A Inserção das Mulheres na Classe Intelectual – Jaciara Veiga & Nildo Viana

Nosso trabalho visa resgatar o processo histórico de inserção das mulheres na intelectualidade como classe social. Tendo em vista que a intelectualidade como classe social começa a emergir a partir do século 16, buscaremos entender porque somente a partir do iluminismo é que aparece o nome de apenas duas mulheres como “intelectuais”; e que somente no século 19 essa situação começa a se alterar, com a ascensão do movimento socialista e feminino. Assim, o presente artigo buscará resgatar um pouco da história dessa inserção, o momento em que ela ocorre e suas características.

A compreensão acerca da inserção tardia da mulher na intelectualidade depende do entendimento do processo social e histórico de formação da intelectualidade enquanto classe social na sociedade capitalista, o que, por sua vez, remete ao problema da mulher e sua marginalização em determinadas relações e atividades sociais. Os estudos sobre a origem da intelectualidade se referem ao caso dos homens que foram pioneiros, na sociedade moderna, na participação da formação dessa classe social, sendo que poucas mulheres participaram mais efetivamente desse processo. Nesse sentido, o estudo visa retomar e problematizar a questão de tal inserção, discutindo quando e como ocorreu, além de suas formas, a partir de uma concepção totalizante que aborda o desenvolvimento das relações entre homens e mulheres na sociedade moderna como um dos elementos explicativos desse fenômeno da inserção tardia das mulheres na classe social da intelectualidade. 

Contudo, percebemos que existe pouco material que trata da inserção da mulher na classe intelectual – menos ainda no sentido que fornecemos a este termo – o que nos levou a fazer uma periodização desse processo de inserção: a recusa da integração da mulher na intelectualidade (do século 16 até o final do século 18); a luta das mulheres pela inserção (século 19); a inserção marginalizada (do início do século 20 até a Segunda Guerra Mundial); a ampliação da participação feminina na classe intelectual (Pós-Segunda Guerra Mundial).

A Classe Intelectual

Existem diversas concepções de intelectualidade. Uma das questões fundamentais nestas concepções reside em que tipo de coletividade ela pode ser identificada. Há algumas posições mais difundidas a este respeito. Para alguns, a intelectualidade é uma “camada social”; para outros é uma “classe social”, enquanto alguns pensam que não se trata nem de classe, nem de camada, sendo de difícil definição. Vamos expor resumidamente estas posições para delimitar melhor nossa posição.

Para Gérard Leclerc “o intelectual parece fazer parte daquelas categorias sociais problemáticas que não são nem classes, nem profissões” (LECLERC, 2005, p. 10). Segundo Lipset (2005) os intelectuais são “os que criam, distribuem e põem em prática a cultura, ou seja, o mundo simbólico próprio da humanidade, o qual compreende a arte, a ciência, a religião” (apud LECLERC, p. 16). Coser (2005) define os intelectuais “como indivíduos ‘concernidos pelos valores centrais da sociedade’ (core values of society) ou que se interessam pelo mundo simbólico constituído pela cultura” (apud LECLERC, p. 16).

Tais concepções acabam sendo problemáticas por não localizar a intelectualidade no conjunto da sociedade, na divisão social do trabalho e assim não expressa que tipo de coletividade é a intelectualidade, o que é fundamental para usar o próprio termo. Afinal, se não se trata de nenhuma coletividade, então o uso do termo “intelectualidade” se vê comprometido.

Uma outra posição concebe que a intelectualidade é uma camada social. Segundo Michael Löwy, o intelectual é um “ser bizarro” e “difícil de classificar”. Ele afirma que os intelectuais não são uma classe e sim uma categoria social. Eles, tal como os burocratas e militares, não estão ligados ao processo de produção. Enquanto burocratas e militares se relacionam com o político, os intelectuais se relacionam com a superestrutura ideológica da sociedade.

Quer dizer: os intelectuais são uma categoria social definida por seu papel ideológico: eles são os produtores diretos da esfera ideológica, os criadores de produtos ideológico-culturais. Ocupam, então, um lugar específico naquilo que se poderia chamar de processo de produção ideológica, o lugar dos produtores imediato, que se distingue daquele do empresário, do administrador ou do distribuidor de bens culturais. Os intelectuais assim definidos compreendem grupos como os de escritores, artistas, poetas, filósofos, sábios, pesquisadores, publicistas, teólogos, certos tipos de jornalistas, certos tipos de professores e estudantes, etc. Eles constituem o setor ‘criador’ de uma massa mais ampla de ‘trabalhadores intelectuais’ (por oposição aos ‘trabalhadores manuais’) que inclui as profissões liberais, os empregados, os técnicos, etc. São também o setor desta mais distante da produção econômica (LÖWY, 1979, p. 1).

