Duas Críticas ao Capital no Século XXI de Thomas Piketty – Lucas Maia & Paul Mattick Jr.

[Nota do Crítica Desapiedada]: Apresentamos ao leitor duas críticas à obra O Capital no século XXI, de Thomas Piketty, publicada no ano de 2013. O primeiro texto foi escrito por Lucas Maia[1] e publicado na Revista Enfrentamento em 2019. Ele é uma parte do artigo “Capitalismo Contemporâneo e Estratégia Revolucionária Hoje”. Em seguida, disponibilizamos a tradução em português do texto de Paul Mattick Jr.[2], “Much Ado About Something”, publicado em 2014 na coluna Field Notes do jornal Brooklyn Rail.
Em alguns pontos, as observações críticas de Lucas e Mattick Jr. se aproximam, em outros, apresentam certas diferenças. Apesar das diferenças entre eles, as quais não serão abordadas por nós nesta breve nota de apresentação, os textos dos dois autores se unem no completo rechaço da obra de Piketty, revelando que este autor é tão somente produto do capitalismo neoliberal, uma vez que sua concepção não ultrapassa os limites instransponíveis da episteme burguesa, incapaz como é de pensar na transformação radical e total do capitalismo. Assim, os dois textos que aqui disponibilizamos fornecem uma crítica necessária aos limites da obra de Piketty.

Boa leitura.


Piketty: um ideólogo do capital no século XXILucas Maia

Este texto é parte de um artigo mais amplo. Por ser somente um excerto, faremos algumas inserções, bem como algumas alterações estilísticas para que este fragmento tenha maior coerência e possa ser lido separadamente do artigo de onde foi retirado. Recomenda-se, de qualquer forma, a leitura do texto na íntegra.

O livro de Piketty (2014), recentemente lançado, apesar de seu realismo e pragmatismo, é marcado por concepções ilusórias, como é toda ideologia. A tese central é: a corrosão do estado integracionista iniciada após a década de 1970, associada a uma crise do capital a partir desta década, levou a um aumento da desigualdade no mundo inteiro, tanto entre pobres e ricos nos países de capitalismo central (objeto de análise de todo o livro), quanto entre países ricos e países pobres (tema somente tangenciado na obra). Todo o livro é para demonstrar com base em ampla documentação estatística esta tese, o que de fato ele comprova.

A última parte do livro é inteiramente dedicada a apresentar remédios para os problemas sociais típicos desta nova fase do desenvolvimento capitalista: desemprego, corrosão dos direitos sociais (saúde, educação, seguridade social etc.), que segundo o autor devem ser administrados pelo estado. Não este que está aí, o estado neoliberal (causa da desgraça), mas um “estado fiscal”, social. A expressão estado fiscal é bem reveladora. Um estado social em pleno século XXI não pode ter as mesmas características do velho estado de “bem-estar-social”, de corte keynesiano (embora o autor demonstre ao longo do livro um saudosismo tremendo para esta forma estatal). O capital no século XXI não consentiria tamanho desatino.

Contudo, ele apresenta alguns elementos. Foi durante o século XX, sobretudo após a segunda guerra mundial, mas um processo que já se inicia às portas da primeira guerra, que há um aumento na arrecadação dos estados, recorrendo sobretudo à taxação sobre a renda (lucros, salários, juros etc.) e taxação sobre heranças. Estes mecanismos já existiam antes, mas eram muito baixos. É após a segunda guerra, que estes mecanismos fiscais se intensificam, chegando em alguns casos a mais de 90% sobre as grandes rendas. Tais processos, entre outros, permitiram aos estados arrecadação necessária para garantir uma certa distribuição de renda, via well fare state[3]. O que ele demonstra com ampla documentação é que durante os anos de 1970, 1980, 1990, 2000 este método de taxação deixa de ser intenso como foi nos “30 gloriosos” (da década de 1940 a 1970). As reformas neoliberais são a consequência (ou causa) necessária. O estado fiscal social deixa de cumprir seu papel fundamental de distribuir renda garantindo melhores condições de vida à população trabalhadora, restando a esta parcela da população o “horror econômico”, para lembrar aqui a expressão de Viviane Forrester.

