[Nota do Crítica Desapiedada]: Selecionamos capítulos do livro Your place or mine? (2022) para publicar em português e assim divulgar a análise crítica de Gilles Dauvé da questão sexual. Os capítulos selecionados do livro e traduzidos para o português serão disponibilizados mensalmente nessa postagem. Esperamos que os leitoras e as leitoras acompanhem, debatam e analisem conosco esse importante tema que ganhou maior atenção na contemporaneidade, tornando-se “carro-chefe” de grande parte das abordagens vinculadas ao que podemos chamar de paradigma subjetivista (e sua diversidade de ideologias: pós-estruturalismo, multiculturalismo, neoliberalismo), cuja hegemonia se consolida nos anos 80 e perdura até o momento presente. Boa leitura!
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* Outras análises de Gilles sobre o tema sexualidade (e outros, como o feminismo) podem ser conferidos em:
– Feminismo Ilustrado (2018) [Em Breve]
– Sobre a “Questão da Mulher” (2016)
Your Place or Mine?: A 21st Century Essay on Same Sex
Prelúdio:
We’wha em Washington[1]
Uma princesa indígena[2]
Em 1886, uma indígena Zuni ficou seis meses em Washington, DC, a convite da antropóloga Matilda Coxe Stevenson. We’wha (1849–1896) encontrou cientistas, políticos, inclusive o presidente Cleveland, se tornou uma celebridade momentânea, e socialites admiravam as habilidades de ceramista e de tecelã desta Zuni. Fotografias mostram uma figura alta e forte envolta em uma longa túnica com padrões “étnicos”. Todos, inclusive Matilda, que havia vivido no pueblo[3] de We’wha no Novo México por alguns anos, achavam que sua visitante era uma mulher, possivelmente uma princesa indígena.
De fato, We’wha era o que antropólogos viriam a chamar de berdache a fim de identificar o que interpretavam como homens autóctones femininos. De fato, eles estavam intrigados com uma pessoa com “um equilíbrio diferente de características masculinas e femininas daquele normalmente visto em homens masculinos e mulheres femininas” (Lumen Learning, Cultural Anthropology). Nascida com um corpo masculino, We’wha usava roupas de mulheres e se dedicava a atividades normalmente reservadas às mulheres. Essa pessoa às vezes era menosprezada, às vezes venerada, desempenhava um papel especial em diversas cerimônias e ritos, supostamente tinha poderes de cura e podia atuar como casamenteira e mediadora em casos de “crises de casais”. Ele mantinha relações sexuais com homens e podia se tornar a segunda esposa de um homem. Dizia-se que Crazy Horse tinha um ou dois twinktes (a palavra Sioux para berdache). Quando ele morreu, We’wha foi enterrado trajando uma mistura de roupas masculinas e femininas.
Crê-se que esta categoria tenha existido em mais de uma centena de tribos indígenas. Também havia mulheres “berdaches” em cerca de trinta tribos, nascidas com corpos femininos e que agiam como homens. Na verdade, tivessem corpos masculinos ou femininos, manifestavam muito mais do que uma divisão sexual do trabalho invertida e as roupas estavam longe de ser um ponto definitivo (nem todas as pessoas que os europeus chamavam de “berdaches” usavam roupas femininas). Sua posição social frequentemente derivava de uma capacidade de combinar habilidades tradicionais masculinas e femininas. Um homem Navajo famoso era tanto um homem de medicina de confiança como mestre nas artes femininas e inventou um novo estilo de tecelagem. Uma mulher Crow liderou homens em batalhas e teve três esposas. Em sua tribo, We’wha era uma autoridade na religião Zuni. Sexualmente, “berdaches” podiam ter relações com pessoas de ambos os sexos: muitos não eram homossexuais e muitos homossexuais nativos americanos não eram “berdaches”. Eles provavelmente tinham mais tipos de práticas sexuais do que nós sabemos (ou entenderíamos).
A antropologia estava inevitavelmente associada ao colonialismo e à dominação europeia dos povos que conquistava. “Berdache” foi por muito tempo um termo genérico aplicado por antropólogos a todos os papéis sexuais/de gênero “desviantes” nos povos nativos da América do Norte, como se todos participassem de uma única cultura monolítica pan-indígena. Na verdade, havia dezenas, talvez centenas de variantes, com uma diversidade de nomes. Além disso, “berdache” tem uma forte conotação sexual pejorativa de “passivo”, o que também levou a sua rejeição. Desde os anos 1990, ativistas, intelectuais e alguns indígenas norte-americanos usam o termo geral “dois-espíritos” (também “espíritos-duplos” e “dois espíritos”[4]), que insiste na espiritualidade dupla encarnada por essas pessoas.
De “berdache” para gay?
A incapacidade da alta sociedade de Washington de identificar o “sexo” de We’wha em 1886 tinha, é claro, muito a ver com o racismo e a completa ignorância. Mas também refletia o grande peso da estereotipagem com base no sexo: um ser humano que se comporta como uma mulher deve se comportar só pode ser uma mulher. Demorou um tempo para que Matilda Coxe Stevenson percebesse a verdade. “Há uma faceta da vida destes homens que deve permanecer em segredo”, disse.
Essa confusão seria impensável hoje.
Talvez a maioria das pessoas fale de “homossexualidade” usando uma palavra e um conceito que não existia quando We’wha nasceu e mal era usado quando ele morreu. A sociedade Zuni não conhecia coisas como “homossexualidade”: a preferência sexual dos “berdaches” por homens (em vez de mulheres) não era um marcador social determinante, e maridos “berdaches” não formavam uma categoria especial.
Quanto aos mais iluminados de hoje, eles dariam boas-vindas a We’wha como mais uma prova viva da falácia da “sexagem” binária e do pensamento sexista. O que era uma historinha folclórica curiosa em 1886 (para as pessoas brancas) agora é considerado um exemplo dentre muitos da impossibilidade de classificar o comportamento humano de acordo com a dicotomia homem/mulher, masculino/feminino.
Assim como a imagem do “bom selvagem” foi usada por críticos da civilização mercantil moderna, a figura do “berdache” é interpretada pelos estudos de gênero como uma precursora implícita de uma crítica do gênero.
Nos anos 1950, ativistas “homófilos”, como Harry Hay e, depois de 1970, nativos americanos gays, procuraram inspiração e legitimidade nas raízes históricas fornecidas pelo “berdache”. Eles estavam usando-o (ou usando-a) como uma espécie de ancestral cultural que ele (ou ela) não era; nenhum deles era “homossexual” como o conhecemos hoje. O “berdache” não era nem uma anomalia nem uma figura marginal perturbadora, muito menos um antecessor do queer de hoje. Sua categoria coexistia com outras categorias e respeitava a hierarquia sexual. Longe de ser uma anormalidade, o “berdache” pertencia ao conjunto de normas Zuni. Se, como parece, We’wha nunca corrigiu a crença equivocada da elite de Washington, é porque a divisão homem/mulher não era essencial para essa mentalidade Zuni.
A originalidade dos Zuni (e eles não eram os únicos neste aspecto) foi abrir espaço na diferença homem/mulher para uma subdivisão na qual “híbridos” podiam encontrar seu lugar, aqueles nascidos homens mas que foram depois assimilados nos grupos femininos (ou vice-versa para as mulheres “berdache”). No linguajar moderno, a sociedade Zuni inventou sua maneira particular “inclusiva” de “integrar” pessoas jovens biologicamente masculinas com uma inclinação para o que os Zuni consideravam como o mundo das mulheres. A melhor prova de que os “berdache” consolidavam a ordem sexual é que, como as mulheres, eles podiam se casar com homens. À sua própria maneira, eles se enquadravam na distinção entre masculinidade e feminilidade, exceto que aqui a diferença era menos uma fronteira que uma zona de transição.
Isso era inconcebível para a alta sociedade washingtoniana de 1886. We’wha não levantou nenhuma questão de “gênero”: o conceito de “sexo social” ainda não existia e seria uma bizarrice na capital dos EUA tanto quanto em um pueblo.
Somente no século XX o “berdache” pôde questionar nossos modos de vida e pensamento; estamos tentados a percebê-lo como limítrofe, no limiar da transgressão, ao passo que, na verdade, ele servia uma função dentro de regras que diferiam daquelas dos europeus e norte-americanos em 1886… e hoje.
Nem “homossexual” nem “travesti”, We’wha caminhava por sobre dois mundos; ele viveu no momento em que a “homossexualidade” surgia, muito tempo antes dos “gays”, “queers” ou “transgêneros/cisgêneros”, antes do triunfo do capitalismo, o primeiro modo de produção a tornar a “homossexualidade” um problema a ser resolvido.
Nosso objetivo e método
Por muito tempo, o que agora é conhecido como homossexualidade foi uma prática humana, normalmente reprimida ou ignorada, depois reconhecida e teorizada, embora listada como comportamento atípico e ainda inaceitável socialmente.
Como esta prática se tornou socialmente visível e (em certa medida e apenas nas partes supostamente “avançadas” do mundo) aceita mais para o fim do século XX? E como ela passou a formar uma identidade? Esse é nosso questionamento (duplo).
Este não é um resumo da história da “homossexualidade” nem das teorias do sujeito. Nós apenas destacaremos sucessivos marcos históricos significativos, das origens obscuras da categoria no século XIX à sua ascensão contemporânea sob um olhar cada vez mais público no século XX, o que também coincidiu com a fragmentação desta entidade: não há mais “homossexuais”; há apenas gays, lésbicas, bissexuais, pessoas transgênero, queers… grupos distintos e que se sobrepõem, tanto aliados como rivais, às vezes institucionalizados, cuja agregação dá uma ilusão de comunidade.
