O Desenvolvimento da política externa da Rússia Soviética – Rätekorrespondenz

* O Räetekorrespondenz foi uma “Correspondência Conselhista” que pertenceu ao G.I.C. (Grupo Comunista Internacionalista), do qual fez parte Anton Pannekoek. Sobre o G.I.C., cf.: O Grupo Comunista Internacionalista da Holanda

I.C.C. Vol. II, números 3 e 4 – Março de 1936

O recente desenvolvimento da política de um certo número de partidos comunistas foi denominado “o 4 de Agosto” da III Internacional[1]. Embora esta referência histórica se possa justificar, não reflete de modo algum as diferentes fases que levaram a esse desenvolvimento. Ora, se nos abstrairmos da fraseologia empregada pelo Komintern e se examinarmos unicamente a essência das suas atividades, surge claramente que as manobras do Komintern não são mais que a evolução lógica de um processo iniciado pelo próprio Lênin nos primeiros tempos da Revolução Russa.

Ninguém ignora que o Komintern depende inteiramente da política externa russa que, por sua vez, é determinada pela evolução interna da Rússia e pela posição que ocupa entre as potências capitalistas. Um enunciado das grandes linhas do desenvolvimento da política externa soviética porá em relevo estas relações.

O PERÍODO REVOLUCIONÁRIO

Os bolcheviques acolheram a guerra mundial com um programa de revolução na Rússia que compreendia todas as leis fundamentais da insurreição e que, devido à necessidade em que a Rússia se encontrava de lutar contra a guerra imperialista, foi concebido à escala internacional. Este programa não era baseado no internacionalismo proletário – como o faria a “esquerda” alemã em volta de Rosa Luxemburgo – mas apoiava-se, pelo contrário, nas condições políticas e sociais da Rússia e na posição que a revolução russa seria levada a tomar acerca da política imperialista das potências europeias e da sua colonização sobre as nações agrícolas asiáticas. Era nesta base que Lênin iria elaborar a teoria que deveria guiar os bolcheviques e o proletariado internacional na luta contra a guerra e pela revolução. A guerra mundial, escreveu, é uma guerra imperialista à qual é necessário pôr fim por meio da revolução anti-imperialista da classe operária. Esta obra internacional só pode ser levada a cabo pelos socialistas-revolucionários nos seus países de origem. Para nós, russos, a situação é diferente; temos de nos contentar em aceitar o mal menor, o derrubamento do regime czarista pelas forças unidas dos trabalhadores e dos camponeses. Sem dúvida que uma tal revolução não passará de uma revolução burguesa esclarecida, disse ainda Lênin, mas poderá constituir o primeiro passo para a revolução mundial, se os outros países se decidirem a seguir o nosso exemplo. Não é impossível que as massas proletárias se revoltem contra os seus exploradores e realizem uma revolução de tipo socialista; ou ainda que as nações rurais e coloniais da Ásia e da África se insurjam contra os seus opressores imperialistas em nome de uma revolução nacional burguesa. Quer num caso como no outro, assistir-se-ia então a uma reorganização da relação de forças entre as grandes potências.

Nos países desenvolvidos da Europa, o proletariado como classe desempenhou o papel de vanguarda da revolução mundial, enquanto que nos países agrícolas e colonizados a luta iria ser conduzida pelas “Nações oprimidas”. Lênin sempre acreditou que uma amálgama destas forças – apesar dos seus antagonismos – serviria a causa do proletariado e da revolução comunista mundial. Em consequência, os bolcheviques julgaram conveniente atacar, em 1917, o regime de Kerensky com slogans tais como: “não à paz separada com a Alemanha”, “fraternização dos soldados em todas as frentes”, “pôr fim à guerra por uma ação revolucionária internacional da classe operária”, “recusa em reconhecer as anexações anteriores e presentes”, “auto-determinação de todas as minorias nacionais até, e inclusive, a independência nacional”.

Uma vez no poder, os bolcheviques iriam imediatamente pôr este programa em execução. Num comunicado publicado em Novembro de 1917, propuseram a todas as nações em guerra “uma paz justa e democrática”. Ao mesmo tempo, apelaram aos trabalhadores revolucionários dos três países mais desenvolvidos, Inglaterra, França e Alemanha, para que dessem o seu apoio imediato à luta travada pelos bolcheviques. Esperavam assim alcançar um duplo objetivo: por um lado, chegar a um compromisso com as potências capitalistas na esperança de pôr fim às hostilidades; por outro, aproveitar o período de calma que se sucederia para sublevar o proletariado contra a classe dirigente, visto estarem convencidos que a revolução mundial surgiria automaticamente a seguir. Os fatos depressa demonstrariam o caráter inoperante de tais planos.

PRIMEIRA DERROTA DA POLÍTICA EXTERNA BOLCHEVIQUE

A esperança bolchevique de uma greve geral dos soldados nos exércitos inimigos não se concretizou. Os próprios bolcheviques não puderam prosseguir a guerra. O velho exército czarista foi esmagado e desmoralizado e os bolcheviques foram incapazes de erguer um novo exército. Além disso, os seus apelos para a sublevação do proletariado europeu não tiveram eco. Começaram, pois, a duvidar da possibilidade de uma revolução mundial rápida. Um único ponto do seu programa se iria concretizar: o direito de autodeterminação das minorias que conduziu à separação dos estados fronteiriços russos, decisão que se revelou desastrosa para a jovem República soviética. De fato, a primeira ação destes novos Estados foi reprimir o movimento revolucionário no interior das suas fronteiras. Após o que iriam permitir que os países signatários da Aliança e os guardas brancos utilizassem os seus territórios como base militares contra a União Soviética. Os bolcheviques foram assim constrangidos a entabular negociações de paz separadas com a Alemanha. Quando da conferência de Brest-Litovsk (1917), os generais alemães exigiram mais do que os bolcheviques estavam dispostos a conceder-lhes, e Trotsky tentou salvar as aparências com a fórmula “nem guerra, nem paz”. Contudo, quando os exércitos alemães se puseram de novo em ação, os Russos não puderam deixar de aceitar as condições de paz que os alemães lhes ditaram, condições bem menos favoráveis que as primeiras.

Pouco antes da conferência de Brest-Litovsk, o comitê executivo dos sovietes tinha efetivamente convidado a Aliança a participar nas negociações coletivas de paz, mas ajuntaria no seu convite: “No caso dos governos aliados recusarem, uma vez mais, participar na conferência de paz, a classe operária revolucionária pôr-se-á em ação a fim de tomar o poder das mãos daqueles que, por cega teimosia, se recusam a dar ao povo a paz à qual este aspira”.

Tais palavras pareceram à Aliança como um desafio e uma declaração de guerra indireta. Pôs fim a toda e qualquer relação e empreendeu imediatamente a intervenção armada que iria ter repercussões desastrosas para a política interna russa.

Entretanto, os bolcheviques não abandonaram toda a esperança de uma revolução mundial. Queriam ainda acreditar que os trabalhadores alemães os ajudariam a partir do momento em que a derrota antecipada do exército alemão se tornasse efetiva. Ao mesmo tempo, pensavam ser necessário aceitar compromissos com todos os Estados desejosos de negociarem com eles, intensificando a sua propaganda entre os trabalhadores europeus. Mas o rumo dos acontecimentos após o desabamento da máquina de guerra alemã convenceria finalmente os bolcheviques que o proletariado europeu não estava preparado para a revolução e que era melhor, de momento, abandonar qualquer esperança de uma revolução mundial imediata.

O PERÍODO DA GUERRA CIVIL

A 28 de novembro de 1917, o comitê executivo dos sovietes declarava: “Os dirigentes da revolução vitoriosa não precisam de aprovação de seja qual for o representante da diplomacia capitalista”. Os Russos iriam ainda mais longe, abolindo todos os tratados czaristas que diziam respeito à divisão dos territórios persas e turcos; dirigiram-se em seguida aos trabalhadores muçulmanos para que se libertassem dos seus exploradores imperialistas. Contavam assim combater o imperialismo simultaneamente dos dois lados. As potências da Aliança sustentaram a contrarrevolução fornecendo armas, dinheiro e tropas aos generais brancos russos. Mas tiveram de renunciar a conduzir diretamente as hostilidades contra a União Soviética, devido à situação bastante crítica a que tinham de fazer frente nos seus próprios países. Conseguiram, contudo, ocupar os territórios fronteiriços e controlar a linha de caminho de ferro da costa Murmana. Além disso, tinham de se bater contra os sovietes ao lado do exército checoslovaco, separar a Rússia do centro dos seus abastecimentos de trigo proveniente do sul, pilhar uma grande parte do Tesouro soviético, destruir sovietes e mandar fuzilar numerosos russos.

Os bolcheviques fizeram do terrorismo a sua arma principal para lutar contra a contrarrevolução e empregaram todos os seus recursos neste combate renhido. O comunismo de guerra foi instaurado a fim de prolongar os interesses bolcheviques na guerra civil no campo da economia. Para a Rússia soviética, a situação revolucionária que prevalecia em numerosos países europeus tinha necessariamente que provocar a revolução na Europa ocidental. Os bolcheviques anularam todas as dívidas de guerra dos governos czarista e de Kerensky, mas foram, no entanto, obrigados a fazer uma concessão. Em Outubro de 1918, numa carta a Wilson, declaravam que “por agora aceitavam participar em negociações com governos que não representavam a vontade dos seus cidadãos”. Perguntavam igualmente a Wilson se os Estados Unidos e os seus aliados fariam cessar as hostilidades caso “o povo russo aceitasse pagar, tal como uma pessoa raptada oferece um resgate para ser libertada”. Os bolcheviques iriam entabular novas conversações com os Estados Unidos em janeiro de 1919: “Partilhamos o vosso desejo de restabelecer relações normais entre a América e a Rússia e de abolir tudo o que possa entravar a existência de tais relações”. Em princípios de fevereiro de 1919, os Aliados propuseram a realização de uma conferência nas ilhas dos Príncipes a fim de encetar conversações diretas com a Rússia e pôr fim às hostilidades. O governo soviético declarará então, a propósito das dívidas de guerra que, “nesse ponto estava disposto a conformar-se com as exigências das potências da Aliança”, e propôs-se oferecer certas matérias-primas como garantia. Era a primeira vez que fazia concessões de ordem econômica; chegaria mesmo a declarar que não se oporia a negociações respeitantes à anexação eventual de territórios russos pelas potências da Aliança.

Estas tentativas de conciliação não conseguiram impedir a continuação da guerra civil, porque os Aliados estavam bem decididos a exterminar os bolcheviques. A situação era a pior possível quando o primeiro Congresso da III Internacional foi anunciado para o mês de março de 1919, em Moscou. Os partidos membros estrangeiros que aí se fizeram representar eram muito fracos; sofreram algumas derrotas decisivas. Havia poucas probabilidades de que a nova organização pudesse desencadear uma ação revolucionária direta. A situação era, contudo, favorável, e o primeiro Congresso decorreu sob os slogans revolucionários de Lênin: “revolução dos operários e dos camponeses”, “transformar a guerra em guerra civil”, “conselhos operários”, “ditadura do proletariado”, “a velha ordem capitalista deixou de existir; não poderá reviver”.

