A Propósito de Wilhelm Reich – Serge Bricianer

Publicado anonimamente em Informations Correspondance Ouvrières, suplemento do n° 60, maio de 1967, página 1-16.[1]

La Crise sexuelle tem por subtítulo (que falta na presente reedição): Critique de la réforme sexuelle bourgeoise[2][3]. O autor descreve uma miséria sexual que ainda em diferentes situações é predominante entre os casais atuais. Ele também engaja uma polêmica contra concepções “biológicas”, cujo eco é cada vez mais reduzido hoje. O leitor, cremos, poderá discernir esses dois aspectos. Por outro lado, talvez não seja inútil lembrar como a personalidade singular de Reich evoluiu, quais foram os temas principais de sua obra inteira e, por fim, rascunhar grosseiramente o estado atual de uma questão à qual ele reservou, num certo momento, o melhor do seu pensamento: as relações entre sociedade moderna de exploração e repressão sexual.

Wilhelm Reich (1897-1957) estudou medicina em Viena, se dirigindo depois à psiquiatria e à psicanálise. Entrou na policlínica psicanalítica de Freud desde sua fundação e logo esculpiu um lugar proeminente para si. Ademais, sem deixar sua clientela privada, Reich dava consultas em dispensários de saúde mental, patrocinados por associações social-democratas onde frequentavam operários e pequenos empregados. Ele se envolvia também com um meio quase ignorado por seus colegas da psicanálise (salvo alguns discípulos de Alfred Adler), todos especializados numa clientela rica e, em geral, saída do mesmo mundo que seus pais (os de Reich eram fazendeiros da Galícia, pessoas afortunadas que a Primeira Guerra Mundial arruinaria).

Sendo clínico, Reich dificilmente poderia recorrer aos métodos habituais dos psicanalistas ortodoxos, com curas que duravam meses, até anos, para chegar a resultados irrisórios (como Freud pessoalmente reconheceu mais de uma vez). Reich progressivamente começou a empregar métodos mais eficientes. Colocando a falta de satisfação sexual completa e repetida na origem das neuroses, prescrevia aos seus pacientes que se satisfizessem, que superassem em si qualquer sentimento de culpa e que desenvolvessem totalmente o poder orgástico, a capacidade do uso completo da energia genital. Para isso, foi necessário se fundar “escudos” e “couraças” de caráter – como ele os chama mais tarde –, estes tendo como efeito mais aparente o de levar à rigidez do comportamento e das atitudes físicas e mentais, o culto da autoridade (exercido ou sofrido), o travestimento constante das motivações reais do indivíduo, a angústia e o medo, etc.; em suma, as manifestações bem conhecidas das neuroses.

Mas a compreensão puramente intelectual que a psicanálise dá de sua neurose ao paciente, na prática, tinha quase nenhum efeito tangível. Reich se esforçou assim para destruir o “escudo” caraterial – originado por vezes do indivíduo ou do social – com o auxílio de técnicas, adaptadas a cada indivíduo pelo médico, a vegetoterapia. Essas técnicas derivavam em parte da análise freudiana clássica; mas em sua contribuição pessoal, da qual ele sempre falou bem, Reich permaneceu bem discreto. Ele pareceu ter colocado uma grande importância no estudo e na remodelação das posturas tanto carateriais quanto musculares. Lembremos incidentemente que hoje é a musculatura e a respiração que é trabalhada no tratamento funcional (cinesioterapia) da ansiedade. Desnecessário dizer, esses métodos se inspiram em considerações sobretudo fisiológicas e as teorias reichianas não as influenciaram em nada.

Reich partia na verdade de uma teoria “biológica” da “energia sexual”, alguns elementos dos quais admite ter encontrado no vitalista Hans Driesch e mais ainda no conceito de “élan vital”, caro a Henri Bergson. É o mecanismo dessa “energia” (noção fundamental em todos as pseudociências) que, para ele, se encontrava bloqueada ou freada nos neuróticos, devido à sua educação e experiência social, criando assim a incapacidade do doente de se obter uma satisfação sexual “completa”.

Reich chegava então de um lado a uma crítica da educação (ou da falta da educação) e da repressão sexual na sociedade burguesa (a Crise sexuelle é uma ótima ilustração), e a uma tomada de posição crítica, política, frente à essa sociedade. Por outro lado, Reich elaborava em etapas um conjunto de pontos de vista “biológicos”, os quais a falha inicial foi a de ele ser o único a poder verificá-los…

Na nossa opinião, a “biologia” reichiana, naquela época, era de uma consistência em suma análoga – quanto ao valor científico – àquela a qual a velha sexologia usava para reprimir intelectualmente as pulsões sexuais. Em Reich, certamente, o objetivo era outro e, enquanto a dita biologia dos sexólogos burgueses, reforçando os preconceitos impostos pela sociedade de classe, tivesse uma formidável eficácia na repressão mutiladora, a biologia fantástica mas liberadora de Reich permitiu a jovens escapar a uma terrível deficiência, a falta de amor, ou de curá-la o melhor possível. É isto que ainda pesa no trabalho de Reich: essa vontade de amar antes de tudo e a qualquer preço, amar sem travas nem lirismo, da maneira mais natural, normal e flexível.

A evolução política de Reich parece muito aquela de outros intelectuais mais ou menos rebaixados dos anos 20 e 30. Durante o período revolucionário propriamente dito, ele se manteve afastado da política. Em seguida, suas atividades profissionais e culturais no seio dos grupos patrocinados pela social-democracia o levaram a ideias de esquerda cada vez mais pronunciadas. Sem renunciar entretanto às suas amizades com os socialistas, ele evolui em direção a um leninismo heterodoxo e termina por aderir ao Partido. Enquanto em 1930 suas dificuldades com as autoridades de Viena o levam a se instalar em Berlim, ele terá seu lugar estabelecido na célebre célula que reuniu a nata dos intelectuais comunistas da capital, uma estufa e um gueto, todos juntos.

