A Questão Venezuela – GTIB

[ARTIGOS DE OPINIÃO]

Registro da ocupação de fábricas pelos trabalhadores na Itália durante o biennio rosso

A questão Venezuela: colaboração inter-burguesa ou internacionalismo proletário?

O recente ataque estadunidense à Venezuela e o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026, provocou a mais colérica indignação em todos os cantos do mundo. Não sem razão, o fato alarma a qualquer um que tenha dedicado o seu tempo a refletir sobre o significado dessa ação e sobre o que ela prenuncia. Tempos sombrios se avizinham e ninguém parece ter clareza quanto ao que fazer.

Com a possível exceção dos adeptos da ideologia imperialista norte-americana – representada, em sua versão mais recente, pelo atual chefe de Estado dos Estados Unidos da América e sua administração, Donald Trump –, nem uma única alma acreditou que a agressão possuía qualquer relação com o narcotráfico ou com a libertação da Venezuela do jugo ditatorial bolivariano. Pelo contrário. Os analistas de todas as vertentes políticas concordaram que a investida estadunidense teve como óbvia motivação o interesse nas reservas petrolíferas venezuelanas, além, por certo, do desejo de conter o avanço comercial de China e Rússia no continente sul-americano. Somente um pouco menos óbvias eram a ameaça e a coação sinalizadas por esse ataque aos demais governos da América Latina no intuito de que estes, em troca, alinhassem-se às pretensões da Casa Branca.

Os acontecimentos subsequentes à ação militar confirmaram essas impressões. Poucos dias após o ataque, o governo norte-americano recuou das acusações sobre a ligação de Maduro com o suposto “Cartel de los Soles” e anunciou um acordo com o Estado venezuelano envolvendo a “entrega” de até 50 milhões de barris de petróleo. Adicionalmente, novas ameaças de ordem militar foram endereçadas a México e Colômbia. Diante de todos esses episódios, poucos discordariam de que testemunhamos uma época em que o mercado global está a ser redividido pelas grandes potências mundiais. De igual maneira, poucos apostariam com convicção que essa divisão prescindirá do uso da força militar. Cogitar a eclosão de uma terceira guerra mundial não parece nenhum devaneio.

Do lado mais à esquerda ou progressista, o ataque bélico estadunidense à Venezuela tem sido qualificado sem reservas como “imperialista”. Isso não está errado, mas o adjetivo muitas vezes é usado como um mero sinônimo de “imperial” – isto é, como se a ação promovida por Trump fosse do mesmo tipo que as campanhas militares de Augusto ou de Napoleão. Cabe, portanto, que aqui se faça um esclarecimento. O imperialismo considerado em termos do estágio atual do capitalismo, em vigência desde a virada do século XIX para o XX, reporta-se a uma era caracterizada pela concorrência na produção e circulação mundial de mercadorias. Nessa etapa, o acúmulo de mais-valia passa pelo processo de fusão entre os capitais industrial e financeiro e sua subsequente exportação. O resultado é a geração do capital imperialista – ou seja, grandes oligopólios empresariais que repartem e disputam entre si as fatias do mercado global, tais como Nvidia (EUA), Saudi Aramco (Arábia Saudita), TSMC (Taiwan), PetroChina (China), Nestlé (Suíça), Gazprom (Rússia) e assim em diante.

Outro traço distintivo dessa época histórica é que tais disputas imperialistas necessariamente ultrapassam o terreno puramente mercantil e se transformam em conflitos militares abertos, como exemplificado paradigmaticamente pelas duas guerras mundiais testemunhadas pelo século XX. No entanto, por conta do potencial destrutivo absoluto representado pelo desenvolvimento de armas nucleares, a beligerância imperialista tem se restringido, nos últimos setenta anos, a guerras locais ou regionais.