Se este ensaio se refere com frequência ao movimento operário, ao socialismo, ao comunismo, aos proletários, não é porque queremos apresentar uma “contra-história” popular do (mesmo) sexo, mas porque, de Jean-Baptiste Schweitzer em 1864 aos rebeldes de Stonewall em 1969, isto tem muito a ver com a história social e, de fato, com o capitalismo e a luta de classes. Ainda que a sociedade moderna não possa ser entendida com base apenas na análise de classes (isto é, pela interação entre burgueses e proletários), devemos ter consciência de que sua evolução é estruturada por divisões de classe.
“Sem sexo, por favor, nós somos marxistas!”
A falta de espaço nos obrigou a cortar muitos aspectos significativos, bem como escritores estimulantes como Fourier e declarações e posições fortes de anarquistas como Erich Mühsam (1878–1934) e Emma Goldman (1869–1940). Esta última era crítica daqueles no movimento operário e na extrema-esquerda que se recusavam a abordar “a questão sexual”. Mais de cem anos depois, uma série de radicais ainda têm um problema com a ideia de que a luta de classe envolve muito mais do que apenas a classe e que um movimento emancipatório pode existir somente como uma força histórica se lidar com todas as dimensões da vida humana.
No que diz respeito à homossexualidade, a maioria dos socialistas/comunistas a ignorou, a denunciou como burguesa ou, quando ela ocorria em prisões, por exemplo, meramente usada como prova de que a prisão degrada o ser humano. (Nós nos concentraremos em Marx e Engels no capítulo 2.) Esta certamente era uma das diferenças entre socialistas e anarquistas, embora Emma Goldman lamentasse que alguns de seus camaradas libertários italianos e judeus a atacassem por defender a causa dos “Homossexuais e Lésbicas”. A respeito de sua turnê de discursos de 1915 nos EUA, ela disse:
A censura vinha de alguns de meus próprios camaradas porque eu estava tratando desses temas “antinaturais” como a homossexualidade. O anarquismo já era mal interpretado o suficiente, e os anarquistas, considerados depravados; era pouco aconselhável acrescentar às más interpretações absorvendo formas sexuais pervertidas, eles argumentavam[5].
A atitude deles, disse ela, vinha de uma incompreensão dos “meandros da vida que motivam a ação humana”: para ela, aceitar o desejo pelo mesmo sexo era parte das condições libertárias básicas.
Algumas décadas mais tarde, o anarquista e homossexual Daniel Guérin (1904–1988) também viveu
a homofobia nos movimentos socialista e operário [e] viveu aquilo a que ele se referiu como uma dicotomia cruel. Com camaradas com que ele tinha bastante intimidade e nos quais ele podia confidenciar com outras coisas, Guérin tinha, não obstante, de morder a língua e se reprimir de mencionar qualquer coisa relacionada à sexualidade e certamente era inconcebível que ele defendesse em algum momento uma versão não-ortodoxa do amor, mesmo de um ponto de vista distante[6].
Para ser fiel à verdade histórica, o título desta seção é um pouco injusto com os marxistas: deveria ser ampliado para incluir muitos anarquistas, sindicalistas, ativistas operários do passado (e possivelmente do presente)…
Referências
Berry, David. “‘Workers of the World, Embrace!’ Daniel Guérin, the Labour Movement and Homossexuality” in: Left History 9.2 (Spring/Summer 2004), p. 11-43. https://files.libcom.org/files/4799.pdf
Désỵ, Pierrette. “The Berdache : ‘Man-Woman’ in North America”. Translation: S. M. Van Wyck. 1993. https://classiques.uqam.ca/contemporains/desy_pierrette/the_berdaches/the_berdaches_texte.html
Faiman-Silva, Sandra. “Anthropologists and Two Spirit People: Building Bridges and Sharing Knowledge” in: Anthropology Faculty Publications. Paper 23. https://vc.bridgew.edu/anthro_fac/23
Goldman, Emma. “The Unjust Treatment of Homossexuals (1900-1923)”. Breve compilação informativa de seus depoimentos sobre o tema. https://www.angelfire.com/ok/Flack/emma.html
Kissack, Terrence. Free Comrades: Anarchism and Homossexuality in the US 1895-1917. Oakland: AK Press, 2008. https://files.libcom.org/files/Kissack%20-%20Free%20Comrades%20-%20Anarchism%20and%20Homosexuality%20in%20the%20United%20States,%201895-1917.pdf
Lumen Learning. Cultural Anthropology, chapter 10: “Sex and Gender”. https://www.collegesidekick.com/study-guides/culturalanthropology/two-spirit
Timmons, Stuart. The Trouble with Harry Hay. Modesto, Califórnia: White Crane Press, 2012 [1990].
Capítulo 1:
A invenção da “sexualidade”
“A sexualidade tem uma história – ainda que não seja uma história muito longa.” – David Halperin[7]
Um novo objeto social
Tanto a palavra sexualidade como o conceito surgiram no século XIX e no começo do século XX, alcançando reconhecimento público em 1905 com os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Freud. As realidades delineadas por este termo (e outras, como “sadismo” e “masoquismo”, curiosamente ambos cunhados em homenagem a romancistas) existiam há muito tempo, mas entraram apenas naquele momento na gestão política e no discurso público como um objeto específico em virtude da necessidade de delimitar um domínio da atividade humana que estava se tornando “um problema”.
No século XIX, a Encyclopédia, de Diderot, forneceu um inventário catalogado das ciências, do comércio, do artesanato, como se, disse Goethe, estivéssemos visitando “uma grande fábrica”. Para catalogar o conjunto da criação, o mundo mercantil industrial em ascensão precisou dar nomes específicos a tudo, do comportamento humano à natureza e ao maquinário. Esta foi a primeira sociedade na qual todo mundo foi definido primariamente por seu lugar no sistema produtivo. A burguesia sistematizou o conhecimento e a técnica para aprimorar a produtividade das firmas, não apenas a riqueza de um soberano ou de um país. Paralelamente à ciência econômica, assistida pela sociologia e pela psicologia, nasceu uma economia política da população, com a demografia como um campo particular de conhecimento. Um sistema tipificado pela produtividade e padronização não pode deixar de definir normas.
Os séculos XVII e XVIII viram uma abundância de manuais ricos em detalhes sobre os órgãos e as relações sexuais, fornecendo aos educadores e às mães conselhos morais e práticos, inclusive insistindo no clitóris como um foco de prazer. Mas estes livros ligaram a atividade sexual à reprodução humana; quando sugeriam como alcançar o coito gratificante, o propósito era assegurar o bem-estar de um casal familiar estável e a procriação bem-sucedida, contribuindo para a ordem social. Em contrapartida, depois a “sexualidade” entrou em cena quando se pensou que relações sexuais possivelmente teriam outro propósito além de propagar a espécie e elas deixaram de ser consideradas meramente “naturais”. Diferente do modo de vida rural tradicional, a metrópole industrial fomentou o celibato, a cópula solteira, o sexo casual, a prostituição, o que deixou a atividade sexual distinta da procriação cada vez mais visível. Uma sociedade concentrada na produção (de capital, de lucro, de humanos), particularmente ao prender a mulher a um papel produtivo no lar e na oficina, tinha de compreender e administrar qualquer coisa que não se enquadrasse na produção e, portanto, nas relações sexuais, qualquer coisa que não fosse parte da reprodução.
O novo objeto social chamado “sexualidade” era necessário para englobar elementos diferentes de (e às vezes em conflito com) o patriarcado, a procriação, os cuidados das crianças, a educação, a transmissão de herança, etc. Era composto de partes emprestadas de outros esquemas mentais: ciências naturais, medicina, erotismo, etc. Família e sexualidade se justapõem, mas não coincidem.
Mais tarde, com o acesso comum à contracepção, a separação dos atos sexuais da reprodução iria muito além, mas a evolução havia começado pelo menos um século antes. Para que esta esfera distinta existisse, era necessário o surgimento do trabalho assalariado, o qual destacou o tempo-espaço produtivo do resto das atividades sociais em uma medida antes inimaginável. Se tudo deve ser produtivo, não só o momento de produção de valor na fábrica tem de ser especificado, mas também aquele que reproduz os proletários na família – logo, uma regulação sexual sem precedentes.
Houvera populações antes, é claro, e administração populacional: Lucas diz que Jesus nasceu em Belém porque seus pais tiveram de viajar a seu local de origem para um censo romano. Mas o capitalismo é o primeiro modo de produção a estabelecer instituições sistemáticas a fim de facilitar a melhor reprodução possível da força de trabalho por meio de órgãos de serviço de saúde, tanto públicos (medicina preventiva, centros de saúde municipais etc.) como privados (financiados e geridos pela burguesia). Para o famoso alienista Jean-Étienne Dominique Esquirol, a doença mental era uma “doença da civilização” (Maladies mentales, 1838). Mais tarde, em The Nationalisation of Health [A nacionalização da saúde] (1892), o reformador social e explorador dos estudos sexuais Havelock Ellis afirmou que o Estado devia ser responsável pela saúde de seus cidadãos. Um século XIX comprometido com modelos produtivos não poderia deixar de investigar qualquer coisa que ultrapassasse seus limites; tinha de interpretar e administrar qualquer coisa que rejeitasse. Como antes, ética e ciência caminharam de mãos dadas para definir intercurso sexual em relação à procriação saudável; a diferença era que agora também tinham de levar em conta o que estava fora do reino da “normalidade”. Estabelecer a norma implicava reconhecer, compreender e impedir condutas que quebrassem a norma.
