Moscou e Nós – Otto Rühle

Introdução

Todo ser humano se insere em um conjunto de relações sociais que não são resultado de suas próprias ações, mas, na verdade, estas relações são herdadas da geração anterior. Por isso, Marx afirmou em seu O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte que “a tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos”. A consciência do ser humano é, por conseguinte, determinada num primeiro momento pelas próprias condições materiais encontradas pelo ser humano em seu nascimento. Para exemplificar: um ser humano nascido na sociedade escravista não terá, e nem poderá ter, consciência da burocracia partidária, pois a burocracia partidária surge com o desenvolvimento do capitalismo que é, obviamente, posterior a sociedade escravista.

Isto não significa que a consciência é mero reflexo da realidade, pois a consciência é ativa e pode intervir nas relações sociais, modificando-as. Não podemos esquecer que são os seres humanos, reais e concretos, que fazem a sua própria história, mesmo apesar de não escolherem as circunstâncias sob as quais ela é feita. De acordo com Rühle, aqueles que defendem a concepção materialista da história

nunca negaram a influência da mente, nunca ignoraram o poder das ideias, nunca subestimaram a importância do fator mental ou espiritual no curso da história. Ao contrário, ao reconhecer que a história é feita por seres humanos, eles reconheceram nesses seres humanos a importância de todos os atributos humanos, incluindo, portanto, mente, inteligência, consciência e ideias (RÜHLE, 1929, p. 317).

A chave-mestra que abre as portas da compreensão do estado atual das coisas não são as experiências cotidianas pessoais ou tão somente as relações sociais que constituímos ao longo da vida — como querem os adeptos do subjetivismo —, mas é a história. A partir da história, pode-se apreender as determinações que geraram a sociedade capitalista e, mais ainda, o estágio atual de desenvolvimento do próprio capitalismo. Por conseguinte, faz-se necessário retomar pensadores que se esforçaram genuinamente para expressar a realidade no intuito de não ficarmos deslocados e alheios à própria realidade que nos envolve.

Otto Rühle (1874-1943) é um desses pensadores que buscou desvelar a realidade visando transformá-la. Suas obras são pouco conhecidas, porém, atualmente, elas estão sendo resgatadas em decorrência da necessidade atual das lutas sociais; e um exemplo é a presente tradução de seu breve texto “Moscou e Nós”, onde ele expõe sinteticamente sua posição radical em relação à III Internacional, revolução russa e partidos políticos. Porém, antes de tudo, é necessário desvendar o solo sob o qual as obras de Rühle floresceram para compreender melhor sua própria produção. Para tanto é requerido retomar um pouco do que é o capitalismo e sua historicidade, pois as produções intelectuais de Rühle foram produzidas em um período específico do desenvolvimento capitalista.

O modo de produção capitalista possui relações de produções específicas que o diferenciam de todos os outros modos de produção e constitui também suas classes fundamentais, bem como a luta entre elas: o antagonismo entre burgueses e proletários, sendo que o primeiro se apropria de um mais-valor produzido pelo segundo.

O mais-valor é fruto da capacidade da força de trabalho de acrescentar valor às mercadorias ao produzi-las. Isto se dá por meio do trabalho excedente dos operários que vai além do que foi gasto pelos capitalistas com capital constante (meios de produção, matérias-primas, ferramentas etc.) e capital variável (salários) (MARX, 1985).

A razão de ser do modo de produção capitalista é exatamente a extração de mais-valor no processo de produção de mercadorias. E esta extração acaba gerando uma acumulação de capital, pois “o capitalista reinveste a maior parte do que lucra, contratando mais trabalhadores, mais máquinas etc., aumentando a produção e, por conseguinte, o lucro, e assim, reinveste novamente, num processo ininterrupto”, e por isso, “o modo de produção capitalista vive da acumulação de capital e esta é o que fornece a dinâmica deste modo de produção” (VIANA, 2018, p. 29).

A história do capitalismo é determinada fundamentalmente pela dinâmica da acumulação de capital. Para assegurar, entretanto, a manutenção da extração de mais-valor e da acumulação de capital, torna-se necessário condições específicas para tal, significando a repressão do proletariado e a estabilidade relativa das lutas de classes. Assim é constituído um regime de acumulação que é “uma forma relativamente estabilizada da luta de classes e se expressa em determinada forma de organização do trabalho, determinada forma de organização estatal e determinada forma de relações internacionais” (VIANA, 2009, p. 38).