Ele era então um dos principais representantes da escola freudo-marxista que queria duplicar a crítica social tradicional com uma crítica da condição sexual em geral (da família, da vida dos jovens, etc.). As teorias freudo-marxistas despertam fortes ecos nas fileiras das juventudes comunistas e nos intelectuais. Elas são entretanto energicamente combatidas pelo aparelho que as acusa de afastar os ativistas das tarefas políticas “concretas”.

Tais críticas foram resumidas pelo Dr. Ténine, tradutor francês do Crise sexuelle. Este, no prefácio que escreveu para a obra que traduziu, acusa essencialmente Reich de ver na crise sexual uma consequência não do conflito entre o “capitalismo decadente” e “as novas relações sociais, a nova moral proletária”, mas da contradição entre as necessidades sexuais naturais e eternas, de um lado, e da ordem social capitalista, do outro. Reich respondeu a esses argumentos, clássicos no campo do marxismo-leninismo ortodoxo, no prefácio que redigiu em 1935 para a segunda edição alemã da Sexualité dans la lutte culturelle[4][5].

Não é suficiente, diz ele em substância, falar de moral proletária, o importante são as condições reais da vida, no direito (legislação) como na realidade. Agora, na URSS, o Estado conforme à doutrina de Lenin deveria “definhar” e assim consequentemente a moral proletária. É o que aconteceu entre 1918 e 1921 na época do comunismo de guerra, que Reich saúda em voz alta a legislação, sem se perguntar sequer por um instante se ela não seria o fruto de circunstâncias determinadas, fadadas a desaparecerem com elas. Em suma, se trata de tornar vã qualquer regulação moral e instaurar uma “autorregulação da vida social”.

Se ele não procura desenvolver essa última ideia, fundamental portanto, Reich consagra a segunda parte do seu livro à evolução da URSS em direção ao restabelecimento da família e da repressão sexual. Ele tem então o raro mérito de examinar a derrubada total da política stalinista, que alguns jesuítas receberam como um triunfo inevitável da “natureza humana” (sempre a “biologia”!)[6]. O próprio Reich denuncia corretamente uma regressão que o resultado será, diz, “uma economia com organização esplêndida, mas dirigida por neurastênicos e máquinas vivas, e não o socialismo.[7]” A realidade já confirmava essa previsão mas, em momento algum Reich se preocupou em pesquisar suas bases econômicas e sociais: se diria, aqui como no resto de sua obra, que ele via nesses fatores algo como a “mordomia” e que se seguirá quando a política sexual correta for adotada, em harmonia com a política correta do Partido.

Para retornar ao seu crítico francês, Reich precisa em sua resposta que ele rejeita o conceito de sexualidade absoluta, frequentemente empregado pelos freudianos ortodoxos. De acordo com ele, existe conflito entre uma pulsão biológica determinada e a maneira a qual esta é tratada pela ordem social. Esse tratamento varia consideravelmente dependendo do tipo de sociedade. A crítica revolucionária (que vai até a raiz das coisas, diz Reich após Marx) tem por objeto revelar a natureza histórica, a natureza de classe, desse tratamento numa dada época (a nossa, nesse caso).

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Reich não criticou apenas o que se passava na URSS. Em 1933, participando das reuniões conjuntas de dirigentes socialistas e comunistas, sob seu ponto de vista o que se produziu foi o colapso sem combate, a rendição sem condições, do rico e poderoso movimento operário alemão. Ele consagrou ao fenômeno uma de suas mais interessantes obras: Fascisme et psychologie des masses[8].

Reich analisa do ponto de vista da Sex-Œkonomie, a economia sexual (como se diz a economia política), as condições da chegada ao poder dos nazistas. Para ele, é preciso buscar as razões fundamentais menos na esfera política ou mesmo econômica, do que num complexo emocional estendido à escala das massas e unindo o direito da liberdade à fuga perante as responsabilidades que o exercício da liberdade engendra. Complexo que, ao nível do indivíduo, se sobrepõe ao desejo de realização sexual total e ao medo da sexualidade normal. Esse medo das responsabilidades e iniciativas tem como corolário uma fixação no chefe infalível – assim como a persistência da célula familiar e o culto da família – levando a duplicar a imagem do chefe coletivo por aquele do pai autoritário, mas justo. Essa concepção não existe sem encontrar, ao menos parcialmente, as tentativas de compreender o nazismo, rascunhadas por psicanalistas ortodoxos, mesmo que esses últimos raramente tenham criticado de maneira tão radical a família e a ideologia conservadora que ela emana de forma natural (ao passo que engendra contudo, em alguns momentos, impulsos de revolta).

Todavia, Reich se separa irremediavelmente dos seus companheiros sob um ponto onde esses por indiferença – e assim por ignorância – eram incapazes de colocar seus olhares doutos: o comportamento de massas. O diagnóstico de Reich está nos seguintes termos:

“As grandes massas não compreendem nada que passa em seu entorno. Elas conhecem apenas suas misérias físicas e psíquicas, mas não as causas objetivas das mesmas. Parece que a própria opressão material e cultural da vida se enraizou na massa dos oprimidos, seja sob forma de passividade, seja sob forma de atitudes políticas que contradizem seus reais interesses. Parece que a estrutura humana se subjugou a qualquer autoridade e teme a vida que gostaria de realizar… O medo do “caos moral”, no caso de um levante social das relações estabelecidas, não domina apenas a reação política e sua direção, mas também várias camadas da direção socialista, e isso junto às massas infestadas pela moral negadora da vida.”[9]

