A Revolução Alemã (1918-1921): Um Movimento Espontâneo e Imprevisto – Charles Reeve

[Nota do Crítica Desapiedada]: Disponibilizamos ao leitor o capítulo 7 do livro O Socialismo Selvagem de Charles Reeve. A transcrição foi realizada por Joaquim Pina, a partir da versão do livro publicada pela editora Antígona em 2019.


A Revolução Alemã (1918-1921): Um Movimento Espontâneo e Imprevisto

A Vida da Integração da Classe Operária

Em Janeiro de 1918, os efeitos intensificação da guerra, assim como as notícias que chegavam da Rússia em plena revolução, provocaram na Alemanha uma situação insurrecional. Nas grandes cidades e nos centros industriais, sucederam-se greves e manifestações, e o descontentamento e a revolta alastraram, acabando por contaminar, na frente de guerra, os marinheiros e soldados. Nos finais de 1918, estavam já constituídos dez mil conselhos, nas grandes empresas, nos quartéis e nos navios da armada. Como na Rússia, a revolução nasceu de uma revolta contra a guerra; ela foi “a filha da guerra”[1]. O alto comando militar, consciente da provável derrocada da frente, compreendeu que a última carta a jogar para evitar a crise do Estado imperial e a revolução era fazer entrar no governo o grande partido social-democrata, o SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands), o que aconteceu no início de Outubro de 1918. Assim, as mesmas circunstâncias que deram origem aos conselhos abriram a este partido a porta do poder numa posição de força. Foi uma situação nova que determinou os acontecimentos subsequentes, que pesou nas perspectivas revolucionárias da Alemanha e marcou definitivamente a evolução e o lugar da corrente social-democrata no interior do sistema capitalista.

O movimento dos conselhos fora espontâneo e inesperado, mas, em contrapartida, o acesso da social-democracia ao poder do Estado inscreveu-se na mutação desta corrente que tinha começado muito antes da guerra. Ao contrário da Rússia czarista, “a Alemanha imperial era um Estado com uma grande estabilidade social e política e um movimento operário forte, mas basicamente moderado, que, sem a guerra, jamais teria sonhado com uma revolução armada”[2]. Com efeito, os sociais-democratas do império bismarckiano constituíam uma força política importante e tinham-se tornado patriotas muito antes da guerra, muito antes da União Sagrada. Isto suscitou um comentário de um observador perspicaz da época: os sociais-democratas “não concebiam a liquidação do Império Alemão, que era o seu elemento. […] Queriam fazer do império de Bismarck o seu império”[3].

Desde os finais do século XIX que o SPD traçava o seu caminho rumo ao poder promovendo um enorme trabalho de agitação e de organização no seio do sistema capitalista. Nas vésperas da Grande Guerra, o SPD era o maior partido alemão: obtinha mais de quatro milhões de votos nas eleições e tinha mais de dez mil eleitos locais, contabilizando um milhão de filiados, treze por cento dos quais em Berlim. Os sindicatos próximos do partido tinham dois milhões e meio de aderentes e cobravam milhões de marcos de cotizações. O partido remunerava quatro mil permanentes, possuía centenas de jornais com uma tiragem de vários milhões de exemplares, geria inúmeras cooperativas que empregavam milhares de colaboradores e investia milhões de marcos na indústria e títulos do Estado. Não pecaremos por exagero se dissermos que o seu crescimento estava cada vez mais ligado ao da economia[4]. A orientação institucional, e mesmo empresarial, do partido suscitava críticas dos elementos revolucionários do movimento operário – anarquistas, sindicalistas, independentes e inclusivamente a esquerda social-democrata. Estes elementos faziam questão de se demarcar da viragem “revisionista” do SPD, que apresentava, entre outras coisas, a rede de cooperativas de produção e de consumo ligada aos sindicatos como um dos fatores de “democracia econômica”, meio de uma transformação progressiva e gradual do capitalismo numa economia planificada e controlada pelo partido[5]. Rosa Luxemburgo e alguns dissidentes da social-democracia de antes da guerra consideravam que a ruptura com a lógica do sistema capitalista passava pela “atividade direta das massas”, inaugurada pelas grandes greves e movimentos do início do século XX que libertavam “a força social viva” da revolução: a energia revolucionária.

Para a esquerda socialista, que se desligava pouco a pouco da social-democracia, as “reformas socialistas” levavam a um impasse, e mesmo a um caminho divergente do caminho da emancipação social. Elas significavam o abandono puro e simples das aspirações dos trabalhadores ao autogoverno. As reformas não podiam conduzir à revolução; pelo contrário, estavam destinadas a enterrar a atividade revolucionária e eram a via de integração no sistema capitalista. O futuro da revolução alemã iria confirmar, no sangue, a justeza desta análise.

Através de uma rede alargada de organizações, clubes, mutualidades e associações ligadas ao partido, a social-democracia dava resposta às necessidades dos seus membros em termos de saúde, cultura e desporto, organizando a sua vida desde o nascimento até à morte. Tinha construído uma contra-sociedade no seio do capitalismo que reproduzia o modelo da cultura de massas dominante. Esta cultura colocava-se numa posição antagônica ao modelo autoritário do Estado alemão ou, pelo contrário, era já uma forma de “integração negativa” da classe operária alemã na sociedade?[6] A direção do SPD via estes anos de crescimento ininterrupto do partido como a prova de que a via parlamentar, reformista, para o socialismo constituía efetivamente uma alternativa. A força institucional do partido seria a confirmação de que a opção jacobina, centralista e autoritária da delegação permanente da soberania nos chefes e na organização produzia resultados. Mas, para os setores dissidentes minoritários do socialismo, a participação na União Sagrada nacionalista indicava que a linha majoritária do SPD iria conduzir à integração do movimento operário no Estado, e a fúria bélica revelava a natureza bárbara do sistema capitalista, pondo na ordem do dia a possibilidade e a necessidade de uma ruptura.

Não há dúvida de que a expansão rápida – em algumas décadas – da social-democracia tinha a sua explicação na capacidade que o partido e os sindicatos a ele associados revelaram de defender com eficácia os interesses dos trabalhadores no seio do sistema. Foi a este sucesso e às suas consequências – a submissão das “massas” aos chefes e às suas decisões – que ela conseguiu imprimir nas mentalidades, que se chamou “um movimento operário forte e moderado”.

O florescimento da ideologia reformista e os seus intensos debates intelectuais acerca da revisão do marxismo foram também inseparáveis do êxito político do SPD no interior das instituições do sistema capitalista. Estes debates foram conduzidos por chefes que acreditavam firmemente que este processo gradual levaria ao socialismo sem passar por uma ruptura. A revolução viria, não era preciso fazê-la, bastava seguir os dirigentes e as suas opções políticas. Em 1889, Carl Legien, um dos dirigentes do grande sindicato ADGB[7], de obediência social-democrata, declarou: “A classe operária organizada opõe-se à chamada derrocada do sistema, que nos obrigaria a erigir instituições sobre ruínas da sociedade, quer fossem melhores ou piores do que as existentes. Queremos um desenvolvimento pacífico”[8]. E três anos mais tarde, August Bebel, um dos dirigentes históricos do partido, confirmou esta posição tendo como destinatária a classe capitalista. “Ela [a revolução] não virá por nosso intermédio. São vocês próprios que a trazem![9]“. esta formulação resumia muito bem a leitura determinista que a social-democracia fazia da História. O socialismo só seria possível quando as forças produtivas estivessem plenamente desenvolvidas. Estava inscrito no desenvolvimento do capitalismo, no curso natural da História, na ideia do progresso que tinha marcado o final do século XIX. Cabia aos trabalhadores saber esperar a sua hora, perfilados de forma disciplinada, sob a bandeira do partido que se reforçava, eleição após eleição.

