A Contrarrevolução Fascista – Karl Korsch

Nota do Crítica Desapiedada: Leia também os seguintes artigos que compõem o conjunto de ensaios de Korsch sobre o fenômeno nazifascista:
Teses em direção a uma crítica da concepção fascista de Estado (1932)
Prelúdio a Hitler – A Política Interna da Alemanha 1918-1933 (1940)
A luta dos trabalhadores contra o fascismo (1941)
A luta pela Grã-Bretanha, A luta pela Democracia e os objetivos de guerra da Classe Operária (Prolegômenos para uma discussão política) (1941)
Notas sobre a História: As Ambiguidades das Ideologias Totalitárias (1942)

Primeira publicação em Living Marxism, Volume 5, número 2, outono de 1940, pp. 29-37

Que esperança nós, marxistas revolucionários, remanescentes de uma época passada, herdeiros de suas mais avançadas teorias, ilusões, ideologias, podemos ter por uma virada revolucionária do movimento arrasador do fascismo vitorioso? O destino da França finalmente provou que o velho jargão marxista da “revolução mundial” assumiu novo significado em nossa época. Não nos encontramos hoje em meio a uma revolução mundial socialista e proletária, mas de uma imperialista e fascista. Assim como na época precedente toda grande derrota (a derrota da França em 1871, a da Rússia, Alemanha e Hungria, em 1905, 1917 e 1918), resultou em uma revolução genuína, também em nosso tempo, cada país derrotado recorre a uma contrarrevolução fascista. Além disso, a guerra atual se tornou ela mesma um processo revolucionário, uma guerra civil de tendência predominante contrarrevolucionária indubitável. Assim como numa corrida de cavalos sabemos que o vencedor será sem dúvida um cavalo, embora não saibamos qual, também na atual guerra a vitória de qualquer partido resultará em um passo gigante em direção à fascistização da Europa, senão de todo o mundo Europeu, Asiático e Americano de amanhã.

I.

Parece haver dois caminhos fáceis para o marxista “ortodoxo” do presente para lidar com este problema difícil. Se bem treinado no pensamento filosófico hegeliano, ele pode dizer que tudo aquilo que é é racional, e que, por uma daquelas mudanças dialéticas pelas quais a história se regozija o socialismo se realizou pela revolução implicada na vitória do fascismo. Assim, Hegel ele mesmo seguiu a estrela nascente da Revolução Francesa para, posteriormente, abraçar a causa de Napoleão, terminando pela aclamação do Estado prussiano que emergiu das guerras anti-Napoleônicas de 1812-1815 como a efetivação da “ideia” filosófica e como o “Estado da Razão” correspondente ao estágio dado de seu desenvolvimento histórico.

Ou, ao contrário, nosso marxista ortodoxo pode se recusar, no presente, a ir tão longe quanto reconhecer os aliados fascistas de Stalin como genuínos promotores do socialismo de nosso tempo. Assim, ele deveria se contentar com o sentimento de que a vitória do fascismo, a economia planificada, o capitalismo de Estado, e o matrimônio de todas as ideias e instituições da “democracia burguesa” tradicional nos trará ao limiar da revolução social genuína e da ditadura do proletariado, tanto quanto, de acordo com os ensinamentos da Igreja primitiva, a vinda definitiva de Cristo será precedida pela chegada do Anticristo que será tão parecido quando Cristo em aparência e ações que os fieis terão dificuldade em distingui-los.

Assim considerando, nosso marxista ortodoxo não só teria de se conformar à Igreja, mas também se manter alinhado com os precedentes delineados pelos socialistas primitivos e pelos marxistas “revolucionários” eles mesmos. Não foi só o ex-ministro Guizot[1], moderadamente progressista, quem foi enganado pelas censuras do golpe de Estado de Luís Napoleão em 1851, despertando o alarme, ao saber do golpe: “este é o triunfo completo e final do socialismo”. Mesmo o representante principal do socialismo francês, P. J. Proudhon, deixou-se levar pela violenta atitude antiburguesa demonstrada pelo imperialista revolucionário e dedicou um famoso panfleto à tese de que o golpe de Estado de 2 de dezembro de fato “demonstrou a revolução social”.

