Prefácio do livro China: Estagnação do Crescimento, Aumento das Revoltas e Greves – Fredo Corvo

Quando uma Borboleta Bate suas Asas na China… Estagnação do Crescimento, Aumento das Revoltas e Greves[1]

Da contracapa

Há muito tempo a China é um modelo de sucesso econômico. O mito neoliberal quer que a economia mundial seja estimulada pela mão de obra barata. Depois de transferir a mão de obra para a Ásia, apenas alguns trabalhadores permaneceram no processo de trabalho nos países Ocidentais. A competição no mercado de trabalho em virtude da migração e dos contratos de trabalho precários reduziu o número de greves e sua extensão aqui. Na China, ambos os desenvolvimentos não estão no caminho das ferozes lutas dos trabalhadores, mas até mesmo as fomentam. Quais são as consequências para a China e o mundo quando o espaço de negociação econômica encolhe sob a pressão da crise?

A publicação online em língua holandesa Arbeidersstemmen (“Vozes Operárias”) recentemente publicou um livro com o título Quando uma Borboleta Bate suas Asas na China… Estagnação do Crescimento, Aumento das Revoltas e Greves apresentando traduções de artigos do grupo chinês Chuǎng, de poemas do falecido trabalhador da Foxconn Xu Lizhi e de três artigos mais curtos de outros grupos. Um posfácio extenso e comentado do editor conclui esta coleção, desenvolvendo uma apreciação crítica de determinadas teses defendidas pelo Chuǎng.

O sumário, incluindo os links das páginas da web para as versões em inglês dos textos:

  1. Scenarios of the Coming Crisis: A Response to Aufheben” [Cenários da Futura Crise: Uma Resposta ao Aufheben], de Chuǎng;
  2. No Way Forward, No Way Back: China in the Era of Riots” [Sem Escapatória: A China na Era das Revoltas], de Chuǎng;
  3. Wildcat Strikes at Walmart China [Greves Selvagens no Walmart China], de Working Class Self-Organisation [Auto-Organização da Classe Trabalhadora];
  4. Nine poems by a Foxconn Worker Xu Lizhi (1990-2014) [Nove poemas de um operário da Foxconn Xu Lizhi (1990-2014), da tradução para o inglês de Friends of Nao Project [Amigos do Projeto Nao];
  5. “Guiyang’s Casualized Train Attendants Fight Back” [Comissários de Trem Guiyang Contra-Atacam], do Railroad Workers Bulletin [Boletim dos Trabalhadores Ferroviários], com base na tradução para o inglês de Chuǎng;
  6. “Instead of a Foreword” [Em vez de um Prefácio], de Fredo Corvo

Em Vez de um Prefácio (Fredo Corvo, Editor)[2]

Quais são as consequências para o resto do mundo agora que o crescimento econômico na China estagna e que greves e revoltas desafiarão o poder vigente do Partido Comunista Chinês (PCCh)?

Diz-se que Edward Lorenz usou a primeira metáfora da borboleta, em 1961 – ainda que com uma gaivota batendo as asas no Brasil, ao que se seguia um tornado sobre o Texas – para explicar fenômenos em campos diversos como a meteorologia e ações com a teoria do caos. Nós vivemos em uma época notável que parece ser governada por leis naturais que, no entanto, só tem permissão de desempenhar seu papel dominante pela atividade humana nos mercados de bens, serviços, dinheiro e trabalho. Levada à dominância pela ideologia e prática do neoliberalismo, as leis do mercado mergulham o mundo em um caos inacreditável. Para a maioria das pessoas isto é incompreensível, inclusive para os mesmos empresários, políticos e cientistas que se fizeram os executores cegos destas mesmas leis.

Neste artigo, nós voltamos uns 100 anos no tempo para uma explicação desta situação paradoxal a uma teoria que já discutia na época a importância vital da Ásia – e da China em particular – para o desenvolvimento do capitalismo. Um século atrás, Anton Pannekoek, astrônomo e social-democrata holandês, mais tarde comunista, eventualmente comunista de conselhos, desenvolveu uma teoria marxista das crises baseada na necessidade de integrar cada vez mais pessoas como trabalhadores assalariados ao capitalismo. Em 1944, ele escreveu em Os Conselhos Operários todo um capítulo sobre a ascensão da China, no qual, dentre outras coisas, ele esboçou a influência desastrosa da Internacional Comunista que pressionou o PCCh a formar uma frente única com o burguês Kuomintang e a subsequente destruição do jovem movimento operário da China[3]. No entanto, Pannekoek também descreveu em Os Conselhos Operários a importância de um maior desenvolvimento capitalista na China (e na Índia) para a economia mundial, uma situação que agora se tornou realidade.

Então o capitalismo é o grande poder de revolução, subvertendo velhas condições em todos os lugares e mudando o aspecto da Terra. Cada vez mais milhões de pessoas são atraídas de sua produção doméstica isolada e autossuficiente para o turbilhão do comércio mundial. […] Então elas são impelidas, revolucionando esferas cada vez mais amplas. Mas a Terra é um globo de extensão limitada. A descoberta de seu tamanho finito marca o fim do capitalismo. A população que pode ser sujeitada é limitada. Assim que as centenas de milhões que enchem as planícies férteis da China e da Índia são atraídas para dentro dos confins do capitalismo, seu trabalho principal está concluído. […] Então, sua expansão adicional é encerrada. Não como um impedimento repentino, mas gradualmente, como uma dificuldade crescente de vender produtos e investir capital. Então o ritmo do desenvolvimento abranda, a produção desacelera e o desemprego se transforma em uma doença sorrateira. Então a luta mútua dos capitalistas pela dominação mundial se torna mais aguçada, com novas guerras mundiais iminentes[4].

Quando Pannekoek discute a abertura da China ao mundo, em certo sentido ele apenas repete o que Marx e Engels já haviam escrito no Manifesto Comunista em 1848[5]. E à primeira vista sua teoria da crise parece exatamente igual à teoria da crise do imperialismo de Rosa Luxemburgo. No entanto, há duas diferenças entre Marx e Luxemburgo, que são de grande importância para compreender a situação atual. Primeiramente, Pannekoek apontou para o papel do trabalho de migrantes, isto é, a integração do trabalho rural à produção capitalista, já mencionada acima. Em segundo lugar, ele sublinhou ainda mais do que Marx e Luxemburgo que a revolução proletária não é um resultado mecânico da crise do capitalismo e desenvolveu uma teoria do desenvolvimento da consciência da classe trabalhadora. Ambos os pontos serão elaborados a seguir, pontos estes que foram desenvolvidos antes no artigo do Chuǎng No Way Forward and No Way Back: China in the Era of Riots[6].

