Prefácio do livro Lênin Filósofo de Anton Pannekoek – Laín Diez

[Nota do Crítica Desapiedada]: Em 1948, Korsch enviou uma carta a J. A. Dawson com os seguintes dizeres: “estava bastante contente quando Laín Diez me enviou o artigo dele sobre a “Interpretação da Comuna de Paris”, eu mesmo o traduzi para o Inglês, inicialmente de uma tradução francesa, e agora a partir da versão original em espanhol, muito melhor que a versão francesa”. Em seguida, Korsch acrescentou observações sobre o autor chileno, “apesar de algumas deficiências óbvias, eu acho que o pequeno artigo está bem escrito e aborda certas importantes questões de uma forma que pode interessar a pessoas que ainda não se libertaram da lenda Marx-Lenin-Trotsky na mesma medida que você ou eu podemos reivindicar para nós mesmos.” Foi através do artigo de Diez sobre a Comuna de Paris que teve início o contato do alemão Korsch com o chileno Laín Diez.

É fruto desta afinidade com a posição do comunismo de conselhos que Diez, naquele mesmo ano, redige uma pequena introdução a um livro de Pannekoek publicado originalmente em 1938. Assim, o texto que apresentamos ao leitor é o prefácio da tradução espanhola do livro Lênin Filósofo de Pannekoek, publicada nos anos de 1948 no Chile. É o primeiro texto em português que postamos do chileno Laín Diez, o que coloca a necessidade de apresentar breves notas biográficas para situar a trajetória desse autor. Deste modo, reproduziremos trechos traduzidos do artigo “Después del marxismo, después del anarquismo: Laín Diez y la crítica social no dogmática”, de Jorge Budrovich-Saez, que descrevem a trajetória de Diez.

