A Luta de Classes na França – Charles Reeve

Febre amarela: vírus bons e ruins por Charles Reeve

traduzido por Janet Koeing

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É difícil dizer qual foi a gota d’água que levou à expansão da raiva social na França. Foi o anúncio da luxuosa reforma do Élysée Palace (Palácio do Eliseu)? Foi o tom arrogante do presidente? Ou foi, finalmente, o aumento de poucos centavos no preço do litro da gasolina? Sem dúvidas, foi tudo isso de uma vez. O copo já estava cheio quando os poderosos pensaram que poderiam continuar o enchendo ainda por um longo tempo. De repente, as classes exploradas nas áreas periféricas da França saíram das sombras, vestindo coletes amarelos florescentes para ficarem visíveis em um sistema no qual tinham se tornado invisíveis. Estamos testemunhando uma explosão de raiva e frustração que se acumulou durante muitos anos – de greves fracassadas, movimentos esmagados, resistências desprezadas, más experiências de submissão e resignação, ilusões perdidas, erosão de direitos – com uma contínua queda a uma pobreza mais profunda. Enquanto a riqueza e o luxo crescem e espalham, e o bem-estar dos nouveaux-riches[1](novos ricos) empurram os pobres para além das margens, as pessoas entram em modo de sobrevivência. Tudo se move na mesma direção: salários são reduzidos; os empregos se tornam mais precários – uberização -; pensões são reduzidas; serviços públicos são degradados ou desaparecem; os parcos benefícios sociais (para habitação, cuidados infantis) são reduzidos; e ocorre uma gentrificação nas grandes cidades que força o deslocamento das massas de trabalhadores para desertos suburbanos, negligenciados pelo sistema de transporte público agora cada vez mais reservado para as cidades, com sua gentrificação adicional.

Com as primeiras manifestações dos Coletes Amarelos (Gilets Jaune – GJ), os “especialistas” em condições sociais descobriram um primeiro indicador de mal-estar social: a mobilização é mais forte e mais determinada em regiões e territórios onde os serviços públicos são mais fracos. Obviamente, não é preciso ser um sociólogo para entender que nesse mundo empobrecido e atomizado, abandonado pelo transporte público, um carro se tornou um meio indispensável para encontrar qualquer trabalhinho que existe – para chegar ao hospital mais próximo que ainda está aberto, para chegar a uma consulta com o serviço social, para chegar aos correios, para levar as crianças à escola. Assim, pegar carona na responsabilidade pela destruição do planeta sobre a necessidade de consumo de combustível diesel é experienciado como mais uma agressão contra um corpo já enfraquecido. De modo geral, representar os trabalhadores como os responsáveis pelo desastre ecológico do planeta é uma ideia dos ricos que irrita intensamente esses mesmos trabalhadores. O caráter de classe do imposto fica claro: os trabalhadores sempre pagam mais e recebem menos de volta na forma de serviços públicos. Gradualmente, através do questionamento do crescimento vertiginoso da desigualdade, chegamos à questão social.

Outra gota pesada foi a supressão dos impostos sobre os mais ricos, a primeira medida emblemática do jovem banqueiro de negócios que se tornou presidente, fundando seu compromisso com a classe capitalista. Esse imposto, que já tinha sido reduzido ao mínimo, foi agora totalmente suprimido para o agrado dessa classe. Uma medida que é um corolário de um dos dogmas do neoliberalismo: quanto mais os ricos ficam mais ricos, mais eles fazem os pobres trabalharem. A que a experiência popular responde: quanto mais riqueza se acumula no topo, mais pobreza se espalha. 

De repente os Coletes Amarelos! Grupos de coletes amarelos bloqueiam estradas, pedágios, entradas para vilas e cidades, rotatórias, acesso aos shoppings centers. Os manifestantes se reúnem e marcham até as prefeituras e outros lugares que simbolizam o estado, como centros fiscais. Em pouco tempo, o protesto durante o aumento de impostos sobre o combustível diesel é eclipsado pelas crescentes demandas cada vez mais centradas na desigualdade de renda e impostos, nas necessidades da vida. Estes são os primeiros sinais da raiva contra a classe proprietária e o estado. Eles trazem consigo uma profunda rejeição da classe política como um todo, levando a uma crítica das formas de representação política e sindical.

