesma maneira, sob uma outra perspectiva, do cristianismo –, ele continua inspirando (de perto ou de longe, errado ou com razão) a ação militante de milhões de homens, revoltosos com a exploração e a injustiça social e política. Uma tal constatação histórica pode deixar um filósofo indiferente, mas não um sociólogo, muito menos um “político”. Não sejamos sabichões; “o marxismo não está em perigo. Durante um recente congresso internacional de sociologia, alguém gritou: “O que são esses supostos revolucionários de hoje que só sabem se inspirar das bíblias de outrora?” Foi muito fácil de observar que “quem quer” – mesmo se ele “refuta” as bíblias de outrora – não escreve, entretanto, uma bíblia do presente; é necessário, mas é insuficiente de ter a obra editada como livro de bolso. Sobretudo – e mais seriamente –, seria necessário averiguar que a expressão em si de “bíblia de outrora” é contestável: uma “bíblia” é um livro cujo conteúdo, até contraditoriamente interpretado, é compreendido diversamente, retomado e vivido atualmente por milhões de viventes, de tal maneira que o seu sentido, ao mesmo tempo límpido e ambíguo, perpetuamente “traído” e contudo profético, se não é inesgotável, ainda não se esgotou; o rio segue, impassível perante as árvores e os cães mortos, ignorando o discurso do filósofo que se lançou nas suas margens de onde ele pensa poder ser juiz. Isto posto, estou apenas colocando na forma de imagem o “materialismo histórico” de Marx, que precisamos ver agora em mais detalhes.

Castoriadis nos relata que começou questionar um certo número de teses de Marx e que, ao fim (“ao sétimo dia as muralhas colapsaram”), é o marxismo em seu conjunto que não pareceu mais poder permanecer como a teoria revolucionária do nosso tempo. Se procurarmos agora (sem entrar em detalhes, devido ao pequeno lugar que nossa revista deixa livre para este debate) esquematizar o essencial desse balanço (provisório)[12] do marxismo colapsado, podemos atribuir a Castoriadis, grosso modo, as seguintes “afirmações”:

  1. A tese essencial do Capital é falsa.
  2. Existe contradição entre a ciência mecanicista de Marx e qualquer projeto revolucionário.
  3. O marxismo é o que ele se tornou e é uma ilusão tentar voltar ao “verdadeiro Marx”.
  4. O marxismo não pode ser compreendido como um simples método.
  5. O vício fundamental (constitutivo) do marxismo é o de ser uma teoria fechada (como um ovo).

No meu ponto de vista, todas estas afirmações de Castoriadis são falsas – ou, de forma mais modesta, “discutíveis” – como aparecerá, talvez, não pela “crítica” pontual de cada uma delas, mas, ao fim, por soma e quase recorrência, dado que todos esses pontos, separados abstratamente por mim, formam um todo.

I. A derrocada fatal do capitalismo

É legítimo, aparentemente, estimar que a tese marxista da derrocada fatal do capitalismo é essencial. Marx a havia formulado, antes de ser economista, no estilo hegeliano da “negação da negação”, ao fim da primeira parte do Manifesto Comunista: “À medida que a grande indústria se desenvolve, a base sobre a qual a burguesia assentou sua produção e apropriação dos produtos se desfaz. A burguesia produz, antes de mais nada, os seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”.[13] É verdade – e não se deve subestimar a importância disso – que Marx recopia pura e simplesmente essas fórmulas, vinte anos mais tarde, no fim do capítulo 32, o penúltimo capítulo do primeiro livro do Capital.[14] Podemos até acrescentar que Marx emprega fórmulas equivalentes, “mais tarde de novo”, no tomo III do Capital, se Maximilien Rubel não nos tivesse dito que essa famosa passagem foi redigida antes da realização do livro I.[15] Independentemente dessas precisões pedantes (cuja dimensão veremos mais tarde), permanece que Castoriadis, com um século a mais de sabedoria que Marx (algo que ele se justifica com prazer), pôde observar – posteriormente e com muitos outros – que o capitalismo não colapsou, que, pelo contrário, ele se desenvolve melhor que as outras sociedades e que, portanto, Marx se enganou fortemente.