Essa passagem e outras, que seriam muito desgastantes de delinear aqui, exprimem uma decepção que Reich partilhava à época com inúmeros membros dos partidos comunistas e que, posteriormente, se encontra frequentemente em diversos agrupamentos de inspiração trotskista, anarquista, situacionista, filosófica, etc. Reich, como sua posteridade mais ou menos indireta, permanece em última instância fiel à ideia que o Partido decide tudo; e se houvesse então catástrofe, é porque as decisões foram tomadas por uma “burocracia” muito alienada. Não é o momento de discutir aqui essa análise, finalmente leninista (e portanto social-democrata), que admitimos apenas muito parcialmente e numa perspectiva de fato diferente. Em contrapartida, Reich propõe, a partir do comportamento conservador das massas e de suas raízes, uma análise que merece reflexão:

“Nos períodos “calmos” da democracia formal, o operário vê em teoria duas possibilidades abertas. Ou se identificar com a classe média, acima dele; ou se identificar com sua própria situação, chegando assim a formas de existência por si, opostas às formas reacionárias.”

Num caso, procura-se imitar o modo de vida das classes burguesas; no outro, identificar um modo de vida independente do precedente e oposto a ele. A missão do Partido, e o partido socialista como o partido comunista não soube concluí-la, é a de provocar uma ruptura com “os pequenos hábitos aparentemente desprovidos de importância da vida cotidiana”. Algo a mais que Reich também expunha:

“O quarto do pequeno burguês (com apenas uma cama) que o “proletário” adquire na primeira chance que tiver, mesmo se ele é comunista; a repressão que isso causa na mulher; as vestimentas do domingo; o comportamento artificial na dança; tudo isso e diversas outras pequenas coisas exercem, pela sua repetição cotidiana, uma influência incomparavelmente mais poderosa que as influências que são suscetíveis de frustrar milhares de reuniões e folhetos revolucionários. A influência de uma existência intimamente reacionária é contínua; ela preenche cada poro da vida cotidiana, enquanto o trabalho, a fábrica e o folheto só têm efeitos temporários. Tentar “chegar às massas” organizando festas é um cálculo ruim, pois isso resulta apenas em trazer à tona as forças conservadoras nos trabalhadores. O fascismo reacionário era infinitamente mais apto a empregar esses tipos de métodos.”

Também a propaganda comunista não poderia se limitar a denunciar a miséria imediata do operário; deveria igualmente fazê-lo tomar consciência da sua miséria sexual e cultural. Mais ainda, deveria fazê-lo propondo uma alternativa concreta à “adaptação estrutural da classe operária às classes médias”, à “estrutura conservadora” nascida da elevação das suas condições de vida e que, presentemente, “vinha inibir o desenvolvimento dos seus sentimentos revolucionários[10].” 

“A direção do partido deve levar a consciência revolucionária às massas”, incapazes de passarem, por si só, da “espontaneidade revolucionária à consciência do objetivo final socialista”, diz Reich em Qu’est-ce que la conscience de classe?[11]. Ele queria ver o Partido superar a separação entre dirigentes e executantes, e invocava sobre isso o exemplo de Lenin que, em outubro de 1917, na véspera da insurreição, e face à oposição dos dirigentes do seu partido, “se virou para as massas de militantes bolcheviques sem buscar intrigar ou criar uma facção.[12]

Aos trotskistas da Quarta Internacional, Reich reprovava quererem criar um partido “do nada”, sendo que era necessário antes de tudo forjar uma concepção de conjunto e uma prática em conformidade com a realidade. Assim, ao dar prioridade “às questões que interessam as diversas camadas da população”, evitaria-se que “os quadros dirigentes ficassem separados das massas.[13]” Em suma, era o clássico “não se afastar das massas”, condenado a continuar platônico, pois, nos países desenvolvidos ao menos, a função de dirigente e a função de executante são automaticamente separadas, em todos os níveis, não importa quais sejam. Além disso, quando em condições determinadas, os explorados que buscam se emancipar só podem contar com suas próprias forças, sua própria ação “selvagem”. É na própria luta que as consciências podem se transformar, na luta efetiva que as antigas rupturas e os antigos reflexos tendem a se abolir (isso permanece verdadeiro de qualquer forma mesmo quando se trata de movimentos organizados por cima com o objetivo de fortalecer a ordem existente ao desenraizar a ordem antiga, ou seja, numa revolução burguesa de tipo novo; veja a revolução cultural chinesa).

Eis o porquê de ser ridículo aproximar Reich dos teóricos mais conhecidos daquilo que foi o comunismo de conselhos, enquanto se choraminga sobre um tipo de “marxismo que mais tarde regressa (sic) a uma espécie de anarquismo”, como acredita bem fazer o reichiano Boris Frænkel[14]. Antes de tudo porque a regressão histórica, que se manifestou abertamente em 1933, é devida – no que os concerne – aos próprios partidos marxistas e que Reich, contrariamente a seus imitadores atuais, foi capaz de perceber; em seguida, por Reich querer simplesmente alargar o campo de preocupações dos partidos marxistas sem se fundar na ação direta e em massa, como sempre defenderam Pannekoek, Gorter e muitos outros.

Existe um abismo entre a concepção segundo a qual a consciência de classe nasce da luta implacável das massas e é praticamente inseparável dela, e aquela de Reich no início dos anos 30. Essa combinava então, junto à sua visão global do psiquismo humano nas condições capitalistas, um ponto de vista de aparelho. “Quanto maior for a base do movimento revolucionário”, dizia ele, “e assim menor será a necessidade de recorrer à força, e também igualmente menor a angústia das massas face à revolução. E será o mesmo quanto maior for a influência (do movimento) no seio do exército e do aparelho do estado… A importância dessa base de massas depende da maneira pela qual o partido revolucionário conseguirá falar a linguagem de todas as camadas trabalhadoras da população, pela qual ele saberá expressar os votos e as ideias revolucionárias. Tudo isso vindo após um fiasco sem exemplos! Mas pelo menos um exemplo Reich tinha: “Lenin, o maior psicólogo das massas de todos os tempos, o chefe da revolução russa[15].”