A sexualidade não-procriadora como o lado negativo da norma incluía a prostituição, estigmatizada embora aceita como uma contraparte ímpia inevitável. A reprodução familiar com a esposa, o sexo e o prazer com a prostituta, contanto que o médico Dr. Jekyll conseguisse controlar o monstro. A lei, a ciência e a ideologia ilustraram a atração/repulsa alimentada por esta dualidade. A arte fin de siècle está repleta de imagens de fiascos masculinos, de criaturas andróginas, de decadentes misóginos e femmes fatales ameaçadoras. Drácula (1897) de Bram Stoker expressa o medo da e a fascinação com o sexo não-reprodutivo: o vampiro não conhece nem o nascimento nem a morte.
Dissolução de laços
Como bem se sabe, o burguês do século XIX explorou morais religiosas, valores familiares e hábitos de submissão para impor a disciplina nas minas e nas fábricas têxteis. Entretanto, ao mesmo tempo, o trabalho assalariado significava que marido, esposa e crianças estavam trabalhando fora de casa, enfraquecendo, portanto, a família como a unidade econômica básica para o artesanato e o comércio. Enquanto isso, no caso da burguesia, a propriedade familiar era erodida pelo progresso da sociedade anônima.
O burguês corrompido transgride as leis do casamento e secretamente comete o adultério; o comerciante transgride a instituição da propriedade quando, pela especulação, pela falência etc., priva outrem da propriedade; o jovem burguês, quando o pode, torna-se independente de sua própria família e abole praticamente a família para si; mas o casamento, a propriedade, a família permanecem intocados na teoria porque constituem, na prática, as bases sobre as quais a burguesia erigiu seu domínio, porque essas instituições, em sua forma burguesa, são as condições que fazem do burguês um burguês […] mas [a família] continua a existir […], porque a existência da família é tornada necessária por sua conexão com o modo de produção, o qual é independente da vontade da sociedade burguesa. (Marx & Engels, A ideologia alemã, 1846[8])
A questão é: que família?
Os contemporâneos de Marx observaram uma dissolução dos vínculos tradicionais. Alguns lamentaram a perda; outros exultaram a vinda de “universalismo” benéfico. Citando São Paulo – “não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois vós todos sois um em Cristo Jesus”, Gálatas, 3:28 – Hegel anunciou o amanhecer de uma era na qual o homem não mais seria apreciado enquanto grego, romano ou judeu ou dependeria de seu berço: ele teria “um valor infinito em si próprio enquanto homem”. O trabalho assalariado potencialmente libertaria o indivíduo das amarras de sangue, origem, natureza, solo… e do sexo biológico.
Como o modo de produção capitalista tende a tratar todos os seres humanos como fatores produtivos, ele se beneficia da desigualdade dos sexos; contudo, ele também deve promover a fluidez do mercado de trabalho e a permutabilidade dos indivíduos – sejam eles homens ou mulheres, cristãos ou muçulmanos, brancas ou uma pessoa não-branca, crentes ou ateus… héteros ou homossexuais.
O sexólogo e o percevejo de maio
A burguesia ascendente não negou nem o sexo nem o corpo; ela os organizou. A regulação cada vez mais assumiu a forma de banimento.
As palavras sexualidade e sexualismo datam do século XIX, baseadas na muito mais antiga sexo, a qual a maioria dos etimólogos concordam que vem do latim sexus, dividir ou cortar, o que significa que os seres humanos (pelo menos uma vasta maioria deles) são biologicamente ou homens ou mulheres. Esta é uma partição – e conjunção – constitutiva da existência humana. O verbo to sex [sexar] surgiu no final do século XIX, com o significado de determinar o sexo (como em “sexagem”): “sexar” marca uma diferença fundamental, uma lacuna supostamente intransponível.
Uma definição separa um significado dos significados vizinhos, de modo que a habilidade do classificador reside em sua capacidade de reconectar o que ele desconectou. Uma tarefa difícil para editores de dicionário, mas um esforço extenuante para analisadores do sexo. A ciência médica estava ocupada correlacionando atos e dados biológicos de uma centena de maneiras diferentes de acordo com o critério escolhido, multiplicando tipologias e neologismos. Segmentar necessita de uma cola adequada. Krafft-Ebbing, autor best-seller de Psychopathia Sexualis, “com sua referência especial ao Instinto Sexual Contrário” (a edição de 1884 foi acompanhada de muitas outras) e uma autoridade de referência no assunto, popularizou uma série de enunciados, um dos quais teve de esperar cerca de cem anos antes de desfrutar de um uso geral: pedofilia. O sucesso de um especialista ou de uma escola de pensamento pode ser medido em primeiro lugar pela difusão de seus neologismos da comunidade científica para o público qualificado, e então para o discurso cotidiano – pedófilo atualmente é abreviado para pedo[9].
A ciência se viu diante de um mistério: a atração de homens por homens devia ser explicada como inata, como degeneração, como um fracasso moral, como uma crise pessoal/psicológica ou como tendo causas possivelmente sociológicas?
Este quebra-cabeças encetou um longevo debate divisivo entre psiquiatras, bem como biólogos e entomólogos, para determinar se “perversões” humanas também ocorrem no reino animal: “pervertido” tendo o sentido daquilo que não beneficia diretamente o sexo reprodutivo, como Richard von Krafft-Ebbing deixou bastante claro. Na segunda metade do século XIX, uma gama impressionante de experimentos foi conduzida para pesquisar o onanismo e o sexo macho-macho com ratos, percevejos de maio (melolontha vulgaris) e bichos-da-seda da amoreira: sua “pederastia” era incitada “por oportunidade” ou “por gosto”? Era “acidental ou adquirida”? Se os animais conhecem as relações entre o mesmo sexo, então elas pertencem à natureza. Pelo contrário, se elas têm origem em circunstâncias particulares, por exemplo, vida em um ambiente confinado (para homens: internatos, casernas, prisões, etc.), está dentro da alçada do alienista lidar com elas.
Por mais bizarro que pareça para o olhar moderno (sempre é fácil tirar sarro das concepções errôneas mais gritantes de ontem), não havia aberração em um debate que envolvia uma disputa de poder. Quando a tese da “educação” triunfou sobre a tese da “natureza”, para usar o vocabulário do século XIX, ela deu preeminência a médicos e (re)educadores. A ciência contemporânea declarou de maneira quase unânime que as relações do mesmo sexo são um desvio da atração “normal” entre os dois sexos, indo efetivamente no caminho oposto, o que explica a vida longa da palavra inverter. A patologia do homossexual era sofrer de uma contradição entre sua anatomia e seu desejo e a função da psiquiatria era reconciliar os dois. Consequentemente, a medicina e a justiça uniriam forças, com médicos sendo regularmente convocados ao tribunal como testemunhas especialistas.
Morais civilizadas e a enfermidade nervosa
Ao contrário da crença errônea normal, o desejo e a atividade sexuais não são incompatíveis com o trabalho produtivo: a “sexualidade” foi criada como uma categoria para ajudar a torná-lo produtivo (de crianças, mas mais do que isso). O modo de produção capitalista não é hostil ao prazer, contanto que o prazer se revele lucrativo.
No século XIX, as pessoas passaram gradualmente a conviver com a ideia de que o amor do mesmo sexo não era um pecado, e simplesmente uma doença, como a tuberculose, ainda que talvez uma doença criminosa, o que a tuberculose não era. Embora não fosse mais percebido como blasfemo e diabólico, como uma violação dos mandamentos de Deus, ele ainda perturbava a lei do homem, ameaçava a ordem pública e exigia controle difuso e indireto, o que implicava nomear e classificar e, de fato, envolvia muito mais que medicina social. Vamos mencionar apenas a “invenção” do esporte, por exemplo, este fenômeno verdadeiramente moderno, um concentrado de fundamentais capitalistas, que consegue ao mesmo tempo disciplinar o corpo, medir esforços e conquistas, comparar indivíduos competidores e promover o espírito de equipe, ao mesmo tempo em que desenvolve o culto ao herói e, não esqueçamos, a paixão nacionalista.
Embora alegue não ser responsável por nada além de si mesma, a psicanálise se encaixa nesta situação. A proeminência contínua de Sigmund Freud por mais de um século tem menos a ver com o valor intrínseco de seus conceitos mais famosos (em particular o complexo de Édipo) do que com sua capacidade de sistematizar um estado permanente de crise, resumido em seu texto de 1908, emblematicamente intitulado Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna[10]. Até então, moralistas invocavam princípios supostamente inalteráveis. A novidade de Freud foi supor que o indivíduo, em vez de tentar obedecer a padrões morais eternos, podia encontrar seu próprio caminho para o equilíbrio psicológico – sob orientação psiquiátrica adequada, é claro. A família fora antes um modelo, mas agora era considerada como um nexo de contradições a destrinçar. A infância fora outrora uma fase de aprendizagem, quando os mais velhos lhe ensinavam o que fazer, mas agora era um momento de risco, quando sua mãe e seu pai podiam tanto lhe fazer bem como machucar – provavelmente ambos. Antes, era preciso respeitar as tradições; agora, se pedia para fazer tudo que tornasse ele ou ela parte da sociedade com o mínimo possível de dano. A moralidade sexual se tornou secular, exigindo uma mudança da Lei para as leis.
O momento em que o paterfamilias começou a ser questionado também foi o instante em que ele se tornou um objeto teórico. A figura central do pai não era mais tomada como natural e o padrão familiar burguês passou a ser visto tanto como um problema quanto como uma solução, e mais patogênico do que saudável. O sistema freudiano ofereceu à “civilização Ocidental” um meio de interpretar a crise da família e a transformação das relações entre os sexos. “Id, ego, superego”, que ménage à trois confortável… o surrealista (e gay) René Crevel disse que Freud havia eliminado o “homem normal” apenas para reduzir a complexidade humana a um “manequim abstrato”, e Karl Kraus descreveu adequadamente a psicanálise como essa enfermidade mental que se considera terapia.