Construir uma prisão para si própria

A concepção autoritária do socialismo, que colocou a ação do Estado no cerne da transformação social, constituiu desde sempre a armadura ideológica da social-democracia marxista. No fundo, e com conversões táticas diversas, a ideia era partilhada pela quase totalidade dos altos quadros e intelectuais dessa corrente: o movimento do capitalismo moderno era portador das condições objetivas e subjetivas da transição pacífica para o socialismo. Na Alemanha, um porta-voz muito escutado desta concepção era Karl Kautsky, enquanto socialistas franceses de renome, como Jean Jaurés, seduzidos por esta corrente revisionista, propagavam versões simplistas da mesma.

Uns meros três anos antes do início da guerra, este afastava todos os receios, afirmando que o capitalismo moderno era uma força de paz[10]. Na esquerda da social-democracia germânica, com poucas exceções, designadamente de Rosa Luxemburgo, ninguém se demarcava dessa visão harmoniosa da evolução capitalista. Entre os teóricos que a subscreviam, conta-se Rudolf Hilferding, um famoso intelectual austríaco que havia participado, em 1903, no debate sobre a greve de massas que influenciou fortemente a análise de Lenin do imperialismo[11]. Para Hilferding, a passagem, no início do século XX, do capitalismo da livre concorrência para um capitalismo concentrado envolvia uma tendência para a organização planificada da produção e para um controle da economia pelo Estado. E esse era o objetivo dos socialistas. Mais concretamente, Hilferding considerava que “o Estado tende a ser uma estruturação racional e consciente do corpo social que permitirá uma determinação no interesse de todos. Assim, a ação política revolucionária consiste não em destruir o Estado, mas em apoderar-se dele para realizar uma racionalização da economia, que a cartelização preparou, mas que nunca poderá levar a cabo[12].” Nas suas próprias palavras: “O capital financeiro cria, pois, no domínio da organização, as derradeiras condições conducentes ao socialismo, mas torna também, do ponto de vista político, a transição mais fácil”[13].

A corrente marxista do socialismo estabelece, desde as suas origens, uma relação direta entre a questão da consciência de classe e o próprio desenvolvimento do capitalismo, o desenvolvimento da classe operária e o crescimento das organizações. Para a social-democracia, a condição subjetiva da realização do socialismo confundia-se com o reforço do partido e podia ser medida pela sua força eleitoral, assim como pela eficácia dos sindicatos associados ao partido no terreno dos salários e das condições de trabalho. A assunção do controle do Estado burguês pelas vias legais passava pelo crescimento da representação eleitoral no seio das instituições, desde o poder local até ao poder central. Uma classe operária organizada e disciplinada sob a direção do partido era a manifestação concreta da existência de uma consciência de classe. O respeito dos princípios autoritários e centralistas de poder, a democracia de delegação permanente de poder e o parlamentarismo eram reivindicados como indissociáveis do estabelecimento do socialismo.

Para a social-democracia, o movimento do capital, o “progresso” capitalista, desembocava, pois, inelutavelmente, na construção do socialismo. Um elemento radical que viveu nessa época resumiu as consequências desta maneira de pensar: “A classe operária acabava de passar meio século a erigir um movimento operário reformista que se transformou numa imensa prisão”[14]. Mais tarde, explicitaria esta ideia. “A mais importante de todas as reformas do capitalismo foi, evidentemente, a ascensão do movimento operário. A extensão contínua do direito de voto, […] a legalização e a proteção do sindicalismo integraram o movimento operário na estrutura do mercado e nas instituições políticas da sociedade burguesa. O movimento tornara-se parte integrante do sistema, pelo menos enquanto este durasse, e parecia poder durar, pois mostrava-se capaz de atenuar as contradições através de reformas”[15].

A queda na barbárie

A década de 1890, com o fim das leis antissocialistas e o crescimento da força parlamentar do SPD – que era agora o primeiro partido em número de deputados no Reichstag -, constituiu um período decisivo nesta ascensão. A modernização das capacidades produtivas do capitalismo traduziu-se por uma melhoria das condições de vida de setores integrados no mundo operário, representados pela social-democracia e pelos seus sindicatos. Depois, por volta do início do século XX, a situação tornou-se mais confusa na Alemanha e no resto da cena europeia. A violência da exploração da maioria do proletariado, os poderosos movimentos de greves de massas e de agitação social, a dureza da repressão capitalista e a guerra levaram a uma ruptura com a consciência de classe social-democrata, que estava, de fato, limitada à melhoria da condição assalariada. Uma nova consciência encontrava-se em “processo de acontecer” por efeito das lutas e revoltas, um processo em que os trabalhadores descobriram que faziam parte de uma classe antagônica ao sistema[16]. As revoluções russas e o movimento dos sovietes foram momentos decisivos desta ruptura com a consciência integradora social-democrata; a experiência da revolução alemã estabeleceu com precisão os seus limites.

Em 1914, o movimento do capitalismo impôs-se aos socialistas, não como produtor das condições materiais de uma possível transição pacífica e harmoniosa para o socialismo, mas como fonte de barbárie. Começava a formar-se uma nova consciência revolucionária por oposição a um sistema que se revelava desequilibrado e belicista. Por sua vez, os dirigentes do SPD, prisioneiros da lógica das suas concepções e sem estado de alma, arrastaram para a “união sagrada patriótica” as suas “massas”, habituadas a confiar na sabedoria do partido. A economia de guerra e o reforço da intervenção do Estado na economia foram inclusive incensados pelos dirigentes da social-democracia por supostamente irem no sentido desejado de uma reestruturação planificada da economia capitalista. Alguns chamaram-lhe o “socialismo de guerra”[17]. A colaboração concreta dos sindicatos para o reforço de guerra estava assim igualmente justificada. Com efeito, em 1916, com a promulgação das leis de guerra, o governo do império reconheceu e legitimou o poder dos sindicatos, integrando-os nos comitês criados em cada empresa a fim de colaborar com o patronato na gestão dos salários e das condições de trabalho. Começou assim a tomar forma, sob auspícios das autoridades militares, um projeto de cogestão entre sindicatos e patronato[18].

Em toda a Europa, os partidos socialistas empenharam-se nesta via transformando-se em companheiros de jornada da barbárie nacionalista[19], mas foi na Alemanha que esta opção foi mais pesada de consequências, tendo em conta a importância política e social do SPD e a sua influência sobre o movimento operário nacional e internacional. Ele era o primeiro partido de massas da época moderna e constituía o modelo organizacional da Internacional Socialista. As posições corajosas de um punhado de dirigentes que se opunham ao nacionalismo e à guerra, conscientes dos efeitos desta orientação sobre o devir histórico do partido, como Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Otto Rühle e outros, foram desprezadas, marginalizadas e ignoradas pelo aparelho. Houve muitas manifestações de recusa da guerra no movimento operário, e foram numerosos os militantes refratários, que, contra a sua vontade, foram enviados para frente de batalha, mas, na sua grande maioria, as “massas” seguiram os seus dirigentes na viragem patriótica, plenas de entusiasmo.

