Porque sou marxista – Karl Korsch

Publicado em Modern Quarterly, 1935

Ao invés de discutir o marxismo em geral, proponho considerar alguns dos pontos mais efetivos da teoria e prática marxistas. Apenas esse enfoque se adequa ao princípio do pensamento marxiano. Para o marxista, não há um ‘‘marxismo’’ em geral, mais do que há uma ‘‘democracia’’ em geral, uma “ditadura’’ em geral ou um “Estado’’ em geral. Há apenas um Estado burguês, uma ditadura proletária ou uma ditadura fascista, etc. Até mesmo estes só existem em determinadas fases do desenvolvimento histórico, com as correspondentes características históricas, principalmente econômicas, condicionadas também em parte por fatores geográficos, tradicionais e outros. Com os diferentes níveis de desenvolvimento histórico, com diferentes ambientes de distribuição geográfica, com as bem conhecidas diferenças de crença e tendências entre as diversas escolas “marxistas”, existem, tanto nacional como internacionalmente, sistemas teóricos e movimentos práticos muito diferentes que passam pelo nome de marxismo.

No lugar de discutir todo o corpo de princípios teóricos, pontos de vistas analíticos, métodos de procedimento, conhecimento histórico e regras de prática que Marx e os marxistas durante mais de oitenta anos derivaram da experiencia das lutas da classe proletária e moldado em uma teoria e movimento revolucionários unidos, devo, então, tentar distinguir aquelas atitudes, proposições e tendências que podem adotar-se de forma útil como guia de nossos pensamentos e ação hoje, aqui e agora, nestas condições dadas que prevalecem no ano de 1935 na Europa, nos Estados Unidos, na China, Japão, Índia, e no novo mundo da URSS. É deste modo que a questão “Porque sou marxista” surge, primariamente, para o proletariado, ou melhor, para as seções mais desenvolvidas e enérgicas da classe proletária. Também pode ser formulada, para as seções da população que, como os extratos decadentes das classes médias, o recém-emergente grupo de funcionários da gestão, os camponeses e agricultores, etc., não pertencem à classe capitalista dominante nem à chamada classe proletária, mas podem se associar ao proletariado com o objetivo de uma luta comum.

A questão pode até surgir para as partes da própria burguesia cuja vida está ameaçada pelo “capitalismo monopolista” ou “fascismo”, e certamente surge para os ideólogos burgueses que, sob a pressão das tensões da sociedade capitalista em declínio, estão se aproximando individualmente do proletariado (estudiosos, artistas, engenheiros, etc.)

Enumerarei agora aqueles que me parecem os pontos mais essenciais do marxismo de forma condensada:

  1. Todas as proposições do marxismo, incluindo aquelas que são aparentemente gerais, são específicas.
  2. O marxismo não é positivo, é crítico.
  3. Seu objetivo não é a sociedade capitalista existente em seu estado afirmativo, mas a sociedade capitalista em declínio tal como é revelada  pelas tendências operacionais demonstráveis de sua dissolução e decadência.
  4. Seu primeiro propósito não é o prazer contemplativo do mundo existente, mas sua transformação prática.

I

Nenhuma dessas características do marxismo foi adequadamente reconhecida ou aplicada pela maioria dos marxistas. Repetidas vezes os chamados marxistas “ortodoxos”  recorreram ao modo de pensamento “abstrato” e “metafísico”, que o próprio Marx – depois de Hegel – negou enfaticamente e que, de fato, foi absolutamente refutado por toda a evolução do pensamento moderno durante os últimos cem anos. Assim, recentemente, por exemplo, um marxista inglês tentou mais uma vez “salvar” o marxismo das acusações feitas por Bernstein e outros, de que o curso da história moderna se desvia do padrão de desenvolvimento delineado por Marx, com a miserável desculpa de que Marx tentou descobrir “as leis gerais da mudança social não apenas a partir do estudo da sociedade no século XIX, como também a partir do estudo do desenvolvimento social desde os inícios da sociedade humana”, e que é, portanto, “bastante possível” que suas conclusões sejam “tão certas para o século XX como foram para o período em que ele as alcançou”. É evidente que tal defesa destrói o verdadeiro conteúdo da teoria marxista mais efetivamente do que os ataques realizados por qualquer revisionista. No entanto, essa foi a única resposta dada nos últimos trinta anos pela “ortodoxia” marxista tradicional às acusações feitas pelos reformistas de que uma ou outra parte do marxismo estava desatualizada.