Nildo Viana apresenta uma crítica a tal concepção, que seria, ela sim, “bizarra”:

Esta definição é que é bizarra, além de ser inexata e sua fundamentação demasiada fraca para ser convincente. Em primeiro lugar, a discussão é superficial e busca em apenas uma página resolver o problema da posição do intelectual na divisão social do trabalho. Em segundo lugar, confunde condição social e origem social (ou, em nossos termos, origem de classe e condição de classe), ao colocar que o intelectual pode ser recrutado em qualquer classe ou “camada”. Aqui se revela a confusão entre o produtor de ideias e o profissional do trabalho intelectual, sendo que Gramsci já havia feito a distinção entre intelectuais profissionais e produtores de ideias. Em terceiro lugar, apresenta uma concepção limitada de classes sociais (“não se definem por seu lugar no processo de produção”), que nem sequer é discutida e aprofundada. Em quarto lugar, a discussão sobre “categoria social” não é desenvolvida, apenas se coloca que são grupos ligados à superestrutura (ao “político” ou “ideológico”) (VIANA, 2010a).

Viana coloca que Gramsci (1992) já havia avançado mais ao distinguir entre intelectuais profissionais, aqueles que exercem funções de intelectuais, e os pensadores, aqueles que produzem ideias. Ele acrescenta que Löwy não indica nenhuma bibliografia sobre este assunto, o que revela, novamente, sua superficialidade. A raiz desta concepção, segundo Viana, se encontra na tradição leninista. A concepção de classes sociais em Lênin, de caráter economicista, reduz ao problema da posse ou não posse dos meios de produção (VIANA, 2012a). Essa é a mesma posição de Poulantzas (1977) e Cueva (1974) e é explicitada de forma mais cristalina por Harnecker (1980) ou Ermakova e Rátnikov (1986). O pretexto para afirmar que a intelectualidade (e a burocracia) não constituem classes sociais é a suposta necessidade de relações diretas com os meios de produção, afirmação nunca feita por Marx e que consta da definição leninista de classes (VIANA, 2012a).

Outros autores, a partir de distintas perspectivas teórico-metodológicas e definição de classes sociais, consideram a intelectualidade como uma classe social. Steven Gouldner define os intelectuais como uma “nova classe”. Para ele, essa “nova classe é elitista e egoísta; usa seu conhecimento especial para promover seus interesses e seu próprio poder, e para controlar sua própria situação de trabalho” (GOULDNER, 1985, p. 20). Outro autor que compartilha com a tese de que a intelectualidade é uma classe social é Kraus:

Os intelectuais são uma classe própria, a quinta classe, que veio no primeiro plano na nova época. Sua promoção não se produziu no alvoroço das lutas de barricadas, senão no silêncio dos laboratórios, dentro das oficinas de planificação e dos quartos de estúdio, enquanto a atenção pública estava reclamando por acontecimentos inteiramente distintos (KRAUS, 1968, p. 92).

Viana (2006a) define os intelectuais “como uma classe social composta pelos indivíduos dedicados exclusivamente ao trabalho intelectual, com interesses próprios, particulares, ligados aos interesses da classe dominante”. Esta é a posição que adotaremos para definir o lugar social da intelectualidade. Para Viana, seguindo Marx (2007), uma classe social se define por possuir um modo de vida, interesses e oposição comum a outras classes sociais, derivadas de sua atividade fixa na divisão social do trabalho, que, por sua vez, é determinada pelas relações de produção dominantes (VIANA, 2012a). O autor demonstra que os intelectuais possuem um modo de vida comum, bem como interesses comuns. Da mesma forma, possuem oposição comum a outras classes sociais, além de possuir uma atividade fixa na divisão social do trabalho, acima aludida, que é o trabalho intelectual, sendo a classe responsável pela produção cultural da sociedade. Essa posição na divisão social do trabalho, por sua vez, é derivada das relações de produção dominantes, as relações de produção capitalistas, que fazem emergir uma imensa “superestrutura” (formas de regularização ou “formas jurídicas, políticas e ideológicas”) e indivíduos especializados em atividades desta, cujo objetivo é reproduzir tais relações de produção. Trata-se, portanto, de uma classe social que ocupa determinado papel no processo de reprodução da sociedade; uma classe auxiliar da classe dominante, cuja função é reproduzir os interesses dessa mesma classe (VIANA, 2006a).

O produto do seu trabalho é, geralmente, a ideologia – expressão sistemática da falsa consciência da realidade[1]. Os intelectuais são responsáveis pela produção de ideias falsas, transformando-as em saber sistemático como a ciência, a teologia, a filosofia. Ou seja, eles produzem um processo de sistematização dessas falsas ideias, transformando-as em um saber legítimo. Esse saber legítimo passa a legitimar as relações sociais existentes que, por sua vez, tem o papel de naturalizá-las e universalizá-las, através do seu discurso que é considerado verdadeiro (VIANA, 2006a).

Na sociedade moderna os intelectuais são, fundamentalmente, cientistas (em menor grau também são artistas, filósofos, teólogos, etc.). São trabalhadores assalariados (improdutivos, ou seja, não produzem mais-valor) que vendem sua força de trabalho e recebem um salário em troca, sendo este geralmente superior ao dos trabalhadores manuais e a fonte de sua renda vem do mais-valor global que é repartido na sociedade (VIANA, 2012a). Sua produção é subordinada aos interesses da classe dominante, portanto, são agentes da conservação, pois seus privilégios e sua existência são condicionados à manutenção da sociedade atual (VIANA, 2006a).