Na primeira fase da revolta, as primeiras análises buscaram naturalmente por precedentes históricos: alguns olharam para as Jacqueries[2] da França pré-Revolução; outros para os movimentos políticos de natureza populista e fascista, ou até para um movimento corporativista como o poujadismo pós-Segunda Guerra Mundial. Logo se torna evidente que esses tipos de leituras não aplicam-se aos eventos que se desenrolam atualmente. Esse movimento não é ancorado no campesinato ou na pequena burguesia de mercadores ou lojistas. É essencialmente um movimento não-urbano composto por pessoas isoladas vivendo longe de centros urbanos. O bloqueio de lojas e circulação de mercadorias o remove completamente de qualquer solidariedade com o estrato social comercial que foi a base dos movimentos corporativistas depois da guerra. Os manifestantes e os indivíduos detidos pela polícia são predominantemente proletários: empregados, operários, desempregados, trabalhadores precários, aposentados. Uma característica notável do movimento é a grande porcentagem de mulheres de todas as idades – quase metade dos participantes – assim como de empregados jovens e precários. Estes não são os mais pobres da sociedade, mas aqueles que estão se tornando mais pobres; aqueles que expressam seu desejo e direito de viver e se divertir, de sair e de ter férias. Essa é uma população que carrega as marcas de vidas destruídas e bloqueadas pela violência do sistema capitalista. São mulheres e homens deixados de fora da dinâmica liberal moderna que estão ansiosos sobre seu futuro imediato, pessoas que se sentem desprezadas e esquecidas pelos seus representantes e seus discursos. Obviamente, essa é uma população composta que também inclui artesãos e pequenos empreendedores perdidos no turbilhão da economia moderna de startup. Sua relação com o sindicalismo dificilmente existe, já que a liderança dos grandes aparatos sindicais é amplamente associada com as instituições do sistema e sua corrupção. Essa é uma população marcada pela violência da exploração de classe, mas sem uma referência à política de classe e sem a experiência da luta de classes em sua maior parte. Cerca de metade dos coletes amarelos nunca manifestaram ou participaram em ações coletivas. Se não podemos dizer que oportunidades para manifestar estavam em falta nas décadas recentes, o fato é que a determinação dessa revolta também expressa uma consciência da necessidade em ir além das formas repetidas de luta incapazes de reverter o equilíbrio do poder com os capitalistas e com o estado. 

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As grandes manifestações nacionais do 1º de dezembro expressaram um endurecimento nos enfrentamentos com o estado e com as classes possuidoras. Essas manifestações se espalharam por todo o país, e no nordeste transbordaram para a Valônia, na Bélgica, e uma semana depois para Bruxelas. Nas grandes cidades, particularmente em Paris, as manifestações assumiram um caráter mais violento, terminando nos tipos de protestos de ruas não vistos desde 1968. Em geral, o número de manifestantes não foi grande: 200.000 em toda França, 10.000 em Paris, com aproximadamente o mesmo número uma semana depois – números não compatíveis com manifestações dos anos anteriores ou aos tradicionais desfiles sindicais. Mas a intensidade, o tipo e força dos confrontos expressaram um conteúdo muito mais radical e preocuparam o governo e a burguesia.

No 1º de dezembro, as forças policiais foram subjugadas pela determinação dos manifestantes e sentiram seu ódio de perto. A repressão foi proporcional à surpresa e continuará a crescer. No 1º de dezembro, a polícia usou milhares de granadas de gás, explosivos e ficou rapidamente sem munição. Houve relatos de inúmeros ferimentos graves entre os coletes amarelos. Em Marseille, a manifestação começou com o grito “a polícia está com a gente!”, mas rapidamente mudou para “policiais assassinos!”. Em Paris, o local oficialmente concedido para o comício permaneceu vazio, enquanto grupos reuniram-se espontaneamente no Champs-Elysées e no Arco do Triunfo, que foram danificados. Os manifestantes logo se voltaram para avenidas próximas e bairros ricos. Estávamos testemunhando algo completamente novo. Cafés, restaurantes e hotéis de luxo foram sistematicamente alvos de ataques, saques e, algumas vezes, roubos. Carros caros em bairros sofisticados foram queimados. Foi uma revolta contra a riqueza e as classes proprietárias, contra a arrogância da luxuria.

