Marx, Bakunin e a questão do autoritarismo – David Adam

David Adam põe em questão a narrativa tradicional relativa à questão do autoritarismo no conflito Marx-Bakunin.

Comentário prévio do autor:
“Como autor do artigo, eu só queria responder rapidamente a algumas das questões que o Mark trouxe. O artigo foi parte de uma investigação maior sobre marxismo e anarquismo, algo que eu me interessei devido ao fato de eu ter me considerado um anarquista por um tempo. A outra parte dessa investigação foi examinar os escritos de Marx sobre o Estado e o resultado é meu outro artigo [Marx e o Estado] linkado na primeira nota de rodapé acima. O artigo acima é certamente parcial no sentido de que seu foco é nestas coisas negativas sobre Bakunin. Mas eu considerei que isso valia a pena na medida em que muitas dessas informações não estão facilmente disponíveis e anarquistas podem apontar corretamente que muitas das críticas marxistas de Bakunin se baseiam simplesmente na sua menção de uma “ditadura invisível” sem apresentar argumentos suficientes para as suas acusações, ao mesmo tempo que pintam todo o anarquismo como bakuninismo.
Eu diria que eu tenho muito em comum com vários anarquistas, e eu sou certamente a favor de uma discussão fraternal. Mas eu não quero que este tópico esteja fora de questão apenas porque debates sobre este tópico podem ser cansativos (e eu concordo que eles sejam!). Eu receberia fraternalmente comentários e críticas de anarquistas. Mas deve-se compreender que o artigo teve um propósito limitado e deixa de fora muito do que não é diretamente relevante para questionar o antiautoritarismo de Bakunin. Muitas pessoas não tem ideia que Marx era um crítico do vanguardismo de Bakunin, muito menos que é possível encontrar argumentos que sustentem essa crítica. Então eu senti que o que estava disponível a respeito desse tópico era inadequado. E eu realmente não queria criticar o anarquismo enquanto tal. Os anarquistas modernos não são bakuninistas. Mas eu acho, sim, que essa história é relevante no sentido de que as ideias de Marx são com frequência desprezadas e ignoradas por razões ilegítimas.” 

Postado em: The Commune


Marx, Bakunin e a questão do autoritarismo – David Adam

Historicamente, o criticismo de Bakunin em relação aos objetivos “autoritários” de Marx tendeu a ofuscar a crítica de Marx aos objetivos “autoritários” de Bakunin. Isto se deve em grande parte ao fato de que o anarquismo e o “marxismo” hegemônicos foram polarizados sobre um mito – aquele do estatismo autoritário de Marx – do qual ambos partilham. Assim, o conflito na I Internacional é diretamente identificado com uma discordância sobre princípios antiautoritários, e diz-se que a hostilidade de Marx em relação à Bakunin provém da sua rejeição destes princípios, seu vanguardismo etc. O anarquismo, não sem justificativa, postula a si mesmo como a alternativa “libertária” ao “autoritarismo” do marxismo tradicional. Por conta disso, nada poderia ser mais fácil do que ver o famoso conflito entre os teóricos pioneiros destes movimentos – Bakunin e Marx – como um conflito entre a liberdade absoluta e o autoritarismo. Este ensaio irá colocar esta narrativa em questão. Não fará isto através de grandes pronunciamentos sobre anarquismo e marxismo em abstrato, mas simplesmente juntando algumas evidências frequentemente negligenciadas. As ideias de Bakunin sobre organização revolucionária se encontram no centro desta investigação.

Filosofia Política

Nós iremos começar olhando algumas diferenças em filosofia política entre Marx e Bakunin que irão informar nossa compreensão de suas disputas organizacionais. Em Bakunin, Marx criticou primeiro e sobretudo o que ele viu como uma versão modernizada da atitude doutrinária de Proudhon em relação à política – a crença de que todo poder político é antitético à liberdade. Também separando Bakunin de Marx havia um idealismo radical similar àquele de Stirner. Uma certa passagem da crítica de Marx à Stirner nos ajuda imensamente a entender as diferenças de Marx para Bakunin: “Até agora, a liberdade foi definida pelos filósofos de duas maneiras; por um lado, como poder, como domínio sobre as circunstâncias e condições em que um indivíduo vive – por todos os materialistas; por outro lado, como autodeterminação, desembaraço do mundo real, como liberdade meramente imaginária do Espírito – esta definição foi dada por todos os idealistas, especialmente os idealistas alemães[1].”

A despeito do materialismo confesso de Bakunin, Marx iria acusá-lo de idealismo a esse respeito. Bakunin afirmou: “A liberdade é o direito absoluto de todo ser humano de não procurar outra sanção para os seus atos que a sua própria consciência, de determinar estes atos somente por sua própria vontade e, consequentemente, de dever responsabilidade primeiro a si mesmo.[2]” Aqui os direitos naturais do indivíduo são tomados como o fundamento da liberdade, enquanto que em Marx, o desenvolvimento da liberdade é identificado com a criação de um novo ser humano, não mais confrontado por suas forças sociais alienadas como uma força hostil. Bakunin escreve que “todo indivíduo, toda associação, toda comuna, toda província, toda região, toda nação desfruta de um direito absoluto à autodeterminação, de associar-se ou não, de aliar-se com quem quer que seja e de quebrar alianças sem consideração por supostos direitos históricos ou pela conveniência de seus vizinhos…[3]”Ao invés de oferecer um tal exercício filosófico, Marx sempre apontou para o caráter historicamente determinado dos direitos humanos, da natureza humana e das possibilidades sociais[4]. A teoria dos direitos naturais de Bakunin é o fundamento da sua rejeição federalista do Estado burguês, ao passo que a oposição de Marx ao Estado burguês flui a partir da sua crítica da alienação humana sob o capitalismo.