A Opressão Feminina

Antes de buscarmos resgatar o processo histórico de inserção da mulher na intelectualidade, buscamos compreender, anteriormente, como se dá sua inserção na sociedade (no conjunto das relações sociais) moderna. Este ponto é fundamental, pois a compreensão da relação entre as mulheres e a sociedade é indispensável para compreender sua inserção na classe intelectual, que é uma classe privilegiada na sociedade capitalista. Nesse contexto, o tema da opressão feminina na sociedade capitalista é indispensável para se pensar esse processo de inserção, inclusive para compreender a inserção tardia e marginalizada[2].

A existência feminina ocorre sob diferentes formas em cada sociedade, onde cada uma possui relações sociais distintas. Por conseguinte, a condição das mulheres em cada sociedade, varia historicamente, ou seja, a condição muda à medida que a realidade social dá lugar a outra (VIANA, 2006b). Na sociedade capitalista, a mulher é inserida na dinâmica do modo de produção capitalista de forma direta com sua inserção no mercado de trabalho. Ora, se antes estava destinada ao trabalho doméstico, agora, pois, está subordinada à dinâmica do capital.

As relações de produção, que durante tantos séculos mantiveram a mulher trancada em casa e submetida ao marido, que a sustentava, são as mesmas que, ao arrancar as correntes enferrujadas que a aprisionavam, impelem a mulher frágil e inadaptada à luta do cotidiano e a submetem à dependência econômica do capital (KOLLONTAI, 2000, p. 16).

Porém, essa inserção se dá de forma ainda marginalizada e subordinada. Na sociedade capitalista, a mulher também é oprimida e esta opressão ocorre sob diversas formas, tal como através da mercantilização e alienação (VIANA, 2010b). Mesmo sendo inseridas no mercado de trabalho, algumas mulheres são destinadas a atividades domésticas, por exemplo, e ainda lhe são recusadas outras atividades; além de existir um processo de desvaloração das atividades destinadas às mulheres e valoração das atividades hegemonicamente masculinas, dentre as quais, está o trabalho intelectual.

Segundo Viana (2006b),

A opressão feminina surge nas sociedades de classes. É com o surgimento das classes sociais que o modo de produção se torna um modo de relações de classes, e se cria um conjunto de formas de regularização das relações sociais para controlar a luta de classes e possibilitar a reprodução da dominação de classe (p. 27).

Nesse sentido, faz-se necessário a regularização das relações sexuais para a manutenção da propriedade privada. A mulher, com seu papel reprodutivo, torna-se mais regularizada nesta relação (VIANA, 2006b).

Regime de acumulação, lutas femininas e inserção tardia da mulher na intelectualidade

O nosso propósito é analisar a inserção tardia da mulher na classe intelectual. Contudo, devido à sua opressão, e pouca produção feminina ou sobre as mulheres no interior da intelectualidade, são poucos os materiais existentes sobre esse aspecto, principalmente, no que se refere ao que pretendemos trabalhar. Isso, no entanto, não impediu que fizéssemos uma análise de tal inserção e observar que ela foi lenta e pode ser dividida em diversos períodos. Por isso, realizaremos uma periodização desse processo de inserção, a saber: a recusa da integração da mulher na intelectualidade (do século 16 até final do século 18); a luta das mulheres pela inserção (século 19); a inserção marginalizada (do início do século 20 até a Segunda Guerra Mundial); a ampliação da participação feminina na classe intelectual (Pós-Segunda Guerra Mundial)[3].

O primeiro período, que vai do século 16 até o final do século 18, é marcado pelo processo de formação do capitalismo e da classe intelectual. É a época do capitalismo comercial ou “manufatureiro”, no qual o predomínio do capital comercial proporcionava a supremacia do capital industrial (MARX, 1988; VIANA, 2003). Essa é a época da “acumulação primitiva de capital”, que convivia com uma rudimentar e marginal acumulação capitalista propriamente dita, e que abre espaço para a expansão e supremacia desta após a Revolução Industrial (MARX, 1988). Nesse contexto, há uma expansão da divisão social do trabalho e formação de formas culturais e institucionais adequadas ao modo de produção nascente. Assim, ainda de forma embrionária e se ampliando com o desenvolvimento histórico (que abrange quase três séculos), vão surgindo novas classes sociais, e, entre elas, a intelectualidade. A superação do feudalismo marca o renascimento das cidades e expansão comercial, que permite maior autonomização dos trabalhadores intelectuais, que vão, paulatinamente, fugindo da área de domínio da Igreja. O processo que vai do Renascimento ao lluminismo marca a constituição da intelectualidade como classe social.

Nesse período, há um processo de recusa da aceitação da produção intelectual da mulher, por um lado, e não participação efetiva das mulheres no processo de formação da classe intelectual na sociedade capitalista. A chamada “Revolução Científica” promoveu mutações no pensamento, que ultrapassava os limites do feudalismo e do pensamento medieval. A formação das ciências naturais, que vai se estruturando e autonomizando cada vez mais, é apenas um elemento desse processo. O racionalismo, desde Descartes, e o humanismo, vão se consolidando. A esfera artística começa a se formar (VIANA, 2007). O que até então era explicado através da religião, dá lugar a uma nova forma de pensar – mais estruturada e sistemática – a ciência. Lúcia Tosi afirma que

A separação do mundo do espírito do mundo da matéria foi um passo fundamental para o desenvolvimento da ciência, pois deixava intacto o poder e a autoridade da religião no primeiro, e permitia utilizar a experimentação para investigar o segundo (TOSI, 1998, p. 372).