Além da constituição de um regime de acumulação, a extração de mais-valor e a dinâmica da acumulação de capital fornecem outros dois desdobramentos que se reforçam: a luta operária que tende a se radicalizar e ameaçar a existência do modo de produção capitalista; e a taxa declinante da taxa de lucro médio, que produz a necessidade de aumentar ainda mais a exploração. Quando estes dois outros desdobramentos se radicalizam, há uma crise que gera ou um processo revolucionário e abolição do capitalismo ou então há uma mudança no interior do mesmo, isto é, uma mudança de regime de acumulação.

Pode-se dizer, então, que a história do capitalismo é a sucessão de regimes de acumulação. As obras de Otto Rühle foram, em sua maioria, produzidas a partir da derrocada do regime de acumulação intensivo que “tem seus primeiros sintomas em torno de 1910 (a Revolução Russa de 1905 e novamente em 1917; as tentativas de revolução em outros países europeus, Primeira Guerra Mundial)” (VIANA, 2009, p. 35-36). Essa derrocada gerou a ascensão do movimento operário e um de seus produtos foi o surgimento do comunismo de conselhos.

O início da vida política de Rühle se deu, no entanto, através de sua inserção na socialdemocracia, como quase todos os que futuramente seriam conhecidos como “comunistas de conselhos”. A socialdemocracia foi um produto negativo da derrota do movimento operário que estava efervescido e provocou uma crise no modo de produção capitalista, mas foi reprimido e apenas impôs a substituição do regime de acumulação extensivo pelo regime de acumulação intensivo (VIANA, 2009). E isto se deu através de conquistas do movimento operário cedidas pela burguesia, cujo exemplo mais evidente foi a redução da jornada de trabalho e a legalização dos sindicatos e dos partidos autodenominados “operários”.

No entanto, a diminuição da jornada de trabalho forçou a burguesia a combater a diminuição da extração de mais-valor através do aumento da produtividade, instaurando o taylorismo como forma de organização do trabalho. Também, o reconhecimento estatal dos partidos “operários” e sindicatos, bem como a conquista de uma participação mais ampla do processo eleitoral (passagem da democracia censitária para a democracia partidária) forçou a burguesia a limitar a participação política do proletariado através da institucionalização das lutas de classes, efetivada por meio da socialdemocracia e o Estado liberal-democrático. De acordo com Viana (2009, p. 96),

O Estado liberal-democrático também expressa um recuo do capital, pois o proletariado consegue reconhecimento estatal de sindicatos e partidos, participação no processo eleitoral […]. No entanto, também neste caso houve uma compensação: a institucionalização das lutas de classes, provocando o seu amortecimento através da cooptação (socialdemocracia) de setores do proletariado e formação de novas camadas de trabalhadores assalariados improdutivos (burocracia partidária, burocracia sindical etc.).

Otto Rühle participava da socialdemocracia por meio do KPD (Partido Comunista da Alemanha), porém articulava uma dissidência em seu interior através dos Comunistas Internacionalistas (IKD). No entanto, isso se modifica em decorrência dos desfechos da crise do regime de acumulação e de um movimento operário cada vez mais radical que constituem os conselhos operários, “a forma de autogoverno que substituirá, no futuro, as formas de governo do velho mundo” (PANNEKOEK, 2007, p. 48), principalmente em 1905 e 1917 na Rússia, se alastrando para Itália, Hungria e Alemanha.

A situação do capitalismo e a emergência dos sovietes abriram novas possibilidades e o movimento operário passou, em vários lugares, de lutas espontâneas para lutas autônomas e, em alguns casos, lutas autogestionárias. A Revolução Russa de fevereiro de 1917 marcou a passagem de lutas cotidianas para lutas autônomas e autogestionárias, e mesmo com a contrarrevolução burocrática bolchevista se manteve por algum tempo, tal como se observa em diversas lutas, greves etc., que tiveram como último grande momento a Revolução de Kronstadt (VIANA, 2019, p. 142).

