A Ideologia do Nacionalismo – Grupo de Comunistas Internacionalistas (GIC)

[Nota do Crítica Desapiedada]: Para mais leituras sobre o tema, recomendamos a crítica radical de Paul Mattick ao nacionalismo no artigo “Nacionalismo e Socialismo”, publicado no ano de 1959. Boa leitura!


O nacionalismo é a ideologia burguesa por excelência. Apenas no estado nacional os capitalistas podem superar sua concorrência mútua para competir com outros grupos capitalistas como capital nacional. Ao fazer isso, é vital para a classe capitalista fazer os trabalhadores esquecerem seu próprio interesse como classe e arrastá-los para a guerra imperialista sob slogans nacionalistas.

A penetração do nacionalismo no movimento operário ajudou a classe capitalista a fazer isso. Mas não só a social-democracia reformista era nacionalista. O mesmo se aplicava à social-democracia radical na Rússia, o bolchevismo. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o Grupo de Comunistas Internacionalistas lembrou a luta de Rosa Luxemburg contra o nacionalismo bolchevique. Este nacionalismo continua até hoje tanto no stalinismo quanto no trotskismo, no maoísmo e no pós-maoísmo, por exemplo, do SP [Partido Socialista, um partido pós-maoísta na Holanda].

Introdução de Fredo Corvo (8 de Dezembro 2021)


A Ideologia do Nacionalismo

(Artigo do Grupo de Comunistas Internacionalistas, 1939)
[traduzido do holandês por Jan Freitas]

O capitalismo do período burguês, que em sua estrutura era puro capitalismo privado, criou a ideologia do nacionalismo. Pois em seu desenvolvimento, precisava de maior espaço para a produção de suas mercadorias, maiores mercados para a venda de suas mercadorias, perspectivas mais amplas para sua tendência de expansão. E não menos importante, precisava de proteção através de direitos de importação, a salvaguarda de suas relações legais, proteção de crédito, poder policial e militar. Tudo isso os pequenos Estados de antigamente não podiam assegurar. Assim, a multidão de pequenos Estados, que se tornaram freios ao desenvolvimento, fundiu-se na unidade das nações maiores.

A cozinha ideológica misturou no conceito de nação tudo aquilo que, como língua, sentimento pelo solo nativo, lembranças da infância, hábitos de vida, etc., une a alma da pessoa desde a infância a certos distritos geográficos. Da mesma forma, diferentes camadas da população foram capturadas pelo nacionalismo e acorrentadas a ele. Devido a sua influência estupidificante, a classe trabalhadora em particular, facilmente enganada pela falta de visão de classe, foi a principal vítima. Até que o socialismo se libertou de seus preconceitos e grilhões nacionalistas e se declarou a favor do internacionalismo.

Certamente, por enquanto, este internacionalismo foi apenas uma conquista da mente. Pois consistia em uma simples adição dos vários nacionalismos, ou era um esboço da república mundial utópica da época dos grandes mestres da Revolução Francesa. Este internacionalismo era, portanto, uma questão da cabeça. O coração permaneceu mais ou menos aprisionado no nacionalismo. E nos casos em que era preciso tomar uma decisão, a irracionalidade do coração era geralmente mais forte do que a racionalidade da cabeça.

Mesmo uma doutrina tão abstrata como o bolchevismo, que trabalhou até sua máxima sofisticação com conceitos insensíveis e lógica glacial, ofereceu em seu primeiro teste sério na realidade política o espetáculo surpreendentemente doloroso de ainda não ter perdido o resto do seu espírito de burguesia nacionalista. Isto ficou especialmente evidente na promoção e aplicação prática do direito das pequenas nações de determinar seu próprio destino político, “incluindo a desintegração política da Rússia”, pelo governo bolchevique. Este foi um reconhecimento inequívoco do princípio nacionalista.

Rosa Luxemburg contestou ferozmente este nacionalismo bolchevique, denunciou com veemência seu caráter utópico e pequeno burguês e expôs seus efeitos perniciosos no desenvolvimento futuro da luta de classe proletária.

Não podemos nos referir às reflexões de Luxemburg com frequência suficiente ou com demasiada  ênfase, tendo em vista que não apenas o fascismo está enviando uma nova onda de nacionalismo pelo mundo, mas que a própria Rússia está passando por um desenvolvimento semelhante.

Esboçamos aqui o argumento de Rosa Luxemburg, citando seu folheto:

Die Russische Revolution, editado por Paul Levy (Verlag Gesellschaft und Erziehung, Berlim 1922)[1].