A participação submissa dos explorados na carnificina da grande Guerra constituiu a primeira e terrível prova de como os princípios jacobinos do movimento operário tinham impregnado e subjugado as mentalidades, destruindo toda a capacidade de auto-organização de onde tivesse podido surgir e tomar forma uma oposição à guerra.

O conflito permitiu aos chefes da social-democracia dar provas de seriedade e de respeitabilidade no seio do sistema, mostrando-se razoáveis e recomendáveis inclusivamente para a hierarquia militar. Pouco a pouco, “imbuíram-se da atmosfera do poder”[20]. E o marxismo da social-democracia consumou a sua transformação progressiva, mudando de função no interior do sistema capitalista[21].

Assim, o advento da guerra não veio perturbar o projeto das tendências autoritárias do socialismo que se preparavam para aproveitar em seu benefício a reestruturação centralizadora da economia. A ideia segundo a qual era necessário apoderar-se do Estado para completar a racionalização da economia lançou a social-democracia nos braços da União Sagrada. Mais extravagante foi a argumentação das personalidades anarquistas que se declararam a favor da guerra. A posição de Piotr Kropotkin foi a que teve mais impacto nos espíritos e cujas consequências foram mais dramáticas e devastadoras para o movimento[22]. Já em 1905, a grande figura do anarquismo tinha justificado a “guerra defensiva” a fim de proteger “o território da revolução social”; depois em 1914, deslizou claramente para aquilo que se designou como “a principal tarefa”: a defesa nacional perante o despotismo prussiano. O cálculo tático – que suscitou muitas críticas inclusivamente entre os seus admiradores – tinha por finalidade impedir a derrota e, portanto, a paralisia dos movimentos progressistas nos países democráticos[23].

Da paralisia à revolta de massas

Deste modo, para a social democracia, a centralização da economia de guerra parecia desculpar o preço terrível dos massacres. Subsequentemente, seria sempre este mesmo raciocínio baseado no papel do Estado a justificar a urgência de salvar o capitalismo da derrocada. Logo depois da guerra, e em plena revolução, o chefe Hilferding explicou aos representantes dos conselhos que “não se socializa um capitalismo em ruínas, […] quando o virmos de novo saudável e forte, iniciaremos a nossa obra de socialização”[24].

Depois da União Sagrada de Agosto de 1914, a burocracia sindical tinha igualmente seguido a atitude patriótica do SPD e assinado a paz social. A atividade sindical estava reduzida e sujeita à lei marcial. Neste contexto, as greves que estalaram durante a guerra nas grandes fábricas metalúrgicas e de armamento, em especial em Berlim, foram inevitavelmente greves selvagens, organizadas por comitês de ação clandestinos compostos de delegados, chamados “homens de confiança” ou delegados revolucionários. Como reconhecerá mais tarde Ernst Däumig, um dos seus porta-vozes, os militantes alemães tinham sofrido a influência das greves dos trabalhadores dos estaleiros navais de Glasgow, desencadeadas pelo movimento dos Shop Stewards[25]. As greves e manifestações de Março-Abril de 1917 contra a fome, a guerra e a repressão e, depois, a greve geral contra a guerra durante o Inverno de 1917-18 foram desencadeadas pelos delegados revolucionários. Estas ações, que vinham juntar-se aos ecos dos acontecimentos revolucionários na Rússia, inverteram o curso político, radicalizaram os espíritos e abriram perspectivas novas. Os comitês de ação mobilizaram em Berlim e nas regiões industriais centenas de milhares de operários e suas famílias, enquanto a social-democracia e a direção dos sindicatos se opunham àquilo que classificavam como uma “estupidez política”.

Com efeito, a guerra alargou o fosso entre os aparelhos sindicais e políticos, por um lado, e as suas bases, por outro. E, ao contrário do que temia Kropotkin quando tomou posição a favor da União Sagrada para evitar “a paralisia das forças progressistas”, foi a barbárie bélica que despertou o espírito internacionalista. Inevitavelmente, os delegados destes comitês de ação ganharam a confiança e o respeito dos trabalhadores mais combativos. Tornaram-se autônomos relativamente aos aparelhos, embora os mais ativos de entre eles tivessem ligações com os partidos políticos, sobretudo a esquerda social-democrata, o USPD[26]. No final da guerra, a rede de delegados revolucionários agrupava vários milhares de militantes de fábrica aguerridos, que estabeleceram ligações entre empresas, sobretudo em Berlim. Iriam constituir o núcleo mais lúcido e combativo dos conselhos que tentou fazer frente às manobras do SPD[27].

No final de 1918, enquanto a União Sagrada se desagregava por causa da rejeição popular maciça da guerra, as tentativas arrogantes do alto comando militar para prosseguir as operações desencadearam revoltas e aceleraram o advento de uma situação revolucionária.

No entanto, as revoltas de Novembro de 1918 não se realizaram contra a aproximação e a conivência do SPD com o velho Estado imperial, mas para apoiar de início a participação socialista no governo, que o povo e a base socialista viam como uma abertura em direção à paz. No espírito dos marinheiros amotinados no Mar do Norte, as revoltas eram dirigidas sobretudo contra a hierarquia militar destinadas a apoiar os sociais-democratas que acabavam de ser cooptados pelo exército para o governo como “representantes do povo”. Este foi um momento charneira e carregado de ambiguidades. “Com um instinto certeiro, as massas sentiam que estes chefes militares eram hostis tanto à revolução vinda de cima como à revolução a partir de baixo, que, em boa verdade, não queriam a paz nem a democracia e que, no seu foro interior, estavam furiosos e eram irreconciliavelmente contrarrevolucionários. […] As massas sociais-democratas, que pensavam isso e que faziam a revolução, acreditavam estar em uníssono com os seus chefes. Enganavam-se, e isso foi a sua tragédia”[28]. Superando esta ambiguidade e este embuste, ergueu-se uma força revolucionária, uma força que duvidava do socialismo dos chefes e que aspirava a tomar e a exercer diretamente o seu próprio poder.

Proteger o Estado da Revolução

Para os chefes do SPD, era imperativo travar a revolução e preservar os seus laços com o Estado, instrumento que consideravam indispensável para a construção do socialismo. No início de Novembro de 1918, em Kiel, um chefe local do SPD transmitiu os seus estados de alma à direção de Berlim, dando conta de que desejava ver “um regresso à ordem sob a direção social-democrata”. Só então, continuava ele, “a rebelião cairia por si”[29]. O deputado Noske, futuro responsável do esmagamento da revolta spartakista e do assassinato de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht, revelou-se, além do mais, um arguto psicólogo, afirmando que sentia “despertar, nos operários e nos marinheiros, a necessidade inata de ordem dos alemães”[30]. Ao mesmo tempo, um outro importante dirigente do SPD, Friedrich Ebert, fez um apelo urgente à velha elite do Império: “Se o kaiser não abdicar, a revolução social é inelutável. Mas eu não a desejo, odeio-a com toda a minha alma”[31]. E, em resposta às palavras alarmistas do chanceler do ´último governo do kaiser, que, preocupado com a inevitabilidade da revolução, pedia ao SPD que a esmagasse, Ebert disse que iam ver o que se podia fazer. Em troca desta promessa, o chefe socialista recebeu o apoio do alto comando militar, que se disse disposto a cooperar, na condição de que se esmagasse o extremismo bolchevique[32]. O ato de aliança entre o exército e os socialistas sagrou-se sobre este santo horror do bolchevismo, ou seja, da revolução pura e simples! Para os militares, os conselhos eram uma “monstruosidade”[33], que eles confundiam com o bolchevismo, pelo que tinham de ser eliminados. Ignoravam que os socialistas podiam fazer melhor: integrá-los no sistema do estado democrático.