Durante este mesmo congresso, discutiu-se igualmente um programa de socialização bolchevique, bem como as relações entre a Rússia socialista e as potências imperialistas vitoriosas e os seus Estados vassalos. Decidiu-se que a Sociedade das Nações, que acabava de ser fundada, não era mais do que um instrumento da santa aliança do capitalismo destinada a esmagar a revolução dos trabalhadores. Foi anunciada a era da revolução mundial. Os dias que precederam o 1º Congresso do Komintern foram dias sombrios para a Europa. A revolta de março em Berlin, a República dos Conselhos de Munique, a Revolução Húngara, foram outras tantas derrotas infligidas pela contrarrevolução da Europa central à esquerda revolucionária isolada das massas proletárias. Uma vez mais, os russos encontravam-se numa situação de urgência. Isolados, decidiram que ainda não era altura para uma sublevação revolucionária na Europa ocidental. Iriam, pois, empregar a partir de Moscou as táticas bolcheviques que tinham dado provas em terra russa. O “apelo às massas” foi o slogan através do qual iriam seguir, de maneira inesperada, os traços de uma política abertamente oportunista. Quando, sob a influência dos métodos burocráticos de Radek e de Levi, o Partido Comunista Alemão entrou na ação parlamentar e participou na obra dos sindicatos contrarrevolucionários, e quando a maioria da ultra-esquerda foi excluída (conferência do Partido, Heidelberg, Outono de 1919), os bolcheviques ainda não tinham renunciado às suas ilusões de um avanço revolucionário favorável. A experiência iria, contudo, demonstrar que se os métodos de Lênin eram infalíveis na Rússia, não podiam vencer nos países desenvolvidos da Europa ocidental. A Rússia foi assim obrigada a afirmar-se como um Estado ao mesmo nível que os países capitalistas que a rodeavam. Sem alterar a sua linha política bolchevique, adiou para mais tarde a revolução da Europa ocidental. Nunca renegou a sua política revolucionária, mas transformou a empresa arriscada que de início representava, numa empresa cujo sucesso total devia estar garantido de antemão. O que significou, senão em teoria, pelo menos na prática, a morte de toda e qualquer luta revolucionária.

EM DIREÇÃO A UMA AFIRMAÇÃO DA SUPREMACIA NACIONAL

Em fins de 1919, o governo soviético tinha conseguido abater a contrarrevolução russa, ou seja, tinha conseguido repelir a invasão dissimulada dos Aliados no seu território. Esta vitória na guerra civil iria, contudo, fazer-se acompanhar de uma derrota do comunismo de guerra. Em primeiro lugar, os recursos econômicos do país diminuíram em 80%. Em segundo lugar, o proletariado começou a revoltar-se contra a ditadura terrorista do bolchevismo e a exigir uma democracia de tipo conselhista. Enfim, os camponeses deram a conhecer as suas reivindicações econômicas e recorreram à violência e a atos de sabotagem. (A revolta de Kronstadt caracterizou-se por esta combinação de reivindicações políticas da parte dos operários e econômicas da parte dos camponeses. Trotsky, com a ajuda de Stálin, transformou-se no carrasco do proletariado de Kronstadt, ultrapassando Noske pelo seu sangue-frio e brutalidade e abrindo a via que permitiu satisfazer as reivindicações camponesas). A nova política, a NEP, deu o primeiro passo para o desenvolvimento da pequena propriedade privada, cujo caráter foi, na primeira fase, essencialmente mercantil e rural. Uma economia privada baseada em pequenos capitais e controlada pelo Estado iria assegurar o desenvolvimento econômico da nação.

Em matéria de política externa, os russos adotaram uma política de recuo, após terem sofrido perdas consideráveis na guerra contra a Polônia. Numa proclamação de 28 de Janeiro de 1920 aos trabalhadores dos países aliados. Tchitcherine afirmava que a Rússia não tinha intenção de alargar o seu poder aos outros países estrangeiros, nem de impor o sistema soviético a nenhum povo contra a sua vontade. O apelo à revolução adquiriu um caráter platônico. A política externa soviética não foi determinada por um desejo de revolução mundial, mas pela necessidade em que se encontrava a Rússia de ter o seu lugar entre as outras nações.

Tal como tinha, antes e durante a revolução russa, desenvolvido uma vasta estratégia para utilizar as diversas forças sociais, Lênin iria elaborar uma estratégia que consistia em utilizar certas nações para reforçar a política externa soviética. Tendo renunciado a uma revolução mundial imediata, o Estado soviético tinha de garantir uma certa segurança diplomática. Durante o ano de 1920, foi reconhecido pela Estônia, Lituânica, Letônia e Finlândia – Estados fronteiriços que foram os primeiros a ressentir-se da influência soviética, mas que, em certa medida, tinham igualmente necessidade de escapar ao domínio das potências ocidentais.

Esta política das pequenas nações que, dois anos antes e com a ajuda dos Aliados, tinha posto fim à revolução comunista, obrigou Lênin a proclamar, em 1920, uma aliança direta com “a burguesia dos pequenos Estados”. Declarou que os bolcheviques tinham conseguido a adesão não só dos operários de todos os países, mas ainda da burguesia dos pequenos Estados porque, disse, o imperialismo não oprimia unicamente os trabalhadores, mas também a burguesia dessas pequenas nações. Essa é a razão por que os bolcheviques “ganharam o apoio da burguesia vacilante dos países progressivos”.

Foi durante este período de consolidação das alianças entre a União Soviética e a burguesia de certos Estados capitalistas que se realizou o Segundo Congresso do Komintern. Lançou as bases de uma fraseologia revolucionária que libertou a direção do Komintern de qualquer obrigação. O manifesto do Congresso anunciou o declínio da Europa e do mundo, e a sublevação do proletariado: “A guerra civil em todo mundo está na ordem do dia”. Além disso, o Congresso preocupou-se essencialmente com os países colonizados do Oriente e declarou ser necessário começar “uma política que vise estreitar os laços entre a Rússia Soviética e todos os movimentos de libertação colonial e nacional”. O Congresso recomendou de um modo especial a organização de um movimento camponês nas colônias, com o objetivo de criar sovietes camponeses.

Esta tomada de posição implicava que o Komintern era partidário de um ataque revolucionário conduzido pelos camponeses contra as forças imperialistas. As decisões respeitantes aos países da Europa ocidental tiveram um caráter completamente diferente. Porque os russos previam a criação de um vasto movimento de massa que seria canalizado através dos parlamentos e dos sindicatos. Para “penetrar no seio das massas”, os bolcheviques indicaram como substituir os antigos dirigentes e criar núcleos bolcheviques nas diversas organizações reformistas de trabalhadores. As “vinte e uma condições” que regulamentavam a adesão dos partidos socialistas ao Komintern não desencadearam qualquer debate fundamental sobre as táticas a empregar. Centristas e bolcheviques uniram-se em torno do parlamentarismo, do sindicalismo e da necessidade de uma ditadura do proletariado. Estas “vinte e uma condições” iriam, no entanto, ser úteis aos dirigentes russos quando se tratou de adesão do Komintern dos partidos de massa de tendência centrista. Porque era necessário desembaraçarem-se dos antigos dirigentes e destruírem as tradições da democracia centrista no interior das organizações. A incoerência que reinava entre os adeptos destes partidos serviu, em certa medida, aos dirigentes de Moscou que tinham a intenção de assumir a chefia dessas organizações, cuja utilidade nos processos complicados da sua política externa gozavam antecipadamente, e das quais, aliás esperavam fazer as reservas da futura revolução. Estes dois objetivos não podiam deixar de ser contraditórios; explicam a má-fé que caracterizou a política do Komintern e a indiferença que manifestou pelos interesses do proletariado na Europa ocidental. O essencial das decisões do Segundo Congresso pode ser resumido por esta declaração do manifesto da Internacional comunista: “A Internacional comunista fez sua a causa da Rússia soviética”.

A RÚSSIA ENTRA NA DIPLOMACIA INTERNACIONAL

A decisão delineada por Moscou em 1920, de tomar parte na diplomacia internacional, foi posta em prática no ano seguinte. A consolidação progressiva da NEP traria um primeiro desanuviamento. Porque o problema asiático se revestia, para os russos, de uma importância primordial, o governo soviético iniciou um contra-ataque diplomático contra a política britânica na Ásia. Em Fevereiro e Março de 1921, a U.R.S.S. assinou tratados de neutralidade e de não-agressão com a Pérsia, o Afeganistão e a Turquia. Ao anular as reivindicações e os acordos do antigo governo czarista, a Rússia assegurou uma assistência militar mútua. A Pérsia declarou-se pronta a permitir a entrada de tropas russas no seu território no caso de uma invasão estrangeira (britânica). O Afeganistão aceitou de boa vontade as promessas de oferta e de dinheiro e de materiais feitas pelo governo soviético e a Turquia recebeu a garantia de que “as nações do Próximo-Oriente respeitariam a sua liberdade, a sua independência e o seu direito de auto-determinação nas questões respeitantes à administração do seu país”. Na mesma época, a União Soviética reconheceu a Polônia que procurava então libertar-se da dominação francesa e, em Novembro de 1921, iria finalmente por sob a sua proteção a Mongólia-Exterior. Para além destes empreendimentos, entre os quais convêm citar a anexação e a bolchevização da Geórgia, a União Soviética concretizou numerosas vitórias políticas ao longo da fronteira asiática, vitórias que iriam, como recompensa, melhorar a sua posição no Ocidente.

A NEP marcou a abertura das relações comerciais com os Estados capitalistas; foi igualmente um convite para os capitais estrangeiros investirem nas empresas privadas soviéticas. Quanto à Europa, enfraquecida pela Primeira Guerra Mundial, não pôde deixar de aceitar a existência da União Soviética e a garantia por parte desta de que as relações comerciais não podiam deixar de ser vantajosas para ambas as partes.

Em 1921, a Rússia concluía tratados econômicos com a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Noruega, a Áustria e a Itália e, em Junho de 1922, com a Checoslováquia. Estes tratados eram por si mesmo um reconhecimento de fato da união Soviética; o tratado germano-russo iria até à inclusão de direitos extra-territoriais para os representantes comerciais russos.

Em troca, a Rússia esforçou-se por seguir à letra a execução do que se chamou a “cláusula de propaganda”, segundo a qual se comprometia a “não intervir nos negócios internos da Aliança”, cláusula por ela proposta a partir de 1919. Após a assinatura do tratado germano-russo, a 5 de Maio de 1921, os representantes russos na Alemanha tiveram de se abster de toda e qualquer propaganda hostil ao Estado alemão ou às suas instituições. O pacto com a Checoslováquia foi mais um passo nesta direção: os dois governos comprometeram-se “cada um a abster-se de qualquer propaganda contra o governo do co-signatário ou contra qualquer das suas instituições, e a não se imiscuir em nenhuma crise econômica que pudesse surgir em qualquer dos dois países”.

Enfim, a Grã-Bretanha receberia em 1923 a seguinte declaração soviética: a Rússia não apoiará nem financiará nenhum agente, organização e instituição, cujo fim seja fomentar, direta ou indiretamente, uma agitação na Grã-Bretanha, ou em qualquer outra parte do Império. (Memorando do governo soviético, a 4 de Junho de 1923). Sabe-se que esta cláusula iria conduzir à ruptura das relações russo-britânicas em 1924, quando a Inglaterra, baseando-se numa falsa carta de Zinoviev, tentou concretizar um novo pacto. Dirigido contra o Komintern, este novo pacto, que não foi aceito antes de 1929, incluía pessoas e organizações que se encontravam sob o controle direto da União Soviética, bem como organizações que dela recebiam dinheiro. A União Soviética devia recusar exercer a menor influência sobre o Komintern, decisão que foi aprovada por todos os peritos em direito internacional.