Por outras razões, há uma tendência do caráter específico do marxismo que hoje é esquecida por parte dos cidadãos do Estado soviético marxista, por aqueles que enfatizam a validade geral e universal das proposições marxistas fundamentais para canonizar as doutrinas subjacentes à atual conformação de seu Estado. Assim, um dos peões ideológicos do stalinismo atual, L. Rudas, está tentando por em questão, em nome do marxismo, o progresso histórico alcançado por Marx há noventa anos, quando empreendeu a inversão (Umstuelpung) da dialética hegeliana à sua dialética materialista. Usando como base uma citação de Lênin, usada em um contexto inteiramente distinto contra o materialismo mecanicista de Bukharin e que significa algo totalmente diferente do que Rudas disse que significa, este último transforma a contradição histórica entre “forças produtivas” e “relações de produção” em um princípio “supra-histórico” que ainda se aplicará em um futuro remoto da sociedade sem classes plenamente desenvolvida.

Na teoria de Marx são captadas três oposições fundamentais como aspectos da unidade histórica concreta do movimento revolucionário prático. Estas são, na economia: a contradição entre “forças produtivas” e “relações de produção”; na história: a luta entre classes sociais; no pensamento lógico: a oposição entre tese e antítese. Destes três aspectos, igualmente históricos, do princípio revelado por Marx na mesma natureza da sociedade capitalista, Rudas, em sua transfiguração supra-histórica da concepção totalmente histórica de Marx, abandona o meio termo ao considerar o conflito vivo das classes em luta como uma mera “expressão” ou resultado de uma forma histórica transitória da contradição essencial subjacente, e mantém como único fundamento da “dialética materialista’’, agora inflada como uma lei eterna de desenvolvimento cósmico, a oposição entre “forças produtivas” e “relações de produção”. Ao fazer isso, chega a conclusão absurda de que, na atual economia soviética, a contradição fundamental da sociedade capitalista existe em forma “inversa”. Ele diz que “na Rússia, as forças produtivas já não se rebelam contra as relações produtivas que as travam, mas ao invés disso é o atraso relativo das forças produtivas em relação as relações de produção estabelecidas que empurram para a frente a União Soviética a um ritmo de desenvolvimento tão rápido que não tem precedentes”.

A convicção exposta em minha edição d’O Capital de Marx, de que todas as proposições contidas nesta obra, especialmente as concernente à “acumulação primitiva”, tal como é tratada no último capitulo do livro, representam apenas um esboço histórico da ascensão e do desenvolvimento do capitalismo na Europa ocidental e têm validade universal além disso apenas no mesmo sentido em que todo conhecimento empírico das formas naturais e históricas se aplica a mais que os casos individuais considerados, foi unanimemente rejeitada pelos porta-vozes de ambas frações do marxismo ortodoxo russo e alemão. De fato, esta disputa comigo apenas repete e enfatiza um princípio que o próprio Marx havia expressado explicitamente há quarenta anos, ao corrigir o sociólogo russo idealista Mikhailovsky sobre sua má interpretação da método d’O Capital. É, realmente, uma implicação necessária do princípio fundamental da investigação empírica, que em nossos tempos atuais somente é negado por alguns metafísicos inveterados. Comparado com o renascimento desta dialética pseudofilosófica nos escritos marxistas “modernos” – como fica exemplificado em Rudas -, quão sóbrio, claro e definido era o ponto de vista adotado pelos velhos marxistas revolucionários, Rosa Luxemburgo e Franz Mehring, que enxergaram que o princípio da dialética materialista, incorporado à economia marxiana, não significava nada mais que a relação específica de todos os termos e proposições econômicas com objetos historicamente determinados.

