O Beco sem Saída da Interseccionalidade – Mike Macnair

Eu recentemente, escrevi quatro artigos sobre interseccionalidade no Weekly Worker e não vou basear essa apresentação neles.[1] Mas talvez valha a pena resumir seu conteúdo.

O primeiro visa a discussão sobre interseccionalidade na revista Science and Society – uma publicação teórica associada ao Partido Comunista dos EUA, onde diversas autoras “marxistas-feministas” comentaram o tema; aproveitei a oportunidade para também examinar um artigo de Kimberlé Crenshaw, que cunhou o termo “interseccionalidade”.

O segundo artigo abordava a crítica às políticas de identidade e interseccionalidade publicadas na revista online Nonsite, e a tentativa de um dos autores de construir uma alternativa com base em fundamentos econômicos – excluindo da equação tudo o que não estivesse relacionado a questões de desigualdade econômica.

A terceira análise incluiu a republicação, em 2017, da famosa declaração do Coletivo River Combahee da década de 1970 — um dos documentos fundamentais da interseccionalidade antes mesmo de o termo ser cunhado — juntamente com entrevistas com os participantes desse movimento; e um livro de 2018 de Asad Haider intitulado “Mistaken identity: race and class in the age of Trump[2]. Ambos buscam contrapor as ideias da esquerda da década de 1970, que se desenvolveram dentro da interseccionalidade, em oposição às suas expressões pró-capitalistas modernas.

No quarto artigo, tentei pensar de forma mais positiva sobre a questão: por que a classe capitalista, particularmente a classe dominante dos EUA, pode ter desenvolvido certo entusiasmo pelo combate à discriminação e pela interseccionalidade. Isso já fazia parte da Plataforma do Libertarian Party[3] nos EUA, quando ele foi fundado no início dos anos 1970 – logo depois do nacionalismo negro, feminismo radical, etc., aparecerem como um fenômeno na esquerda. Tanto o Libertarian Party quanto seus simpatizantes dentro do Partido Republicano perceberam imediatamente que isso poderia ser usado como uma ferramenta para desmantelar projetos de esquerda e a solidariedade sindical no local de produção. O uso da legislação antidiscriminatória para reprimir as lutas sindicais e o que ficou conhecido como a “coalizão democrata do New Deal” nas décadas de 1970 e 1980 foi, inclusive, tema de pelo menos um livro, embora eu não o tenha resenhado.

Não vou repetir tudo isso agora, mas ao invés disso, quero falar de forma um pouco mais geral, talvez mais abstrata. Quero me concentrar em cinco pontos: primeiro, a natureza da política interseccional na política contemporânea; segundo, suas consequências políticas; terceiro, o contexto para isso; quarto, alguns pontos sobre sua lógica; e, finalmente, alguns pontos sobre possíveis alternativas. Não vou retomar os argumentos originais de Kimberlé Crenshaw e nem qual o significado técnico da interseccionalidade.

Política

Os argumentos da interseccionalidade afirmam que existe uma série de reivindicações seccionais concorrentes — raça, gênero, sexualidade, questões transgênero, deficiência, classe — que se “interseccionam”, no sentido de que as pessoas vivenciam múltiplas opressões. A natureza da política que surge, contudo, está fundamentada na autoridade da experiência pessoal.

Eu me envolvi em grupos dissidentes da Gay Liberation Front (Frente de Libertação Gay)[4] no início da década de 1970, e a autenticidade da minha experiência pessoal como um homem assumidamente gay naquela época talvez me confira – para os interseccionalistas – alguma autoridade para falar sobre o assunto: alega-se que aqueles que não têm essa experiência pessoal não têm autoridade para falar sobre ela. Os eurocomunistas britânicos e os maoístas estadunidenses já tinham essa ideia na década de 70; os trotskistas envolvidos não a tinham, mas no início da década de 1980 também começaram a aceitá-la.

Existe aqui uma estreita associação com os “espaços seguros” (safe spaces) e o controle da liberdade de expressão, concebidos para garantir espaço para pessoas oprimidas de diversas maneiras.