No que diz respeito ao amor do mesmo sexo, Freud achava que no início da infância todos são bissexuais e evoluem para se sentirem atraídos pelo outro sexo, exceto o homossexual que (normalmente após uma experiência angustiante) interrompe o que deveria ter sido um desenvolvimento normal. Todos se desenvolvem ao longo desses estágios; infelizmente, o homossexual para no caminho. Se Freud acreditava que era quase impossível “curar” um homossexual era porque ele levava a sério (muito mais do que a maioria de seus colegas, discípulos e sucessores) a bissexualidade e o polimorfismo sexual fundamentais dos seres humanos. Freud, sempre o pessimista conservador, não considerava o homossexo nem um pouco mais equivocado e opaco que o heterossexo, pois, para ele, a medicina na melhor das hipóteses alivia a miséria de uma vida que nunca escapa completamente da ansiedade e do sofrimento.
Isso exigiu uma inventariação minuciosa da falta de ordenação. “Por favor, vamos pôr um pouco de ordem nessas orgias, mesmo no seio do delírio e da infâmia um pouco é necessário”, escreveu Sade em 1795[11]. Com a mesma obsessão por classificação e muito menos imaginação, os psiquiatras continuaram a pôr ordem na desordem, arrolando e indexando perversões como se estivesse lidando com variantes de espécies biológicas estapafúrdicas. Inclusive receberam ajuda de cientistas amadores com um gosto para compilar e arquivar. Thomas N. Painter (1905–1978), um ativista-pesquisador gay, que coletou 11 mil páginas (com 2,7 mil fotos) de registros sexuais, conheceu Alfred Kinsey e se tornou seu assistente não remunerado por um tempo (mais sobre Kinsey no capítulo 4).
Documentar anomalias não preveniu alguma medida de tolerância: Krafft-Ebbing e Freud não estavam sozinhos na profissão médica na oposição à criminalização da homossexualidade. Mapear o que ultrapassa os limites da normalidade ajudou psicólogos e médicos a se tornarem especialistas de pacificação e recondicionamento. Quando a sociedade capitalista dependia menos da proibição do que na norma, ela tinha de ter consciência do mau comportamento para corrigi-lo. O sexo não era silenciado – ele recebia um discurso articulado. Mais tarde, no crepúsculo do século XX, conforme a dominação capitalista se aprofundou, a normalização de costumes sociais se tornaria compatível com uma ampla gama de normas.
Análise de classe versus análise de discurso, ou o erro em Foucault
O burguês se importava menos com a moralidade (in)adequada do que com seus interesses materiais. O trabalho tinha de ser submetido, subordinado aos ditames do capataz e da máquina e treinado para se conformar à disciplina e aos imperativos de tempo fabris. Políticas de saúde pública administradas às massas trabalhadoras gradualmente tomaram o controle do hábitat, do planejamento urbano, da higiene, da reprodução infantil, da educação e da imigração. Tudo tinha de ser gravado, quantificado e medido, de avaliações da dimensão craniana a estudos de tempo – mesmo a nível do absurdo, como a obsessão do século XIX com a masturbação, denunciada como um desperdício de energia.
Por exemplo, ao passo que a prostituição frequentemente fora um negócio organizado oficialmente (como nos bordéis municipais medievais) ou uma profissão reprimida (prostitutas sendo presas ou deportadas), agora a política de saúde lidava com ela, a regulava e, em alguns países, registrava e inspecionava clinicamente.
Posto isto, os gastos sociais continuaram em uma proporção muito pequena dos orçamentos estatais até 1914. Sua evolução foi bastante lenta e só se desenvolveu sob as pressões combinadas das lutas proletárias, da ascensão do movimento operário e de imperativos políticos e militares. A administração populacional foi determinada por causas sociais que eram antes de mais nada relações de classe.
Ao longo do século XIX, os burgueses continuaram denunciando a vida imoral anti-higiênica do “povão”, o trabalhador sem educação, descortês, quase um selvagem à beira da vadiagem, da loucura e do crime. Médicos e sociólogos (a sociologia enquanto ciência é outra criação do século XIX) demonstraram habilmente que o incesto era encontrado principalmente nas classes trabalhadoras, onde a proximidade corporal levava à promiscuidade e a um retorno à vida quase animal. Até a metade do século XX, analistas universitários descreviam os trabalhadores como degenerados. Aqueles que podiam ser uma ameaça à ordem social eram classificados como inferiores e desviantes.
Esta sequência de causas é precisamente o que Foucault negligenciou, preferindo reduzir o capitalismo à instituição de tecnologias de poder disciplinares e biopolíticas, das quais a relação capital/trabalho é mera consequência. A riqueza do material escrito para ou por mulheres de classe média ou alta foi o suficiente para Foucault concluir que monitorar a sexualidade burguesa tinha preeminência em relação a organizar a reprodução proletária. Ele puxou um único fio e dele teceu toda uma história.
Historicamente, o determinante é a dependência dos proletários – mulheres e homens – de ganhar dinheiro para o sustento, sua subordinação ao trabalho produtivo para ganhá-lo e tudo que decorre disso para assegurar a reprodução do sistema.
Foucault virou esta causalidade histórica de ponta-cabeça. Para ele, a sociedade capitalista não produz valor acumulado por trabalho; ela produz controle e subjugação direta ou oblíqua. Em sua opinião, o que importa são as instituições que codificam e reproduzem formas de poder, e ele explicou a história como o movimento de um tipo de poder para outro. A teoria crítica é reduzida a uma genealogia de processos de dominação nos quais a relação capital/trabalho é apenas uma estrutura de controle dentre muitas. Além disso, dar ao primeiro volume de sua História da sexualidade o título de A vontade de saber (1976) levou Foucault um passo além; conforme ele revirou um vasto arquivo de artefatos de memória, ele igualou técnicas de poder a discursos de poder, como se a sociedade fosse regida pelo que ela diz e acredita sobre si mesma.
É significativo que nas últimas décadas a palavra discurso tenha de modo geral substituído ideologia. Por mais pomposa e estereotipada que a “ideologia” tenha com frequência sido (mirando a todo momento a “ideologia burguesa”), ao menos ela tentava permanecer conectada a algumas realidades sociais elementares, ao passo que o “discurso” pode e de fato deve pertencer a praticamente qualquer coisa. Logicamente, se a linguagem é um poder e vice-versa, então a sociedade é moldada pela linguagem, então mude as palavras e você mudará o mundo. Primeiro, classe foi trocada por dominação. Segundo, formas de dominação foram suavizadas para formas de comunicação e a ação foi reduzida à expressão. A esse respeito, o legado de Foucault tem influência nas questões (homo)sexuais, a saber, na “guerra de palavras” examinada no capítulo 8, bem como no pensamento “pós-moderno”, como veremos no capítulo 11 sobre o “queer”.
O plano americano, ou a biopolítica “progressista” dos EUA
A história ajuda a esclarecer as causas sociais da biopolítica, como demonstrado nos EUA.
A Era Progressista dos Estados Unidos, dos anos 1890 aos anos 1920, é lembrada principalmente por sua “democracia dos cidadãos”, pela filantropia, pela reforma política (ampliação do sufrágio feminino), pela reforma econômica (leis antitruste para promover a “concorrência justa” e a criação da Reserva Federal), pela moralização da vida pública (campanhas anticorrupção) e da vida privada (proibição).
Mais precisamente, os progressistas achavam que a ciência e a tecnologia podiam curar os males sociais ao fornecer maior controle sobre as pessoas comuns – especialmente os pobres. A moralidade também foi aplicada no exterior e legitimou o papel imperialista dos EUA como a força policial de direito, que enviou tropas ao Caribe, ocupou as Filipinas, interveio na Europa em 1917 etc.
Se nos limitarmos ao nosso assunto, a Era Progressista implementou uma política de lei e ordem biopolíticas em nome do bem-estar público. Seu movimento de higiene social justificou “purgas morais, vigilância íntima das escolhas reprodutivas das mulheres, separação de crianças dos pais e a detenção indefinida daqueles considerados ‘impróprios’”. (Patricia J. Williams: todas as próximas citações relacionadas são dela.) O objetivo era conter as questões misturadas de “delinquência”, “imoralidade”, “retardo mental” e “imbecilidade”, destrinçando os merecedores dos pobres desmerecedores: “O pauperismo se tornou uma doença social.” Respaldado por tipologias e estatísticas, um plano de saúde público, conhecido como o Plano Americano, pretendia refrear a propagação de doenças sexualmente transmissíveis não com a regulação da prostituição (como na França, por exemplo), mas tratando-a como um ato quase criminoso. Sob o pretexto de prevenir doenças venéreas estava um esforço nacional de desencorajar o sexo fora do casamento, limpar as ruas e policiar o comportamento das mulheres.
Não é preciso dizer que isso era abertamente racista, com uma ênfase na pureza nórdica e em uma rejeição da “miscigenação”. Esterilizar o estoque humano “impróprio” com restrições à imigração do Leste e do Sul da Europa e a “Americanização” dos imigrantes recentes por meio da educação. A maioria das mulheres afetadas pelo Plano Americano eram mulheres não-brancas.
Muitos estados dos EUA aprovaram decretos “limitando a capacidade de pessoas consideradas de aparência desagradável de circular em público sem licenças”. A aparência física foi transformada em um padrão social. Esterilização cirúrgica foi imposta por razões que fusionavam motivos clínicos e de classe com a noção de “doença social” combinando pobreza, ócio e imprevisibilidade. O bem-estar infantil e a justiça penal tanto surgiram como se fundiram no século XX, e o sexo interracial e a prostituição eram um alvo prioritário. Nas circunstâncias particulares dos Estados Unidos, a “sexualidade” estava se tornando um conceito, um objeto político e um aspecto indispensável da política pública.