O III Congresso mundial do Komintern realizou-se sob estes maus auspícios. Embora nessa época a Rússia mal tivesse começado a organizar a sua diplomacia internacional, ela suplantaria muito rapidamente o departamento de negócios estrangeiros do Komintern. Enquanto que o mundo capitalista reconhecia a União Soviética, a Rússia abandonou as suas esperanças de revolução mundial e ajudou ao restabelecimento do capitalismo mundial. As perspectivas da III Internacional encontravam-se consideravelmente diminuídas quando Zinoviev anunciou que “a III Internacional devia adaptar os seus princípios táticos a uma lenta evolução”.

Perante a consolidação progressiva da burguesia, a III Internacional teve pouco a pouco que renunciar às suas atividades revolucionárias. O Komintern, condenando formalmente Levy (Alemanha), recusou apoiar as atividades revolucionárias de Março[2] na Alemanha e declarou que dali para o futuro a luta dos operários só podia ser defensiva. Na mesma época, o Congresso decidiu opor-se teoricamente a uma centralização da direção em Itália. Excetuando estes dois acontecimentos, poucas mudanças ocorreram. Na Alemanha, o Partido Comunista recusou permanecer com o K.A.P.D. (Partido Operário Comunista, de “ultra-esquerda”) e aliou-se ao U.S.P.D. (Partido Socialista Independente). Estas manobras tiveram o efeito de aproximar os partidos comunistas da Europa dos partidos socialistas. Falou-se da possibilidade de uma “frente unida das cúpulas” e de “governos trabalhistas parlamentares”. É nesta ótica que Brandler pôde anunciar perante um tribunal alemão: “O objetivo do nosso partido é estabelecer a ditadura do proletariado sob a Constituição de Weimar”.

A RÚSSIA E A DIPLOMACIA INTERNACIONAL

“Sem a Rússia, declarava Radek em 1920, a economia mundial não pode esperar restabelecer-se”. Esta declaração não serviu apenas os interesses da economia russa, mas ainda os do capitalismo mundial, e permitiu que a Rússia entrasse em negociações com as potências ocidentais. Após ter conseguido assinar tratados comerciais satisfatórios com vários pequenos Estados, a Rússia tentou obter participação nas grandes conferências internacionais. Em 1921, indignou-se vivamente por não ter recebido convite para a conferência de Washington que se tinha reunido para tratar da política colonial (esferas da influência) no Oceano Pacífico, na China, etc. Os seus protestos foram em vão. Contudo, viria a participar na conferência de Genebra em Março de 1922 sobre o restabelecimento econômico da Europa. Em nome da delegação russa, o secretário russo dos negócios estrangeiros, Tchitcherine, declararia: “A União Soviética considera que, numa época em que o antigo regime capitalista pode existir paralelamente com a nova ordem social em evolução, é necessário, no interesse de um restabelecimento econômico geral, desenvolver uma estreita associação entre os dois sistemas sociais”. Prosseguiria indicando as razões pelas quais a Rússia desejaria estabelecer relações amigáveis e concluir tratados comerciais com as outras potências. E porque o “restabelecimento econômico da Rússia – o mais vasto país da Europa e o mais rico em recursos naturais – é a condição prévia para o restabelecimento dos outros países”, a Rússia declarou-se pronta a abrir as suas fronteiras a um trânsito internacional, a arrendar milhões de hectares de terras cultiváveis e a permitir vastas concessões para a exploração do carvão, dos minerais e de madeira. Além disso, o memorando russo oferecia aos empreendedores estrangeiros garantias mais que suficientes, bem como a promessa de indenizar os Estados estrangeiros das perdas sofridas durante a guerra mundial. Com tais concessões, a Rússia esperava obter uma ajuda dos países capitalistas para o seu próprio restabelecimento econômico. “O apoio financeiro dos outros países é de primordial importância para o restabelecimento econômico da Rússia”, declarava Tchitcherine ao chefe da delegação britânica, Lloyd George, a 20 de Abril de 1922. Contudo, as oito delegações capitalistas que assistiam à conferência exigiriam não só um certo número de garantias políticas, mas também o reembolso das dívidas czaristas, o que o governo soviético não podia conceder. As diferentes potências não puderam assim chegar a um acordo. No entanto, a delegação russa declararia de novo no seu último memorando: “Para chegar a uma aliança mútua a Rússia está disposta a permitir importantes concessões, com a condição de que as outras potências façam o mesmo”.

A Conferência de Genebra não trouxe à Rússia a ajuda financeira que ela esperava, mas abriu a via para uma associação mais estreita com a Alemanha. Pouco tempo depois, os dois governos assinavam o Tratado de Rapallo[3]. Ao reconhecer oficialmente a União Soviética, a Alemanha ganhou um aliado na sua oposição ao Tratado de Versalhes. Os dois governos concordaram em anular todas as suas dívidas de guerra. “O Tratado de Rapallo abre a Rússia aos capitais alemães”, escreveria Preobrasjenski num panfleto. No entanto, os capitais alemães não foram utilizados para o restabelecimento da Rússia, mas para a construção de aviões alemães e de fábricas de gases tóxicos. Chegou-se a falar de uma cláusula secreta do Tratado pela qual os dois governos se teriam comprometido a uma estreita cooperação militar na hipótese de uma guerra germano-polaca, cláusula semelhante à que reivindicava uma ofensiva militar conjunta dos dois países contra a França, no caso da Alemanha se decidir libertar do Tratado de Versalhes.

Após ter eliminado a Alemanha da lista dos seus possíveis agressores, a Rússia procurou concluir tratados semelhantes com os seus vizinhos diretos. Propôs reduzir o seu exército a 200.000 homens, mas depois dos Estados fronteiriços terem recusado discutir um eventual desarmamento, recusou por sua vez participar numa conferência que dizia respeito aos pactos de não-agressão. Através desta manobra, a Rússia estava certa de participar indiretamente na futura guerra germano-polaca – o que parece confirmar a existência da cláusula secreta acima mencionada. Assim, a Rússia tornou-se a aliada da Alemanha, esse Estado que lutava ferozmente para reencontrar a sua antiga posição imperialista.

Reforçada pelo Tratado de Rapallo, a Rússia procurou explorar os antagonismos capitalistas que existiam entre as grandes potências, na esperança de obter novas concessões e de consolidar ainda mais a sua posição. Coube ao IV Congresso Mundial de Internacional Comunista a tarefa de rever a “linha” dos partidos do Komintern a partir destas novas evoluções, tarefa que, não podemos deixar de o dizer, foi levada a cabo de modo extraordinário. Mais claramente do que nunca, a Rússia era o centro, o princípio e o fim da política bolchevique internacional.

Nas teses sobre a tática do Komintern pode ler-se “Quanto mais a Rússia for forte e poderosa, mais a sua influência revolucionária se estenderá à escala internacional”. As questões referentes à situação alemã foram muito particularmente examinadas, e a resolução sobre o Tratado de Versalhes falava de um povo que, “desarmado e privado de quaisquer meios de defesa, está à mercê das potências imperialistas”. Assim era qualificada uma Alemanha cujos dirigentes acabavam de consumar uma campanha sangrenta contra a classe operária revolucionária. O Congresso aconselhou aos partidos comunistas alemão e francês que lutassem concertadamente contra o vergonhoso Tratado de Versalhes. No que dizia respeito à ação de uma frente unida foi decidido que era importante intensificar as relações de amizade com as organizações sociais-democratas. O mesmo documento declarava em conclusão: “Partindo do princípio que a Internacional Comunista decidiu acentuar o slogan de uma frente unida de todos os trabalhadores, e partindo do princípio que a Internacional Comunista concedeu licença às diferentes seções para cooperarem com os grupos e partidos da II Internacional e da II Internacional e meia, a Internacional comunista deve prolongar as suas decisões à escala internacional”. O Komintern aproximou-se assim da II Internacional, cuja influência moral e parlamentar esperava que permitisse aos bolcheviques obter mais facilmente concessões capitalistas. Desta mudança de política deveria emanar a teoria de um “governo operário de coligação”. E o Komintern sublinhou que uma tal coligação era não só possível, mas também desejável, porque representava um passo lógico em direção à abolição total do sistema capitalista.

Todas estas resoluções foram tomadas de modo a corresponderem à situação alemã e a agradarem à clique [NCD: clique, termo presente no português de Portugal, pode ser entendido como grupo de pessoas ligadas por interesses obscuros comuns, uma trupe] militar alemã para a qual a cláusula militar secreta permanecia ainda uma incerteza. Foi, contudo, com uma leviandade quase chocante que o Partido Comunista Alemão preparou terreno para uma frente popular nacional. Em seguida, quando do congresso do Partido que decorreu em Essen em 1925, iria declarar que, até 1923, a Alemanha não tinha sido um país imperialista, mas sim uma nação oprimida e que, nessa época, uma guerra com a França não teria sido uma guerra imperialista, mas uma guerra de libertação nacional. Seria, por conseguinte, dever do Partido Comunista Alemão apoiar uma tal guerra. Custa a crer que o Comitê executivo da Internacional Comunista tenha podido pensar introduzir, em 1923, o seu “socialismo” na Alemanha com as baionetas do Exército Vermelho e que, após a ter ajudado a destruir o Tratado de Versalhes, tenha podido conceber empreender a tarefa difícil de abater a frente unida da burguesia alemã. Vale a pena notar que esta ideologia se assemelha como duas gotas de água à que foi exposta pelos “nacional-bolcheviques” Wolffheim e Laufenberg, em 1919. O próprio Lênin iria renunciar a toda a concepção revolucionária que podia ainda existir no seio do Komintern ao declarar que, nos países desenvolvidos da Europa, o socialismo não nasceria das contradições econômicas do sistema capitalista, mas da exploração de tipo imperialista de um Estado por um outro (Obras completas, vol. XVIII, p. 136, ed. russa).

Tendo assim redefinido as suas posições, o Komintern tentou identificar a guerra de libertação nacional alemã a uma revolução dos trabalhadores. Insistiu mais do que nunca na necessidade de uma frente unida e de uma participação parlamentar nos governos de coligação. Esta nova política foi coroada de êxito em Thuringe e em Saxe (1923) onde os membros dos partidos comunistas e socialistas formaram governos de coligação. Os dirigentes comunistas explicaram que esta alteração dos seus princípios revolucionários era necessária se se quisesse assegurar o sucesso da verdadeira revolução alemã esperada para o outono de 1923. Mas no último momento, quando tudo estava pronto, o sinal da sublevação foi anulado devido “à traição do Partido Socialista Alemão e à incompetência de certos dirigentes comunistas”. Na verdade, o Komintern descobrira de repente que uma insurreição armada do proletariado alemão não serviria os interesses da política externa russa. A classe operária alemã foi assim sacrificada. Ao tomar esta decisão, o Komintern, que há anos modelava a revolução mundial segundo os interesses da política soviética, abandonou toda e qualquer pretensão a uma consciência de classe revolucionária. A Rússia decidiu que não teria qualquer vantagem numa guerra contra a França, nem numa revolução na Alemanha. Aceitou o “status quo” como um mal menor, e estabeleceu as bases do slogan futuramente célebre: “Socialismo num só país”.