Entender esta abordagem filosófica de Bakunin nos ajuda a investigar suas diferenças com Marx na compreensão da revolução socialista. É aqui, no campo da consciência de classe e da ação política, que a contenda Marx-Bakunin realmente irrompeu. Enquanto Bakunin tendia a identificar liberdade com leis naturais e espontaneidade e, desta forma, enfatizou a criação de sociedades secretas de revolucionários para incitar os instintos latentes das massas, Marx enfatizou a necessidade da emergência de uma consciência comunista em larga escala, o que só poderia surgir a partir dos trabalhadores exercitando por eles próprios as suas capacidades criativas de organização negadas a eles na vida cotidiana capitalista. Como Marx disse da Alemanha: “Aqui onde o trabalhador é regulado burocraticamente da infância em diante, onde ele acredita na autoridade, naqueles estabelecidos sobre ele, a questão central é ensiná-lo a caminhar com as próprias pernas[5].” Em última instância, o exercício do poder político pelos trabalhadores tem esta função. Os proletários devem assumir o controle, re-organizar a sociedade e, assim, recriarem-se a si mesmos através do processo árduo de autoemancipação. O exercício do poder político não é contrastado com a autoatividade da classe trabalhadora, mas é antes o meio pelo qual a classe trabalhadora gerencia aquilo que lhe diz respeito. “Um dia”, disse Marx em 1872, “o operário terá de conquistar a supremacia política para estabelecer a nova organização do trabalho; ele terá de derrubar a velha política que sustenta as velhas instituições se ele quiser escapar ao destino dos primeiros cristãos os quais, negligenciando e desprezando a política, nunca viram o seu reino na terra[6].” Ao contrário de Marx, que via no Estado burguês as forças alienadas da cidadania, Bakunin identificou o Estado como tal com “autoridade, força, a exibição e o fascínio da força.[7]” Se o Estado em abstrato é visto como um imposição externa aos direitos naturais do indivíduo, não há necessidade para os proletários de assumir coletivamente nenhuma das suas funções.

“Ensinar o povo?” Bakunin certa vez perguntou. “Isso seria estúpido… nós não devemos ensinar o povo, mas incitá-lo a revoltar-se[8].” Marx sempre rejeitou essa perspectiva. Em uma discussão com Weitling, o qual era um defensor da ditadura individual, Marx disse que instigar os trabalhadores sem oferecer quaisquer ideias científicas ou doutrina construtiva era “equivalente a um jogo vão e desonesto de pregação, que supõe um profeta inspirado de um lado e do outro apenas idiotas estupefatos.[9]” Marx, especificamente, criticou os bakuninistas na I Internacional em termos similares: “Para eles, a classe trabalhadora representa apenas tamanha matéria bruta, um caos que necessita do ar do seu Espírito Santo para dar-lhe forma.[10]” Não só isso, mas Marx até criticou Bakunin nos mesmos termos que Bakunin famigeradamente havia usado contra ele: “Esse russo [Bakunin] obviamente deseja se tornar o ditador do movimento operário europeu.[11]

Nós podemos aprender algo das visões divergentes de Bakunin e Marx de um ensaio pouco conhecido em que Marx e Engels citam parte do programa de Bakunin para a sua Organização Secreta Revolucionária dos Irmãos Internacionais[12]. Aqui temos Bakunin com os comentários de Marx e Engels entre parênteses: “Tudo que uma sociedade secreta bem organizada pode fazer é, primeiro, ajudar no nascimento da revolução pela difusão entre as massas de ideias correspondentes aos seus instintos e organizar, não o exército da revolução – o exército deve ser sempre o povo (bucha de canhão) […] mas um estado-maior revolucionário composto por devotos, enérgicos, inteligentes e, acima de tudo, sinceros amigos do povo que não sejam vaidosos ou ambiciosos, e que sejam capazes de servir como intermediários entre a ideia revolucionária (por eles monopolizada) e os instintos populares[13].”

Marx e Engels comentam mais adiante: “Dizer que os cem irmãos internacionais devem ‘servir como intermediários entre a ideia revolucionária e os instintos populares,’ é criar um abismo intransponível entre a ideia revolucionária da Aliança e as massas proletárias; significa proclamar que essa centena de soldados não podem ser recrutados em nenhum outro lugar a não ser entre as classes privilegiadas[14].” Na visão de Marx, o programa de Bakunin para a revolução, ao tratar o trabalhador como “tamanha matéria bruta”, o impedia de aprender a “caminhar com as próprias pernas.”

A Internacional

É apropriado dar alguma informação relevante do contexto da presença de Bakunin na Associação Internacional dos Trabalhadores ou I Internacional. Bakunin não ingressou na Internacional antes de julho de 1868, enquanto Marx esteve envolvido desde a sua fundação em 1864. Durante os anos de 1867-1868, Bakunin e alguns de seus companheiros estiveram envolvidos na Liga da Paz e da Liberdade, um grupo democrático reformista. Bakunin desempenhou um papel destacado na Liga na conferência de Setembro de 1867, e achou que ele pudesse conquistar a Liga para a sua política revolucionária. Quando ele ingressou na Internacional, Bakunin incentivou uma relação de proximidade entre a Liga e a Internacional. Arthur P. Mendel comenta sobre as intenções de Bakunin nessa época, usando citações do próprio Bakunin: “Ele não estava planejando ‘afogar a nossa Liga’ na Internacional, mas fazer com que elas trabalhassem juntas como organizações complementares, com a Internacional ‘se ocupando senão exclusivamente, ao menos principalmente, com questões econômicas,’ enquanto a Liga iria lidar com as ‘questões políticas, religiosas e filosóficas,’ assim como ‘preparar as pautas e, com isso, esclarecer a direção política[15].” Como decorreu, Bakunin e seus companheiros acharam-se em minoria no congresso da Liga de setembro de 1868. Bakunin e 18 de seus apoiadores deixaram a Liga e decidiram formar uma nova organização. Mendel comenta: “Conciliando o desejo de Bakunin por uma organização inteiramente secreta e a preferência dos outros membros por uma associação pública, os fundadores decidiram ter ambas as formas. Como por fim resultou, a ‘Aliança’, como a organização como um todo viria a ser chamada, refletia vários níveis de confidencialidade e intimidade, isto é, graus de laços ‘familiares’ com Bakunin[16].”

Mendel descreve o que aconteceu a seguir:

Atuando por intermédio do amigo de Marx, Becker, ele [Bakunin] candidatou-se oficialmente naquele novembro (1868) para a admissão da Aliança como um todo na Internacional, em condições que iriam permitir à Aliança reter sua integridade organizacional, realizar seus próprios congressos e assim por diante. A Internacional iria ganhar consideravelmente com a fusão, disse Becker em uma carta que acompanhava a candidatura, uma vez que a Aliança poderia compensar pela falta de “idealismo” da Internacional. As duas organizações complementar-se-iam uma à outra, escreveu Bakunin mais tarde, já que a Internacional poderia continuar o seu bom trabalho junto às massas, representando necessariamente apenas os “germes” do programa completo, enquanto a Aliança, situada em um nível maior de desenvolvimento, iria preservar os ideais do programa e, portanto, estaria em condição de dar à Internacional uma “direção realmente revolucionária”. Como ele mais tarde descreveria a relação entre a sua Aliança e a Internacional, a Aliança deveria ser “uma sociedade secreta formada dentro da Internacional a fim de prover à Internacional uma organização revolucionária, com o intuito de transformá-la, junto com as massas populares que estavam do lado de fora dela, em uma força suficientemente bem organizada para aniquilar a reação[17].”