A bolsa de valores também foi atacada e grandes lojas de departamentos no centro da capital, onde o ritual de compras das férias estava para começar, foram evacuadas e fechadas pela polícia. Algumas delegacias também foram atacadas. Grupos tentaram invadir o Élysée Palace e foram violentamente forçados a recuar pela polícia. Em uma das avenidas de uma área bem rica, alguém grafitou as paredes de um hotel de luxo com turistas barricados dentro: “Babylon está em chamas!”. Seguranças de hotéis e restaurantes que tentaram negociar com os manifestantes foram tratados como “agentes do sistema, lacaios dos ricos”. Em Bordeaux, a prefeitura foi atacada; na cidade de Puy, a prefeitura foi queimada; em outras cidades, o mesmo cenário: os locais de poder foram sistematicamente alvos, às vezes invadidos e destruídos, servidores públicos do alto escalão e deputados foram ameaçados. Alguns serviços sociais foram atacados. Na noite do 1º de dezembro, o governo parecia desorientado e preocupado. Anunciar a primeira concessão política durante a desordem pouco serviu para acalmar a situação. As coisas foram muito mais longe que o aumento de alguns centavos no preço do combustível diesel. No entanto e apesar do tamanho da primeira explosão, no fim de semana seguinte, dia 8 de dezembro, o governo não encontrou outra forma de responder aos manifestantes do que com uma maior repressão e militarização das grandes cidades, implementando 100.000 policiais, sendo quase 10.000 em Paris, e o uso de uma dúzia de veículos blindados.

No final do primeiro fim de semana de dezembro, o cenário já era preocupante para o governo. A crise política foi agravada por uma crise social: o movimento foi altamente popular, a burguesia estava assustada, e os capitalistas especializados na distribuição em massa de produtos – especialmente do mercado de luxo – mostravam sinais de pânico. Houve centenas de prisões, incluindo muitas de menores. Apenas em Paris, mais de trezentos incêndios foram relatados em bairros de classe média. As delegacias estavam lotadas. A maioria dos manifestantes que vieram a Paris das províncias para expressar sua revolta eram indivíduos desempregados e isolados, furiosos com a situação – como é típico das situações de revolta social nas ruas. É arriscado fazer uma sociologia com todo o “povo” furioso e determinado. No dia 8 de dezembro, o número de prisões cresceu para 2.000 em toda a França. Somente em Paris, doze delegacias foram dedicadas à detenção dos presos. Centenas de pessoas “conhecidas” pela polícia foram colocadas em prisão preventiva, “acusadas” de “crime intencional”. Tanto no 1º de dezembro quanto no dia 8, grupos de jovens radicais experimentaram nas manifestações de rua conexão com grupos de jovens vindos dos subúrbios. Mas a presença dos primeiros não determinou o caráter da revolta; ela simplesmente contribuiu para a expressão da raiva popular. A presença de pequenos grupos de extrema direita também foi notada; voltaremos a isso mais tarde.

Se a polícia francesa é bem eficiente em controlar manifestações clássicas, se ela possui um “know-how” amplamente reconhecido e vendido a várias potências mundiais, as coisas ficam mais complicadas quando se trata de motins urbanos que expressam “a capacidade de uma população se revoltar”, como um oficial da força policial reconheceu. Nesse nível, ele acrescentou, uma simples resposta policial é insuficiente e perigosa para o estado; somente uma resposta política pode ter algum peso. De fato, somente um discurso do presidente e o anúncio de algumas poucas promessas ajudaram a dividir o movimento e acalmar as manifestações de rua, especialmente em Paris.