Um elemento importante do capitalismo vigente é que, como mencionado há pouco, o capital imperialista é exportado do país de onde se originou a outras nações – em geral, a nações periféricas na divisão internacional da mais-valia, tais como as sul-americanas ou africanas. A consequência é que tal exportação se serve dos recursos dos territórios para os quais são exportados e impede o desenvolvimento da produção e do capital nacionais desses países. Corriqueiramente, não há escrúpulo algum de se assegurar esse impedimento por meio da força bélica. A título de ilustração, o golpe militar ocorrido na Guatemala, em 1954, contou com a intervenção direta dos Estados Unidos da América por conta de seu interesse em proteger a United Fruit Company, uma corporação estadunidense cujas receitas e terras estavam ameaçadas pelas reformas agrárias do governo guatemalense de Jacobo Árbenz.

Daí a comum ideia segundo a qual o imperialismo se trataria da opressão entre nações – da nação economicamente atrasada pela nação economicamente desenvolvida. Semelhante concepção é responsável por motivar as políticas nacionalistas e desenvolvimentistas de toda sorte de organizações progressistas, das sociais-democratas às “comunistas”. Contudo, essa abordagem fundamentalmente geopolítica da questão esconde a real natureza do imperialismo. Em outras palavras, escamoteia o fato de que o imperialismo corresponde ao capitalismo de nossos dias, e, como tal, que ele se funda essencialmente, não sobre o conflito entre nações, mas sobre a luta de classes, sobre a exploração e opressão dos operários e trabalhadores pelos capitalistas. Que estes sejam burgueses nacionais ou estrangeiros, da periferia ou do centro, não altera o fato em absolutamente nada.

A adesão à perspectiva geopolítica do problema, ao ponto de vista do conflito entre nações capitalistas, independentemente de qual grupo a adote ou como ele se apresente – quer ostente o emblema da foice e do martelo, quer não –, implica o abandono da perspectiva de classe. Implica, portanto, o abandono do programa comunista. Fazemos questão de deixar esse ponto tão claro quanto possível. Em todo caso, é à luz do capitalismo em sua época imperialista que o recente ataque militar estadunidense à Venezuela deve ser avaliado.

Como de se esperar, diversas organizações e figuras políticas à esquerda, dos progressistas aos autodenominados comunistas, ornaram a sua revolta contra a citada agressão com uma já familiar fraseologia. Nos pronunciamentos, protestos e manifestações realizados nos dois lados do Atlântico, brados em favor do direito das nações à independência, do direito à autodeterminação dos povos e do direito internacional enfeitam uma retórica contrária às investidas neocoloniais dos Estados Unidos e favorável à soberania nacional venezuelana. Em particular, ouve-se, no Brasil, conclamações aos países da América Latina a formarem uma aliança ou frente anticolonial com vistas a resistir à ameaça imperialista norte-americana – frente a qual, preferencialmente, deveria contar, também, com a participação de países como China e Rússia. Os partidários dessa posição nos asseguram que o importante, agora, é esquecermos nossas diferenças em prol de um objetivo maior: livrar a Venezuela e a América Latina das garras de Trump e do capitalismo voraz por ele representado.

Uma vez que o direito das nações à independência, o direito à autodeterminação dos povos, o direito internacional e a soberania nacional são reinvindicações típicas do liberalismo político e do nacionalismo burguês, resta saber como tudo isso se relaciona com o programa revolucionário do comunismo. De igual urgência é saber por que razão as organizações que se intitulam “comunistas” fazem coro com os partidos burgueses sociais-democratas e sociais-liberais no tocante à defesa do Estado venezuelano.

É evidente que os comunistas devem criticar toda sorte de agressão imperialista tal como a que presenciamos recentemente. Contudo, como ensinado por Rosa Luxemburgo há mais de cem anos, essa postura não emana de qualquer simpatia ou reconhecimento da legitimidade de invioláveis “direitos dos povos” ou “pactos entre as nações”. Esse tipo de fórmula vazia não nos diz absolutamente nada. Os últimos acontecimentos mostram com clareza que semelhantes axiomas não passam de obscurantismos ideológicos e que a única lei que rege o capitalismo é a da violência.