De minha parte, não vejo o que há de chocante em constatar que Marx se enganou, como todos os sábios. Penso, particularmente, que Marx não poderia, nem pôde, “estar à frente” das ideias de seu tempo no que concerne, por exemplo, as vantagens de um desenvolvimento unilinear indefinido da técnica ou a questão das “minorias”. Se o tivesse feito, teria invalidado ao mesmo tempo o relativismo da sua teoria do conhecimento. A pretensão de ser infalível, já risível na teologia, é absurda no seio do materialismo histórico (que deve, primeiramente, aplicar a si mesmo o seu princípio de base). Em seus prefácios e posfácios, Castoriadis nos mostra com facilidade que o erro é por vezes prova de inteligência: “Marx, por exemplo, é um grande economista, até quando se engana, enquanto François Perroux é apenas um falastrão, até quando ele não se engana”.[16] Desnecessário dizer que cada um pode ilustrar esse esquema com outros nomes. Mas, deixemos essas piadas de lado. Na verdade, duas questões de dimensão desigual se colocam:

a) um ponto sobre história: por que Marx, que trabalhou quinze anos mesmo após a publicação do livro I do Capital, não publicou “o resto”? Dizem que ele estava sempre doente, que se ocupava de outras coisas! Na realidade, Marx não estava satisfeito com seus manuscritos sucessivos sobre as mesmas questões, como mostra as suas correspondências; sua documentação lhe parecia sempre insuficiente e ele se regozijava que as circunstâncias impediam a publicação do tomo II do seu livro: “É-me ainda mais conveniente”, escrevia, em 27 de junho de 1880, a Domela Nieuwenhuis, “que nesse exato momento alguns fenômenos entraram em uma nova fase de desenvolvimento e consequentemente tornam necessário um novo trabalho de observação”.[17] Produziremos outros textos desse tipo quando, um pouco mais adiante, formos avaliar se o marxismo é uma “teoria fechada como um ovo”. Para o ponto específico em questão, por que não nos dar ao trabalho de ler por inteiro, ao invés de nos limitarmos ao “título”, a seção (do livro III) intitulada “Lei de baixa tendencial da taxa de lucro”? Veremos que após o enunciado da “lei”, Marx desenvolve seis tipos de “influências contrárias” e, concluindo, escreve: “Esse processo não tardaria em desencadear o colapso da produção capitalista se tendências contrárias não trabalhassem continuamente (grifo meu) a fim de produzir um efeito decentralizador…”.[18] O que disseram de tão considerável, um século mais tarde, os inúmeros “críticos” de Marx e, de qualquer forma, onde está o “erro”?

b) questão “psicossociológica”: em 1910, Rudolf Hilferding publicava O capital financeiro; ele mostrava, cinquenta anos antes de Castoriadis (ver I.I.S., p. 22 e seguintes), a partir de “tendências contrárias”, que o capitalismo não se colapsaria sozinho, mas pela ação do proletariado.[19] É verdade que, de acordo com Castoriadis, “não temos nenhum motivo e nenhuma necessidade de pegar emprestado argumentos da velha lixeira da socialdemocracia”.[20] Esse expurgo oportuno se faz passar como original, dado, por outro lado, que a crítica do bolchevismo “de um ponto de vista revolucionário”, aquela da ultraesquerda: Pannekoek, Gorter, Otto Rühle, Korsch, etc., era igualmente “ignorada” pelo Socialisme ou Barbarie. O livro de Hilferding – que continha algumas das críticas importantes de Castoriadis – foi apresentado em seu tempo e foi recebido não como uma “refutação”, nem como uma “superação”, mas como um simples desenvolvimento do marxismo, a tal ponto que alguém quis ver nele “o quarto livro” do Capital. Por que, meio século mais tarde, os líderes da Arguments e, logo após, Castoriadis pensam diferentemente? Embora essa diferença de avaliação tenha causas sociais e históricas globais, poderíamos nos perguntar correlativamente sobre os projetos pessoais. Castoriadis, que “consagrou a melhor parte dos anos 1965 a 1968 {à} reconsideração da teoria psicanalítica”[21] deve sabê-lo melhor que nós.

II. Contradição entre ciência mecanicista e projeto revolucionário

Como eu disse mais acima, o exame sucessivo de diversos pontos não significa que essas teses estão “separadas”; a famosa contradição entre “ciência mecanicista” e “projeto revolucionário” depende da questão do fato de um tal mecanicismo, já questionado no parágrafo I e que será novamente “criticado” no IV e V. Castoriadis escreve (I.I.S., p. 42 e seguintes. Ver também p. 22, 76 e seguintes, etc., e textos anteriores: Socialisme ou Barbarie, n. 31, fevereiro de 1961, p. 79) que há oposição entre a evolução mecanicista descrita no Capital e a luta de classes: “…o capitalismo evolui unicamente conforme os efeitos das leis econômicas que comporta, e que Marx dispensou. A luta de classes não intervém em parte alguma” (I.I.S., p. 43). Após essa afirmação peremptória, Castoriadis cede a um pequeno remorso de uma forma curiosa: “Que um marxismo mais nuançado e mais sutil, apoiando-se, se necessário, em outros textos de Marx”… – {o “se necessário” (que grifei) é admirável, come se citar outros textos além dos que Castoriadis conhece já não fosse, de fato, louvável} – …afirma que a luta de classes desempenha um papel importante…”, isso não serve para nada, pois “não dá para conciliar a cabra e o repolho”[22] (ibid.). Eis, então, nosso homem seguro do seu feito e apontando os marxistas grosseiros e os marxistas “sutis” nesse terceiro quarto do séc. XX.

