A Dialética de Marx – Paul Mattick Jr.

A dialética de Marx[1] – Paul Mattick Jr.

Respondendo, no posfácio da segunda edição de O Capital, à acusação de hegelianismo feita a ele pelos críticos de sua publicação, Marx insistiu que seu “método dialético é, em seus fundamentos, não apenas diferente do hegeliano, mas exatamente oposto a ele”. Ao mesmo tempo, ele se declarou “discípulo daquele grande pensador”, reconhecendo que ele tinha “coqueteado, aqui e ali no capítulo sobre a teoria do valor, com o modo de expressão que lhe é peculiar” (Marx, 1976, p. 102-3). É evidente que essa flerte verbal não pode ser a medida da discência de Marx. Para começar, seus escritos iniciais são amplamente dominados por uma luta determinada com o idealismo hegeliano. E, mais do que isso, seu engajamento no projeto de uma crítica da economia política em 1857 envolveu uma segunda fase de atenção a Hegel, com uma nova apreciação do “grande pensador”.

As observações em uma carta a Engels de 16 de janeiro de 1858 são bem conhecidas:

No método de tratamento o fato de que, por mero acidente, olhei novamente através da Lógica de Hegel tem sido de grande serviço para mim (…) Se um dia houver tempo para tal trabalho novamente, eu gostaria muito de tornar acessível à inteligência humana comum, em duas ou três folhas de impressora, o que é racional no método que Hegel descobriu, mas que está ao mesmo tempo envolto em misticismo. (Marx & Engels, 1975, p. 121)

O serviço prestado pela leitura de Marx da Lógica é evidente no rascunho de sua crítica da economia política, agora geralmente referido como os Grundrisse, notavelmente no capítulo sobre dinheiro[2]. Que essa influência tenha durado, pelo menos em alguma medida à escrita de O Capital pode ser vista na seção correspondente desse livro, a análise do dinheiro como forma-valor no primeiro capítulo do Livro 1, onde o flerte verbal com as categorias hegelianas é, como Marx disse, claro. Além disso, seu recurso a Hegel para inspiração no tratamento da transformação do dinheiro em capital é óbvio nos Grundrisse e deve ser inferido a partir da existência de notas feitas sobre a “Doutrina do Ser” de Hegel entre 1860 e 1863, ou seja, no período entre a publicação da Contribuição para a Crítica da Economia Política e a do primeiro livro d’O Capital[3] .

No entanto, permanece a questão de qual significado deve ser dado a isso. A redescoberta dos Grundrisse levou a uma enxurrada de interpretações da obra de Marx como um uso materialista da lógica dialética de Hegel, exemplificada pela declaração de Hans-Jürgen Krahl: “O conceito básico da crítica marxista da economia política, a forma-mercadoria do produto em sua validade geral para a formação social capitalista, não pode ser explicado sem a dialética da Essência e Aparência de Hegel” (Krahl, 1970, p. 113-45). O livro de Roman Rosdolsky, Gênese e Estrutura de O capital de Karl Marx, da mesma forma alegou que os Grundrisse, uma chave para o entendimento de O Capital, foram uma “grande alusão” à Lógica de Hegel, de modo que “os críticos acadêmicos de Marx não serão mais capazes de escrever sem ter estudado primeiro seu método e sua relação com Hegel” (Rosdolsky, 1977, p. xiii).

O pensamento de que o domínio da Lógica de Hegel é, como Lênin foi um dos primeiros a declarar, um sine qua non para a compreensão de O Capital é alarmante, dadas as obscuridades do trabalho do primeiro. Pode até ser visto como em desacordo com a própria concepção de Hegel de dialética “não [como] uma forma externa, mas a alma e o conceito do conteúdo”, pois “só pode ser a natureza do conteúdo em si que espontaneamente se desenvolve em uma forma científica de saber” (Hegel, 1892, p. 378; 1969, p. 27) — uma opinião certamente compartilhada por Marx, embora com um significado um tanto diferente. Mesmo que a análise de Marx sobre o capital tenha, como ele sugere, a forma de uma inversão da dialética hegeliana, seus meios e métodos deveriam ser descobríveis nessa própria análise. No entanto, é de interesse examinar a concepção de Marx da dialética em O Capital, de olho tanto na questão do ideegeschichtliche [histórico da ideia]do uso da lógica hegeliana por Marx quanto para um esclarecimento do procedimento metodológico de Marx por si só.