Assim, se os comunistas se opõem a opressões imperialistas, fazem-no a partir de uma perspectiva de classe e em favor dos interesses da classe operária – ou seja, porque tais agressões são uma expressão da sociedade classista e da exploração sistemática do proletariado pelos capitalistas. E isso significa que tal oposição não pode se equivaler automática e acriticamente a uma defesa do país atacado. Antes de se manifestar apoio a seu Estado-nação, devemos nos perguntar e oferecer respostas a respeito da natureza da sociedade venezuelana.

Dos anos ’50 do século passado até as vésperas do nosso, a Venezuela, detentora das maiores reservas petrolíferas do mundo, foi governada nos marcos do Pacto de Punto Fijo, um acordo mediante o qual dois ou três partidos da assim chamada “oligarquia” do petróleo se alternavam no poder, sobretudo AD (Acción Democrática) e Copei (Comité de Organización Política Electoral Independiente). Concomitantemente, porém, a situação dos trabalhadores rurais e urbanos era de extrema pobreza e revolta. É em tal cenário que se dá a grande convulsão social de 1989, conhecida como Caracazo, impulsionada especialmente como uma resposta às medidas neoliberais do governo de Carlos Andrés Pérez. Esse levante popular pavimenta o caminho para a primeira e a segunda tentativas de golpe de Estado ocorridas poucos anos depois, em 4 de fevereiro e 27 de novembro de 1992, e fortalece significativamente o movimento político conhecido como “bolivarianismo”.

Tal cadeia de eventos culmina na eleição à presidência, em 1998, do tenente-coronel Hugo Chávez, do partido MVR (Movimiento V República) – base para a posterior fusão, em 2007, entre vários partidos (MVT, MEP, MIGATO, UPV, MRT, dentre outros) no atual PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela). Esse processo pôs fim ao pacto oligárquico, elegendo uma nova constituinte responsável por fundar a república bolivariana e promover determinadas reformas no interior daquele capitalismo dependente – tais como o controle estatal dos setores do petróleo e das telecomunicações, nacionalizações de empresas e programas sociais.

Em 2013, Chávez falece e Nicolás Maduro se elege presidente, dando continuidade ao chavismo, bolivarianismo ou “socialismo do século XXI”. Reelegendo-se em 2018 e em 2024 – em um pleito contestado e não reconhecido por diversos países –, Maduro não havia deixado a chefia de Estado até o seu sequestro, e, durante o período em que esteve à frente do governo da Venezuela, enfrentou os momentos de maior turbulência sofrida pelo projeto chavista. É bem verdade que, desde o seu surgimento, o bolivarianismo contou com forte e direta oposição dos Estados Unidos – os quais promoveram manifestações violentas (chamadas de “guarimbas”), tentativas de golpe de Estado e sanções econômicas ao país, bem como toda sorte de acusação de fraude e corrupção direcionada à gerência estatal chavista. No entanto, as dificuldades mais graves que acometeram a Venezuela decorreram diretamente da queda dos preços internacionais do petróleo, ocorrida em 2014.

Devido a uma economia altamente dependente do petróleo, a dívidas bilionárias contraídas por conta de empréstimos realizados junto à China, à baixa produção petrolífera agravada pela queda nos preços dessa mercadoria, além dos mencionados bloqueios econômicos promovidos pelos Estados Unidos da América, a sociedade venezuelana ingressou, desde então, em uma profunda crise. Hiperinflação, colapso produtivo, escassez de artigos básicos de consumo, grave recessão, êxodo em massa e brutais repressões a trabalhadores insatisfeitos se tornaram a normalidade no país.