“Laín Diez Kaiser nasceu em Santiago do Chile em 30 de outubro de 1895 e morreu na mesma cidade em janeiro de 1980. Ele era filho de Antonio Diez Estévez, professor de francês na escola pedagógica da Universidade do Chile e do Instituto Nacional, e Olga Kaiser Mathys, professora de física nascida na Suíça. Ele completou seus estudos primários na Suíça (Soleure) entre 1902 e 1903, seus estudos preparatórios e de humanidades no Liceo de Aplicación entre 1904 e 1911, e seus estudos universitários na Universidade do Chile (engenharia) entre 1913 e 1918. Em 1915 ele cumpriu seu serviço militar e em 1926 se formou como engenheiro de mineração.
Sua carreira como engenheiro é especialmente significativa: começou a trabalhar na indústria do salitre como assistente de laboratório entre 1917 e 1918; entre 1928 e 1933 trabalhou na Ferrocarriles del Estado, substituindo Don Pedro Godoy quando ele se aposentou da empresa. Entre 1933 e 1939 ele ocupou diferentes cargos na Caja de Crédito Minero, quando foi chamado para organizar o departamento de mineração da Corporación de Fomento. De 1944 a 1960 ele foi professor de química analítica inorgânica e termodinâmica química na Escola de Engenharia da Universidade do Chile. Suas atividades profissionais incluem pesquisa e publicação de textos científicos, assim como estudos e assessoria técnica, cristalizados na formação de especialistas de excelência e na criação de fundições como as de Paipote e Ventanas.
A busca permanente por descobertas científicas e inovações técnicas será a constante no trabalho científico, docente e técnico de Diez, como seus assistentes e ex-alunos reconhecerão, que saberão entender e lembrar com gratidão seu tratamento pessoal bastante frio e distante.
Diez está entre os libertários que rodeiam a revista Claridad e os trabalhadores da IWW. Como muitos dos que fazem parte deste meio, seja por simpatias doutrinárias ou por terem pertencido à FECH, ele deixa de professar a democracia para identificar-se com o que tem sido descrito como “socialismo humanista”. Esta é a mesma corrente que mais tarde se tornaria uma das entidades que constituiriam o partido socialista em 1933: a Acción Revolucionaria Socialista (ARS). Homens como Oscar Schnake, Eugenio Gonzalez e Augusto Pinto, todos eles de filiação libertária, não dogmática, críticos do marxismo-leninismo e da deriva soviética, se reuniriam ali. As ideias que podem explicar o estado espiritual desses homens podem ser lidas nos princípios acordados na “Conferência do Programa Nacional do Partido Socialista do Chile”, realizada em novembro de 1947. Elaborados por Eugenio Gonzalez, eles dão ao socialismo um sentido humanista e libertário, alegando um “marxismo metodológico” que se distancia de qualquer precipitação dogmática.
Do círculo de humanistas e socialistas libertários daqueles anos, vieram os participantes do que se chamaria o Centro de Estudos Materialistas. Sob o selo de tal iniciativa, certamente uma projeção dos interesses pessoais de Diez, algumas de suas traduções foram publicadas: El Bolchevismo de R. Sprenger, La filosofía de Lenin de A. Pannekoek e uma obra própria em homenagem ao sindicalista Pedro Monatte. Estes são anos prolíficos em colaborações escritas: Le Libertaire (França), Southern Advocate for Workers’ Councils (Austrália), Mundo (México – Chile), Babel, entre outros.
De seus contatos, declarações e trabalhos de tradução, podemos inferir seu interesse particular pelo “comunismo dos conselhos” (Rätekommunismus), expressão que sem muito cuidado fala de autores como Mattick, Pannekoek, Sprenger, Korsch e Rühle; pensadores e militantes que, à margem e críticos do leninismo, Diez tentará se ligar ao anarquismo, convencido da necessária reconciliação das duas tendências da Primeira Internacional, de fato, “um novo estado de espírito”. (…)
Os últimos traços que apontam para as relações com os socialistas vindos da ARS, como Augusto Pinto e Eugenio González, aparecem com a revista Mundo. Com 13 números publicados no México desde 1943, esta revista continua com o número 14 em Santiago do Chile em 1947, recebendo contribuições de Diez até o número 17 (1948). É um elo revelador de suas singulares inclinações socialistas, onde compartilhará espaço com um jovem Clodomiro Almeyda. Esta revista foi o resultado de uma iniciativa que uniu personalidades como Victor Serge, Julián Gorkin, Jean Malaquais, Benjamín Peret, G. Munis, Otto Rühle, entre muitos outros, anti-stalinistas exilados no México.
Mencionamos Babel, uma das fontes onde o nome de Diez se tornou mais visível. Esta publicação, que conheceu um primeiro período em Buenos Aires, desde maio de 1939, inicia uma segunda etapa em Santiago do Chile. Sempre sob a direção do escritor e editor Samuel Glusberg, agora sob o pseudônimo de Enrique Espinoza, reúne um seleto grupo de colaboradores entre os quais contamos Manuel Rojas, Luis Franco, José Santos González, Mauricio Amsterdã, entre outros. Diez publica catorze artigos nesta revista (entre 1940 e 1951), além de intervir no conselho editorial, destacando seu carimbo no aparecimento de artigos assinados por Paul Mattick e Pierre-Joseph Proudhon.
A impressão geral que resta da leitura de todas as suas colaborações em Babel, está delineada nos contornos de um autor de cultura ampla, que parece integrar num único ponto de vista considerações econômicas, técnicas, científicas, literárias, históricas, sociais e políticas. Não há nenhuma dissimulação no acordo com Leon Trotsky, comunismo de esquerda e um flerte cauteloso com o anarquismo. Mas além de suas preferências particulares, sua determinação em não deixar de fora da história e dos debates internacionais os acontecimentos de seu país, nos faz imaginar um Chile que não está na periferia do mundo.
Em julho de 1954 surgiu a primeira edição do jornal El Libertario, uma publicação onde encontraremos a assinatura de Diez no final de mais de um artigo. Laín se afastou dos socialistas, juntando-se novamente ao movimento anarquista a bordo de um meio onde muitos de seus interesses doutrinários podem ser percebidos. Entre as pessoas que compõem o grupo editorial encontramos Ricardo Sánchez, Raúl Vicencio, Félix López, Pedro Nolasco Arratia, Servet Martínez, Cosme Paules del Toro (secretário geral do Núcleo do CNT da Espanha no exílio no Chile), entre outros. Com oito números publicados até julho de 1956, em sua difícil existência aparecerá duas vezes como um “órgão da FAI” (federação anarquista internacional, seção Chile – números 6 e 7) e também funcionará como um meio de difusão do organismo pelo qual Diez sentiu atração naquela época: o IRG/WRI (War Resisters’ International).
Diez incentiva a criação na América Latina do primeiro grupo aderido à organização pacifista sediada na Inglaterra. A primeira reunião foi realizada em agosto de 1958, seguida pela assinatura de uma declaração de princípios e o estabelecimento de um programa de atividades que oficializaria a existência do grupo no Chile. É um grupo que não ultrapassa dez pessoas e que declina no início de 1964, quando o próprio Diez informa aos ingleses a inoperabilidade do grupo WRI no Chile e acusa seu presidente Cesáreo Vázquez Ambrós de ser um pacifista no “estilo antigo”, ou seja, não revolucionário.
No início dos anos 60, Diez começou a frequentar cada vez mais sua casa em Maitencilllo, um lugar que ele eventualmente transformaria em seu bairro. Um lugar de difícil acesso para a época, onde ele se dedicaria à leitura, escrita, troca de correspondência, esclarecimento de suas posições e patrocínio de novas iniciativas libertárias. A atualidade de seus contatos com o primeiro mundo é surpreendente: Spartacus, Gino Cerrito, Socialisme ou Barbarie, Henri Simon (ICO), Danilo Dolci, Vernon Richards (Freedom, Anarchy), Noir et Rouge, Gaston Leval, L’Adunata dei Refrattari, etc. (…)
De suas últimas aparições públicas, gostaríamos de mencionar apenas dois episódios. O primeiro acontece nas ruas da Sicília – Itália, onde ele marcha junto com Danilo Dolci sob slogans que pedem a paz no Vietnã, a luta pela educação, contra o analfabetismo, a rejeição da Máfia e pelo desenvolvimento orgânico e democrático da comunidade. O segundo episódio é o “Marcha pelo Vietnã”, realizada entre 6 e 11 de setembro de 1969 entre Valparaíso e Santiago.
Durante os anos da Unidade Popular ele manteve uma posição crítica e se distanciou do debate político contingente, seja por causa de suas perspectivas doutrinárias, da desconfiança e do pessimismo que sedimentaram a experiência, seja por causa de sua idade e de sua delicada saúde. Após o golpe de Estado ele manteria alguns de seus contatos, mas a impossibilidade de escrever e a desolação do silêncio imposto o levariam a um anonimato público quase total até o ano de sua morte.”