Esse aspecto é apenas um detalhe de um processo de mutação mais amplo. A passagem do feudalismo para o capitalismo marca uma ruptura cultural, pois a emergência de novas classes sociais (especialmente, nesse primeiro momento, da burguesia), gera não somente novas relações sociais, novos processo de produção e reprodução da vida material (expansão comercial, emergência da manufatura, etc.) e transformações políticas (estado absolutista, por exemplo), como novas necessidades, novos conflitos e também mudanças no cotidiano e emergência de embriões de novas classes e grupos sociais. Nesse contexto, a classe dominante, a burguesia, necessitava de combater as ideologias feudais e criar suas próprias ideologias. A filosofia e a ciência são as primeiras formas pelas quais a burguesia produz sua forma de pensamento. Contudo, a classe burguesa era ainda demasiada fraca para fazer valer seus interesses como dominantes e tinha que se submeter ao poder da nobreza. Esse processo ocorria através da luta entre essas duas classes e outras que participavam, do lado de uma ou de outra. É nesse contexto que ocorre a chamada “caça às bruxas”.

Assim, apesar da emergência do Renascimento e do racionalismo a partir do século 16, bem como os primeiros passos das ciências naturais, especialmente a física, elas ainda não eram as concepções dominantes na sociedade. O processo cultural caminhava para mudanças e para um progressivo predomínio da explicação científica sobre outras formas de explicação. No entanto, esse processo passou por conflitos, tal como os surtos de perseguição à bruxaria, cuja característica mais marcante é a criminalização das mulheres e por isso esse aspecto nos interessa mais intensamente.

Arquivos mostram que a maior parte dos culpabilizados nos processos de bruxaria eram as mulheres, principalmente as “sem dono” – pai ou marido – que faziam parte das categorias marginais e eram consideradas suspeitas. Nesse momento, se construiu o estereótipo da bruxa e a bruxaria foi considerada uma prática demoníaca. A mulher, nesse contexto, era considerada o principal agente do demônio. Esse papel cabia, principalmente, à mulher sábia. Portadora de conhecimentos empíricos – praticados desde épocas ancestrais – doravante considerados suspeitos. Nesse sentido, “afirmava-se que dada sua fraqueza física e moral, sua limitada inteligência, sua carência de raciocínio, sua sexualidade incontrolável e sua lubricidade, a mulher era a vítima privilegiada do Satã” (TOSI, 1998, p. 375). Portanto, seu saber e seus misteriosos poderes só poderiam ser obtidos por meio do pacto com o demônio (TOSI, 1998).

A perseguição tem seu fim com a nova concepção de mundo que surge junto com a chamada “Revolução Científica”, onde a alfabetização das mulheres experimentou um progresso irreversível. Contudo, apesar das lutas pelo direito à educação, “o saber ‘excessivo’ das mulheres era considerado chocante e contrário às boas maneiras” (TOSI, 1998, p. 378). Segundo Souza (2003), as diferenças fisiológicas e intelectuais que separavam homens e mulheres eram constantemente focalizadas pelos filósofos iluministas, e que, apesar de serem complementares, os homens apresentam-se superiores às mulheres, por aqueles dominarem a razão, enquanto que na mulher o que predominava era o útero – sendo este o definidor de sua personalidade, de toda sua maneira de ser, pensar e agir. Desse modo, para Hunt (2003), o útero seria o definidor do lugar das mulheres na sociedade como mãe (apud SOUZA, 2003, p. 114). Logo, sua educação deveria estar voltada para o lar e para a maternidade, pois

O excesso de sensibilidade dificulta enormemente a evolução da inteligência feminina do mundo sensível para o inteligível, isto é, do prático para o abstrato. Por causa da sua fisiologia, a mulher é um ser imutável. E, por isso, não participa da evolução histórica da humanidade, que tem na razão uma das suas molas propulsoras (SOUZA, 2003, p. 114). 

Ou seja, “toda atividade intelectual é desaconselhada por contrariar seu destino biológico” (TOSI, 1997, p. 379). O que se nota é que a justificativa divina foi substituída pela justificativa científica. Apesar de toda essa situação de perseguição e submissão, as mulheres empenhavam-se na luta pela sua inserção na intelectualidade e em outros setores da sociedade, rompendo com os valores dominantes que lhes atribuía um lugar – definido biologicamente – na vida social. 

Porém, a partir do século 18, ocorrem mudanças sociais que exercem impacto nas lutas femininas. Essas mudanças sociais são a consolidação da burguesia como classe dominante e a instauração da supremacia do capital industrial e da acumulação capitalista propriamente dita[4]. As lutas femininas em busca dos direitos civis e cidadania política se fortalecem no século 18, principalmente no seu final, no bojo das revoluções burguesas. Essas revoluções promoviam uma ampla mobilização social e popular, jogava o proletariado na luta de classes, criava um clima cultural de questionamento e novas possibilidades. Nesse contexto histórico, as lutas femininas ganham impulso e abrem espaço para uma maior participação intelectual da mulher nas lutas sociais.