A produção de bens não foi diretamente afetada. Mesmo que as mobilizações tenham encontrado, aqui e ali, o apoio e simpatia dos trabalhadores, elas aconteceram fora dos locais de trabalho. Entretanto, apesar de não ter ocorrido uma paralisação da economia, a circulação de mercadorias e o setor de consumo foram duramente atingidos pelas manifestações nas grandes cidades e pelos bloqueios de estradas e centros comerciais. Como os empregadores e seus economistas logo deixaram claro, as consequências econômicas foram sentidas. A campanha oficial contra os coletes amarelos e a mídia enfatizaram fortemente os efeitos do movimento no comércio durante a época de férias.

Insurgentes sempre pensam em paralisar a economia. A ideia de uma greve geral foi evocada em todo protesto e manifestação que precedeu essa explosão – sem sucesso, como sabemos. Por sua vez, os coletes amarelos tentaram parar a circulação de bens de forma menos direta, por meio de barricadas. Este foi o significado do bloqueio de depósitos e postos de abastecimentos, do impedimento à circulação de veículos pesados. Mesmo nos dias das manifestações nacionais, os coletes amarelos mantiveram esses bloqueios filtrantes nas estradas e shoppings centers. A questão da exploração não estava ausente das motivações dos coletes amarelos, como é mostrado pelos piquetes de greve em centros de distribuição da Amazon, uma empresa conhecida por sua repugnante prática de trabalho e evasão fiscal. Mas os grupos dos coletes amarelos, compostos majoritariamente de ex-trabalhadores e desempregados, ao lado de trabalhadores isolados, sabem que eles não têm habilidade direta para paralisar a economia, que é o coração do sistema. Eles tentaram agir, portanto, sobre a circulação de bens e serviços. Na verdade, assim como você só pode bloquear a circulação de produtos se eles são produzidos, os bens produzidos só podem ser transformados lucrativamente em dinheiro se eles circulam e são comprados e consumidos.

As ações dos coletes amarelos ocorreram depois de anos de greves fracassadas pela mudança da idade de aposentadoria ou em defesa dos serviços públicos. Um episódio recente acabou com a lamentável derrota dos trabalhadores ferroviários contra o contínuo desmantelamento do transporte ferroviário público. Lendo nas entrelinhas, encontramos nesse movimento um reconhecimento da impotência da maioria dos sindicatos hoje, de sua fraqueza e seu fracasso de se opor à atual lógica econômica. O recente escândalo de fraude que atormentou as grandes burocracias sindicais, cada vez mais sustentadas por recursos públicos, confirma esse balanço. A atitude consensual dos líderes sindicais e suas denúncias dos coletes amarelos apenas aprofundaram o abismo. Entretanto, isso não impediu os coletes amarelos de se juntarem aos trabalhadores em dificuldade, como visto nos bloqueios de refinarias de petróleo. Localmente, alguns militantes sindicais vieram aos acampamentos nas barricadas dos coletes amarelos e bloqueios de estrada como indivíduos. Em cidades com uma grande população da classe trabalhadora, as marchas do sindicato e dos coletes amarelos foram, por bem ou por mal, mais ou menos misturadas. Esse foi o caso em Marseille com os manifestantes de bairros pobres lutando contra a gentrificação e a corrupção do governo local. Em bairros pobres e áreas da classe trabalhadora, a mobilização de estudantes de ensino médio contra um enésimo processo de seleção também expressou solidariedade aos coletes amarelos. 

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A posição dos coletes amarelos que diz respeito aos valores patrióticos, xenófobos e racistas tem sido ambígua desde o início. Esta ambiguidade é um reflexo do espírito reacionário e do isolamento compartilhado por muitos participantes. Isso é um obstáculo para o movimento e seu futuro. Em certas regiões – no norte e no sudoeste, e mesmo no oeste – onde forças da extrema direita são fortes: racismo, xenofobia, sexismo e homofobia são expressos, às vezes abertamente. Mas a sociedade francesa é o que ela é: um caldeirão cultural onde os proletários vêm de origens diversas. A diversidade das pessoas nos acampamentos testemunhou isso. Aqui e ali, notamos a presença ativa de jovens nas barricadas que vieram de bairros pobres, e até mesmo apoio material de mulheres de bairros de imigrantes. Entretanto, há uma inegável presença de militantes de pequenos grupos de extrema direita, agrupados ao redor de símbolos patrióticos, especialmente em manifestações nas cidades grandes[3].