Uma ideia central era que não adiantava esperar pelo socialismo. À primeira vista, isso significa que devemos lutar agora por questões de raça, gênero, etc., bem como por questões de classe; mas na verdade, a interpretação era, e continua sendo, que, como não podemos alcançar o socialismo no futuro imediato, ainda assim nós podemos alcançar o fim de várias formas de opressão para além da opressão de classe. Neste sentido, nós devemos nos concentrar apenas nesses fins imediatos.

A interseccionalidade significava que não éramos a favor do separatismo, mas que era preciso respeitar cada uma das “seções” (sections). Isso implica em coalizões de grupos baseados em experiências particulares, que têm poder de veto – embora nem sempre sejam formalmente descritas dessa forma. Em 1987-88, participei de uma tentativa de construir uma coalizão positiva para uma campanha por legislação em prol dos direitos para lésbicas e gays. Realizamos uma conferência em que haviam diferentes grupos, cada um com poder de veto – o resultado foi que nenhuma proposta foi acordada. O grupo de jovens vetou tudo que não incluísse a abolição da idade de consentimento, enquanto o grupo de mães lésbicas vetou tudo que a incluísse.

Alegações sobre a primazia da experiência pessoal formaram a base dessa concepção de coalizões nesse contexto.

Consequências

Vou me concentrar nas consequências negativas, embora, é claro, existam consequências positivas, no sentido de que, por meio dessas várias campanhas, conseguimos eliminar uma série de leis discriminatórias de um tipo ou de outro.[5] Quando entrei na universidade pela primeira vez, em 1972, Oxford tinha cinco faculdades femininas e 26 masculinas. A universidade havia abolido, em 1957, uma regra que estabelecia um máximo de 25% de estudantes mulheres, mas o sistema de faculdades separadas significava que a regra era mantida de facto. Essa forma institucionalizada de discriminação foi derrubada nas décadas de 1970 e 1980.

Mas a interseccionalidade tem consequências negativas como política, o que, na minha visão, significa que ela chegou a um beco sem saída.

Em primeiro lugar, existem os “espaços seguros” e as controvérsias que são tidas como não passíveis de serem debatidas. É bastante claro que tais políticas são um desperdício inútil de tempo e energia, que na verdade reduzem a possibilidade de uma melhor compreensão.

Em segundo lugar, temos as “guerras TERF[6]”, em que “feministas radicais trans-exclusivistas” se opõem a transexuais (geralmente que transitam do sexo masculino para o feminino).[7] Este é claramente um fenômeno negativo, pois há problemas com os argumentos de ambos os lados. A forma que assume atualmente — que depende da alegação de autenticidade da experiência pessoal — não leva a lugar nenhum, a não ser à “falta de espaço” (no platform) e o retorno à estaca zero.

Em terceiro lugar, há a caça às bruxas antissemita que está em curso atualmente. Ela se baseia em difamar Jeremy Corbyn e a liderança do Partido Trabalhista, acusando-os de racismo, sob a alegação de que discriminam os judeus ao se recusarem a reconhecer que os judeus, como grupo, têm o “direito à autodeterminação nacional” no território da Palestina. A implicação é que o antissionismo é inerentemente antissemita. Isso não é política tradicional de direita: é a interseccionalidade sendo usada como arma contra a esquerda!

Em quarto lugar — e claramente relacionado a isso — está o fato de que os apoiadores de Clinton na campanha presidencial dos EUA acusaram a ala esquerda do Partido Democrata, e aqueles fora dele que se mobilizaram em torno de Bernie Sanders, de racismo, porque se recusavam a priorizar o movimento Black Lives Matter, etc., em detrimento de questões econômicas; e de sexismo porque se recusavam a priorizar a eleição de uma mulher presidente. Alegava-se que era essencial para os democratas criar uma coalizão de negros, mulheres, hispânicos, lésbicas e gays, etc. — além de empresas de tecnologia e Wall Street.

Em quinto lugar, há a política de identidade branca. Se você pesquisar isso no Google — ou “política de identidade cristã” — encontrará muitas referências a ela. Muito disso alimenta o Trumpismo, enquanto Jacob Rees-Mogg promove a política de identidade inglesa — assim como David Cameron fez no dia seguinte ao referendo sobre a independência da Escócia, defendendo o direito dos ingleses de decidirem sobre seus próprios assuntos sem a “interferência” dos escoceses.