PACIFICAÇÃO DA POLÍTICA OCIDENTAL DA RÚSSIA

Apesar de um rápido restabelecimento da economia soviética sob a NEP, os resultados finais permaneceram muito aquém das esperanças dos bolcheviques. As dificuldades aumentaram; as primeiras experiências planificadas situavam-se fora do sistema econômico e as concessões estrangeiras apenas tiveram uma importância limitada. Assim, as energias dos bolcheviques digiram-se essencialmente para a situação interna, cuja complexidade exigia toda a sua atenção. A sua política externa acerca do capitalismo ocidental visou unicamente proteger as suas relações diplomáticas: desenvolvimento de relações econômicas, proteção contra qualquer ingerência ou qualquer perturbação, fosse qual fosse a causa (guerra ou revolução).

As relações germano-soviéticas tornaram-se mais frias, embora fosse assegurada uma certa cooperação por instigação da Reichswehr. O trabalho comercial concluído em 1925 pelos dois governos ocupou durante bastante tempo o primeiro lugar nos negócios soviéticos. Daí resultou, em 1926, um pacto de não-agressão que, com toda a evidência, continuava a cooperação germano-russa quanto à questão polaca.

Além disso, a União Soviética desenvolveu relações com outras potências capitalistas. A partir de 1923, declarou-se pronta a participar numa conferência sobre a restrição da marinha de guerra. Iria ser oficialmente reconhecida por um certo número de países durante o ano de 1924. A Grã-Bretanha, a Itália, a Noruega, a Áustria, a Grécia, a Suécia, a Dinamarca, o México, a Hungria, a França, etc. estabeleceram relações diplomáticas normais com a Rússia. Seguiu-se o Japão em 1925. Apenas os Estados Unidos, a braços com problemas internos, foram exceção.

O V Congresso Mundial do Komintern, reunido durante o verão de 1924, respondeu de maneira apropriada à “nova situação”, ou seja, ao novo caráter da política externa. Assim, tomou nota da “abertura de uma certa fase pacífica e democrática” na política internacional, e aclamou a União Soviética como sendo o único país que tinha uma “real política de paz”. Como sempre, a direção do Komintern recusou qualquer responsabilidade na derrota alemã. Um relatório do Comitê executivo da Internacional Comunista atribuiu essa responsabilidade à “duplicidade dos dirigentes do Partido Socialista Alemão e à incompetência dos dirigentes do Partido Comunista Alemão”. As táticas de frente foram desde então consideradas como sendo apenas “um método revolucionário de agitação e de mobilização das massas”; registrou-se o “justo desvio” Brandler-Thalheimer, e Brandler foi eleito presidente honorário do Congresso; enfim, o breve reinado de Ruth Fisher-Maslow teve a aprovação do Congresso a fim de encobrir o erro do Komintern. Na prática, uma fraseologia mais do que nunca “ultra-esquerda” veio dissimular as perspectivas puramente parlamentares. Se bem que os partidos socialistas tivessem sido designados como partidos menores da burguesia, pensou-se formar “governos de trabalhadores” num “certo número de países”. Tais governos deviam “objetivamente” representar um progresso, pois que significariam o declínio da burguesia. A tarefa dos “verdadeiros partidários da revolução proletária” era, pois, transformar o que se denominava por governos de trabalhadores numa “ditadura do proletariado”. Mas o cretinismo parlamentar do Komintern atingiria o auge quando se tratou da derrota alemã. Com efeito, declarou-se: “Após ter sofrido a derrota mais dura do movimento revolucionário, após a crise interna que se lhe seguiu, e após as mais brutais perseguições, o Partido Comunista Alemão conseguiu reagrupar as suas forças, colocar dirigentes energéticos e capazes, e demonstrar, através de uma brilhante vitória eleitoral de mais de três milhões de votos, que estava mais forte e mais poderoso que nunca”. Foi assim que o movimento revolucionário alemão, vencido com a ajuda do Komintern, permitiu que este celebrasse a “força revolucionária” de uma “vitória eleitoral” que, aliás não iria durar mais que até ao mês de Dezembro de 1923.

Tendo assim virado a casaca, os partidos do Komintern, que já não eram mais do que uma espinha na garganta dos países capitalistas, agiram de uma maneira semi-putschista, semi-parlamentar e apenas constituíram uma reserva futura para os Soviéticos. Os dirigentes do Komintern mantiveram de resto um controle apertado. A partir de 1925, desembaraçaram-se da tendência “ultra-esquerda” representada por Fischer-Maslow, o que conduziu à cisão do “grupo Lênin”, de inspiração trotskista e à ascensão do servil Thälmann. Em resumo, a Rússia tentou abafar inteiramente o movimento revolucionário. Enquanto que a Alemanha, depois da vergonhosa derrota de 1923, já não podia ser considerada como um terreno de ação revolucionária, a Inglaterra conheceu uma situação de tensão crescente. Os bolcheviques, incapazes de construir um partido comunista poderoso na Inglaterra, desenvolveram todos os seus esforços para descobrir uma força oposicionista que fizesse face à atitude abertamente antissoviética da burguesia inglesa. Apenas encontraram os sindicatos ultra-reformistas e apostaram na sua influência no Parlamento. O glorioso Comitê anglo-russo demonstrou ser, de 1925 a 1927, a frente unida do governo soviético e do reformismo inglês, que tanto se manifestou contra a política britânica antissoviética, como contra o proletariado inglês. Foi em 1926 que se desenrolou a luta operária mais poderosa da história da Grã-Bretanha: a gigantesca greve dos mineiros. Apoiados pelos Russos, os sindicatos britânicos reprimiram a greve geral e impediram que a luta se estendesse ao conjunto da classe operária. Durante os nove meses de encarniçados combates, nem os sindicatos, nem os bolcheviques ajudaram os famintos mineiros que davam o sangue pela causa do proletariado. Tendo o cuidado de evitar qualquer ação ofensiva, os bolcheviques prosseguiram as atividades do Comitê anglo-russo, pois que os seus interesses diplomáticos eram bem mais importantes que os do proletariado britânico e internacional. Tentaram preservar o seu país de qualquer ameaça de guerra, impedindo uma revolução europeia que teria sido tão perigosa para o seu sistema social vacilante como uma declaração de guerra.

A RÚSSIA VOLTA-SE PARA O ORIENTE

Abandonando qualquer esperança de uma rápida revolução na Europa, os bolcheviques começaram a dirigir as suas “atividades revolucionárias” para o Oriente. Na época em que o Komintern anulava a revolução alemã de Outubro de 1923, eles preparavam febrilmente o 1º Congresso Internacional dos Camponeses. Esperavam, através desta Internacional dos Camponeses, poder reagrupar todos os países coloniais e semi-coloniais sob a égide de Moscou, como outrora o tinham feito para os partidos comunistas. Se bem que esta tentativa não tivesse tido sucesso, os bolcheviques jamais abandonaram este objetivo. Mais tarde, em 1928, o VI Congresso Mundial do Komintern pedia à Internacional Comunista que renovasse os seus esforços para criar um soviete internacional dos camponeses. Lembremos aqui que o V Congresso (Verão de 1924) já tinha ratificado a organização de uma internacional camponesa e tinha pedido às suas diferentes seções que trabalhassem em estreita colaboração com as organizações camponesas a fim de consolidar por toda a parte os “blocos operários e camponeses”. Estas decisões foram tomadas dentro de uma perspectiva chinesa, pois que se tratava de inaugurar uma política de cooperação entre o Partido Comunista e o Partido Nacionalista Chinês (o Kuomintang).

As teses que justificavam estas novas táticas declaravam abertamente que “o Komintern se preocupara demasiado com o desenvolvimento europeu” e que era da maior importância acelerar a evolução destes movimentos de massa asiáticos que lutavam para se libertarem do jugo imperialista e de onde brotaria – como o declarou Stálin – o sinal decisivo da revolução mundial. Mas mesmo aí os bolcheviques fizeram jogo duplo. Ao mesmo tempo que se esforçavam por mobilizar as massas camponesas, assinaram pactos de acordo mútuo com os seus governos. Através do pacto com a Turquia renunciara a toda a atividade revolucionária porque Kemal Pacha ocupava uma posição central na Ásia menor e esta região era alvo de uma luta silenciosa, mas feroz, entre a Rússia e a Inglaterra. Pouco lhes importava que, sob o reinado de Kemal Pacha, todo o comunista fosse preso ou mesmo enforcado. O tratado de 1926 com a Turquia foi assinado após os acordos com o Afeganistão, segundo os quais as duas partes se comprometiam a uma ajuda militar mútua no caso de um dos signatários ser ameaçado de uma invasão do seu território. A Rússia esperava assim impedir que a Inglaterra fizesse do Afeganistão uma base militar para as suas operações antissoviéticas. Um pacto semelhante foi concluído em 1927 com a Pérsia. Estes tratados eram importantes para a Rússia pelo fato de protegerem a sua fronteira sul-asiática contra qualquer invasão britânica.

Os tratados concluídos com a China em 1924 revestiram-se de uma importância ainda mais considerável. Os governos de Pequim e de Manchoukouo[4] reconheceram oficialmente a União Soviética. Esta anulou todos os tratados czaristas, renunciou a todas as indenizações que lhe eram devidas pela revolta dos “Boxers” e reconheceu os direitos da China à linha de caminho de ferro do Oriente. Este tratado estreitou os laços com o Kuomintang que os bolcheviques apoiavam abertamente. Desde então parecia assegurada uma cooperação harmoniosa entre a China e a Rússia.

A TRAIÇÃO DA REVOLUÇÃO PROLETÁRIA CHINESA

Os bolcheviques tinham triunfado na Rússia porque tinham sabido combinar os interesses dos camponeses e dos trabalhadores. Para eles, a revolução mundial seria apenas a repetição deste processo à escala internacional. Se bem que tivessem de reconhecer que essa política tinha causado a derrota do proletariado europeu, não deixaram de pensar em utilizá-la com êxito na China.

Desde 1925 que o movimento revolucionário do proletariado chinês conhecia um progresso sem precedentes, de tal modo que a China apareceu como o único país da Ásia no qual o Komintern podia esperar construir um partido poderoso e ativo. De acordo com a teoria stalino-leninista da liberação nacional das nações oprimidas pelo imperialismo, esse partido – que se batera heroicamente contra o capitalismo nascente – foi forçado a juntar-se ao Kuomintang. Os bolcheviques comunicaram ao Partido Comunista Chinês que tinha de fazer bloco com a burguesia e as classes médias. Em 1926, o Kuomintang lançou a partir de Cantão a sua ofensiva militar contra as províncias rebeldes do Norte. Em menos de dois anos iria tornar-se o senhor absoluto da China. Este rápido sucesso explica-se em grande parte devido às numerosas revoltas de camponeses e de operários contra os generais do Norte. Xangai foi conquistada em 1927 graças aos trabalhadores que se insurgiram contra as tropas de Pequim. Uma vez tomada a cidade, o general vitorioso, Chiang-Kai-chek mandou perseguir e decapitar milhares de operários que tinham tomado parte na revolta. Moscou traiu o proletariado de Xangai porque considerava mais importante concluir um acordo mútuo com os elementos burgueses e o seu general sanguinário. O Partido Comunista Chinês teve de permanecer no interior do Kuomintang; pouco depois iria passar por novo rude golpe. Em vez de atacar Pequim, bastião setentrional, o exército de Chiang-Kai-chek marchou contra Wuhan, onde tinha sido colocado um governo comunista. Os dirigentes deste governo – que tinham todos sido delegados influentes no Komintern – só puderam salvar a pele juntando-se às fileiras das forças inimigas. Esta é a consequência lógica da política chinesa do Komintern. Moscou tentou conservar as mãos limpas excluindo um grande número de dirigentes “indignos”.