Não obstante, dado que tais cenários de crise são, a despeito da piora exponencial nas condições de vida e trabalho do proletariado, uma oportunidade de lucro para os capitalistas, a situação na Venezuela não é nada catastrófica para aqueles que se apropriam da mais-valia produzida pelos operários daquele país. A exploração do operariado venezuelano, intensificada às suas custas, continuou a ser repartida entre os gestores do Estado chavista e seus parceiros – oriundos de grandes corporações chinesas, russas, estadunidenses, italianas e espanholas.

Entramos, agora, na questão que leva muitas organizações e figuras de esquerda a apoiarem o Estado da Venezuela. Referimo-nos às reformas, há pouco mencionadas, as quais motivaram a anexação do rótulo “socialismo do século XXI” ao chavismo. Nomeadamente, os programas sociais e o controle estatal das telecomunicações, mas principalmente as nacionalizações ou estatizações e a gerência de Estado do petróleo. Há aqui uma ideia muito disseminada, e não somente na assim chamada “esquerda”, segundo a qual existiria uma oposição inconciliável entre o “estatal” e o “privado”. Além disso, essa dicotomia supostamente refletiria, em algum grau, a tensão insuperável entre “socialismo” e “capitalismo”. De acordo com tal concepção, o socialismo se equivaleria à propriedade completamente estatizada dos meios de produção, à abolição da forma jurídica da propriedade privada, de maneira que, quanto mais estatizada fosse a propriedade em um determinado território nacional, mais próximo ele estaria de um modo de produção socialista.

Sendo assim, se um determinado país conta com uma nacionalização significativa de diversos setores da economia, ainda que talvez não possamos chamá-lo plenamente “socialista”, ao menos se deveria admitir que ele é mais “progressivo” do que um outro cuja propriedade seja majoritariamente privada – isto é, mais próximo essa nação estaria do “ideal socialista” de estatização completa. Alie-se a isso o fato de que, como expusemos antes, a produção nacional conflita com o capital imperialista, e se pode compreender cristalinamente de onde vem a defesa “à esquerda” da Venezuela. Pois se o caráter nacional da propriedade venezuelana não apenas a faz entrar em choque direto com o imperialismo estadunidense, mas também a torna pertencente a “todo o povo”, então qualquer detrator do bolivarianismo não pode ser outra coisa senão um simpatizante do neocolonialismo norte-americano.

Tal concepção é falsa e deve ser desmascarada enquanto tal. Em primeiro lugar, deveríamos nos perguntar por que razão a propriedade estatal – tratando-se o Estado de um organismo por meio do qual os exploradores fazem valer os seus interesses – seria mais “progressiva” ou menos capitalista do que a propriedade privada, uma vez que ela submete os operários às mesmas relações de produção típicas do capitalismo. Se assim fosse, seria necessário admitir – como apontado por Friedrich Engels que, já em 1877, confrontou a mesma questão em seu Anti-Dühring – que Napoleão e Matternich, por terem nacionalizado a indústria do tabaco, e Bismarck, que estatizou as ferroviais, foram os genuínos fundadores do socialismo. Mas ninguém em seu perfeito juízo afirmaria semelhante absurdo. E por uma razão muito simples. As nacionalizações não implicam em mudanças nas relações produtivas. Elas não afetam em nada a universalização do trabalho assalariado, o acúmulo de capital, a separação dos operários dos meios de produção, a transformação generalizada dos produtos do trabalho em mercadorias e por aí vai.

Vê-se, então, que a propriedade estatal não modifica as fundações do capitalismo. O proletariado continua a ser uma classe que precisa vender a sua força de trabalho para sobreviver, sem nenhuma voz na gestão dos processos produtivos ou na partilha do excedente social. E, na medida em que uma dada sociedade organiza a produção e circulação de bens de consumo sobre essas bases, seria um desvario completo afirmar que o Estado que lhe corresponde poderia alterar o seu caráter essencialmente burguês pelo simples fato de administrar a exploração da mais-valia no lugar de capitalistas privados. “O Estado moderno”, diz-nos Engels, é “o capitalista coletivo ideal”. De uma maneira ou de outra, ele serve aos burgueses e, portanto, também a propriedade nacional. 