Entretanto, no mesmo ano da publicação do primeiro livro do Capital, Marx, com a cumplicidade de seu amigo Engels, montou uma emboscada que coloca em seu lugar a “contradição” na qual insiste Castoriadis. Considerando que a imprensa não falava suficientemente de sua obra, Marx teve a ideia de enviar a Engels o esboço de um relatório a ser “disposto” sob um pseudônimo.[23] Marx escreve a Engels, em 7 de dezembro de 1867, “em relação ao ‘jornal’ suábio, seria divertido enganar o amigo de Vogt, esse tal Mayer suábio. Seria necessário apenas fazer a coisa funcionar da seguinte maneira: …”[24] Podemos aqui apenas resumir essa carta humorística. Marx aconselha Engels a começar por dizer que o livro faz honra ao “espírito alemão”, pois no que concerne à evolução econômica da sociedade, ele só transpôs “o processo de transformação que Darwin estabeleceu nas ciências da natureza”. Isto posto, o autor {do Capital}, acrescenta Marx, de uma vez só – “talvez apesar dele (malgré lui,em francês no texto)[25] deu a sentença de morte de todo socialismo profissional”. Marx insiste na necessidade de evidenciar bem a contradição entre a obra e “a tendência subjetiva do autor” e de escrever que “se o lugar o permitisse, ao ir ao fundo das questões, poderíamos talvez mostrar que a sua ‘evolução objetiva’ nega seus próprios caprichos ‘subjetivos’”.[26]  Ninguém – e Castoriadis menos ainda – toma Marx por um imbecil e se ele acreditou ter zombado desse Mayer suábio ao fazê-lo publicar essa famosa contradição, era porque a “resposta” lhe parecia “evidente”. Sem dúvidas, Marx tinha, isto posto, superestimado um pouco seus leitores, como lhe mostra Engels ao acusar o recebimento do esboço: “Vou enfrentar esta noite nosso amigo Mayer ao seguir o seu esboço que, apesar de uma certa profundidade exagerada… é muito bonito”.[27] Resumiremos, um pouco mais adiante, a base desta questão.

III. O marxismo e o que ele se tornou historicamente

Antes de entrar nos detalhes de uma discussão sobre “o sentido da obra de Marx”, é necessário lembrar algumas “objeções” tradicionais, retomadas por Castoriadis (I.I.S., p. 14 e seguintes). Repete-se que, conforme Marx, “o significado de uma teoria não pode ser compreendido de maneira independente da prática histórica e social à qual ele corresponde…” (e como esse “corresponde” é um tanto pesado, Castoriadis acrescenta “na qual ele se prolonga ou que é usado para abranger”). É isso. Como se essas três práticas (corresponde, prolonga, abranger) fossem equivalentes; Castoriadis escreve, de fato, na página seguinte: “…o sentido pleno da teoria é (grifo de Castoriadis), de acordo com a teoria em si, aquele que transparece na prática que se inspira” (I.I.S., p. 15), o “que se inspira” podendo ser, como desejar, uma correspondência, um prolongamento ou uma falsificação. O que podemos nos perguntar, nessas condições, é porque todos esses “praticantes” se inspiram “neste” texto e não em qualquer outro. Encontramos novamente, assim, a alusão feita mais acima à “Bíblia”. Mas essa interpretação apresenta uma outra dificuldade: Castoriadis emprega sem ressalvas o singular: o sentido da teoria é aquele que transparece na prática que se inspira. Todavia, o evangelho (que Castoriadis também cita) “inspirou” as comunidades primitivas, a vida nas catacumbas, as múltiplas “heresias”, os papas do Renascimento, a “Reforma” (precisamente para um “retorno aos textos”) e, hoje em dia, as práticas dos burgueses do séc. XVI, dos padres operários[28] e de uma parte da CFDT[29]. Da mesma forma “se inspiram” em Marx a URSS e as democracias populares alinhadas, Dubcek e Tito, Mao e as quatro seções antagonistas “trotskistas”. Alegar que a teoria é esse conjunto de práticas opostas equivale dizer que não existe teoria, e nos perguntamos por que tantas pessoas diversas “se inspiram nela”. A teoria está primeiramente nos textos. Castoriadis não ignora isso, e escreve mais adiante: “O Sermão na Montanha, o Manifesto Comunista pertencem à prática histórica tanto quanto uma invenção técnica e pesam, quanto a seus efeitos reais na história, com um peso infinitamente mais pesado” (I.I.S., p. 30). Caso contrário, por que Castoriadis teria passado seus últimos anos, após 1971, diz ele (I.I.S., p. 6), relendo Platão, Aristóteles, Kant, e até Alfred North Whitehead, que talvez não se distingue pela prática que ele inspirou?