De fato, em muitos sentidos o rescaldo contrarrevolucionário de 1848 é comparável ao movimento contrarrevolucionário infinitamente mais sério e extenso pelo qual a sociedade europeia hoje passa após a experiência das revoluções russa, alemã e europeias que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. Todo partido e tendência políticas tiveram que passar por um certo período de perplexidade até que se adaptasse a uma situação totalmente transformada. Marx mesmo, ainda que desprezando totalmente o aventureiro imperialista por conta de sua inépcia pessoal, se inclinou a acreditar no significado revolucionário do golpe contrarrevolucionário. Ele descreveu a consequência histórica dos dois anos de derrota revolucionária (1848 e 1849), pela afirmação paradoxal de que “desta vez, o avanço do movimento revolucionário não se efetivou por suas conquistas tragicômicas, mas, ao contrário, pela criação de uma contrarrevolução uma e poderosa, através da criação de um antagonista a quem, por oposição, o partido da revolta alcançará sua verdadeira maturidade revolucionária”. E mesmo após o evento fatídico, ele reafirmou de forma mais enfática sua convicção de que “a destruição da república parlamentar contém o gérmen do triunfo da revolução proletária”. Isto foi exatamente o que os comunistas alemães e seus mestres russos disseram 80 anos depois quando deram as boas-vindas ao advento do nazismo alemão como “uma vitória do comunismo revolucionário”.

Esta atitude ambígua de Proudhon e Marx em relação à contrarrevolução foi repetida dez anos depois por Ferdinand Lassalle, um discípulo teórico próximo de Marx e, à altura, o líder mais proeminente do movimento socialista alemão em ascensão. Lassalle estava preparado para cooperar com Bismarck quando aquele estadista inescrupuloso brincava com a ideia de subornar os trabalhadores a aceitar seus planos imperialistas por meio de uma adoção aparente da franquia universal e algumas outras ideias tomadas de empréstimo da revolução de 1848 e do Segundo Império. Lassalle não viveu para ver Bismarck no fim da década de 1870, quando ele havia subjugado o partido liberal e o católico ultramontano, retrocedendo a seu velho sonho de impor uma espécie de “socialismo tory”, baseado em perseguição e supressão cruéis de todos os movimentos proletários socialistas genuínos.

Não há necessidade de discutir a conversão indiscriminada de internacionalistas a nacionalistas e de sociais democratas proletários em parlamentares democráticos burgueses durante e após a Primeira Guerra Mundial. Mesmo antigos marxistas como Paul Lensch[2] aceitaram a guerra do Kaiser como uma concretização realista dos sonhos de uma revolução socialista, e invertida que os socialistas mesmos glorificaram como uma “revolução dos revolucionários”. Houve uma fração “nacional-bolchevista” do Partido Comunista Alemão muito antes de um Partido Nacional Socialista Hitleriano. Da mesma forma, a aliança militar concluída “seriamente e por um longo tempo” entre Stalin e Hitler em agosto de 1939, não é novidade alguma para aqueles que acompanharam o desenvolvimento histórico das relações entre a Rússia Soviética e a Alemanha imperial e republicana ao longo dos últimos vinte anos. O tratado de Moscou de 1939 havia sido precedido pelos tratados de Rapallo[3] em 1920, e de Berlim em 1926. Mussolini já proclamava abertamente seu novo credo fascista por anos quando Lenin repreendia os comunistas italianos por falharem em usar a seu favor aquela personalidade dinâmica inestimável a serviço de sua causa revolucionária. Desde 1917, durante as negociações de paz de Brest Litovsk[4], Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht estavam cientes do perigo iminentes que ameaçava a revolução proletária. Em várias palavras, eles declararam que o “socialismo russo baseado nas baionetas prussianas reacionárias seriam o pior que poderia acontecer ao movimento revolucionário operário”.