Todas as questões ardorosamente disputadas no campo do materialismo histórico – questões que, quando se formulam em sua forma geral, são tão insolúveis e carentes de sentido como as conhecidas disputas escolares sobre o que veio primeiro, se a galinha ou o ovo – perdem seu caráter misterioso e estéril quando se expressam de uma maneira concreta, histórica e específica. Por exemplo, Friedrich Engels, em suas conhecidas cartas sobre o materialismo histórico, escritas depois da morte de Marx, ao partir de considerações indevidas para a crítica da unilateralidade que sustentavam críticos burgueses e supostos marxistas contra a proposição de Marx de que “a estrutura econômica da sociedade constitui o fundamento real sobre o qual as superestruturas legais e políticas são construídas e as quais correspondem formas definidas de consciência social”, modificou efetivamente a doutrina de Marx. Imprudentemente admitiu que, em grande parte, as chamadas “reações” poderiam ocorrer entre a superestrutura e a base, entre o desenvolvimento ideológico e o desenvolvimento econômico e político, introduzindo assim uma confusão completamente desnecessária nas fundamentações do novo princípio revolucionário. Pois, sem uma determinação quantitativamente exata de “quanta” ação e reação ocorrem, sem uma indicação exata das condições em que um ou outro ocorre, toda a teoria marxiana do desenvolvimento histórico da sociedade, tal como interpretada por Engels, se torna inútil até mesmo como hipótese de trabalho.

Como foi dito, não se oferece a mais ligeira sugestão acerca de que se devemos buscar a causa de qualquer mudança na vida social na ação da base sobre a superestrutura ou na reação da superestrutura sobre a base. E a lógica do assunto não se altera por evasões verbais como fatores “primários” ou “secundários”, ou pela classificação das causas em “imediatas”, “mediatas” e “últimas” – ou seja, as que se demostram decisivas em última análise. O problema inteiro desaparece quando logo substituímos a questão geral do efeito da “economia como tal” sobre “a política como tal”, ou “a lei, a arte e a cultura como tais”, e vice-versa, por uma descrição detalhada das relações dadas que existem entre os fenômenos econômicos definidos sobre um nível de desenvolvimento histórico dado e os fenômenos dados que aparecem simultaneamente ou subsequentemente sobre qualquer outro campo de desenvolvimento político, jurídico e intelectual.

Segundo Marx, é assim que o problema deve ser colocado. Seu esboço, publicado postumamente, de uma introdução geral a sua Crítica da Economia Política – apesar do caráter de esboço – é uma declaração clara e muito significativa deste problema complexo. A maioria das objeções levantadas depois contra seu princípio materialista são antecipadas e respondidas. Isto é particularmente certo para o problema tão sutil da relação sombria entre o desenvolvimento da produção material e a criação artística, que se evidencia no fato bem conhecido de que “certos períodos do desenvolvimento mais elevado da arte não estão em relação direta alguma com o desenvolvimento geral da sociedade nem com a base material de sua organização”. Marx mostra o duplo aspecto no qual este desenvolvimento desigual adquire uma forma histórica dada – “a relação entre as diferentes formas de arte dentro dos domínios da própria arte” e as “relações entre o conjunto do campo da arte e o conjunto do desenvolvimento social”. A dificuldade só consiste na maneira geral em que estas contradições se expressam. Logo que são tornadas específicas e concretas, são esclarecidas.