Entende-se que o aparelhamento eclesiástico ou partidário, selecionando eventualmente listas de textos canônicos, se proclama contraditoriamente o único e autêntico praticante da teoria original; entende-se, igualmente, que aqueles que se incomodam com o texto dos evangelhos ou de Marx, alegam que o Evangelho não se distingue da Igreja de Roma nem Marx do socialismo stalinista. Uma tal atitude é ainda mais surpreendente da parte de um autor que conclui seu livro realçando que “o pensar político”, (mesmo se isso for entendido de uma forma marxista, como “o pensar político da sociedade como um fazer-se”) “é um composto essencial” […] “do fazer social dos homens” (I.I.S., p. 498). Se “o pensar” não tivesse uma tal importância, por que Castoriadis escreveria livros, por si só? De minha parte, acho que insistir sobre o fato de que os marxismos-leninismos não somente não esgotam, mas traem “o texto” de Marx, é um ato revolucionário fundamentado e, a prazo, eficaz, apesar das aparências de algumas décadas. A Reforma não foi instaurada séculos mais tarde após a instituição da Igreja Católica?

IV. O marxismo como método

Se fosse admitido que o marxismo não pode se reduzir às figuras contraditórias que ele “se tornou”, restaria ainda ilustrar a lista de “erros” de Marx e concluir disso que o texto em si (independente das práticas que ele “inspirou”) é, por si só, velho, inútil, falso. Sendo assim, ainda é necessário (para enterrar o marxismo) descartar a tese que interpreta o marxismo enquanto método.

Como qualquer membro da intelligentsia parisiense que só sabe, sobre isso, ficar repetindo Lucien Goldmann, Castoriadis atribui a Lukács a paternidade dessa interpretação do “marxismo como método”. Lukács escrevia, de fato, que “se supormos (…) que a pesquisa contemporânea {por exemplo, os trabalhos de Castoriadis} provou a inexatidão ‘de fato’ de todas as afirmações específicas de Marx, um marxista ortodoxo sério poderia reconhecer incondicionalmente todos esses novos resultados, rejeitar todas as teses específicas de Marx, sem, entretanto, por um só instante, ficar compelido a renunciar à sua ortodoxia marxista”.[30] Este texto é de 1919, mas em 1904 Max Adler e Rudolf Hilferding diziam, em geral, a mesma coisa, no prefácio ao primeiro volume do Marx-Studien [Estudos de Marx][31] e, um pouco depois, em um artigo publicado na ocasião do quadragésimo aniversário da publicação do primeiro livro do Capital, Otto Bauer compreendeu a consequência da interpretação do marxismo como método ao escrever: “cada geração, cada época e cada meio cultural tem o seu Marx”.[32]

Todas essas interpretações do marxismo como método arruínam fundamentalmente o projeto de Castoriadis de jogar o bebê fora junto com a água do banho, de concluir erros científicos ao rejeitar a ciência, de apresentar a obra de Marx como uma teoria consumada e imóvel, incapaz de dar conta do surgimento imprevisível da história. Nessa grave circunstância, qual será “o subterfúgio” de Castoriadis?

Este consiste em uma passagem ardilosa (para não dizer sofística) da noção de “método” com aquela de “categoria” (I.I.S., pp. 17-20). Ao afirmar simplesmente que “o método, no sentido filosófico,[33] nada mais é que o conjunto operante das categorias”, Castoriadis acha útil – para invalidar o marxismo enquanto método – nos servir um compêndio marxista-bachelardiano-gestaltista contra a teoria kantiana do conhecimento que ninguém sustenta, muito menos Lukács; certamente, que Lukács não seja kantiano, Castoriadis sabe e ele se livra desse “detalhe” ao escrever, sem hesitação, no fluxo de consciência, que Lukács “embora nutrido pela dialética, esquecia-se” (sou em quem grifa essa distração do filósofo húngaro)… “{que} o método não pode ser dessa forma separado do conteúdo”. Algo insignificante, efetivamente, para um teórico não apenas da dialética, mas da dialética da totalidade. Seguramente, como todo mundo, Lukács pode errar; não seria mais sério, todavia, no lugar de referi-lo em duas frases no quadro a priori das categorias kantianas, fazer um esforço para compreendê-lo? Sustentar que o método científico deve mudar a cada conquista é trocar o kantismo por um antikantismo mecânico; o desenvolvimento real das ciências não confirma de nenhum modo esse paralelismo binário à primeira vista. Mais ou menos na mesma época, no início dos anos 60, Sartre, ainda preocupado em situar em um bom ângulo “o existencialismo” em relação ao marxismo, sabia reconhecer – para além das aparências do “marxismo freado” (pelo stalinismo) – o valor heurístico do seu método: “longe de estar esgotado, o marxismo ainda é jovem, quase em sua infância: ele mal começou a se desenvolver”.[34] Que eu saiba, essa referência obrigou Sartre a refazer as análises do séc. XIX, ao tratamento kantiano naïf de Genet ou de Flaubert, e ele foi obrigado a “escolher entre continuar marxista ou continuar revolucionário” (I.I.S., p. 20). Pannekoek definia o marxismo como segue (contra Lenin): “A importância do marxismo não reside tanto nas regras que enuncia ou nas previsões que formula, mas no que é chamado de seu método, nesta afirmação fundamental que existe uma relação entre cada evento social e o conjunto do universo”.[35] Um quadro de categorias está um pouco distante e se não se quer chamar isso de “método”, que se chame de outro modo; Pannekoek de fato diz de forma prudente “o que é chamado de seu método”. Nessa perspectiva, a obra atual de Castoriadis permanece um produto do método marxista, senão de qual outro?[36]