Deste registro histórico, parece que há algo de básico errado com a teoria marxista tradicional da revolução social, bem como com sua aplicação prática. Hoje mais do que em qualquer período na história, não há dúvida de que a análise marxiana do mecanismo do modo de produção capitalista e de seu desenvolvimento histórico está fundamentalmente correta. Entretanto, parece que a teoria marxiana em sua forma aceita até agora é incapaz de lidar com os novos problemas que surgem no curso de um desenvolvimento contrarrevolucionário que não é meramente ocasional e temporal, mas enraizado, compreensivo e duradouro.

II.

A deficiência principal do conceito marxiano de contrarrevolução é que Marx não concebeu (e do ponto de vista de sua experiência histórica ele não poderia fazê-lo), a contrarrevolução como uma fase normal do desenvolvimento social. Assim como os burgueses liberais, ele pensou na contrarrevolução como um distúrbio temporário “anormal” dentro de um desenvolvimento normalmente progressivo. (Do mesmo modo, os pacifistas de hoje pensam na guerra como uma interrupção anormal de um estado normal de paz, e médicos e psiquiatras até recentemente pensavam na doença e, mais especificamente, nas doenças da mente, como estados anormais do organismo). Entre a abordagem marxiana e aquela da burguesia liberal típica há, entretanto, uma diferença importante: elas partem de uma ideia totalmente diferente do que seja uma condição normal. O burguês liberal considera condições existente, ou pelo menos suas características básicas, como o estado normal das coisas, para as quais qualquer mudança radical seria uma interrupção anormal. Não importa, para ele, se o distúrbio de condições normais existentes resulte de um movimento genuinamente progressista ou de uma tentativa revolucionária de tomar de empréstimo o trovão da revolução para o emprego da agressão contrarrevolucionária. Ele teme a contrarrevolução tanto quanto a revolução somente por conta de sua semelhança com uma revolução genuína. É por isso que Guizot chamou o golpe de Estado de “triunfo completo e final da revolução socialista” e porque, neste sentido, Hermann Rauschning[5] hoje descreve o hitlerismo como uma “revolta do niilismo”.

Contra o conceito burguês, a teoria marxiana é dotada de uma superioridade distinta. Ela entende a revolução como um processo completamente normal. Alguns dos melhores marxistas, incluindo o próprio Marx, e Lênin, até chegaram a dizer que a revolução é o único estado normal da sociedade. Assim é, de fato, sob aquelas condições históricas objetivas que são sobriamente divisadas por Marx em seu prefácio à “Crítica da Economia Política”.

Não obstante, Marx não aplicou o mesmo princípio objetivo e histórico ao processo de contrarrevolução, que era conhecido por ele somente de forma subdesenvolvida. Deste modo, Marx não viu, assim como a maior parte das pessoas hoje, que desenvolvimentos contrarrevolucionários importantes tais quais os do nazifascismo atual, a despeito de seus métodos revolucionários violentos, tem muito mais em comum com evolução do que com o processo revolucionário genuíno. É bem verdade que, em seu discurso e propaganda, tanto Hitler quanto Mussolini dirigiram seus ataques majoritariamente ao marxismo revolucionário e ao comunismo. Do mesmo modo, é verdade que antes e depois de sua captura do poder estatal, ambos tentaram violentamente ceifar toda tendência marxista e comunista nas classes trabalhadoras. Ainda assim, esse não é o principal conteúdo da contrarrevolução fascista. Em seus resultados efetivos, a tentativa fascista de renovar e transformar o estado tradicional da sociedade não oferece uma alternativa à solução radical mirada pelos comunistas revolucionários. A contrarrevolução fascista, ao contrário, tentou substituir os partidos socialistas reformistas e os sindicatos. E nisto obteve um grande sucesso.

