Política Revolucionária e Guerra Mundial: A capitulação ideológica frente ao conflito – Maurício Cunha

Quando o SPD votou os créditos de guerra no parlamento alemão, as pessoas então foram às ruas, não para protestar, mas para comemorar a entrada na Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Isso é contado com um misto de surpresa e intensa frustração por Rosa Luxemburgo, que seria presa mais tarde por seu ativismo contra a guerra, antes de ser novamente libertada pela Revolução que viria a estourar no final de 1918. Não havia então qualquer perspectiva de transformação radical no horizonte, muito pelo contrário; o desespero se abatia sobre os militantes revolucionários. Já os que votaram os créditos de guerra no parlamento justificariam seu voto dizendo expressar a tal “vontade popular”.

Hoje como ontem assistimos, não com grande surpresa, os diferentes partidos e organizações que compõem o bloco progressista repetirem a mesma ladainha com uma nova roupagem, seja apoiando-se numa noção “anti-imperialista” capenga, seja defendendo uma (abstrata) “autodeterminação das nações”, fraseologia tão burguesa quanto outra qualquer. Mas isso, novamente, já era de se esperar. O que é lamentável é ver parte do que supostamente compõe o bloco revolucionário aderir, no calor do momento, a um ou outro lado do conflito interimperialista, o que prova a fragilidade de suas concepções. Trata-se de fortalecer, direta ou indiretamente, uma política colaboracionista; em outras palavras, uma política contrarrevolucionária, própria da social-democracia, o que é ainda mais grave no caso de uma guerra, em que o proletariado é usado como bucha de canhão para satisfazer os interesses das respectivas burguesias nacionais dos países imperialistas envolvidos no conflito.

Não há política revolucionária consequente que não aquela que busca fomentar a autonomia da classe operária, a auto-organização do proletariado em função de seus interesses próprios, sua formação em classe-para-si, autodeterminada. Toda e qualquer outra política orientada pela correlação de forças “concreta” – ou seja, aquelas que estão postas, as forças do capital e de seus Estados -, que se paute somente pelo jargão do “possível”, pela miséria da realpolitik, está de fato orientada para a reprodução – e, por consequência, o reforço – desta merda toda. Uma tal orientação é cega em relação às tendências e possibilidades subjacentes a esta mesma “realidade” (que eles consideram sob uma ótica dura, como algo fechado, e não como contradição, movimento). Em outras palavras, não se contempla qualquer compreensão da totalidade – síntese das múltiplas determinações.

Tais grupos e indivíduos podem, em teoria, buscar e desejar o socialismo, mas na prática, isolam-no e o projetam para um futuro distante e indefinido, enquanto seguem reproduzindo sua política de verniz “revolucionário” (os símbolos!), mas cujo núcleo íntimo é francamente reformista. Não compreendem os desdobramentos dessa mesma “realidade concreta” que julgam conhecer que apontam efetivamente para a transformação radical da sociedade; isto é, o proletariado como classe revolucionária, que traz em si o futuro, e cujos interesses fundamentais coincidem com a emancipação da humanidade.

Frente ao recrudescimento das condições de vida no capitalismo, à crise social e ambiental cada vez mais gritante; frente à ameaça de uma hecatombe nuclear, a humanidade chega novamente à encruzilhada: socialismo ou barbárie! Superação do capitalismo ou fenecimento da raça humana!

É preciso ter coragem de erguer a voz dissonante no meio das meias-verdades e jargões circulantes no pregão de opiniões. A verdade, afinal de contas, é intolerável no reino das ideologias, numa sociedade baseada na mentira. É tempo de reforçar o imaginário revolucionário, exigir o impossível, de mostrar a única saída realista para o atual estado de coisas.

A guerra não é simplesmente “má”, como diz a boa consciência liberal; não se trata de reivindicar um pacifismo abstrato. Ela também não é um mero acidente de percurso ou um produto da natureza humana; ela é fruto da própria dinâmica do capitalismo. Portanto, para acabar com esta e com todas as guerras, para varrer de vez o risco de uma Terceira Guerra Mundial, só acabando com o capitalismo.

A reificação da vida cotidiana na sociedade capitalista alcança hoje uma extensão tal que a sensação é que vivemos um “eterno presente” (Debord). Para aqueles imersos nas engrenagens do trabalho alienado, não parece haver qualquer escapatória; as suas próprias relações sociais reificadas se voltam contra eles como um poder estranho, que lhes é completamente hostil. Acontece que, nadando na superfície, na aparente “normalidade” da sociedade burguesa, as suas contradições não são facilmente perceptíveis. Tal é o alcance da teoria: a teoria como esforço negativo, de ir “contra-e-mais além” das aparências. Mas tal teoria – o marxismo – não paira sobre nossas cabeças como uma nuvem; suas raízes estão profundamente fincadas nas relações materiais da sociedade moderna. E é por isso que não existe teoria revolucionária sem o surgimento da classe revolucionária de nossa época, o proletariado. O proletariado é a chave para compreender a transformação da sociedade capitalista em sociedade comunista; é a flecha que aponta para o futuro. O movimento por sua autoemancipação é o movimento pela emancipação humana.

Março de 2022.