Uma vez conseguida a abdicação do kaiser, em 9 de Novembro de 1918, a direção do SPD pediu a demissão do governo, “para que a calma e a ordem não sejam perturbadas”[34]. Depois, sob o olhar benevolente do exército, a república foi proclamada e o presidente do SPD, Friedrich Ebert, nomeado chanceler do Reich. Inimigo declarado da ruptura revolucionária, respeitador da ordem em geral, Ebert declarava sobretudo a ordem nova, a ordem da república[35].

Muitas vezes, reduziu-se a revolução alemã de 1918-1919 a um confronto, primeiro entre a social-democracia e as suas correntes de esquerda, e, depois, entre a social-democracia e o comunismo de influência bolchevique, o KPD[36]. Esta interpretação deve ser encarada com muitas reservas, dado o papel que desempenharam, desde os primeiros dias, as correntes do socialismo radical que se opunham às ideias centralistas e dirigistas: os sindicalistas independentes e os anarcossindicalistas. Estudar a experiência alemã sem ter em conta estas tendências e a sua influência é limitar a compreensão da sua complexidade e da sua riqueza.

Apesar do clima repressivo que tinha reinado durante os anos de guerra, os anarcossindicalistas haviam-se mantido presentes e prosseguiam o seu trabalho de agitação em todo o país. Quando foi fundada, em finais de 1919, a FAUD[37] estava bem implantada em Berlim e entre os mineiros do Ruhr, onde os militantes sindicalistas e anarquistas eram muito ativos. De igual modo, as correntes anarquistas estavam bem representadas na Baviera. É verdade que, tal como na Rússia, o aparecimento dos conselhos na Alemanha não foi fruto de uma ideologia preexistente, mas o resultado da necessidade numa situação dada. No entanto, os anarcossindicalistas desempenharam um papel primordial na propaganda dos princípios de auto-organização e de democracia direta, e a FAUD apoiou sem reservas, desde o primeiro momento, o movimento dos conselhos e a ideia dos conselhos. “As tradicionais concepções anarcossindicalistas do sindicato revolucionário como unidade de base do poder operário e da autonomia abriram caminho às novas ideias do movimento dos conselhos e das organizações de fábrica”[38].

O Movimento Político dos Conselhos

A partir de 10 de Novembro de 1918, os operários das grandes fábricas formaram os seus conselhos e convocaram rapidamente um congresso. Na própria opinião de um observador não revolucionário, em pouco tempo “os conselhos haviam criado uma organização paralela à velha administração e [estavam] capazes de funcionar, o que constitui um feito notável”[39]. Apesar disso, na Alemanha, os conselhos começaram por ter um poder limitado e frágil. Assumiram-se desde início sobretudo como organizações políticas sem real poder de gestão social. Contrariamente ao que se passara na Rússia, as instituições do Estado perderam autoridade, mas não ruíram, e em muitos casos foram repostas a funcionar e legitimadas pela social-democracia. “O Estado tinha sido apenas beliscado. Os funcionários que se dirigiram aos seus gabinetes no dia a seguir a este fim-de-semana revolucionário eram os mesmos, […] os oficiais e generais da semana passada continuavam aos comandos. E, no fundo, o governo imperial continuava a ser um governo imperial. É certo que agora tinha à cabeça um colégio de seis “comissários do povo”, mas um deles era o chanceler do Reich: Ebert. Os conselheiros, diretores de ministérios e outros funcionários, todos bons conservadores, debruçavam-se sobre os seus processos como sempre haviam feito”[40]. Para os dirigentes do SPD, a escolha entre governo dos conselhos e democracia parlamentar devia ser imperativamente feita em favor da segunda opção. Precisavam, portanto, de eleger uma assembleia constituinte o mais rapidamente possível. E não tiveram qualquer dificuldade em fazer aprovar esta ideia, pois, na sua grande maioria, os conselhos de trabalhadores e, ainda mais, os conselhos de soldados estavam do seu lado. Muitas vezes, eram eleitos para os conselhos de fábrica os militantes que tinham experiência e carisma, quadros do partido e dos sindicatos, responsáveis conhecidos do SPD e do USPD. Sendo suposto representarem os trabalhadores, obedeciam sobretudo aos partidos. Nos quartéis, a quase totalidade dos conselhos encontrava-se igualmente nas mãos de membros ou simpatizantes do SPD. O conselho executivo dos comissários do povo – eleito pelo congresso dos conselhos – era, no essencial, composto por delegados revolucionários, membros do SPD e do USPD. Constituiu assim, num curto lapso de tempo, uma espécie de governo bis, atrelado ao SPD. O congresso dos conselhos não era um substituto do parlamento, um poder de tipo novo, e ainda menos um duplo poder, não passando de um simples órgão de pressão e de controle da democratização do Estado. A social-democracia, para se impor nos conselhos, tinha jogado a carta da democracia formal. “Ao propugnarem a democracia operária, os velhos partidos e sindicatos estavam de fato a reivindicar o direito de todas as correntes do movimento operário estarem representadas nos conselhos em proporção com a sua respectiva importância numérica”[41]. Em conclusão, os militantes sociais-democratas defendiam simultaneamente o sistema de conselhos e o sistema parlamentar, mas o seu objetivo foi sempre o de submeter o primeiro ao segundo.

Pode consubstanciar-se uma primeira característica fundamental da revolução alemã nas seguintes constatações: os conselhos tiveram majoritariamente um papel no terreno político e foram dominados pelas concepções do socialismo autoritário social-democrata; o aparelho de Estado não ruiu e os conselhos nunca constituíram um duplo poder.

No entanto, apesar deste ascendente, a direção do SPD desconfiava dos conselhos. “Eles não estavam previstos; não entravam nos seus planos; impediam a aliança com os partidos burgueses e com o comando [militar] supremo”[42]. Os conselhos inquietavam os novos detentores da ordem, malgrado o fato de não serem claros quanto às suas intenções, nem mesmo quanto ao poder que reivindicavam, uma consequência da ambiguidade da situação específica na qual tinham nascido. Respeitadores, na sua maioria, da ordem defendida pelos chefes reformistas, deixavam ainda assim o terreno livre à rica dinâmica de um movimento de base onde se exprimiam as perspectivas revolucionárias[43]. Com efeito, embora fosse evidente que a maioria dos membros dos conselhos continuavam a pensar que o SPD prosseguia uma agenda socialista, eram muitos os participantes que reivindicavam outra coisa e já não uma mera democratização da situação do passado. Assim, no início da revolução, o movimento que tinha os conselhos por referência criava uma atmosfera de confronto de ideias e de democracia de base que tornava possível um debate acerca dos objetivos da revolução, estimulando a radicalização do pensamento e da ação. Em resumo, mais do que uma forma de organização, o movimento dos conselhos era uma dinâmica social de ruptura.