O Conselho Geral da Internacional recusou categoricamente a entrada da Aliança na Internacional a menos que ela deixasse de funcionar como uma organização internacional paralela[18]. Um biógrafo simpático à Bakunin chegou a escrever, “A resposta de Marx à candidatura da Aliança para afiliar-se à Internacional foi bastante lógica e extremamente contida dado seus fortes sentimentos[19].” Marx não foi aparentemente o único que estava desconfiado da tentativa de filiação da Aliança. O conselho da seção belga da Internacional enviou uma carta à Aliança de Genebra expressando a opinião de que as ações da Aliança eram danosas e divisoras:

Vocês não entendem que os trabalhadores estabeleceram a Internacional precisamente porque eles não queriam nenhum tipo de apadrinhamento, seja dos social-democratas ou de quem quer seja; que eles querem seguir por conta própria sem conselheiros; e que se eles aceitam na Associação [a Internacional] socialistas que, por conta da sua origem e situação privilegiada na sociedade atual, não pertencem à classe deserdada, é apenas na condição de que estes amigos do povo não formem um grupo à parte, um tipo de protetorado intelectual ou uma aristocracia do intelecto, em uma palavra, líderes, mas antes permaneçam como parte das fileiras das vastas massas proletárias?[20]

Eventualmente, a Aliança de Bakunin conseguiu ingressar na Internacional. Mendel relata as condições sob as quais isso ocorreu:

Em uma reunião em finais de fevereiro de 1869, a secretaria [da Aliança] decidiu aceitar as condições estabelecidas por Londres de “dissolver” a Aliança como uma rede internacional e de transformar suas seções locais em seções da Internacional. A Aliança, assim, ingressaria a Internacional “sem qualquer organização, secretarias, comitês e congressos outros que não os da Associação Internacional dos Trabalhadores”, ou assim disse a secretaria em um comunicado público de dissolução. De fato, tal dissolução nunca veio a ocorrer. A correspondência clandestina em código, tal como era feito, continuou a fluir da pena de Bakunin aos seus “íntimos” em outros países, discutindo, entre outras coisas, táticas para o fortalecimento da influência da Aliança dentro da Internacional; e o secretariado secreto de Genebra continuou a existir junto ao que agora se tornara a seção da Aliança de Genebra da Internacional[21].

Por exemplo, em uma carta de maio de 1872 para A. Lorenzo (um delegado na conferência de Londres de 1871), Bakunin escreveu que “a Aliança é um segredo que nenhum de nós pode divulgar sem cometer traição[22].” Ele, portanto, desejava que Lorenzo se dirigisse a ele simplesmente como um membro da Internacional, e não da Aliança secreta, para que a carta de Lorenzo pudesse ser usada contra Marx e seus adeptos. Bakunin, ainda assim, assinou como “M. Bakunin, Aliança e Irmandade[23].” Marx e Engels estavam cientes de uma das referências de Bakunin à Aliança supostamente dissolvida em uma carta de 1872 endereçada à Francisco Mora, e eles a citaram em seu panfleto sobre a Aliança e a Internacional: “Você sem dúvida sabe que a Internacional e a nossa querida Aliança progrediram imensamente na Itália nos últimos tempos…. É bom e é necessário que os aliancistas na Espanha devam entrar em relações diretas com aqueles na Itália[24].”

Vejamos um episódio interessante que exemplifica o conspiracionismo de Bakunin. Há um registro de uma conversa entre Charles Perron e Bakunin por volta da época do Congresso da Basiléia da Internacional:

Bakunin lhe assegurou que a Internacional era em si mesma uma excelente instituição, mas que havia algo melhor ao qual Perron também devia aderir – a Aliança. Perron concordou. Então Bakunin disse que, mesmo na Aliança, poderia haver alguns que não eram revolucionários genuínos e que eram um peso nas suas atividades, e que seria, portanto, uma boa coisa ter na retaguarda da Aliança um grupo de “Irmãos Internacionais.” Perron novamente concordou. Quando em seguida eles se encontraram alguns dias mais tarde, Bakunin disse a ele que os “Irmãos Internacionais” eram uma organização demasiado ampla, e que na retaguarda deles devia haver um diretório ou secretariado de três – dos quais ele, Perron, deveria ser um deles. Perron riu e concordou uma vez mais[25].

Uma fonte excelente para compreender melhor o pensamento de Bakunin é a sua carta à Netchaiev de 2 de junho de 1870. Nela, ele delineia a organização de uma hipotética sociedade revolucionária que ele aconselha Netchaiev a formar. Sobre tal sociedade, ele escreve o seguinte:

Toda a sociedade constitui [sic] um corpo e um todo firmemente unidos, dirigido pelo C.C. [Comitê Central] e engajado em uma luta subterrânea sem trégua contra o governo e contra outras sociedades, sejam inimigas ou até aquelas que agem de forma independente. Onde há guerra, há política, e assim surge, inevitavelmente, a necessidade da violência, da astúcia e da dissimulação. Sociedades cujos objetivos são próximos aos nossos devem ser forçadas a fundirem-se com a nossa sociedade ou, ao menos, devem ser subordinadas a ela sem o seu conhecimento, ao passo que as pessoas nocivas devem ser delas removidas. Sociedade que sejam inimigas ou positivamente prejudiciais devem ser dissolvidas, e finalmente, o governo tem de ser destruído. Tudo isso não pode ser conseguido apenas pela propagação da verdade; astúcia, diplomacia, dissimulação são necessárias[26].

Em sua carta – que deveria ser lida em sua totalidade por qualquer um/a interessado nestas questões -, Bakunin notoriamente critica Netchaiev, mas ainda não rompe claramente com ele. Bakunin desejava, como ele escreveu a Ogarev, “salvar nosso errante e confuso amigo[27].” Como a passagem acima indica, Bakunin continuou a sustentar um sistema de crenças similar àquele de Netchaiev.

De volta ao papel de Bakunin na Internacional, é bem sabido que Marx queixara-se da existência continuada da Aliança secreta. Também é bem sabido que a principal queixa de Bakunin era o suposto autoritarismo de Marx e do Conselho Geral. Bakunin e os anarquistas iriam denunciar ruidosamente não apenas as ações do Conselho Geral na expulsão de Bakunin, mas também o princípio da autoridade do Conselho Geral. Após a conferência de Londres de 1871, onde Marx logrou passar resoluções destinadas a bloquear a atividade da Aliança, os anarquistas da Federação do Jura convocaram um congresso, que emitiu a circular de Sonvillier, a qual foi enviada a todas as federações da Internacional e que desafiava a validade das decisões da conferência de Londres. Um aspecto teoricamente importante dessa circular é o seu apelo para que o Conselho Geral se tornasse “um simples secretariado de correspondência e estatística[28]”. As seções seriam, portanto, completamente autônomas. Quando Bakunin recebeu a circular, ele a apoiou plenamente, fazendo ecoar explicitamente seu apelo por um Conselho Geral sem qualquer autoridade em uma carta à Ceretti[29]. Em 1872, ele chegou a apelar pela “abolição do Conselho Geral[30].” De sua parte, Marx acreditava na necessidade de um Conselho Geral para a integridade da Internacional. Como ele escreveu a Lafargue em março de 1872: “Portanto, do momento que o Conselho deixe de funcionar como o instrumento dos interesses gerais da Internacional, ele se torna de todo inválido e impotente. Por outro lado, o Conselho Geral em si mesmo é uma das forças vitais da Associação, sendo essencial para a unidade desta e para impedir que a Associação seja dominada por elementos hostis[31].”