6.1. Migração do Trabalho e Crise

Já em 1899, no Reforma ou Revolução, Rosa Luxemburgo defende a natureza cíclica das crises capitalistas contra Bernstein, que quer provar que o desenvolvimento capitalista não leva a um “Krach” geral. Por “Krach”, Bernstein se refere à imagem, geralmente aceita pela social-democracia, de um colapso do capitalismo, automaticamente seguido pela transição ao socialismo. Luxemburgo rejeita esta concepção mecanicista explicitamente no que se refere às precondições do socialismo: “o aumento do nível de organização e da consciência de classe do proletariado, o que constitui o fator ativo na futura revolução”.

Em A Acumulação de Capital, Luxemburgo, em 1913, partindo de um suposto erro nos esquemas de Marx da reprodução ampliada do capital, desenvolve sua teoria da necessidade da conquista de mercados capitalistas adicionais. No momento em que a acumulação estagnasse na ausência de novos mercados, a última fase, a fase imperialista, despertaria como “o período final da carreira histórica do capital[7]”. No entanto, Luxemburgo teve o cuidado de acrescentar:

Isto não significa que este fim tem de ser alcançado pedantemente. Apenas que a tendência rumo ao fim do desenvolvimento capitalista se manifesta em formas que tornam a fase final do capitalismo um período de catástrofes[8].

E isto:

[…] tornará necessário a rebelião da classe trabalhadora internacional contra a dominação do capital mesmo antes de ele ser empurrado economicamente a seu limite natural criado por si mesmo[9].

Pannekoek defende os mesmos pontos. Primeiro, a visão de que o capitalismo é caracterizado por crises cíclicas que se agravam cada vez mais e a necessidade de expandir os mercados. Segundo, a visão de que apenas uma classe trabalhadora consciente e organizada pode realizar a revolução proletária.  No entanto, justamente por causa da necessidade disto, Pannekoek rejeita enfaticamente a “doutrina radical do colapso, afirmando que a crise crônica tornará a produção capitalista impossível[10]”. Ele critica a teoria de Luxemburgo de que o imperialismo é uma necessidade econômica, entendida como “uma necessidade absoluta, como se fosse mecânica, uma lei de ferro da reprodução capitalista, que força a burguesia a adentrar na estrada do imperialismo[11]”.

Pannekoek declara incorreta a ideia de Luxemburgo da causa fundamental das crises, a saber, o colapso na relação entre o setor I dos meios de produção e o setor II dos meios de consumo. Teoricamente – ele demonstra – o setor (ou departamento) de produção dos meios de produção e aquele dos meios de consumo estão sempre em equilíbrio um com o outro. Segundo Pannekoek, na realidade sempre há desequilíbrios, mas esse não é o argumento de Luxemburgo.

O segundo argumento de Luxemburgo para a necessidade econômica do imperialismo é prático: gerar uma maior produção de recursos apenas para manter os trabalhadores em seus empregos lhe parece um absurdo[12]. Pannekoek também rejeita este argumento prático, dizendo que Luxemburgo negligencia a pulsão por lucro e a acumulação de capital como um incentivo para os empresários. Pannekoek demonstra agora que uma sociedade capitalista pode existir sem a necessidade de novos compradores ou de mercados fora do capitalismo. Segundo Pannekoek, o limite real da produção capitalista é de natureza diferente:

Obviamente, se supõe assim que as condições materiais para a expansão da produção existem. Matérias primas devem estar disponíveis na natureza em quantidade tão ilimitada que não possa ocorrer nenhuma escassez, o que faria com que uma expansão adicional se tornasse impossível; e deve haver uma reserva de pessoas suficiente o bastante para não se deparar com um déficit no número de trabalhadores necessários para a produção, número este que cresce cada vez mais. Também é evidente que uma sociedade capitalista que já inclui todas as pessoas não pode se expandir. Teoricamente, isto exige que o capitalismo cresça em um mundo de homens muito maior, dos quais os trabalhadores necessários podem ser retirados, que trabalharam antes na produção para uso pessoal e não tinham nada a ver com o capitalismo. Esses homens foram incorporados ao circuito, como produtores e consumidores ao mesmo tempo[13].

Segundo Pannekoek, o capitalismo, na realidade, está misturado com e cercado por uma fronteira mais ampla na qual a produção simples de mercadorias dominada pelo artesanato e pela agricultura e com a qual o capitalismo mantém uma relação comercial (geralmente matérias primas são trocadas por bens de consumo individuais). Estes elementos podem ser incorporados aos esquemas de reprodução teoricamente equilibrados, como Pannekoek já havia demonstrado em 1913 na Die Neue Zeit[14]. Nesse contexto, Pannekoek enfatiza a importância de mercados externos e da migração do trabalho – agora particularmente relevante tanto na China como na Europa e nos Estados Unidos:

Porque a expansão da produção é iniciada pelo capital, porque a acumulação de capital é a força motriz e determina a taxa de crescimento, estas condições equivalem ao seguinte:

  1. Deve se garantir crescimento suficiente do proletariado, de modo que quando o influxo de outras camadas for insuficiente, ele será promovido pela imigração.
  2. Cada vez mais recursos são explorados pela oferta de matérias primas e cada vez mais mercados são abertos aos produtos capitalistas. No entanto, uma vez que a primeira condição, o comércio em matérias primas, exige pouco esforço, ao passo que a segunda condição, a venda de seus produtos, é mais difícil para cada capitalista individual, esta necessidade de expansão contínua da área adjacente ao capitalismo vem à consciência do capitalista como o problema de mais e novos mercados.

Esta expansão constante da produção de mercadorias à custa da economia baseada na troca em espécie, a inclusão de cada vez mais pessoas e nações no conjunto da interconectada produção mundial, esta expansão econômica, é necessária para o capitalismo e, portanto, domina a política capitalista[15].

Segundo Pannekoek, este desejo pela expansão – o imperialismo – existe na parte mais poderosa da burguesia, que está envolvida a produção de meios de produção. A teoria que Pannekoek desenvolveu descreve, desta maneira, o imperialismo como um processo ideológico, social, político e econômico, com ênfase em particular em seu caráter global e unificador. Isto chamou sua atenção à possibilidade de que uma série de revoluções anticoloniais na África e na Ásia “pudessem dar o sinal para o proletariado europeu de sua luta por liberdade”. E:

A revolução política na Ásia, a revolta na Índia e a rebelião no mundo árabe estão impondo um obstáculo decisivo à expansão do capitalismo na Europa. […] Conflitos sangrentos estão se tornando cada vez mais inevitáveis. Há uma ligação entre as guerras de independência asiáticas e o colonialismo e a Guerra Mundial entre as nações europeias.

