A Sociedade Sã de Fromm – Paul Mattick

Nota do Crítica Desapiedada: outros artigos que analisam criticamente o pensamento de Erich Fromm podem ser vistos em:
Erich Fromm e a Renovação da Psicanálise – Nildo Viana
Fromm Crítico de Freud – Nildo Viana

Comentário de “A sociedade sã”, de Erich Fromm (Rinehart & Company, Nueva York, 1955). Fonte: Western Socialist, Boston, EEUU, julho-agosto de 1956. [No Brasil, este livro foi traduzido como “A Psicanálise da Sociedade Contemporânea” publicado pela Zahar – GT]

I

Segundo Fromm, e ao contrário do freudismo ortodoxo, “as paixões básicas” do homem “não estão arraigadas em suas necessidades instintivas, mas nas condições específicas da existência humana”. Estas são agora as condições do capitalismo. À luz dos requisitos da saúde mental, tal e como são vistos por Fromm, a sociedade atual pode ser considerada como “demente”. Ainda que algumas pessoas sejam mais afetadas que outras, todos se comportam irracionalmente neste mundo irracional. Para mudar esta situação, Fromm sugere a transformação do capitalismo em algum tipo de “socialismo”, em uma “sociedade sã” a condição prévia para a saúde mental e a felicidade do indivíduo —. Ele chama sua abordagem do problema da saúde mental e da sociedade de “psicanálise humanista”, que se apresenta em grande medida como uma elaboração do conceito de Marx do fetichismo da mercadoria. Este é aqui generalizado como o fenômeno da “alienação” e, na visão de Fromm, é um problema tão antigo quanto a “idolatria” contra a qual os profetas do Velho Testamento levantaram suas vozes.

No sistema de Marx, a alienação refere-se às relações sociais de classe baseadas no divórcio entre os trabalhadores e os meios de produção em uma economia de mercado de acumulação de capital. O objetivo da produção é o lucro. Como capital, os produtos do trabalho passado e presente do homem adquirem um carácter “independente”, determinando tanto o volume como a direção da produção social, depressão e prosperidade, paz e guerra, e com isso a condição da existência humana. E assim, embora o homem faça história, ele não é o mestre do seu destino. Vive sob a compulsão de circunstâncias socioeconômicas que circunscrevem suas atitudes e ações. Nem os capitalistas, nem os trabalhadores, nem qualquer outro grupo determinam sua existência, mas permitem ser determinados pela dinâmica da acumulação de capital; em outras palavras, pelas coisas que são de sua própria fabricação, como se tivessem um poder separado e acima deles. Aqueles que, no entanto, possuem ou controlam o capital, constituem uma classe dominante privilegiada apenas por causa desse triste estado de coisas. E por interesse de sua posição de classe exploradora, eles tentam perpetuar esse aspecto por meio da força, da fraude e das manipulações ideológicas.

A relação fetichista entre os homens e sua produção compreende a consciência social e domina o comportamento geral. Sendo a força de trabalho uma mercadoria como qualquer outra, os homens são tratados como se fossem coisas, e são comparados às coisas; os materiais de produção incluem o “material humano”. Dado que a exploração está baseada na posse de coisas, isto é, capital, a sobrevivência na competição capitalista implica a apropriação crescente de capital. As relações sociais não são, desta forma, relações entre homens, mas relações entre coisas, relações entre mercadorias, uma vez escondendo e possibilitando a exploração dos homens pelos homens.

II

A “revisão” que Fromm faz de Freud com a ajuda de Marx mantém a terminologia da psicologia freudiana, que pretende ocupar-se do homem biológico e a sua frustração na sociedade per se. Embora o conceito de fetichismo da mercadoria seja aplicado à cultura como um todo, a ênfase repousa em seus aspectos ideológicos e psicológicos. Isso permite que Fromm fale da sociedade como “nós”. No entanto, embora a ideologia e a caracterologia dominantes sejam aquelas das classes dominantes e suas auxiliares, a responsabilidade pela barbárie capitalista não pode ser amplamente distribuída. Afinal, há mandantes e mandados, manipuladores e manipulados, que proíbe o “nós” quando falamos da sociedade. Precisamente por ser uma crítica severa da “sociedade”, do “nós”, o livro de Fromm acaba sendo uma crítica bastante frouxa do capitalismo.