Contexto

Esta é uma história desagradável, pois trata do stalinismo. O Partido Comunista dos EUA, na década de 1930, desenvolveu a ideia de raça, gênero e classe como uma tríade de opressões com igual importância. O problema era: Como pode haver uma frente (front) popular sem a massa do campesinato? Nos Estados Unidos também não se pode falar em uma “revolução burguesa incompleta”.[8]

Então como se chega à ideia de que existem aliados de que a classe trabalhadora precisa, e em benefício dos quais a classe trabalhadora deve subordinar suas demandas para criar uma “ampla aliança democrática” – uma coalizão de classes – contra a burguesia? A Teoria de raça, gênero e classe poderia explicar isso. Havia uma grande concentração de negros nos estados do sul, e tanto o Partido Comunista dos EUA quanto alguns trotskistas defendiam a questão da autodeterminação nacional para os negros. Eles construíram essa ideia de raça, gênero e classe como três opressões separadas, e isso forneceria a base para a afirmação de que o movimento feminista liberal e o movimento nacionalista negro eram aliados da classe trabalhadora.

Juntamente com isso vem a proibição de facções, o qual possui dois aspectos. Primeiro, pessoas que desejam levantar questões de raça ou gênero dentro do partido precisam fazê-lo em algum tipo de reunião oficial — caso contrário, seria um caso de “fracionalismo”[9]. Assim, a proibição de facções leva à conclusão de que deveriam existir tais reuniões. Os trotskistas e o Partido Socialista dos Trabalhadores na Grã-Bretanha fizeram o mesmo, assim como o Grupo Marxista Internacional em 1977-78, quando concluíram que reuniões femininas não oficiais seriam uma má ideia e que era necessário haver reuniões oficiais.

Do outro lado disso, havia a alegação do “comunismo oficial” de que as facções precisavam ser banidas, pois representavam “interesses de classe opostos” dentro do partido — existe inerentemente um processo de luta de classes dentro do partido. Essa ideia de explicar as diferenças ideológicas por meio de interesses de classe dentro do partido é mais desenvolvida entre os maoístas americanos. A mesma ideia também estava presente, por exemplo, no Partido Revolucionário dos Trabalhadores (trotskista) na Grã-Bretanha na década de 1970 — qualquer oposição deveria ser necessariamente “pequeno-burguesa”.

O próximo passo se relaciona com a teoria da aristocracia operária e a teoria do privilégio.[10]  Pelo que entendi, a teoria da aristocracia operária afirma que setores do movimento operário, particularmente os trabalhadores qualificados, estão na ala direita do movimento operário porque são privilegiados – retornando a Lenin e Zinoviev. Bukharin segue uma linha diferente ao afirmar que, sob o imperialismo, a força de um determinado Estado na hierarquia internacional afeta a posição da classe trabalhadora como um todo: ou seja, tanto os desempregados quanto os setores mais qualificados e privilegiados. Portanto, a consequência do imperialismo é que a classe trabalhadora tende a ser subjugada pelo Estado-nação e sua burguesia.[11]

Se olharmos para isso na prática, os trabalhadores qualificados, por vezes, constituíram a base da ala direita do movimento sindical. Isso se aplicou no movimento sindical britânico na década de 1880 e aos sindicatos dos EUA na década de 1920. Todavia, ao analisarmos o sindicalismo britânico na década de 1920, os homens qualificados (era um mercado de trabalho muito marcado por questões de gênero) representavam o núcleo duro da ala esquerda – os caldeireiros, os engenheiros… Os grandes sindicatos gerais – em particular o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes e Serviços Gerais – constituíam o núcleo duro da ala direita. E o mesmo se verificou nos Estados Unidos. Após a criação do Congresso de Organizações Industriais (CIO)[12], houve um período de transição em que uma ala radical de esquerda surgiu dentro dos sindicatos de trabalhadores qualificados – por exemplo, os Teamsters.