A lei histórica subjacente, a lei da contrarrevolução fascista plenamente desenvolvida de nosso tempo, pode ser formulada da seguinte maneira: após a completa exaustão e derrota das forças revolucionárias a contrarrevolução fascista tenta cumprir, por novos meios revolucionários vistos sob nova forma, as tarefas sociais e políticas que os assim chamados partidos reformistas e sindicatos prometeram alcançar, mas nos quais não podiam ser bem sucedidos dadas as condições históricas.

Uma revolução não ocorre em algum ponto arbitrário do desenvolvimento social, mas em um estágio definido. “Em certo estágio de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção (ou relações de propriedade) existente, dentro das quais elas tinham até então se movimentado. Estas relações deixam de ser formas de desenvolvimento para se tornarem grilhões das forças de produção. É então que um período de revolução social se instaura”. E novamente Marx enfatizou (de certa forma exagerada), o princípio objetivo de sua teoria materialista da revolução, segundo a qual “a formação da sociedade nunca perece até que todas as forças de produção para as quais ela é ampla o suficiente tenham sido desenvolvidas”. Tudo isso é verdade o suficiente. Todos nós vimos como o socialismo evolucionista atingiu seu limite. Vimos como o velho sistema capitalista baseado na competição livre e toda sua vasta superestrutura política e ideológica foi confrontada com uma depressão e uma decadência crônicas. Não parecia haver caminho aberto exceto para uma transformação completa para uma forma de sociedade outra, muito mais desenvolvida, que fosse efetivada pela revolução da classe operária.

O novo desenvolvimento histórico dos últimos vinte anos mostrou, entretanto, que havia um outro caminho aberto. A transição para um novo tipo de sociedade capitalista que não poderia ser atingida por meios pacíficos e democráticos do socialismo e do sindicalismo tradicionais, foi concretizada por um movimento contrarrevolucionário e anti-proletário, ainda que objetivamente progressista e ideologicamente anticapitalista e plebeu, que aprendera a aplicar a seus objetivos evolucionistas restritos os métodos irrestritos desenvolvidos durante a revolução precedente. (Particularmente, tanto Hitler quanto Mussolini aprenderam muito com a escola do Bolchevismo russo). Assim, parecia que a evolução da sociedade capitalista não havia ainda atingido seu limite histórico quando a classe dominante e os socialistas reformistas (aqueles autointitulados doutores do capitalismo doente), alcançaram os limites de suas possibilidades evolucionárias. À fase de reformas democráticas pacíficas seguiu-se uma outra fase evolucionária do desenvolvimento: aquela da transformação fascista, revolucionária em sua forma política, mas evolucionista em seus conteúdos sociais objetivos.

A razão decisiva pela qual a formação social capitalista não pereceu depois do colapso da Primeira Guerra Mundial foi o fato de que os trabalhadores não fizeram sua revolução. “O fascismo – disse seu inimigo mais próximo – é uma contrarrevolução à revolução que nunca se deu”. A sociedade capitalista não pereceu, mas, ao contrário, ingressou em uma nova fase revolucionária sob o regime contrarrevolucionário do fascismo, porque não foi destruída por uma revolução operária bem-sucedida e porque não havia, de fato, desenvolvido todas as forças produtivas. A premissa objetiva e subjetiva são igualmente importantes para a conclusão contrarrevolucionária.