Sendo assim, é evidente que quaisquer apelos às reformas e nacionalizações bolivarianas não são suficientes para se afirmar que o chavismo se aproxima sequer remotamente do que chamamos “socialismo” ou “comunismo”. Tampouco servem para se sustentar que o bolivarianismo seria mais “avançado” do que o capitalismo administrado privadamente. E isso porque a sociedade venezuelana se funda sobre a desigualdade social, sobre a preservação da dinâmica entre exploradores e explorados, sobre a exploração incessante dos operários pelo capital – assim como em todos os demais países de qualquer continente. No entanto, a degeneração nas condições de vida do operariado e demais trabalhadores venezuelanos é pior do que a de muitas “nações neoliberais”. Além disso, a repressão bolivariana às insurgências proletárias é, por vezes, significativamente mais violenta do que em outros territórios nacionais. O Estado-nação venezuelano não é mais do que um Estado burguês e, como tal, defende os interesses capitalistas como qualquer outro.

A conclusão inequívoca é que os interesses do proletariado da Venezuela são diametralmente opostos aos “interesses nacionais” de seu país, isto é, aos interesses da burguesia venezuelana. E o mesmo vale para as classes operária e trabalhadora de qualquer outro Estado-nação. Em vista disso, e a despeito das ginásticas ideológicas que os oportunistas de vermelho usam para afirmar o contrário, nem o proletariado venezuelano, nem os comunistas de qualquer território nacional devem apoiar as burguesias “oprimidas” da Venezuela, da Bolívia, do Brasil ou de qualquer outro lugar “atrasado” economicamente, e muito menos as burguesias imperialistas dos Estados Unidos, China ou Rússia.

Por certo, esses notórios ginastas do oportunismo mencionados acima não podem simplesmente negar, ao menos de maneira explícita e direta, a conclusão de que os trabalhadores não devem colaborar com os seus inimigos de classe. A saída, portanto, é aplicar, com a destreza que lhes é característica, novos contorcionismos que justifiquem a coalizão entre exploradores e explorados contra um inimigo comum. Daremos atenção apenas a um desses malabarismos.

Diz-nos o oportunismo que, embora o programa comunista objetive a destruição do capitalismo, a obliteração da ditadura do lucro e a superação do trabalho alienado – numa palavra, o fim da exploração de seres humanos por outros seres humanos –, o momento não é para isso. A conjuntura não é favorável, não há crise revolucionária à vista nem proletariado consciente se insurgindo. Agir como se as coisas fossem diferentes é um mero “desvio esquerdista”. Logo, a revolução só pode ser concebida em termos de um projeto a longuíssimo prazo. Até que as condições para uma ruptura insurrecional amadureçam, os comunistas, professa a fé oportunista, devem apoiar (“criticamente”!) os governos burgueses mais “à esquerda” e “progressistas” cuja existência é permitida pelo capitalismo – especialmente os que contrariam a hegemonia do imperialismo estadunidense e os que prometem projetos de desenvolvimento nacional.

O pressuposto por detrás dessas considerações, as quais embasam ideologicamente a política oportunista do social-patriotismo, é que o amadurecimento da revolução é acelerado ou emperrado (talvez até revertido) a depender de qual facção capitalista exerça o domínio sobre um determinado Estado-nação. Do contrário, não haveria sentido algum na sugestão de que os revolucionários deveriam apoiar uma ou outra fração da burguesia, a nacional ou interna em detrimento da estrangeira. Disso se segue, assevera o oportunismo, que a contribuição oferecida pela militância comunista para trazer a revolução mais perto de nós é colaborar com algum governo burguês. E assim essa ginástica pseudo-socialista demonstra que lutar pela revolução anticapitalista é lutar em defesa dos capitalistas. A via para o comunismo seria asfaltada pela colaboração com a burguesia e, no contexto de disputas geopolíticas, pela coalizão entre nações oprimidas contra o imperialismo. Numa palavra, o socialismo só será trazido à tona por meio da colaboração inter-burguesa.  

