Auge e declínio da Educação Burguesa – dois exemplos: Kant e o EaD (Parte III)

Texto de Diego Marques dos Anjos*

A expansão da Educação a distância

Os recursos tecnológicos da Educação a Distância (EAD) têm um potencial infinito para serem utilizados na formação humana, mas a sociedade capitalista que produz esses recursos limita concretamente o seu uso a partir da dinâmica da luta de classes. Em seus diferentes aspectos, tais como conteúdo, organização e forma de ensino, a EAD transforma a prática de ensino, mas tal transformação se reveste de aspectos positivos para os estudantes de origem das classes superiores, e ao contrário, as limitações e os aspectos negativos da EAD ganham maior destaque para os estudantes de origem nas classes inferiores. As técnicas e a organização da relação de ensino são inovadas com a EAD, mas o que interessa é o sentido dessa alteração em cada setor dentro da sociedade.

Além dos aspectos técnicos e organizacionais, também consideramos os aspectos da sociabilidade escolar, assim, como ficam as formas tradicionais do processo educacional? Muda o papel do prêmio, do castigo, do sistema de exames, do autoritarismo, do controle de presença, da especialização, da competição? E como expressão de crítica à essas relações repressivas, as manifestações de indisciplina em alunos e professores, e ainda as formas diferentes de indisciplina em escolas públicas e privadas, em bairros ricos ou em bairros pobres da cidade.

Segundo o professor e pesquisador José Moran, a educação à distância é o processo de ensino mediado por tecnologias e envolvido na separação entre professor e aluno, quer seja no tempo e/ou espaço (MORAN, 1994). A constituição técnica dos cursos de educação à distância engloba três vertentes dos recursos tecnológicos: a informática, a telecomunicação e a mídia eletrônica (BELLONI, 2009). Esses recursos possibilitam o acesso aos cursos, a acervos digitais e ambientes de experiência virtual, criação de perfis, fóruns de debate (LITO, 2009; RADFAHRER, 2012).  No ensino à distância o objeto da aprendizagem constitui-se de metadados que ficam à disposição do professor em forma de texto, animação, vídeo, imagem ou hipertexto (BEHAR, 2009).

A educação à distância surge inserida dentro do sistema das organizações da educação escolar, que é a forma de educação que é hegemônica no capitalismo, ou seja, a escola é a instituição responsável pela socialização das novas gerações, ela regula o processo de aprendizado dos comportamentos e ideias necessárias para estar associado à vida social. A escola movimenta a educação formal, que aplica sistematicamente, racionalmente e intencionalmente a socialização informal que ocorre na família, nas relações de amizade, nas produções culturais, etc. A escola se torna o foco da educação e a transforma em uma relação social mediada por um aparato institucional devido à dinâmica da luta de classes. Na luta de classes, a classe trabalhadora consegue impor a reivindicação de proibição do trabalho infantil, na mesma época em que conseguiu diminuição da jornada de trabalho e aumento salarial. Isto foi no período de radicalização da luta de classes nas primeiras décadas do século XX. Como reação, a burguesia consegue criar uma instituição disciplinadora e coercitiva que prepara intensivamente a formação da natureza das novas gerações, jovens que serão submetidos à organização do trabalho no fordismo, que foi a reação burguesa para contornar a crise de acumulação capitalista nas primeiras décadas do século XX e conter a radicalização das lutas dos trabalhadores.

De um lado, o sistema escolar surge como resultado de várias reivindicações da classe trabalhadora, o que gerava uma força de trabalho com mais custos, e por outro lado, a necessidade de utilizar-se da constituição do sistema escolar para através da sistematização do aprendizado das relações burguesas no ambiente escolar formar novas gerações para as relações sociais existentes. O sistema de ensino capitalista é produto direto desses conflitos, mas no geral quem é hegemônico na escola são as ideias e os representantes da burguesia, devido sua força material, organizacional, recursos, etc. À medida que se eleva o nível no sistema de ensino, os representantes das classes inferiores diminuem e sobrevivem marginalmente no sistema de ensino.

Os trabalhadores valorizam a força de trabalho quando conseguem aumentar o custo de aprendizagem da força de trabalho, o que é obtido através do sistema de ensino; ao passo que no longo prazo, a consolidação do sistema de ensino projeta homens e mulheres disciplinados e como tal atuam como força de trabalho disciplinada, portanto, que aceita a ordem social tal como é.  

