Auge e declínio da Educação Burguesa – dois exemplos: Kant e o EaD (Parte I)

Texto de Diego Marques dos Anjos*

Descobrimos uma questão importante e intrigante e queremos apresentá-la a quem nos ler. A educação capitalista, que ocorre no sistema de ensino, sempre dá um passo à frente e em seguida dois passos atrás, assim que toda evolução na educação vem acompanhada de consequências desastrosas no que diz respeito à formação humana. Vamos apresentar ao leitor nossa visão crítica da educação capitalista considerando dois exemplos que, trazem em si, aspectos que consideramos avanços e por outro lado refletem a decadência, os limites históricos do que a sociedade capitalista pode oferecer através da educação escolar que ela criou. Tanto no pensamento de Kant, quanto na prática pedagógica da Educação à Distância (EaD) podemos visualizar os avanços e os limites da educação no capitalismo. Como a educação capitalista é uma das relações sociais fundamentais da sociedade capitalista, a análise desta relação social pode nos ajudar a compreender elementos mais gerais da sociedade atual. Vamos iniciar com uma introdução da questão da educação na sociedade capitalista, e nas próximas duas partes iremos abordar o pensamento educacional de Kant e a prática da educação à distância.

Panorama do Problema – Parte I

A história da educação capitalista caminha junto com o desenvolvimento das relações de produção capitalistas. Nos referimos à educação dirigida pela escola, que forma a classe trabalhadora e mantém íntima relação com a formação de algumas das classes privilegiadas que surgem da divisão do trabalho, tais como a intelectualidade e a burocracia. Assim é que o sistema de ensino e seus níveis de educação, da escola à universidade, reproduzem a desigualdade entre as classes sociais que existem na sociedade capitalista.

A burguesia acumulou riquezas e bens materiais que tornaram a sociedade capitalista não só a sociedade com maior quantidade de riquezas na história, mas, principalmente, a sociedade em que mais riquezas são supérfluas, prejudiciais e desnecessárias para verdadeiras satisfações da população mundial. A quantidade de riqueza acumulada não se traduz em completude da satisfação das necessidades, isto vale para as necessidades vitais da população (comida, vestimenta, moradia, etc.) e para as necessidades que surgem da vida moderna, sendo a educação escolar uma dessas necessidades não satisfeitas para a maior parte da população.

A universalização da educação escolar é um fenômeno específico da sociedade capitalista, nenhuma outra sociedade existente criou um sistema de ensino escolar, ainda que ao longo da história encontramos professores e alunos em escolas sacerdotais, militares, filosóficas, políticas, clericais. Do Egito antigo às cidades medievais, são vários os exemplos de povos que construíram estabelecimentos considerados escolas. Mas nenhum na condição de uma instituição, com um vasto quadro de funcionários especializados, vultoso orçamento público ou caixa privado, legislação organizacional e curricular, e uma massa de estudantes.

A escola capitalista é produto necessário da sociedade capitalista, não por satisfazer as necessidades do conjunto da população, mas exatamente porque satisfaz ao processo social de recomposição da força de trabalho utilizada pelo capital.

Na história da escola capitalista esta viu surgir grandes nomes da teoria da educação: Comenius, Rousseau, Kant, Piaget, Vygotsky, Freire, etc., bem como inovações técnicas e nos recursos materiais da organização escolar. O sistema de ensino foi massificado no mundo contemporâneo, embora a qualidade seja diferente de acordo com a classe social do estudante.

Para entender a educação escolar no capitalismo é fundamental a definição clara do que é educação e como esta se manifesta numa forma específica na sociedade atual. Consideremos existir três dimensões do conceito de educação: uma dimensão universal, uma dimensão histórica, e uma dimensão específica.

Além desses aspectos é necessário ter a clareza que educar é uma relação social, nunca uma ação individual, isolada da sociedade e da história. A educação pressupõe mais de um indivíduo, bem como a produção e reprodução do conteúdo da educação, daquilo que é transmitido. 