Há um artigo interessante de Barry Eidlin, no qual ele analisa por que o Teamsters passou da esquerda para a direita. A resposta, de forma bastante direta, é a intervenção do Estado.[13] E essa também é a resposta em relação ao movimento sindical alemão e o TGWU[14].

A classe capitalista controla conscientemente aqueles que estão abaixo. Ela emprega táticas de dividir para governar — razão pela qual os gestores querem manter o direito de contratar e demitir, limitar a intervenção dos tribunais trabalhistas, etc. É por isso que eles querem manter os acordos salariais em sigilo e não gostam de negociação coletiva. Os gestores resistem a ter que divulgar a discriminação salarial por sexo justamente porque precisam controlar aqueles que estão abaixo deles de todas as maneiras possíveis.

Parte de gerir os que estão abaixo é controlando os líderes sindicais seja diretamente, subornando-os, seja colocando policiais no caso; ou incorporação cultural, que foi o que aconteceu com Ernest Bevin do TGWU – “Você foi convidado para visitar a rainha”; “Não é bom estar em bons termos com os ministros?” Então, há cerveja e sanduíches em Downing Street, etc., etc. Em retorno, espera-se que a burocracia sindical “dirija os membros”.

Nos anos 1960, nos EUA, a AFL-CIO, sob a liderança de George Meany, era entusiasta da guerra do Vietnã, mas as pesquisas, que só foram publicadas posteriormente, mostraram que os membros da AFL-CIO eram mais hostis à guerra. Meany e seus aliados foram capazes de manter o controle. Entre as décadas de 1940 e 1960, a esquerda foi expurgada com a ajuda da polícia, que prendia, processava e encarcerava comunistas para permitir que a liderança mantivesse o poder.

Na British Leyland Cowley, onde trabalhei por um tempo, houve intervenção da mídia e do Estado contra a liderança da Socialist Labour League na fábrica, a fim de retomar o controle para a burocracia da TGWU.

Essa “gestão ativa” leva ao controle por parte da liderança de direita, que pode se apresentar sob o disfarce de “privilégios” para trabalhadores mais qualificados. Mas a realidade é que os capitalistas atacam as lideranças dos setores mais organizados da classe. Os desorganizados precisam de menos gestão; geralmente, pode-se confiar que eles seguirão demagogos pró-capitalistas.

Talvez isso tenha sido uma pequena divagação, mas é importante ressaltar o significado da aristocracia operária. Todavia, isso tudo é uma aplicação da política da Frente Popular – a ideia de que o proletariado precisa formar alianças e se subordinar a outras classes. Tratava-se de uma aplicação da Frente Popular no contexto de um país capitalista avançado, onde era impossível falar de uma “revolução burguesa incompleta”, da necessidade de se aliar ao “campesinato” – ou muito menos da burguesia contra a aristocracia.

Depois, há a técnica de “expressar a amargura”[15]. Essa era uma técnica usada pelos comunistas chineses para mobilizar os camponeses, em particular, para a tomada de terras nos últimos anos do período das “zonas libertadas”, antes da queda de Chiang Kai-shek em 1949, e nos primeiros anos do regime revolucionário. A ideia era se reunir com o campesinato — separado dos latifundiários, dos sacerdotes e da classe média — para discutir todas as suas queixas, a fim de elevar sua consciência. Assim eles poderiam invadir as casas senhoriais, tomar posse das terras e redistribuí-las. Em meados da década de 1960, especialmente nos Estados Unidos, o maoísmo tornou-se uma ideia atraente para grande parte da esquerda estadunidense.

Os trotskistas tiveram uma desilusão nos EUA. JP Cannon disse em 1947 que o US SWP, que na época tinha por volta de 1.500 membros, poderia substituir o CPUSA (que tinha por volta de 85.000 membros) e se tornar o partido de massas da classe trabalhadora. A grande maioria da extrema esquerda estadunidense surgiu direta ou indiretamente do Partido Comunista, e entre os maiores atrativos estava o maoísmo e suas vertentes. Algumas eram versões ortodoxas, enquanto outras eram versões muito heterodoxas, brandas. E as versões heterodoxas e brandas, em particular, adotaram a ideia de “expressar amargura” e a conscientização.