V. O marxismo visto por Castoriadis como uma teoria fechada

Se o marxismo pode ser compreendido como um método, é óbvio que ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma teoria fechada. As observações que se seguem também não são nada além de uma reprise da mesma tese a partir de um outro ponto de vista.

Castoriadis nem sempre estimou (e o parabenizo por isso) que o marxismo fosse uma teoria fechada. Ele escrevia, de fato, em 1960: “Não há (grifado por Castoriadis) doutrina sistemática que poderia ser extraída da obra de Marx, pois essa contém elementos fundamentalmente contraditórios”.[37] Dizendo isto, ele estava, portanto, de acordo com outros bons conhecedores do marxismo. Korsch tinha, por sua parte, lembrado que Marx se defende contra os críticos que querem acusá-lo de ter combatido “sabe-se lá quais construções a priori ou até uma teoria geral, tendo um valor por assim dizer supra-histórico”.[38] Papaioannou confirma: “é absurdo procurar em Marx o que ele não é: um ‘saber integral’ ou um ‘sistema completo’”.[39] Quanto a Gurvitch, ele teve o mérito de ir um pouco além da simples constatação: “Falando das ‘leis da evolução econômica do capitalismo’ e caracterizando-as mesmo por vezes de ‘naturais’, Marx visa, na verdade, não leis gerais, mas regularidades tendenciais próprias ao regime capitalista (…) Se essa estrutura social muda, nenhuma lei econômica vale mais”.[40] Mas, Castoriadis não pôde beneficiar-se de todos esses conselhos que são (ao menos em língua francesa) posteriores ao n. 31 da revista Socialisme ou Barbarie. De qualquer forma, após ter reconhecido que não existe em Marx nenhuma doutrina sistemática, Castoriadis acrescenta, um pouco além, para ilustrar essa incoerência: “Em Salaire, prix et profit [Salário, preço e lucro] (constatação esta, especifica erroneamente Castoriadis, feita perante os operários ingleses muito antes do Capital)[41] Marx defende claramente a ideia justa de que a luta operária pode melhorar o nível dos salários. Essa ideia é abandonada em O Capital”.[42] Castoriadis repete: “Terminamos nesse enorme paradoxo: Marx, que descobriu a luta de classes (isto posto, Castoriadis se engana),[43] escreve uma obra monumental analisando o desenvolvimento do capitalismo, obra na qual a luta de classes é totalmente ausente”.[44] Já rimos (parágrafo 2) desse alegado “paradoxo” que Castoriadis quer justificar como uma evolução de Marx, embora os dois textos sejam contemporâneos. Eu só estou recordando-o aqui para mostrar o caráter surpreendente da passagem de um marxismo contraditório a um marxismo que tem o defeito de ser uma teoria fechada. Em qualquer um dos casos, Castoriadis se exprimiu de uma forma um pouco precipitada. Além disso, evocando “essa transformação do marxismo em teoria consumada” (I.I.S., p. 95, ver também pp. 78 ou 90), ele sente a necessidade de acrescentar uma nota que recopio: “Enquanto falamos de teoria consumada, não entendemos por isso, evidentemente, a forma da teoria; pouco importa se podemos encontrar um assunto sistemático “completo” (na verdade podemos, para o marxismo)[45] ou se os apoiadores da teoria protestam e afirmam que não querem constituir um novo sistema.[46] O que conta é o teor das ideias, e essas, no materialismo histórico, fixam irrevogavelmente a estrutura e o conteúdo da história da humanidade. O prefácio do Contribuição à crítica da economia política (1859) formula já de forma completa, apesar da sua brevidade, uma teoria da história tão plena e fechada quanto um ovo” (I.I.S., pp. 95-96, nota 69). Salvo que, seis anos mais tarde, em uma conferência perante o conselho general da A.I.T., Marx “defende claramente a ideia justa que a luta operária pode melhorar o nível dos salários” (Castoriadis dixit). Marx fez questão de nos proteger contra a miragem da teoria consumada que fascina Castoriadis, em seu Posfácio à segunda edição alemã do primeiro livro do Capital, datado de 24 de janeiro de 1873. O mínimo que poderíamos esperar de Castoriadis seria uma “crítica” desse texto e não um “pouco importa” casual do que pensa Marx dos seus escritos. Para aqueles que não possuem o mesmo desdenho, vejam o texto do Posfácio: “O processo de exposição (die Darstellungsweise) deve se distinguir formalmente do processo de investigação (die Forschungsweise). A investigação deve se apropriar da matéria em todos os detalhes, analisar disso as diversas formas (Entwicklungsformen) e descobrir as suas ligações íntimas. Uma vez cumprida essa tarefa, mas apenas então, o movimento real pode ser exposto em seu conjunto. Se conseguirmos isso, de modo que a vida da matéria se reflita em sua reprodução ideal, esta miragem pode dar a entender uma construção a priori[47].[48] De certa forma, Marx foi servido pela elegância da sua síntese, porém, ele nunca foi vítima do seu próprio espelho, pois estimava como mais oportuno, aparentemente, refazer o primeiro livro do que concluir o seguinte, e que de qualquer forma o próprio “não era marxista”! Raramente encontramos hoje o mesmo distanciamento humorístico perante a “grande teoria” ou a grande teoria dissimulada sob a “demonstração” da impossibilidade de qualquer grande teoria. Castoriadis vai até o ponto de induzir da grande teoria que Marx rejeita a não sei qual ontologia de Parmênides do ser imóvel, enquanto que Marx, em seguida no mesmo texto, especifica que a dialética (por essência, revolucionária) está em luta com o próprio movimento do qual toda forma feita (jede gewordne form – o que inclui, ao mesmo tempo, os escritos de Marx e Castoriadis) não passa de uma configuração provisória”.[49] Podemos acrescentar, sobre isso (como Maximilien Rubel bem destacou) que Marx reprovava essencialmente aos socialistas utópicos de se ater a sistemas fechados em lugar de estudar o movimento real, especialmente o operário.