Gerber, que fornece estas citações, nota corretamente que Pannekoek foi um dos primeiros a ressaltar a importância dos movimentos de libertação nacional, mas que sua posição sobre a questão nacional impediu que desenvolvesse esta perspectiva[16]. De fato, Pannekoek rejeitava a libertação nacional – como Rosa Luxemburgo[17]. Talvez não para Gerber, porém, segundo Pannekoek, o nacionalismo é a forma mais perigosa das ideologias burguesas porque não só deriva sua força do passado – tal como a religião –, mas dos fundamentos econômicos da própria sociedade. O nacionalismo afasta o proletariado de seus próprios objetivos de classe, o divide em diferentes nacionalidades e enfraquece a consciência de classe através da xenofobia[18].

Em 1914, pouco depois do início da I Guerra Mundial, Pannekoek aplica sua teoria ao imperialismo em The Downfall of the International [A Queda da Internacional]. Neste artigo, ele enfatizou a natureza global do capitalismo e do movimento operário:

Favorecido pelo período de prosperidade sem paralelos que se iniciou em 1894 na Alemanha e se espalhou pelas outras nações, interrompido apenas por breves crises, o capitalismo havia se apossado da Terra. Ele revolucionou todos os continentes, derrubou a rígida imobilidade dos impérios imensos que haviam resistido à mudança por milhares de anos, tomou os tesouros do mundo, explorou homens de todas as raças e de todas as cores. E em todos os lugares o espírito socialista, o ódio contra o capital, se enraizou nas mentes dos trabalhadores explorados, frequentemente combinado com a aspiração pela liberdade nacional. Surgiram organizações socialistas na China e na Nova Zelândia, em Johannesburgo e Honolulu, no Alaska e na Arábia. O capitalismo e o socialismo estavam inundando toda a Terra.
Mais importante ainda foram as agitações internas. O capital havia conquistado o domínio completo por sobre a vida industrial e política das nações. Todas as classes, inclusive aquelas que eram aparentemente independentes – de fazendeiros e de pequenos empresários – se tornaram seus servos; porém, na mesma medida, massas cada vez maiores de homens se tornaram seus inimigos. Fábricas gigantes cheias do maquinário mais recente puseram milhões de trabalhadores sob o poder de uns poucos magnatas. A organização que se aperfeiçoava cada vez mais tomou o lugar da competição anarquista. Os primeiros trustes vinte e cinco anos atrás não foram senão os fracos começos dessa concentração de poder capitalista que agora colocara toda a vida industrial e os tesouros da Terra nas mãos de algumas centenas de reis da produção[19].

Em 1920, Pannekoek aplicaria esta análise à revolução russa, que ainda permanecia isolada, na seguinte caracterização:

A revolução russa é o começo da grande revolta da Ásia contra o capital europeu ocidental concentrado na Inglaterra. Via de regra, nós na Europa Ocidental consideramos os efeitos que ela tem aqui, onde o desenvolvimento teórico avançado dos revolucionários russos os tornou os professores do proletariado ao passo que este caminha rumo ao comunismo. Mas seu funcionamento no Oriente é ainda mais importante; e questões asiáticas influenciam, portanto, as políticas da república soviética quase mais do que as questões europeias. O grito por liberdade e pela autodeterminação de todos os povos e pela luta contra o capital europeu por toda Ásia parte de Moscou, onde delegações de tribos asiáticas estão chegando uma após a outra[20] […].
Os interesses da Ásia são em essência os interesses da raça humana. Oitocentos milhões de pessoas vivem na Rússia, na China e na Índia, na planície siberiano-russa e nos vales férteis do Ganges e do rio Yangtzé, mais de metade da população da Terra e quase três vezes mais que a população da Europa sob dominação capitalista. E as sementes da revolução aparecem em outros lugares, além da Rússia; por um lado, movimentos de greve poderosos se reacendendo onde os proletários industriais estavam juntos, como em Bombaim e Hangzhou; por outro, movimentos nacionalistas sob a liderança da ascendente intelligentsia nacional. Na medida em que se pode julgar a partir da reticente imprensa inglesa, a guerra mundial foi um poderoso estímulo aos movimentos nacionais, mas então os suprimiu contundentemente, ao passo que a indústria está num tamanho recrudescimento que o outro flui torrencialmente dos Estados Unidos ao Leste da Ásia. Quando a onda da crise econômica atingir estes países – parece já ter tomado o Japão –, pode se esperar novas lutas. É possível levantar a questão de se os movimentos puramente nacionalistas que buscam uma ordem capitalista nacional na Ásia devem ser apoiados, já que serão hostis a seus próprios movimentos de libertação proletária; mas o desenvolvimento claramente não tomará este rumo. No passado, a intelligentsia em ascensão se orientou em termos do nacionalismo europeu e, como os ideólogos da burguesia nativa em desenvolvimento, defendeu um governo nacional burguês num modelo Ocidental. Mas esta ideia está enfraquecendo com o declínio da Europa e eles sem dúvida passarão a estar sob forte influência intelectual do bolchevismo russo e encontrará nele os meios para se fundir com as insurreições e os movimentos de greve proletários. Logo, os movimentos de libertação nacional da Ásia talvez adotem uma visão de mundo comunista e um programa comunista na firme base material da luta de classe dos trabalhadores e camponeses contra a opressão bárbara do capital mundial antes que as aparências externas possam nos levar a crer.
O fato de que esses povos são predominantemente agrários não precisa ser um obstáculo maior do que foi na Rússia: comunidades comunistas[21] não consistirão em amontoados apertados de cidades fabris, pois a divisão capitalista entre nações industriais e agrícolas deixará de existir; a agricultura terá de tomar um grande espaço dentro delas. O caráter agrícola predominante tornará, não obstante, a revolução mais difícil, já que a disposição mental é menos favorável sob tais condições. Sem dúvida um período prolongado de agitação política e intelectual também será necessário nestes países. As dificuldades aqui são diferentes daquelas na Europa, de uma natureza menos ativa do que passiva: eles estão menos na força da resistência do que no ritmo lento no qual a atividade está despertando, não em superar o caos interno, mas em desenvolver a unidade para afastar o explorador estrangeiro. Não entraremos nas particularidades destas dificuldades aqui – a fragmentação religiosa e nacional da Índia, o caráter pequeno-burguês da China. No entanto, as formas econômicas e políticas em desenvolvimento contínuo, o problema central que deve ser superado primeiro é destruir a hegemonia do capital europeu e americano.
[…] Esta revolução mundial não é vista em sua importância universal completa se considerada apenas da perspectiva europeia. A Rússia não só forma a parte oriental da Europa, ela é muito mais a parte ocidental da Ásia, e não só num sentido geográfico, mas também num sentido político-econômico[22].

A história da comuna de Xangai em 1927 demonstrou que Pannekoek subestimou seriamente os riscos de apoiar movimentos nacionalistas. Após o esmagamento do movimento operário pelo Kuomintang, a “revolução” na China assumiu um caráter predominantemente agrícola e, embora tenha enfim conquistado a vitória em 1949, esta não foi a vitória do comunismo. Devemos observar que Pannekoek achava que o comunismo na Ásia não é possível sem “destruir a dominação do capital euro-americano”.