Foi por essa razão que essa tática foi adotada pelos movimentos radicais de libertação negra e feminina, bem como pelo movimento gay, no final da década de 1960. Gostaria de enfatizar que essa não era uma técnica nova inventada por esses movimentos: era uma técnica do maoísmo chinês, que eles adaptaram para seus propósitos. Fazia muito menos sentido do que no contexto chinês, onde era usada, como já mencionei, para mobilizar os camponeses para a ação imediata. O campesinato era uma classe perfeitamente capaz de realizar ações coletivas, mas, em geral, tendia a não ter o tempo e a coordenação necessárias para cogitar fazê-lo, diferentemente da classe trabalhadora.

Mais uma vez, com base na minha própria experiência no local de trabalho, as pessoas estavam sempre resmungando e questionando se algum tipo de ação coletiva seria apropriada. Evidentemente, isso foi na década de 1970, quando o movimento sindical era muito mais forte. Mas a classe trabalhadora é forçada à ação coletiva e quase automaticamente a considera, enquanto o campesinato não.

Embora a elevação da consciência dos trabalhadores muitas vezes possa ser uma perda de tempo, para mulheres, negros, gays e lésbicas a história é diferente. Eles dificilmente estão em posição de derrubar o explorador, e sua opressão é mais difusa. Há mais atomização. A elevação da consciência pode gerar radicalização, mas não a capacidade de partir desse ponto para uma ação decisiva imediata. O resultado, frequentemente, são formas de desmoralização.

Então, esse era o contexto – o Partido Comunista dos EUA e a trilogia raça-gênero-classe. A ideia da frente popular, a proibição de facções e a ideia de luta de classes no partido, a teoria da aristocracia operária e do privilégio branco, e então a “expressão de amargura” e a conscientização — disso surgiu a ideia de que a autoridade para “falar como mulher” ou algo do tipo sempre nasce da experiência pessoal.

O que eu não mencionei em relação ao stalinismo foi, obviamente, o socialismo em um só país e o “caminho nacional”. Mas, na realidade, isso era dado como certo, enquanto esses aspectos não eram considerados parte dos fundamentos.

Lógica

Os dois pontos que vou apresentar a seguir são retirados de um estudioso literário estadunidense, Walter Benn Michaels. O primeiro diz respeito à concordância e à discordância. Afirmei que a proibição de facções leva inexoravelmente à ideia de luta de classes dentro do partido e às assembleias oficiais. Michaels aborda esse ponto em um artigo que escreveu em 2000, intitulado “Political science fictions” (Ficções da ciência política):

Os conflitos ideológicos são universais [em outras palavras, o conflito ideológico entre capitalismo e comunismo], precisamente porque, ao contrário dos conflitos de interesse, envolvem discordância. É a mera possibilidade de discordância que é universalizante. Não discordamos sobre o que queremos – apenas queremos coisas diferentes. Discordamos sobre o que é verdade, independentemente do que queremos.[16]

Este é, na verdade, um ponto filosófico fundamental: para aceitar que existem divergências que não são meramente conflitos de interesse, é preciso aceitar que existem divergências universais. Quando as pessoas rejeitam argumentos universalizantes a partir de uma perspectiva interseccional (“Não existem valores universais, apenas o meu ponto de vista”), ao fazê-lo, estão rejeitando a possibilidade de uma divergência legítima. Portanto, o fato de que o resultado disso seja a exclusão do debate é apenas a consequência natural de explicar todas as divergências por meio de conflitos de interesse.

O segundo ponto relacionado à lógica vem do livro de Michaels, How we came to love diversity. A questão é que, quando dizemos que não podemos esperar pelo socialismo e, portanto, devemos priorizar as questões femininas, negras ou transgênero, isso envolve um conceito de desigualdade no qual é moralmente aceitável que 90% da riqueza seja detida por 5% da população, desde que esses 5% sejam compostos por 50% de mulheres, 13% de negros, etc.