Embora seja um hábito ruim, isto não é um erro tão grave pois, apesar de todo o “nós” na literatura, a gente se refere geralmente à “sociedade” como “eles”, para opor interesses e diferentes modos de existência, aos quais dão à sociedade seu caráter de classe. Mas, com a sociedade de Fromm como o “nós”, o indivíduo vem como “homem”; não como capitalista, trabalhador ou algum outro, mas como “homem”, cuja “natureza” e “história” compreende ambas a “criação e a destruição; o amor e  ódio“. E embora o homem determinado pela classe continue sendo homem, ainda assim nos dirigimos a ele como mercadoria, ou quando não nos aproximamos dele absolutamente como se fosse intocável, a “humanidade comum” de todos os homens nos diz pouco no que se refere as suas atitudes e comportamentos sob circunstâncias sociais e históricas variáveis em uma sociedade dividida em classes.

III

De acordo com Fromm, apenas a “fé no homem” permite uma sociedade sã. Ele explica o “fracasso” de Lênin, por exemplo, pela falta de fé no homem. Lênin, porém, tinha muita fé em alguns homens, incluindo ele mesmo; nas pessoas dedicadas a tomar o poder para seu partido. Não tinha fé, é verdade, na classe dominante czarista, nem na classe média que esperava o capitalismo liberal, nem nos camponeses que lutavam pela terra e pela propriedade privada, nem na massa de trabalhadores destinados a trabalhar mais arduamente sem viver melhor, assim como para acumular o capital necessário para a industrialização da Rússia e para sua existência nacional. Embora Lênin não tivesse fé no homem, ele se destacou na fé no governo de uma minoria, que constitui “fé no homem” na sociedade de classes. Falar do “fracasso” de Lênin é falar do seu “sucesso”, quando se considera algo mais do que as atenções ou pretensões individuais; neste caso, a existência de um proletariado russo, ainda todavia incapaz de abolir, com sua própria posição de classe, todas as relações sociais de classe.

Além disso, referir-se ao líder individual, cujo “fracasso” ou “sucesso” determina a direção do desenvolvimento social, é falar a partir da posição de um governo minoritário, das relações de classe, modificadas por um desejo de direção e controle no “interesse” dos dirigidos e controlados. A “fé no homem” inclui a fé no líder. A autodeterminação, no entanto, implica a ausência de uma direção no sentido leninista ou capitalista, e tornaria supérflua a “fé no homem” de Fromm. Com a “fé no homem” de Fromm, Lênin não seria Lênin, e com essa “fé no homem” os trabalhadores nunca serão capazes de escapar das consequências da falta de “fé” de seus dirigentes. A abolição da exploração só pode ser realizada pelos explorados; a ênfase deve estar na classe, não no homem. Não é nem mesmo “fé na classe trabalhadora”, se não simplesmente a própria classe trabalhadora, a que pode capacitar-se, através de sua própria emancipação, para converter em sociedade a sociedade de classes.

Certamente, Fromm distingue entre liderança racional e inibidora ou irracional. Ele defende a primeira e nega a segunda forma de autoridade, isto é, prefere a relação autoritária entre “professor e aluno” à relação entre o “proprietário de escravos” e o “escravo”, ainda que ambas estejam baseadas na superioridade de um sobre o outro. Na opinião de Fromm, a autoridade do professor é altruísta e serve ao aluno que o acolhe; igualmente, se opõe à autoridade antagônica e irracional sobre o escravo. As relações autoritárias racionais, além disso, tendem a dissolver-se quando os alunos se tornam tão inteligentes como os professores. Cada uma destas situações de autoridade cria uma situação psicológica diferente; uma garante a sanidade (sanity), a outra tende à insanidade (insanity). No entanto, nenhuma destas situações tem algo a ver com o problema da autoridade no capitalismo, tanto a de rótulo liberal, mista ou bolchevique. A relação idealizada professor-aluno de Fromm não existe; o que existe é um mercado educacional aliado à força, onde as relações entre professor e aluno — embora possivelmente de uma forma mais sutil — são tão antagônicas como as relações sociais em geral. Além disso, o capitalismo emprega todas as formas de relações autoritárias, as “irracionais” e as “racionais”, as quais se  entrelaçam de tal modo que nenhuma delas pode ser mantida ou eliminada a não ser com a abolição do próprio capitalismo.