É por essa própria razão que os comunistas de conselhos, como Otto Rühle – vendo em Lenin um revolucionário burguês, defendendo um “modelo jacobino” de acordo com o qual “os dirigentes revolucionários tendo recebido a educação são os únicos capazes de compreender as situações, de dirigir e comandar as forças envolvidas… Essa distinção entre a cabeça e o corpo, os intelectuais e as massas, os oficiais e os simples soldados, corresponde à dualidade da sociedade de classes… à ordem social burguesa da qual ela é apenas a reprodução[16].” 

Estamos muito longe de Reich e suas tentativas, tão complicadas, de manter e restaurar uma tradição política, incapaz de enfrentar uma crise real. Entendamos bem: em si, pouco importa que o bravo Frænkel faça um contrassenso; mas, é inútil, também, de dar crédito a uma lenda.

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Além disso, em breve Reich deixaria de pensar politicamente de maneira ativa. É certo que o desastre alemão – o triunfo do nazismo sem sequer um tiro – contribuiu em desviá-lo. Mas, igualmente, suas condições de vida tinham mudado radicalmente. Emigrante, não dava mais consultas nos dispensários populares, não participava mais da vida dos círculos culturais. Ele então estava encarregado de cursos na universidade de Oslo.

Num primeiro momento, Reich se esforçou em relançar seu movimento “por uma política sexual” (Sexpol), concebido em sua origem como uma dessas organizações múltiplas destinadas a irradiar a influência do Partido Comunista Alemão. Mas, por falta de um meio apropriado para seu desenvolvimento, a tentativa fracassou. E Reich, assim, evoluiu em direção a um anarquismo metapolítico.

Os anarquistas alemães tinham já espírito libertário suficiente para que Reich pudesse ensiná-los muito. No exílio, Reich foi contudo bem acolhido nos meios anarquistas americanos onde se amava o gosto das liberdades individuais e sua vigorosa crítica do totalitarismo e da estupefação generalizada. A última de suas obras com cunho político, Ecoute, petit homme (1948)[17], apresenta um forte tom anarquista-individualista (mas, desnecessário dizer, sem os artifícios verborrágicos dos seus homólogos franceses).

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Em Oslo, onde ensinava a “psicanálise caraterial”, Reich não demorou em se engajar num novo caminho que, portanto, seu trabalho sobre a “energia sexual” prenunciava. Num belo dia, ele se perguntou se “os órgãos sexuais em estado de excitação acusariam um aumento na sua carga bioelétrica?[18]

Subsidiado pela universidade, Reich desenvolve, em 1935, um aparelho que “consistia numa rede de tubos de elétrons” (a descrição acaba aí). Como pode ser facilmente imaginado, o aparelho confirmava a ele que sua intuição estava certa. Com a natureza bioelétrica do câncer e da ansiedade estando estabelecidos, a economia sexual ascendeu ao ranking de ciência natural com o nome de “orgonomia”. Pouco após, com seus trabalhos tendo atraído para ele alguns mecenas, Reich fez uma descoberta que nada permitiria prever: aquela dos bions, ou veículos de energia orgonal ou “energia biológica específica”, ou “energia vital universalmente presente e demonstrável visualmente, termicamente, eletroscopicamente e com o auxílio de um contador Geiger”, em suma, aquilo que é tido por trás da vida, a função vivente, da qual “a manifestação fundamental é a função sexual genital”[19].

Reich, todavia, não se importava com esses detalhes. Ao preço de pesquisas constantes, auxiliadas por alguns amigos, ele multiplicava seus trabalhos sobre as aplicações de tecidos desintegrados no câncer com a ajuda de bions. Em 1939, chegou aos Estados Unidos e esse bendito solo viu novas conquistas florescerem. E primeiramente, em 1940, foi a invenção do acumulador de energia orgonal, que tinha como a mais interessante propriedade o poder de ser alugado por uma quantia considerável. Um conjunto de laboratórios foi construído em um lugar batizado de Orgonon, graças aos fundos adquiridos pela fortuna e graça também de mecenas. Reich tinha um talento nato para levantar dinheiro (não é por acaso que era psicanalista); mas seria um grave erro ver nele apenas um charlatão vulgar. Seu destino é prova: antes de tudo ele era possuído por suas pesquisas e essas, entre outros resultados, permitiam a ele viver bem tranquilamente.

O acumulador tinha o aspecto de uma cabina coberta no interior por diversos materiais dispostos em camadas (que Reich descreve minuciosamente), onde a energia orgonal circula. Se tivessem os meios financeiros, cancerosos, constipados, artríticos, impotentes e muitos outros ficavam nessa cabine e se encontravam muito bem. Em seguida, e para satisfazer uma clientela menos afortunada, o acumulador foi miniaturizado com o formato de pequenas caixas ou capas. Essa invenção deu a seu autor uma grande notoriedade, e também um fim trágico.

Outra criação: a teoria da sobreposição cósmica de duas correntes de energia orgonal como origem das trovoadas, auroras boreais e das galáxias. Trata-se de uma teoria da copulação generalizada no universo que, como nos sistemas místicos, desenvolve com uma ingenuidade imperturbável alguns grandes temas obsessivos. Mas é belo, grandioso e muito belo; seria adorável se fosse verdade, nada melhor para chatear os sábios, e por que de qualquer forma a bomba atômica não corre o risco de deixar “equações orgonômicas” ou “equações da gravidade e da antigravidade” (um dos temas de eleição da pseudociência nos Estados Unidos, como Martin Gardner mostra no livro que consagrou sobre o assunto e onde Reich tem um lugar especial).