Por que a desigualdade social e econômica é moralmente aceitável? Porque, se eliminarmos a discriminação formal, estaremos criando igualdade de oportunidades! Mas, se você ainda for pobre mesmo com a “igualdade de oportunidades”, de quem é a culpa? O corolário dessa concepção é que, dado que a maioria dos pobres nos Estados Unidos é branca, é inevitável que vejamos um aumento na política de identidade branca (e na política de identidade cristã) — assim como na Índia vimos um aumento na política de identidade hindu, que atualmente está tomando o estado. Na Europa também existe política de identidade cristã, mais forte na Polônia e na Hungria.

Essa é o ponto levantado por Michaels, e eu penso que é correto e devastador. A lógica natural e provável de relegar a questão do socialismo, da classe social, a um segundo plano, é que a política da identidade branca, cristã e patriarcal (“restaurar a família”) tomará o seu lugar. A consequência natural dessa dinâmica interseccional é a criação do trumpismo, etc.

Como afirmei no meu segundo artigo, endossar essas críticas aos fundamentos do interseccionalismo não significa endossar a alternativa “economicista”, que nega completamente o racismo capitalista. A classe capitalista pode governar tanto pela estratégia de dividir para governar através do racismo, do patriarcalismo e assim por diante, quanto pela estratégia de dividir para governar, promovendo a antidiscriminação. A primeira é a ideia do Partido da Ordem, a segunda, do Partido da Liberdade. Nossos governantes transitam entre e pelos dois lados; e se não buscarmos nossos próprios objetivos, ficaremos apenas seguindo o “capital democrático” ou o “capital nacional”.

Alternativas

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que o que existe é um regime de dominação de classe – um regime no qual a classe capitalista, em seu próprio benefício, explora não apenas a classe trabalhadora, mas também a classe média baixa por meio de aluguéis, juros, etc. Para que seja uma classe exploradora bem-sucedida, outras pessoas devem ser mantidas em subordinação.

Nosso objetivo é a emancipação universal, não a “igualdade de oportunidades” ou um capitalismo antidiscriminatório. Isso significa emancipação de formas de subordinação permanente a outras pessoas, o que, por sua vez, exige que superemos o capitalismo.

É da natureza do dinheiro que, para funcionar, ele precise de uma quantidade limitada (se fosse ilimitado, o resultado seria algo como o Zimbábue de 2008-09 ou a Alemanha de 1922). Mas se, com uma quantidade limitada de dinheiro, as transações se repetirem indefinidamente, com total aleatoriedade e sem nenhuma vantagem injusta, o resultado será que 5% da população deterá 90% da riqueza. Essa é a natureza do dinheiro. Se as pessoas são empregadas por salários, isso produz um sistema ainda mais acentuado de desigualdade.

Precisamos ir além da tomada de decisões sobre a alocação de recursos por meio do mercado e do dinheiro, porque, caso contrário, o problema da desigualdade social radical não poderá ser superado. Isso significa uma comunidade cooperativa, cuja possibilidade surge porque a classe trabalhadora é forçada a cooperar – ela se define como classe pela não propriedade dos meios de produção. Dentistas podem deixar o sistema nacional de saúde e abrir pequenos negócios (sim, eles conseguem empréstimos, etc., em condições vantajosas, porque os conservadores queriam desmantelar o sistema de saúde pública). Esse é um exemplo da ação individualista disponível à pequena burguesia.

Mas não é algo que trabalhadores assalariados possam fazer. Não podemos restaurar a produção mercantil em pequena escala generalizada. Além disso, se o fizéssemos, o resultado seria uma desigualdade de gênero ainda pior, etc., visto que as pequenas empresas são ainda piores nesse aspecto do que o grande capital. A classe trabalhadora é impelida a cooperar, independentemente do quanto seja explorada pelos empregadores ou dos ganhos que possa obter. Por essa razão, a classe trabalhadora é naturalmente impulsionada a buscar algo além do capitalismo.

A necessidade de tomar decisões de forma cooperativa traz consigo a obrigação de pensar em mecanismos de tomada de decisão. Não podemos presumir que as decisões serão tomadas simplesmente pela lógica inerente a um plano ou confiar em especialistas do tipo Gosplan. Isso já foi tentado e claramente não funciona! Portanto, precisamos pensar na democracia política como parte de nossa alternativa. Em outras palavras, precisamos tanto de uma perspectiva de classe quanto de uma perspectiva para a democracia política.