Marx e Engels estavam preocupados em defender a ideia da autoridade democrática em oposição à completa autonomia das seções nacionais ou mesmo individuais em uma organização explicitamente internacional. Em seu ensaio “O Congresso de Sonvillier e a Internacional”, Engels zombava do raciocínio dos anarquistas: “Se em cada seção individual, a minoria se submete à decisão da maioria, comete-se um crime contra os princípios da liberdade e aceita-se um princípio que conduz à autoridade e à ditadura![32]” Marx e Engels eram perfeitamente capazes de distinguir entre a autoridade em geral (que poderia ser democrática) e a autoridade individual ou autoritarismo. Em O Capital, por exemplo, Marx cita sua Miséria da Filosofia: “Pode ser . . . estabelecido como uma regra geral que quanto menos autoridade preside sobre a divisão do trabalho dentro da sociedade, tanto mais a divisão do trabalho se desenvolve dentro da oficina, e tanto mais ela é sujeitada à autoridade de uma única pessoa[33]” Ele argumenta que, “na sociedade em que prevalece o modo de produção capitalista, a anarquia na divisão social do trabalho e o despotismo na divisão fabril do trabalho condicionam-se mutuamente….[34]

Bakunin não fora sempre um oponente consistente da autoridade do Conselho Geral. Hal Draper relata o caso do Congresso da Basiléia da Internacional – o único em que Bakunin esteve presente:

O CG [Conselho Geral] havia requisitado que o congresso lhe conferisse poder, sujeito ao veto do congresso, de excluir uma seção que agisse em contrário aos princípios da Internacional, a fim de defender o movimento contra elementos alheios a ele. Bakunin não só se tornou o defensor mais entusiasmado desta proposta, mas foi além: ele propôs poderes substancialmente maiores ao corpo diretivo, poderes que o CG não havia requisitado. Estas propostas foram levadas a cabo, talvez em grande parte devido à sua defesa. A reportagem da imprensa contemporânea, através da qual nós sabemos deste episódio, resumiu os fatos como se segue: “Bakunin propõe dar ao Conselho Geral o direito à vetar o ingresso de novas seções na Internacional até o congresso seguinte e o direito a suspender seções existentes; quanto aos Comitês Nacionais [isto é, Federais], ele quer dar a eles o direito de expulsar seções da Internacional… Hins [delegado belga] pede que o direito de suspensão pertença somente aos Comitês Federais e não ao Conselho Geral… Bakunin [falando novamente] põe ênfase no caráter internacional da Associação; é necessário por essa razão que o Conselho Geral não deixe de ter autoridade. Ele aponta que, se as organizações nacionais [Comitês Federais] tivessem o direito de suspensão, poderia acontecer que seções animadas, senão pelo verdadeiro espírito da Internacional, pudessem ser expulsas por uma maioria infiel aos princípios.” O que isso significava – como Bakunin admitiu mais tarde quando ele bateu no peito e lamentou Mea culpa – era que ele estava temeroso que o Comitê Federal suíço expulsasse a sua Aliança, e assim ele olhou ao Conselho Geral para proteger seus direitos. Ou seja, ele estava pronto para descartar a retórica anarquista sobre federalismo e anti-autoritarismo tão logo a própria base do seu poder local tornava-se ameaçada[35].  

Bakunin havia defendido mais autoridade para o Conselho Geral antes de defender um Conselho Geral destituído de qualquer autoridade. Marx e Engels referiram-se à mudança de posição de Bakunin em diferentes ocasiões como evidência de que “o secto [a Aliança] não vestiu sua máscara anti-autoritária” até ter destruídas suas esperanças de assumir o Conselho Geral[36].

Contra toda autoridade?

Vamos examinar mais profundamente o tópico da oposição de Bakunin à autoridade. É bem sabido que o anarquismo de Bakunin era acompanhado por um eterno conspiracionismo. Bakunin elaborou todo tipo de programas, cartas e juramentos para as várias organizações secretas que ele criou. A maioria dessas organizações eram ativas apenas na imaginação de Bakunin[37]. Um vislumbre interessante dos planos organizacionais de Bakunin nos é dado por Arthur Mendel:

Finalmente, havia os juramentos a serem feitos pelos “irmãos” nas “famílias” secretas, nacional e internacional. Duas categorias de “irmãos” foram definidas – os irmãos ativos e os nominais. Os irmãos ativos, de quem somente a liderança poderia ser retirada, recebiam os juramentos mais rigorosos: “(…) Eu juro lealdade e obediência absoluta à organização internacional e lhe prometo zelosa atividade, cuidado e discrição, silêncio acerca de todos os segredos, o sacrifício do meu próprio egoísmo, amor próprio, ambição e interesses pessoais, e a completa e ilimitada entrega à sua disposição de toda a minha força e meu poder, minha posição social, minha influência, minha fortuna e minha vida. Eu me submeto antecipadamente a todos os sacrifícios e tarefas que a organização irá impor a mim, certo de que ela não demandará nada de mim que seja contrário às minhas convicções e à minha honra ou que esteja além das minhas capacidades. No período que eu esteja encarregado e uma função ou missão, eu irei obedecer incondicionalmente às ordens do líder imediato que me tenha a ela confiado e juro executar a missão com toda velocidade, precisão, energia e clarividência possíveis, parando apenas quando os obstáculos aparentarem ser verdadeiramente intransponíveis para mim. Eu subordino de agora em diante todas as minhas atividades, públicas e privadas, literárias, políticas, oficiais, profissionais e sociais às diretivas supremas que eu receba dos comitês desta organização.” (…) Nos votos finais, o candidato concordava em aceitar contra si próprio “a vingança da sociedade” caso ele traísse seu juramento ou até esquecesse dele[38].

Ver tais “juramentos” virem da pena do grande paladino da liberdade e da liberdade individual deveria ao menos levantar suspeitas. Não é o único dos apelos de Bakunin por uma organização revolucionária nitidamente autoritária.