Um último exemplo, talvez o experimento biopolítico mais emblemático: o Estado de bem-estar social na Grã-Bretanha. Em seu famoso relatório de 1942 que lançaria esse programa, William Beveridge argumentou que por causa da queda da taxa de natalidade no Reino Unido nos anos 1930, “com sua taxa de reprodução atual, a raça britânica não é capaz de continuar.” O plano estendeu a mobilização e administração de tempo de guerra da força de trabalho por meios adaptados a uma economia de paz. Os cinco inimigos “Gigantes” visados por Beveridge eram Carência, Doença, Ignorância e Miséria, bem como o Ócio, e o Estado de bem-estar social almejava “um sistema que inclua todos [os doentes, os idosos, mulheres no lar e crianças], ao mesmo tempo em que mantém o incentivo para trabalhar.” (Andrew Marr)
Referências
Foucault, Michel. The History of Sexuality, vol. 1: The Will to Knowledge. Nova York: Pantheon Books, 1978 [1976]. https://suplaney.wordpress.com/wp-content/uploads/2010/09/foucault-the-history-of-sexuality-volume-1.pdf
Quando estava envolvido no tumulto pós-1968 e sua sucessão de greves e ocupações de fábricas, Foucault deu mais importância positiva à classe do que daria mais tarde. Suas primeiras aulas de 1970 enfatizaram a ligação entre a prisão moderna e o capitalismo com base na medida e administração do tempo. A duração da pena era ajustada dependendo da gravidade do crime, assim como o salário é calibrado no contexto do tempo de trabalho produtivo: “O poder capitalista se agarra ao tempo, se apodera dele, o torna comprável e usável”, explica Foucault. A “forma-prisão” a “forma-salário” são “formas historicamente gêmeas”; ver The Punitive Society: Lectures at the College de France 1972-1973 (London: Picador, 2018). Conforme as lutas da classe trabalhadora recuaram, como muitos outros marxistas contemporâneos, o interesse de Foucault decididamente passou das relações de produção para os mecanismos de controle e da análise de classe para a análise do discurso. Esta nova “narrativa mestre” estava em sintonia com os tempos.
Freud, Sigmund. “‘Civilized’ Sexual Morality and Modern Nervous Illness” (1908). https://sexualityandthemodernistnovel.wordpress.com/wp-content/uploads/2017/02/freud_sexualmorality.pdf
Sem entrar em muitos detalhes, vale mencionar que Wilhelm Reich (e mais tarde o freudo-marxismo) virou o freudianismo de ponta-cabeça. Tanto Freud como Reich deram ao sexo um papel central no funcionamento da sociedade. Freud descreveu o sexo como uma poderosa força criativa e como um potencial desestabilizador que a civilização deve reconhecer e manter sob controle. Reich também acreditava que a sociedade se baseava no sexo, mas retirou a conclusão oposta: a opressão social está assentada no sexo, portanto, a emancipação sexual derrubaria a opressão social.
Freud, Sigmund. Three Contributions to the Theory of Sexuality. Journal of Nervous and Mental Disease Publishing Company. New York, 1910 [1905]. https://www.stmarys-ca.edu/sites/default/files/attachments/files/Three_Contributions.pdf [o link fornecido por Dauvé está indisponível; é possível acessar o ensaio no website do Project Gutenberg aqui e no Internet Archive aqui].
Halperin, David. “Is There a History of Sexuality?” in: History and Theory, Vol. 28, No. 3 (Oct., 1989), pp. 257-274 (1989). https://programaddssrr.files.wordpress.com/2013/05/is-there-a-history-of-sexuality.pdf [o link fornecido por Dauvé está indisponível; é possível acessar o artigo, disponível no JSTOR, através do Libgen – bem como através do Sci-Hub e do Anna’s Archive, aqui]
Katz, Jonathan Ned. The Invention of Heterossexuality. Chicago: University of Chicago Press, 2007 [1995].
Este texto foi escrito em 1990, mas publicado apenas em 1995.
Marr, Andrew. A History of Modern Britain. Londres: Pan Books, 2008, 1ª parte.
Praz, Mario. The Romantic Agony. Oxford: Oxford Paperbacks, 1970 [1933].
Uma compilação abundante da sensibilidade erótica, das imagens, do femme fatalismo, da neurose etc. encontradas na literatura do século XIX.
Williams, Patricia J. “Bad Blood. The History of Eugenics in the Progressive Age”. Times Literary Supplement, July 20, 2018. https://www.the-tls.com/politics-society/social-cultural-studies/history-of-eugenics-in-progressive-age-book-review-patricia-williams
O artigo analisa: Molly Ladd-Taylor, Fixing the Poor: Eugenics Sterilization and Child Welfare in the Twentieth Century (Baltimore: John Hopkins University, 2017). Pelo fato de a eugenia ter tido seu infame lado nazista, nós temos a tendência de negligenciar o quanto ela foi influente no democrático Estados Unidos e na Escandinávia social-democrata, ainda que com uma diferença fundamental. A eugenia é de fato a ciência e a prática da “seleção de pessoas” para preservar, restaurar ou melhorar a ordem social. No entanto, as políticas de higiene social escandinavas e americanas visavam a regulação da população trabalhadora; a higiene racial nazista visava a eliminação de segmentos da população.
Von Krafft-Ebbing, Richard. Psychopathia Sexualis. Londres: Forgotten Books, 2012 [1886, seguido de numerosas outras edições]. https://ia801501.us.archive.org/21/items/PsychopathiaSexualis1000006945/Psychopathia_Sexualis_1000006945.pdf
Também interessante é a coleção Thomas N. Painter mantida pelo Instituto Kinsey, que consiste de 61 volumes em brochura e 99 pastas de arquivos.
[1] Tradução do prelúdio “We’wha in Washington” e do primeiro capítulo “The Invention of Sexuality” do livro de Gilles Dauvé, Your Place or Mine? A 21st Century Essay on (Same) Sex (PM Press, Oakland, 2022). [n. t.]
[2] Dauvé refere-se a We’wha ora no masculino, ora no feminino, ora em ambos, ainda que o faça muito mais vezes no masculino. Sigo rigorosamente nesta tradução as escolhas de Dauvé: quando ele se refere a We’wha no masculino, pronomes, artigos e adjetivos são traduzidos no masculino; quando utiliza o feminino, são traduzidos no feminino; quando ambos aparecem, ambos são utilizados; em momentos em que, pela própria gramática do inglês, não é utilizada qualquer demarcação de gênero, utilizo o masculino por ser o mais utilizado por Dauvé e por ser tido na gramática normativa do português como o neutro – foi considerada a possibilidade de utilizar variações neutras, como “elu”, mas isso introduziria elementos alheios à letra original de Dauvé. [n. t.]
[3] Nativos norte-americanos que vivem no sudoeste dos Estados Unidos e que possuem práticas agriculturais, materiais e religiosas em comum. [n. t.]
[4] A página da Wikipédia em português indica também o termo “212”, mas não encontrei ocorrências deste termo com este sentido. [n. t.]
[5] Emma Goldman, “The Unjust Treatment of Homossexuals (1900-1923)”. [n. t.]
[6] David Berry, “‘Workers of the World, Embrace!’ Daniel Guérin, the Labour Movement and Homossexuality”. [n. t.]
[7] David Halperin, “Is There a History of Sexuality?”, p. 257. [n. t.]
[8] Karl Marx & Friedrich Engels, A ideologia alemã (Tradução: Rubens Enderle, Nélio Schneider & Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007), p. 181, tradução adaptada ligeiramente; em alemão: MEW 3 (Berlin: Dietz Verlag, 1978), p. 164). Dauvé não cita a fonte da tradução utilizada por ele. [n. t.]
[9] Esta abreviação, bastante comum entre os falantes de inglês, é raramente utilizada no português brasileiro e seu uso está quase que inteiramente restrito a comunidades online. [n. t.]
[10] Publicado no Brasil como “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna” in: Sigmund Freud, Edição Standard Brasileira das obras completas, v. IX (Rio de Janeiro: Imago, 1976); não foi encontrada uma versão online deste ensaio em português. O original alemão Die „kulturelle“ Sexualmoral und die moderne Nervosität, originalmente publicado em 1908, está disponível em PDF aqui. [n. t.]
[11] O trecho citado por Dauvé não foi encontrado em nenhuma das três obras publicadas por Sade em 1795 – Aline et Valcour, ou le roman philosophique, La philosophie dans le boudoir, Les malheurs de la vertu. [n. t.]
Capítulo 2:
A invenção da “homossexualidade”
Esta não é uma história linear e agora é a hora de um pequeno desvio.
Linhas políticas “homem-mulher” versus “apenas mulheres”
Nos anos 1860, uma das principais figuras socialistas alemãs, agora há muito esquecida pela história, foi acusada de amar meninos e a história depois foi “revirada repetidamente por seus inimigos políticos” (Hubert Kennedy[1]) – inclusive Marx e Engels.
Em 1863, nasceu a primeira organização dos trabalhadores de importância nacional na Alemanha: a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães (ADAV, segundo seu acrônimo alemão), liderada por Ferdinand Lassalle. Ela defendia o trabalho associado, “no qual a classe trabalhadora se torna sua própria empregadora”, mas buscava o apoio de Bismarck contra a burguesia, como se as cooperativas respaldadas pelo Estado pudessem “construir o socialismo de cima”. Ainda que considerasse a ADAV um passo adiante positivo, Marx era crítico do “estatismo” de Lassalle e desejava ações autônomas da classe trabalhadora.