Com o desenvolvimento deste processo e com o avanço ainda maior dos conselhos operários (também chamados de sovietes) na Alemanha e na Rússia, os partidos socialdemocratas e o partido bolchevique revelam seu caráter contrarrevolucionário e seu antagonismo com o proletariado. Tudo isso possibilita Rühle romper com os partidos políticos em geral e resgatar o marxismo, sem mais ambiguidades relacionadas à sua inserção na socialdemocracia, elevando-se como um dos representantes do comunismo de conselhos ao lado de Gorter, Pannekoek, Wagner, entre diversos outros.

Surge, assim, em 1920, o KAPD (Partido Operário Comunista da Alemanha) do bojo da radicalização das lutas de classes, que não é um partido propriamente dito como consta em seu texto de fundação. O KAPD foi formado por dissidentes do KPD (Rühle e Gorter são exemplos), que foram expulsos do partido por meio de uma manobra no interior do mesmo após a morte de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. A maioria do partido é expulsa por uma minoria.

Isso mostra que com a radicalização das lutas de classes, neste caso expresso na experiência revolucionária alemã, a socialdemocracia revelou abertamente seu caráter conservador e interesses alheios aos do proletariado. Rühle ajuda a redigir os estatutos do recém-fundado KAPD estabelecendo que o mesmo não era um partido propriamente dito e, simultaneamente, escreve “A Revolução não é tarefa de partido” (RÜHLE, 1975a) realizando uma crítica radical aos partidos políticos. Esse é o marco de fundação do comunismo de conselhos — é o resgate do marxismo, criticando radicalmente a socialdemocracia e o leninismo.

Já o partido bolchevique demonstrou abertamente seu caráter conservador após sua tomada do poder estatal. Otto Rühle se desiludiu com o partido bolchevique e com o leninismo quando viaja para a Rússia visando participar de um congresso como um delegado do KAPD. Chegando na Rússia, ele se depara com o panfleto polêmico de Lênin “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” (LÊNIN, 1989) e com as vinte e uma condições de adesão à III Internacional imposta pelos bolcheviques. É neste contexto histórico que Rühle escreve o presente texto, denunciando a III Internacional, bem como o partido bolchevique e, principalmente, as XXI condições para a adesão à III Internacional.

No presente texto, o mérito de Rühle são suas críticas em relação a condição real da Rússia (“A Rússia ainda está muito longe, quilômetros distantes, do comunismo”) daquela época, suas críticas ao caráter burocrático do partido bolchevique e as imposições sem sentido do partido russo para o restante do proletariado internacional. Muitos acreditavam que a Rússia era um país comunista, pois teria efetivado com sucesso a revolução, destituindo o czarismo do poder. Porém, Rühle alerta que a Rússia estava há quilômetros de distância do comunismo, sendo que esta “revolução”, na verdade, foi um golpe e não resultado da luta revolucionária do proletariado.

Também, Rühle percebeu a reprodução da divisão social do trabalho no interior do partido bolchevique com a separação entre dirigentes e dirigidos e, ainda, a subjugação do proletariado pelo partido. Assim, são gerados cultos a personalidade, ignorância, passividade. Para Rühle, esta forma de organização seria incorreta e incapaz de expressar os interesses do proletariado alemão já maduro em decorrência do desenvolvimento do capitalismo daquele país.

Rühle critica também a imposição das XXI condições para adesão à Internacional, pois cada país teria suas especificidades que devem ser levadas em consideração num processo revolucionário e é impossível a aplicação de uma “receita” revolucionária.

Para Otto Rühle estas vinte e uma condições bastavam para destruir as últimas ilusões sobre o regime bolchevique. Estas condições asseguravam ao Executivo da Internacional, isto é, aos chefes do partido russo, um controle completo e uma autoridade total sobre todas as secções nacionais da Internacional. Segundo Lenine não era possível realizar a ditadura a uma escala internacional “sem um partido estritamente disciplinado e centralizado, capaz de conduzir e gerir cada ramo, cada esfera, cada variedade do trabalho político e cultural”. Pareceu a Rühle que por trás da atitude ditatorial de Lenine, havia simplesmente a arrogância do vencedor procurando impor ao mundo os métodos de combate e o tipo de organização que tinham levado os bolcheviques ao poder (MATTICK, 2016, p. 13).