Nessas condições, repetir que Marx produz uma teoria fechada que remete a uma ontologia imóvel demonstra uma dedução autista que desencoraja o diálogo.

O balanço do “balanço provisório” do marxismo se consuma assim, de forma infeliz e por aplicação do princípio: “Amicus Plato sed magis amica veritas [estimo Platão, mas amo mais a verdade].[50] Com certeza, “a verdade” a partir da qual me pronuncio não é de forma alguma A Verdade, mas aquela que aparece do ponto de vista onde me encontro, junto a alguns outros.


[1] “Nota do tradutor” será abreviado como “N.T.”. E “Nota da revisora” como “N.R.”.

[2] N.T.: no original, Bourdet utiliza colchetes para colocar comentários e adendos às suas traduções. Isto posto, todos os colchetes são do tradutor e os colchetes de Bourdet tornaram-se chaves, para evitar confusões entre as minhas traduções e as dele.

[3] Ver a nota de Henri Aubier, no número 28-29 da Autogestion et Socialisme [Autogestão e Socialismo], janeiro de 1975, pp. 190-193.

[4] Castoriadis (Cornelius), L’institution imaginaire de la société, Paris, Éd. du Seuil, 1975, 500 p. [N.T.: original em francês] – (Nas notas que se seguem, designarei esse livro pelas iniciais I.I.S.).

[5] “Este livro poderá parecer heterogêneo. Ele o é, de certa forma…” (I.I.S., p. 5).

[6] Essa escrita do grego em latim (sem dúvidas imposta pelo impressor) parece mais do que vã; para aqueles que praticaram pouco o grego a ponto de não saberem ler o seu alfabeto, tais referências – mesmo que muitas vezes traduzidas – não enriquecem a percepção semântica, dado que só possuem sentido por meio da mediação de uma compreensão de conjunto da filosofia grega. Aparecem muito como um pedantismo elitista e encontrei antigos membros do grupo Socialisme ou Barbarie que se negam a ler. Em sua reedição, Castoriadis não apenas consagrou, mas atualizou uma nota “maldosa” contra Jean-François Lyotard zombado como “agregado de filosofia”. O azar é que os intelectuais dessa categoria – obrigados que foram, durante a “apresentação final oral”, a comentar um texto grego sem poder usar traduções – são cerca de os únicos a poderem ler com prazer as considerações atuais de Castoriadis sobre as variações contrastadas do “mesmo e do outro” no espaço e no tempo.

[7] Esses “defeitos”, de fato, (quase) desapareceram na segunda parte da obra, redigida dez anos mais tarde, salvo algumas “recaídas” no capítulo VI, sobre a psicanálise; evocando, por exemplo (p. 417, nota 38) o sucesso de Deleuze e Guattari, tratados casualmente como saqueadores, parasitas e impostores, Castoriadis se deixa levar ao ponto de balbuciar um “dede-guagua”; se o respondêssemos por um “chauchau-caca”, será que a discussão estaria mais avançada?