Mas enquanto os autores de No Way Forward No Way Back[23] parecem dizer que o resultado da vitória do exército camponês de Mao não trouxe o comunismo, e quanto à sua sugestão de que durante a era de Mao existiu um “socialismo caótico inconsistente” na República Popular da China, que foi perdido em 1989 com as revoltas de Tiananmen? Os autores claramente não são maoístas; veja suas dúvidas sobre ou até mesmo sua rejeição da “consciência” ou da “agitação cultural” como tentativas fúteis de empurrar o desenvolvimento rumo ao comunismo ou até mesmo evitar que se escorregasse em direção ao capitalismo. Mas e quanto ao futuro, quando este suposto “socialismo” do passado de fato não era socialismo?

Para responder esta questão, devemos olhar mais de perto para a renovação dos termos socialismo e comunismo que Lenin introduziu em O Estado e a revolução e que Stalin completou com o “socialismo em um só país”.

6.2 Comunismo, Crise e Consciência

Os termos comunismo e socialismo se referem a uma forma de sociedade bem como a um movimento operário que busca esta sociedade e às ideias desse movimento. Os grupos de esquerda que romperam com a Social-Democracia por volta da 1ª Guerra Mundial em virtude de seu apoio à guerra se chamaram dali em diante de comunistas a fim de serem mais bem distinguidos da antes socialista Social-Democracia. Os bolcheviques russos foram os primeiros a assumir conscientemente o mesmo nome que a “Liga Comunista” de Marx e Engels, que desempenhou um papel nas revoluções europeias de 1848 e havia estipulado seu programa no Manifesto Comunista.

As palavras “comunismo” e “socialismo” eram sinônimos se referindo ao mesmo conceito de uma sociedade sem classes e sem dinheiro e Estado até que Lenin, em O Estado e a revolução[24], provocou uma mudança na definição. Nesta obra, escrita durante agosto e setembro de 1917, Lenin tentou chegar a uma melhor compreensão da futura luta por poder na Rússia e do período que seguiria ao que ficou conhecido como a Revolução de Outubro. O período após a revolução é interpretado por Lenin como um período de transição do capitalismo ao comunismo completo. Neste período de transição, Lenin distingue duas fases, o socialismo como sua fase inferior, na qual um Estado e a escassez ainda existiriam, e o comunismo como a fase superior.

As ideias que Lenin desenvolve em O Estado e a revolução estão relacionadas com a sua concepção modificada da natureza da revolução na Rússia. De 1917 em diante ele está na mesma posição que Trotsky, aquela de uma ditadura socialista na Rússia à espera da ajuda de revoluções proletárias na Europa. Apesar de todas as diferenças aparentemente sutis entre as diferentes frações da Social-Democracia russa, eles todos comparam as posições da Rússia no que diz respeito à Europa Central e Ocidental no começo do século XX àquela da Alemanha de 1848 em relação à Europa Ocidental. Mas as conclusões desta comparação histórica levam a diferenças importantes em posições políticas. Segundo Lenin e Trotsky, a burguesia russa de 1905 e 1917, tal como a burguesia alemã de 1848/1850, era muito fraca – e tinha muito medo de seu próprio proletariado – para executar com consistência a iminente revolução burguesa. Portanto, esta tarefa coube ao partido operário (que era visto erroneamente como idêntico à classe como um todo) que depois, com ajuda dos trabalhadores no resto da Europa, realizaria a revolução mundial, que é capaz de inaugurar sozinha a estrada para o Comunismo (ou Socialismo).

A despeito dos esforços teóricos dentro da esquerda da social-democracia internacional de compreender a nova fase no desenvolvimento do capitalismo como um momento decisivo nas relações de produção – particularmente o Imperialismo, fase superior do capitalismo, de Lenin, A Acumulação de Capital, de Rosa Luxemburgo e The Economic Necessity of Imperialism [A Necessidade Econômica do Imperialismo], de Pannekoek – ninguém chegou à ideia de que o período da revolução burguesa – um fenômeno na superestrutura da sociedade – não era mais uma pauta histórica em lugar nenhum do mundo. Até hoje, em nome do marxismo, organizações stalinistas, maoístas, trotskistas e bordiguistas justificam estratégias da formação de frentes com a burguesia por uma necessidade imaginária de revoluções burguesas e libertação nacional que estão, na realidade, completamente ultrapassadas. Estas práticas caminham de mãos dadas com a negação da possibilidade de uma conscientização comunista na classe trabalhadora e com uma admiração pelo capitalismo Estado. Nas mentes destes ideólogos, este se opõe ao “capitalismo privado”, a despeito do fato de que nele o trabalho assalariado perdura e os trabalhadores permanecem separados dos meios de produção que os confrontam agora como um capital unificado através do Estado.

O comunismo era entendido por Marx e Engels, e por Lenin e Trotsky também, como uma sociedade que só pode existir num nível mundial[25]. Stalin rompe com este conceito central do materialismo histórico quando ele fala da União Soviética como “socialismo em um só país” e em 1926 tanto o partido como a Internacional Comunista substituíram oficialmente sua visão da extensão da revolução mundial – que há muito tempo já existia apenas no papel – pelo que eles já haviam posto há algum tempo em prática: a defesa da União Soviética. Trotsky, que se agarrou à revolução mundial, pensava que as fundações do socialismo existiam com o capitalismo de Estado na Rússia e, após o assassinato de Trotsky por ordem de Stalin, os trotskistas inferiram a partir desta ideia a defesa do “Estado operário burocratizado” na 2ª Guerra Mundial ao participar no campo dos Aliados. Na Holanda, apenas uns poucos, incluindo Sneevliet (“Maring”) e o GIC (Grupo dos Comunistas Internacionalistas), e fora da Holanda, especificamente a Esquerda Comunista Italiana, mantiveram a posição do internacionalismo proletário contra todo e qualquer imperialismo.

A ironia da história é que, conforme os bolcheviques tentaram fazer com que a classe trabalhadora executasse uma revolução burguesa nas linhas de 1848, eles se tornaram, na realidade, executores da tendência global rumo ao capitalismo de Estado. Assim, eles se transformaram da vanguarda internacionalista que haviam sido na luta da classe trabalhadora contra a 1ª Guerra Mundial nos coveiros do movimento proletário mundial que se iniciou na Rússia em 1917 e se encerrou com a derrota dos trabalhadores chineses em 1927. Sim, os trabalhadores na Europa Central e Ocidental poderiam ter salvado a Revolução Russa, mas não com as táticas bolcheviques que a Internacional Comunista impôs a eles – táticas baseadas numa suposta revolução burguesa, executada por uma classe trabalhadora pouco consciente sob a liderança de um partido que substitui essa classe por si mesmo. Isto também levanta a questão de se o caráter da Revolução Russa poderia ter sido salvo pelos trabalhadores da Europa, dado o fato de que o poder dos conselhos operários eclipsou detrás do crescente poder do Estado logo após Outubro.