Porém, podemos também elencar alguns limites no presente texto de Rühle. Alguns desses limites são resolvidos em obras posteriores. O primeiro limite é a não percepção clara que a Rússia seria um capitalismo de estado e que o partido bolchevique almejava isto. Este limite foi, felizmente, resolvido um pouco depois da publicação deste presente texto, com a radicalização de sua concepção, sendo um dos primeiros a qualificar a Rússia como um capitalismo de estado e ainda, mais posteriormente, identificar elementos do fascismo no bolchevismo (RÜHLE, 1978).

Mas a autonomia proletária e a economia socialista requerem o sistema de conselhos; tudo aqui é produzido por necessidade, todos tomam parte na administração. O partido impede a Rússia de chegar ao sistema dos conselhos, e sem conselhos não há construção socialista, não há comunismo. A ditadura do partido é despotismo de comissários, é capitalismo de Estado (DIE AKTION, No. 37, 1921).

Nacionalismo, autoritarismo, centralismo, direção do chefe, política do poder, reino do terror, dinâmicas mecanicistas, incapacidade de socializar – todos esses traços fundamentais do fascismo existiam e existem no bolchevismo. O fascismo não passa de uma simples cópia do bolchevismo. Por esta razão, a luta contra o fascismo deve começar pela luta contra o bolchevismo (RÜHLE, 1978).

Um segundo limite deste texto é enxergar que a revolução russa efetivou uma “revolução política”, mas esqueceram que a revolução deve ter uma “base econômica”, criando, por assim dizer, um “vácuo”. Por isso que os bolcheviques apenas deveriam se resignar para que a revolução mundial alavancasse a revolução russa e instituísse finalmente o comunismo preenchendo o vácuo criado. O estado que se encontrava a Rússia, para Rühle, naquele momento, era uma limitação que tornava compreensível as ações do partido bolchevique. Este problema de Rühle deriva da não percepção clara que a burocracia é uma classe específica que possui seus próprios interesses e, por isso, os bolcheviques não poderiam expressar os interesses do proletariado revolucionário. Este limite também é solucionado em obras posteriores, qualificando a direção do partido como uma “direção profissional paga” que possui interesses alheios ao proletariado.

Todas as organizações burguesas são basicamente organizações administrativas que requerem uma burocracia para funcionar. Assim é o partido, dependente da máquina administrativa servida por uma direção profissional paga. Os leaders são funcionários administrativos e, como tal, pertencem uma categoria burguesa. Os leaders, isto é, funcionários, são pequenos-burgueses, não proletários (RÜHLE, 1975b, p. 88).

Ademais, este limite deriva da separação que Rühle efetiva entre o “econômico” e “político”. Esta separação de Rühle impediu-o de perceber o caráter contrarrevolucionário do partido bolchevique, pois a “burocracia” aparece como produto da falta de uma “base econômica” no processo revolucionário russo, o que teria imposto ao partido bolchevique a necessidade de controle e direção do proletariado, constituindo um “socialismo político”. Então, tornou-se, pelo menos neste texto, algo compreensível a substituição do proletariado em formação — que não era maduro o suficiente para levar a cabo a própria revolução em consequência do desenvolvimento russo — pelo partido bolchevique. É certo que a Rússia não era uma sociedade capitalista desenvolvida, pois as relações capitalistas ainda conviviam com relações de produção pré-capitalistas e não-capitalistas. Apesar disso, a falta de uma “base econômica” não foi a determinação fundamental para o fracasso da revolução russa, mas sim a contrarrevolução burocrática efetivada pelo partido bolchevique. Rühle resolve parcialmente este problema futuramente, dizendo que na Rússia os sovietes tornaram-se uma fachada e que a revolução russa foi uma revolução essencialmente burguesa.

Instituir o capitalismo e organizar o Estado burguês é a função histórica da revolução burguesa. A Revolução Russa foi e é uma revolução burguesa, nem mais e nem menos: a forte mistura socialista nada altera na sua essência. Portanto, cumprirá a sua tarefa eliminando, mais cedo ou mais tarde, os últimos vestígios do “comunismo de guerra” e revelando a face de um capitalismo real, genuíno (RÜHLE, 1975b, p. 74).

A revolução proletária é, em extensão, conteúdo, tendências, táticas de luta e objetivos, completamente diferente da revolução burguesa. É a revolução social e encontra a sua conclusão com o estabelecimento de um socialismo sem chefes, sem Estado e sem autoridade (RÜHLE, 1975b, p. 56).