Prefácio do livro Lênin Filósofo de Anton Pannekoek

1. Poucos anos antes de cair vítima do ferro assassino, Trotsky estampava sua opinião sobre a literatura marxista nos seguintes termos:

“Nas condições atuais, a etiqueta marxista nos predispõe antes ao receio do que à simpatia. Intimamente ligado à degeneração do Estado soviético, o marxismo dos últimos quinze anos tem passado por um período sem precedentes de decadência e afrouxamento. De instrumento de análise e crítica, se tem convertido em instrumento de apologia barata. Em vez de analisar os fatos, se preocupa em selecionar sofismas no interesse de eminentes clientes”[1].

Este juízo, que se refere aos partidos políticos vinculados ao desenvolvimento da que um tempo foi, com ou sem razão, a “Roma do proletariado”, é sem dúvida unilateral e incompleto. Primeiro, porque fecha seus olhos ao renascimento do marxismo nos grupos e correntes ideológicas que se desenvolveram e lutaram à margem do Estado soviético e em dura oposição contra seus panegiristas interessados. Incompleto, pois data o processo degenerativo a partir da consolidação no poder da burocracia stalinista. Porém, fazer contemporânea a decadência do marxismo de uma fase artificialmente isolada do desenvolvimento que culmina com aquele processo, não é dar provas de imparcialidade objetiva nem dessa capacidade, que tanto Trotsky sente falta em seus adversários, de utilizar o marxismo como instrumento de análise e de crítica. Mas não interessam por agora as razões subjetivas que limitaram o horizonte crítico e a liberdade de juízo do grande revolucionário e historiador da Revolução Russa.

2. Em seu aspecto ideológico, a evolução do fenômeno russo tem sua origem em dois problemas estreitamente unidos na prática da luta social: o da “condução” do movimento operário, que envolve a tese da vanguarda necessária, e o da consciência-intelecto em oposição à consciência espontânea. O primeiro é consequência do segundo, e ambos foram temas de discussões que puseram frente a frente Lênin e Rosa Luxemburgo em uma polêmica memorável. Desnecessário dizer que os fatos deram razão a esta última e a… Trotsky, que na ocasião polemizava junto com ela contra Lênin.

3. A relação entre a teoria da consciência-intelecto e a teoria da vanguarda revolucionária ultracentralizada, tal como se expressam em Que Fazer? e Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás, de Lênin, tem sido analisada com minuciosa objetividade por Sprenger [Helmut Wagner] em sua Sociologia do Bolchevismo, da qual temos traduzido dois capítulos pertinentes não faz muito tempo[2]. Da análise de Sprenger e outros se desprendem as seguintes conclusões:

A teoria da consciência-intelecto é contraditória. Por uma parte, Lênin adere à concepção mecânica do materialismo que não vê na consciência senão o reflexo do mundo exterior, e isto o faz subestimar o papel da espontaneidade na história; por outro lado, em sua concepção da consciência socialista, esta não se identifica com o proletariado, e sim com o aporte desde o exterior da ideologia de uma “elite” intelectual burguesa, cuja missão é precisamente propagar o socialismo na classe operária. As lutas e a experiência histórica desta classe não figuram para nada no esquema leninista, e a missão do proletariado é deixar-se penetrar por esta propaganda e servir de instrumento a um bureau político, única autoridade capaz de assinalar os métodos e finalidades da luta.