Deste ponto de vista, todas aquelas ilusões confortáveis sobre um significado revolucionário oculto na vitória temporária da contrarrevolução, que os marxistas primitivos frequentemente toleravam, devem ser abandonadas de todo. Se a contrarrevolução é conectada com a revolução social somente de forma extremada e superficial por meio de seus procedimentos, mas, em seu conteúdo efetivo, muito mais relacionada à evolução de um sistema social dado, e é de fato uma fase histórica particular daquela evolução social, então não pode mais ser vista como uma revolução disfarçada. Não há razão para saudá-la seja como prelúdio imediato da revolução genuína, seja como fase intrínseca do processo revolucionário ele mesmo. Aparece como uma fase particular de todo o processo de desenvolvimento, não inevitável como revolução, ainda que se tornando um passo inevitável no desenvolvimento de uma dada sociedade sob certas condições históricas. Atingiu, até agora, sua forma mais compreensiva e importante na atual renovação e transformação fascista da Europa que, em seu aspecto econômico básico, aparece como uma transição da forma privada e anárquica do capitalismo competitivo para um sistema planejado e organizado de capitalismo monopolista ou de capitalismo de Estado.

III.

Seria o maior desvario e, para pessoas minimamente envolvidas com as grandes descobertas de Marx no campo das ciências sociais, um total relapso a um modo de pensamento pré-materialista e pré-científico, se se esperasse que o progresso histórico do capitalismo competitivo à economia planificada e ao capitalismo de Estado pudesse ser repelido por qualquer poder no mundo. Menos ainda pode o fascismo ser derrotado por aqueles que, após uma centena de anos de aquiescência desavergonhada no total abandono de suas ideias originais, se apressassem em conjurar a infância da era capitalista com suas crenças em liberdade, equidade, fraternidade e livre comércio, enquanto ao mesmo tempo sub-repticiamente e ineficazmente tentassem imitar o tanto quanto possível a abolição fascista daqueles último remanescentes das ideias capitalistas primitivas. Eles sentem uma ânsia súbita e inesperada de celebrar o 14 de julho da Revolução Francesa enquanto, ao mesmo tempo, sonham em destruir o fascismo adotando métodos fascistas.

Em oposição ao espírito artesão e pequeno-burguês do socialismo utópico primitivo, a primeira palavra do socialismo científico e proletário afirmou que a grande indústria e a era das máquinas chegaram para ficar, e que os trabalhadores industriais modernos encontraram a cura para os males da era industrial na base de um desenvolvimento ulterior das próprias forças industriais novas. Da mesma maneira, os socialistas científicos e proletários de nosso tempo devem tentar encontrar remédios para os erros do capitalismo monopolista e da ditadura fascista, na base do monopólio e do capitalismo de Estado, eles mesmos. Nem o livre comércio (que não era de modo algum livre aos trabalhadores), nem os outros aspectos da democracia burguesa tradicional (livre debate, livre imprensa e rádio), jamais serão restaurados. Eles nunca existiram para a classe suprimida e explorada. No que toca os trabalhadores, eles simplesmente trocaram uma forma de servidão por outra.

Não há diferença essencial entre o modo em que o New York Times e a imprensa nazista publicam todo dia “tudo aquilo que pode ser publicado”. É um modo dado pelas condições existentes de privilégio, coerção e hipocrisia. Não há diferença de princípio entre as oitenta e poucas vozes das corporações gigantes do capitalismo que, na rádio estadunidense, recomendam a legiões de ouvintes silenciosos o consumo de Ex-Lax, Camels e produtos da vizinhança, além de música, guerra, baseball, notícias locais e sketches melodramáticas, e a voz suave do Sr. Goebbels, que recomenda armamentos, pureza racial e idolatria ao Führer. Também ele se predispõe a permitir aos seus ouvintes a música; muita música, inclusive, e notícias esportivas e tudo aquilo de apolítico que puderem consumir.