O que se deve compreender é que o pensamento de Otto Rühle contribui para compreendermos fenômenos atuais — principalmente os partidos políticos, a burocracia, e a revolução proletária— e, assim, deve ser rigorosamente estudado, mas sem dogmatismos. Ao estudar seus textos, é necessário constatar sua evolução intelectual, suas ideias desenvolvidas e mais radicalizadas, bem como o abandono de outras. É imperativo também colocá-lo em seu momento histórico, percebendo as transformações no interior do capitalismo, para atualizar o seu pensamento. É impossível, portanto, um retorno ao comunismo de conselhos em seu “estado puro”, pois este foi a expressão do proletariado revolucionário em um determinado momento histórico específico.

Na contemporaneidade, marcada pelo regime de acumulação integral, reina o estado neoliberal, o toyotismo, o hiperimperalismo. Tudo isso legitimado, reforçado e justificado pelo paradigma subjetivista. Este paradigma busca ocultar a verdade esbravejando que ela não existe, dado que aparentemente a consciência de cada ser humano determinaria a realidade. Se a realidade é, portanto, determinada pela consciência dos seres humanos, os partidos políticos podem ser aquilo que os seres humanos querem que eles sejam. A nova receita é clara: misture discursos sem conteúdo que visam parecer revolucionários com pitadas de “lugar de fala” / “representatividade”, aparelhamento de parte dos movimentos sociais e, assim, faça um oportunismo mascarado — um partido político que representa supostamente todos os oprimidos da terra e os santos do céu.

O pensamento de Otto Rühle nos ajuda a desmascarar o oportunismo dos partidos políticos com os novos penteados subjetivistas. Nos ensina também que a verdade, além de existir, deve ser valorizada, pois apenas deste modo é possível atacar as contratendências ideológicas que visam impedir o proletariado de transformar radicalmente o conjunto das relações sociais, emancipando todos os seres humanos das amarras capitalistas. Rühle nos fornece elementos fundamentais para não nos deixar enganar por discursos partidários, sejam eles marcados pelo progressismo, reformismo, leninismo ou, agora, pelas ideologias vinculadas ao subjetivismo.

Com Rühle aprendemos que não importa se este ou aquele partido diz representar os interesses dos operários, dos jovens, dos estudantes, dos ecologistas, das mulheres, dos trabalhadores sem terra ou sem moradia etc., pois, em sua essência, os partidos políticos são organizações burocráticas, marcadas pela separação entre dirigentes e dirigidos, que visam mediar a burguesia em sua dominação de classe. É apenas a revolução proletária autêntica que poderá levar ao fim todas as misérias deste mundo e isto não é tarefa de partido (RÜHLE, 1975a). Por fim, convido a todos a não lerem apenas este sintético texto de Rühle escrito no bojo da radicalização do movimento operário, mas também a estudarem com rigor este pensador em sua totalidade.        

Referências

LÊNIN, Vladimir. Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. 6ª edição, São Paulo: Global, 1989.
MARX, Karl. O capital. Vol 2, 2ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
MATTICK, Paul. Otto Rühle e o movimento operário alemão – Parte I. Novos Rumos. São Paulo, v. 53, n. 1, p. 3-22, 2016.
PANNEKOEK, Anton. A Revolução dos Trabalhadores. Florianópolis: Barba Ruiva, 2007.
RÜHLE, Otto. A Luta Contra o Fascismo Começa pela Luta contra o Bolchevismo. In: KORSCH, Karl et. al. A Contra-Revolução Burocrática, Coimbra: Centelha, 1978.
______. A Revolução não é Tarefa de Partido. In: AUTHIER, Denis (org.). A Esquerda Alemã (1918-1921). “Doença Infantil ou Revolução?”. Porto: Afrontamento, 1975a.
______. Da Revolução Burguesa à Revolução Proletária. Porto: Publicações Escorpião, 1975b.
______. Karl Marx: His Life and Works. New York: The Viking Press, 1929. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/ruhle/1928/marx/index.htm.
VIANA, Nildo. A mercantilização das relações sociais: modo de produção capitalista e formas sociais burguesas. Curitiba: Appris, 2018.
______. O capitalismo na era da acumulação integral. São Paulo: Editora Santuário, 2009.
______. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.
______. Sobre a Origem e Significado do Comunismo de Conselhos. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.     