Em 1862, um dos pioneiros da social-democracia na região de Frankfurt, Johann Baptist von Schweitzer (1833–1875), foi acusado por duas testemunhas, com pouca “evidência concreta” (Hubert Kennedy[2]) de ter incitado um menino de 14 anos a um “ato indecente” em um parque. O adolescente (ou o jovem, já que sua idade permaneceu incerta) desapareceu e não sabemos mais nada a respeito dele. Schweitzer negou a acusação, porém foi condenado a duas semanas na prisão por violação da moral pública, o que resultou nele sendo ostracizado pela maioria dos amigos e camaradas. Por exemplo, em 1863, a seção de Frankfurt da ADAV recusou sua filiação. Schweitzer comentou:
Quando aqueles na minha cidade natal que se diziam meus amigos acreditaram que havia chegado a hora em que eles podiam libertar sua inveja reprimida, quando tantos repetiram tão credulamente o que uns poucos haviam inventado, eu me perguntei com espanto: “O que fiz pra merecer isso?” Mas isso foi só o primeiro e breve momento – e me ocorreu que era sempre assim e seria assim pra sempre.
Lassalle, no entanto, via nessa persona non grata (que havia publicado um romance político que podia ser considerado boa propaganda socialista) um recruta promissor e o havia aceito na seção de Leipzig. “Qual a relação entre prática política e uma anormalidade sexual?”, perguntou Lassalle. Mas quando Schweitzer quis discursar em Frankfurt, o líder local recusou: “não podemos usá-lo como pessoa. Ele está morto aqui.”
Lassalle respondeu:
A anormalidade atribuída ao Dr. von Schweitzer não tem nada a ver com seu caráter político. Eu só preciso lhes lembrar de que, por mais incompreensíveis que esses gostos antinaturais pareçam para nós, a tendência da qual o Dr. von Schweitzer é acusado era a regra geral entre os gregos antigos, seus homens de Estado e seus filósofos. A Grécia Antiga não via nada errado nisso e eu considero que os grandes filósofos gregos e o povo grego sabiam o significado de moralidade […]. Eu conseguiria entender vocês não quererem que o Dr. von Schweitzer se case com sua filha. Mas por que não pensar, trabalhar e lutar em sua companhia? O que qualquer departamento de atividade política tem a ver com sua anormalidade sexual?
E ele escreveu para Schweitzer: “Eu nunca esconderei o fato de que tenho o máximo respeito e a maior consideração por você”.
Após a morte de Lassalle em um duelo em 1864, Schweitzer se tornou presidente da ADAV. Ele foi condenado a um ano na prisão por seus ataques ao governo e depois anistiado. Em 1867, ele foi eleito para o novo parlamento da Confederação da Alemanha do Norte no Reichstag, um dos primeiríssimos parlamentares autoproclamados socialistas na Europa.
Marx, por outro lado, se associou (com grandes reservas) aos socialistas liderados por August Bebel e Wilhelm Liebknecht, que fundaram o Partido Social-Democrata em 1869, em oposição à ADAV. Dali em diante, o “lassallista” Schweitzer se tornou um parceiro e rival político inevitável: na política, uma arma é tão boa quanto outra; frequentemente se reduz a “quem odeia quem” e difamações são rotineiras.
Em 10 março de 1865, Marx escreveu para Engels: “Você deve providenciar algumas piadas sobre o colega [Schweitzer] para que elas cheguem até Siebel [1836-1868, um amigo de Marx], para que ele veicule em vários jornais”. É fácil adivinhar que tipos de piadas Marx tinha em mente. Desde 1862, o “incidente de Frankfurt”, embelezado e exagerado, havia dado origem a fofocas e intrigas que os adversários de Schweitzer tinham prazer em repetir ou simplesmente fazer alusão. Em 22 de junho de 1869[3], em uma carta a Marx sobre uma fusão recente entre um grupo apoiado por Sophie von Hatzfeld, apelidada de “a Condessa Vermelha” (1805-1881), e pela ADAV, Engels falou de uma “linha masculina-feminina” (aquela com Sophie) e uma “linha totalmente feminina dos lassaleanos”, “feminina” em referência aos rumores sobre a orientação sexual de Schweitzer.
O fosso entre o Partido Social-Democrata e os seguidores de Schweitzer, que continuavam esperando apoio do Estado e ficaram do lado do governo prussiano na guerra contra a França em 1870, aumentou. Depois, os dois partidos se fundiram no congresso de Gotha (1875), sobre o qual Marx escreveu em sua Crítica do Programa de Gotha, mas isto está além do escopo deste nosso estudo.
Nessa altura, Schweitzer renunciara à presidência da ADAV e inclusive fora excluído do partido em 1872 (em razão de apropriação indébita de fundos partidários). Repudiado por seus antigos camaradas, Schweitzer iniciou uma segunda carreira como dramaturgo. Nenhum trabalhador compareceu a seu funeral.
Em tudo isto, a “questão sexual” permaneceu um parêntese para todos os protagonistas, que não viram nela uma questão social ou política. No caso de Schweitzer, Lassalle estava apoiando um de seus seguidores, ao passo que Marx e Engels não foram muito seletivos ao escolher as armas contra um adversário. Uma “questão privada” para Lassalle e munição para calúnias mesquinhas para Marx e Engels.
O conceito de “homossexualidade” ainda não existia, porém…
“Uma psique feminina em um corpo masculino”
Em 22 de junho de 1869, Engels escreveu para Marx[4]:
Esse “Urning” que você me enviou é uma coisa curiosa. Estas são revelações extremamente antinaturais. Os pederastas estão começando a se contar e descobrir que são uma força no Estado. Só faltava a organização, mas segundo esta fonte, aparentemente já existe em segredo. E como contam com homens tão importantes em todos os velhos e novos partidos, de Rösing a Schweitzer, sua vitória não pode tardar a chegar. “Guerre aux cons, paix aux trous-de-cul” [guerra às bocetas, paz aos cuzões[5]] será o slogan agora […]. Aliás, é só na Alemanha que um rapaz assim pode vir e converter essa porcaria em uma teoria […]. Se Schweitzer tivesse alguma utilidade, seria para extrair desse estranho homem honesto os dados pessoais dos pederastas de alto escalão, o que certamente não seria difícil para ele como irmão em espírito.
A frase “Urning[6]” [Uraniano] veio de uma brochura que Marx enviara a Engels, de autoria de Karl-Heinrich Ulrichs (1825–1895), que publicou entre 1864 e 1879 uma série de livretos expondo a teoria dos Urninge (Uranianos ou Uranistas), caracterizado por “uma psique feminina em um corpo masculino”.
Enquanto estudava Direito na universidade, Ulrichs, nascido no estado de Hanôver, descobriu sua atração por homens. Um de seus amigos cometeu suicídio para escapar do processo por sodomia e da decorrente e inevitável humilhação pública. Quando Schweitzer foi levado a julgamento por “atentado contra a moral pública” em 1862, Ulrichs falou em sua defesa. Embora sua orientação sexual não fosse ilegal em Hanôver na época, Ulrichs foi afastado dos cargos públicos e depois viveu de uma pequena herança e trabalhos intermitentes como jornalista e secretário. Em 1864, ele publicou anonimamente Pesquisas sobre o Enigma do Amor entre Homens [Forschungen über das Räthsel der mannmännlichen Liebe], só reconhecendo sua autoria quatro anos mais tarde. De todos os seus livretos sobre o assunto, pelo menos um era conhecido por Marx e Engels.
Ainda que sodomia não fosse um crime sob a lei hanoveriana, tudo mudou quando a Prússia anexou Hanôver. Portanto, para Ulrichs, a luta pelo direito ao amor pelo mesmo sexo coincidia com a luta por liberdades democráticas. Foi feita uma busca em sua casa, sua biblioteca foi confiscada e, em 1867, ele foi preso duas vezes e cumpriu uma pena de três meses na prisão. Discursando para o Congresso de Juristas Alemães em Munique em 1867 contra as leis antissodomia em vigor em diversos estados alemães, ele foi expulso a gritos antes que pudesse terminar seu discurso. Depois, recusaram sua filiação a uma associação científica de Frankfurt com base no fato de que ele alegava pertencer a um terceiro sexo, uma categoria não reconhecida na constituição da associação.
Legalmente, era uma batalha perdida. Depois de 1871, a lei prussiana antissodomia foi aplicada a toda a recém-unificada Alemanha e o §175 criminalizou “atos sexuais antinaturais […] entre homens ou entre homens e animais” (a lei ignorava a homossexualidade feminina). Este parágrafo permaneceria em vigor tanto na Alemanha Oriental como na Ocidental até os anos 1960.
Como a feminista Mary Wollstonecraft escrevera no ano de sua morte (1797), “Aqueles corajosos o bastante para avançar antes da era em que vivem […] devem aprender a desbravar a censura[7]”. Em 1880, Ulrichs deixou a Alemanha rumo à Itália, onde morreu quinze anos depois em L’Aquila.
Ulrichs não estava satisfeito com simplesmente defender uma causa: ele queria fundamentá-la na ciência – a ciência de sua época. Primeiro, ele se interessou pelo magnetismo, então se voltou à embriologia. Do fato de os órgãos sexuais permanecerem indiferenciados no começo do desenvolvimento do feto, Ulrichs concluiu que o organismo tem uma potência sexual dupla, que em certos indivíduos pode produzir um espírito ou alma (anima)femininos em um corpo masculino. Um homem que se atrai por homens é uma espécie de hermafrodita psicológico, a quem ele deu o nome de Urning [Uraniano], e o equivalente feminino (a mulher que se atrai por mulheres) é Urningin [Uraniana].