A revolta dos operários de Cantão contra o regime de Chiang-Kai-chek em Dezembro de 1927, organizada por Heinz-Neumann, não foi apenas um empreendimento perigoso, foi efetivamente um crime deliberado. Milhares de trabalhadores perderam a vida numa batalha que desde o início estava perdida, e milhares de outros foram massacrados uma vez terminada a luta. Pode-se comparar o soviete de Cantão de 1927 à Comuna de Paris: em ambos os casos a classe operária revolucionária recebeu um golpe fatal. As derrotas de Xangai e de Cantão – provocadas pelo Komintern – abafaram o movimento revolucionário chinês.

Foi muito lentamente e a muito custo que o Partido Comunista Chinês começou a reconstruir a sua organização. Para isso teve de se afastar dos operários e recrutar os seus partidários entre os camponeses. A partir de 1930, teve um papel ativo em numerosas revoltas camponesas. Iria igualmente contribuir para a criação do que se chamou a China soviética, vocábulo sob o qual se reuniram algumas províncias do interior. Moscou, por seu lado, conseguiu conservar o seu papel de guia e de conselheiro, mantendo simultaneamente uma política bastante agressiva. Mas como as atividades da Rússia na Ásia de Leste podiam trazer graves consequências para os interesses britânicos, a Grã-Bretanha esforçou-se incansavelmente por entravar as iniciativas russas procedendo, na Europa, a manobras diplomáticas que obrigaram a Rússia a proceder com infinitas precauções e a fazer mais compromissos com os seus vizinhos europeus.

Se a China, de uma forma ou de outra, se viesse a consolidar, haveria fortes razões para acreditar que a Rússia renunciaria a qualquer participação na revolução chinesa – alguns acontecimentos recentes parecem confirmar esta hipótese – e limitar-se-ia a “construir o socialismo” no interior das suas próprias fronteiras. Seguiria então, no que diz respeito à Ásia, a mesma política que observou para com a Europa desde 1923.

EM DIREÇÃO À “SOCIEDADE DAS NAÇÕES”

Quando, após quatro anos de interrupção, o VI Congresso Mundial do Komintern se reuniu (1928), restava apenas ratificar a liquidação da revolução dos trabalhadores chineses. Nessa época, até Moscou já não podia ignorar que o Kuomintang se tinha “decididamente passado para o campo da contrarrevolução” e que infligia “severas derrotas” aos camponeses e aos operários chineses. O Congresso mostrou-se aberto ao movimento camponês: “Os países coloniais representam, na hora atual, o setor mais perigoso para o imperialismo mundial”. Assim, formularam-se diretivas bastante detalhadas para uma política bolchevique no conjunto das zonas coloniais e semi-coloniais, e deram-se ordens para que aí fossem criados partidos do Komintern. Note-se que as teses referentes à política colonial ocupavam 45 páginas do relatório oficial do Congresso, enquanto as teses que se referiam às táticas do Komintern não necessitavam de mais do que 31 páginas. O que significa que Moscou decidira, sem equívoco possível, voltar-se para o Oriente, e mais precisamente para o Oriente camponês.

 No entanto, o Komintern mostrou-se igualmente categórico nas questões de política europeia, o que se explica, por um lado pelas mudanças da situação política na Rússia e, por outro, pelo desejo de não atrair demasiado as atenções sobre a aproximação progressiva com a burguesia da Europa ocidental.

A NEP acabou em 1928. Quanto à questão da organização e da concentração obrigatória da indústria e da agricultura, o governo bolchevique passou decididamente ao capitalismo de Estado. Decretou o primeiro plano quinquenal, introduziu a coletivização, entrou em luta contra os especuladores do período da NEP, contra os pequenos comerciantes e contra os Koulaks. De acordo com este programa intensivo, o VI Congresso decretou a sua célebre teoria do “terceiro período” que iria conduzir à guerra entre as potências imperialistas e a União Soviética e iria aceitar a crise geral do capitalismo. O ano de 1929 foi o apogeu dos países capitalistas: foi igualmente no decorrer deste mesmo ano que o Partido Comunista Alemão, por exemplo, esvaziou de conteúdo as palavras de ordem revolucionárias ao fazer continuamente apelo às greves e às greves gerais, e cobrindo-se de ridículo. Incitou os desempregados a ações absurdas onde esgotaram as energias que deveriam ter reservado para a próxima crise que se aproximava. Pôs fim à aproximação com o Partido Socialista, acusado desde então de ser o representante do “fascismo social”; a “oposição sindical vermelha” contribuiu para cindir os sindicatos, e os comunistas abandonaram o trabalho nas fábricas para se entregarem à organização dos desempregados.

Devido ao novo rumo que tomava a política externa alemã, o VI Congresso declarou nessa altura que o bloco antissoviético constituído pelas potências imperialistas, estava instituído de modo definitivo. Esta afirmação incorreta explica-se pelo fato de os russos, uma vez terminada a sua aventura chinesa, terem renunciado a qualquer ação revolucionária que se apoiasse na classe operária. Aureolados pelo sucesso do plano quinquenal, puseram na ordem do dia o slogan aliciante de “socialismo num só país”. Imperialismo mundial contra União Soviética, esta a doutrina do Komintern, simplificada pelo regime stalinista, no momento em que a Rússia, sempre com o fim de prolongar a sua política de plano quinquenal, avançava abertamente na via de uma aliança pacífica, tanto política como econômica, com as potências imperialistas.

Alguns anos antes, os russos tinham tentado participar nos negócios diplomáticos e imperialistas dos países membros da Sociedade das Nações. Formalmente, tiveram de renunciar a tomar parte na primeira sessão da comissão preparatória sobre o desarmamento (Primavera de 1926), porque esta reunião devia realizar-se na Suíça, país cujo governo se recusava a dar explicações sobre o assassinato de Vorovski (em 1923, em Genebra). Nos finais de 1927, enquanto Chiang-Kai-chek reprimia a insurreição de Nuemann em Cantão, os russos dirigiram-se para a conferência preparatória sobre o desarmamento. Começaram por revolver a diplomacia internacional ao exigirem a “abolição total de todos os combates sobre terra, mar e ar”, mas depressa se submeteriam às regras “razoáveis” da política externa imperialista. Desde Março de 1928, no comitê de segurança da Sociedade das Nações, já tinham diminuído as suas exigências e só reclamavam um desarmamento parcial. “Sabendo que a nossa proposta de desarmamento total e geral não foi favoravelmente acolhida pela grande maioria das delegações, explicou Litvinov, a delegação soviética decidiu procurar um terreno de entendimento com as outras delegações, e contentar-se com a proposta, embora limitada, de um desarmamento parcial”. É a partir destas discussões preliminares que os grupos, as coligações e as contra-coligações iriam preparar a futura guerra imperialista mundial. Na neblina que cobriu esta conferência, tal como a que se seguiu, os russos deram provas de uma grande habilidade diplomática, enquanto estas conferências procuravam antes de mais encobrir os armamentos intensivos e contínuos de todos os participantes, incluindo a União Soviética.

No verão de 1928, as potências armadas assinaram o Pacto de Kellog, acordo bilateral que visava impedir que a guerra fosse um instrumento de política externa. Acolhido com entusiasmo em todo o mundo, foi assinado por todos os Estados mais importantes. De fato, a utilidade do pacto foi demonstrar como os Estados se lançavam nas guerras sem declarações prévias (como aconteceu com o Japão na Manchúria, por exemplo) e como a Sociedade das Nações se revelava incapaz de ser garante [NCD: garante significa uma instituição que garante ou se responsabiliza por alguém ou algo] do Pacto Kellog em caso de conflito militar. Tchitcherine por seu lado, declarou que o Pacto Kellog fazia parte da preparação da guerra contra a União Soviética, e cremos que procurava assim explicar e justificar a adesão da Rússia.

CONVERSAÇÕES DE PAZ DURANTE A CRISE MUNDIAL DO CAPITALISMO

A crise mundial teve repercussões econômicas e políticas na situação internacional. Assim, os russos multiplicaram os seus esforços para assegurarem acordos de boa vizinhança, tanto políticos como econômicos, com as potências capitalistas e para evitarem que qualquer incidente exterior viesse perturbar a obra de construção que empreendiam no seu país. Em 1929, a Estônia, a Letônia, a Polônia, a Romênia e a Rússia concluíram um pacto Kellog oriental que reconhecia o Pacto Kellog independentemente dos 14 Estados que o tinham assinado. Em seguida, a Turquia e a Pérsia aderiram a este protocolo oriental.

As relações econômicas com os Estados capitalistas acusaram um nítido progresso. Em 1930, a Rússia assinou um acordo comercial com a Inglaterra e alargou consideravelmente o que tinha concluído com a Itália em 1924. Em Março de 1931, tomou parte na conferência agrícola internacional de Roma na esperança de aumentar as exportações de cereais soviéticos. Dentro da mesma perspectiva, participou na conferência de Stresa sobre as exportações de produtos agrícolas (Outubro de 1932). As relações entre o governo soviético e os capitalistas alemãs estreitaram-se a tal ponto que, na Primavera de 1931, um grande número de industriais alemães se instalou em Moscou onde estabeleceram conversações para alargar o campo dos “negócios russos” e de onde partiram munidos de encomendas que, por si só, ultrapassavam meio milhar de marcos-ouro. Estas encomendas soviéticas iriam possibilitar “salário e pão” a trezentos ou quatrocentos mil trabalhadores alemães, como o anunciava orgulhosamente a imprensa comunista alemã. Iriam também desenterrar e dar de novo vida ao capitalismo alemão em falência, detalhes que foram modestamente omitidos por essa mesma imprensa.

Contudo, os russos só se lançaram na diplomacia econômica para servir os interesses da sua diplomacia política. E foi neste domínio que foram incontestavelmente os mais ativos. Na Primavera de 1931, propuseram ao comitê europeu da Sociedade das Nações o projeto de um pacto geral de não-agressão, que foi em seguida transformado em pacto econômico de não-agressão e apresentado à própria Sociedade no Outono do mesmo ano. Estes projetos e todos os acordos e propostas que seguidamente foram expostos, continham uma definição precisa do “agressor”, definição que recebeu a aprovação geral. Em troca, os bolcheviques riscaram do vocabulário soviético todos os conceitos que diziam respeito à essência da guerra imperialista e que tinham sido introduzidos por Lênin. Dividiram a política imperialista em duas categorias – uma “agressiva”, a outra “defensiva” – o que representava um retorno à ideologia de que os partidos da II Internacional se tinham servido para justificar, em 1914, o seu apoio a uma guerra que a burguesia nacionalista e imperialista tratava, o que não era de surpreender visto que os russos procuravam uma vez mais estabelecer uma aliança com as burguesias imperialistas. Necessitavam, pois, de encontrar primeiro uma justificação ideológica que explicasse a sua política de coligação com os grupos imperialistas, uma política cuja prática tinha sido retardada pela social-democracia até ao início da guerra mundial.