Comentando no posfácio sobre a crítica de seu livro como excessivamente “dialético-alemão”, Marx distinguiu o “modo de apresentação” do material teórico do “modo de investigação”. “Este último tem que se apropriar do material em detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear sua conexão interna. Somente depois deste trabalho ter sido feito, o movimento real pode ser exposto adequadamente”. É o sucesso desta apresentação, explica ele, que tem dado aos leitores a impressão de “uma construção a priori” à moda hegeliana, enquanto na verdade o método empregado é “exatamente oposto” a tal procedimento (Marx, 1976, p. 102)[4]. Nos Grundrisse Marx já havia se mostrado ciente desse problema, observando (no capítulo sobre dinheiro) que “Será necessário mais tarde (…) corrigir a forma idealista da apresentação, o que faz parecer que era apenas uma questão de determinações conceituais e da dialética desses conceitos” (Marx, 1973, p. 151)[5]. Podemos perguntar tanto o que estava em jogo para Marx na diferenciação de seu método do método de Hegel, e se não se demonstraria, como os proponentes de um Marx neo-hegeliano diriam, que a confusão dos dois não era tão fácil de se evitar, devido à estrutura lógica adequada às categorias do valor.

No posfácio, Marx destacou a resenha d’O Capital de I. I. Kaufmann por sua representação precisa do método dialético. Esta representação tem dois aspectos principais. Primeiro, Marx procurou construir uma teoria social sobre o modelo das ciências naturais, entendida como a tentativa de descobrir as leis que regem algum domínio de fenômenos com base na investigação empírica. Tanto na ciência social como na ciência natural, os fatos que devem servir de material para generalização teórica devem ser determinados pelo pesquisador, independentemente (no domínio anterior) das concepções que as pessoas estudaram tiverem sobre suas circunstâncias sociais. Seja qual for o caráter que as pessoas imaginam que sua vida social tenha: “As únicas coisas importantes para esta investigação são que os fatos sejam investigados da forma mais precisa possível, e que eles realmente formem diferentes aspectos do desenvolvimento em relação uns aos outros.” Em segundo lugar, os objetos no domínio específico do conhecimento investigado – a sociedade – são diferentes daqueles estudados pela física e pela química, mas são como os objetos investigados pela biologia por serem caracterizados por leis de sua evolução “de uma forma para outra, de uma série de conexões para uma conexão diferente”. Ou seja, não existem leis gerais da vida social; “Pelo contrário, na opinião [de Marx], cada período histórico possui suas próprias leis” (Marx, 1976, p. 100-101).

É esse segundo aspecto de sua teoria que Marx identifica como seu aspecto especificamente dialético. O primeiro constitui o núcleo da “inversão” necessária para transformar a dialética do que ele chama de “forma mistificada” que ela tem nas mãos de Hegel para a forma racional em que “considera toda forma [de sociedade] historicamente desenvolvida como estando em um estado fluido, em movimento e, portanto, apreende também seu aspecto transitório” (Marx, 1976, p. 103). A dialética, isto é, é identificada não com uma lógica de construção teórica, mas com a ideia do caráter essencialmente histórico das formações sociais e, assim, (em sua “forma racional”) com o princípio da inexistência de leis trans-históricas da realidade social.

Marx reafirmou esse princípio em novembro de 1877 em correspondência com outro estudante russo de sua obra, Mikhailovski, que havia questionado o que ele considerava uma teoria geral da história que exigia a passagem de todos os sistemas sociais por uma série de estágios necessários. Pelo contrário, respondeu Marx, foi apenas o seu crítico que

deve absolutamente transformar meu esboço da gênese do capitalismo na Europa Ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha geral, fatalmente imposta a todos os povos, [para o socialismo]. (…) Mas eu peço desculpas por ele. Isso é para mim, ao mesmo tempo, uma grande honra e uma grande vergonha. (Marx 1968, p. 1555)

É claro que se pode chegar a conclusões mais ou menos gerais, escreveu Marx, comparando os resultados de estudos detalhados de diferentes áreas e épocas. Mas uma compreensão científica dos fenômenos sociais nunca será alcançada “com a chave mestra de uma teoria histórico-filosófica cuja virtude suprema consiste em ser supra-histórica” (Ibid.)[6].

A rejeição de tal “teoria histórico-filosófica” estava no cerne da crítica juvenil do hegelianismo – como representada pela obra do próprio mestre e pela (aos olhos de Marx) crítica inadequada dessa obra pelos Jovens Hegelianos – que culminou na colaboração de Marx com Engels na redação de A Ideologia Alemã. Onde termina a especulação, Marx escreveu aqui,

onde começa a vida real, consequentemente começa a ciência real, positiva, a exposição da atividade prática, do processo prático de desenvolvimento das pessoas. Acabam as frases sobre a consciência e o saber real tem que tomar seu lugar. Quando a realidade é descrita, a filosofia como uma busca independente perde seu meio de existência. Em seu lugar pode, quando muito, surgir um resumo dos resultados mais gerais que é possível abstrair da consideração do desenvolvimento histórico. Essas abstrações em si mesmas, divorciadas da história real, não têm valor algum. Eles só podem servir para facilitar a organização do material histórico. (Marx & Engels, 1976, p. 37)[7]

Isso, é claro, dá à escolha de abstrações uma importância fundamental; em uma passagem que prefigura as observações sobre os dois métodos (de investigação e apresentação) no posfácio, Marx descreve a dificuldade de compreender a história como começo “quando alguém começa a examinar e organizar o material – seja de uma época passada ou do presente – e sua apresentação real” (Ibid.).