Deve haver também uma perspectiva para a ação política da classe trabalhadora sob o capitalismo: não apenas reivindicações através de greves setoriais, mas ações por conquistas que afetem toda a sociedade. Este é um ponto fundamental, constantemente reiterado por Marx desde a década de 1850, mas de alguma forma esquecido pela esquerda. A classe trabalhadora precisa assumir a liderança da sociedade como um todo e, assim, propor políticas para a sociedade como um todo – desde questões locais até política externa.

Isso, por sua vez, implica um partido. Precisamos (nos termos de Gramsci) de uma política hegemônica para toda a sociedade, em vez de uma política corporativa, pelo qual os interesses da classe trabalhadora são defendidos com base na premissa de que o capital continuará a dominar. O conceito de partido não deve ser o de uma “organização de combate” ou de um “centralizador de experiência” de greves e outras lutas. Deve ser um coletivo político fundamentado em um programa político. No fim das contas, sua plataforma política será voltada para o governo, para a legislação.

O corolário disso é que o partido precisa aceitar que haverá discordâncias, precisamente porque almejamos a emancipação humana universal – tomamos o universal como nosso ponto de partida. Aceitamos que a classe trabalhadora só pode agir por meio da cooperação, mas que haverá discordâncias quanto à direção a ser tomada. É por isso que é essencial não proibir facções – só podemos controlar nossa liderança organizando-nos contra ela, se necessário, assim como só podemos contrariar a ambição dos patrões de nos impor sua vontade organizando-nos contra eles.

Um partido que almeja ir além do capitalismo e alcançar uma comunidade cooperativa deve também combater as constituições estatais como instrumento de domínio de classe. Devemos olhar além da soberania da Suprema Corte dos Estados Unidos, além da estrutura contramajoritária do Senado dos EUA, além da monarquia no Reino Unido, além da eleição direta de presidentes, além da venda da justiça por meio da comercialização de serviços jurídicos.

Se analisarmos o Partido Socialista da América, como era de 1900 a 1914, veremos que ele não se assemelhava ao que se pretendia para o Partido Trabalhista dos EUA em 1996, que era criar um partido puramente economicista. O Partido Socialista da América defendia o fim da segregação racial. Defendia o direito de voto para as mulheres. Caracterizava o judiciário americano como uma instituição corrupta da classe dominante.

Grande parte da esquerda considera, acerca do Partido Social-Democrata da Alemanha, na virada do século XIX para o XX, o mesmo como uma organização reformista sem esperança. Mas sua política estava muito mais à esquerda do que as plataformas eleitorais do SWP, da Aliança Socialista, do Respect ou da Left Unity. Em contraste, o SPA e o SPD – e, de fato, o começo do Partido Comunista dos EUA – lutaram pelos direitos das mulheres, pela ruptura da linha racial e das barreiras de cor. É verdade que não lutaram por questões de sexualidade e assim por diante, mas atuaram dentro da estrutura do que conheciam. Levaram a sério a afirmação fundamental, do Programme of the Parti Ouvrier de 1880, de que a emancipação da classe trabalhadora é a emancipação de todos os seres humanos, independentemente de sexo ou raça.

Isso representou uma alternativa. Em certo sentido, isso também pode ser visto aqui na Grande Greve dos Mineiros de 1984-85. Ao entrarem em greve e se mobilizarem de forma tão militante, os mineiros conseguiram o apoio de setores muito mais amplos da sociedade. A perspectiva de classe tem o potencial de unificar os oprimidos – o que a interseccionalidade alega oferecer, mas falha miseravelmente em alcançar.


[1]Intersectionality is a dead end’, 7 de Junho; ‘Race and class’, 21 de Junho; ‘Mistaken versions of Maoism’,  28 de Junho; ‘Getting beyond capitalism’, 5 de Julho.

[2] Traduzido no Brasil como Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje (Tradução: Léo Vinícius Liberato. São Paulo: Editora Veneta, 2018). [N.T.]