Como remédio, ele defende então: aumentar novamente as taxas sobre a renda (sobretudo as grandes rendas), as heranças (sobretudo as grandes heranças) e lança como proposta seu “imposto sobre o capital”. É bom que se diga que se trata de “imposto progressivo”, ou seja, que aumenta à medida que aumenta o tamanho do patrimônio. Afirma:

Como já vimos, a instituição ideal que seria capaz de evitar uma espiral infindável de aumento da desigualdade e também retomar o controle da dinâmica em curso seria um imposto progressivo global sobre o capital. Um instrumento como esse teria ainda o mérito de gerar a transparência democrática e financeira dos patrimônios, o que é uma condição necessária para a regulação eficaz do sistema bancário e dos fluxos financeiros internacionais. O imposto sobre o capital faria prevalecer o interesse geral em detrimento do interesse privado, preservando, a um só tempo, a abertura econômica e as forças da concorrência (PIKETTY, 2014, p. 459) (grifos meus).

Fiz questão de grifar estes trechos para chamar a atenção: a) evitar o aumento da desigualdade, não o seu fim; b) imposto progressivo significa que ele é maior quanto maior for o capital (o capital é, portanto, meramente patrimônio e não relação social de exploração); c) transparência democrática, regulação dos fluxos de capital. Isto a um liberal soa como violento. A um social-democrata, democrata, trabalhista, keynesiano etc. como necessário. A um revolucionário soa como canto de sereia, isca para peixe; d) prevalecer interesse geral em detrimento do privado. Como, se por definição, e o próprio Piketty defende a necessidade da propriedade privada, do mercado livre, embora regulado etc.? Em qual momento da sociedade moderna, com vigência dos interesses da classe dominante, houve a prevalência dos interesses coletivos, gerais em detrimento dos interesses privados (corporativos)? Até que se responda isto, a defesa dele é um grande non sense.

Assim, o grande objetivo deste imposto sobre o capital seria amenizar os problemas sociais gerados pelos excessos do capital a partir da crise do well fare state. O capital como relação social de exploração da classe capitalista sobre a classe operária está totalmente afastado da análise. O capital, como patrimônio, é algo dado, se Marx analisasse tal livro, diria que Piketty é um fetichista, o que de fato é. Este algo dado é patrimônio. A questão é que como este patrimônio é gerado, ou seja, a partir da relação de classe e dos processos de exploração internacional, processos estes que estão fora do escopo analítico do autor.

Como se vê, o alarde que a esquerda brasileira fez em torno desta obra é completamente despropositado. As reservas de Piketty às grandes fortunas não o aproximam nem mesmo de um social-democrata. Todas as reformas que ele propõe se dão dentro dos quadros do atual regime de acumulação, visando unicamente reduzir os graves problemas sociais gerados pela reestruturação produtiva, pelas reformas neoliberais. Sua ideia de regular o capital é o centro de sua argumentação. Esta regulação deveria pensar um pouco mais nos desvalidos através de reformas que permitam reconstruir um “estado fiscal”, arrecadando mais recursos junto às grandes fortunas e distribuindo-os via serviços sociais.

Como não existe luta de classes para ele, resta somente ser um iludido mesmo. O imposto sobre o capital permitiria maior democracia, pois criaria transparência sobre as informações fiscais das empresas e dos estados. Mas estas informações e transparência sem participação efetiva dos trabalhadores seria algo inútil. Conclui assim seu sistema de ilusões de “democracia econômica”:

Podemos afirmar que os assalariados e seus representantes não estão suficientemente a par das realidades econômicas da empresa. Sem uma verdadeira transparência contábil e financeira, sem informação partilhada, não pode haver democracia econômica. Por outro lado, sem direitos concretos de intervenção nas decisões das empresas (como os direitos de voto para os funcionários nos conselhos administrativos), a transparência não tem grande utilidade. A informação deve nutrir as instituições fiscais e democráticas; ela não é um fim em si. Para que a democracia venha um dia a retomar o controle do capitalismo, é necessário, em primeiro lugar, partir do princípio de que as formas genuínas de democracia e do capital estão e sempre estarão para ser reinventadas (PIKETTY, 2014, p. 554).