Porém, a maioria dos conselhos converteu-se desde muito cedo em organizações ligadas aos partidos socialistas (SPD e USPD) e, por ocasião do II Congresso dos conselhos, em 16 de Dezembro de 1918, a linha política do SPD dominou já os debates e as decisões. Assim, o Congresso recusou assumir poderes legislativos e executivos e pediu a antecipação da eleição da Assembleia. Uma única medida contrariou os desejos da direção do SPD: o Congresso aprovou uma reorganização democrática do exército e propôs colocar a alta hierarquia militar sob o controle dos comissários do povo. Isto, que, sem dúvida, embaraçou profundamente os chefes socialistas, irritou os seus aliados militares. Por seu lado, as correntes revolucionárias aperceberam-se instintivamente de que a coexistência destes dois sistemas, o parlamentarismo – que eles apelidavam de “clube político suicidário” – e o espírito da democracia direta dos conselhos, era impossível e significava a curto prazo a derrota da revolução. Na Alemanha, tal como na Rússia, o movimento real constatou na prática a justeza da ideia expressa mais de um século antes pelos enragés da Revolução Francesa: “Governo e revolução são incompatíveis”[44]. Foi isto que o delegado revolucionário Ernst Däumig exprimiu nos seguintes termos: “A ideia dos conselhos e o sistema dos conselhos não podem coabitar com a democracia no mundo capitalista, dado que a democracia no mundo capitalista não pode ir além da igualdade política formal”[45]. Os grupos radicais juntaram-se para defender esta posição nos conselhos e na agitação de rua. Entre eles, havia os spartakistas, um grupo oriundo da esquerda social-democrata que se tinha radicalizado na sequência da revolução russa e dos acontecimentos na Alemanha, no qual se encontravam igualmente numerosos militantes vindos do anarcossindicalismo. Inicialmente, os spartakistas, mais do que um grupo, eram uma corrente que procurava compensar a posição de fraqueza dos revolucionários nos conselhos através de uma intervenção vanguardista radical[46]. Uma outra tendência revolucionária foi a dos delegados revolucionários (Revolutionäre Obleute) ou “homens de confiança”.

O Movimento revolucionário e a transformação dos conselhos

A sublevação de Janeiro de 1919 em Berlim foi espontânea, apoiada pela energia revolucionária que se disseminava na sociedade. O novo partido comunista, o KPD, proveniente da corrente spartakista, não tinha preparado nada, e o “Comité Revolucionário”, dominado pelos delegados revolucionários, limitou-se a fazer apelos e proclamações. Ambas as correntes acabaram por ir atrás dos acontecimentos em vez de os dirigir. Terminados os combates de rua e as ocupações de estações e de jornais, e contados os mortos, uma reivindicação de ação unitária brotou das fábricas e dos bairros populares. Mas havia desacordos importantes que resultavam da existência de sensibilidades políticas diferentes e de análises divergentes quanto às possibilidades que se abriam naquele momento e ao tipo de ações a empreender para as concretizar.

A divergência mais importante referia-se à “tática revolucionária” e manifestou-se nos debates entre a corrente dos delegados revolucionários e a direção do jovem KPD. Os primeiros criticavam o ativismo dos chefes spartakistas, que eles consideravam estarem sob a influência crescente do voluntarismo bolchevique. Os delegados revolucionários escarneciam das manifestações e das ações de rua spartakistas, apelidando-as de “ginástica revolucionária”. Para eles, este ativismo escondia uma concepção vanguardista da ação que tendia a substituir o empenhamento do maior número pela ação de minorias. Viam nisso uma usurpação do poder da coletividade em luta. Rosa Luxemburgo, durante o curto período da revolução que pôde viver, mostrou-se por vezes sensível a esta crítica dos delegados revolucionários e, nos finais de Dezembro de 1918, no congresso fundador do KPD, alertou contra o radicalismo fácil. Mas os spartakistas e outros militantes radicais, entre os quais muitos anarcossindicalistas, reconheciam que os delegados revolucionários eram “a força melhor e mais ativa do proletariado de Berlim. […] Nesta medida, mereciam o nosso respeito”[47]. Porém, acusavam-nos de serem demasiado prudentes e de terem uma atitude conciliadora no seio dos conselhos, nos quais desenvolviam o principal da sua atividade. Aliás, estes conselhos tinham-se tornado progressivamente órgãos políticos submetidos às manobras socialistas, onde os radicais tinham cada vez menos a palavra[48]. O fato é que os delegados revolucionários acabaram também por ser neutralizados e amordaçados, e as duas táticas revelaram-se igualmente ineficazes para quebrar o poder ideológico da social-democracia e a crença no sistema representativo parlamentar, bem como relançar o movimento social na base da ação e da democracia direta. Meio século mais tarde, Paul Mattick, que foi um jovem spartakista, criticaria a palavra de ordem dos delegados revolucionários, “Todo o poder aos conselhos!”, que, segundo ele, “só podia conduzir a um impasse, a menos que, bem entendido, o caráter e a composição dos novos órgãos mudassem completamente. […] A grande massa dos trabalhadores tomou a revolução política por uma revolução social. A ideologia e o poder organizacional da social-democracia haviam-na marcado profundamente. os trabalhadores consideravam a socialização da produção não como um problema seu, mas como um assunto do governo”[49].

A guerra civil da República de Weimar

No decurso da primeira metade de 1919, ocorreu na Alemanha uma violenta guerra civil em que os radicais foram esmagados[50].

A insurreição de Berlim, no início de Janeiro – na qual os spartakistas desempenharam um papel preponderante – saldou-se por centenas de mortos. Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e muitos militantes revolucionários, anarquistas e comunistas, foram presos e depois assassinados pelas forças paramilitares, os corpos francos, que os sociais-democratas utilizaram como supletivos da polícia[51]. Dois meses mais tarde, o governo respondeu às greves insurreccionais desencadeadas pelos delegados revolucionários com a instauração do estado de emergência. Depois, em Abril, foi proclamada em Munique a República dos Conselhos da Baviera, com uma forte presença de militantes anarquistas. Apesar da resistência armada dos revolucionários, a experiência falhou. Nos fins de Abril, princípios de Maio, as tropas do governo central e os corpos francos esmagaram no sangue a insurreição, assassinando vários dirigentes socialistas de esquerda, anarquistas e spartakistas.

Finalmente, o que inicialmente parecia ser uma ligação contranatura, a aliança do exército com a social-democracia mostrou o que valia, e a restauração sangrenta da ordem foi selada com a formação da nova república, cuja constituição foi promulgada em Agosto de 1919, em Weimar, pela Assembleia Constituinte.

Se separarmos o aspecto formal da revolução, os conselhos, do espírito que animou o amplo movimento que destruiu as velhas instituições imperiais e permitiu a proclamação da república, podemos pôr em evidência a ligação entre a primeira fase da revolução e a segunda, na qual os conselhos já não desempenharam qualquer papel.