Os bolcheviques foram os precursores do sistema de pactos regionais que caracterizou a estranha política externa praticada pelo imperialismo durante a crise mundial. Em 1932, concluíram pactos de não-agressão com os países situados ao longo da fronteira ocidental da Rússia: a Finlândia, a Polônia, a Letônia, a Estônia e a Romênia (com exceção da Bessarábia). Tendo assim assegurado a sua fronteira ocidental, concluíram um pacto de não-agressão com a França, pacto que foi ratificado em Fevereiro de 1933. Através destas medidas diplomáticas, a Rússia desligava-se das suas obrigações para com a Alemanha e preparava o terreno da nova distribuição de forças na política europeia, redistribuição que se tornou efetiva com a chegada de Hitler ao poder. A diplomacia soviética tinha habilmente calculado que a política externa russa teria de mudar de imperialismo.

Além disso, existiam ainda em 1932, pactos de não-agressão com vários outros países: Alemanha, Itália, Turquia, China, etc. As relações diplomáticas soviéticas com o governo de Chiang-Kai-chek, que tinham sido interrompidas em Dezembro de 1927, foram renovadas em Dezembro de 1932. As perturbações provocadas pela crise mundial arrastaram vários outros países a reconhecerem definitivamente a União Soviética. Assim aconteceu com a Espanha e os Estados Unidos em 1933, com a Hungria, Romênia e a Checoslováquia em 1934. No caso destes três últimos países, a decisão de reconhecer a Rússia decorreu diretamente da aliança franco-russa, enquanto os Estados Unidos tomaram essa resolução porque já não podiam passar sem a União Soviética na sua luta de influência na Ásia oriental, uma luta que se travava contra o Japão.

A brusca reviravolta da política externa alemã – de acordo com os velhos projetos de Hitler de colonizar o Oriente – intensificando os preparativos militares alemães, provocou uma mudança de toda a política externa europeia. E visto que a Alemanha estendeu os métodos fascistas que empregava na política interna ao domínio diplomático, ofendeu os seus adversários do tratado de Versalhes, o que não a impediu, contudo, de prosseguir imediatamente os seus objetivos. O seu principal êxito foi apanhar a Polônia que era até então fiel à política francesa. A Rússia viu-se, pois, de novo ameaçada na sua fronteira ocidental. Para evitar esse perigo prolongou por um período de dez anos os pactos de não-agressão com os três Estados bálticos (Abril de 1934). Esta medida diplomática foi tomada imediatamente após a Alemanha ter recusado assinar, a pedido dos russos, um protocolo relativo à inviolabilidade dos Estados Unidos.

 A RÚSSIA ENTRA NA SOCIEDADE DAS NAÇÕES

Os bolcheviques estão e sempre estiveram longe de conduzir uma política externa antifascista. Durante vários anos tiveram o cuidado de sublinhar as boas relações mantidas com a Itália: em Setembro de 1933, assinaram com esse país um pacto de não-agressão e de neutralidade que se baseava em certos interesses anti-alemães comuns às duas partes. Se os russos, depois de se terem declarado adversários da Sociedade das Nações, se tornaram seus membros, se, depois de terem sido inimigos do Tratado de Versalhes, se tornaram os seus garantes, e se, depois de terem sido aliados dos alemães, os fizeram alvo da sua política europeia, isso deve-se, como o explicou Stálin no XVII Congresso do Partido Comunista Soviético (1934), “a certas modificações da política alemã”. Ele acrescentaria que os fascistas não tinham de modo algum determinado esta nova fase da diplomacia soviética: “Na verdade estamos longe de estar encantados com o regime fascista alemão. Mas não se trata aqui de fascismo, como o demonstra claramente o fato do fascismo na Itália, por exemplo, não ter impedido a União Soviética de estabelecer as melhores relações possíveis com esse país”. De um modo geral, tratava-se para Stálin, de se aproximar dos “países que não procuravam perturbar a paz”. De tal modo que o fascismo italiano aparecia a Stálin, assim como a certos pacifistas alemães, como defensor da “paz”.

Assim, o volte-face [NCD: volte-face pode ser entendido como mudança súbita ou inesperada de opinião, de circunstâncias ou acontecimentos; reviravolta] que se operou na política externa bolchevique foi consequência da reviravolta da política externa alemã. Os russos oscilavam entre as grandes potências imperialistas, decididos e levar a cabo a sua “política de paz” – ou seja, a formar e a apoiar qualquer coligação que, num dado momento, aparecesse como sendo a mais capaz de impedir um ataque militar contra a União Soviética e de isolar o agressor, na ocasião, a Alemanha e o Japão. Por seu lado, a França, que se encontrava diretamente afetada pela falha do sistema de Versalhes e que, além disso, era vizinha da Alemanha, e, portanto, ameaçada por Hitler, tornou-se um dos principais defensores de uma aliança com a Rússia. Pôde prever os grandes contra-ataques à política externa alemã, permanecendo fiel – não sem alguns contratempos – ao princípio de um cerco militar preventivo da Alemanha hitleriana (a ausência da Polônia neste cerco fez-se seriamente sentir). No Outono de 1934, por instigação da França, a Rússia foi convidada por trinta Estados a integrar-se na Sociedade das Nações. Apenas três pequenos países europeus, que podiam ainda permitir-se a reclamar a salvação do capitalismo das mãos do bolchevismo, se opuseram a esse convite: o Portugal fascista, a Holanda semi-fascista e a Suíça democrática. Para o Pravda de 18 de Setembro de 1934, o convite explicava-se pelo medo que tinham as potências capitalistas, que a convidaram, de que “os planos antissoviéticos alimentados por alguns elementos aventureiristas entre os imperialistas, fossem o prelúdio de uma nova guerra mundial que também seria dirigida contra várias potências imperialistas”. No dia seguinte, contudo, o Izvestia declarava que o mundo capitalista estava dividido em dois grupos, um que desejava a paz e outro que procurava a guerra. De modo que as potências que aderiram à Sociedade das Nações, depois do Japão e da Alemanha se terem retirado da organização, foram consideradas como constituindo o grupo pacifista (Itália-Abissínia!). Stálin, por seu lado, explicou que a adesão da Rússia à Sociedade das Nações permitira a esse organismo servir de freio para “retardar ou impedir a irrupção de situações bélicas”. Por fim Litvinov insistiu, em Genebra, na cooperação internacional da União Soviética com a grande maioria das potências capitalistas nos domínios econômicos, artísticos, sociais, científicos e políticos, cooperação de futuro coroada por um objetivo comum: “A organização da paz”.

Não foi senão depois da Sociedade das Nações ter demonstrado, ao longo de toda a sua existência, a incapacidade para assegurar a paz e impedir as intervenções armadas, e de ter convencido da sua inutilidade os pacifistas mais otimistas, que os bolcheviques descobriram por sua vez a ineficácia desse organismo. Sem dúvida que as suas declarações de paz escondiam um melhor conhecimento dos fatos. Mas tinham-se comprometido na via de uma diplomacia capitalista que exige que toda a aliança militar, ofensiva ou defensiva, seja encoberta por uma fraseologia pacifista. Se a sua adesão à Sociedade das Nações permitiu que a Rússia alcançasse grande número de sucessos diplomáticos – dentre os quais a aproximação político-comercial surgiu como um dos mais importantes – consagrou, sobretudo, a cooperação franco-russa. Entre outras considerações a Rússia desejava prosseguir a política de consolidação da sua fronteira ocidental, de modo que, a partir de Dezembro de 1934, encetou conversações com vista a um pacto oriental de que a França viria a ser um dos principais garantes. Se bem que estes esforços não tenham até agora produzido frutos, devido à hostilidade da Polônia e da Alemanha, mesmo assim os Russos não abandonaram a partida. Mas a verdadeira e principal razão da adesão da Rússia à Sociedade das Nações foi a aliança com a França, que se apoia sem dúvida alguma num acordo militar e que oferece uma segurança mútua em caso de agressão alemã.

Fiel aos métodos da diplomacia imperialista, o bolchevismo, porém, sempre matou dois coelhos de uma cajadada. E durante muito tempo o Komintern foi o segundo coelho. Entretanto, as coisas mudaram e os russos procuram hoje conservar as mãos livres para poderem operar reajustamentos na sua política externa, e especialmente para alargarem e modificarem as alianças com as próprias potências imperialistas. Esta política viu-se confirmada, em primeiro lugar, nas suas relações com a Ásia oriental, na medida em que conduziam negociações com o Japão. Desde o início do avanço japonês na Manchúria, que eles se esforçaram por alcançar um acordo com o Japão (venda da linha de caminho de ferro oriental por uma ninharia) e provocar a assinatura de um pacto de não-agressão. Mas a política europeia da União Soviética consiste também em tentativas de aproximação com os principais adversários do momento. Moscou não esqueceu a cooperação que existiu entre a Rússia e a Alemanha, assim como não deixou de especular sobre os planos concebidos pela ala burguesa dos generais da Reichwehr, planos que continuam a refletir o modo como Schleicher[5] entendia uma cooperação com a Rússia (a burguesia imperialista alemã não deseja conquistar um “país em vias de colonização” no Oriente, ela procura objetivos imperialistas). Os bolcheviques contam com a possibilidade das suas forças abrirem uma brecha na Alemanha. Em Janeiro de 1935, no VII Congresso dos Sovietes, Molotov declararia: “Não tivemos, e continuamos a não ter, outro desejo, senão o de manter boas relações com a Alemanha. Todos sabem que a União Soviética tem grande necessidade de desenvolver relações com todos os Estados, incluindo aqueles cujo governo é fascista”. As “teorias racistas e ultra-nacionalistas” dos nacionais-socialistas, sublinhou, não constituem “naturalmente” qualquer obstáculo para o desenvolvimento das relações germano-russas, e acrescentou: “Se bem que não tenhamos uma grande estima por essas “teorias”, não escondemos o respeito que temos pelo povo alemão que consideramos como um dos maiores da nossa época”. Assim, tratava-se unicamente de saber “o que estava exatamente na base da política externa da Alemanha de hoje”, e nomeadamente, de saber se o modo como Hitler encarava a política externa alemã continuava válido.

A EVOLUÇÃO DA POLÍTICA INTERNA RUSSA E A SUA INFLUÊNCIA SOBRE OS RECENTES DESENVOLVIMENTOS DA POLÍTICA EXTERNA

A linha da política externa russa é, pois, a cada instante, determinada em grande parte pelas alianças temporárias entre as grandes potências. Todavia, o modo como os bolcheviques conduzem a sua política externa está estreitamente relacionado com a situação interna. Ora, esta situação sofreu recentemente importantes modificações.

O absolutismo bolchevique conheceu uma fase crítica. Devido às suas origens e às condições de equilíbrio social que prevaleciam nos primeiros tempos do seu desenvolvimento, o regime soviético apoiou-se de modo decisivo na classe operária russa. O proletariado surgiu como a classe privilegiada econômica e politicamente (se bem que estes privilégios tenham sido bastante modestos). O regime absolutista bolchevique apoiou-se nos operários para fazer contrapeso ao campesinato que representava, numericamente, uma maioria esmagadora, e para construir tão rapidamente quanto possível um capitalismo de Estado industrial. A industrialização da Rússia iria por sua vez permitir abolir a propriedade privada rural e coletivizar as terras. Instalou-se um capitalismo coletivista agrário que era, por um lado, capaz de defender os seus interesses simultaneamente contra o aparelho estatal e contra a classe operária, e que podia, por outro, vir a ser a base do próprio aparelho estatal.