Círculos radicais e libertários têm debatido sobre participar ou não nessas manifestações, se deixam ou não o terreno livre para a extrema direita. A grande maioria de militantes e ativistas foi naturalmente atraída para as barricadas e bloqueios de estradas, e muitos foram aos acampamentos para discutir e apoiar os coletes amarelos. Nos motins e confrontos nos dias 1 e 8 de dezembro, os radicais tiveram uma presença considerável e os grupos de extrema direita foram frequentemente expulsos das ruas. Não está claro se a maioria dos coletes amarelos entende o que está em jogo, estando suas preocupações em outro lugar. E seria vanguardista pensar que as ações dos “radicais” podem remover o perigo da extrema direita organizada. Mais importante é que as profundas razões para esse movimento contra a injustiça, a desigualdade social e contra o privilégio dos proprietários são valores difíceis de serem apoiados pela extrema direita presente nesse movimento. Por outro lado, devemos reconhecer no movimento a ausência de qualquer discussão crítica explícita sobre o capitalismo ou as relações sociais da propriedade privada. Os ricos são atacados, não os capitalistas. Além disso, os valores xenófobos e racistas, a rejeição de refugiados e daqueles que recebem assistência como “responsáveis” pela miséria social, e teorias da conspiração paranoicas, são amplamente difundidos na sociedade e naturalmente encontrados nesse movimento.

A ascensão das teorias da conspiração acompanha a ausência de confiança nos políticos e na mídia. A crença em conspirações é, na verdade, o fruto perverso da crise de representação. Já não acreditando no discurso oficial e não oficial, permanecendo fora de qualquer debate crítico, os indivíduos isolados se voltam para discursos delirantes disseminados nas redes sociais que afirmam expor “as causas ocultas” da crise social e política.

A presença da bandeira francesa e o uso constante da La Marseillaise (Marselhesa)[4]foram as expressões visíveis da dimensão reacionária desse movimento. É claro, a bandeira vermelha e a Internationale (International)[5] foram esquecidas hoje em dia, especialmente por serem associadas ao desastre dos antigos países capitalistas de estado e às forças de uma esquerda ultrapassada e colapsada. É verdade que a Marselhesa é usada em manifestações como um símbolo da luta revolucionária contra a nobreza e seus privilégios. Mas suas palavras racistas e guerreiras foram sem dúvida cantadas com razões xenófobas, mesmo que a música expresse o ódio do povo à elite. Além disso, a acusação de racismo foi mal recebida, como visto na ação dos coletes amarelos em bloquear a circulação do jornal Ouest France, depois de ter relatado o antissemitismo dos coletes amarelos após alguns episódios envolvendo indivíduos isolados ou pequeno grupos neofascistas.

É impossível saber o quanto o debate, a discussão e a intervenção de radicais e libertários no movimento podem neutralizar essas orientações reacionárias e impulsionar a discussão para além de conceitos formais e errôneos de igualdade entre cidadãos para abrir as mentes aos conceitos emancipatórios. No entanto, as interações entre esses dois mundos às vezes produzem resultados surpreendentes. Na rua, os black blocs, contra quem a mídia se opõe, de início incomodaram os coletes amarelos; mas depois estes os aplaudiram quando se juntaram a eles. De repente, o acrônimo colete amarelo substituiu os black blocs no discurso policial! Testemunhamos alguns encontros improváveis, como a reunião de anarquistas em uma cidade do norte na qual vinte e poucos coletes amarelos foram inesperadamente convidados: os anarquistas queriam conversar sobre o movimento dos coletes amarelos e os coletes amarelos queriam saber sobre “anarquismo”. Segundo testemunhas, foi uma troca rica. 