Tal plano organizacional foi conhecido por Marx e Engels e criticado em seu panfleto sobre “A Aliança da Democracia Socialista e a Associação Internacional dos Trabalhadores.” No esboço, Bakunin descreve em algum detalhe os níveis internacionais e nacionais de sua organização e vários subgrupos. O que é marcante é a forma com que a organização é descrita como um tipo de estrutura manipulativa vis-à-vis os membros individuais. Bakunin escreve, “As Irmandades Nacionais de cada país estão organizadas de maneira a nunca serem capazes de retirar da direção dos irmãos internacionais quem está no Comitê Central….[39]” Escrevendo sobre as seções nacionais da organização, Bakunin identifica dois grupos existindo dentro do “Comitê Nacional.” Ele escreve: “Entretanto, os dois grupos não devem sob quaisquer circunstâncias ser informados da existência da organização internacional ou da sede e a composição do Comitê central internacional[40].” Uma ideia interessante: as seções da organização não estão sequer cientes da existência de seus órgãos executivos. A mesma ideia reaparece no plano organizacional que Bakunin elaborou para Netchaiev em 1870: “Todos os membros da Fraternidade Regional se conhecem, mas não sabem da existência da Fraternidade Popular. Eles só sabem que existe um Comitê Central que lhe passa as ordens para execução através [de um] Comitê Regional que foi por ele estabelecido, isto é, pelo Comitê Central[41].”

O relatório de Engels para o Congresso de Haia, após citar a evidência de que a Aliança nunca se dissolveu como acordado, toca nessa questão organizacional: “A organização de uma sociedade secreta deste tipo é uma violação flagrante, não apenas das obrigações contratuais para com a Internacional, mas também da carta e do espírito de nossas Regras Gerais. Nossas Regras só conhecem um tipo de membro da Internacional com direitos e deveres iguais para todos. A Aliança os separa em duas castas: os iniciados e os não-iniciados, a aristocracia e a plebe, a última destinada a ser liderada pela primeira por via de uma organização cuja própria existência é desconhecida por eles[42].” Mesmo Paul Avrich, um estudioso simpático de Bakunin, reconhece que Bakunin queria criar uma sociedade secreta cujos membros “seriam sujeitados à ‘mais estrita disciplina’ e subordinados a um pequeno diretório revolucionário[43].”

Outra discussão instrutiva sobre princípios organizativos feita por Bakunin aparece em seu texto em russo Aos Oficiais do Exército Russo. Em seu Estatismo e Anarquia, Bakunin escreve que no mundo dos oficiais russos, em contraste com aquele dos oficiais alemães, “ainda pode-se encontrar um coração humano, uma capacidade instintiva de amar e entender a humanidade, e nas condições certas, sob uma boa influência, a habilidade de se tornar um amigo do povo plenamente consciente[44]. O que oferece Bakunin a estes potenciais amigos do povo em seu texto russo? Ele recomenda a eles uma organização poderosa que é preparada para dirigir uma insurreição de massas na Rússia – a organização de Netchaiev. Esta organização, ele assegura a eles, é “forte em disciplina, dedicação apaixonada e auto-sacrifício de seus membros e incondicionalmente obediente a todas as ordens e diretivas de um único Comitê que sabe tudo, mas cuja existência não é sabida por ninguém[45].” Bakunin explica que “cada novo membro ingressa nossa organização voluntariamente sabendo de antemão que uma vez que ele tenha se tornado parte dela, ele deixa de pertencer a si mesmo, e irá, doravante, pertencer somente à organização[46].” Bakunin descreve o papel do membro individual na organização: “Ele só fala sobre a causa com aqueles aos quais ele é autorizado a falar e ele se atém estritamente ao que deve dizer; e, em geral, ele entra em conformidade de forma absoluta e rigorosa com todas as ordens e instruções que ele recebe de cima, sem imaginar ou tentar compreender em que nível da organização ele está localizado; ele deseja simplesmente e de forma bastante natural ser confiado a um maior número de tarefas possíveis, mas ao mesmo tempo aguarda pacientemente ser designado para novas tarefas[47].” Bakunin acabou de descrever o que ele procura em um membro e basicamente se resume em obediência. Ele expressa oposição à “tagarelice parlamentarista” que poderia levar à formação de “partidos opositores dentro da organização[48].” Marx e Engels, cientes deste ensaio de Bakunin, hesitavam em levar sua retórica sobre liberdade e autonomia tão a sério.

O conspiracionismo de Bakunin parece ter sido fortemente influenciado pelas tradições socialistas francesas, particularmente pela prática revolucionária de Philippe Buonarroti. O estudioso de Bakunin, Arthur Lehning, escreveu sobre Buonarroti: “Ele também construiu em uma escala internacional, embora por um período muito maior, uma elaborada rede subterrânea, em moldes franco-maçons, às vezes fazendo uso de instituições maçônicas, para trabalhar por seu credo igualitário de 1796, por uma revolução social e pela republicanização da Europa.

Por quarenta anos, os princípios mantiveram-se os mesmos: a liderança era secreta; a existência dos níveis superiores era desconhecida para os mais baixos; de caráter inconstante, sua rede tirou proveito e usou outras sociedades[49].” Como nós vimos, estes princípios estão claramente evidentes nos escritos de Bakunin. “Não é à toa que [Bakunin] enalteceu Buonarroti como ‘o maior conspirador de sua era’”, observou Paul Avrich[50]. Marx, por outro lado, era muito crítico da tradição conspiracionista no socialismo francês. Em uma resenha de 1850, Marx escreve o seguinte sobre os “conspiradores”:

O seu ofício é precisamente o de antecipar o processo de desenvolvimento revolucionário, de trazê-lo artificialmente ao ponto crítico, de lançar uma revolução no calor do momento, sem as condições para uma revolução. Para eles, a única condição para a revolução é a preparação adequada de sua conspiração. Eles são os alquimistas da revolução e são caracterizados exatamente pelo mesmo pensamento caótico e obsessões cegas dos alquimistas de outrora. Eles saltam em invenções que deveriam operar milagres revolucionários: bombas incendiárias, dispositivos destrutivos de efeito mágico, revoltas que se espera, com efeito, que sejam ainda mais milagrosas e surpreendentes uma vez que sua base é considerada menos racional. Ocupados com tal esquema, eles não possuem outro propósito que aquele mais imediato de derrubar o governo existente e tem o mais profundo desprezo pelo esclarecimento mais teórico do proletariado sobre os seus interesses de classe[51].