Concentremo-nos, então, nesse argumento – a saber, de que certos modelos de gestão do capital são mais favoráveis do que outros para o desdobramento de um processo revolucionário, e que é dever dos comunistas lhes darem apoio em virtude desse efeito benéfico que supostamente representariam para a revolução. Ora, o chavismo governa a Venezuela há quase três décadas. Quem em sã consciência afirmaria que os trabalhadores venezuelanos estão mais próximos de uma revolução social proletária depois de todos esses longos anos? Talvez os oportunistas respondam que, por conta das sanções econômicas dos Estados Unidos e da queda nos preços internacionais do petróleo de 2014 em diante, o governo bolivariano não pôde propiciar as condições favoráveis para o desenvolvimento de um processo revolucionário. E então teríamos de concluir que as condições de amadurecimento para as condições de amadurecimento da revolução comunista na Venezuela não estão dadas. Como o imperialismo estadunidense provavelmente ainda se manterá de pé por muito tempo, e como jamais se conseguirá domar o capitalismo de maneira a evitar que crises econômicas apareçam, decerto deveríamos concluir, também, que jamais haverá condições de amadurecimento da revolução operária. Que é nisso que os oportunistas acreditam a sua prática conciliatória mostra.

Contudo, não devemos seguir o seu exemplo. Deve-se dizer que, pelo contrário, jamais um governo assim chamado “progressista” ou “à esquerda” facilitou o processo revolucionário. Desde a República de Weimar, os setores progressistas do capitalismo abdicam de quaisquer escrúpulos e se aliam com os segmentos mais reacionários da burguesia a fim de esmagar qualquer princípio de insurreição proletária. O episódio histórico mais paradigmático dessa coalizão corresponde à aliança dos sociais-democratas com os Freikorps, grupos paramilitares que se somaram às fileiras nazistas anos mais tarde, no intuito de destruir a revolução alemã. Esse é o ponto a que a burguesia se dispõe a chegar ao se ver ameaçada pelo proletariado revolucionário.

Também na República de Weimar pode-se encontrar outro fenômeno que, até os nossos dias, realmente tipifica a progressão do movimento capitalista e suas diferentes administrações. Lá, o progressismo não deu lugar ao comunismo, mas ao nazismo. De maneira semelhante, observa-se em todo o mundo, nas últimas décadas, que a evolução de governos burgueses progressistas resultou, se não em governos reacionários, ao menos em fortíssimos movimentos de ultra-direita. Na Europa, na América do Norte e na América do Sul, tais movimentos obtiveram sucesso eleitoral ou parlamentar em países como Itália, Bélgica, Portugal, Hungria, Estados Unidos, Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e, muito recentemente, Chile. Assim, a ideia segundo a qual a gerência progressista do capital poderia contribuir com alguma coisa à revolução é estapafúrdia. A história a desmentiu inúmeras vezes e já é tempo de abandoná-la por completo. Por mais estranho que isto soe, a aliança com a burguesia não nos aproxima da destruição da classe burguesa.

Se não há, portanto, mal menor a ser defendido, o que devem, então, fazer os comunistas e os demais elementos das classes trabalhadoras? Toda a questão consiste no seguinte: o programa revolucionário do comunismo corresponde a um conjunto de propostas abertamente em favor da destruição do modo de produção capitalista e da fundação do trabalho associado mediante a ditadura proletária e a sua internacionalização. No entanto, qualificar a presente situação história como “desfavorável” seria um grande eufemismo. Vive-se uma era de contrarrevolução permanente, de brutal guerra social capitalista lançada contra os trabalhadores de todo o mundo.