Voltando a O Estado e a revolução, é uma pena que Anton Pannekoek não tenha cumprido sua promessa de escrever uma resenha deste livro[26]. No entanto, em 1932, apareceu um artigo em uma revista próxima de sua posição, o Persdienst van de Groep(en) van Internationale Communisten [Serviço de Imprensa do(s) Grupo(s) de Comunistas Internacionalistas], no qual O Estado e a revolução é sujeitado à crítica da perspectiva do comunismo de conselhos.

O artigo Marxismo e o Comunismo de Estado levanta a questão de “se a transferência dos meios de produção ao Estado pela classe trabalhadora vitoriosa, como refletido na teoria e prática bolchevique, é o caminho para o comunismo[27]”.

A resposta dada a essa questão pelo GIC é “não”. Seguindo Marx e Engels, ele adotou a visão de que após a revolução a “associação de produtores livres e associados” assume controle dos meios de produção. Nos Princípios Fundamentais da Produção e Distribuição Comunistas[28], o GIC elaborou esta posição numa crítica das visões da planificação capitalista de Estado como desenvolvida pelo reformismo e adotada pelos bolcheviques no poder. Em vez disso, o GIC forneceu as linhas gerais de um sistema no qual os conselhos operários gerem a produção e a distribuição. Ao fazê-lo, uma classe trabalhadora vitoriosa também pode aplicar a ditadura do proletariado através dos conselhos no domínio econômico. E, mais importante, ao compreender a operação da produção e distribuição, ela pode ver as limitações de “liberdade” e “igualdade” que na essência ainda são burguesas e assim pode garantir um maior desenvolvimento rumo ao comunismo no qual dar e receber de acordo com as necessidades e o autodesenvolvimento individualmente único são primordiais.

No Princípios Fundamentais, a hora de trabalho social média desempenha o papel de unidade de contabilidade e – por enquanto – serve como critério para a distribuição da riqueza produzida. Isto levou a algumas críticas, às quais não podemos responder no escopo deste texto[29].

Nossa questão aqui é se havia socialismo na China no período antes das revoltas de Tiananmen de 1898. Se nós seguirmos o GIC em sua crítica de Lenin, podemos falar no máximo de socialismo de Estado. Nós preferimos o termo muito mais claro, capitalismo de Estado. Engels havia avisado claramente contra a tendência rumo ao capitalismo de Estado que apareceu no final do século XIX. O GIC mostra em Marxismo e Comunismo de Estado que Engels declara em seu Anti-Dühring que os meios de produção serão propriedade do Estado e que, por este motivo, Lenin baseia sua teoria nesta declaração. Este fragmento também pode ser encontrado em O desenvolvimento do socialismo: utópico e científico[30] de Engels (edição separada de uma parte do Anti-Dühring). Engels nota no prefácio à sua edição alemã de 1891 que ele havia acrescentado um texto significativo no final da Parte III sobre a “nova forma de produção dos Trustes que agora se tornou importante[31]”. “Nisto”, assim avisa Engels, “os trabalhadores permanecem trabalhadores assalariados – proletários[32]”.

O GIC demonstra que Lenin abraça o capitalismo de Estado como sendo “socialista” ao pesquisar um pouco sobre a seguinte citação de O Estado e a Revolução: “Um social-democrata espirituoso dos anos 70 do século passado chamou os correios de um exemplo do sistema econômico socialista. Isto está bastante correto[33]”. O GIC indica que na visão da jovem social-democracia, a gestão e administração da produção e distribuição adviriam diretamente aos próprios produtores e não tomariam o desvio do Estado. A igualação de Estado e sociedade é apenas uma invenção de anos posteriores. No entanto, na luta pela “reforma social”, esta posição foi abandonada por volta de 1900 e a “nacionalização”, estatizando ou municipalizando diversas empresas, foi cada vez mais sugerida como um passo rumo ao socialismo. A Revolução Russa se deu perfeitamente segundo o programa de “nacionalização” da indústria. Na Rússia também, aqueles ramos que foram considerados “maduros” para este propósito foram acrescentados ao aparato estatal central. Em 1917, produtores começaram a expropriar os donos em diferentes empresas, incomodando bastante aqueles que queriam liderar e gerir as empresas “de cima”. Os trabalhadores queriam organizar a produção sobre novas bases segundo regras comunistas. Em vez disso, o Partido Comunista emitiu diretrizes segundo as quais as empresas deveriam se unir em trustes, de modo a colocá-las sob gestão única. O que não pôde ser incluso no plano de disposição central foi devolvido aos donos, uma vez que estas empresas ainda não estavam “maduras”.

Segundo o GIC, Lenin tinha consciência de que a concentração de toda a produção no Estado significava um fortalecimento do poder estatal e, portanto, se opunha à ideia do fenecimento do Estado. Porém, segundo o GIC, não foram as boas intenções, mas a situação em si na Rússia que desenvolveram a teoria leninista do comunismo de Estado. O caminho de tornar o Estado cada vez mais forte, mais firme, foi ditado gradualmente àqueles que dispunham do poder estatal russo[34].

Assim, quando a União Soviética, a China, a Coreia do Norte, o Vietnã e os países do Leste Europeu na época do bloco soviético são considerados países “socialistas”, esta é a única base possível para uma identificação do capitalismo de Estado com o socialismo, a qual Lenin tomou emprestada do reformismo. Stalin desconectou esta equivalência da necessidade de uma revolução mundial. A ideia do proletariado como o executor da transição rumo ao “socialismo” foi substituída pela conquista militar na 2ª Guerra Mundial e pela instituição subsequente do capitalismo de Estado nas linhas da União Soviética. A ideia da suposta autoridade desta forma de capitalismo de Estado agora foi completamente provada errada pelo fracasso de quase todos estes países. A China só pôde evitar esta bancarrota – para preservar o poder do PCCh – por uma integração patente à ordem mundial neoliberal e à divisão internacional do trabalho, assumindo a posição de “oficina do mundo”. Com a estagnação do crescimento econômico e o aumento das greves e revoltas na China, o capitalismo mundial, após um século, começa a fraquejar pela segunda vez sob a guerra e lutas operárias ameaçadoras – como previsto por Anton Pannekoek.