IV

No entanto, na visão de Fromm, o capitalismo abole a si mesmo e, ao fazê-lo, cria deste modo, as condições nas quais se torna possível escolher entre uma ou outra forma de relações autoritárias com base em fundamentos éticos. Para escapar à destruição e alcançar a felicidade, as pessoas devem tornar-se consciênte do que constitui a sanidade (sanity) e do que constitui a insanidade (insanity). O uso persistente de Fromm do “nós” em relação à sociedade também está baseado na ilusão de que a sociedade de classes subjacente às teorias de Marx tem deixado em grande medida de existir. Sua descrição do capitalismo ocidental, por exemplo, repete todos os clichês atuais dos apologistas mais ardentes do “modo de vida americano”, desde o “milagre da produção”, ao “milagre do consumo”. Fromm afirma que o “poder social e econômico” dos trabalhadores tem aumentado a um nível fantástico, “não só no que diz respeito ao salário e aos benefícios sociais, mas também ao seu papel humano e social na fábrica”.

Isto é totalmente sem sentido, certamente, e nem sequer se aplica a essa pequena minoria de trabalhadores privilegiados cuja posição excepcional pressupõe a  mais cruel exploração da grande maioria. O “modo de vida americano”, que não é o do capitalismo ocidental, mas o resultado da dominação da América sobre o capitalismo ocidental encontra sua contrapartida na miséria crescente de grande parte da população mundial, sofrendo tanto sob os controles capitalista-imperialistas como sob suas próprias tentativas de escapar a esses controles. Esta situação, que transforma o conflito civil em guerra internacional e a competição internacional em guerra civil, pode indicar o declínio do capitalismo, mas não sua autotransformação através do desaparecimento dos conflitos de classe e das diferenciações de classe, seguindo em busca de uma abundância geral. Sem dúvida, Fromm reconhece a existência de áreas desfavorecidas e de países subdesenvolvidos e requer reformas e ajuda estrangeira para aliviar esta miséria, como se esta miséria e o bem-estar coexistente de outras áreas e camadas sociais não fossem duas faces da mesma moeda. O estado de abundância relativa não tende ao bem-estar geral e a “sanidade”, mas conduz a produção a canais destrutivos para manter assim  a estrutura social de classes e o controle sobre os meios de produção.

V

Na sociedade da abundância de Fromm, os problemas dos trabalhadores já não estão relacionados com o controle do capital, mas meramente com a sua co-determinação. Eles se veem famintos de uma voz no processo de produção. Não, porém, para melhorar a sua posição social e econômica ainda mais, mas para garantir a sua “sanidade”. Fromm assume que os trabalhadores (de todas as categorias) não são tão infelizes por serem explorados e estejam em estado de necessidade, mas porque não podem “relacionar-se com o produto concreto como um todo“. Sofrem por causa da especialização e abstração de suas funções. É verdade que Marx, entre outras coisas, também mencionou a desumanização do trabalho na produção capitalista através de sua especialização, em oposição aos modos de produção anteriores, cuja divisão do trabalho estava menos desenvolvida. Contudo, a socialização da produção implica a divisão do trabalho, que, por si só, não é necessariamente um fator desumanizante. É assim sob a relação exploradora capital-trabalho. Em uma sociedade socialista torna-se possível escolher entre uma extensão adicional da divisão social do trabalho ou sua redução por meios tais como a intercambialidade de funções. E pode ocorrer que a intercambialidade seja mais produtiva do que a especialização; porém, então, o princípio da produtividade pode dar lugar ele mesmo a alguma maneira de organizar a produção social podendo torná-la mais atrativa.

A ênfase de Fromm nesse aspecto um pouco menor da alienação à custa do problema real, isto é, do controle de classe dos meios de produção, converte sua “crítica social” em um meio de manipulação capitalista. Bem, o que ele sugere na linha da segurança social e codeterminação está agora em processo de ser realizado por reformas capitalistas, para estabilizar o sistema. Os seus propostos “caminhos para a sanidade” já estão percorridos, e inclusive alguns dos caminhos que quer ver popularizados, tais como diversas pequenas empresas comunais produzindo para (e estando à mercê do) o mercado capitalista, não põem em perigo o sistema capitalista, mas apenas apoiam a ilusão da sua humanização crescente. Se Fromm é contra a “grandeza” e a favor da “descentralização”, também estão todos esses capitalistas que  enfrentam competidores ainda maiores e mais centralizados. E se Fromm gosta de ver o “instinto de habilidade” mais plenamente satisfeito, o mesmo acontece com os capitalistas agora comprometidos em eliminar processos de trabalho simples por meio da automação.