II

Tão ardorosamente disputada quanto minha posição concernente ao caráter específico, histórico e concreto de todas as proposições, leis e princípios da teoria marxiana, incluindo aqueles aparentemente universais, é minha segunda posição de que o marxismo é essencialmente crítico, não positivo. A teoria marxiana não constitui em uma filosofia materialista positiva nem em uma ciência positiva. Do princípio ao final, é uma crítica, tanto teórica como prática, da sociedade existente. Claro que, a palavra “crítica” (Kritik) deve ser entendida no sentido compreensivo e ainda assim na precisão em que era usada pelos pré-revolucionários dos anos quarenta do século XIX, por todos hegelianos de esquerda, incluindo Marx e Engels. Não se deve confundir com a conotação do termo contemporâneo “crítica” (criticismo). A “crítica” deve ser entendida não em um sentido meramente idealista, mas como crítica materialista. Inclui, desde o ponto de vista do objeto, uma investigação empírica, “dirigida com a precisão da ciência natural”, de todas as suas relações e desenvolvimento, e do ponto de vista do sujeito, dando conta de como os desejos, intuições e demandas impotentes dos sujeitos individuais se convertem em um poder de classe historicamente efetivo que leva a “práxis revolucionária”.

Esta tendência crítica, que desempenha um papel tão proeminente em todos os escritos de Marx e Engels até 1848, ainda está viva nos estágios posteriores do desenvolvimento da teoria marxiana. A obra econômica de seu período posterior está tão estreitamente relacionada com seus escritos filosóficos e sociológicos anteriores, do que os economistas marxistas ortodoxos estão dispostos a admitir. Isso aparece nos mesmos títulos de seus livros posteriores e anteriores. A primeira obra importante que foi empreendida por ambos os amigos em comum, em 1846, para apresentar a oposição de suas visões políticas e filosóficas às do idealismo hegeliano de esquerda contemporâneo, foi intitulada de Crítica da Ideologia Alemã. E em 1859, quando Marx publicou a primeira parte de sua planejada obra econômica compreensiva, para dar ênfase a seu caráter crítico, a intitulou Crítica da Economia Política. Isso foi mantido no subtítulo de sua obra principal, O Capital – Crítica da Economia Política. Os marxistas “ortodoxos” recém chegados esquecem ou negam, a supremacia da tendência crítica no marxismo. No máximo, a consideram de importância puramente extrínseca e completamente irrelevante para o caráter “científico” das proposições marxistas, especialmente no campo que – de acordo com eles – era a ciência básica do marxismo, ou seja, a economia.

A formulação mais grosseira que adquire esta revisão se encontra no conhecido livro O capital financeiro, do marxista austríaco Rudolf Hilferding, onde a teoria econômica do marxismo é tratada como uma mera fase da continuidade intacta da teoria econômica, totalmente separada dos objetivos socialistas e, de fato, sem implicações para a prática. Tendo formalmente declarado que a teoria econômica, assim como a teoria política do marxismo, estão “livres de juízos de valor”, o autor observa que

“É, portanto, falso conceber, como amplamente é feito, intra et extra muros, que o marxismo e o socialismo são idênticos. Pois, logicamente, considerado como um sistema científico e a parte de seu efeito histórico, o marxismo é somente uma teoria das leis de movimento da sociedade formulada em termos gerais na concepção marxista da história, se aplicando em particular a economia marxiana ao período de produção de mercadorias. Mas a compreensão da validade do marxismo, que inclui a compreensão da necessidade do socialismo, não é de algum modo um assunto de juízos de valor e nem mesmo uma indicação para o procedimento prático. Pois uma coisa é reconhecer uma necessidade, e outra coisa é trabalhar por esta necessidade. É totalmente possível para alguém convencido da vitória final do socialismo lutar contra ele.”