Na Revolução Francesa, por exemplo, além das duas mulheres (Charlotte Corday e Maria Antonieta) que apareceram na literatura, várias mulheres das classes inferiores se fizeram presentes participando de sublevações e protestos. Como é o caso de Marie Olympe de Gouges, uma das mais atuantes líderes do feminismo popular. Gouges era sensível à realidade política das mulheres; gastou a maior parte de sua fortuna (herdada do segundo casamento) com impressões de panfletos políticos de sua autoria e com a escrita e representação de peças teatrais de caráter político; participou intensamente da Revolução, estando presente nas galerias da Assembleia Nacional, nos salões literários, nos cafés e nas manifestações de rua. Além disso, no auge de sua militância política publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em setembro de 1791 (SOUZA, 2003).

A declaração feita por Gouges é importante não somente por defender a liberdade de opinião das mulheres, mas também porque, ao buscar garantir direitos políticos para as mulheres, amplia sua participação social em geral e, por conseguinte, intelectual, fundamental para a inserção na classe intelectual. Sobre o primeiro ponto, podemos observar o trecho a seguir:

A livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos da mulher, visto que essa liberdade assegura a legitimidade dos pais para com os seus filhos. Toda cidadã pode, então, dizer livremente: eu sou mãe de um filho que te pertence, sem que um preconceito bárbaro a force a dissimular a verdade: ela deve responder pelo abuso desta liberdade nos casos determinados pela lei (GOUGES apud SOUZA, 2003, p. 119).

A importância histórica desse documento também remete ao fato de ter sido escrito por uma mulher, numa época em que isso era pouco comum, devido ao grande índice de analfabetismo, principalmente entre as mulheres. O outro aspecto é que por ser um manifesto – produção intelectual, portanto – já é uma demonstração da capacidade feminina de produção escrita de qualidade e que, portanto, abria portas para novas incursões femininas na produção cultural.

Essas lutas abrem espaço para uma maior inserção da mulher na produção intelectual profissional. No século 19 inicia a luta pela inserção das mulheres na classe intelectual, ou seja, nas chamadas “profissões intelectuais”, formas de subdivisão da intelectualidade como classe social. Contudo, essa luta não foi fácil e nem rendeu resultados imediatos. Devido a situação de opressão da mulher, as primeiras iniciativas ocorriam através de mulheres que eram esposas de cientistas e outros intelectuais. Elas não eram, na maioria dos casos, profissionais e sim esposas de profissionais que produziam intelectualmente como não-profissionais. Essa produção já demonstrava, a nível social, a capacidade feminina de produção intelectual, o que era questionado por muitos nessa época. Um exemplo de demonstração da capacidade intelectual da mulher é o da Mary Fairfax Grieg Somerville que, assim afirma Mourão (2012),

A tolerância em relação às astrônomas começou a mudar um pouco com Mary Fairfax Grieg Somerville (1780-1872) – famosa pela tradução para o inglês da obra Traité de mécanique celeste (1799-1825, Tratado de mecânica celeste) do matemático e astrônomo francês Pierre Simon de Laplace (1749-1827), que liderou as primeiras lutas “feministas” de seu tempo, a favor dos direitos das mulheres.

Contudo, ainda na segunda metade do século 19, nos Estados Unidos, ainda era forte o preconceito contra as mulheres na esfera científica. E este só começou a partir de um conjunto de mudanças sociais e também graças à demonstração do talento e da qualidade do trabalho feminino, como é o exemplo da astrônoma Maria Mitchell (1818-1889) que começou a ensinar em 1876, ou seja, aqui temos a inserção prática na classe intelectual, o que abre caminho, principalmente pela qualidade da sua produção científica, para reforçar a luta feminina nessa esfera. Ainda no século XIX, podemos citar algumas mulheres que se dedicaram ao trabalho intelectual com significativa atuação no processo cultural-literário nacional. A poetisa Delfina Benigna da Cunha (1791-1857) foi a primeira mulher a publicar um livro de poesias em âmbito nacional. Segundo Guilhermino César (2008):

Sem dúvida, a contribuição da autora para as letras sul-rio-grandenses merece destaque, como também a sua coragem para escrever numa época em que não se reconhecia a capacidade intelectiva da mulher. No auge do patriarcado imperial, a poetisa busca sobreviver às custas de seu trabalho intelectual, tarefa impensável para a grande maioria das mulheres do século XIX, visto estarem fadadas ao espaço privado, e as opções de trabalho para o sexo feminino se mostrarem exíguas, configurando-se o ensino uma das poucas possibilidades de atuação profissional (apud SANTOS, 2008, p. 2). 