Os “caminhos à sanidade” de Fromm na esfera da produção não se apoiam na esfera do consumo, onde acrescente abundância conduz à decadência cultural. Pois “o homem“, diz Fromm, está “fascinado pela possibilidade de comprar mais, melhor e, especialmente, coisas novas. Está faminto de consumo. O ato de comprar e consumir tornou-se um fim compulsivo e irracional, porque é um fim em si mesmo, com pouca relação com a utilidade ou o prazer que proporcionam as coisas compradas e consumidas“. E é esta atitude alienada em relação ao consumo que determina o uso do tempo livre e o carácter das indústrias dedicadas a ele. Uma grande parte do livro de Fromm descreve o vazio e a superficialidade da cultura popular em detrimento da verdadeira arte e da sensibilidade humana — uma cultura popular que encontra o seu reflexo no desejo de conformidade e na negação das relações verdadeiramente humanas.

VI

Aqui Fromm está no seu elemento, lamentando-se da “multidão solitária” da sociologia do consumo, para a qual o lazer, não o trabalho, é o grande problema. Com o fim do problema da produção acaba o da exploração, claro; contudo, há, todavia, segundo Fromm, muitíssimo a fazer pelos sociólogos e líderes religiosos para dar sentido à vida, apesar da ausência de problemas sociais que nos constrangem. A sugestão particular de Fromm é consumir menos e trabalhar mais, embora apenas por razões terapêuticas. As mãos ociosas e as mentes ociosas são perigosas, e inclusive não fazer nada deve converter-se em uma espécie de trabalho, de meditação e de recreação. A pessoa mentalmente saudável, na sua visão, “é a pessoa produtiva e não alienada… que se relaciona amorosamente com o mundo e que usa sua razão para compreender objetivamente a realidade, que se expressa como uma única entidade individual e, ao mesmo tempo, se sente unido com o seu próximo” — etc., etc. —  como se pode ouvir de qualquer pregador nas manhãs de domingo. Como o esforço pela saúde mental é inerente a todo ser humano… Não nascido um idiota moral”, A sociedade deve ser tal que possa oferecer-lhe uma oportunidade para afirmar sua natureza moral. A oportunidade, como visto anteriormente, é oferecida pelo “socialismo”, ou seja, pela economia de bem-estar mista, codeterminada e politicamente democrática; desde que, evidentemente, se desprenda de qualidades tais como “a ganância, a competitividade, a possessividade, o narcisismo “, e deixe governar a consciência. Como “nenhuma mudança deve ter fim pela força”, e como deve ser uma “mudança simultânea nas esferas econômica, político e cultural”, deve-se ter fim através da educação moral da moralidade inerente, e é essa, portanto,  claramente a função da “psicanálise humanista”, que então, toma o seu lugar atrás dos grandes sistemas éticos e religiosos, afirmando a supremacia dos valores espirituais sobre os valores materiais e dedicados à dignidade do homem, de modo que possamos — um dia — cantar, caminhar e dançar juntos.

* Em inglês os opostos “sane” e “insane” (lit. são e insano) ou “sanity” e “insanity” (lit. sanidade e insanidade) têm a mesma etimologia e fazem referência tanto a saúde física como a mental; isto é, designam com os mesmos termos a existência ou ausência de saúde, se tratando da saúde física ou psiquica. Para manter o sentido psicossomático do conceito, optamos, no geral, pela tradução literal, exceto quando  fica definido seu sentido de um modo claro (por exemplo, “insane” traduzido como “demente” e “sane” por “sano”). (Nota do tradutor)

Traduzido por Raffael Azevedo a partir da versão disponível em espanhol. Revisado por Jaciara Veiga.
Cf.: http://www.geocities.ws/cica_web/consejistas/mattick/sociedadsana.htm.

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