Mateus Alves, março de 2021.


Moscou e Nós – Otto Rühle

Breves notas sobre a Revolução Russa, a Terceira Internacional e suas relações com o proletariado alemão pelo comunista de conselho Otto Rühle.

I

A Primeira Internacional foi a Internacional do despertar.

Seu papel foi chamar o proletariado mundial a acordar; foi dar-lhe a grande palavra de ordem do socialismo.

Sua tarefa se inseria no domínio da propaganda.

A Segunda Internacional foi a Internacional da organização.

Seu papel foi reunir, formar e preparar para a revolução as massas que tinham despertado para a consciência de classe.

Sua tarefa se inseria no domínio da organização.

A Terceira Internacional é a Internacional da revolução.

Seu papel é colocar as massas em movimento e iniciar sua atividade revolucionária; é realizar a revolução mundial e estabelecer a ditadura do proletariado.

Sua tarefa é uma tarefa revolucionária.

A Quarta Internacional será a Internacional do comunismo.

Seu papel é fundar a nova economia, organizar a nova sociedade e realizar o socialismo. É desmantelar a ditadura, abolir o Estado e trazer ao mundo uma sociedade sem dominação – finalmente livre!

Sua tarefa é a realização da ideia comunista.

II

A Terceira Internacional se descreve como a Internacional Comunista. Ela que ser mais do que ela é capaz. Ela é a Internacional Revolucionária, nem mais, nem menos. Ela está localizada no ponto mais alto até hoje na escala graduada das Internacionais e realiza a maior tarefa que a acompanha e que é possível alcançar hoje em dia.

Poderíamos chamá-la de Internacional Russa. A sua criação foi um produto da Rússia. Ela é dominada pela Rússia. Seu espírito é um resumo perfeito do espírito da revolução russa e do Partido Comunista Russo.

É exatamente por isso que ela já não pode ser a Internacional Comunista.

O que atrai o olhar do mundo para a Rússia – olhares de terror ou admiração -, ainda não é o comunismo.

É a revolução, é a luta de classe do proletariado contra a burguesia, conduzida com resolução, heroísmo e um formidável espírito determinado, é a sua ditadura.

A Rússia ainda está muito longe, quilômetros distantes, do comunismo. A Rússia, o primeiro país que chegou à revolução e a conduziu vitoriosamente ao fim, será o último país a chegar ao comunismo.

Não, absolutamente não, a Terceira Internacional não é uma Internacional Comunista!

III

Os bolcheviques chegaram ao poder na Rússia, não graças à luta revolucionária pela ideia do socialismo, mas sim através de um golpe pacífico.

Eles prometerem paz ao povo.

E terra – propriedade privada – aos camponeses.

Isto é como eles tinham todo o povo por trás deles.

E o golpe foi bem-sucedido.

Eles saltaram todo um período, o período de desenvolvimento do capitalismo.

Do feudalismo, cujo colapso começou em 1905 e foi acelerado e completado pela guerra, eles transformaram através de um fantástico salto em socialismo.

Eles pensaram que ao menos a tomada do poder pelos socialistas seria o suficiente para inaugurar uma época socialista.

Eles acreditavam que o poder poderia, de uma forma construtiva, fazer que aquilo crescesse e lentamente amadurecesse como o produto de um desenvolvimento orgânico.

Para os bolcheviques, a revolução e o socialismo eram principalmente um assunto político. Como poderiam tais marxistas excepcionais terem esquecido que se tratava principalmente de um assunto econômico?

A produção capitalista mais madura, a tecnologia mais desenvolvida, a classe operária mais educada, o mais alto nível de produção – para mencionar apenas esses – são as pré-condições essenciais para uma economia socialista e, portanto, do socialismo em geral.

Onde se poderiam encontrar essas condições prévias na Rússia?

Um progresso rápido pela revolução mundial poderá preencher esse vazio. Os bolcheviques têm feito de tudo para desencadeá-lo. Mas, até agora, não aconteceu.

Assim, nasceu um vácuo.

Um socialismo político sem uma base econômica.