Um dos princípios elementares de toda organização burocrática, como são as empresas capitalistas, é o “sigilo burocrático”. A não ser que a empresa deixe de ser burocrática, ou seja, que a relação entre capitalista e operário, entre burocracia empresarial e classe trabalhadora deixe de existir (ou seja, a autogestão social, o comunismo), o sigilo burocrático não deixará de ser regra, pois é instrumento de dominação, de poder, controle. Suponhamos então que, num mundo ideal, onde supostamente haveria maior transparência na informação dentro das empresas e das empresas para com o estado. Contudo, se isto não for acompanhado de um maior “direito concreto de intervenção nas decisões das empresas”, a transparência democrática será inútil. Para tanto, enfie lá uns dois ou três trabalhadores dentro do conselho de administração da empresa, para discutir com os executivos, os CEO’s, os interesses dos acionistas. Nesse mundo ideal, então, os trabalhadores em tal conselho irão mudar, com seu voto, decisões que afetem diretamente o lucro dos acionistas, representados pelos seus executivos. Tamanho non sense não viria nunca da boca de uma trabalhadora que serve cafezinho nas reuniões destes conselhos. Esta trabalhadora é, neste particular, muito mais sensata que o renomado economista Piketty.

Mas deixemos estas fantasias pra lá[4]. Há outras ainda a serem discutidas. Onde, então, poderão agir os trabalhadores e também, por que não, os desempregados, subempregados que são em número cada vez maior? A via proposta por Piketty, que é burguesa, não apresenta nada de real, concreto às classes desprivilegiadas (proletários, lumpemproletários, camponeses, serviçariado etc.).

A tese de Piketty nada mais é do que uma possibilidade estratégica do bloco dominante[5], servindo, portanto, aos interesses da classe capitalista. A via neoliberal, hegemônica hoje, é outra possibilidade também do bloco dominante. Portanto, passa longe de uma possibilidade real para as classes desprivilegiadas.

No artigo completo, que contempla muito mais discussões do que estas que aqui foram entabuladas, apresentamos a discussão das vias pelas quais as classes trabalhadoras, grupos sociais vieram, durante a vigência do “capitalismo neoliberal”, ou seja, o regime de acumulação integral, desenvolvendo suas lutas. Estas passam, obviamente, ao largo das proposições do economista francês. Lutar para implementar o programa de “democracia econômica”, tal como proposto por Piketty, é altamente prejudicial para a classe operária e demais classes inferiores. Fazer isto, significa orientar as organizações, ações, interesses etc. de classe do proletariado para o domínio da classe capitalista e suas instituições. Trata-se de uma luta, que se for vitoriosa, significa, para o proletariado, nada mais do que sua derrota política.

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Muito barulho por qualquer coisaPaul Mattick Jr.

As pessoas estão bem impressionadas com Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI[6] – se deixarmos de lado especialistas de direita e parlamentares que o denunciaram por marxismo (na verdade, seu livro não tem nada em comum com o de Marx, exceto a primeira palavra do título). Do colunista econômico do New York Times laureado com o Nobel Paul Krugman (“magistral”) ao jornalista Doug Henwood da Left Business Observer, em resenha do livro para a revista Bookforum (“enormemente importante”), basicamente todo mundo concorda com a grande importância da obra.

É fácil entender o porquê. O Capital de Piketty é um livro sério e ponderado, carregado com fatos, e decididamente determinado a entender o mundo real, não moldar alguma parte fantasticamente reconstruída dele, como a maioria da economia acadêmica. Embora suas 650 páginas possam ser colocadas ao lado de Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking, na categoria dos bestsellers mais frequentemente comprados que de fato lidos do New York Times, sua prosa está longe de ser desagradável e é refrescantemente livre de matemáticas extravagantes. Piketty quer contribuir para a discussão de como a economia poderia se tornar mais justa: o ideal orientador do livro é “o interesse dos mais pobres”.

Ademais, seu tema – a distribuição desigual da riqueza e renda – há muito notado por acadêmicos de esquerda, impressionou a consciência pública pelo seu crescimento vertiginoso nas últimas décadas, alcançando expressão imortal na afirmação do movimento Occupy dos interesses dos 99% contra os 1%. Até mesmo os republicanos tiveram que pensar em planos para reduzir a desigualdade – transferindo recursos dos pobres para os “criadores de empregos”, é claro. No lado liberal, a variedade de preocupações é bem representada pelos ensaios incluídos em Divided: The Perils of Our Growing Inequality, editado por D. C. Johnston[7] e apresentando uma introdução de ninguém menos que Barack Obama e Elizabeth Warren. O tempo fez o livro: Piketty traz para a discussão os recursos da ciência econômica, misturando a teoria neoclássica básica[8] à economia acadêmica com grandes quantidades de dados extraídos das estatísticas governamentais, principalmente dos EUA e Europa.