Criticando Marx

É bem sabido que Bakunin nutria determinadas crenças racistas e suas ideias antissemitas e anti-alemãs acabaram por vir à tona em sua contenda com Marx. Isto obviamente não revela algum erro fatal do anarquismo, mas um exame das diatribes raciais de Bakunin nos ajuda a entender a forma particular com que Bakunin misturava racismo e política. Enquanto se pode facilmente concordar com as “políticas” de Bakunin e claramente rejeitar o “racismo”, o próprio Bakunin tinha uma compreensão racial profunda de tendências políticas. Mas ainda mais importante, os comentários raciais de Bakunin relativos à Marx revelam o quanto Bakunin era um fantasioso incorrigível[52]. Os pontos-chave na sua crítica de Marx estão baseados em pura fantasia. Bakunin viu-se a si próprio como engajado em uma batalha racial épica contra o pan-germanismo, do qual Marx era um representante. Em Estatismo e Anarquia, Bakunin adverte: “Não pense que Bismarck é um inimigo tão feroz deste partido [os social-democratas] como ele aparenta. Ele é esperto demais para não ver que o partido serve a ele como um pioneiro, disseminando a concepção alemã de estado na Áustria, Suécia, Dinamarca, Bélgica, Holanda e Suíça. A propagação dessa ideia germânica é agora a principal aspiração de Marx, o qual, como nós já notamos, tentou prosseguir dentro da Internacioinal, a seu favor, as façanhas e vitórias do Príncipe Bismarck[53].”

Quando a batalha estourou na Internacional, Bakunin identificou Marx com os planos de Bismarck para o domínio alemão da Europa: “É este plano para destruir a liberdade, um plano que pousou sobre a raça latina e sobre a raça eslava um perigo mortal, que agora tenta ganhar o controle absoluto da Internacional. Contra esta pretensão monstruosa do pan-germanismo, devemos opor uma aliança das raças latina e eslava…[54].” A agitação racial desempenhou um papel importante na campanha de Bakunin contra Marx precedente ao Congresso de Haia de 1872. Durante esse período, Bakunin escreveu uma série de circulares endereçadas a seus adeptos, por vezes encorajando especificamente a oposição aos “marxistas” através de uma retórica antissemita[55]. Um exemplo de uma dessas circulares é a Carta aos Internacionais de Bolonha de Bakunin de dezembro de 1871. Eis aqui um extrato desta circular:

“Bem, todo esse mundo judeu que constitui uma única seita exploradora, um tipo de povo sanguessuga, um parasita coletivo, voraz, organizado em si mesmo, não apenas por sobre as fronteiras dos estados, mas até mesmo por sobre todas as diferenças de opinião política – esse mundo é apresentado, ao menos em grande parte, à disposição de Marx por um lado e dos Rothschilds por outro. Eu sei que o Rothschilds, reacionários como são e deveriam ser, apreciam enormemente os méritos do comunista Marx; e que, por sua vez, o comunista Marx se sente irresistivelmente atraído, por atração instintiva e respeitosa admiração, pelo gênio financeiro dos Rothschild. A solidariedade judaica, aquela poderosa solidariedade que vem se mantendo através de toda a história, os uniu.[56]

Uma vez que Marx pode ser “unido” à dinastia bancária dos Rothschild, Bakunin não tem qualquer problema em identificar Marx com alguém como Lassalle, que tinha políticas muito diferentes das de Marx. Por exemplo, Bakunin escreve: “Em estrita conformidade com o programa político que Marx e Engels estabeleceram no Manifesto Comunista, Lassalle exigiu apenas uma coisa de Bismarck: que o crédito estatal seja feito disponível às associações operárias de produtores[57].” Como se vê, na mente de Marx havia uma clara distinção entre o que Bismarck poderia fazer pelos trabalhadores e o que os trabalhadores poderiam fazer para si próprios. Marx foi bastante hostil ao socialismo-desde-cima de Lassalle. Como ele escreveu na Crítica ao Programa de Gotha, criticando a influência lassalleana no Programa de Gotha,

“Ao invés do processo revolucionário de transformação da sociedade, a ‘organização socialista do trabalho total’ ‘surge’ do ‘auxílio estatal’ que o Estado dá às sociedades cooperativas de produtores e que o Estado, não o trabalhador, ‘cria’. Isto equivale à imaginação de Lassalle de que se pode construir uma nova sociedade através de empréstimos estatais da mesma forma que uma ferrovia! (…) Que os trabalhadores desejem estabelecer as condições da produção cooperativa em uma escala social, e antes de tudo em escala nacional começando pelo seu próprio país, apenas significa que eles estão empenhados em revolucionar as condições atuais de produção e não tem nada que ver com a fundação de sociedades cooperativas com auxílio do Estado. Mas no que diz respeito às sociedades cooperativas atuais, elas têm valor apenas na medida em que são criações independentes dos trabalhadores e não são protegidas nem pelo governo, nem pela burguesia[58]”.  

Enquanto a crítica de Marx ao autoritarismo de Bakunin é com frequência ignorada, a crítica de Bakunin à Marx é frequentemente exaltada por sua presciência, a despeito da completa distorção das ideias de Marx.

Algumas das críticas de Bakunin à Marx são verdadeiramente bizarras. Bakunin acreditava que “doutrinadores revolucionários” como Marx e Engels acham “que o pensamento precede a vida, que a teoria abstrata precede a prática social, que a sociologia deve, portanto, ser o ponto de partida para levantes sociais e reconstruções,” e, por conseguinte, chegam à conclusão “que uma vez que o pensamento, a teoria e a ciência, ao menos no presente, são propriedade de um punhado de indivíduos, estes poucos devem ser os diretores da vida social[59].”  Depois de citar extensamente as acusações de Bakunin de que Marx estaria usando a I Internacional para impor ao mundo um “governo investido de poderes ditatoriais”, Daniel Guérin comenta: “Sem dúvida, Bakunin distorcia os pensamentos de Marx de forma um tanto quanto severa ao atribuir a ele um tal conceito universalmente autoritário, mas a experiência da III Internacional desde então mostrou que o perigo do qual ele havia alertado eventualmente se materializou[60].”

Essa é uma justificativa curiosa para o criticismo de Bakunin: já que pessoas fizeram coisas autoritárias em nome de Marx, o elaborado argumento espantalho de Bakunin torna-se retroativamente justificado. Outro comentador escreve: “A concepção de Bakunin sobre o Estado marxista, que ele vira como que à espera nos bastidores da história, era perturbadora, mas correta…. a história parece estar ao lado de Bakunin, não de Marx…[61].” O enaltecimento dos poderes proféticos de Bakunin serviu para encobrir a imprecisão de seu retrato das ideias de Marx.