A inserção da modalidade de ensino à distância constitui uma nova faculdade do estudante, que passa a ter domínio de aparelhos, recursos, plataformas voltadas para o universo dos sistemas virtuais. Uma parte de toda e qualquer atividade econômica atual ocorre sob dinâmica das tecnologias da informação e comunicação, seja no próprio ato de trabalho, ou para receber o salário, e para o posterior consumo. Em diferentes graus de intensidade, o conjunto da população dos países de capitalismo avançado, e mesmo nas regiões em transformação capitalista, têm experiência na vida com sistemas informacionais. A aprendizagem do ambiente virtual prepara as novas gerações da força de trabalho, bem como prepara para a vida social.

Nesse sentido, a educação e a formação profissional aparecem hoje como questões centrais, pois a elas são conferidas funções essencialmente instrumentais, ou seja, capazes de possibilitar a competitividade e intensificar a concorrência, adaptar trabalhadores às mudanças técnicas e minimizar os efeitos do desemprego. A participação no EAD é uma nova habilidade aprendida pelo jovem no processo de formação da força de trabalho e do cidadão do capitalismo na acumulação integral. Essa nova habilidade adquirida prepara para a subordinação na intensificação da exploração da força de trabalho, que põe mais energia no movimento do trabalho. Assim, a EAD possibilita que o estudante amplie o tempo de estudo, através de inúmeros recursos, enquanto de fundo prepara para uma intensificação das atividades no trabalho.

Atualmente o EAD ainda é complementar ao ensino presencial. Para avançar é necessário a transposição dos mecanismos de repressão real (registros de frequência, exames, relação professor e aluno) e maior controle na imposição dos modelos de aprendizagem, posto que a avaliação geral é de que o conhecimento formal encontra dificuldades adicionais e vem se consolidando como de menor qualidade que o ensino presencial.

O EAD mediado pelos sistemas informacionais foi possível devido ao desenvolvimento das forças produtivas, e os seus recursos formam parte da força produtiva, que são incorporados como objeto de trabalho; força de produção transformada e transportada para a vida civil através de meios de consumo e assim atinge as relações escolares. Esse processo tem origem para combater a tendência declinante da taxa de lucro porque a burguesia atravancou o desenvolvimento das forças produtivas e concentrou no desenvolvimento dos meios de consumo (VIANA, 2002; 2009).

Antes de tudo, os recursos que tornam possível o ensino à distância são produto direto das constantes revoluções que acontecem nos meios de produção devido à concorrência entre os grandes capitalistas por maior espaço no mercado. A computação, a internet, a automação são incorporadas na produção capitalista desde a segunda metade do século XX, logo depois dos trabalhos de pesquisa realizados por organizações militares com o financiamento estatal. Incorporada nos meios de produção essas inovações elevam a produtividade do trabalho capitalista, mas também reforçam a tendência declinante da taxa de lucro, posto que representam mais trabalho morto (maquinário, ferramentas, etc.) em detrimento de menor quantidade de trabalho vivo na produção.

As tecnologias da informação e comunicação inseridas nas relações de trabalho aumentam a capacidade do trabalho, por isso elas formam parte das forças produtivas, elas se tornam força produtiva que “não é senão a capacidade de trabalhar real dos homens vivos: a capacidade de produzir por meio do seu trabalho e com a utilização de determinados meios materiais de produção e numa forma de cooperação determinada por eles” (KORSCH, s/d), e como as forças produtivas englobam a técnica, a organização e os seres humanos, elas inevitavelmente afetam as relações entre os seres humanos, ao mesmo tempo em que as relações entre os seres humanos formam  também uma força produtiva.

Em outra direção, os recursos da EAD enquanto parte e produto das forças produtivas revelam suas contradições com as relações de produção e com as relações sociais mais amplas da sociedade capitalista. A aquisição de mais habilidades não se converte imediatamente em valorização da força de trabalho, outros fatores como organização e consciência, questões históricas e culturais, e mesmo as condições geográficas e climáticas interferem na definição final. O valor da força de trabalho corresponde aos custos de manutenção dessa força de trabalho, ou seja, quanto o detentor precisa para custear seus meios de vida. Por essas questões a EAD ganha um novo papel e se reconfigura com as inovações informacionais, e ao ser utilizada no contexto de intensificação da exploração do trabalho, não tem efeito de valorizar a força de trabalho, basta consideramos o crescimento do desemprego entre os mais escolarizados e nos ramos mais sofisticados e elaborados do trabalho, como por exemplo, os bancários com redução de 600 mil trabalhadores nas últimas 2 décadas. A ideia de qualificação torna-se um fetiche, sendo sobrevalorizada, e obtendo resultados pífios para a grande quantidade de recursos públicos investidos (SEGNINI, 2000).