No seu importante trabalho histórico sobre a revolução alemã, o stalinista Gilbert Badia considerou um “paradoxo” o fato de “os spartakistas reclamarem incessantemente topo o poder para os organismos [os conselhos] que, na sua maioria, se satisfazem com um programa de reformas democráticas”[52]. Para Badia, os conselhos não estavam animados de um espírito “verdadeiramente revolucionário” e não eram a expressão da “fração mais revolucionária”, os spartakistas. Ora, o “paradoxo” desaparece a partir do momento em que o “espírito revolucionário” residia não nos conselhos, mas no espírito, no clima do momento de que os conselhos foram tão só uma forma de organização efêmera, em mutação. Para a grande maioria dos revolucionários, os conselhos foram, durante a revolução alemã, mais do que uma forma de organização, uma dinâmica revolucionária em devir, um movimento novo, nascido na Rússia em 1905, onde se exprimia a atividade direta e subversiva. Em suma, um espírito de luta e não uma forma de organização, como resumirá mais tarde Anton Pannekoek. Para Rosa Luxemburgo e os seus camaradas, não havia paradoxo: eles só podiam apoiar o movimento dos conselhos. Tal como, mais tarde, tiveram de aceitar, ao arrepio da sua própria opinião e da sua cultura social-democrata, a posição antiparlamentar e extra-sindical da maioria dos spartakistas. Estas posições eram, na altura, a expressão mais avançada e emancipadora do movimento social, a afirmação do desejo de uma soberania total dos trabalhadores, da recusa de delegar o seu poder em instituições construídas com base nos princípios autoritários de representação. A incapacidade de captar o espírito novo da revolução alemã levou Badia e os seus epígonos a considerar os spartakistas como uma corrente essencialmente anti-social-democrata, anti-reformista, uma força proto-bolchevique em formação. Esta visão seria mais tarde a de toda a historiografia oficial da antiga RDA. Do lado das outras correntes bolcheviques, o trotskista Pierre Broué também deu pouca atenção, na sua obra exaustiva, aos conselhos propriamente ditos. Incapaz de os ver como um movimento de natureza diferente da dos partidos da esquerda tradicional, debruçou-se essencialmente sobre o processo de formação de um partido comunista tipo bolchevique, o KPD pós-spartakista, e sobre a atividade dos seus chefes e da elite política, os seus erros e as suas lutas de tendências[53].

O Segundo Tempo da Revolução

Depois de ter esvaziado os conselhos das suas potencialidades revolucionárias, a social-democracia integrou-os rapidamente nas novas instituições do estado da República de Weimar, onde juridicamente se lhes atribuiu um papel de cogestão da força de trabalho. Assim, a consolidação do poder socialista realizou-se também com base num certo tipo de conselhos, organismos respeitadores do parlamentarismo, da burocracia sindical e das relações sociais de exploração. Em 1920, um delegado revolucionário denunciava já estes conselhos de fábrica, ou de empresa, pois “não desempenham absolutamente nenhum papel no processo de produção e ainda menos se empenham na via da abolição da produção capitalista. O seu papel será sobretudo o de “prevenir perturbações” nos locais de trabalho e ajudar os capitalistas a atingir os “objetivos da empresa”. É claro que os “objetivos da empresa” são pura e simplesmente o lucro, os dividendos, as ações, etc.[54]

O segundo tempo da revolução – que podemos situar esquematicamente entre a tentativa de golpe militar de Kapp, em meados de Março de 1920, e a “Ação de Março” de 1921 – teve um impacto mais limitado sobre uma sociedade em vias de normalização com o funcionamento das instituições da nova república. Em contrapartida, este foi um tempo mais rico do ponto de vista do conteúdo emancipador das ações realizadas e para o pensamento crítico.

A oposição ao golpe militar de 1920 foi uma estreia na História moderna: em poucos dias, uma greve geral derrotou uma aventura reacionária num grande país de economia desenvolvida. o governo de Weimar chamou facilmente a si os louros da vitória sobre os golpistas, salvo em locais como o Ruhr, onde a greve se transformou numa insurreição, com um “improvisado” exército vermelho a assumir o controle da região. Perante esta emergência, o governo social-democrata tinha de responder, retomar a iniciativa, bloquear a segunda vaga da revolução e desarmar os revolucionários. E, mais uma vez, os socialistas realizaram com sucesso estas tarefas apoiando-se no exército e nos corpos francos. Seguiu-se um ano de rebelião, com greves e lutas violentas que culminaram numa insurreição nas regiões industriais da Alemanha Central, que ficou conhecida pela Ação de Março de 1921, e que constituiu o último episódio do segundo tempo da revolução.

Durante estes últimos meses, aqueles que se bateram para retomar em mãos o seu destino pagaram um alto preço. Milhares de proletários determinados e conscientes acabaram na prisão. Mais uma vez, muitos militantes e ativistas foram presos, executados, esmagados no decurso dos confrontos com os esbirros da República de Weimar[55]. Os conselhos estavam institucionalizados, já não existiam enquanto entidades de auto-organização, e foram as organizações revolucionárias que se haviam formado após a primeira vaga insurrecional que desempenharam um papel de primeiro plano nestes acontecimentos: os dois partidos comunistas (o KPD e o KAPD, partido comunista operário antiparlamentarista[56]), as organizações de fábrica ligadas ao KAPD ou “unitárias”[57] e os grupos anarcossindicalistas.

Para lá dos conselhos, as correntes unionistas

Estes anos de intensa efervescência intelectual viram surgir experiências inovadoras e debates intensos, e nascer iniciativas originais e criadoras, em ruptura com o pensamento político da esquerda tradicional. O movimento real da revolta tinha dissociado a ideia e os princípios dos conselhos da forma conselho, organização que estava agora integrada na nova ordem capitalista e sujeita à lógica da empresa. Durante as lutas os trabalhadores radicais opuseram-se muitas vezes aos conselhos de fábrica, que representavam a linha da social-democracia. Alguns denunciaram “uma espécie de burocracia dos conselhos [que] se instalou, por vezes mesmo um sistema de corrupção conselhista”[58]. A crítica da vida burocrática, parlamentar e sindical era expressa de forma aberta e rapidamente se tornou um ponto de antagonismo entre as duas correntes comunistas, a do partido e a que se reclamava do movimento dos conselhos revolucionários. Depois, surgiu uma nova fratura acerca da questão da dupla luta, econômica e política. As correntes extremistas- que Lenin apelidava de “esquerdistas”- concertaram-se para se oporem ao comunismo bolchevique, ligado a Moscou, e para rejeitar o eleitoralismo parlamentar, o sindicalismo de aparelho e o seguidismo daí decorrente. Mas o KAPD continuava a defender a necessidade de distinguir a organização política, o partido, da organização de fábrica, as uniões.

Deste ponto de vista, o KAPD permaneceu uma organização de dirigentes “profissionais”, não um partido de massas no sentido leninista, mas um partido de elites que aspiravam a educar os trabalhadores por meio de ações radicais., exemplares, frequentemente violentas e ilegais[59]. Era, em muitos aspectos, um partido ainda mais vanguardista do que o partido bolchevique. E, enquanto tal, foi criticado pelos anarcossindicalistas, pelos sindicalistas independentes e por alguns unionistas. Criou-se assim uma nova dissidência minoritária, reivindicando a recusa de todas as separações, e em particular a que se encontrava na base da dupla pertença, ação política e ação económica. Estas duas ações deviam formar uma só, daí o nome de “unitários”[60]. Segundo os seus promotores, as novas organizações de fábrica eram uma forma federativa, sem centralismo. “Nenhum patrão, nem escritório, nem comitê central, nem intelectual, nem dirigente profissional pode intervir nos teus assuntos. A organização de fábrica não é um partido nem um sindicato; não assina contratos de trabalho. É apenas o local que serve para preparar e favorecer a revolução”[61]. O apelo à formação de organizações unitárias encontrou muito pouco eco nas empresas num momento em que o movimento social estava esvaziado de toda a energia criativa e as tendências burocráticas dominavam de novo a vida econômica e social. Mas estas novas concepções não deixariam de voltar a emergir e de serem discutidas anos mais tarde.