A teoria da consciência-intelecto é, portanto, fundamentalmente idealista, e seu corolário, o partido político, vanguarda de revolucionários profissionais, sujeitos a uma disciplina estrita, obedientes a uma direção centralizada, está aparentado ideologicamente e por seus métodos de ação com o jacobinismo. Com tais antecedentes não é de estranhar que o partido de Lênin no poder se comportara como a versão russa de uma ditadura jacobina.

4. Por outro lado, a teoria da consciência espontânea é materialista. Suas raízes ideológicas já estão em Marx, se aperfeiçoa com Rosa Luxemburgo e encontra em Paul Mattick uma expressão madura[3]. Expressa o que há de espontâneo no movimento da classe operária, em suas criações e método de luta. É o reflexo da consciência dos lutadores mais sagazes e refratários à mediação eclesiástica do partido, do movimento que se materializa nos sovietes e nos conselhos operários. O desenvolvimento da teoria, enriquecido pelas experiências das lutas sociais dos últimos trinta anos, conduz a conclusões originais em suas aplicações imediatas e em suas projeções de futuro, a organização da sociedade comunista.

5. No tocante ao primeiro ponto, os “comunistas de conselhos” proclamam sua oposição ao Estado, ao parlamentarismo e a todas as organizações de massa como partidos políticos e sindicatos centralizados, nas quais não veem senão germes de novos desvios hierarquizantes e autoritários, incubadores de privilégios e ditaduras totalitárias. A unidade fundamental é o “conselho de fábrica”, versão ocidental do soviete, que teve um princípio de realização na Alemanha, logo sufocado pelos esforços convergentes da reação socialista-militar e da III Internacional sob Lênin.

6. Quanto ao segundo ponto, como é possível organizar a produção em conjunto e a distribuição sem recorrer a um poder central, sem Estado, a solução dos comunistas de conselhos é engenhosa e, teoricamente, inobjetável. A forma de operar com o tempo social médio de trabalho como unidade contável para fixar a participação individual no consumo, satisfaz as exigências igualitárias da época de transição até uma economia de abundância, com um mínimo de trabalho estatístico e sem reconstituir um sistema monetário encoberto[4]. A fórmula que condensa o critério distributivo apresenta uma estrutura que implicitamente reconhece a realidade do organismo social. Contém nesta forma as tendências de um individualismo extremo apressadas nas consignas de “a mina, aos mineiros”, “o campo, aos camponeses” e outros do estilo, em que poderiam se desafogar os velhos hábitos de apropriação com grave perigo para a própria existência do princípio comunista. Mas esta barreira de nenhuma maneira restringe a iniciativa e a autonomia das diversas unidades de produção.

7. Se compreende que uma organização da sociedade sem mecanismos políticos compulsivos; sem a ação coercitiva do Estado; composta de unidades relativamente pequenas, os conselhos, de grande autonomia, devem apresentar na prática tendências centrífugas, pelo menos durante uma fase transitória do desenvolvimento, que poderiam criar dificuldades a uma ação de conjunto quando esta fosse requerida por projetos de grande envergadura e longa execução. Estas tendências não podem se combater por meios mecânicos ou externos. Renunciar a eles é o preço da liberdade dentro da igualdade. Por isso impõe a urgência de revigorar os laços espirituais entre os membros da comunidade de produtores. Daí a importância de uma filosofia coerente que suscite um mesmo convencimento íntimo nas vontades de todos os associados no trabalho criador. E esta filosofia deve contemplar normas de convivência, uma ética de produtores livres, capaz de arraigar nas consciências o respeito para com todas as ideias, e na conduta, a prática de controvérsias de um elevado tom social. É oportuno citar Dietzgen:

O homem individual se sente incompleto, inepto e baixo em muitos aspectos. Precisa de seus semelhantes e da sociedade para complementar-se. Portanto, se quer viver, deve deixar viver. As concessões mútuas que surgem de tais necessidades relativas, isso é a moralidade[5].