Perante o sucesso da política do segundo plano quinquenal, os bolcheviques anunciaram que a Rússia tinha passado do estado agrícola ao estado industrial. O proletariado, que representava 17,3% da população russa em 1928, constituía 28,1% da população em 1934. Durante esse tempo, o número de camponeses coletivizados passou de 2,9 a 45,9% enquanto que o número de camponeses independentes decrescia de 72,9 para 22,5%. Na verdade, a classe operária ainda representa apenas uma minoria. No entanto, está fortemente organizada e, além disso, fabrica o essencial da produção soviética. Perante esta preponderância, o regime absolutista bolchevique viu-se constrangido a apoiar-se na classe camponesa, a fazer passar o centro de gravidade do aparelho estatal para o lado mais fraco, a fim de manter o equilíbrio entre as duas classes e consequentemente, permitir à cúpula absolutista da pirâmide governar.

O campesinato coletivizado tornou-se a classe privilegiada da União Soviética. Se o progresso industrial russo se efetuou, até 1928, em detrimento do campesinato, a própria coletivização fez-se à custa do proletariado. Os milhares que foram investidos na agricultura russa foram tomados ao setor industrial da economia e explicam amplamente a situação social tensa em que se encontrava o proletariado, apesar dos sucessos dos planos quinquenais. A supressão das senhas de pão e o consequente aumento do preço dessa mercadoria foram um presente para os camponeses coletivizados aos quais Stálin tinha prometido, em 1932, um “bem-estar” econômico. Durante os quatro últimos anos, o governo gastou perto de cinco milhões de rublos para a instalação de arrecadações de tratores e de máquinas agrícolas, soma que foi fornecida pela indústria russa. As dívidas contraídas para com o Estado pelas explorações agrícolas coletivas até ao ano de 1933 e que se elevava a 435 milhões de rublos, foram abolidas no final de 1934 pelo governo soviético como doação ao campesinato.

Aparentemente as empresas coletivas são de tipo socialista, o que foi mesmo reconhecido atualmente pela menchevique Domanevskaya. Contudo, a partir do XVII Congresso do Partido, Stálin declarou que era necessário liquidar os princípios igualitários pequeno-burgueses das comunas agrícolas, associações que permitem, em grande medida, a propriedade coletiva dos camponeses. Em Fevereiro de 1935, no congresso dos camponeses coletivizados, foram adotados projetos de leis que tinham sido estabelecidos por Stálin para as empresas coletivas. As terras foram assim legadas perpetuamente às empresas coletivas, o que iria confirmar o secretário da seção moscovita do Partido (cf. Rundschau, 1935, n. 28). As terras nacionalizadas são propriedade privada das coletividades agrícolas. “Todo o camponês coletivizado, explicou o secretário do Partido, pode agora sentir que a assembleia geral dos membros de uma economia de tipo coletivista controla inteiramente essa economia, que nenhum “plenipotenciário” o pode excluir dessa economia, e que participa plenamente nas decisões respeitantes aos negócios correntes dessa economia”. Condenou severamente “as intromissões desastradas e totalmente inadmissíveis na vida das empresas coletivizadas” como acontece com “certas organizações do Partido”, às quais se declarou expressamente que “quem transgride as leis relativas à economia de tipo coletivista não pode ser tolerado, nem dentro do aparelho do Partido, nem no dos sovietes”. Assim, os camponeses coletivizados, senhores absolutos dos seus domínios, foram libertados da tutela dos órgãos do Partido, e o proletariado perdeu para sempre o seu papel de vanguarda do campesinato.

O mesmo se passou politicamente. Paralelamente a esta espantosa reforma sobre as empresas coletivizadas pôde-se assistir à abolição de medidas que prejudicavam os camponeses no domínio político. O VII Congresso dos Sovietes introduziu o sufrágio universal, direto e com voto secreto, instaurando assim uma espécie de “parlamentarismo soviético”, graças ao qual o peso do campesinato pode ser lançado na balança, cada vez que uma questão é posta à votação. Doravante, os congressos dos Sovietes serão dominados por maiorias camponesas, à imagem dos congressos parlamentares. A cúpula do aparelho estatal bolchevique libertou-se assim da pressão do proletariado, uma pressão que lhe era necessária a dado momento do seu desenvolvimento, mas que hoje se revela demasiado perigosa. Porque, apesar de toda a segurança que lhe confere o regime ditatorial, o governo soviético só existe com a condição de utilizar a força das massas, às quais tem de prestar contas e entre as quais tem necessidade de manobrar.

Ao fazer do campesinato a sua principal base, o sistema bolchevique teve, no entanto, que abolir os privilégios dos elementos do Partido cujas origens eram proletárias. Além disso, esta reviravolta constitui uma tal ruptura com a tradição do Partido, que não pode impor-se sem provocar convulsões internas no aparelho do Partido, embora este Partido já tenha conhecido dezenas de depurações. Stálin viu-se mais uma vez constrangido a opor-se ao seu partido a fim de nele eliminar o conservadorismo. E fê-lo com uma brutalidade perfeitamente bolchevique ao executar, senão o desmantelamento progressivo e completo do aparelho de Partido, pelo menos a sua despolitização. Se o predomínio do proletariado no regime absolutista soviético significava de fato, a superioridade do Partido sobre o Estado – permanecendo Stálin como senhor dos dois aparelhos – o predomínio do campesinato no sistema soviético iria consagrar a supremacia do Estado.

Esta subversão capital provocou, até agora, duas medidas da maior importância. A primeira foi a liquidação do sindicato dos velhos bolcheviques, ou seja, a destruição do centro da tradição revolucionária “proletária” do Partido Comunista Russo. (Pelos comunicados da imprensa burguesa, pareceria que Kroupskaya tinha sido igualmente presa). A segunda medida consistiu em reorganizar (pois que tal é a expressão que as autoridades pudicamente empregaram) a Liga dos jovens comunistas segundo as linhas do “princípio da produção” que regia o próprio Partido, e em implantá-la nas fábricas. A Liga tornara-se a melhor arma do Partido nas fábricas, onde desempenhava um papel importante como organizadora de brigadas de choque, coletora de empréstimos governamentais, etc. Era um instrumento político ativo do Partido bolchevique; sem dúvida o mais ativo, porque era simultaneamente o centro das oposições mais diversas e o intérprete da “auto-crítica bolchevique”, que já não se manifesta desde há algum tempo. A Liga dos jovens comunistas foi atingida, primeiro, porque representava o elo mais fraco do Partido. A partir de 22 de Fevereiro de 1935, ou seja, imediatamente após o VII Congresso dos Sovietes que iria elevar a classe camponesa ao trono, foi decidido “reorganizá-la”. No mês de Junho, a reunião plenária do comitê central da Liga inclinou-se perante esta decisão. O ponto de vista social-democrata segundo o qual uma organização de jovens não deve ter funções políticas, mas deve sim limitar-se a um papel educativo, foi posto em prática. Nas fábricas, as organizações de jovens foram dissolvidas. A Liga foi repartida por sete seções: as juventudes operárias, as juventudes camponesas, os jovens pioneiros, os estudantes, os alunos do secundário, os órgãos dirigentes da Liga e os jovens trabalhadores das organizações estatais e comerciais. No plano político, a Liga dos jovens comunistas foi pois liquidada e, desde então, as suas atribuições resumem-se a exaltar os mitos de juventude. “Tal como um jardineiro previdente, escrevia o Pravda num editorial de meados de Junho, ela foi chamada a educar milhões de seres humanos, a moldar a sua concepção do mundo, a instruí-los, a alimentá-los e a amá-los”.

            A LIQUIDAÇÃO DO KOMINTERN

Ao mesmo tempo que se concretizava esta viragem na política interna soviética – a NEP política de Stálin – iriam também cair as últimas barreiras tradicionais que refreavam a política externa bolchevique devido à existência dos partidos comunistas da Europa. A cooperação entre o capitalismo de Estado russo e o imperialismo monopolista e por vezes mesmo abertamente fascista já não é, pois, entravada por qualquer consideração exterior. E a incômoda fraseologia revolucionária pode enfim ser posta de parte.

Até agora a “revolução mundial” era, pelo menos no papel, o primeiro e mais importante garante contra uma intervenção das potências imperialistas. Mas na prática, os bolcheviques contaram sobretudo com a sua diplomacia e com essa instituição que ajudaram a forjar: o poderoso exército vermelho. Kouybichev, o antigo presidente dos comissários do povo, explicou sem equívocos no III Congresso dos Sovietes de Moscou (em Janeiro de 1935): “Ao lutarmos pela paz no campo internacional, não nos devemos esquecer que a nossa melhor garantia contra uma guerra, contra uma intervenção, continua a ser, como no passado, a força sempre crescente do defensor armado da nossa pátria, o Exército Vermelho dos operários e dos camponeses”.

Mas já desde anteriormente que os bolcheviques não contavam nas suas fileiras com esses proletários que tinham aderido aos partidos comunistas, movidos por uma autêntica fé revolucionária, e que tinham sofrido o martírio do terror fascista. A sua recordação era geralmente evocada por declarações de simpatia ou de protesto que em nada deviam afetar a conclusão dos tratados de paz ou de amizade entre a “pátria dos trabalhadores” e os seus opressores fascistas. Aconteceu, todavia, que um escritor cujos serviços tinham sido comprados pelos bolcheviques se exprimiu mais abertamente. Assim, por ocasião da assinatura do novo pacto de não-agressão com a Itália, Péri[6] escreveu no Rundschau (1933, n. 33) com um cinismo sem igual: “No que diz respeito aos nossos irmãos italianos revoltados, que sofrem nas prisões e nas penitenciárias insulares, o fato dos seus torcionários serem constrangidos a negociar com os representantes dessa ordem revolucionária pela qual os mais valorosos dos nossos camaradas sacrificaram a sua liberdade deveria ser interpretado como um encorajamento à resistência e à luta”. Há muito tempo pois que o trabalhador comunista tinha sido abandonado, enquanto o Komintern prosseguia a sua dita luta anti-fascista contra essas potências que já estavam ligadas o mais estreitamente possível à União Soviética.

No entanto, com o último pacto franco-russo, no qual já não se fala de acordo diplomático, mas de cooperação militar direta, os dirigentes bolcheviques até tiveram de renunciar à aparência de um equívoco “revolucionário”. Evidentemente, os franceses insistiram em garantias contra toda a política de agitação fomentada pelo Partido Comunista. Essas garantias, Stálin deu-as. Comunicou a Laval, por ocasião da visita deste a Moscou, que a França era naturalmente obrigada a adotar algumas medidas no interesse da defesa militar. A 16 de Maio, o Izvestia escrevia: “A opinião pública dos dois países deve apoiar a política dos seus governos, que é uma política de paz e de defesa”.