A bomba atômica? Não, certamente. Mas, a antibomba, sim! A ideia vinha a Reich, em 1950, que a energia orgonal da atmosfera, ou OR, era capaz de fornecer um antídoto poderoso aos efeitos das radiações nucleares. A primeira, já tinha dito ele, poderia se comparar àquilo que significa “Deus”, no plano psicológico, e a segunda, seguramente equivalia ao “Diabo”. Foi realizada uma série de experiências que demonstravam a justeza da hipótese de base, não sem risco para uma das experimentadoras atingidas por um mal estranho e talvez contagioso. Reich foi assim obrigado a colocar um ponto final ao caso todo. Esses trabalhos o levaram entretanto a descobrir a DOR, ou energia orgonal morta, detectável no contador Geiger. Quando se concentra em nuvens escuras, a DOR silencia tudo na natureza, os pássaros e os sapos; ela dá um aspecto “muito triste” às folhas das árvores e às agulhas dos pinheiros; os lagos deixam de reluzir, e no homem essas nuvens provocam uma “angústia profunda”, indescritível. Em contrapartida, o OR dirigido em direção ao céu por uma espécie de canhão, serve para matar essas nuvens e então provocar chuva.

No meio dessas descobertas e invenções surpreendentes, Reich meditava. Ele chegou a compor assim um estranho emaranhado de considerações sobre a morte de Cristo, o orgasmo, a verdade, a “peste emocional” (ou estado de mediocridade paranoica que afeta o “pequeno homem”), e a vida. E esse antigo materialista voltava docemente a uma visão pessimista da “natureza humana”, relacionada à Weltanschauung (concepção do mundo) do catolicismo até ao Concílio Vaticano II. “O fascismo”, dizia, “acordou um mundo dormente nas realidades da estrutura caraterial da humanidade inteira. As razões pelas quais o fascismo exerce nas massas asiáticas do séc. XX uma influência funesta lembra, com gravidade, que mal a transformação mística da vida vivente fez a milhares de seres humanos ao longo das eras”. E apenas “a cópula natural nas piores condições, tanto interiores quanto exteriores”, permanece como um protesto da própria vida. A crise milenar da humanidade é antes de tudo uma crise da educação (que pode ser superada, entre outras coisas, pelo ensinamento da orgonomia nas escolas)[20]. Tal era, como ele mesmo proclamava, a conclusão lógica dessas concepções de sempre. Esperando, só faltava a Reich entrar em contato com o espaço. É o que mostra um livro publicado em 1957, no ano onde a primeira Sputnik foi lançada.

Nesse mesmo ano – há dez anos – Wilhelm Reich morria numa penitenciária de Lewisburg. Ele tinha sido condenado sob requisição da administração federal americana. Após investigação – e nos Estados Unidos tais investigações são especialmente rigorosas pois a Lei, muito liberal na questão, oferece mil escapatórias aos vendedores de remédios falsos – os especialistas verificaram a inexistência da “energia orgonal excitada”.

Consequentemente, os famosos acumuladores lançados no comércio constituíam um delito de fraude na mercadoria. O tribunal seguiu a administração e ordenou a retirada desses aparelhos do comércio, bem como algumas obras de Reich, como as traduções inglesas de Sexualité dans la lutte culturelle e de Fascisme et Psychologie des masses. Esses últimos anos, graças a uma tolerância ao eclipse, os objetos do delito reapareceram no mercado interior americano. No Maine, nos arredores do Orgonon, fazendeiros continuam criando frangos com grande ajuda do orgônio…

A condenação pessoal de Reich é em grande parte imputável à sua atitude em relação a seus juízes: ele os desprezava e essas pessoas não gostam disso. Reich recusou se apresentar perante a corte. Não queria, dizia ele, repetir o erro de Galileu. Recusou igualmente de dar qualquer detalhe sobre a natureza do orgônio, pois a administração, de acordo com ele, estava infestada pelos “vermelhos” que queriam transmitir à URSS o segredo da energia orgonal. Seu argumento essencial era de que a “estrutura do direito americano repousava na origem da “Lei natural””, e ele que estava fadado a “elucidar as manifestações funcionais fundamentais” dessa Lei natural não tinha nenhuma satisfação a dar aos tribunais. Foram dois anos de prisão. Ele permaneceu.

Certos leitores acharão talvez um pouco supérfluo as passagens consagradas ao Reich “orgonomista”. E assim não valeria a pena retraçar a evolução desse pensador passional, dominado por ideias fixas: liberar os indivíduos do medo em geral, do medo perante a sexualidade em particular, e captar uma forma desconhecida de energia para colocá-la a serviço da humanidade?

Que a segunda dessas ambições era nesse caso uma pseudociência, é claro. Que a psicanálise, mesmo sob a forma mais radical e generosa, é incapaz de realizar a primeira, parece também evidente. Depois de tudo, se essa última constatação podia contribuir a arruinar o mito tenaz de uma “psicanálise revolucionária”, não seria inútil.

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A crítica da reforma sexual burguesa, que Reich fez na sua época, está longe de ser caduca em todos os pontos. E o mesmo vale para sua crítica do casamento sob o ângulo sexual, mesmo que essa pareça excessiva e mal incerta nas suas generalizações quantitativas (pp. 63-64). E se é verdade, como já foi ressaltado por diversas partes, que a repressão sexual dos jovens, e também dos “adultos”, perdeu parcialmente sua máscara autoritária, não quer dizer que ela desapareceu.