Uma construção teórica. Um conjunto de regulações burocráticas. Uma coleção de decretos existentes somente no papel. Uma frase para fins de agitação. E uma decepção terrível. O comunismo russo está suspenso no ar. E permanecerá lá até que a revolução mundial possa criar as condições para sua realização nos países que são os mais desenvolvidos em termos de capitalismo, os mais maduros para o socialismo.

IV

A avalanche revolucionária está em movimento. Ela está se movimentando sobre a Alemanha. Em breve, ela alcançará outros países.

Em cada país, ela encontra relações econômicas diferentes. Uma estrutura social diferente. Tradições diferentes. Em cada país, o grau de desenvolvimento político do proletariado é diferente; a sua relação com a burguesia é diferente; seu método de luta de classe é diferente.

Em cada país, a revolução assume a sua própria aparência. Ela cria suas próprias formas. Ela desenvolve suas próprias leis.

Embora se espalhe como um assunto internacional, inicialmente a revolução é uma questão que diz respeito a cada país e cada povo em si.

Por mais valiosa que a experiência revolucionária da Rússia possa ser para o proletariado de um país, por mais importante que ela seja para o conselho de seu irmão e pelo apoio de seu vizinho, a revolução é seu próprio negócio; ela deve ser autônoma em sua luta, livre em suas resoluções e não deve ser influenciada e constrangida em seu desenvolvimento e exploração da situação revolucionária.

A revolução russa não é a revolução alemã, e esta não é a revolução mundial!

V

Em Moscou, eles mantêm uma opinião diferente.

Ali, eles têm um projeto revolucionário padrão.

Supostamente, a revolução russa foi bem-sucedida de acordo com esse projeto.

Os bolcheviques conduziram suas lutas de acordo com esse projeto.

Consequentemente, a revolução também deve estar de acordo com esse projeto no resto do mundo.

Consequentemente, os partidos de outros países devem conduzir também suas lutas de acordo com esse projeto.

Nada mais fácil e simples do que isso.

Aqui, temos uma revolução… aqui, temos um partido revolucionário… o que mais é necessário fazer?

Nós tomamos o projeto revolucionário padrão (patenteado por Lênin) de nosso bolso, nós aplicamos… urra! A revolução começa… e boom! A revolução está ganha!

E como aparenta ser este maravilhoso projeto padrão?

“A revolução é interesse do partido. O Estado é interesse do partido. A ditadura é interesse do partido. O socialismo é interesse do partido”.

E mais do que isso:

“O partido é disciplina. O partido é disciplina de ferro. O partido é o poder dos dirigentes. O partido é o mais rigoroso centralismo. O partido é militarismo. O partido é o militarismo de ferro, absoluto, o mais rigoroso”.

Traduzindo concretamente o significado deste projeto:

Logo acima os líderes, logo abaixo as massas.

Acima: autoridade, burocracia, culto da personalidade, ditadura dos líderes, poder aos dirigentes.

Abaixo: obediência cega, subordinação, atenção.

Um sistema de múltiplos mandarins.

Uma liderança do KPD levada ao extremo.

VI

Não é possível aplicar o sistema Ludendorf na Alemanha pela segunda vez, mesmo que ele coloque um uniforme bolchevique.

Não vale a pena falar do método russo de revolução e de socialismo para a Alemanha, ou para o proletariado alemão.

Nós o recusamos. Absolutamente. Categoricamente.

Ele seria um desastre.

Mais do que isso, ele seria um crime.

Ele levaria a revolução à sua ruína.

É por isso que não queremos – nem podemos ter – nada em comum com uma Internacional que impõe, até mesmo pela força, o método russo sobre o proletariado mundial.

Devemos preservar uma completa liberdade e autonomia.

O proletariado alemão fará a sua Revolução Alemã, como o proletariado russo fez a sua Revolução Russa.

A revolução chegará mais tarde.

Ela deve ser enfrentada com muita dificuldade.

Mas, ela chegará ao comunismo mais cedo e de uma forma mais correta.

Este artigo foi publicado pela primeira vez no Die Aktion, 18 de Setembro de 1920. Esta tradução foi feita a partir da tradução francesa no jornal (Dis)continuité no. 11, junho de 2001.

Traduzido por Felipe Andrade, a partir da versão disponível em: https://libcom.org/library/moscow-us-otto-r%C3%BChle. Revisado por Mateus Alves.

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