É verdade que esta interpretação pseudocientífica e superficial do marxismo ortodoxo foi confrontada mais ou menos efetivamente pelas teorias marxianas contemporâneas. Enquanto na Alemanha o princípio crítico, melhor dizendo, revolucionário, do marxismo foi atacado abertamente pelos revisionistas de Bernstein e somente defendidos com relutância por “ortodoxos” como Kautsky e Hilferding, na França, em um efêmero movimento de “sindicalismo revolucionário”, tal como exposto por Georges Sorel, que se esforçou muito por reviver precisamente este aspecto do pensamento marxiano, como um dos elementos básicos da nova teoria revolucionária da guerra de classes proletária. E um passo mais efetivo na mesma direção foi dado por Lênin, que aplicou o princípio revolucionário do marxismo à prática da revolução russa, e ao mesmo tempo conseguiu um resultado não menos importante dentro do campo teórico, restaurando alguns dos ensinamentos revolucionários mais poderosos de Marx.

Mas nem Sorel, o sindicalista revolucionário, nem Lênin, o comunista, utilizaram toda a força e impacto da “crítica” marxiana original. A disposição a irracionalidade de Sorel, pela qual ele transformou várias doutrinas marxianas importantes em “mitos”, apesar de suas intenções, levou a um tipo de “desbaratamento” destas doutrinas no que diz respeito a sua tradução prática na luta de classes proletária revolucionária, e ideologicamente preparou caminho para o fascismo de Mussolini. A divisão um tanto grosseira das proposições da filosofia, economia, etc., feita por Lênin, entre as quais que são “úteis” ou “daninhas” para o proletariado (um resultado de sua preocupação muito exclusiva pelos efeitos presentes imediatos de aceitá-las ou negá-las, e sua excessivamente pouca consideração acerca de seu possível futuro e seus últimos efeitos), introduziu essa coagulação da teoria marxista, essa declinação e, em parte, distorção do marxismo revolucionário, que dificulta muito ao marxismo soviético atual realizar qualquer progresso fora dos limites de seu próprio domínio autoritário.

Evidentemente, o proletariado revolucionário não pode, em sua luta prática, prescindir da distinção entre proposições científicas verdadeiras e falsas. Igual que o capitalista como homem prático, “embora nem sempre pensa o que diz fora de seu negócio, com todo o seu negócio, sabe do que fala” (Marx), e, como o técnico, para construir um artefato deve ter um conhecimento exato de pelo menos certas leis físicas, assim o proletariado deve possuir um conhecimento verdadeiro suficiente em economia, política e outros assuntos objetivos para levar a luta de classe revolucionária a uma consumação bem-sucedida. Neste sentido, e dentro destes limites, o princípio crítico do marxismo materialista, revolucionário, inclui o conhecimento estrito, empiricamente verificável, “cunhado com toda a precisão da ciência natural”, das leis econômicas do movimento e desenvolvimento da sociedade capitalista e da luta de classes proletária.

III

A teoria marxista não se esforça para conseguir um conhecimento da realidade a partir de um interesse teórico ou independente. Ela está impulsionada a adquirir este conhecimento pelas necessidades práticas da luta, e pode ser negada com o enorme risco de fracassar na consecução de sua meta, ao preço da derrota e do eclipse do movimento proletário que representa. E justamente porque nunca perde de vista seu propósito prático, evita qualquer tentativa de impor à experiência o desenho de uma construção monista do universo, para edificar um sistema unificado de conhecimento. A teoria marxista não está interessada em tudo, nem está interessada na mesma intensidade em todos os objetos de seu interesse. Sua única preocupação se refere àquelas coisas que exercem certa pressão sobre seus objetivos, e a todas as coisas e a cada aspecto das mesmas em função de que tal coisa particular, ou tal aspecto particular de uma coisa, está relacionada com seus propósitos práticos.