Na esfera da produção, a função de autoridade foi fragmentada[21]. Um centro de decisão única (idealmente, isso quer dizer sem levar em conta as leis do mercado), o patrão, foi ser substituído por múltiplos centros, tanto humanos quanto mecânicos. A estrutura do comando estava tanto relaxada (no sentido que a decisão tomou um caráter mais especializado) quanto exposta a sérias travas (pois diversos elementos da decisão – ligados cada um a instâncias diferentes – se contrariam). Mais flexível, a decisão se aplica com mais rigor, pois ela encerra com mais precisão as condições de trabalho. Em contrapartida, haverá mais participantes na elaboração da decisão, e mais sua execução obrigará a base a demonstrar iniciativa. Ultimamente (idealmente), será o desenrolar individual generalizado, como no ramo oriental do capitalismo.

Se buscamos levar mais adiante a abstração, diz-se de uma forma geral que quanto mais o trabalho é especializado, menor é a margem de iniciativa deixada ao produtor. Quanto maior é a especialização, na verdade, e quanto mais se pode refinar o controle. Esse controle será fundado sob medidas, as quais excluem no limite qualquer intervenção do executante, e mesmo do planejador (salvo nos níveis elevados).

A cada etapa do circuito percorrido pelo produto – do planejamento ao último estágio da distribuição – células reguladoras intervêm, sendo elas mesmas sujeitas a centros de decisões múltiplas, especializadas e levadas a se contrariarem mutuamente – no âmbito de uma racionalidade na qual a base escondida permanece a lei do valor (modificada em seu funcionamento – mas isso não importa aqui).

Esse modelo se encontra no plano da sociedade global. Também nisso, a cada ciclo do produto do indivíduo pelo indivíduo (os seres humanos), as instâncias de intervenção são fragmentadas. E, também nisso, elas obedecem a uma racionalidade própria à ordem existente (burguesa), uma racionalidade que aparece no dinheiro, medida suprema dos seres e das coisas. O que nessa evolução nos interessa é a completa redução da esfera que, nas outras sociedades, era consagrada às atividades rituais (a festa, o jogo, a transmissão e a recepção da cultura profana-religiosa) a uma esfera de atividades coletivas quantificáveis, isto é, permitindo uma contabilidade global e portanto previsões (cada vez mais precisas). Essa esfera é dividida em especialidades geradoras de lucro (turismo, esporte, cultura moderna, etc.), ou necessárias ao bom funcionamento da produção e da sociedade e finanças pela equalização do mais-valor global (ensinamento, serviços de saúde, política). Assim, de uma parte, os órgãos administrativos e repressivos se especializam e se ramificam, e de outra, a esfera tradicionalmente dedicada à liberdade do tempo se reparte em setores autônomos e compartimentados.

Esse sistema, como aquele que rege a esfera da produção, é flexível e diversificado: ele engloba o indivíduo de todas as partes e o contém em domínios determinados; em outras, o indivíduo pode escolher entre diversas possibilidades planejadas com antecedência. Em última instância, sem dúvidas, o indivíduo pode recusar uma escolha que as consequências são secundárias do ponto de vista da produção. Mas isso leva a romper com seus contemporâneos, cortar o acesso às condições especializadas e reconhecidas como normais, bem como uma linguagem que implicam, em suma, a forjar uma conduta e uma linguagem mais ou menos pessoais. Esse problema é em geral aberto apenas aos filhos das classes abastadas, que podem passar por um aprendizado prolongado e que os produtos ou talentos acabam por ter um valor de mercado, que também é extremamente variável (escrivães, artistas, etc.). Quase sempre, todavia, romper quer dizer perder o contato com todos, do automobilista ao amador de competições ciclistas ou eleitorais. É claro que uma tal atitude é insustentável a longo prazo. A participação se torna então inevitável; ela se consolida e modula por instrumentos de manipulação das consciências (imprensa, rádio, cinema, televisão, etc.).

A função de autoridade, a nível familiar, se personificava tradicionalmente na imagem do pai, ao menos na ótica freudiana[22]. Nesse nível, como em outros, houve uma fragmentação. Uma parte da vida familiar é então administrada pelo Estado por meio de instituições especializadas tais como o jardim de infância, a assistência social, a seguridade social, etc. Os problemas impostos pela vida da criança e sua formação são tratados por centros especializados, independentes da célula familiar e, quando apropriado, supervisionando-o. Não somente a família deixou de constituir o lugar social privilegiado da formação das crianças e jovens, mas ela confia a gestão das frações mais ou menos vastas de tempo de lazer a órgãos especializados (colônias de férias, centros de lazer, etc.).

Na primeira fileira dos fatores responsáveis dessa evolução se encontra o fator demográfico. Em geral, a história demográfica das sociedades capitalistas obedece a duas tendências complementares. De um lado, há uma baixa regular, até um certo limiar, da taxa bruta de natalidade. Do outro, uma baixa da mortalidade, em geral, e sobretudo da mortalidade infantil. A segunda vai além de compensar a primeira, como mostra a evolução da população dos países desenvolvidos proporcionalmente àquela do resto do mundo: estima-se por exemplo que 35% da população mundial pertencia em 1930 à raça branca, contra apenas 22% em 1800. Mas isso significa também que o custo de formação e conservação do ser humano aumentou, de onde a necessidade de intervenções que tem por objetivo aliviar o custo por uma equalização no plano da sociedade global e por uma especialização de tarefas. Outra consequência: a satisfação sexual e a propagação da espécie deixam de ser conectadas. É o que proclamava em 1795, na linguagem da época, um pioneiro da sexologia, Sade: “A propagação não é de forma alguma o objetivo da natureza, é apenas uma tolerância.” Cento e cinquenta anos depois essa evidência é admitida, mesmo pelos grupos mais reacionários (clero católico).