6.3 Reinventando o Comunismo

O grupo Chuǎng tem o mérito de ressaltar a importância internacional dos desenvolvimentos na China. Uma revolta na “oficina do mundo” por causa da posição do Delta do Rio das Pérolas na divisão internacional do trabalho se manifestará imediatamente no bloqueio da logística global do capitalismo. Como a Revolução Russa no passado, uma Revolução Chinesa em nossa época encontrará uma enorme ressonância entre os trabalhadores não só China, mas por todo o mundo. As enormes concentrações de trabalho e unidades fabris, aliadas às altas capacidades tecnológicas na classe trabalhadora, fazem com que qualquer tomada do poder por trabalhadores militantes na China também possa se manter por mais tempo do que em qualquer outro lugar do mundo. Por fim, para os poucos elementos revolucionários no Ocidente que persistem em sua confiança no potencial revolucionário da classe trabalhadora internacional, os textos do Chuǎng constituem uma fonte importante de inspiração já que eles demonstram que, na China, a migração e os contratos de emprego inseguros não previnem, mas até mesmo promovem lutas de classes ferozes.

Assim, o Chuǎng não tem medo de destruir diversos mitos e falácias de vários grupos presentes no Ocidente que se chamam de comunistas, do keynesianismo em roupagem marxista até o malabarismo com a combinação de sindicatos e redes sociais.

No entanto, visto dos pontos de vista do “Marxismo Ocidental” de Anton Pannekoek e do GIC uns 70 a 100 anos atrás, o Chuǎng também demonstra algumas fraquezas neo- ou pós-modernas que correspondem à teorização de grupos na Europa e nos Estados Unidos sobre o enfraquecimento das lutas operárias nos antigos países capitalistas centrais sob a pressão do neoliberalismo desde os anos 1980. Nós apenas mencionamos o declínio da importância da classe trabalhadora tradicional em virtude da automação, da robótica e da terceirização da produção para a Índia e China, a mudança para o setor de serviços, a privatização, ataques ao “salário social”, a flexibilização, a crescente insegurança no emprego, a migração do trabalho e, relacionada à última, por último, mas não menos importante: a xenofobia.

Uma diferença importante entre os nossos tempos e aqueles nos quais Pannekoek estava ativo é a perda dos partidos Comunista e Social-Democrata como expressões organizacionais e teóricas da luta da classe trabalhadora. Pannekoek vivenciou e analisou este processo “de dentro” como participante do movimento operário. Porém, hoje, inclusive a memória viva destas organizações desapareceu. A implosão da União Soviética, aos olhos das grandes massas, ofuscou a imagem da luta proletária pela qual o assim chamado “Estado Operário” teria surgido, a despeito de quão distorcida esta ideia foi pelo stalinismo e pela Guerra Fria. Esta “última esperança” – ainda que a maioria dos trabalhadores não quisesse viver e trabalhar nela – desapareceu nas brumas de um passado distante. Com isto, outro ponto de referência importante para os elementos de mentalidade revolucionária atuais é enfraquecido. Somente pequenos grupos e indivíduos avulsos ainda recorrem a posições proletárias internacionalistas, à história do movimento operário e aplicam o materialismo histórico – tão bem e tão mal quanto podem – como um método de análise e luta.

Mas isso não quer dizer que a história deve ser rejeitada de uma maneira pós-moderna, pois isso levaria a “nada”. Começar do zero não garante que não se repetirá erros passados. Neste sentido, um proletariado sem passado não tem futuro. Está claro que uma nova geração terá de refazer seu próprio comunismo. Não como um dogma, mas como um método e posições gerais resultantes da aplicação do materialismo histórico. Esta apropriação só pode acontecer através de uma renovação à luz dos eventos atuais. Mas isso é algo completamente diferente da rejeição do método e de qualquer conjunto coerente de visões como “programáticas”, como sugerido pelo academicismo.

No Ocidente – compreensível dado a deterioração da luta operária desde os anos 1980 – se coloca dúvidas sobre a importância da classe trabalhadora, suas lutas, sua capacidade de se tornar consciente e sobre a validade de sua expressão teórica, o materialismo histórico ou o marxismo. No mundo acadêmico, abandonar as posições da classe trabalhadora é obviamente facilitado. As teorizações mais eficientes são aquelas que seguem o exemplo do stalinismo nos anos 1930, se concentrando em pessoas que imaginam ser intelectuais e que esperam que “a imaginação chegue ao poder”. Do lado dos “ultra-esquerdistas” decepcionados, nós podemos ver um movimento rumo ao academicismo. Ambos os movimentos se expressam e se juntam em formulação “dialéticas” esquisitas, na fabricação de novos termos para conceitos antigos e na construção de novos conceitos que tendem a descambar facilmente em abstrações insignificantes. Os textos do Chuǎng estão marcados por este linguajar desnecessariamente difícil.

No que diz respeito ao “(não-) sujeito”, um novo conceito para a identificação da classe revolucionária, isto parece redundante se você der uma olhada no trecho da Ideologia Alemã no qual Marx e Engels mostram o resultado de sua análise histórica da classe trabalhadora, a saber:

  1. O surgimento de um período de revolução social e da classe trabalhadora “que tem de carregar todos os fardos da sociedade sem desfrutar de suas vantagens, que, excluída da sociedade, é forçada ao antagonismo mais deliberado para com todas as outras classes; uma classe que forma a maioria de todos os membros da sociedade e da qual emana a consciência da necessidade de uma revolução fundamental, a consciência comunista, a qual pode, é claro, surgir também entre as outras classes através da contemplação da situação desta classe”.
  2. A necessidade de lutas de classes e de seu caráter político.
  3. A revolução comunista abole o trabalho e transcende o governo de todas as classes com as classes mesmas, “pois ela é realizada pela classe que não conta mais como classe na sociedade, não é reconhecida enquanto classe e é em si mesma a expressão da dissolução de todas as classes, nacionalidades, etc. na sociedade atual”.
  4. Tanto para a produção em massa desta consciência comunista e para o sucesso da causa em si, a mudança dos homens em massa, é necessária uma mudança que só pode acontecer num movimento prático, numa revolução; esta revolução é necessária, portanto, não só porque a classe dominante não pode ser derrubada de qualquer outra maneira, mas também porque a classe que a derruba só pode ser bem sucedida em uma revolução ao se livrar do estrume do passado e se tornar apta a fundar novamente a sociedade[35]”.

No Manifesto Comunista, Marx e Engels apresentam a mesma compreensão da classe trabalhadora, mas desta vez não em termos de sua teoria da alienação e da crítica dos jovens hegelianos. Em vez disso, eles a formulam em termos programáticos, concentrando-se no papel do proletariado e dos comunistas nas revoluções de 1848. Mais tarde, o conceito da classe trabalhadora assumirá a forma da subsunção real e formal sob o capital quando Marx e Engels analisarem a economia; em sua análise política da Comuna de Paris, ela realiza o conceito do exercício da ditadura do proletariado e assim por diante. Mas independentemente a quais territórios ou períodos históricos também se tenha aplicado o conceito de proletariado, as formulações utilizadas na autocompreensão do materialismo histórico se aproximam apenas a aspectos do todo. Esta abordagem de acordo com a teoria é – para formular isso dialeticamente – apenas uma abstração da “totalidade concreta”, do todo abrangente das experiências do agir e do pensar de todos os trabalhadores que estiveram e estarão, até que essa compreensão permita aos que estão vivos levarem a cabo a revolução proletária, nos ombros das gerações passadas de proletários, ao terem a consciência ao máximo, cobrindo as menores fissuras e cantos do mundo da existência humana.