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No centro das mobilizações está também o problema da representação: a rejeição da representação como vemos no mundo moderno, e que, para muitas pessoas, não tem nada a ver com a ideia que elas têm de democracia. O descrédito da classe política e da liderança dos principais sindicatos é profundo e é difícil ver como o sistema pode resolver isso. Todas as tentativas de conter a mobilização dentro de um quadro institucional estavam destinadas a falhar. Em um artigo incisivo na imprensa, alguns representantes parlamentares falaram sobre suas frustrações quando procuraram os porta-vozes do movimento. “Eles [os coletes amarelos] dizem ‘Nós somos o povo’. Eles rejeitam a própria ideia de representação”. E o mesmo vale para nós. No máximo, eles concordam em enviar um delegado. Mas neste caso, eles também querem estar presentes”. E outro deputado acrescentou, “algumas pessoas de boa-fé param porque estão com medo, outros se radicalizam em suas rotatórias ZAD…[6] Só é preciso de uma pessoa para se destacar, uma pessoa que concorde em falar por ela para ser imediatamente desafiada pelos outros que não querem um líder”.[7] 

De fato, os coletes amarelos não têm líderes e aqueles que proclamam esse papel para si mesmos são imediatamente renegados, especialmente a partir do momento em que aceitam usar a mídia. De um acampamento para outro, você ouve ou lê em suas placas, “ninguém representa ninguém”. A maioria dos líderes autoproclamados está ligada a partidos de direita ou de extrema direita que tentaram, sem muito sucesso, assumir o controle de uma situação difícil em um cenário tradicional. Localmente, os coletes amarelos ocasionalmente aceitam formar delegações ou coletivos a fim de dar às instituições sua lista de reivindicações. Estas listas refletem a situação social; eles não fazem exigências negociáveis e uma ideia é dominante: “nós devemos dizer NÃO para tudo isso!”. (As listas também incluem demandas que parecem racistas ou xenófobas, tais como a expulsão de imigrantes ilegais).[8]

A rejeição determinada da representação mostra a extensão da crise nas instituições políticas e a difícil tarefa que os políticos têm pela frente para enfrentarem a crise dentro da estrutura da democracia parlamentar e do sindicalismo. Essa rejeição determinada acompanha uma forte capacidade de auto-organização. Isto tem sido especialmente visível em grupos locais que ocuparam rotatórias (uma prática proibida pelo governo em meados de janeiro). A liberdade de expressão, a ideia da ocupação e a criação coletiva de áreas de discussão e ação, remetem, de forma subterrânea, às práticas de Nuit debout[9][10], mas especialmente para a impressão deixada pela luta nas ZAD’s[11]. Os coletes amarelos se auto-organizaram para realizar ações sobre as quais decidiram, assim permitindo que ignorassem totalmente os partidos e sindicatos existentes. Essa capacidade de auto-organização e de conduzir ações diretas nos meios onde praticamente não há experiência de lutas é um fato notável e constitui um dos pontos fortes do movimento. Ela exprime uma tendência de todo o período.

A minoria que tenta sustentar o movimento politicamente é mais próxima de ideias da direita e da extrema direita, às vezes também da esquerda soberana de La France Insoumise [França insubmissa], o partido democrático-socialista e populista de esquerda de Jean-Luc Mélenchon; ele propõe o uso de plebiscitos ou o desmantelamento do quadro constitucional atual. Outros, “especialistas do movimento social”, confiam ingenuamente na antiga esquerda para tomar o movimento dos coletes amarelos. Eles esperam conter as revoltas dentro dos limites que os coletes amarelos acabaram de ultrapassar. O estado, por seu lado, foi claramente surpreendido pelo movimento. Inicialmente desorientado, ele então semeou um discurso de medo enquanto apostava em forte repressão e prisões em massa apresentando os pobres revoltados como um perigo. Voltamos para a ideia do século XIX de “les classes dangereuses[12]. Mas bloquear a raiva social cercando Paris e as grandes cidades com polícia não é viável a longo prazo e terminaria por paralisar a vida social. A resposta política baseada em parcas concessões materiais revelou-se indispensável. No início, essa resposta foi vista como a primeira vitória em anos, mesmo que mínima, frente aos ditames da lógica econômica; era a prova de que a luta poderia conseguir resultados se ela intensificasse o nível dos confrontos e assustasse a classe dominante. Mas rapidamente ficou óbvio que foi uma vitória ingênua, uma vez que as regras do liberalismo impõem limites que só podem aumentar as desigualdades e, portanto, a raiva[13].