É essa dificuldade que encontramos Marx enfrentando diretamente quando, em 1857-1858, ele começou a trabalhar na crítica da economia política. Resumindo sua crítica à suposição dos economistas sobre a existência de leis gerais de produção, Marx insiste que, embora “haja características que todas as etapas de produção têm em comum e que são estabelecidas como gerais pela mente (…) as chamadas pré-condições gerais de toda a produção são nada mais do que esses momentos abstratos com os quais nenhuma etapa histórica da produção pode ser apreendida” (Marx, 1973, 88). Na ausência de uma teoria geral da vida social, como o estudo científico de uma formação social particular pode formular seu aparato conceitual básico? Tais “premissas”, explicou Marx em A Ideologia Alemã, devem ser descobertas por meio do “estudo do processo de vida real e da atividade dos indivíduos de cada época” (Marx & Engels, 1976, p. 36).

O “estudo do processo de vida real”, escreve Marx na Introdução aos Grundrisse, pode parecer começar necessariamente com a consideração de uma dada população, o sujeito da atividade econômica. Mas isso está errado, porque “população é uma abstração se eu deixar de fora, por exemplo, as classes que a compõem. Essas classes, por sua vez, são uma frase vazia se eu não estiver familiarizado com os elementos nos quais elas se baseiam, por exemplo, trabalho assalariado, capital, etc. Estes últimos, por sua vez, pressupõem a troca, a divisão de trabalho, os preços, etc.”. Ou seja, o conceito população, na medida em que se aplica indiferentemente a todas as populações identificáveis, não serve para identificar o caráter particular de uma população específica. Para tanto, é necessário adicionar especificações (na terminologia de Marx, “outras determinações”) a esse alto nível de abstração, até que a análise desengate as “determinações mais simples” da existência dessa população, ou seja, aquelas sobre as quais uma teoria explicativa das características específicas de sua ordem social pode ser construída (Marx, 1973, p. 100).

Essas especificações são abstrações em si mesmas, é claro. “Por exemplo, a categoria econômica mais simples, digamos, por exemplo, o valor de troca, pressupõe a população, além disso, uma população produzindo em relações específicas. (…) Ela nunca pode existir a não ser como uma relação abstrata e unilateral dentro de um todo concreto já dado” (Marx 1973, p. 101). Sua simplicidade não é ontológica, mas teórica: Ou seja, é simples em relação ao projeto explicativo particular em que executa uma função, na medida em que é utilizada (a categoria econômica mais simples) para identificar o sistema de relações sociais em investigação. Assim, Marx elogia Hegel por começar sua Filosofia do Direito com o conceito de posse, pois, embora “não haja posse precedendo as relações de família ou senhor-escravo”, este conceito denomina a relação jurídica mais simples (Marx, 1973, p. 102).

Podemos isolar dois aspectos dessa concepção da construção da teoria que correspondem aos métodos de investigação e apresentação discutidos no posfácio d’O Capital. Primeiramente, as abstrações “simples” ou elementares são descobertas por meio da análise, com base na observação do domínio em estudo. A própria “observação”, é claro, denota uma operação complexa, que faz uso dos conceitos disponibilizados por um discurso existente (neste caso, aquele da economia política) – conceitos que, na visão de Marx, devem ser repensados criticamente em termos de sua relação, como produtos dessa relação, com o período histórico específico a cuja descrição eles devem ser aplicados[8]. Ao segundo método corresponde a posterior construção de um sistema teórico a partir dos conceitos elementares. A base para esta construção é a relação sistemática entre os conceitos elementares descobertos no processo de análise (“Por exemplo, o capital não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, o dinheiro, o preço, etc.”) (Marx, 1973, p. 100).

Há nesta concepção metodológica um eco da Doutrina do Ser na Lógica de Hegel? A população, embora possa parecer designar um objeto concreto da análise econômica, é, diz Marx, na realidade um termo muito abstrato, uma vez que se aplica a todas as populações em todos os territórios sob todas as condições histórico-sociais. Se ela deve ser usada para fins explicativos, ela deve ser relacionada a determinações mais específicas. Da mesma forma, “Ser”, segundo Hegel, parece o conceito mais “imediato” e simples para a descrição da realidade porque se aplica a tudo; mas por isso mesmo é inadequado para tal descrição. É uma abstração vazia: o “ser, o indeterminado, é de fato nada, e nem mais nem menos que nada” (Hegel, 1969, p. 82). Para adquirir conteúdo conceitual, as coisas descritas como seres devem ser distinguidas de outras coisas por algumas características, tornando-se assim “seres determinados”. Da mesma forma, a concepção de Hegel de que o progresso posterior da lógica envolve a demonstração da interconexão sistemática das categorias elementares do pensamento é comparada à “jornada de retorno” de Marx das “determinações mais simples” para uma “rica totalidade” sintetizada “de muitas determinações e relações” (Marx, 1973, p. 100).