O marxismo, apesar de sua aceitação inquestionada da prioridade genética (priorität) da natureza externa a todos os eventos históricos e humanos, está primariamente interessado nos fenômenos e interrelações da vida histórica e social. Melhor dizendo, está primeiramente interessado no que é relacionado com as dimensões do desenvolvimento cósmico, que ocorre dentro de um breve período de tempo e em cujo desenvolvimento pode entrar como força prática, influente. O fracasso nisto, na visão de certos marxistas ortodoxos do Partido Comunista, dá conta de seus vigorosos esforços por reivindicar a mesma superioridade, sem dúvida possuída pela teoria marxiana no campo da sociologia, para essas opiniões completamente primitivas e atrasadas que, até o dia de hoje, são mantidas por teóricos marxistas no campo da ciência natural. Devido a essas intrusões desnecessárias, a teoria marxiana se expõe a esse conhecido desprezo que é dispensado a seu caráter “científico” até mesmo por aqueles cientistas naturais contemporâneos que, em conjunto, não são hostis ao socialismo.

Contudo, uma interpretação científica menos “filosófica” e mais progressiva do próprio conceito de “síntese das ciências” marxiana, começou justamente a manifestar-se entre os representantes mais inteligentes e responsáveis da teoria marxista-leninista contemporânea das ciências, cujos pronunciamentos são tão diferentes dos de Rudas e companhia, como os pronunciamentos do governo soviético russo são daqueles das seções não russas da Internacional Comunista. Assim, por exemplo, o professor V. Asmus, em seu artigo programático, enfatiza que, além da “comunidade objetiva e metodológica” da história e das ciências naturais, existe ao mesmo tempo a “peculiaridade das ciências socio-históricas que não permite, em princípio, a identificação de seus problemas e métodos com os das ciências naturais”.

Até mesmo dentro da esfera da atividade histórico-social, a investigação marxista está principalmente interessada no modo particular de produção subjacente a “formação socioeconômica” da época atual, ou seja, o sistema capitalista de produção de mercadorias como base da moderna “sociedade burguesa” considerada no processo de seu desenvolvimento histórico efetivo. Em sua indagação sobre este sistema social específico procede, por um lado mais amplamente do que qualquer outra teoria sociológica, na medida em que se interessa preferentemente pelas fundamentações econômicas. Por outro lado, não se preocupa por todos os aspectos econômicos e sociológicos da sociedade burguesa. Presta atenção, particularmente às discrepâncias, falhas, limitações e desajustes em sua estrutura. Não é o denominado funcionamento normal da sociedade burguesa que interessa ao marxismo, mas o que aparece ao seus olhos como a verdadeira situação normal deste sistema social particular, ou seja, a crise. A crítica marxiana da economia burguesa e do sistema social baseado nela, culmina em uma análise crítica da tendência à crise (Krisenhaftigkeit), isto é, da tendência sempre crescente do modo de produção capitalista a assumir todas as características da crise efetiva, até mesmo dentro das fases ascendentes ou de recuperação – de fato, através de todas as fases do ciclo periódico pelo que passa a indústria moderna, e cujo ponto alto é a crise universal -. Uma cegueira assombrosa acerca desta orientação básica da economia marxista, que está tão claramente expressa em todas as partes dos escritos de Marx, conduziu a alguns marxistas ingleses a descobrir uma “lacuna de certa importância” na obra de Marx, em seu fracasso de estabelecer a necessidade econômica de recuperação da crise, uma vez que demonstrou a necessidade de sua emergência.

Até mesmo nas esferas não econômicas da superestrutura política e da ideologia geral da sociedade moderna, a teoria marxista se interessa primariamente nas fendas e falhas, os pontos de tensão que revelam ao proletariado revolucionário esses lugares cruciais na estrutura social onde sua própria atividade prática pode ser aplicada com maior eficácia.