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Uma máxima que se espalhou primeiramente entre as barricadas dos coletes amarelos foi retransmitida em todos os lugares: “as elites se preocupam com o fim do mundo, nós nos preocupamos com o fim do mês”. Esta declaração foi interpretada como prova de que os manifestantes rejeitaram preocupações ambientais, que eles exibiam uma cegueira egoísta em relação ao desastre ecológico e estavam preocupados apenas com o aumento do preço do combustível. Com a continuação do movimento e sua insistência sobre as responsabilidades dos poderosos, vimos que essa oposição não existia na realidade e poderia ser feita uma ligação entre o empobrecimento social e o desastre ecológico. Durante as manifestações de 8 de dezembro, vários coletes amarelos participaram da Marche pour le climat (Marcha pelo Clima) organizada pelo Greenpeace. Para a maioria dos coletes amarelos, a responsabilidade pelo desastre ecológico global recai sobre os responsáveis pelo empobrecimento geral. Eles pura e simplesmente rejeitam a tática de colocar a responsabilidade pelo desastre ecológico nos “pobres”, e puni-los com impostos. 

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Essa profunda expressão de raiva social englobou vários valores, preocupações e desejos que às vezes são contraditórios. O movimento se volta tanto em direção ao passado – quando animado por desespero, medo em relação à seguridade social e o desejo de se fechar em si mesmo -, quanto em direção ao futuro – quando motivado pela profunda crítica da desigualdade de renda e classe. Um colete amarelo observou a um jornalista que as concessões do governo são insuficientes pois tudo que foi ganho logo será tirado, de um jeito ou de outro, acrescentando, “é por isso que nunca teremos o suficiente!”. Dito de outra forma, o movimento é uma onda que não carrega demandas numerosas e negociáveis. É um movimento cujas exigências são qualitativas. Ele coloca a questão da desigualdade social em uma sociedade rica e opulenta. Como qualquer movimento essencialmente negativo de rejeição, ele carrega dentro de si tanto uma perspectiva reacionária quanto outra que visa um futuro diferente. Essas perspectivas ainda não assumiram uma forma organizada e concreta. Até agora, os valores da justiça social e a rejeição da desigualdade de classes foram dominantes, impedindo que os valores reacionários se expressem sozinhos de formas que atinjam violentamente o “Outro”. Uma rejeição do sistema tradicional de representação poderia, paradoxalmente, acabar apoiando projetos autoritários. Somente a auto-organização e a democracia direta presentes nessas mobilizações pode trazer à tona uma dinâmica de questionamento da organização atual da sociedade. Como sempre, o caminho autoritário e reacionário, alimentado por valores de soberania patriótica, xenofobia, racismo e isolamento social, é mais fácil de ser seguido pois depende da confiança em novos líderes, no retorno a um passado místico que não questiona as sempre existentes relações sociais de exploração e dominação. A perspectiva de emancipação é muito difícil, e não podemos imaginar seu amadurecimento sem a expansão das mobilizações e práticas dos coletes amarelos, sua disseminação aos setores assalariados que estão na raiz da reprodução da vida social. Só então a grande rejeição poderia começar a gerar novas relações sociais capazes de reorganizar a vida. Como escreveu Herbert Marcuse, “a busca pelo tempo perdido” se tornaria então “o veículo da libertação futura”.

Enquanto isso, divisões, campanhas de propaganda e repressões ferozes pesam sobre o movimento. As divisões e fatiga são aparentes e centros de ativistas dos coletes amarelos se isolaram. Mas a raiva ainda está ali e continua a encontrar eco na sociedade. Muito ainda é possível, incluindo o imprevisto.


[1] Em tradução literal, “novos ricos”, é uma expressão usada para se referir às pessoas que não eram ricas e se tornaram ricas rapidamente, de maneira suspeita. A origem do termo data do período entreguerras que designava, pejorativamente, as pessoas que enriqueceram e passaram a ostentar esse dinheiro. Geralmente, o termo refere-se aos industriais que enriqueceram com a guerra. (NT).