A educação é um processo social universal porque ele diz respeito ao processo de formação do ser humano, que passa a dominar habilidades, técnicas, comportamentos, ideias. O processo de autoformação do ser humano é a dimensão universal da educação. O ser humano não se constitui enquanto tal por determinações naturais, ou sobrenaturais, mas por uma multiplicidade de determinações históricas e sociais produzidas pelos seres humanos e que a eles se impõe, tal como diz Engels, os seres humanos fazem história, mas sob condições legadas do passado. É nesse processo de fazer história sob determinadas condições que os seres humanos são educados, pois recebem das gerações passadas os comportamentos, ideias, modo de vida que se inserem.

Ainda que sempre exista educação esta sempre será também sob uma determinada forma histórica de existência. Essa forma histórica de existência é como ocorre a educação, as suas condições materiais de existir.

A forma específica de educação resulta dos elementos únicos que existem numa determinada forma histórica de educação. São as especificidades que existem na educação que uma determinada sociedade produz. Assim, a educação grega tem sua manifestação histórica, bem como suas especificidades, com a formação do guerreiro ou do cidadão político, tal como a educação medieval tinha suas determinações históricas, e suas especificidades em torno da fundamentação religiosa da educação.

A educação, portanto, é uma relação social específica, em que a geração mais velha insere a geração mais nova nas relações sociais do grupo. Educar é socializar, ensinar os novos membros da sociedade a viver em conjunto com os demais membros da Sociedade.

Nas sociedades de classe a socialização é repressiva e coercitiva, pois tem como objetivo inserir os indivíduos numa sociedade dividida em classes sociais. Daí que historicamente a existência da educação ocorra através dos meios de instrução e disciplinamento. A forma histórica específica da educação capitalista se dá através do sistema de ensino e sua unidade fundamental, a escola. A escola socializa formalmente o que ocorre de modo informal na família, nas relações de amizade, nas trocas culturais.

A socialização prepara para conviver em determinada sociabilidade, algumas instituições o fazem formalmente, outras informalmente. A escola materializa a repressão e a coerção na socialização através da disciplina, das práticas, dos exames, da organização, enfim, espera-se formar o aluno ideal, o aluno padrão, a referência.

O ideal do aluno padrão surge porque no capitalismo o desenvolvimento técnico das forças produtivas necessita de indivíduos com uma quantidade mínima de conhecimentos necessários para inserção das relações de trabalho. Desde poder formar um contrato de trabalho até a ação concreta na produção e nos diferentes ramos do trabalho.

O estudo alienado é uma forma de relação de ensino necessária para a formação do trabalhador alienado. O que caracteriza o trabalhador alienado é não ter controle sobre a produção e o produto do seu trabalho. O estudo alienado forma esse indivíduo que aceita sua condição e sabe como agir diante da sua condição alienada no mundo.

Na origem do capitalismo os trabalhadores são desapropriados dos meios de produção e dos conhecimentos da produção. A divisão do trabalho rompe o conhecimento da totalidade da produção e cria indivíduos idiotizados, especialistas. Como as novas gerações de proletários não mais dominam o conhecimento da produção, como as classes exploradas no passado, surge a necessidade das relações de produção capitalistas de formação técnica, no nível mais baixo ao mais elevado da especialização.

O sistema de ensino é a instituição que materializa a expressão saber é poder, em nossa era. Laboratórios, organizações científicas, sociedades acadêmicas fazem parte do complexo do sistema de ensino, só que a escola além de ser a maior das organizações, é a porta de entrada do sistema de ensino.

As instituições de ensino empregam milhões de pessoas, formam milhares todos os anos, e movimentam bilhões em recursos financeiros. Elas criam a classe da intelectualidade e suas frações (acadêmicos, professores secundaristas, pesquisadores).

Por ter como base social a intelectualidade, a história da educação escolar foi terreno fértil para a proliferação das chamadas ideologias educacionais. Kant e a educação a distância são somente dois momentos dessa longa história que é a educação capitalista. Nas próximas duas partes deste artigo iremos apresentar a crítica das ideias educacionais de Kant e da prática de ensino da educação a distância. 

* Diego Marques dos Anjos é professor do Instituto Federal Goiano e militante do Movimento Autogestionário (MOVAUT/DF).


Parte II

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2 Comentários

  1. Excelente! Aguardo Kant, e a prática de ensino a distância. A propósito, a minha tese de doutorado em educação, tematiza a violência na sociedade e na educação, a partir da teoria marx-engelsiana. Parabéns. Um forte abraço. Bosco Brito.

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