[8] Ver uma primeira reação: “Marximo “aberto” ou “em curso”, na Arguments, n.5, dezembro de 1957, pp. 17-19.

[9] Communisme et marxisme [Comunismo e marxismo], Paris, Michel Brient, 1963.

[10] Socialisme ou Barbarie, n. 35, janeiro-março de 1964, p. 125.

[11] N.T.: “…em meio ao microcosmo da margem esquerda de Paris” (dans le Landerneau parisien de la Rive Gauche).

[12] “Salvo engano ou omissão” de minha parte, a qualificação de “provisório”, empregada por Castoriadis, não está explicitamente justificada, nem mesmo “explicada”. Será necessário ver uma prudência em consideração de uma eventual ressurreição (ou sobrevida) do marxismo, a previsão de uma autocrítica (observar já fórmulas mais nuançadas na segunda parte mais recente, p. 239 e seguintes) ou, pelo contrário, anunciar novos golpes?

[13] Bibliothèque de la Pleiade[Biblioteca da Plêiade], I, p. 173.

[14] Bibliothèque de la Pleiade, I, 1240 (Rubel coloca esse penúltimo capítulo em “conclusão” do livro I).

[15] Pleiade, II, pp. 1032 e 1766, nota 1032.

[16] I.I.S., p. 46.

[17] Citado por Maximilien Rubel, em Karl Marx, Oeuvres, économie II [Obras, economia II], Bibliothèque de la Pleiade, “introdução”, p. CXXI.

[18] Livro III do Capital, Pleiade, p. 1028.

[19] Rudolf Hilferding, Le capital financier [O capital financeiro], traduzido por Marcel Ollivier, Paris, Les Éditions de Minuit, 1970, 499 p.

[20] Socialisme ou Barbarie, n. 35, janeiro-março de 1964, p. 125.

[21] I.I.S., p. 6.

[22] N.T.: Referência ao “problema do fazendeiro, o lobo, o carneiro e a alface”.

[23] Engels escreveu sete relatórios dos quais seis apareceram de outubro de 1867 à março de 1868 em diversos jornais. Eles foram “reprisados” em Marx/Engels, Kleine ökonomische Schriften [Breves escritos econômicos], Berlim, Dietz Verlag, 1955, pp. 289-314.

[24] Lettres sur “le Capital” [Cartas sobre “o Capital”], Paris, Éd. Sociales, 1964, p. 190.

[25] N.T.: Bourdet, traduzindo as cartas do alemão, ressalta que Marx escreveu “apesar dele” (malgré lui) em francês.

[26] Ibid., p. 191. Engels utilizou fielmente as indicações de Marx para redigir o seu relatório que apareceu em Beobachter, em 27 de dezembro de 1867.

[27] Carta de Engels a Marx de 12 de dezembro de 1867, em Correspondance Marx/Engels [Correspondências Marx/Engels] Paris, Alfred Costes, 1934, tomo IX, p. 270.

[28] N.R.: “Pêtre ouvrier” traduzimos como “padre operário”. Segundo a Encyclopædia Universalis online, “Dá-se de bom grado o título de ‘padre operário’ a todo padre que se faz próximo e compreensível, atento à vida ordinária e às dificuldades das pessoas simples, ainda que ele não exerça um emprego assalariado”. Fonte : « PRÊTRES-OUVRIERS », Encyclopædia Universalis [online]. Acesso em : 16 mai. 2021. Disponível em : https://www.universalis.fr/encyclopedie/pretres-ouvriers/.

[29] N.R.: Provavelmente refere-se à Confédération française démocratique du travail [Confederação francesa democrática do trabalho], criada em 1964, mas que após algum tempo abandonou a sua referência cristã outrora existente. Fonte: René MOURIAUX, « C.F.D.T. (Confédération française démocratique du travail) », Encyclopædia Universalis [online]. Acesso em : 16 mai. 2021. Disponível em: https://www.universalis.fr/encyclopedie/confederation-francaise-democratique-du-travail/

[30] Histoire et conscience de classe [História e consciência de classe], Paris, Éd. De Minuit, 1960, pp. 17-18.

[31] Marx-Studien, Blättern zur Theorie und Politik des wissenschaftlichen Sozialismus [Estudos de Marx, ensaios sobre teoria e política do socialismo científico], Viena, 1904.

[32]Histoire d’un livre” [História de um livro] em Die Neue Zeit [Os Novos Tempos], 1908, tradução francesa em Economies et sociétés [Economias e sociedades], junho de 1967, p. 197.

[33] Essa especificidade tem sua função “terrorista”: se você não amalgamar “método” e “categoria”, você tomará o termo “método” em sua “acepção mais superficial”, a mais “pueril”.