Em contraste, qualquer restrição da teoria da classe trabalhadora revolucionária a somente um dos aspectos de sua “identidade”, como aquela da “subordinação real” ou “precariedade” (insegurança no emprego) ou a apenas uma parte da classe, como, por exemplo, a parte “nova” ou “migrante”, os desempregados ou apenas a parte empregada, ou para a consciência derivada das histórias dos “povos heterodoxos” não é nada senão uma limitação da autoconsciência do proletariado. Pelo contrário, é fundamental colocar todas estas experiências parciais no panorama geral que empodere a classe para executar sua autoemancipação de maneira bem-sucedida.

Em sua vida, Anton Pannekoek viu como a relativa prosperidade que houve a partir de 1894, após uma prolongada depressão, acalmou a consciência de classe até que ela adormecesse. Dentro da social-democracia, desenvolveu-se a ideia de que através de reformas graduais, aumentando o capitalismo de Estado, eventualmente, sob a influência da crise, o proletariado – maciçamente unido nos sindicatos e no partido – obteria o poder estatal através das eleições. Como alternativa a essa concepção mecânica e capitalista de Estado da transição ao socialismo, Pannekoek propôs cada vez mais aquela da organização independente (organizações fabris, assembleias e conselhos gerais, organizações dos desempregados) e à consciência dentro da classe – inspirada, como ele fora, pelas experiências da classe trabalhadora internacional em seus movimentos de massa em e ao redor das Revoluções Russas de 1905 e 1917 e daquelas na Alemanha entre 1918 e 1923. Em particular, a noção de que o capitalismo havia entrado com a 1ª Guerra Mundial no “período de revolução social” (Marx)[36] contribuiu para a compreensão de que não havia espaço para o “reformismo” e que o Estado não podia mais tolerar organizações operárias de massa permanentes – como os sindicatos e os partidos operários haviam outrora sido. Diante da escolha do Estado de ver suas organizações destruídas, os burocratas do partido e dos sindicatos escolheram a alternativa, a sua preservação como parte do Estado burguês.

Mas com a integração das antigas organizações reformistas ao Estado capitalista, a luta contra os efeitos da crise não acabou. Em certo sentido, a crise é a melhor aliada da classe trabalhadora, pois ela pode dar origem à consciência da obsolescência histórica do capitalismo. Porém, seria subestimar enormemente o poder da classe capitalista e seu Estado acreditar que a crise esgota todos os meios possíveis de dividir a classe trabalhadora com concessões temporárias e vãs. Certamente, se se crê ao mesmo tempo que conflitos em outras áreas que não aquela dos salários, trabalho e benefícios (como aquela do meio-ambiente e das expropriações) pela mesma falta de espaço para barganhar sob a pressão da crise também poderia levar a uma situação revolucionária. Por mais de um século a realidade da luta de classes demonstra que lutas não assumem caráter revolucionário quando lhes falta no mínimo consciência em massa da necessidade de encarar os ataques do Estado e de, eventualmente, derrotá-lo. Por exemplo, a prolongada crise que se iniciou com o crash do mercado de ações em 1929 levou a uma profunda derrota da classe trabalhadora internacional, a qual – confusa entre a falsa escolha entre a (social-) democracia, o fascismo e o stalinismo – não conseguia reencontrar o caminho para lutar por seus próprios objetivos de classe.

A falta de lutas e, portanto, de consciência proletária em massa é idêntica à falta de influência significativa de grupos minoritários que defendem posições revolucionárias com base em uma compreensão mais aprofundada da possibilidade histórica do comunismo. No entanto, apenas estas mesmas minorias são capazes de se manter como pequenos grupos fora de períodos de conflito aberto – frequentemente no subterrâneo[37] mais profundo. Estes grupos ou núcleos não podem agir como substitutos para a classe ou como seu “cérebro pensante”, por exemplo, para apaziguar a classe com slogans convenientes. O que estes grupos podem fazer é disseminar seus insights no desenvolvimento da luta, de uma maneira na qual eles possam desempenhar um papel no processo de autoconsciência dos trabalhadores do qual eles surgiram. Quando estes grupos – sob a influência de conflito aberto prolongado com conselhos e reuniões de massa temporárias e através de um processo de fusão de grupos baseado em posições comuns – tiverem atingido uma extensão tal que faz com que seja melhor que eles sejam chamados de “partidos”, então estas partes mais conscientes da classe servirão de fato como pontos de referência e como guia para a luta da destruição do Estado e a revolução da sociedade em direção ao comunismo. Um movimento insurrecional de trabalhadores na China, mesmo que só tenha sucesso temporário em fazer o Estado recuar, significará um enorme estímulo para o despertar da classe trabalhadora ao redor do mundo.

Fredo Corvo, 25 de agosto de 2016.
Tradução do autor: 18 de setembro de 2016.
Revisão de Jac. Johnson, 17 de outubro de 2016. Correções finais: 27 de outubro de 2016.

Referências

DUTSCHKE, Rudi. Versuch, Lenin auf die Füsse zu stellen. Über den halbasiatischen und den westeuropäischen Weg zum Sozialismus. Lenin, Lukács und die Dritte Internationale. Klaus Wagenbach, Berlin, 1984.

ENGELS, Friedrich & MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider, Luciano Cavini Martorano. São Paulo, Boitempo, 2007.

____________________________. MEW 3. Berlin, Dietz Verlag, 1978.

GERBER, John. Anton Pannekoek and the Socialism of Workers’ Self Emancipation. 1873-1960. Kluwer Academic Publishers, Dordrecht, Boston, London e International Institute of Social History, Amsterdã, 1989.

LUXEMBURGO, Rosa. “Die Akkumulation des Kapitals” in- Gesammelte Werke, Bd. 5. Berlin, 1974.

PANNEKOEK, Anton. “The Downfall of the International”. In- The New Review, vol. 11, nº 11, novembro de 1914, p. 621-630.

__________________. “De Economische Noodzakelijkheid van het Imperalismus” in- De Nieuwe Tijd, Ano 21, nº 5 (5 de maio). 1916, p. 268-285.


[1] Tradução realizada a partir do inglês When in China a Butterfly Claps its Wings… Stagnating Growth, Increase of Riots and Strikes, de Fredo Corvo. Todas as citações foram traduzidas a partir do inglês, mas incluí links para os textos disponíveis na web e também as referências às obras em alemão e português e alemão de Marx e Engels quando possível. Nos colchetes indico a tradução dos nomes de grupos e artigos/livros. Pequenos trechos aqui e ali foram revistos pelo autor para esta publicação em 2022 [N. T.]