Infelizmente, é precisamente a ciência econômica que impede o impressionante trabalho empírico de Piketty de realizar mais. Para ir ao cerne da questão, o estudo da desigualdade foca aqui, como na maioria dos estudos, na divisão da renda nacional entre trabalho e capital. Mas o que exatamente são eles? Piketty escreve que o capital “inclui todas as formas de riqueza que indivíduos (ou grupos) possam possuir e que possam ser transferidos ou trocados através do mercado”[9]. Assim, para o autor, o capital inclui ações e títulos, fábricas, maquinário, e matérias-primas, e também terras, casas e os móveis contidos nelas. Inclui também correios, parques nacionais e rodovias. Tal definição é tão anistórica – apesar da ambição de Piketty em combinar economia com história – que não faz distinção entre propriedade feudal fundiária e propriedade de empresas industriais: para Piketty, a Revolução Francesa não marcou uma mudança na forma da sociedade, mas a substituição da terra pela indústria e finança como as principais formas de capital. Dentro desse quadro, uma vez que o capital sempre esteve presente (e logo, presumidamente, deverá sempre estar), o autor é capaz de calcular o “retorno do capital” dos dias da Roma Antiga até o presente: para ele, formas de vida social nas quais o dinheiro não desempenhava quase nenhum papel para a vasta maioria das pessoas não são diferentes das nossas, cuja produção de bens para vender com lucro em dinheiro molda a existência diária de quase todos, tanto para aqueles que produzem quanto para aqueles que procuram colher os ganhos.

Essa concepção historicamente pouco específica do capital é um problema crucial, pois o “retorno do capital” é a chave para a ideia central de Piketty, de que o capitalismo naturalmente gera desigualdade como resultado do fato de que a taxa de retorno do capital é maior que a taxa de crescimento da renda nacional como um todo. Esse “retorno” é o dinheiro que flui para o proprietário do capital; por ele definir o capital de forma tão ampla, inclui-se nele coisas diversas como juros sobre um título, lucros comerciais, os preços de selos, e o aluguel que um proprietário de imóvel teria que pagar se tivesse alugado ao invés de possuir capital na forma de um apartamento. É claro que Piketty não inventou isso – isto é parte de como os contadores de dados do governo calculam a renda nacional. O problema está na disponibilidade da teoria econômica em contar pagamentos por serviços governamentais, lucros financeiros e de outros negócios, e rendas não-existentes, teoricamente imaginadas como versões da mesma coisa.

De onde vem o dinheiro que constitui o retorno do capital? Piketty dá apenas a conta mais esboçada: basicamente, o retorno do capital é a quantidade de dinheiro que usando seu capital permite gerar sobre a quantidade que você obteria por alguma coisa ou serviço sem ele. Seu exemplo é a quantidade adicional de alimentos que um agricultor pode produzir com uma ferramenta, em comparação à quantidade que pode produzir sem ela. Isto mede a “produtividade” da ferramenta, e é o retorno do dinheiro usado para comprá-la. Para além do conceito estranhamente animista da ferramenta possuindo uma produtividade inata, como se o arado e o agricultor produzissem lado a lado, cada um contribuindo com o que pode para o esforço, está longe de ser óbvio como ampliar essa ideia a outros tipos de “capital”, desde o dinheiro no banco até casas ou parques públicos. Piketty prossegue alegremente como se essas ideias bizarras fossem óbvias para serem usadas na análise do nosso sistema social. Mas ele não está sozinho nisso: uma análise cuidadosa da economia neoclássica, como a que foi conduzida pelo filósofo Daniel Hausman, mostra que “economistas não possuem uma boa teoria do capital ou dos juros” (seu termo para o retorno do capital); de fato, “economistas não entendem” esses fenômenos (ver o fascinante livro de Hausman, Capital, Profits, and Prices, de 1981[10]) em nenhum sentido normal da palavra “entender”.