[34] Critique de la Raison dialectique [Crítica da razão dialética], Paris, Gallimard, 1960, p. 29.

[35] Lénine philosophe [Lenin filósofo], Paris, Spartacus, 1970, p. 51.

[36] Ver, por exemplo, o prefácio do I.I.S., principalmente p. 8. Se Castoriadis quiser, de fato, evitar que seus escritos não sejam nada além de uma conquista individual ou uma baba que não indica mais as horas como os célebres “relógios moles” [N.T.: referência ao quadro de Salvador Dalí], ele não pode evitar a pesquisa crítica de um consenso social.

[37] Socialisme ou Barbarie, n. 31, dez. 1960 – fev. 1961, p. 66, nota 13.

[38] Marxisme et philosophie [Marxismo e filosofia], trad. Claude Orsoni, Paris, Éd. de Minuit, 1964, p. 97, nota 35. Korsch se calca no Posfácio da segunda edição alemã do Capital (que comentarei em breve) e na carta de Marx a Michaïlovski, de novembro de 1877, à qual podemos acrescentar a resposta de Marx à Vera Zassoulitch, de 8 de março de 1881.

[39] “Le mythe de la dialectique” [O mito da dialética] em Le contrat social [O contrato social], n. 6, 1964, p. 374.

[40] Dialectique et sociologie [Dialética e sociologia], 1962, p. 144.

[41] Trata-se, na verdade, de uma conferência feita por Marx durante duas reuniões do Conselho general da AIT em 20 e 27 de junho de 1865. Marx estava então prestes a terminar a elaboração do primeiro livro do Capital quando escrevia a Engels, em 24 de junho de 1865, que ele introduziu em sua conferência “de forma extremamente condensada” (…) “diversas ideias novas em que {ele} antecipa sobre {o seu} livro” (O Capital, que apareceria em 1867).

[42] Socialisme ou Barbarie, n. 31, p. 72, nota 21.

[43] “Não é a mim que vem o mérito de ter descoberto a existência das classes na sociedade moderna, nem a sua luta entre elas”. (Carta de Marx a Weydemeyer, de 5 de março de 1852).

[44] Socialisme ou Barbarie, n. 31, p. 79.

[45] Os parênteses são de Castoriadis.

[46] Saudemos essa jactância de Castoriadis – que começava, sem dúvida, à época, a favorecer a {psico} análise; ele alega saber mais sobre as intenções científicas de Marx do que o próprio Marx, e é a partir da “leitura” que sabemos. Castoriadis afirma também que ele não quer substituir a teoria de Marx por uma outra (a sua, sem dúvidas). Será necessário aplicar a ele, apesar dele mesmo, seu próprio sistema de interpretação: “pouco importa!… etc.?” ou devemos nos contentar de admirar nele uma abordagem de espírito kantiano que não substitui uma metafísica por uma outra, mas pela determinação da impossibilidade de qualquer metafísica? Ele não escreveu os seus “não existe” e “sempre existirá” (I.I.S., pp. 152, 156, 44)?

[47] O Capital, Éd. Sociales, 1959, tomo I, p. 29.

[48] N.R.: Versão francesa dessa passagem do pósfácio do Capital apresentada pelo Bourdet: « Le procédé d’exposition (die Darstellungsweise) doit se distinguer formellement du procédé d’investigation (die Forschungsweise). A l’investigation de faire la matière sienne dans tous ses détails, d’en analyser les diverses formes (Entwicklungsformen) et de découvrir leur lien intime. Une fois cette tâche accomplie, mais seulement alors, le mouvement réel peut être exposé dans son ensemble. Si l’on y réussit, de sorte que la vie de la matière se réfléchisse dans sa reproduction idéale, ce mirage peut faire croire à une construction a priori »

[49] Ibid.

[50] Justifica-se – ao invés do grego – essa tradução latina de uma frase de Ética a Nicômaco que deve certamente estar nas páginas rosas do Petit Larousse [Pequeno Larousse]. De resto, Castoriadis não saberia se surpreender pelo conteúdo nem pelo tom desta crítica. Esse tom, pouco amigável, foi um tipo de jogo tradicional nas discussões da extrema-esquerda; era, sem dúvidas, uma forma de se distanciar da “polidez burguesa”, da cortesia acadêmica, esse “dogmatismo ornamentado com um talvez”. Quanto ao fundo, constituía o essencial de uma “crítica de Cardan” que eu tinha feito a Castoriadis nos últimos tempos da revista Socialisme ou Barbarie. Se me lembro bem, Castoriadis fez com que fosse composta, mas ela não pôde aparecer.

Traduzido por Breno Teles, a partir da versão disponível em:
https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/autogestion/autogestion/autogestion-n33-34.pdf. Revisado por Aline Ferreira.

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