Assim, há uma luta das mulheres por sua inserção na classe intelectual – e como esta é a classe que se especializa na produção intelectual complexa e profissional, é fundamental para a luta pela emancipação feminina. Essa luta se fortalece e amplia com o tempo e assim há uma progressiva (e lenta) inserção da mulher na classe intelectual, graças a diversas determinações. Esse processo de ampliação ocorre no final do capitalismo liberal comandado pelo regime de acumulação extensivo, após as revoluções burguesas. Contudo, a partir da segunda metade do século 19, especialmente a partir dos anos 1870, devido ascensão das lutas operárias (redução da jornada de trabalho, luta contra trabalho infantil e feminino, Comuna de Paris), emerge um novo regime de acumulação, o intensivo (VIANA, 2009; VIANA, 2003), que marca uma nova fase do capitalismo, a sua fase oligopolista fundada no taylorismo, expansão imperialista e Estado liberal-democrático (emergência da democracia partidária em substituição à democracia censitária, reconhecimento dos direitos civis, emergência da sociedade civil organizada através da legalização de partidos e sindicatos, etc.).

Apesar da ampliação das lutas femininas e de alguns espaços conquistados, junto com as mudanças sociais com a instauração do novo regime de acumulação, a inserção é ainda quantitativamente pequena e de forma subordinada e marginalizada. Algumas mulheres se integraram à classe dos intelectuais, como, por exemplo, a economista Rosa Luxemburgo, cuja militância política se iniciou em 1882, no Partido do Proletariado; estudou Economia Política e Direito, e em 1898 terminou seu doutorado; no mesmo ano, foi aceita no Partido Socialdemocrata Alemão, onde começou uma intensa participação política e debate intelectual no seu interior (VIANA, 2012b).

Ainda assim, a resistência continuava. O texto Instrução Superior, A Instrução Superior da Mulher (1886) demonstra claramente, como ainda existia resistência em relação à formação intelectual da mulher. Através do texto podemos observar a resistência de um homem e sua proposta de inserção subordinada da mulher na instrução superior, utilizando argumentos sexistas. Para ele, a questão biológica é o grande argumento contra a possibilidade de instruir no ensino superior a mulher; e que as diferenças entre os sexos não foram constituídas pelas instituições políticas e sociais, elas apenas as acumularam, apoiando-se sobre uma base não sociológica, mas sim zoológica, anatômica, que está no ventre e no seio da mulher, assim como nas fêmeas dos outros mamíferos.

A questão biológica é, pois, a verdadeira causa remota da evolução intelectual da mulher, e persiste até então, como causa imediata e individual. E, por isso, a mulher nunca alcançará o nível intelectual do homem. Portanto, toda a educação intelectual a ela destinada, deve inclinar-se toda para a formação e compreensão de ideias análogas. Ou seja, a mulher pode produzir intelectualmente, mas deve ser mãe e esposa, e por isso deve reconhecer a superioridade masculina e sua educação intelectual e científica deve ser de forma subordinada a esses preceitos:

Que a mulher seja, e quanto antes, educada intelectualmente, que receba uma educação verdadeiramente intelectual, científica (a moral do futuro, e já a de hoje, tem por base a ciência); mas que essa educação seja adaptada, como a exige a lei geral, iniludível, da biologia; que ela tenha primeiramente em vista à mulher a profunda convicção científica da sua constituição exclusivamente feminina; que ela tenha primeiramente em vista reconstituir física e moralmente a esposa e a mãe de família, fazendo-lhe compreender, com a poesia das ciências naturais adequadas, e não explorando-lhe a vaidade criada pelo romantismo, que se são os homens que produzem os grandes livros de ciências, são as mulheres que produzem os grandes homens! Eis a sua verdadeira glória, a única a que elas devem e podem aspirar; glória em primeira mão e não a imitação estéril do que a mediocridade dos homens pode fazer. Darwin produziu Origem das espécies, mas foi a mãe Darwin (e outra não poderia ser) que produziu Darwin! (VII – Instrução Superior. A Instrução Superior da Mulher, 1886) (2012).

Heloísa Pontes (2003) analisa casos concretos nos Estados Unidos e no Brasil, mostrando um pouco da quantidade de obstáculos enfrentados pelas mulheres nos anos 1930. Ela nos traz de forma resumida um pouco da vida de mulheres como Mary McCarthy (“memorialista de mão cheia, conhecida não só por seus talentos literários, mas pela sua inteligência cortante e língua ferina”) e Gilda de Mello e Souza (que conseguira “nome próprio” em razão de sua trajetória acadêmica e dos trabalhos que produziu nas áreas de sociologia e estética).

Ambas faziam parte de círculos intelectuais comprometidos com a política da época. Todavia, ocupando uma posição secundária em seu interior, ainda que tivessem ampla formação intelectual. Apesar da posição marginalizada, foram mulheres que desafiaram os padrões dominantes de moralidade e de sexo na época. No caso de Gilda, o acesso à formação intelectual na Faculdade de Filosofia, somado à vivência inédita de uma sociabilidade apoiada na vida universitária, permitiu que ela redirecionasse o papel social para o qual havia sido educada: mãe e dona de casa. Contudo, isso se deu às custas de conflitos, inseguranças e dilemas, sobretudo no início, quando ainda não sentia segura para se inserir no campo intelectual predominantemente masculino da época. Essas dificuldades preliminares que enfrentara foram sendo contornadas, porém não eliminadas, à medida que construíra novos modelos de conduta e atuação.