Ao pacto com a França seguiu-se um tratado com a Checoslováquia que aderiu imediatamente ao pacto franco-russo devido à posição perigosa que ocupava entre a Alemanha hitleriana e a contestada Áustria. O Izvestia justificou esta nova aliança nos seguintes termos (não existiria qualquer relação diplomática entre os dois países antes de 1934): “Para encobrir a sua política de conquista o fascismo alemão bem pode elaborar uma teoria pela qual os povos eslavos forneçam o estrume com o qual se faz a história. Mas a União Soviética, que além disso, não toma parte nas mascaradas pan-eslavas, afirma sem equívocos que pensa que a defesa dos povos eslavos, ameaçados de um ataque, não é menos justificada e digna de apoio do que a defesa da França”.

Visto que o que restava do aparelho dos Partidos do Komintern estava desde então exangue [NCD: enfraquecida], o reajustamento da linha política à nova situação cumpriu-se sem a menor dificuldade. A política de alianças militares com os Estados capitalistas exige que os partidos do Komintern ponham fim à sua política de agitação nos respectivos países. A operação foi dirigida a partir de Moscou, e deixa prever o fim próximo dos partidos comunistas europeus em geral. As coisas passaram-se como se segue. Em primeiro lugar, era necessário que os partidos francês e checo se convertessem a uma política de defesa nacional, o que se verificou rapidamente. Na verdade, o Partido Comunista Francês viu-se perante a difícil tarefa de conciliar esta linha com o anti-militarismo tradicional dos trabalhadores franceses. Assim, teve de ostentar prudência e diplomacia. “O auxílio mútuo compreende medidas correspondentes para a defesa da paz”, escrevia Magnien no Humanité de 16 de Maio. E, dois dias mais tarde, Vaillant-Couturier declarava no mesmo jornal: “Um bolchevique deve fazer tudo para preservar a paz”. Depois de ter comparado o pacto à NEP, acrescentava que se tratava de ganhar tempo a fim de adiar a guerra e proteger “a nossa pátria socialista”. Não era necessário, dizia, procurar outra coisa nas palavras de Stálin. Além disso, o Partido Comunista Francês garantiu formalmente que continuava a ser o defensor dos soldados franceses e que pretendia ganhar para si o exército. Na prática, já nada mais lhe resta no entanto, do que exigir que os oficiais fascistas e reacionários sejam expulsos do exército, pois que não lhe podem, apesar de tudo, confiar a tarefa delicada de defender a U.R.S.S.

As coisas foram mais fáceis na Checoslováquia, onde o nacionalismo por um lado, e a docilidade social-democrata do Partido por outro, eram consideravelmente mais importantes. Sverma, um deputado comunista checo recentemente eleito, declarava a 24 de Maio, numa reunião do Partido Comunista em Praga que, no caso do exército checo lutar consequentemente contra o imperialismo alemão, os comunistas checos apoiariam essa luta e defenderiam o exército. Ele próprio se declarou a favor da independência da nação checa que seria assegurada uma vez expulsos os fascistas do exército.

Para que a “defesa da pátria” fosse retomada eficazmente pela política das nações capitalistas aliadas de acordo com os desejos da diplomacia soviética, o Komintern iria uma vez mais procurar um terreno de entendimento parlamentar. O que significava de fato, que os Partidos do Komintern deviam permanecer ligados à social-democracia dos países em questão. A frente unida com os dirigentes do “fascismo social” tornou-se, de um dia para o outro, a única palavra de ordem conforme a linha dos diversos partidos comunistas. Em França, assistiu-se ao aparecimento de uma “frente comum” que deu lugar a uma vaga de entusiasmo e de atividades superficiais. Se, no conjunto, as negociações não se desenrolaram tão facilmente como o previsto, isso deveu-se a certas divergências de opinião quanto à extensão da frente. Porque, enquanto que o Partido Comunista desejava englobar até os partidos burgueses de esquerda (se é preciso fazer uma coligação, que se faça com a burguesia democrática!), os sociais-democratas, a isso opondo o seu não tradicional, adquiriram entre os trabalhadores franceses a reputação de serem os mais extremistas, os “mais à esquerda” de todos os partidos. Blum, contudo, no congresso do seu partido em Mulhouse (Junho de 1935) não pôde negar que “as declarações de Stálin estão de acordo com as decisões que foram adotadas sobre a defesa nacional pelo Partido Socialista Francês em Tours, há três anos, e que serviram para organizar a união dos socialistas e dos comunistas. No caso de uma invasão alemã, todos os proletários devem voltar-se contra o inimigo porque a derrota da França significaria também a da Rússia” (N. Z. Z., 13 de Junho). É mesmo possível que Moscou decrete a liquidação dessas ramificações europeias se as coisas forem ainda mais longe. Na conjuntura mundial atual, a situação mais favorável aos planos traçados por Moscou seria ainda os bolcheviques conseguirem influenciar indiretamente os partidos social-democratas, sem disso serem responsáveis. (Esta tendência para se colocarem do lado da social-democracia não é própria dos moscovitas. Encontramo-la em todas as diferentes correntes bolcheviques: em França, na Suíça, etc., os trotskistas já estão na social-democracia; noutros países esforçam-se por seguir a mesma via. O Partido Comunista (C.P.O.) de Schaffhausen (Suíça) uniu-se ao partido socialista suíço em Junho de 1935).

O Partido Comunista Suíço seguiu sem reservas o movimento para a social-democracia. Depois de ter feito campanha contra a “iniciativa de crise” conduzida pela social-democracia e pelos sindicatos, iria, pouco tempo antes da votação, fazer apelo a favor dessa iniciativa. Claro que a situação tinha “mudado fundamentalmente”. O Partido Socialista Suíço tinha naturalmente proposto que o parlamento fosse afastado ao máximo para que a iniciativa fosse levada a bom termo, mas o Conselho federal (o Bundesrat) tinha em vista poderes ainda mais consideráveis para si próprio. De tal modo que o Partido Comunista Suíço, fiel à receita social-democrata do menor mal, preferiu uma semi-ditadura a uma ditadura a três quartos. A esta derrocada seguiu-se a oferta ao Partido Socialista Suíço de uma frente unida, oferta a que se seguiu por seu turno uma proposta de dissolução da Oposição Sindical Vermelha (R.G.O.) de Basileia. O Partido Socialista Suíço manifestou cinco condições, entre as quais referiremos a liquidação da R.G.O. e de qualquer outra organização comunista separada, a suspensão de todos os ataques que visam a política social-democrata, especialmente os funcionários do aparelho administrativo, e a aceitação incondicional do “plano de trabalho” suíço. O Partido Comunista Suíço teve naturalmente que subscrever estas condições. Teve mesmo que avalizar a nota irônica do comitê do Partido Socialista de como não se trataria, em todo caso, de uma cooperação com os partidos burgueses, como o haviam exigido os comunistas franceses.

Toda a política do Partido Comunista encontra-se hoje orientada para a ideia de uma “frente unida”, do mesmo modo que se apoiou, até 1932, no slogan de “social-fascismo”. Num longo artigo do número 11 de “a Internacional Comunista”, Bela Kun analisou a tática e os resultados obtidos pelos diferentes partidos comunistas por ocasião das manifestações da frente unida no 1º de Maio. No que diz respeito à questão alemã, explicou-a como se segue: se a maioria do comitê executivo do Partido Socialista Alemão em Praga se esforça verdadeiramente por apoiar a política de guerra imperialista da Alemanha hitleriana a fim de ocupar de novo o seu lugar no jogo, torna-se então necessário estreitar os laços entre os comunistas e os diversos grupos da ala esquerda do Partido Socialista Alemão, de modo a criar “exemplos ativos de frente unida” e reforçar a forte pressão das massas sobre o comitê executivo do Partido Socialista Alemão em Praga. Esta interessante dissertação demonstra, em primeiro lugar, que o Partido Comunista deve ter tido em fraca conta pelos trabalhadores alemães porque, de outro modo, não se teria voltado para o comitê executivo do Partido Socialista Alemão depois de ter declarado, no dia a seguir à vitória alcançada por Hitler: o Partido Socialista Alemão continua a ser o inimigo principal. Prova, além disso, que o Komintern só se “bate” para obter uma pequena parcela de influência sobre os vestígios de um aparelho social-democrata historicamente ultrapassado – um aparelho que, na época em que Kun escrevia o seu artigo, punha cobro à luta travada pelos “esquerdistas” que procuravam obter a sua parte do milhão de marcos então na posse do comitê executivo do Partido, expulsando-os das suas fileiras, para compensar os serviços que ele próprio tinha prestado aos trabalhadores alemães. Além disso, a polícia secreta alemã (a Gestapo) varreu largamente o aparelho ilegal do Partido Socialista Alemão e prosseguiu as suas numerosas detenções, aproveitando os serviços prestados por dois dos seus espiões que agiam no seio do comitê central do partido. De fonte segura sabemos hoje que o comitê central do Partido Socialista Alemão já não tem qualquer contato com a Alemanha e que decidiu não o procurar estabelecer dentro dos próximos meses.

CONCLUSÃO

Vimos, pois, como a política externa da União Soviética, que tem o seu ponto de partida na revolução russa, se transformou logicamente até não ser mais do que um elo do sistema de política de alianças entre potências imperialistas. De acordo com as exigências temporárias que acompanharam as diferentes fases da sua evolução, dirigiu os partidos comunistas às costas do proletariado europeu até ao ponto em que a sua liquidação política a favor da política nacional e reformista da social-democracia não é mais do que uma questão de forma. Foi necessário, para acabar essa obra, que o proletariado europeu fosse agitado por uma vaga de entusiasmo ilusório a propósito da “frente unida” e que se envolvesse, nessa época de contrarrevolução e de reação, no impasse do nacionalismo. Doravante, qualquer nova medida será mais um passo para a derrocada total. Por agora, nos países europeus, não se revela a menor reação de classe contra este declínio que prossegue, tanto do ponto de vista ideológico como prático. Parece ser necessário esperar que a social-democracia e o bolchevismo acabem de destruir todo o poder de ação do proletariado antes que este possa enfim ver surgir a hora da vingança. Mas a situação mundial está neste momento carregada de dificuldades econômicas e políticas, de tendências opostas e de contradições que, a longo prazo, chegará inevitavelmente a vez do proletariado. A obra de destruição executada por todo “o velho movimento” operário tornará sem dúvida esse advento incomparavelmente doloroso, mas ao mesmo tempo abrirá a via do seu triunfo final.


[1] Data da votação dos créditos de guerra pelo S.P.D. em 1914. (N.T.F.)

[2] Levantamento operário na Alemanha central, desencadeado por certos dirigentes da I.C. (missão de Bela Kun). Após a derrota do levantamento, este foi unanimemente condenado pelos dirigentes de Moscou (Lênin, Trotsky, Zinoviev). (N.T.F.).

[3] Assinado a 16 de Abril de 1922. (N.T.F.).

[4] Império Manchu – nome adquirido pela Manchúria quando foi separada da China pelo Japão, durante o período de 1932-45. (N.T.P.).

[5] Kurt von Schleicher, general alemão. Partidário da aproximação com a Rússia soviética durante os anos 20. (N.T.F.).

[6] Líder stalinista francês. (N.T.F.).

O ensaio é uma transcrição da versão que se encontra disponível no seguinte livro: A Contra-Revolução Burocrática. Coimbra: Centelha, 1978. Original em: http://aaap.be/Pages/Marxistisk-Arbejder-Politik.html.

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