Um outro fator que a importância não é menor é a “promoção” da mulher, suficientemente liberada das tarefas domésticas para ser ocupada no ciclo da produção (ou, pelo contrário, excluída de qualquer atividade). Certamente, essa evolução não data de ontem e está longe de ser alcançada. O elemento relativamente novo é que a mulher tende a escapar do seu estado de objeto, não apenas aos seus olhos, mas aos dos outros. No plano jurídico e no plano cívico em geral, a mulher já desempenha os mesmos direitos que o homem – se continua como verdade que seu direito sobre o produto de seu corpo (aborto) é ainda contestado (salvo quando considerações econômicas entram em jogo, bem como em países atrasados onde o início da acumulação ampliada exige o máximo de capitais disponíveis, seria ao custo da despesa da formação do “capital humano”, que é vastamente amplo, por ex.: a Rússia do comunismo de guerra e da NEP; a China atual).

Como o sexólogo Alfred Kinsey constatou, as restrições que atingem o comportamento sexual da mulher tendem a desaparecer, mas lentamente. E a difusão incessante e crescente de contraceptivos eficazes, de uso simples, acelera o processo. No que concerne o homem, a penicilina quase colocou fim às doenças venéreas, essa escória que, ainda há 30 anos, constituía uma das mais seguras garantias da fidelidade conjugal do homem e um fator ativo das neuroses. Os antibióticos fizeram mais pela reforma sexual que um século desses sermões, tão justamente criticados por Reich.

E apesar disso, as barreiras não colapsaram; talvez seja o contrário. O dinheiro (ou o diploma enquanto promessa de dinheiro) continua regulando essencialmente as relações entre os seres humanos, e portanto as relações sexuais e sua institucionalização no casamento. Esse é cada vez menos arranjado pelos pais ou por um intermediário, e portanto cada vez mais pelos próprios implicados. Essa tendência da autoemancipação aliás mais estimulou do que freou a pressa de se “ajuntar”. Casa-se mais cedo e, quando apropriado, o divórcio permite evitar as piores consequências do regime monogâmico, tão bem descritas por Reich. Mas isso é somente um paliativo – ainda danoso às crianças do casal separado – e um que não pode se repetir à vontade (mesmo se, como nas casas operárias, recorre-se ao procedimento legal de divórcio menos frequentemente que entre os riscos e dirige-se por vezes, após uma primeira separação, a um vínculo durável).

Certamente, há uma redução do medo de se fazer amor sem sanção legal; apesar de que os problemas de acomodação sejam mais graves, se possível, do que no passado, nesse plano a família reencontra frequentemente sua voz na questão. Mas a classe social de origem permanece o principal fator de união, como antes, se não mais. O objetivo buscado é o interesse individual e não o acordo profundo, o qual a probabilidade não pode ser permanente, ao menos na grande maioria dos casos.

O interesse individual, na verdade, toma menos o aspecto de dote, de bens atuais ou heranças vindouras. Ele personifica cada vez mais no diploma de executivo, o emprego garantido ou a qualificação reconhecida. Ele carrega ainda a marca da especialização, enquanto se exacerbam os preconceitos das categorias, se acentuam se possível as diferenças de nível dos salários, de cultura e portanto de modos de vida e anseios. Essas diferenças reais, vividas, são contudo mantidas no quadro contábil, comum ao tempo de trabalho e ao tempo de lazer, onde dominam as regras da média que impõem a pesquisa do lucro à era da produção em massa. E quem diz média diz também acomodação para uns, fonte de crise para outros, quando não ambos sucessivamente.

Nessas condições, o surpreendente não é a frequência já alta dos casos de neuroses passageiras ou duráveis, mas que não se multiplicam num ritmo ainda mais frenético. Na verdade, o tempo contabilizado do lazer serve de estrutura para o desenrolar regular de “pequenas neuroses” onde a contração nervosa é relaxada.

Como os trabalhos de Kinsey mostraram, a conquista da função sexual varia enormemente de um indivíduo a um outro, em função de sua classe social entre outras. Podemos portanto hoje, como disse Reich ontem, falar de miséria sexual. Mas a existência de mecanismos capazes de compensar vastamente os efeitos dessa miséria (do automóvel à competição esportiva ou eleitoral) demonstra também que o “instinto sexual biológico”, enquanto fator de evolução, possui apenas um pequeno lugar no desenvolvimento das sociedades contemporâneas, ao passo que seu papel na vida dos indivíduos em geral é por fim secundária em relação ao papel do dinheiro (ou do diploma). Que uma crítica da ordem existente evidencia a miséria sexual é algo certamente desejável. Que a reforma sexual entra atualmente nos costumes (graças à tecnologia e à transformação da sociedade global, e não ao fim de uma ação desejada pelos homens), é evidente. Marcada por incontestáveis progressos por alguns de seus aspectos, ela não constitui menos uma adaptação necessária às condições novas, um fator de integração – e não de perturbação – a relações sexuais que submetem cada um a forças que lhe são exteriores e o geram sem que possa mesmo pensar em viver diferentemente do que nos esboços contáveis.

Hoje mais do que ontem, é no plano da produção que as transformações essenciais acontecem: a fragmentação constante das funções ou se preferirmos, a divisão sempre mais acentuada do trabalho e das atividades humanas. Agora, o progresso da produção em geral é sujeito a um certo ritmo. É suficiente notar, para não entrar numa discussão inútil, que toda a história do capitalismo apresenta uma sucessão de períodos orgânicos, onde a expansão da produção engendra uma certa harmonia entre as classes, e de períodos críticos, onde a estagnação encadeia tensões mais ou menos explosivas.