O último período que analisaremos é o que ocorre após a Segunda Guerra Mundial. É a época de emergência do capitalismo oligopolista transnacional, comandado pelo regime de acumulação conjugado (intensivo-extensivo, também chamado por alguns de “fordista”), caracterizado pelo fordismo, expansão do capital transnacional e pelo Estado Integracionista, também chamado do “bem estar social” ou “keynesiano” (VIANA, 2009; VIANA, 2003). A guerra promoveu a morte de muitos homens, em grande parte jovens, e a mulher foi chamada a ocupar, no Pós-Guerra, vários postos de trabalho que antes lhes eram vetados. A retomada da acumulação capitalista em novas bases, a reconstrução da Europa destruída, abriu novas condições e possibilidades. As lutas femininas do final do século 18 abriram espaço para a inserção marginal e subordinada no século 19 e esta foi paulatinamente se ampliando. Isso ocorreu lentamente e com muita resistência, tal como foi colocado anteriormente, e o Pós-Guerra criou uma situação social que abriu muitas brechas e permitiu uma ampliação e desenvolvimento da inserção feminina na classe intelectual.

Contudo, além disso, as mudanças sociais também abriram amplas possibilidades de processos de ampliação da presença da mulher em diversas esferas em que tinha dificuldade de participar. A nova fase do capitalismo, marca a formação do Estado integracionista, também chamado de “Estado de bem estar social” – uma formação estatal intervencionista, tanto no plano econômico quanto social – que propiciou a ampliação dos chamados “direitos sociais”, aumentos salariais, possibilitando maior capacidade de consumo, inclusive devido a hegemonia do fordismo e expansão do sistema de crédito. O Estado assim se torna integracionista (VIANA, 2009), cujo objetivo é integrar a classe operária na chamada “sociedade de consumo”, diminuindo sua radicalidade política. Claro que isso ocorreu na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, apesar das diferenças existentes nos dois casos, e no resto do mundo havia outras realidades, apesar de haver influências e relações. O que nos interessa, mais particularmente, é que estas mudanças que atingem o processo de produção e reprodução da vida material e a formação estatal, bem como as relações internacionais (expansão do capital oligopolista transnacional), alteram o conjunto das relações sociais e abrem novas perspectivas para a inserção das mulheres na classe intelectual. As circunstâncias do Pós-Segunda Guerra Mundial aliadas a estas transformações do capitalismo, criam condições favoráveis para uma maior participação quantitativa e qualitativa das mulheres nas chamadas profissões intelectuais, na esfera científica, artística e intelectual.

Nesse contexto, alguns setores da sociedade – como as mulheres – recebem atenção das ações estatais, pois representam força de trabalho e mercado consumidor. Essa inserção é vista como consequência das lutas femininas, porém a mesma não está restringida apenas às organizações feministas, tendo como fundamental, a interferência do capital na busca de sua reprodução. Nesse sentido, “é a lógica capitalista que está realizando ou deliberando a inserção da mulher na sociedade”, fazendo com que uma grande quantidade de mulheres comece a se despontar no mercado de trabalho, ocorrendo assim, mudanças nas relações comerciais referente aos cargos, nos quais aparecem como força mercadologicamente produtiva, quer seja nos cargos representativos ou não (MARQUES, 2006b). A nova fase do capitalismo marca um processo crescente de mercantilização das relações sociais (VIANA, 2009) e é nesse momento que se expande o capital comunicacional (“indústria cultural”), surgem ou se consolidam novas profissões, há a expansão do chamado setor de serviços, etc. Da mesma forma, há uma expansão do processo educacional e das instituições de ensino. A força de trabalho recrutada para esse mercado de trabalho em ascensão é em parte composta pelas mulheres.

Observa-se assim, um forte aumento da representação de mulheres nas profissões intelectuais ou na administração e nas diferentes formas de venda de serviços simbólicos (jornalismo, televisão, cinema, rádio, relações públicas, publicidade, decoração) e também uma intensificação de sua participação nas profissões mais próximas da definição tradicional de atividades femininas (ensino, assistência social, atividades paramédicas) (BOURDIEU apud MARQUES, 2006b, p. 81). 

Obviamente que não se trata da inserção das mulheres em geral e sim de algumas mulheres, que são as que possuem melhores condições para isso. Tal como coloca Bourdieu, aquelas que possuem um capital cultural de origem familiar, bem como outras formas de capital, é que conseguem realizar tal inserção com mais facilidade. O capital cultural (e também o capital linguístico) herdado da família, geralmente aliado ao capital econômico, permitem às mulheres oriundas de famílias que possuem integrantes que já são da classe intelectual ou de outras classes privilegiadas, uma entrada nesta classe com maior facilidade e nas posições hierárquicas superiores (BOURDIEU, 1982; BOURDIEU, 1998).