No seu conjunto, a corrente unionista – que ficou pouco conhecida – atraiu numerosos militantes revolucionários vindos da experiência dos conselhos, do anarcossindicalismo e dos grupos marxistas críticos do bolchevismo. Os unionistas procuravam despertar a consciência dos trabalhadores, “convidando-os a sair dos sindicatos e a aderir à organização revolucionária de fábrica; os operários, como um todo, poderiam então dirigir eles próprios as suas lutas e conquistar o poder econômico e político sobre toda a sociedade”[62]. Os anarcossindicalistas, de que Rudolf Rocker era um dos teóricos, sempre tinham defendido que a estrutura sindical revolucionária devia estar na origem da organização da sociedade socialista[63]. A uniões, de resto uma rede nacional pouco homogênea, organizadas numa base industrial e não profissional, pareciam-lhe ir nesse sentido[64], embora permanecesse um desacordo de fundo acerca da ação sindical. Com efeito, algumas uniões propunham-se radicalizar politicamente as ações econômicas, enquanto outras consideravam que as lutas nas empresas deviam ser conduzidas por forma de auto-organização – comitês de base congregando todos os trabalhadores. Como é evidente, numa situação de rebelião social permanente e alargada, as fronteiras entre estes grupos eram muitas vezes imprecisas e as separações ideológicas contavam pouco em face dos imperativos da ação e dos laços concretos de solidariedade. Alguns preocupavam-se com o fato de o abandono da estrutura sindical representar um recuo no plano de organização dos trabalhadores. Havia o perigo de fragmentar o poder coletivo e centralizado em benefício de uma miríade de grupos locais.

Os defensores da ideia dos conselhos responderam que isso só acontecia na aparência, dado que esta nova forma “se revelava a única que permitia estabelecer as bases de um poder operário direto”[65]. Para lá deste magma confuso de pequenos grupos, cisões e confrontos sectários, o mais importante era a propagação das ideias que defendiam: a democracia direta e o exercício da soberania do conjunto dos explorados sem mediações políticas nem sindicais.

A forte repressão dos primeiros anos da década de 1920 deixou exangues todos estes organismos, que rapidamente se reduziram a grupúsculos. Perderam a sua razão de ser: agir para quebrar a passividade geradas pelas tácticas do compromisso da social-democracia, agitar para despertar as capacidades de autonomia dos oprimidos. A maioria era composta por desempregados e militantes que muitas vezes viviam na marginalidade. Uma das consequências foi o recuo forçado dos seus membros para ações minoritárias, o desenvolvimento de ações de “grupos expropriadores”, ou de “bandidos vermelhos”, que procuravam assegurar a sobrevivência material dos militantes e das organizações – desenvolvimento este que anunciava o seu isolamento e o seu declínio[66]. O movimento esquerdista, no sentido dado pelos leninistas, ou seja, oposto à vida política oficial, “deixou de ser um fator político significativo no movimento operário alemão[67]”. Uma outra consequência foi o reforço do partido comunista bolchevizado, o KPD, que, com consideráveis meios materiais e institucionais (deputados e funcionários sindicais.), ocupou um lugar importante na vida parlamentar e sindical da República de Weimar. Esta progressão permitiu-lhe, por sua vez, valorizar a eficácia e o realismo do trabalho político no interior das instituições democráticas, até ao desmoronamento do seu aparelho burocrático perante o nazismo.


[1] Eric J. Hobsbawn, L’Âge des extremes, Complexe, 1999, p. 86.

[2] Ibid., p. 101.

[3] Sebastian Haffner, op. cit., p. 13.

[4] Paul Mattick, op. cit., p. 237.

[5] Rosa Luxemburgo, Réforme ou Révolution (1908), trad. franc. Bracke, Sparacus, 1947.

[6] Martin Comack, Wild Socialism, Workers Councils in Revolutionary Berlin, 1918-1921, University Press of America, 2012, p. 13.

[7] Allgemeiner Deutscher Gewerkschaftsbund.

[8] Citado por Martin Comack em op. cit., p. 22.

[9] Sebastian Haffner, op. cit., p. 14.

[10] Jean Jaurès, discurso de 20 de Dezembro de 1911.

[11] Rudolf Hilferding, Le Capital financier (1910), introdução de Yvon Bourdet, Minuit, 1970. Em agosto de 1914, Hilferding tomou posição no seio do partido contra o voto dos créditos de guerra e, três anos mais tarde, foi um dos fundadores do USPD, Partido Socialista Independente, que se separou do SPD com base em posições contra a guerra.

[12] Yvon Bourdet, introdução a Le Capital financier, op. cit., p. 48. Hilferding, na sua análise da transformação do salariato, reservou um lugar importante ao nascimento das novas camadas de assalariados do setor terciário, empregados e técnicos. Estas camadas deviam desempenhar um papel na transformação do Estado e na socialização da economia. O estudo das novas classes médias do terciário e da sua precarização foi retomado por autores da Escola de Frankfurt, como Siegfried Kracauer (1889-1966), em Les Employés: aperçus de l’Allemagne nouvelle [1929], trad. franc. Clause Orsoni, Les Belles Lettres, 2012. Separado destas intenções políticas e na sequência dos trabalhos de Charles Wright Mills (1916-1962), o assunto tornou-se um tema central da sociologia ocidental. Charles Wright Mills, Les Cols blancs. Essai sur les classes moyennes américaines, Maspero, 1966.

[13] Rudolf Hilferding, op. cit., p. 493.

[14] Paul Mattick, “Otto Rühle et le mouvement ouvrier allemand” (1945), posfácio a Otto Rühle, Fascisme brun, fascisme rouge, Spartacus, 1975.

[15] Paul Mattick, Marxisme, dernier refuge de la bourgeoisie?, op. cit., pp. 253-4.

[16] Esta ideia da formação da consciência de classe foi desenvolvida por Edward P. Thompson. Veja-se La Formation de la classe ouvrière anglaise, Seuil, “Points”, 2012.

[17] Esta foi uma visão das coisas propagada pelos chefes e barões sindicais; veja Martin Comack, op. cit., p. 32.

[18] Martin Comack, op. cit., p. 32.

[19] Em França, também, a União Sagrada foi o primeiro passo na integração da SFIO no Estado. Leia-se Julien Chuzeville, Militants contre la guerre 1914-1918, Spartacus, 2014.

[20] Sebastian Haffner, op. cit., p. 20.

[21] Esta transformação da função histórica do marxismo, de teoria revolucionária em ideologia reformista e integradora, foi brilhantemente analisada por Karl Korsch, Karl Marx, trad. franc. Serge Bricianer, Champ Libre, 1971 [Karl Marx, trad. port. Gilda Lopes Encarnação, Lisboa, Antígona, 2018].

[22] Podemos reportar-nos à reação de Nestor Makhno, na altura na prisão. Cf. Malcolm Menzies, op. cit.

[23] No que respeita à posição de Kropotkin, podemos referir-se a uma das suas cartas de 9 de Novembro de 1914 (http://racinesetbranches.wordpress.com/introduction-a/emma-goldman/nationalisme/militarisme-et-guerre-/kropoktine-et-la-premiere-guerre-mondiale).

[24] Intervenção no Congresso dos Conselhos de Operários e Soldados, citada por Otto Rühle, Fascisme brun, Fascisme rouge, op. cit.