Diz:

“O fato de que a questão das correntes nacionais e das tendências secessionistas foi lançada em plena luta revolucionária, sim, pela paz de Brest[-Litovsk][2], e foi até carimbada como uma palavra de ordem da política socialista e revolucionária, trouxe a maior confusão nas fileiras do socialismo e minou a posição do proletariado justamente nos países periféricos. (pág. 93) […] Enquanto Lenin e seus colegas de partido evidentemente esperavam fazer da Ucrânia, Finlândia, Polônia, Lituânia, países dos Balcãs, do Cáucaso, etc., como defensores da liberdade nacional, aliados leais da revolução russa, vimos exatamente o oposto: uma após outra destas nações usaram a liberdade recém obtida para se aliar ao imperialismo alemão como inimigo mortal da revolução e, sob sua proteção, para levar a bandeira da contrarrevolução à Rússia (p. 90) […] Os verdadeiros conflitos de classe levaram à intervenção da Alemanha na Ucrânia e na Finlândia. Mas os bolcheviques forneceram a ideologia que mascara este avanço da contrarrevolução, eles fortaleceram a posição da burguesia e enfraqueceram a do proletariado (p. 95) […] Em vez de advertir os proletários dos países periféricos contra qualquer secessão como uma armadilha puramente burguesa, eles confundiram as massas e as entregaram à demagogia da classe burguesa. Por esta exigência de nacionalismo, eles mesmos provocaram a desintegração da Rússia e empurraram para as mãos de seus próprios inimigos a faca que atingiria o coração da revolução russa. (p. 94-95) […] Em vez de buscar, no espírito da nova política de classe nacional, à qual de outra forma aderiram, o resumo mais compacto de todas as forças revolucionárias em todo o território do império, para defender com unhas e dentes a inviolabilidade do império russo, como o território da revolução, para colocar a solidariedade e a inseparabilidade dos proletários de todas as nações no âmbito da revolução russa como o mandamento supremo da política contra todas as aspirações nacionalistas, os bolcheviques, através das frases nacionalistas pomposas do direito de autodeterminação à secessão política, forneceram à burguesia de todos os estados periféricos precisamente o mais desejado, o pretexto mais brilhante, a própria bandeira de suas aspirações contrarrevolucionárias. (p. 94) […]”

Rosa Luxemburg continua:

“Os bolcheviques tinham o privilégio de usar a frase do direito dos povos à autodeterminação para trazer proveito à contrarrevolução e assim fornecer a ideologia não apenas para a supressão da revolução russa, mas também para a liquidação contrarrevolucionária de toda a guerra mundial. (p. 96) […] É evidente que a frase do direito de autodeterminação dos povos e de todo o movimento nacional constitui o maior perigo para o socialismo internacional (p. 97) […]”

Estas palavras de Rosa Luxemburg tinham um valor profético. Pois, a liquidação contrarrevolucionária da guerra fazia uma parte primária do Tratado de Versalhes com suas exigências de indenizações e disposições de desarmamento, que mais tarde se tornou o trampolim da vingança nacionalista e hoje representa o maior perigo para o socialismo.

O fascismo alemão tinha um interesse particular em fortalecer o nacionalismo. No entanto, o capitalismo monopolista, a força motriz do fascismo, há muito tempo já tinha crescido além das fronteiras nacionais de seu desenvolvimento. Seu caráter internacional havia se desenvolvido plenamente na interpenetração e entrelaçamento, cartelização e fusão com monopólios estrangeiros. E em sua política imperialista, estava plenamente consciente de sua transgressão ativa e agressiva das tendências e interesses nacionais.

Mas o capitalismo monopolista precisava do nacionalismo da pátria para avançar com seus novos objetivos imperialistas. Pois requer armamento e os fundos necessários do Estado, precisa do exército nacional, da disposição chauvinista do povo e da prontidão para a guerra de toda a nação – tudo por sua política de conquista, suas pilhagens e aventuras de guerra. Criar estas condições ideológicas e prontidão prática, desenvolvê-las através de uma campanha de propaganda gritante em aclamação exuberante e loucura de guerra, e esmagar brutalmente qualquer ação contrária – esta é a missão nacional do fascismo.