A partir de 1945, há uma maior inserção da mulher na classe intelectual e Simone de Beauvoir é um exemplo. Ela obteve em 1929 a agrégation na filosofia, sendo a pessoa mais jovem e a nona mulher a obter este grau. Ficou em segundo lugar, sendo que o júri concedeu o primeiro lugar para Jean-Paul Sartre. Ela foi professora de filosofia até 1943 em diferentes escolas. Mas é após a Segunda Guerra Mundial que ela se consolida como escritora. No total, escreveu 21 livros, entre romances e obras teóricas. A sua obra mais conhecida é O Segundo Sexo, de 1949. Ela, além de escritora, se tornou conferencista viajando por diversos países (dos EUA à URSS, passando por países europeus e africanos). A sua obra, que se tornou um clássico do feminismo, também teve grande repercussão e, sem dúvida, contribuiu tanto para a superação de preconceitos como para incentivar outras mulheres a seguir a carreira intelectual. Nesse período, as lutas femininas avançam e a obra de Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo – faz parte dessa luta, antecipando a discussão sobre a concepção feminista e a opressão da mulher (PEIXOTO, 2006).

Após os anos 1960 e o crescimento do movimento feminino, esse processo se amplia ainda mais e hoje está mais fortalecido, tendo avançado o processo de inserção das mulheres na classe intelectual. Contudo, ainda existem problemas e disparidades, mas que não é objeto do presente trabalho. O que apresentamos foi uma evolução histórica, com os obstáculos, avanços e dificuldades, do processo de inserção de mulheres na intelectualidade como classe social.

Considerações finais

Por fim, concluímos então, que nosso objetivo foi alcançado. Ao tentar compreender o processo histórico de inserção tardia da mulher na classe intelectual, foi possível perceber que essa inserção está intrinsecamente ligada à sua inserção na sociedade (conjunto das relações sociais), marcada pela opressão feminina, o que é um obstáculo para tal inserção. 

Ao longo dos séculos, a mulher ocupou um lugar subordinado e marginalizado na sociedade. Na sociedade capitalista, houve uma relativa mudança nessa condição – a mulher foi inserida no mercado de trabalho – no entanto, essa inserção passou por vários conflitos e processos de lutas femininas.

Devido a sua opressão, cuja raiz da justificativa ideológica está, até o início do século 20, na sua condição biológica, tendo no útero o definidor de sua personalidade, de toda sua maneira de ser, pensar e agir – portanto, inferior ao homem – sua educação deveria estar voltada para o lar e para a maternidade, pois “toda atividade intelectual é desaconselhada por contrariar seu destino biológico” (TOSI, 1997, p. 379). Esse e outros argumentos – cuja raiz é social e histórica – utilizados ao longo dos séculos, dificultaram a inserção da mulher na sociedade, assim como sua inserção tardia e quantitativamente menor nas profissões intelectuais e, consequentemente, na classe intelectual.

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[1] Geralmente, mas não unicamente. Há também a produção de saber verdadeiro. Da mesma forma, uma ideologia não é apenas falsa consciência, pois possui momentos de verdade, que varia dependendo da ideologia em particular (VIANA, 2010a). A produção do intelectual e seu caráter estão ligados a diversas outras determinações além do pertencimento de classe, tal como as mudanças sociais e históricas, o contexto de sua formação e elaboração intelectual, as ideologias vigentes, as pressões sociais, os vínculos institucionais, políticos, sociais, a singularidade psíquica do indivíduo, as disputas internas no interior da intelectualidade, a luta de classes em geral, etc.

[2] Não poderemos trabalhar aqui, por questão de espaço e tempo, a extensa bibliografia sobre opressão da mulher, bem como os debates e polêmicas em torno dessa questão, que vão desde a discussão sobre sua universalidade ou não, bem como, no segundo caso, quais suas determinações ou origem, além do seu significado e permanência ou não nos dias atuais. Utilizaremos alguns poucos textos e autores. Obviamente que a obra de Simone de Beauvoir (1980), Betty Friedan (1971) e outros clássicos seriam interessantes, mas não poderemos trabalhar tais obras, tanto pela questão já colocada, quanto porquê demandaria uma discussão sobre a coerência e concordância entre os textos destas (e outras autoras) com os aqui trabalhados (e outros que possuem posição semelhante, ou mesmo distinta, mas que também não apresentam concordância total seja com as autoras clássicas, seja com outras analises). Outro aspecto a se considerar é que tal discussão visa apenas contextualizar e tornar mais compreensível nosso tema fundamental, que é algo mais específico, a inserção das mulheres na classe intelectual.

[3] As alterações mais recentes, na atual fase do capitalismo, já ocorrem sob uma inserção já consolidada, apesar de haver mudanças, ampliação, manutenção de subordinação, etc., consideramos desnecessário trabalhar este último período já que as mudanças não foram tão drásticas em relação ao período anterior, sendo mais um desdobramento, desenvolvimento, com manutenção de certos aspectos.

[4] Trata-se do período da chamada “Revolução Industrial” e das “Revoluções Burguesas”, que marcam o nascimento do primeiro regime de acumulação capitalista propriamente dito, o regime de acumulação extensivo (VIANA, 2009; VIANA, 2003).

Publicado originalmente em: REVISTA DA FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DE GOÂNIA, VOL. 02, Nº 8, JANEIRO 2013 / JUNHO 2013.

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