[25] Discurso de Ernst Däumig perante o I Congresso dos Conselhos, 19 de Dezembro de 1918. Numa intervenção repleta de espírito internacionalista, Däumig faz uma forte referência à ação dos trabalhadores de Glasgow. Tout le Pouvoir aux conseils!, textos reunidos e apresentados por Gabriel Kuhn, trad. franc., Étienne e Monique Lesourd, Jean-Claude Lamoureux, Charles Daget, Les Nuit Rouges, 2014, pp. 81 e 98.

[26] A primeira greve geral convocada pelos “homens de confiança”, em Maio de 1916, foi uma greve política para protestar contra prisão de Karl Liebknecht.

[27] Tout le Pouvoir aux Conseils, op. cit., pp. 67-144.

[28] Sebastian Haffner, op. cit., p. 61

[29] Ibid., p. 62.

[30] Ibid.

[31] Palavras dirigidas, em 7 de Novembro de 1918, por Friedrich Ebert ao general Groener, do Comando Supremo das Forças Armadas, em Sebastian Haffner, op. cit., p. 65.

[32] Ibid., p. 101.

[33] Ibid., p. 100.

[34] Ibid., p. 74.

[35] Ebert será mais tarde apelidado de Staline da social-democracia devido ao seu talento de manipulador.

[36] O Kommunistische Partei Deutschland (KPD) é fundado em Berlim a 1 de Janeiro de 1919, produto da fusão de dois grupos, a Liga Spartakus e o grupo Internationale Kommunisten Deutschlands (IKD).

[37] O Freie Arbeiter-Union Deutschland, sindicato anarcossindicalista. Para a história do anarcossindicalismo alemão, veja-se Augustin Souchy, Beware Anarchist! A Life for Freedom. An autobiography, Charles H. Kerr, 1992.

[38] Martin Comack, op. cit., p. 56.

[39] Sebastian Haffner, op. cit., p. 111.

[40] Ibid., pp. 103-4.

[41] Henk Canne-Meijer, Les Conseils ouvriers em Allemagne, 1918-1921, Échanges et Mouvement, 2007, p. 12.

[42] Sebastian Haffner, op. cit., p. 110.

[43] Para um testemunho da natureza conservadora de muitos conselhos, assim como da contestação revolucionária no seu seio, veja-se Paul Mattick, La Révolution fut une belle aventure, L’échappée, 2013.

[44] Jean-François Varlet, L’Explosion, 1 de Outubro de 1794.

[45] Ernst Däumig, “L’idée des conseils et as réalisation” (1920), em Tout le Pouvoir aux conseils!, op. cit., p. 106.

[46] Durante os anos revolucionários, a palavra “spartakista” era sinônimo, sobretudo em Berlim, de “revolucionário”.

[47] Karl Liebknecht, “À propôs des pourparlers avec les délégués révolutionnaires” (Dezembro de 1918) em Tout le pouvoir aux Conseils, op. cit., p. 202.

[48] Recordemos que alguns dos delegados revolucionários mais escutados eram membros do USPD.

[49] Paul Mattick, “La gestion ouvrière”, em Intégration capitaliste et rupture ouvrière, textos escolhidos e traduzidos para francês por Serge Bricianer, EDI, 1972, p. 227.

[50] Acerca do movimento spartakista, três livros, três abordagens diferentes – comunista, trotskista e libertária: Gilbert Badia, Les Spartakistes, Aden, 2008; Pierre Broué, Révolution em Allemagne (1917-1923), Minuit, 1971; e André e Dori Prudhommeaux, Spartacus et la Commune de Berlin, 1918-1919, Spartacus, 1949.

[51] Calcula-se que, na Alemanha, durante o período revolucionário de 1918-1919, houve cerca de cinco mil mortos.

[52] Gilbert Badia, Le Spartakisme, L’Arche, 1967, pp. 198-199.

[53] Pierre Broué, op. cit. Encontramos esta perspectiva em outras obras acerca da revolução alemã. Último exemplo em data, a obra do trotskista inglês Chris Harman, La Révolution allemande, 1918-1923, prefácio de Sebastian Budgen, La Fabrique, 2015.

[54] Ernst Däumig, “L’idée des conseils et as réalisation”, em op. cit., p. 111.

[55] Segundo o livro de Erhard Lucas Märzrevolution 1920 (Verlag Roter Stern, 1978), quase metade dos trabalhadores mortos nos confrontos durante o golpe de Kapp eram militantes da FAUD anarcossindicalista.

[56] O KAPD nasceu da ruptura, no congresso de Heidelberg (Outubro de 1919), da tendência antiparlamentarista do KPD. Inicialmente, esta tendência agrupava a maioria da base do partido, enquanto a direção se manteve no antigo KPD, que se bolchevizou rapidamente. Segundo Gilbert Badia, “em Berlim, apenas quinhentos dos oito mil inscritos se manterão fiéis à direção” (Les Spartakistes, op. cit., p. 316).

[57] A AAUD (criada no início de 1920) estava ligada ao KAPD, do qual constituía uma espécie de organização de fábrica. Nos finais de 1920, a AAUD reivindicava trezentos mil membros, trinta mil dos quais em Berlim. Muitos militantes radicais que passaram pela experiência dos conselhos moviam-se entre estas organizações e a FAUD. Dois textos fazem uma história sucinta, mas rigorosa, destas tendências e do seu conteúdo político: Serge Bricianer, “Note sur le KAPD” (em introdução a Herman Gorter, Lettre ouverte au camarada Lénine, Réponse à: Le gauchisme, maladie infantile du communisme, Spartacus, 1979), e Henk Canne-Meijer, Le Mouvement des conseils em Allemagne (1918-1933), Informations Correspondance Ouvrières.

[58] Ernst Däumig, “L’idée des conseils et as réalisation”, em op. cit., p. 109.

[59] Esta linha política foi defendida por Herman Gorter (cf. op. cit.).

[60] A AAUD-E, ou organização “unitária”, criada em finais de 1920, recusava o princípio da dupla pertença e propunha uma concepção unificada da ação política e da ação econômica na base dos grupos de empresa. Otto Rühle foi um dos porta-vozes desta corrente menos “obreirista”, na qual se encontravam muitos artistas de vanguarda.

[61] Otto Rühle, From the Bourgeois to the Proletarian Revolution, 1924, traduzido parcialmente para francês no Cahiers du Communisme de conseils, no. 7, Dezembro de 1970 (http://bibliothequedumarxisme.files.wordpress.com/2017/10/ruhle_cahiers-communisme-conseil-07.pdf).

[62] Henk Canne-Meijer, op. cit., p. 12.

[63] Em 1920, a FAUD reivindicava cerca de duzentos mil membros, contra dois milhões para os sindicatos sociais-democratas. Nesse ano, as organizações unionistas reivindicavam cerca de trezentos mil membros. Desapareceriam rapidamente após a Ação de Março de 1921.

[64] Um resumo das posições das uniões no texto de Serge Bricianer, “Note sur le KAPD”, em introdução ao texto de Herman Gorter, op. cit.

[65] Henk Canne-Meijer, op. cit., p. 12.

[66] Paul Mattick fez um relato de algumas destas ações. Cf. La Révolution fut une belle aventure, op. cit. Leia-se também a autobiografia de um destes “bandidos vermelhos”, Max Hölz, Um reblle dans la Révolution. Allemagne 1918-1921, trad. franc. Serge Cosseron, 1988.

[67] Paul Mattick, “Otto Rühle et le mouvement Ouvrier allemand”, posfácio a Otto Rühle, Fascisme brun, fascisme rouge, op. cit.