Esta crítica aos métodos ineptos e sentimentais do antifascismo atual não implica, de forma alguma, que os trabalhadores devem fazer abertamente aquilo que a burguesia faz sob o disfarce de uma assim chamada luta antifascista, isto é, se aquiescer na vitória do fascismo. O ponto é lutar contra o fascismo e seu próprio terreno, e não por meios fascistas. Isto parece ao presente autor o significado racional daquilo que foi descrito de certo modo místico por Alpha, na edição de primavera de Living Marxism, como a tarefa específica das “tropas de choque” na luta antifascista. Alpha antecipou que mesmo se a guerra de sítio localizada, corrente durante os sete primeiros meses do presente conflito, se estendesse a uma guerra mundial fascista geral, isto não seria uma “guerra total” ou uma liberação irrestrita dos poderes de produção existentes para o propósito da destruição. Ao contrário, ainda seria uma guerra monopolística na qual os poderes de produção (destruição) existentes seriam restringidos de diversos modos para o benefício dos interesses monopolistas dos grupos e classes privilegiados. E essa guerra permaneceria deste tipo por medo do efeito emancipatório que uma mobilização total das forças produtivas, mesmo restritas ao propósito da destruição, adquiriria para os trabalhadores ou, sob as condições atuais de uma guerra totalmente mecanizada, para as tropas de choque que desempenam o trabalho real da guerra totalmente mecanizada.

Este argumento de Alpha pode ser aplicado tanto de maneira mais ampla quanto de modo mais convincente. Antes de tudo, podemos desconsiderar por ora (ainda que tenhamos que retornar a isso mais tarde), a restrição peculiar do argumento sobre as “tropas de choque” e às condições da guerra. Toda a distinção tradicional entre paz e guerra, produção e destruição perdeu recentemente muito daquela verossimilhança que possuía em um período anterior da sociedade capitalista moderna. A história dos últimos dez anos mostrou que, desde que, em um mundo inebriado de aparente prosperidade, o Pacto Kellogg[6] estadunidense proibiu a guerra, a paz foi abolida. Desde o início o Marxismo era comparativamente livre da ideia simplória que cria em uma diferença imediata e clara entre a produção-para-uso e a produção-para-lucro. A única forma de produção-para-uso sob condições capitalistas existentes é a produção-para-lucro. O trabalho produtivo, para Marx como para Smith e Ricardo, é o trabalho que produz um lucro para o capitalista e, incidentalmente, uma coisa que também pode ser útil para as necessidades humanas. Não há possibilidade de estabelecer uma distinção mais profunda entre uma utilidade construtiva e uma destrutiva, uma “boa” e uma “má”. A defesa Goebbeliana da “produtividade” do trabalho gasto em armamentos na Alemanha, se referindo ao montante de trabalho “útil” gasto na produção de cosméticos nos EUA não apresentava novidade alguma para o marxista. Marx, que descreveu a classe trabalhadores em sua luta revolucionária como “a maior de todas as forças produtivas”, não teria tido medo em reconhecer a guerra em si mesma como um ato de produção, e as forças destrutivas da guerra mecanizada atual como parte das forças produtivas da sociedade capitalista moderna. Ele, como Alpha, teria reconhecido as “tropas de choque” em sua atividade “destrutiva” na guerra tanto quanto em sua atividade produtiva na indústria (armamentos e outras indústrias de guerra – todas são indústrias!), como trabalhadores reais, uma vanguarda revolucionária da moderna classe trabalhadores. É um fato historicamente estabelecido que o soldado (o mercenário) foi o primeiro trabalhador assalariado moderno.

Deste modo, a velha contradição marxiana entre as forças produtivas e as relações de produções estabelecidas reaparece tanto nas atividades bélicas quanto nas atividades pacíficas do fascismo moderno. Com isto reaparece também o velho contraste entre os trabalhadores que, como classe, estão interessados na aplicação e desenvolvimento completos das forças produtivas, e as classe privilegiadas, monopolista dos meios materiais de produção. Mais do que em qualquer momento anterior o monopólio do poder político se revela como o poder de governar e controlar o processo social de produção. Ao mesmo tempo isto significa, sob as condições presentes, o poder de restringir a produção: tanto a produção da indústria durante a paz quando a produção destrutiva durante a guerra, regulando tal poder de acordo com o interesse da classe monopolista. Mesmo o interesse “nacional” que deveria subjazer à guerra fascista atual levada a cabo por Hitler e Mussolini é revelada pela própria guerra (e será revelada de forma mais clara com a paz que se seguirá), como um interesse da classe capitalista internacional e monopolista. De modo muito mais claro do que ao fim da Primeira Guerra Mundial, se tornará claro que esta guerra é regida por ambos os partidos – pelos agressores fascistas e pelos defensores “democratas” – como uma luta contrarrevolucionária contra os trabalhadores e os soldados que, por meio de seu trabalho na paz e na guerra, prepararam e lutaram a verdadeira guerra suicida.