[2] As Jacqueries foram revoltas camponesas violentas que aconteceram predominantemente durante o período da sociedade medieval na França. O Poujadismo foi um movimento sindical e político contra impostos, liderado pelo populista de extrema direita Pierre Poujade após a Segunda Guerra Mundial, em 1953. (NT).

[3] Para um relatório sensível sobre a composição diversa dos grupos dos coletes amarelos, as ideias confusas expressas no movimento e a presença de ideias racistas e xenófobas, veja: Florence Aubenas, “La révolte des ronds-points – Journal de bord”, Le Monde, 16/17 de dezembro de 2018. Também para um relato vivo das manifestações em Paris, ver: Mickaël Correia, “Gilets Jaunes, ça part dans tout l’essence”, CQFD, dezembro de 2018, http://cqfd-journal.org/CQFD-no171-decembre-2018.

[4] No original, La Marseillaise. A Marselhesa é o hino nacional da França, composto por Claude Joseph Rouget de Lisle, em 1792, como canção revolucionária. Ganhou grande fama durante a Revolução Francesa. Entretanto, atualmente, devido à sua letra, é visto como uma canção que celebra o nacionalismo francês conservador, mais do que qualquer dimensão revolucionária. (NT).

[5] No original, L’Internationale. É um hino internacionalista escrito em 1871 por Eugène Pottier, que havia participado da Comuna de Paris. Pottier escreveu a letra para que fosse cantada junto a melodia da Marselhesa. Pierre De Geyter, em 1888, transformou a letra em música. O hino é mais conhecido por ter sido o hino da União Soviética entre 1922 e 1944. (NT).

[6] No original, ZAD. ZAD é um neologismo militante francês usado na França, Bélgica e Suíça, que significa “zone à défendre” (zona para defender), ou seja, é uma zona que foi demarcada pelos militantes para ser defendida. Geralmente, estão localizados em áreas ao ar livre e zonas rurais. Para o jornalista Christophe Bourseiller, as ZADs são consideradas uma estratégia de “esquerda”, especialmente de movimentos de “extrema esquerda”. (NT).

[7] “Députés cherchent chef de rond-point” (Deputados procuram líder de rotatória), Liberátion, 8 de dezembro de 2018.

[8] Uma ação lamentável marcou o movimento em sua infância: imigrantes sem documentos descobertos num caminhão parado em um bloqueio de estrada foram entregues à polícia.

[9] Ver Ferdinand Cazalis, “Nuit Debout: The Longest Month”, Field Notes, Brooklyn Rail, junho de 2016.

[10] Nuit debout (noite de pé ou noite a pé) foi uma manifestação na França que começou em 2016 e foi decorrente de protestos contra as reformas trabalhistas. Ele foi comparado ao movimento estadunidense Occupy Wall Street e ao movimento espanhol 15-M ou dos Indignados. Há um texto disponível em português do Valadas (Reeve) que discorre sobre essa manifestação: Não temos medo do futuro, é o futuro que tem medo de nós! (NT).

[11] Ver S. G. and G. K., “ZAD: The State of Play”, Field Notes, Brooklyn Rail, julho de 2018.

[12] Em português, “as classes perigosas”. Na tradução, mantivemos o termo no original francês. (NT).

[13] O governo pediu às grandes empresas para “voluntariamente” pagar aumentos aos empregados. Assim, os empregados com os maiores salários e trabalhadores bem pagos obtiveram uma renda adicional significativa enquanto os trabalhadores precários e mal pagos, os pensionistas, aqueles que lutavam, tinham apenas o direito a uma compensação mínima e incerta. Os grandes aumentos concedidos aos policiais que reprimiram os manifestantes também foram mal vistos.

Traduzido por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://brooklynrail.org/2019/02/field-notes/The-Class-Struggle-in-France. Revisado por Felipe Andrade. Outra versão desse artigo pode ser vista em: Felizmente continua a haver luar (Janeiro 2019).

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