A época atual conjuga de certa forma essas duas personagens: a expansão se manteve por um longo período mas ao preço de um desperdício organizado (e não mais anárquico) de trabalho humano. A sociedade em operação constantemente oculta fatores de tensão, incluindo a miséria sexual – um estado, por definição, individualizado e portanto antissocial. Mas essas tensões suscitam também lutas sociais, não apenas aquelas dos povos condenados às misérias do atraso econômico, mas de formas de lutas relativamente novas, ainda embrionárias e confusas, como a greve selvagem por exemplo, onde os explorados afrontam todas as forças da repressão, lançam as bases de uma mentalidade diferente, uma conduta autônoma e um comportamento igualitário.

O poder dessa sociedade – a mais rica que a terra nunca teve, para trazer o que disse Paul Cardan –, seu poder é tão grande que as lutas selvagens continuam esporádicas, efêmeras e privadas de objetivos gerais. Que elas se multipliquem, com o progresso da estagnação, e assim o contexto tem risco de mudar, e a consciência do objetivo de aparecer[23]. E se isso espera por indivíduos para pensá-lo e dizê-lo, eles terão na Crise sexuelle, com seus excessos visíveis bem como suas verdades duráveis, um assunto para refletir: isso não é tão frequente, ao fim das contas.


[1] N.T.: Informações e correspondências operárias.

[2] A tradução francesa apareceu em 1934 na Éditions Sociales Internacionales [N.T.: Edições Sociais Internacionais] (vinculada ao PC). Nessa edição, o texto de Reich é posto entre um prefácio do seu tradutor e uma refutação marxista-leninista de um certo Sapir, vítima no mesmo momento dos expurgos stalinistas.

[3] N.T.: Crítica da reforma sexual burguesa.

[4] Traduzido na edição especial “Sexualité et répression” [Sexualidade e repressão] da Partisans [Apoiadores], outubro/novembro, 1966.

[5] N.T.: A sexualidade na luta cultural.

[6] Ver por exemplo: Henri Chambre, o Marxisme en Union soviétique [O marxismo na União Soviética], Paris, 1955, p. 84.

[7] The Sexual Revolution [A revolução sexual], New York, 1964 pp. 206-207.

[8] The Mass Psychology of Fascism [A psicologia de massas do fascismo], New York, 1946 (1ª edição alemã, 1933). É encontrado um ensaio de interpretação da vitória dos nazistas na única obra de Reich traduzida em francês após a Crise sexuelle: la Fonction de l’orgasme, Paris, 1952, pp. 190-99.

[9] Manifesto da Sexpol, 1936, tradução Partisans, p. 47.

[10] The Masspsychology of Fascism, pp. 57-62.

[11] Was ist Klassenbewusstsein? [O que é a consciência de classe?] (publicado sob o pseudônimo de Ernst Parell, Copenhague, 1934), p. 10.

[12] Ibid., página 44.

[13] Ibid., página 45.

[14] “Pour Wilhelm Reich” [Para Wilhelm Reich], Partisans, p. 101.

[15] Was ist Klassenbewusstsein?, página 56.

[16] Em Living Marxism [Marxismo vivo], set. 1939, p. 248. Rühle também queria dar ao marxismo uma dimensão psicológica e foi procurá-la em Alfred Adler. Essa fonte de inspiração enfraqueceu ao invés de fortalecer a expressão do seu pensamento. Mas enquanto havia algo de real a ser dito, Rühle deixava de lado sua panóplia adleriana.

[17] Listen, Little Man! [Escute, homenzinho!], New York, 1965.

[18] La fonction de l’orgasme [A função do orgasmo], p. 285 e seguintes. O vocabulário de Reich é recheado de expressões como a biogênese, bioenergia, energia biopsíquica, energia vegetativa, carga bioelétrica, etc. Porém, suas descrições são na verdade perfeitamente arbitrárias pois se assentam não sobre medidas verificáveis, mas sobre impressões fáceis de sugerir a qualquer sujeito. Exemplo: “O crescimento da carga bioelétrica se produz apenas se o prazer biológico é acompanhado de uma sensação de corrente”, ibid., página 291.

[19] W. Reich, Selected Writings [Textos escolhidos], New York, 1961, p. 11 e pp. 187-227.

[20] Wilhelm Reich, Selected Writings, pp. 500-502. Retiramos desse livro impressionante as passagens relativas às descobertas de Reich.

[21] O estudo mais rico de ideias (ainda que contestáveis) sobre essa questão é de S. Chatel, Hiérarchie et gestion collective [Hierarquia e gestão coletiva], na Socialisme ou Barbarie [Socialismo ou Barbárie], números 37 e 38.

[22] Percebe-se que não achamos necessário retomar esse conceito que os freudianos radicais se recusam a empregar para descrever as sociedades desenvolvidas. Notemos todavia que um dos mais eminentes entre eles, Herbert Marcuse, liga a imagem do pai à da “empresa individual e familiar”, restringindo assim o campo de aplicação original do conceito, que Freud por sua parte dotava de uma validade universal (ver “Le vieillissement de la psychanalise” [O envelhecimento da psicanálise], Partisans, op. cit., p. 14). Na verdade, o pai-imagem, enquanto fator tranquilizante e/ou angustiante, ainda continua de certa forma o atributo das diversas instâncias que tomaram o lugar da célula familiar.

[23] Encontram-se considerações interessantes sobre isso na edição da ICO consagrada aos conselhos operários na Alemanha (nº 47), pp. 17-22.

Traduzido por Breno Teles. A tradução do texto de Bricianer seguiu a versão original em francês disponível em: https://archivesautonomies.org/spip.php?article2039.

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