[2] Um agradecimento especial a Vico por seu inestimável website http://www.aaap.be/ e que chamou minha atenção para a visão não eurocêntrica de Anton Pannekoek sobre a Revolução Russa.

[3] Sobre a derrota da Comuna de Xangai, se recomenda os seguintes artigos? CDW, “China 1927: Last gasp of the world revolution” [China 1927: Último suspiro da revolução mundial]; Damiano Signorini, “China 1925-1927”.

[4] P. Aartsz (Anton Pannekoek), Workers’ Councils, Melbourne, 1950.

[5] “Os baixos preços das mercadorias são a artilharia pesada com a qual ele derruba todas as muralhas da China, com a qual ele força o ódio intensamente obstinado dos bárbaros por estrangeiros a capitular. […] E como a burguesia supera estas crises? Por um lado, pela destruição forçada de uma massa de forças produtivas; pelo outro, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais minuciosa dos antigos. Isto é, preparando o caminho para crises mais extensas e destrutivas e diminuindo os meios através dos quais se previne as crises” (Manifesto Comunista).

[6] Chuǎng, Edição n° 1. https://www.chuangcn.org/journal.

[7] Todas as citações traduzidas a partir do alemão: Rosa Luxemburg (1974), p. 364.

[8] Idem, p. 391-392.

[9] Idem, p. 410-411.

[10] Anton Pannekoek (1916), “De Economische Noodzakelijhkheid van het Imperialisme”, deel V., p. 280. Neste artigo, nunca traduzido da língua holandesa, Pannekoek desenvolve extensamente sua posição.

[11] Idem, p. 273.

[12] Luxemburgo, segundo Pannekoek, idem, p. 272. Ver também Luxemburgo (1974), p. 102.

[13] Pannekoek (1916), p. 274.

[14] Pannekoek (1913), Theoretisches zur Ursache der Krisen [Teóricos sobre a causa da crise].

[15] Idem, §3.

[16] John Gerber (1990), p. 102.

[17] Em Problemas organizacionais da social-democracia russa, Rosa Luxemburgo se opôs à posição de Lenin sobre o “Direito das nações à autodeterminação”. Na política interna da União Soviética este “direito” existiu apenas enquanto serviu aos bolcheviques. Na política externa e aquela da subordinada Internacional Comunista, este “direito” foi usado para subordinar o movimento operário emergente, especialmente na Ásia, à formação de partidos burgueses, como o Kuomintang na China, porque neste país “revoluções burguesas” estariam na agenda da história. Ver também a nota 2.

[18] Pannekoek (1912), Class Struggle and Nation.

[19] Anton Pannekoek (1914), p. 624.

[20] Esta é a base da posição tomada por Lenin em 1916 na época de Zimmerwald versus Radek, o qual representava a visão dos comunistas da Europa Ocidental. Este último insistiu que o slogan do direito de todos os povos à autodeterminação, que os patriotas sociais haviam adotado com Wilson, era meramente uma artimanha, uma vez que este direito sempre só pode ser uma aparência e uma ilusão sob o imperialismo e que nós deveríamos, portanto, nos opor a este slogan. Lenin via neste ponto de vista a tendência dos socialistas da Europa Ocidental de rejeitar as guerras de libertação nacional dos povos asiáticos, evitando, assim, a luta radical contra as políticas coloniais de seus governos. [Nota de Pannekoek à citação]

[21] Pannekoek parece se referir ao “comunismo de vilas” que ele menciona duas vezes neste texto e que é parte do “despotismo oriental”, como Marx se referia ao modo de produção dominante na Rússia e na Ásia. Ver também Rudi Dutschke (1984).

[22] Pannekoek, World Revolution and Communist Tactics, 1920 [Disponível em português aqui].

[23] Em referência ao artigo escrito pelo Chuǎng, incluso no sumário do livro editado em holandês. “No Way Forward, No Way Back” pode ser traduzido como Sem Escapatória. O artigo pode ser lido em inglês aqui. [Nota do Crítica Desapiedada – CD]

[24] Confira também outras análises críticas da obra Estado e Revolução de Lenin, as quais podem ser vistas em: Período de Transição ou Contrarrevolução Burocrática? Crítica ao Leninismo e seus Desdobramentos Históricos (Aline Ferreira & Gabriel Teles), Contra o “Estado e a Revolução” de Lênin (Chris Wright) e Comuna de Paris, Interpretações e Perspectiva de Classe (particularmente, o tópico “A Comuna de Paris segundo a perspectiva burocrática”) (Nildo Viana). [Nota do CD]

[25] Ver, sobre o internacionalismo de Lenin no período no qual ele considerou que a situação na Rússia ainda não estava madura para uma revolução socialista, por exemplo, o último parágrafo de Quem São os “Amigos do Povo” e Como Lutam Contra os Social-Democratas?

[26] Em um inserto para a primeira edição de 1919 da De Nieuwe Tijd (com data de dezembro de 1918), na qual o conselho editorial e a editora anunciam os artigos planejados para o ano de 1919 a seus leitores. Ver aqui.

[27] GIC (1932) Marxismo e Comunismo de Estado. O Fenecimento do Estado [artigo em inglês]. Pannekoek não era membro do GIC, mas mantinha contato intenso por meio de Canne Meijer e contribuía regularmente com artigos para o Persdienst (“Serviço de Imprensa”).

[28] Sobre este texto e textos relacionados, ver Tema: A solução econômica para o período de transição do capitalismo ao comunismo [textos apenas em alemão, inglês,   espanhol, francês, italiano e holandês].

[29] Ver Corvo, “The G.I.C. and the economy of the transition period”, partes 1 e 2. [Nota do autor em 2022] [Disponível em português aqui: O G.I.C. e a economia do período de transição]

[30] No inglês: “The development of socialism: utopian and scientific”. O texto escrito por Engels foi traduzido no Brasil como “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”. Ela é a tradução mais comum em língua portuguesa, destoando do título em inglês como mencionado pelo autor do artigo. [Nota do CD]

[31] MEW 19, p. 523.

[32] Capítulo 3 (O Materialismo Histórico) de Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico.

[33] Capítulo 3.

[34] GIC (1932).

[35] A Ideologia Alemã, capítulo 1 [1978, p. 69-70; 2007, p. 41-42].

[36] Ver Corvo (2021), “Capitalism is coming to an end. But how?” [O capitalismo está chegando ao fim. Mas como?] Pannekoek não aceitou ideias de uma decadência do capitalismo, mas, em vez disso, insistiu que o imperialismo provocava mudanças fundamentais às táticas da luta operária. [Nota do autor em 2022]

[37] No inglês, underground também o sentido de “clandestino”. [N. T.]