A escolha de termos é significativa. “Constituímos um terceiro sexo […]. Somos mulheres em espírito”, escreveu Ulrichs, mas ele escolheu evitar usar “terceiro sexo”, que ele considerava pejorativo, e preferiu procurar inspiração na antiguidade, invocando a mitologia em suporte à ciência natural. Tradicionalmente, Afrodite é venerada em dois aspectos: Afrodite Ourania, que representa o “amor celestial”, e Pandemos, a encarnação do “amor físico, terreno”. Qualificando o homem atraído pelo mesmo sexo como “Urning”, Ulrichs concedeu a ele uma pureza e uma elevação, a nobreza da Antiguidade Clássica, em oposição às imagens baixas e vulgares frequentemente associadas ao sexo entre homens. Ulrichs achava que um a cada 500 homens alemães adultos se enquadrava nesta categoria.
Com o tempo, Ulrichs ampliou sua perspectiva para incluir um continuum de orientações sexuais; alguns Urninge [Uranianos] nascem com uma inclinação masculina, e outros, com uma feminina. Conforme ele percebeu que sua teoria de uma alma feminina em um corpo masculino não mapeava adequadamente a variedade considerável de tipos observáveis de amor do mesmo sexo, Ulrichs subdividiu as categorias, acabando com uma série de dezesseis tipos.
Embora ele praticamente não tenha sido levado a sério, os livretos de Ulrichs encontraram seus leitores, um deles um erudito no assunto, Krafft-Ebbing (1840–1902), com quem Ulrichs correspondeu. O best-seller de Krafft-Ebbing Psychopathia Sexualis (o título diz tudo), um sucesso científico e popular, publicado pela primeira vez em 1886 e reimpresso em muitas edições subsequentes, com o subtítulo Com Pesquisa Especial sobre a Inversão Sexual, detalhava nada menos que 238 “casos”. O autor distingue duas categorias de inversão: adquirida e congênita. Na seção sobre a segunda categoria, ele cita Ulrichs e repetidamente usa a palavra Urning.
“Um enigma da natureza muito interessante”
Nascido na Hungria em 1824, o autor, tradutor, livreiro e jornalista em língua alemã Karl-Maria Kertbeny andava em círculos literários e políticos e levava uma vida inquieta de peregrinação e encontros europeus. Depois de Ludwig Kugelmann escrever para Marx dizendo que Kertbeny havia feito uma visita a ele e conversado sobre tudo e todos, Marx respondeu em 30 de janeiro de 1868 que ele não conhecia esse “busybody [enxerido] literário” pessoalmente, acrescentando que não parecia haver “nada politicamente suspeito contra ele[8]”.
Embora Kertbeny nunca tenha declarado isso abertamente, seu diário revela uma forte atração por homens. Não havia nada impessoal em sua pesquisa sobre o amor do mesmo sexo: “Como eu, um indivíduo de sexo normal, dei de cara com a existência do homossexualismo […]?” Sua obra sobre o assunto também era uma autoinvestigação sobre o trauma daquilo que um biógrafo chamou de sua “vida dupla”.
O primeiro uso registrado da palavra homossexualidade (Homosexualität) foi em 6 de maio de 1868[9], rascunho de uma carta de Kertbeny (certamente para Ulrichs). Homossexualidade acrescentou um sufixo latino a uma raiz grega, o mesmo caso de sociologia, inventada no final do século XVIII e popularizada no século XIX. Kertbeny também escreveu[10]:
Provar a natureza inata [da homossexualidade] não é útil de modo algum, especialmente não rapidamente; ademais, é uma faca de dois gumes, que seja um enigma da natureza muito interessante do ponto de vista antropológico […]. Não ganharíamos nada provando seu caráter inato. Em vez disso, deveríamos convencer nossos adversários que, exatamente de acordo com sua noção legal, eles não têm nada a ver com essa inclinação, seja ela inata ou voluntária, porque o Estado não tem o direito de intervir no que está acontecendo com consentimento entre duas pessoas com mais de 14 anos, excluindo publicidade, sem fazer mal aos direitos de terceiros.
Kertbeny estava fazendo inferências a partir das ciências naturais: “unissexual” e “bissexual” são termos botânicos. Não obstante, diferente de Ulrichs, ele não estava à procura de causas biológicas e considerava irrelevante a controvérsia inato/adquirido. Basicamente, ele queria conceber novas categorias positivas contra a denigração jurídica e médica e argumentava que o princípio de direitos humanos iguais também se aplica ao domínio sexual. Em um panfleto anônimo de 1869 contra o §143 do estatuto prussiano (que proibia “atos antinaturais entre homens”), Kertbeny usou tanto as palavras homossexualidade como heterossexualidade; a fim de defender aqueles acusados (de sodomia, de fato), ele postulou duas práticas sexuais opostas e paralelas.
Um objeto é definido por sua separação conceitual de outros. Kertbeny esperava conquistar reconhecimento do direito àquilo que ele chamava de homossexualidade ao distingui-la daquilo que chamava de heterossexualidade; a categoria de “heterossexualidade” devendo sua “invenção” aos defensores de seu oposto, uma atividade socialmente proibida.
Na época, as pessoas falavam de um “amor sem nome”; tanto a prática como a palavra ainda eram proscritas. Os pioneiros da emancipação sexual queriam dar a esta prática um nome próprio e, portanto, legitimidade: melhor dar um nome a si mesmo do que ser nomeado de maneira discriminatória.
Autoafirmação pela naturalização
Contra o conselho de Kertbeny, nas próximas décadas a maioria dos defensores do mesmo sexo abraçaram a tese do “caráter inato” (que predomina até os dias de hoje). Esta opção deu à homossexualidade uma justificativa natural contra aqueles que a denunciavam como monstruosa e “contra a natureza”. Ulrichs escreveu sobre os Uranianos em 1870: “Sua orientação sexual é um direito estabelecido pela Natureza. Legisladores não têm o direito de vetar a natureza”. Supondo que a homossexualidade é um fato biológico, então algumas pessoas estão sujeitas a uma atração inata pelo mesmo sexo, cujas origens são congênitas e, portanto, não pode existir uma base racional para proibir condutas que resultam dela. Se um homem não se atrai por outros homens por escolha, como ele poderia ser considerado responsável e penalizado?
No entanto, ao definir uma prática sexual como um novo objeto natural chamado homossexualidade, seus defensores beneficiaram seus críticos. Contra condenações morais e legais de uma prática chamada de “antinatural”, eles defenderam uma especificidade intrínseca. Isto colocou indivíduos homossexuais e heterossexuais como opostos radicais e, embora agora fosse dada uma base racional à divergência, esta diferença era enfatizada, o que, em uma sociedade normalizante implicava ser segregado como “desviante”.
Se o homossexual é fundamentalmente diferente (é verdade, a despeito de si mesmo) por causa de sua constituição mental e física diferente, então não é absurdo que uma sociedade decidida a manter a ordem tente colocá-lo de novo nas rédeas. Ele não é mais um criminoso, mas simplesmente um paciente que deve ser tratado pelo seu próprio bem e pelo bem social. A psiquiatria tomou o lugar que a polícia havia deixado. A formalização de Kertbeny de duas realidades opostas manteve o “problema” que ele pretendia resolver.
Marx e Engels “homofóbicos”
Os dois mais famosos pais fundadores da teoria comunista eram contemporâneos dos primeiros defensores do amor pelo mesmo sexo e o inventor da homossexualidade, tanto da palavra como do conceito, não era um desconhecido para eles. Contudo, Marx e Engels oscilaram entre a indiferença e a aversão e reagiram com um linguajar tão grosseiro e ofensivo que tradutores e editores marxistas até agora se sentiram obrigados a atenuá-lo. Críticos sociais de seu calibre igualaram o esforço de Ulrichs a “converter essa porcaria em uma teoria”. Quando entraram em contato (reconhecidamente remoto) com pioneiros importantes da emancipação sexual, eles ou os ignoraram ou os ridicularizaram. É verdade, a questão não podia existir socialmente nos anos 1860, mas estava começando a ser colocada: Marx e Engels a desprezaram e só se incomodaram com o assunto quando servia à sua agenda política.
Mas há um pouco mais sobre isso:
“A degradação infinita na qual o homem existe para si mesmo é expressada em sua relação com a mulher enquanto presa e serva da luxúria comunal […]. A relação imediata, natural, necessária de um ser humano com outro é a relação do homem com a mulher” (Marx, “Propriedade Privada e Comunismo”, Manuscritos Econômico-Filosóficos[11]).
Engels de fato mostrou interesse em questões sexuais. Em seu artigo de 1883 “O Livro de apocalipse” (na Progress, uma revista publicada por Edward Aveling, o parceiro de Eleanor Marx), ele escreveu: “É um fato curioso que, com todo grande movimento revolucionário a questão do ‘amor livre’ chegue ao primeiro plano[12]”. E seu Origem da família, da propriedade privada e do Estado é uma crítica aprofundada da monogamia e da subjugação da mulher. Entretanto, no mesmo livro, Engels rejeita duas vezes o amor (de homens) pelo mesmo sexo, desdenhando da “abominável prática do amor por meninos” dos gregos antigos e dos “vícios nojentos e antinaturais” dos nômades das estepes do Mar Negro[13].
Marx e Engels enxergavam a exploração e a alienação humanas não só no domínio “econômico”, mas também no interior das relações sexuais… exceto que, para eles, a sexualidade só existia como “hétero” – uma palavra e uma noção desconhecida para eles. Portanto, em nome da emancipação tanto do homem como da mulher, eles ignoraram – ou, no caso de Engels, denegriram repetidamente – o que estava começando a ser chamado de homossexualidade.