Conclusão

Marx caracterizou a Internacional como “um elo de união, não de uma força controladora”[62] e considerou “a tarefa da Associação Internacional dos Trabalhadores combinar e generalizar os movimentos espontâneos da classe trabalhadora, mas não ditar ou impor qualquer sistema doutrinário que seja[63].” Na base dessa visão, Marx opôs-se à agrupamentos secretos na Internacional e sustentou que este tipo de organização “é oposta ao desenvolvimento do movimento proletário pois, ao invés de instruir os trabalhadores, estas sociedades os sujeitam às leis místicas e autoritárias que limitam sua independência e distorcem seus poderes de razão[64].”

Essa perspectiva guarda pouco em comum com a caricatura do autoritarismo marxiano que é tão difundida. Escrevendo a Blos em 1877, Marx afirmou que quando ele e Engels ingressaram na Liga Comunista, eles “só o fizeram sob a condição de que qualquer coisa conducente à uma crença supersticiosa na autoridade fosse eliminada das regras[65].” A oposição de Marx aos métodos autoritários de organização reflete sua crença há muito existente na importância da democracia operária. Esta era, portanto, a base para sua rejeição do tipo bakuniniano de vanguardismo. Como vimos, Marx considerava equivocada a ênfase de Bakunin em um Estado-maior revolucionário unificado. Longe de ser um crítico consistente do autoritarismo, Bakunin misturava sua elaborada exaltação da liberdade abstrata com uma perspectiva organizacional autoritária.


[1] Karl Marx e Friedrich Engels, The German Ideology (Amherst: Prometheus, 1998), 319.

[2] Daniel Guerin, Anarchism (New York: Monthly Review Press, 1970), 31.

[3] Mikhail Bakunin, “The Program of the Brotherhood,” em No Gods, No Masters: An Anthology of Anarchism, ed. Daniel Guerin (Oakland: AK Press, 2005), 156. Para Marx, entender a liberdade como liberdade de interferência externa, como autodeterminação, é apenas o reflexo ideológico da sociedade civil burguesa e da “guerra de todos contra todos” hobbesiana. Em “A Questão Judaica” de 1843, Marx escreveu: “O direito à propriedade privada é, assim, o direito de desfrutar e dispor de seus recursos segundo a sua vontade, sem consideração por outros homens e independentemente da sociedade: o direito ao auto-interesse. A liberdade individual mencionada acima, junto com esta aplicação dela, formam o fundamento da sociedade civil. Isso faz com que cada homem veja em outros homens não a realização, mas a limitação de sua própria liberdade.” Karl Marx, “On the Jewish Question,” in Karl Marx: Early Writings, trans. Rodney Livingstone and Gregor Benton (New York: Vintage, 1975), 229-230.

[4] “Tudo, toda forma possível de opressão fora justificada pelo direito abstrato; já era hora de abandonar essa forma de agitação.” Karl Marx, “Record of Marx’s Speeches on Landed Property”, em Karl Marx and Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 21 (New York: International Publishers, 1985), 392.

[5] Karl Marx, “Marx to Johann Baptist von Schweitzer”, em Karl Marx e Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 43 (New York: International Publishers, 1988), 134.

[6] Karl Marx, “On the Hague Congress”, em Karl Marx e Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 23 (New York: International Publishers, 1988), 255.

[7] Mikhail Bakunin, “God and the State”, em No Gods, No Masters, 152. Esta concepção do Estado vai lado a lado com uma concepção voluntarista da criação do socialismo. Marx escreveu sobre Bakunin: “É a força de vontade, não as condições econômicas, a base da sua revolução social.” Karl Marx, “Notes on Bakunin’s Book Statehood and Anarchy”, em Karl Marx e Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 24 (New York: International Publishers, 1989), 518.

[8] Paul Avrich, The Russian Anarchists (Oakland: AK Press, 2005), 92.

[9] Francis Wheen, Karl Marx: A Life (New York: Norton, 2001), 104.

[10] Karl Marx e Friedrich Engels, “The Alleged Splits in the International”, em Political Writings, Volume III: The First International & After, ed. David Fernbach (New York: Vintage, 1974), 306.

[11] Karl Marx, “Marx to Engels,” em Marx and Engels, Collected Works, Vol. 43, 332-333.

[12] Este programa se encontra disponível em No Gods, No Masters, 177-183.

[13] Karl Marx e Friedrich Engels, “The Alliance of Socialist Democracy and the International Working Men’s Association,” em Collected Works, Vol. 23, 469.

[14] Ibid., 470.

[15] Arthur P. Mendel, Michael Bakunin: Roots of Apocalypse (New York: Praeger, 1981), 305.

[16] Ibid., 306.

[17] Ibid. 309. Marx se expressa sobre estas questões em sua carta à Lafargue de 19 de abril de 1870. Cf. Marx and Engels, Collected Works, Vol. 43, 489-490. A suspeita de Marx parecia ter sido confirmada pelo modo como Bakunin havia abordado o assunto de forma privada, como nestas afirmações sobre a Internacional em uma carta à Richard: “Vamos viver entre outros e usá-los. Mas nós viveremos com eles como parasitas: nos nutriremos de sua vida e de seu sangue…” Mendel, Michael Bakunin, 349.

[18] Ibid., 310.

[19] Mark Leier, Bakunin: The Creative Passion (New York: St. Martin’s Press, 2006), 233.

[20] Mendel, Michael Bakunin, 310.

[21] Ibid., 314-315.

[22] Ibid., 388.

[23] Aileen Kelly, Mikhail Bakunin: A Study in the Psychology and Politics of Utopianism (Oxford: Clarendon Press, 1982), 234-235.

[24] Marx e Engels: “The Alliance of Socialist Democracy and the International Working Men’s Association”, 579. Itálicos adicionados por Marx e Engels. Também citado em Mendel, Michael Bakunin, 388.

[25] E.H. Carr, Michael Bakunin (New York: Vintage, 1937), 363.

[26] Michael Bakunin, “M. Bakunin to Sergey Nechayev,” em Michael Confino, Daughter of a Revolutionary: Natalie Herzen and the Bakunin-Nechayev Circle (London: Alcove Press, 1974), 268. Ênfase adicionada.

[27] Paul Avrich, Bakunin and Nechaev (London: Freedom Press, 1987), 21.

[28] Paul Thomas, Karl Marx and the Anarchists (London: Routledge & Kegan Paul, 1980), 321.

[29] Mendel, Michael Bakunin, 380.

[30] Ibid., 389.

[31] Karl Marx, “Marx to Paul Lafargue,” em Karl Marx and Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 44 (New York: International Publishers, 1989), 346.

[32] Friedrich Engels, “The Congress of Sonvillier and the International”, em Marx and Engels, Collected Works, Vol. 23, 67.

[33] Karl Marx, Capital: Volume I (London: Penguin, 1990), 477. Ênfase adicionada.

[34] Ibid., 477.