Tais mudanças geram diferentes resultados. Alguns estudiosos identificaram do lado do professor um fenômeno que definiram como tecnofobia ou neoludismo, que é a rejeição ao uso das novas tecnologias no âmbito do ensino, de acordo com Ralph Bannel (2017). Para o pesquisador Keegan, na Ead quem ensina é a instituição, não o professor, este trabalha com outros profissionais e sua função é a de preparador de material didático (KEEGAN apud BELLONI, 2009); a tese do esvaziamento das funções docentes também é defendida por Luciano Sathles e Adriana Azevedo (2008) que analisam o trabalho em equipe realizado pelo professor em Ead. Já Maria Eda Souza (1996) vai analisar a percepção docente de que as novas tecnologias podem reduzir ou mesmo extinguir a função do professor no processo de ensino.

Em perspectiva diferente, outros analistas enfatizam a boa receptividade das TIC´s entre professores e alunos. O novo papel do professor é definido pela atitude de facilitar, de parceiro do processo de aprendizagem. Maria Belloni diz que o professor deixa de ser autoridade e vira parceiro do aluno (2009). Nas interpretações de José Moran (2003), Maria Abreu e Marcos Maseto (1980) o professor é o facilitador, cabendo ao aluno a proatividade (MORAN, 1994). Maria Moraes reavalia que a partir das novas mudanças no trabalho, o professor atual passa a ter um compromisso com o futuro, substituindo a ideia fixa pelo conhecimento pela busca de aperfeiçoar o processo de aprendizagem (MORAES, 1996).

Considerando criticamente os elementos apontados acima, nada pode discordar que na EAD os elementos formais da preparação do ensino dominam a parte que era para ser ocupada pelo conteúdo. Dominar sistemas, recursos, preparar planos, adaptar-se ao uso das tecnologias e das redes sociais, ocupam a maior parte do trabalho do professor. Daniel Mill afirma que a atividade do docente foi estendida em suas funções, caracterizando o que ele chama de “poli docência” (MILL, 2006), e Maria Beloni chama atenção para a reunião de funções profissionais na elaboração da EAD, formando o que ela chama de “professor coletivo” (2012). Essas mudanças ganham espaço na medida em que contribuem em grande medida para a diminuição dos gastos, desfazendo-se da estrutura física do ensino presencial, daí as políticas estatais de incorporação das tecnologias da informação e comunicação dentro do discurso da “eficiência e produtividade” (LIPP, 2002).

É assim que se prepara as novas gerações para a divisão do trabalho, processo que afeta com maior intensidade de acordo com a posição do indivíduo e de sua classe social nessa divisão.

Devemos criticar também a ideia de uma “Revolução Informacional”, do surgimento da sociedade da informação, tais ideias constituem-se como ideologia para justificar o avanço das novas tecnologias no modo de vida. É ilusão afirmar a existência de um modo de desenvolvimento informacional como faz Castells, este fecha os olhos para os países sedes da produção industrial e para a dinâmica de intensificação da exploração do trabalho, o que marca uma nova fase do modo de produção capitalista, fase denominada de Acumulação Integral (2009).

A EAD foi analisada tanto como produto mais acabado da expansão industrial para a educação (OTTO PETERS apud BELLONI, 2012), e agora como expressão da sociedade pós-industrial, pós-moderna, determinação pela informação, pelo virtual, pela fragmentação, autonomia, adaptação, individualizada (BELLONI, 2012). O que ocorre de fato é a inovação da tecnologia, que possibilita o aprofundamento e intensificação dos recursos para educação fora da sala de aula.

Como indicou Immanuel Wallerstein, no capitalismo contemporâneo tudo é mercadoria, ideia que o autor desenvolve no livro O Capitalismo Histórico (1985). A educação escolar é mercantilizada, e os seus custos ficam a cargo ou do setor privado, ou do Estado. Com o Estado Neoliberal e a acumulação integral, os custos da aprendizagem buscam ser reduzidos e os recursos adotados devem favorecer a intensificação do uso da força de trabalho.

Considerações Finais

Analisamos o pensamento sobre a educação de Immanuel Kant e as práticas da educação à distância como dois exemplos da relação da sociedade capitalista com a educação. Demonstramos que os mesmos acontecimentos marcados por avanços e contribuições, são também marcados pelo retrocesso e decadência da educação escolar. As contribuições intelectuais e práticas podem ser ponto de partida para pensar a educação em projetos de transformação social, isto porque os limites da educação capitalista expressam os limites da sociedade capitalista, e como tal exige ser transformada.   

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* Diego Marques dos Anjos é professor do Instituto Federal Goiano e militante do Movimento Autogestionário (MOVAUT/DF).


Parte I

Parte II

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