Deve-se admitir que o fascismo cumpriu brilhantemente esta missão. Ele transformou a ideologia do nacionalismo na ideologia da força e, ao apelar para o medo humano, não só encontrou compreensão para isso, mas até mesmo conquistou apoio entusiasta. Na prática, a ideia de força, como necessidade do Estado, tem se firmado em todas as áreas da vida social: negócios, administração, opinião pública, tecnologia, ciência, educação, arte e assim por diante. Todas as forças, recursos, simpatias, impulsos e instintos da vida nacional foram colocados a serviço dos interesses nacionais. Estes são os interesses do capitalismo monopolista, da política de conquista mundial, do imperialismo. Em nome desses interesses, a Alemanha está determinada a desencadear o inferno de uma Segunda Guerra Mundial.

Por mais terrível que esta perspectiva possa ser, há algo de evidente nela. Quem aceita a necessidade capitalista deve também aceitar a guerra imperialista e quem a aceita deve aceitar o nacionalismo com todas as suas consequências. É por isso que os estados democráticos não são menos nacionalistas que os estados fascistas, não menos dispostos a colocar o nacionalismo a serviço da guerra pelos interesses capitalistas. Se eles querem lutar contra o fascismo, é apenas porque veem nele um concorrente que os domina e que ameaça sua posição econômica no mundo. Quando seu desenvolvimento também tiver atingido o estágio de fascismo, eles o colocarão à disposição de um nacionalismo cuidadosamente cultivado, sem qualquer dúvida.

O nacionalismo significa o direito à assistência estatal. Em situações críticas, difíceis e perigosas na luta pela existência, o homem nacionalista, sozinho ou em grupos e classes ligadas a outros, procura ajuda do Estado, da nação.

O homem socialista ou a classe proletária despertada para a consciência de classe é diferente. Eles buscam ajuda de si mesmos, em associação com outros, no trabalho solidário, na luta da classe. Eles não esperam salvação de uma instituição burguesa ou modo de luta, nenhuma ajuda de um estado burguês ou da nação. Eles suprimem a causa do perigo que ameaça sua existência, suprimindo a sociedade burguesa. E eles formam uma sociedade na qual o perigo não existe mais para eles.

Portanto, o burguês tem o direito de ser nacionalista. Como nacionalista, ele age corretamente em um sentido formal, mesmo que na prática possa ser mal sucedido. O homem socialista, por outro lado, comete uma injustiça contra sua classe se ele segue o caminho do nacionalismo. Ou ele ainda não entendeu o mandamento de sua convicção política, ou ele comete traição. De uma forma ou de outra, ele está errado. Pois por sua atitude, os interesses da burguesia são promovidos e os do proletariado são prejudicados.

Neste sentido, Rosa Luxemburg já podia apontar o dedo aos bolcheviques há vinte anos quando fez a acusação de que os bolcheviques, através de seu nacionalismo, tinham criado o maior perigo para o proletariado mundial. Ela não proferiu a palavra “traidor”, mas ela está lá não escrita entre as linhas de sua polêmica amarga.

Neste momento, podemos confirmar a exatidão de sua acusação. Pois sua previsão se tornou realidade. O bolchevismo não só corrompeu a revolução russa, como também ajudou a esmagar as revoluções na Alemanha e na Hungria, a trair as revoluções na China e na Espanha. Entregou o proletariado mundial inteiro para a contrarrevolução.

E isto no curso do mesmo desenvolvimento, no qual os antigos revolucionários chegaram à glorificação de Pedro o Grande como herói nacional e à proclamação do “socialismo em um só país”. Quando seu nacionalismo encontrará seu auge em um pacto entre Stalin e Hitler[3]

* Publicação original de Dezembro 1939: o artigo acima foi escrito em maio de 1939.

Fonte:

Radencommunisme [Comunismo dos Conselhos]: Revista mensal marxista para o movimento de classe independente, 2ª ed., no. 1, 1939 / Grupo de Comunistas Internacionalistas: De ideologie van het nationalisme – Archivo: I.I.S.G., Amsterdam, Coleção Henk Canne Meijer. – Transcrevido e editado para Rätekommunismus, com a ajuda dos Arquivos da Associação Antonie Pannekoek.


[1] Die russische Revolution [A Revolução Russa]. Publicado pela primeira vez em 1922 por Paul Levi, a partir do manuscrito na sua herança. [Nota do Editor]

[2] Veja: Brest-Litovsk. [Nota do Editor]

[3] Isto veio muito rapidamente na forma do Pacto Molotov-Ribbentrop de 23 de agosto de 1939. [Nota do Editor]

Be the first to comment

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*