A outra principal fonte de renda, “trabalho”, é um conceito igualmente estranho nas mãos de Piketty (e de novo, seu uso é apenas o padrão da ciência econômica). Na verdade, ele nunca define a categoria, mas inclui atividades tão diversas como trabalhar em um restaurante de fast-food, investir na bolsa de valores e administrar uma corporação multinacional. A estranheza desse conceito pode ser vista no curioso problema que Piketty encontra ao calcular o retorno do capital: o que dizer do “trabalho, ou de qualquer forma a atenção, que é exigido a qualquer um que deseje investir”? Leva tempo para conseguir um portfólio e, de modo mais geral, ele pensa que devemos considerar o “trabalho empresarial” como o ganho de dinheiro de acordo com sua produtividade. Piketty estima a “remuneração” que esse “trabalho” deve ganhar, subtraindo-o do lucro para calcular o “puro retorno do capital”. Seguindo essa definição, certamente a procura por um emprego de um garçom deve ser igualmente produtiva, e deve igualmente receber remuneração, juntamente com a rede de professores-assistentes, mas Piketty não toca nessas questões.

Como esses exemplos centrais sugerem, a economia é uma ciência que, apesar de sua sofisticação matemática, tende a tomar seus termos como são encontrados no uso cotidiano da sociedade moderna – nunca desafiando as próprias estruturas ou categorias fundamentais. Assim, Piketty gasta muitas páginas sobre “desigualdade de renda”, pela qual ele quer dizer principalmente o fato de que a maior parte da renda salarial vai para os diretores executivos (C.E.O.s.), investidores, e outros “trabalhadores” da gestão de alta patente. Ele rastreia o crescimento da “participação do trabalho” de alta renda, em relação à “participação do capital”, para a “revolução gerencial” (conhecida pela análise de James Burnham em seu livro de 1940 de mesmo nome) que viu empresas familiares cederem o lugar como modelo dominante para as mega-corporações dirigidas por gerentes. Mas não passa por sua cabeça que o dinheiro considerado “salário” pelos diretores executivos que administram a nova forma é o mesmo dinheiro que costumava aparecer como “renda de negócio” quando a empresa era dirigida por seu fundador. Tal erro elementar permite que Piketty note que os maiores “salários” combinam com o grande “retorno do capital” para inclinar decisivamente a renda total para o 1%, e na verdade para o 0,1%.

É claro que a realidade se faz sentir apesar da ofuscação embutida dos conceitos econômicos; há momentos em que os dados de Piketty clareiam coisas que geralmente pensamos em termos mais vagos. Assim, sua análise da distribuição de riqueza nos principais países capitalistas ao longo do último século ou mais mostra que para os 50% da população da parte inferior nada mudou em todo esse tempo: hoje, como antes, “a metade menos rica da população não possui praticamente nada; o décimo do topo da hierarquia da riqueza possui uma clara maioria do que há para possuir (geralmente mais de 60%); e o restante da população (por construção, os 40% no meio) possuem de 5 a 35% de toda riqueza”[11]. A grande mudança que ocorreu ao longo do século XX foi o que Piketty chama de crescimento da “classe média patrimonial”, o que significa que riqueza e renda foram distribuídas para baixo do décimo do topo para os 40% abaixo dele na forma de altos salários para trabalhos técnicos e administrativos, permitindo que eles comprassem casas e móveis caros, e até mesmo investirem um pouco em ações e títulos. (Essa é a “classe profissional-gerencial” identificada por John e Barbara Ehrenreich, seguidos de C. Wright Mills e outros, nos anos 1970). Isso foi devido, ele explica, não sem razão, a três fatores: primeiro, o papel cada vez maior da tecnologia científica na economia, que exigia um grupo em expansão de trabalhadores com formação universitária (alinhados com a teoria neoclássica, ele considera garantido que tal trabalho é mais “produtivo”, logo “recebendo” sua alta remuneração); segundo, a necessidade de um exército de gerentes e administradores de baixo nível para dirigir a enorme e complexa corporação moderna; e, terceiro, a expansão da atividade econômica governamental provocada por duas guerras mundiais e a intermediária Crise de 1929, que produziu um campo cada vez maior de funcionários do governo. Este último exigiu uma vasta expansão dos custos de imposto sobre a renda do capital, que governos ao redor do mundo, de “conservadores” como Reagan e Thatcher a “socialistas” como Mitterand, conseguiram retroceder de forma estável desde a década de 1980, assim restaurando o padrão inicial da desigualdade global natural ao capitalismo.