8. Temos resumido a grandes traços as noções fundamentais do comunismo de conselhos. Considerando os conceitos de acordo com sua generalidade decrescente, nos encontramos com a seguinte sucessão: materialismo (filosofia); espontaneidade (teoria da consciência social); comunismo (teoria econômica da produção); conselhos operários (teoria da luta social). Claro está que em sua propaganda os comunistas de conselhos seguem no caminho inverso do particular e concreto ao geral e abstrato, conforme a um método de sã comunhão social, e porque há que partir ao fim e ao cabo dos dados da realidade imediata, da luta elementar pelo pão nosso de cada dia, por condições de vida mais humanas e pelas liberdades individuais, hoje tão menosprezadas, até chegar a uma visão ampla e harmônica do mundo, a ferramenta emancipadora definitiva.

9. Se compreende agora por que tem encontrado um eco simpático o comunismo de conselhos nos setores anarquistas. A oposição ao Estado e ao parlamentarismo; o rechaço de toda colaboração de classes e o repúdio aos partidos políticos; a postura crítica frente às organizações de massa hierarquizadas; tudo isso devia inevitavelmente provocar uma aproximação. Era um marxismo regenerado, que sabia extrair de Marx o que a paixão e cegueira política dos partidos autoritários, de índole reformista ou jacobina, deixaram esquecido e sem aplicação. Como, por outra parte, se produzia uma evolução similar no anarquismo, depois de longos anos de estagnação ideológica, assistimos hoje ao espetáculo de um desejo sincero por estabelecer laços que prenunciam uma síntese próxima e a reconciliação definitiva das duas tendências da I Internacional que resumem todas as lutas e esperanças da classe operária e da humanidade[6].

10. Em consequência, devemos modificar o juízo crítico de Trotsky apontado mais acima, com este outro de Karl Korsch:

Nas discussões fundamentais referentes à posição integral do marxismo de hoje, em todos os grandes problemas decisivos, a velha ortodoxia marxista de Karl Kautsky e a nova ortodoxia do marxismo russo ou leninista, apesar das mesquinhas e subalternas controvérsias passageiras, estarão solidariamente juntas de um lado, e todas as tendências críticas e progressivas na teoria do atual movimento da classe operária estarão do outro[7].

Laín Diez, Santiago do Chile, 1948.

Notas [indicações bibliográficas na edição Ayuso, Madrid 1976]


[1] Harold R. Isaac, The Tragedy of the Chinese Revolution, Secker & Warburg, Londres, 1938, p. XI. [Nota do Revisor] A obra não possui tradução, contudo, o importante é salientar a introdução de Trotsky que fora convidado pelo autor para dar um panorama acerca da revolução chinesa na década de 20 e os limites do comunismo à época. Há a versão em inglês dispinível em: https://books.google.com.br/books?id=s3olzC-eQjUC&q=the+tragedy+of+the+chinese+revolution+pdf&redir_esc=y#v=onepage&q=the%20tragedy%20of%20the%20chinese%20revolution%20pdf&f=false.

[2] Rodolfo Sprenger, El bolchevismo, Santiago de Chile, 1947.

[3] Paul Mattick, The Inevitability of Communism, Polemic Publishers, Nueva York, 1935. Há o texto em inglês disponível em: https://www.marxists.org/archive/mattick-paul/1936/inevitability.htm.

[4] Paul Mattick, What is Communism?, Council Correspondence, outubro de 1934, Chicago, 111. Há o texto em inglês disponível em: https://www.marxists.org/subject/left-wing/icc/1934/10/communism.htm. [Postaremos em breve a tradução para o português desse artigo – Nota do CD]

[5] Joseph Dietzgen: The Nature of Human Brainwork, en The Positive Outcome of Philosophy, Ch. H. Kerr & Co., Chicago, 1928, p. 158. (A edição alemã é de 1969), [versão castelhana: El trabajo intelectual humano, Ed. Sígueme. Salamanca].

[6] Há numerosos documentos desse novo estado de espírito nas revistas Freedom, Le Libertaire, Freie Sozialistische Blätter, Southern Advocate of Council Communism, La Obra (Buenos Aires), etc.

[7] Karl Korsch Marxismo y Filosofía, citado por Mattick em su obra pré-citada, p. 35. [Nota do Revisor] Há uma edição em português desta obra. Karl Korsch, Marxismo e Filosofia, Editora UFRJ, 2020.

Traduzido por Igor Pasquini Pomini, a partir da versão disponível emhttp://www.fondation-besnard.org/spip.php?article534. Revisado por Luiz de Oliveira e Thiago Oligon.

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