Qual seria, então, a esperança para os antifascistas que se opõem à presente guerra europeia e que se oporão à próxima guerra no hemisfério? A resposta é que, assim como a vida ela mesma não cessa ao ingressar a guerra, o trabalho material da produção industrial moderna também segue adiante. Os fascistas de hoje concebem de modo correto a integralidade de sua economia, substituta de uma economia socialista genuína, nos termos de uma “economia de guerra” (Wehrwirtschaft). Assim, é tarefa dos trabalhadores e dos soldados garantir que este trabalho não se concretize mais dentro das regras restritivas impostas ao trabalho humano pela sociedade capitalista, monopolista e opressiva do presente. Isto deve ser feito de modo prescrito pelos instrumentos particulares a serem utilizados, isto é, de modo prescrito pelas forças produtivas disponíveis no estágio atual de desenvolvimento industrial. Desta maneira, tanto as forças produtivas quanto aquelas destrutivas da sociedade atual (como todo trabalhador, todo soldado, sabe), podem ser usadas somente sob a condição de irem contra os atuais chefes monopolistas. A mobilização total das forças produtivas pressupõe a mobilização total da maior das forças produtivas, que é a classe revolucionária ela mesma.

Por Karl Korsch


[1] François Guizot (1787-1874), foi um historiador, orador e homem de Estado francês anterior ao período revolucionário de 1848. Liberal moderado, serviu como primeiro-ministro da França entre 1832 e 1837.

[2] Paul Lensch (1873-1926), foi um jornalista e político do Partido Social-Democrata Alemão.

[3] Tratado de Rapallo, assinado em 16 de abril de 1922 entre a República Alemã e a República Federativa Socialista Soviética Russa, firmou a renúncia de reclames territorial e financeiro entre os dois países após como consequência do Tratado de Brest-Litovsk.

[4] O Tratado de Brest-Litovsk (também conhecido na Rússia como Tratado de Brest), assinado em 3 de março de 1918 entre o governo Bolchevique e os Poderes Centrais (Império Alemão, Áustria-Hungria, Bulgária e Império Otomano), deu fim à participação russa na Primeira Guerra Mundial. O tratado cedeu os Estados Bálticos à Alemanha e as províncias russas de Kars Oblast ao Império Otomano, além de reconhecer a independência ucraniana.

[5] Hermann Rauschning (1887-1982), foi um conservador reacionário, presidente da Cidade Livre de Danzig (Gdansk) de 1933 a 1934, quando rompeu com o nazismo. Imigrando aos EUA, Rauschning se tornou uma voz denunciadora do nazismo. Extensamente denunciado pelo historiadores, Rauschning é, não obstante, uma figura de certa importância por conta de seus livros em que relata supostas conversas e encontros com Hitler.

[6] O Pacto Kellogg (Briand-Kellogg, Pacto de Paris, oficialmente Tratado Geral de Renúncia da Guerra como Instrumento de Política Nacional), é um acordo internacional de 1928 no qual os Estados signatários prometem não lançar mão da guerra para a resolução de disputas e conflitos de qualquer natureza.

Traduzido pela editora Sobinfluencia.
https://www.sobinfluencia.com/blog/a-contrarrevoluo-fascista?fbclid=IwAR3uq3yqtTRH6qnXZ6Z–Nt16G-WagR24s_bPfBj1fg42TrvJPVz9uJw_NE.

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