Piketty acha que a probabilidade de que essa disparidade continue a crescer é “aterrorizante”, aparentemente porque isso ameaça as “sociedade democráticas” e os “valores da justiça social nos quais elas se fundam”[12].  Não fica claro, para dizer o mínimo, o que significa dizer que sociedades cuja função normal produz enormes níveis de desigualdade em riqueza e renda – sem mencionar a diferença de poder inerente nas relações de classes, com a qual a teoria neoclássica não está preparada para lidar – são baseadas na justiça social. De qualquer forma, Piketty conclui, a única forma de “recuperar o controle do capitalismo” é “apostar tudo na democracia”. Embora ele reconheça que todo governo abrangido por sua pesquisa está inclinado à contenção da invasão do estado sobre o “retorno do capital” impondo austeridade aos 99%, ele não consegue pensar em outro caminho para a justiça social que o “imposto global sobre o capital”[13], a ser imposto por esses mesmos governos. Como deve ser instituída a quantidade de democracia necessária para realizar isso, ele não explica. A imensa quantidade de informações que ele coletou contém muito que é estimulante e convidativo para uma reflexão mais profunda, desde que sejam tidas em conta os termos defeituosos nos quais são organizados. É devido à natureza dessas condições que a montanha de dados de Piketty deu luz apenas a esse rato bem intencionado[14].


[1] Lucas Maia é brasileiro, professor de Geografia, integrante do coletivo Movimento Autogestionário (Movaut) e politicamente inserido na corrente do marxismo autogestionário, inspirando-se em autores como Karl Marx, György Lukács, Karl Korsch, Anton Pannekoek, Nildo Viana entre outros. Ele é autor de dezenas de artigos e livros importantes que realizam uma crítica radical do capitalismo. Para conferir mais sobre o autor, veja: Dossiê: Lucas Maia. [Nota do Crítica Desapiedada – CD]

[2] Paul Mattick Jr. é norte-americano, professor de Filosofia, editor da coluna Field Notes no jornal Brooklyn Rail, politicamente inserido na corrente do marxismo e inspirado por autores como Karl Marx, Paul Mattick, Henryk Grossmann, Rosa Luxemburgo e outros. Ele é autor de dezenas de artigos e de livros que analisam o capitalismo contemporâneo. Veja: Dossiê: Paul Mattick Jr. [Nota do CD]

[3] O silêncio dele sobre o processo de exploração internacional é ensurdecedor. Com raras exceções quando fala da descolonização etc., este mecanismo de engordar os estados europeus e americano está fora do escopo de análise da obra, denunciando aí uma certa pobreza metodológica, que exclui a totalidade como recurso heurístico fundamental. Pois esta exploração internacional, se permitiu que se constituísse em alguns países imperialistas um estado de bem-estar-social, ou seja, integracionista, impingiu aos países subordinados (América Latina, África, Ásia, ou seja, mais de dois terços da população mundial) as condições de vida mais precárias. A riqueza concentrada nos países imperialistas significa a miséria acumulada nos países de capitalismo subordinado. Esta relação é praticamente negligenciada na análise de Piketty.

[4] A discussão sobre o texto de Piketty é justificável, tendo em vista o barulho que ele gerou no Brasil, convencendo muitos da justeza de suas afirmações. Grande parte do bloco progressista (partidos de esquerda, intelectuais progressistas, forças políticas, movimentos sociais populares etc.) se convenceu muito fácil das palavras deste autor. Como o bloco progressista interfere diretamente nas ações e lutas das classes desprivilegiadas, foi necessário desmontar tal discurso. Não analisamos o todo da obra, nem entramos em detalhes, pois foge ao escopo deste texto. Só destacamos os elementos que dialogam diretamente com a questão da estratégia e da luta de classes (termos que, obviamente, são inexistentes para o autor).