Em nossos dias, tudo parece estar grávido de seu oposto. Maquinarias são dotadas dos poderes mais notáveis para abreviar o trabalho humano o tornando  mais produtivo, gerando em seu lugar fome e mais-trabalho. As novas primaveras da riqueza se transformaram, por uma peculiar fórmula mágica do destino, nas fontes da pobreza. As conquistas das artes parecem ser ganhas ao preço da perca de caráter. Na medida que o homem controla a natureza, ele parece ser controlado por outros homens, ou por sua própria mesquinharia. Parece que a pura luz da ciência apenas pode resplandecer contra o fundo escuro da ignorância. Todos nossos descobrimentos e progressos aparentam não haver tido nenhuma outra consequência que dotar as forças materiais de vida espiritual e embrutecer a vida humana como uma força material. Esta oposição, entre a indústria moderna e a ciência por uma parte, e a pobreza e decadência modernas pela outra, esta oposição entre as forças produtivas e as relações sociais de nossa época é um fato evidente, avassalador e inegável. Algumas partes podem lamentar, outras podem desejar livrar-se da perícia moderna e, portanto, de seus conflitos. Ou podem crer que tal progresso notável na indústria demanda, para sua complementação, um retrocesso igualmente notável na política.[1]

IV

As características específicas do marxismo tratadas até aqui, junto com o princípio prático, implícito em todas elas, que conduz os marxistas a subordinar todo conhecimento teórico rumo a ação revolucionária, fornecem características fundamentais da dialética materialista marxiana, cuja base se distingue da dialética idealista de Hegel. A dialética de Hegel, o filósofo burguês da restauração, que foi elaborada até os últimos detalhes como um instrumento que justifica a ordem existente, com uma permissividade moderada para um possível progresso “racional”, foi transformada de modo materialista por Marx, mediante uma análise crítica cuidadosa, em uma teoria revolucionária não só no conteúdo, mas também no método. Tal como foi transformada e aplicada por Marx, a dialética provou que a “racionalidade” da realidade existente afirmada por Hegel sobre fundamentos idealistas era apenas uma racionalidade transitória, que no curso de seu desenvolvimento necessariamente desembocava em “irracionalidade”. Esse estado irracional da sociedade será, no tempo devido, completamente destruído pela nova classe proletária que, ao se apropriar da teoria e usá-la como arma de sua “prática revolucionária”, ataca a “irracionalidade capitalista” em sua raiz.

Devido a essa mudança fundamental em seu caráter e aplicação, a dialética marxiana, que como Marx justamente aponta, em sua forma “mistificada” hegeliana, tornou-se moda entre os filósofos burgueses, “se convertendo agora em um escândalo e uma abominação para a burguesia e seus professores doutrinários, pois inclui em sua compreensão o reconhecimento afirmativo do existente estado de coisas, também ao mesmo tempo o reconhecimento da negação desse estado, de sua dissolução inevitável; considerando toda forma social historicamente desenvolvida, como seu movimento e, portanto, leva em conta sua natureza transitória, não menos sua existência momentânea; não permitindo que nada lhe seja imposto e em sua essência é crítica e revolucionária”.[2]

Assim como todos os aspectos críticos, ativos e revolucionários do marxismo tem sido ignorados pela maioria dos pretensos marxistas, o mesmo ocorreu com o caráter geral da dialética materialista marxiana. Até mesmo os melhores dentre eles apenas de modo parcial restauraram sua orientação crítica e revolucionária. Diante da universalidade e amplitude da atual crise mundial e das lutas proletárias cada vez mais agudas, que excedem em intensidade e em extensão todos os conflitos das fases iniciais do desenvolvimento capitalista, nossa tarefa hoje é dar à nossa teoria marxiana revolucionária sua correspondente forma e expressão e, portanto, expandir e atualizar a luta revolucionária proletária.

Londres, 10 de outubro de 1934.


[1] K. Marx, Discurso na quarta celebração anual do People’s Paper cartista, abril de 1856.

[2] Epílogo à 2ª edição d’O Capital, 1873

Traduzido por Thiago Oligon a partir da versão disponível em: El Viejo Topo. Revisado por Gabriel Teles.