O Fim do Amor Grego na Modernidade
Como muitos outros, quando usavam a palavra pederasta, Marx e Engels não distinguiam amantes de meninos de “pederastas” adultos. Essa é uma das palavras que mais sofre com as camadas de confusão centenária. Na Grécia Antiga, paederastia era um modo de socialização, uma relação particular entre os mais velhos e os jovens que incluía sexo, mas era mais do que sexo, não em oposição ao casamento, mas complementando-o. “Na Atenas clássica […] o sexo não expressava disposições ou inclinações internas, mas servia para posicionar atores sociais nos lugares atribuídos a eles” (David Halperin[14]).
A história e a etnologia nos contam sobre a infinita variedade de relacionamentos sexuais entre homens que vão muito além daquilo que hoje chamamos de “sexualidade”. Seja a tradicional felação entre adultos e adolescentes homens na Nova Guiné ou hábitos de vida comunal entre homens jovens e mais velhos, que nosso século XXI chamaria de “homossocial”, beirando o “homoerótico”. Nestes casos e em uma série de outros, os participantes não se envolviam em “práticas sexuais”. O que ocorria era parte de rituais de iniciação necessários para alcançar o estágio de masculinidade (“heterossexual”, em nossa mentalidade moderna), para se tornar completamente “homem”, isto é, pai e guerreiro ou caçador (ou ambos) e, na Grécia Antiga, cidadão. Onde talvez vejamos “homossexualidade” ou “bissexualidade” no intercurso físico entre erastes e eromenos, o cidadão de Atenas via uma entrada para a verdadeira vida adulta masculina. Depois disso, tal atividade deveria ser evitada e se torcia o nariz para a sexualidade “passiva” quando praticada em um cidadão adulto.
We’wha vivera em uma era crucial, em uma época em que o nascimento de uma “questão sexual” estabeleceu a fundação da vinda da “homossexualidade”, teorizada e nomeada pela primeira vez por seus pioneiros defensores. Alguns homens se chamavam de “homossexuais”. O amante de Oscar Wilde, Lord Alfred Douglas, estava atrasado em 1894 quando escreveu sobre o “amor que não ousa dizer seu nome”: naquela altura, o homossexo havia começado a falar por si próprio e a reivindicar sua existência legítima na base científica de que era “natural”. Isto era mais do que uma vindicação de direitos em nome da liberdade. Era um esforço para competir com a ciência estabelecida ao inventar modelos “progressivos” e tipos sexuais novos e sofisticados contra padrões rígidos regressivos. Inevitavelmente, se aventurar no terreno da ciência levou defensores do amor pelo mesmo sexo a imitar sua abordagem e métodos; logo, eles categorizaram, dividiram e subdividiram o comportamento sexual, esperando desarmar a incompreensão hostil acumulando evidências sólidas e conceitos exaustivos.
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Para a homossexualidade existir enquanto tal, a sexualidade precisava ser pensada e tratada como um objeto social distinto. Ao criar a “sexualidade” como uma esfera específica, a sociedade capitalista abriu caminho para um paralelo: o homossexo e o heterossexo inventaram um ao outro como polos recíprocos. Não era uma competição justa entre os dois: a normatividade estava do lado do heteressexo, pois somente a heterossexualidade parecia capaz de garantir a ordem sexual necessária para a reprodução social.
“Em uma época em que a classe média buscava estabelecer ordem social diante da rápida industrialização e da imigração, o controle da sexualidade fora da família parecia ainda mais urgente […]. O sexo divorciado da reprodução era simplesmente perturbador demais para ser liberado em público” (John D’Emilio & Estelle Freedman[15]).
A lei e a moralidade continuaram a condenar a homossexualidade.
Referências
Bleachy, Robert. Gay Berlin: Birthplace of a Modern Identity. New York: Alfred A. Knopf, 2014.
D’Emilio, John & B. Freedman, Estelle. Intimate Matters: A History of Sexuality in America. Chicago: University of Chicago Press, 1998.
Halperin, David. “Is There a History of Sexuality?” in: History and Theory, Vol. 28, No. 3 (Oct., 1989), pp. 257-274 (1989). https://programaddssrr.files.wordpress.com/2013/05/is-there-a-history-of-sexuality.pdf [o link fornecido por Dauvé está indisponível; é possível acessar o artigo, disponível no JSTOR, através do Libgen (e também através do Sci-Hub e do Anna’s Archive) aqui]
Katz, Jonathan Ned. The Invention of Heterosexuality. Chicago: University of Chicago Press, 2007.
Kennedy, Hubert. “Johann Baptist von Schweitzer: The Queer Marx Loved to Hate”. Journal of Homosexuality 29, nos. 2-3 (February 1995).
___. “Karl Heinrich Ulrichs: First Theorist of Homosexuality” in: Rosario, Vernon (ed.). Science and Homosexualities. New York: Routledge, 1997, p. 26-45. https://hubertkennedy.angelfire.com/ FirstTheorist.pdf [o link fornecido por Dauvé não funciona mais; é possível encontrar o livro no Libgen e Anna’s Archive]
A tendência frequente de tradutores e editores marxistas de suavizar o linguajar de Marx e Engels é particularmente perceptível no assunto de questões do mesmo sexo e resulta em versões expurgadas de seus textos. Não há motivo para ignorar que, de maneira geral, questões do mesmo sexo eram um dos pontos cegos de Marx e Engels. Com um manual bem selecionado de citações como seu guia principal, alguns marxistas tendem a se lerem em Marx e a reinventá-lo como feminista, ecologista etc.
Antes de gays e lésbicas começarem a revisitar o passado, o lado infame de Schweitzer pertencia à lixeira da história e apenas seus hábitos ditatoriais eram lembrados. No círculo socialista do começo do século XX, os adversários de Lênin o acusavam de “Schweitzerismo” quando argumentavam que ele estava tentando reger o partido como um autocrata. Em sua crítica do “ultracentralismo” de Lênin, Rosa Luxemburgo não menciona o nome de Schweitzer, mas se refere aos “ditadores” à frente da ADAV.
Luxemburg, Rosa. “Organizational Questions of the Russian Social Democracy” (1904). https://www.marxists.org/archive/luxemburg/1904/questions-rsd/index.htm
Takacs, Judit. “The Double Life of Kertbeny” (2004). http://www.policy.hu/takacs/pdf-lib/TheDoubleLifeOfKertbeny.pdf
[1] “Johann Baptist von Schweitzer: The Queer Marx Loved to Hate”, p. 75. [n. t.]
[2] Ibidem. [n. t.]
[3] MEGA1 III.4: Der Briefwechsel zwischen Marx und Engels 1868–1883(Glashütten im Taunus: Verlag Detlev Auvermann KG, 1970), p. 195. [n. t.]
[4] Ibidem, p. 196. O destaque em itálico em Urning é de Dauvé, que também mantém o termo em alemão. Na versão em PDF – escaneada e processada com reconhecimento ótico de caracteres – utilizada para incluir a referência, o nome que aparece não é “Rösing”, como indicado por Dauvé, e sim “Rosig [?]”, seguido da interrogação entre colchetes. [n. t.]
[5] Etimologicamente, “cons”, que hoje tem como sentido principal os xingamentos “idiota”, “imbecil” etc., possui o sentido original de “vulva”: essa ambiguidade é explorada por Engels. [n. t.]
[6] Dauvé opta por manter o termo Urning (plural: Urninge)em alemão na maior parte do texto. [n. t.]
[7] Mary Wollstonecraft, “346. To Mary Hays (?)” in: Mary Wollstonecraft (edited by Ralph Wardle), The Collected Letters of Mary Wollstonecraft (Ithaca & London: Cornell University Press, 1979), p. 413. [n. t.]
[8] MEW 32 (Berlin: Dietz Verlag, 1974), p. 535; Marx utiliza o termo busybody em inglês, motivo pelo qual foi mantido assim nesta tradução. A carta pode ser lida em inglês aqui. [n. t.]
[9] Dauvé grafa incorretamente a data como 1668. [n. t.]
[10] Dauvé retirou a citação de Kertbeny de Judit Takacs, “The Double Life of Kertbeny” (2004), p. 31; a fonte de Takacs é, por sua vez, a coleção de manuscritos da Biblioteca Nacional da Hungria: Károly Kertbeny (ca. 1868/b) Levéltöredék in: Autobiographiai jegyzetek in: National Széchenyi Library OSZK Kézirattár OctGerm 297 (manuscrito original). A tradução deste trecho baseia-se nesta tradução para o inglês, a qual é um tanto truncada, como evidente pelo trecho “que seja um enigma da natureza” (let it be a very interesting riddle of nature); infelizmente não foi possível acessar o manuscrito online. [n. t.]
[11] A tradução utilizada por Dauvé omite os destaques de Marx e contém diferenças sutis. Traduzo o trecho diretamente do alemão abaixo, indicando os destaques: “Na relação com a mulher enquanto presa e criada da volúpia comunitária está expressa a degradação infinita na qual o ser humano existe para si mesmo […]. A relação imediata, natural, necessária, do ser humano com o ser humano é a relação do homem com a mulher” (MEW 40 (Berlin: Dietz Verlag, 1968) p. 535). [n. t.]
[12] Artigo publicado em português na Revista Verinotio, v. 26, n. 2 (2020), 200 anos de Friedrich Engels, em tradução de Lucas Parreira Álvares; pode ser acessado online aqui. [n. t.]
[13] Citações traduzidas a partir da tradução utilizada por Dauvé; no original (MEW 21 (Berlin: Dietz Verlag), p. 67-71), lê-se “repulsivo amor por meninos”; na edição brasileira da Boitempo (Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado: em conexão com as pesquisas de Lewis H. Morgan (Tradução: Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2019, versão digital), o termo Knabenliebe, amor por/com meninos, é traduzido diretamente como “pederastia”. [n. t.]
[14] “Is There a History of Sexuality?”, p. 260. [n. t.]
[15] Intimate Matters: A History of Sexuality in America, p. 164. [n. t.]
CONTINUA…
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