Jamais o proletariado esteve tão desorganizado quanto em nossos dias; jamais havia apresentado tão frágil resistência às investidas burguesas. Em nenhum continente se presencia alguma situação revolucionária ou mesmo pré-revolucionária. Operários e trabalhadores urbanos e rurais continuam a produzir de forma alienada e os capitalistas, sejam eles dos países imperialistas ou periféricos, seguem com a sua exploração e governança estatal intocadas. Na esmagadora maioria dessas nações, e a despeito dos emblemas que possam vestir ou das cores de suas bandeiras, sequer existem partidos ou agremiações que defendam o programa comunista. Não há, tampouco, movimentos proletários organizados de maneira independente e dispostos a construir o poder operário dentro e fora das fábricas.

O cenário se agrava ainda mais se tivermos em conta os eventos recentes. O acirramento das disputas imperialistas representado pela agressão estadunidense à Venezuela significa uma batalha pela redivisão da mais-valia global e acarretará, por certo, numa piora das condições de vida e de trabalho dos proletários mundo afora – na Venezuela e além. Tais pioras, inevitáveis aos ciclos de acumulação do capital e as quais vitimam exclusivamente os operários e demais classes trabalhadoras, são levadas a cabo primariamente pelas burguesias internas a cada país e seus representantes estatais. Inevitavelmente, tais capitalistas periféricos vinculam-se a um ou a outro imperialismo – seja estadunidense, chinês ou russo.

A pergunta se coloca mais uma vez: o que devem, então, fazer os comunistas? Reconhecemos que a atual conjuntura histórica beira o desespero absoluto. No entanto, exatamente por isso faz-se mais urgente do que nunca levantar a bandeira do comunismo mundial – o único programa capaz de nos livrar do ciclo de catástrofes econômicas, bélicas e ecológicas que o capitalismo nos reserva. A libertação do proletariado, e, por meio dela, a da humanidade como um todo, só pode ser obtida por intermédio de sua independência de classe; e é apenas essa independência política que poderá salvaguardá-lo dos ataques capitalistas que se intensificarão a partir de agora em todo o mundo.

Por conta disso, cada proletariado nacional, sem excluir o venezuelano, deve lutar por meio de greves, passeatas, ocupações, protestos, sabotagens e insurreições contra o seu inimigo mais imediato: isto é, contra os capitalistas e os governantes de sua própria nação. Em hipótese alguma devem apoiar qualquer espécie de governo, regime ou Estado burguês. Não menos importante do que essas medidas, os operários e trabalhadores devem lutar, também, em favor da criação de seus próprios organismos de classe, ou seja, órgãos sem qualquer vinculação com uma ou outra fração burguesa em disputa – inclusive aquelas representadas disfarçadamente por partidos de “esquerda” ou “comunistas”.

De maneira correspondente, o dever dos proletários revolucionários, isto é, dos comunistas, é o de esforçar-se para radicalizar o restante da classe em todos os passos de sua luta contra o capital – em sua organização dentro e fora das fábricas e demais locais de trabalho e, em especial, na dissipação das ilusões segundo as quais a salvação poderá vir de algum Estado ou governante benevolente. Os trabalhadores não têm pátria que os defenda; só podem contar consigo mesmos e com a solidariedade dos apátridas de todos os países, com o internacionalismo proletário e nada mais.

A todos os operários e trabalhadores que se indignam com as repetidas agressões imperialistas estadunidenses, com o regime bolivariano e com a exploração capitalista, exortamos a se unirem aos proletários revolucionários de todo o mundo na luta de classe contra o capital e pelo socialismo mundial! 

Contra a guerra imperialista, a guerra de classes!

Contra a colaboração inter-burguesa, o internacionalismo proletário!

Contra a pátria e os patrões, a revolução comunista!

Grupo de Trabalhadores Internacionalistas do Brasil

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