[3] O Libertarian Party (Partido Libertário) é um partido político dos Estados Unidos criado em 1971. Trata-se do primeiro partido explicitamente libertário do mundo, inspirado nas obras e ideias do proeminente economista da escola austríaca Murray Rothbard. [N.T.]

[4] A Frente de Libertação Gay (em inglês, Gay Liberation Front, ou GLF) foi o nome de diversos grupos de libertação gay, sendo o primeiro formado em Nova Iorque em 1969, logo após os distúrbios de Stonewall. [N.T.]

[5] Não estou certo se o casamento gay deve ser considerado uma conquista, em oposição à proposta dos anos 80 de “desnacionalização” do casamento: ou seja, um contrato apenas entre dois indivíduos.

[6]TERF é uma abreviação para feminista radical trans-excludente (do inglês: trans-exclusionary radical feminist). Cunhado em 2008, o termo TERF foi originalmente usado para distinguir feministas trans-inclusivas de um grupo de feministas radicais que têm posicionamentos considerados transfóbicos, como a rejeição da afirmação de que mulheres trans são mulheres, a exclusão de mulheres trans dos espaços exclusivamente femininos e a oposição à legislação sobre direitos transgênero. Desde então, o significado se expandiu para se referir mais amplamente a pessoas com visões trans-excludentes que podem não ter envolvimento com o feminismo radical, outras vezes, nem mesmo com o próprio feminismo.” (consultar: Wikipedia). [N.T.]

[7] O Estado persegue, de tempos em tempos, pessoas que não se identificam plenamente como transexuais transicionando de mulher para homem, sendo processadas por supostamente terem relações sexuais com outras mulheres mediante engano.

[8] Mesmo no Reino Unido, é óbvio que essa fala é sem sentido, apesar da existência contínua de uma aristocracia, uma igreja estabelecida e uma monarquia.

[9] O fracionalismo ou faccionalismo (factionalism) deve ser compreendido como a divisão de um grupo ou organização política em subgrupos menores, concorrentes e muitas vezes conflitantes (facções). [N.T.]

[10] Yassamine Mather apontou corretamente o que eu disse sobre isso – em artigos mencionados – estava  pouco desenvolvido e problemático. (Letters, 12 de Julho).

[11] Lênin não concordou com isso na época, porque parecia conter uma influência do ultraesquerdismo (ultra-leftism) de Bukharin.

[12] “O Congresso de Organizações Industriais (Congress of Industrial Organizations – CIO) foi uma federação de sindicatos que organizou trabalhadores em sindicatos industriais nos Estados Unidos e Canadá de 1935 a 1955.” Consultar Wikipedia. [N.T.]

[13] http://irle.berkeley.edu/culture/papers/eidlin.pdf.

[14] O Sindicato dos Trabalhadores de Transportes e Serviços (Transport and General Workers’ Union – TGWU ou T&G) foi um dos maiores e mais influentes sindicatos gerais do Reino Unido e da Irlanda, fundado em 1º de janeiro de 1922. [N.T.]

[15] Esta expressão no original, speak bitterness, está relacionada com a política de redistribuição de terras na China “comunista” (capitalista de estado). Segundo o site Alpha History, “o Partido Comunista Chinês (PCC) insistiu que as sessões de “Expressão da Amargura” fossem incluídas no processo de reforma e distribuição de terras. Elas foram inspiradas nos julgamentos contra latifundiários realizados em áreas controladas pelo PCC nos anos anteriores a 1949. “Expressar a Amargura” deu aos camponeses chineses a oportunidade de expressar sua raiva e tristeza pelas antigas injustiças. [N.T.]

[16] New Literary History, vol. 31, No 4, Outono de 2000.

Traduzido por Guilherme Henrique, segundo a versão disponível em: https://weeklyworker.co.uk/worker/1214/dead-end-of-intersectionality/?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTAAAR06oSyrJ3oulxARHuX70gTN-5wzDNTVffh3ZIBjs-Nok-bP6vqObFth9Ok_aem_GibA8gH_pTiGZMNVaD01mA.

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