[35] Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, Volume IV: Critique of Other Socialisms (New York: Monthly Review, 1990), 277. O texto ao qual Draper se refere, onde Bakunin (literalmente) lamenta “Mea culpa” em sua “Lettre aux Internationaux de la Romagne”, está disponível em Michel Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 2: Michel Bakounine et L’Italie 1871-1872 (Paris: Editions Champ Libre, 1974).

[36] Marx e Engels, “The Alliance of Socialist Democracy and the International Working Men’s Association,” 473. Cf. também Engels, “The Congress of Sonvillier and the International,” 67-68, e Friedrich Engels, “Report on the Alliance of Socialist Democracy Presented in the Name of the General Council to the Congress at the Hague,” em Marx and Engels, Collected Works, Vol. 23, 233.

[37] Sobre a própria Aliança: “Embora uma rede de sua organização existisse na Espanha, em outros lugares ela consistia em grande parte de células individuais – a estrutura internacional unificada descrita em seus programas eram pura fantasia.” Kelly, Mikhail Bakunin, 237.

[38] Mendel, Michael Bakunin, 295-296.

[39] Michel Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 6: Michel Bakounine et ses relations slaves 1870-1875 (Paris: Editions Champ Libre, 1978), 369.

[40] Ibid., 369-370.

[41] Bakunin, “M. Bakunin to Sergey Nechayev,” 266.

[42] Engels, “Report on the Alliance,” 232.

[43] Avrich, The Russian Anarchists, 24.

[44] Michael Bakunin, Statism and Anarchy (Cambridge: Cambridge University Press, 2005), 78.

[45] Michel Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 5: Michel Bakounine et ses relations avec Serge Necaev 1870-1872 (Paris: Editions Champ Libre, 1977), 174.

[46] Ibid., 175.

[47] Ibid. 177. Alguns exemplos reais dessa perspectiva: Bakunin e Netchaiev a certa altura tentaram fazer com que Natalie Herzen ingressasse a sua organização misteriosa. Natalie Herzen conta da sua frustração em nunca ter recebido qualquer explicação real do que ela estaria prestes a ingressar: “Eu sempre dava a mesma resposta: ‘Eu preciso ter uma ideia clara dos fins e dos meios’” Mendel, Michael Bakunin, 339. E.H. Carr escreve sobre uma discussão em 1869 sobre a autoridade de Bakunin e sua Irmandade Internacional, que se iniciou na Itália. Seus infelizes membros alegaram que na sua ausência eles não tinham “nenhuma informação, nem endereços, nem documentos”. Pertencendo à organização, estes foram presumivelmente monopolizados por Bakunin. Carr, Michael Bakunin, 367.

[48] Mendel, Michael Bakunin, 335.

[49] Mendel, Michael Bakunin, 335.

[50] Avrich, Bakunin and Nechaev, 22.

[51] Karl Marx, “Review: Les Conspirateurs, par A. Chenu”, em Karl Marx and Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 10 (New York: International Publishers, 1978), 318.

[52] Bakunin é uma figura intrigante nesse quesito. Por exemplo, em agosto de 1862, Bakunin foi à Paris e ofereceu seus serviços à um general polonês, Mieroslawski, demonstrando seu apoio a uma insurreição polonesa. De acordo com o general, Bakunin se apresentou como o “delegado plenipotenciário de uma organização russa secreta conspiracional que estava em posição de fortalecer nosso levante na região do Vístula por cerca de 70,000 tropas russas, para render Modlin em nossas mãos etc. Parecia que ele [Bakunin] havia ficado a pensar naquela altura como ele faria para usar aqueles 70,000 soldados czaristas. Então ele prometeu transformá-los em uma legião russa a fim de começar uma revolução em [a Ucrânia] e depois na Rússia.” Mendel, Michael Bakunin, 278.

[53] Bakunin, Statism and Anarchy, 194.

[54] Mendel, Michael Bakunin, 383.

[55] Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, Volume IV, 295.

[56] Citado de Ibid., 296. A carta circular está disponível como “Lettre aux Internationaux de Bologne (décembre 1871),” em Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 2. Para mais da retórica antissemita de Bakunin, cf. “Aux Compagnons de la Fédération des Sections Internationales du Jura (février-mars 1872)”, em Michel Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 3: Michel Bakounine et les Conflits Dans L’Internationale 1872 (Paris: Editions Champ Libre, 1975). Na resposta de Bakunin ao “As Pretensas Cisões na Internacional” de Marx e Engels, ele denunciou as mentiras dos “judeus russos e alemães.” Cf. “Résponse à la Circulaire Privée du Conseil Général: Les Prétendues Scissions dans L’Internationale”, em Bakounine, Œuvres Complètes, Volume 3, 121. A resposta de Bakunin foi publicada no boletim da Federação do Jura de 15 de junho de 1872. Em Julho, Engels comentou sobre a resposta de Bakunin numa carta à Cuno: “Bakunin emitiu uma furiosa, embora muito fraca, carta abusiva em resposta ao Scissions. Aquele elefante gordo está fora de si com raiva porque ele foi finalmente arrastado para fora da sua cova de Locarno para a luz, onde nem esquemas, nem intrigas são de qualquer utilidade. Agora ele declara ser a vítima de uma conspiração de todos os europeus – judeus!” Friedrich Engels, “Engels to Theodor Cuno”, em Marx and Engels, Collected Works Vol. 44, 408.

[57] Bakunin, Statism and Anarchy, 184.

[58] Karl Marx, Critique of the Gotha Programme (New York: International Publishers, 1970), 16-17.

[59] Bakunin, Statism and Anarchy, 136. Como Marx explicou repetidamente: “Não é a consciência do homem que determina seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência.” Karl Marx, “Preface to A Critique of Political Economy,” em Karl Marx: Selected Writings, ed. David McLellan (Oxford: Oxford University Press, 1977), 389.

[60] Guerin, Anarchism, 24-25.

[61] Alvin W. Gouldner, “Marx’s Last Battle: Bakunin and the First International”, Theory and Society 11, no. 6 (1982), 866.

[62] Karl Marx, “The Curtain Raised: Interview with Karl Marx, the Head of L’Internationale”, New Politics 2, no. 1 (1962), 130.

[63] Karl Marx, “Instructions for Delegates to the Geneva Congress”, em Political Writings, Volume III, 90.

[64] Karl Marx, “Record of Marx’s Speech on Secret Societies”, em Karl Marx and Friedrich Engels, Collected Works Vol. 22 (New York: International Publishers, 1986), 621.

[65] Karl Marx, “Marx to Blos”, em Karl Marx and Friedrich Engels, Collected Works, Vol. 45 (New York: International Publishers, 1991), 288.

Traduzido e adaptado por Alexandre Guerra a partir da versão disponível em: https://libcom.org/library/marx-bakunin-question-authoritarianism. A revisão foi feita por Felipe Andrade e Gabriel Teles.

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