[5] Bloco social é definido da seguinte forma: “Assim, os blocos sociais estão indissoluvelmente ligados às classes sociais, mas eles não são a mesma coisa. A diferença entre os conceitos de classe social e bloco social reside no fato de que o primeiro expressa a classe em sua totalidade e ação espontânea e o segundo expressa seus setores mais organizados e conscientes, bem como a classe é uma unidade e o bloco é a reunião de mais de uma classe (e contando com suas subdivisões), realizando uma coalização de forças. É por isso que o termo é “bloco”, pois é a reunião de um conjunto de forças que expressam de forma organizada e consciente determinadas classes sociais” (VIANA, 2015, p. 15). O autor identifica a existência de três blocos sociais: o bloco dominante, ligado aos interesses da classe capitalista, dominante; o bloco progressista, expressão dos interesses das classes auxiliares: burocracia e intelectualidade; o bloco revolucionário, expressão dos interesses de classe do proletariado. Claro que a relação entre blocos sociais e classes sociais é bem complexa e envolve entrelaçamento, indivíduos de uma dada classe que apoiam ações de outras classes dentro dos blocos etc. Contudo, a determinação fundamental da existência de cada um é esta determinação de classe. Elemento a partir do qual os demais derivam.

[6] O livro possui tradução em português: Thomas Piketty, O Capital no século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 1ª edição, 2014 (Nota do Tradutor – NT).

[7] Em tradução livre: “Dividido: Os Perigos de Nossa Desigualdade Crescente”. O livro não foi ainda traduzido para o português (NT).

[8] Em nossa visão, a economia neoclássica (e suas obras, representantes, subdivisões, etc.) é ideológica, isto é, ela constitui um sistema ilusório de pensamento que corresponde aos interesses da classe dominante. Dessa forma, não concordamos com o termo “teoria” utilizado por Mattick, o que revela um dos limites da perspectiva do autor. O uso das palavras, do léxico, não é neutro e a forma de expressar também revela os limites da posição política do indivíduo, que no presente caso é o autor Mattick Jr. [Nota do CD].

[9] “No contexto deste livro, o capital é definido como o conjunto de ativos não humanos que podem ser adquiridos, vendidos e comprados em algum mercado. Assim, o capital compreende, especificamente, o conjunto formado pelo capital imobiliário (imóveis, casas), utilizado para moradia, e pelo capital financeiro e profissional (edifícios e infraestrutura, equipamentos, máquinas, patentes etc.), usado pelas empresas e pela administração pública” (PIKETTY, 2014, p. 54). (NT).

[10] O nome completo do livro é “Capital, Profits, and Prices: An Essay in the Philosophy of Economics”. Em tradução livre: “Capital, Lucros e Preços: Um Ensaio na Filosofia da Economia”. (NT)

[11] “A metade mais pobre da população em termos patrimoniais não possui quase nada (em torno de 5% da riqueza total), o décimo superior na hierarquia da riqueza detém a maior parte da riqueza disponível na sociedade (em geral mais de 60% da riqueza total, por vezes chegando a 90%), e a população entre esses dois grupos (ou seja, 40% da população) detém algo entre 5% e 35% do patrimônio total.” (PIKETTY, 2014, p. 425) (NT).

[12] “A lição geral de minha pesquisa é que a evolução dinâmica de uma economia de mercado e de propriedade privada, deixada à sua própria sorte, contém forças de convergência importantes, ligadas sobretudo à difusão do conhecimento e das qualificações, mas também forças de divergências vigorosas e potencialmente ameaçadoras para nossas sociedades democráticas e para os valores de justiça social sobre os quais elas se fundam” (PIKETTY, 2014, p. 692). (NT).

[13] “A melhor solução é o imposto progressivo anual sobre o capital. Com ele, é possível evitar a espiral desigualadora sem fim e ao mesmo tempo preservar as forças da concorrência e os incentivos para que novas acumulações primitivas se produzam sem cessar” (PIKETTY, 2014, p. 693). (NT).

[14] A expressão utilizada por Mattick em referência à obra de Piketty, “uma montanha de dados dando luz a um rato bem intencionado”, significa o seguinte: “Expressão que se aplica a situações em que se criou uma grande expectativa à volta de uma coisa ou um acontecimento e no final essas expectativas não se confirmam” (REEVE, 2014, p. 110). Assim, as expectativas sobre a obra de Piketty não se confirmaram. Cf. o artigo de Charles Reeve: Grupo Krisis: A Montanha Pariu um Rato. (NT).

O artigo do Paul Mattick Jr. foi traduzido por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://brooklynrail.org/2014/06/field-notes/editors-note-much-ado-about-something. Ele foi revisado por Felipe Andrade.

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