Por mais surpreendente que seja esse paralelo, o que Hegel e Marx têm em comum aqui é apenas a ideia de que o conceito mais abstrato empregado em uma área de investigação requer especificação analítica para ser aplicado de maneira útil na análise de objetos específicos. Embora a Lógica estivesse, sem dúvida, na mente de Marx quando escreveu sua Introdução (que de qualquer forma ele omitiu como não essencial quando publicou os resultados de seu trabalho), seu texto emprega não uma Lógica do Ser ou até mesmo uma Lógica dos Conceitos, mas uma imagem da análise teórica e uma síntese de dados empíricos.

Marx demonstra que um conhecimento de Hegel não é necessário para esta prática teórica observando que o método correto de investigação foi de fato “o caminho originalmente seguido pela economia na época de suas origens”. Os fundadores da economia política no século XVII “sempre começam como todo vivo, com a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.; mas eles sempre concluem descobrindo, por meio da análise, um pequeno número de relações gerais determinantes e abstratas, como a divisão de trabalho, o dinheiro, o valor, etc.” (Marx, 1973, p. 100)[9]. Ao contrário da população, essas abstrações identificam traços fundamentais do sistema social particular – o capitalismo inicial – com o qual os economistas estavam preocupados em analisar (embora eles erroneamente acreditassem que estavam descobrindo universais sócio-históricos). Posteriormente, o princípio da síntese foi exemplificado pelos “sistemas econômicos” que seguiram esses primórdios e “que ascenderam das relações simples ao nível do Estado, da troca entre as nações e o mercado mundial” (Marx, 1973, p. 100-101).

Além disso, Marx se esforça para enfatizar que em cada ponto do processo de análise empírica e síntese subsequente, lida-se com “um produto da elaboração da observação e da concepção em conceitos”, isto é, com “um produto de uma cabeça pensante, que se apropria do mundo da única maneira que pode”. Um filósofo como Hegel, para quem (como resultado de sua posição na divisão do trabalho) “o mundo conceitual como tal é a única realidade”, e para quem “o movimento das categorias aparece como o ato real de produção”, pode cair na ilusão de confundir o sistema de categorias resultante “como um produto do conceito que pensa e gera a si mesmo” (Marx, 1973, p. 101)[10]. Era essa ilusão que Marx desejava afastar corrigindo “a maneira idealista de apresentação”.

Embora Marx fale da realidade “concreta” que é o objeto de análise como “a concentração de muitas determinações”, essas determinações são elas mesmas categorias, qualquer uma das quais “nunca pode existir senão como uma relação abstrata e unilateral dentro de um todo vivo, concreto, já dado”. A “totalidade concreta” alcançada através da síntese teórica seguindo o processo de análise “é uma totalidade de pensamentos, concretos no pensamento, na verdade um produto do pensar e do compreender” (Ibid.)[11].  Aqui, o emprego de um modo hegeliano de falar causa confusão. O uso de “abstrato” e “concreto” como termos para a análise de teorias é inequívoco apenas para um sistema como o de Hegel, em que ambos os termos se referem a elementos cognitivos, uma vez que a síntese de um “concreto” cognitivo de conceitos (relativamente) “abstratos“ é tratada como, em última análise, idêntica à estrutura em evolução do mundo natural e social. É porque como “concepções” as abstrações não são aspectos da realidade, mas aspectos da apropriação conceitual da realidade que, segundo Marx, não se pode dizer que os conceitos têm vida própria, exibi-los em ação também no processo da história ou no arranjo de categorias em uma construção teórica. Não se pode dizer que a apresentação das categorias segue uma “lógica imanente”, mas ela deve ser entendida como regida pelo esforço de dar conta das características fundamentais do sistema social sob investigação.

Devemos então perguntar, entretanto, quais princípios, senão aqueles de uma derivação dialética putativa, guiam a sequência de categorias na construção da teoria marxista. Na tentativa de responder a essa pergunta, podemos ao mesmo tempo lançar luz sobre por que Marx achou as categorias da Lógica um modo de discurso tão adequado para decifrar a natureza do dinheiro pela elaboração da forma-valor. Existem duas questões centrais a serem discutidas. A primeira é a da escolha de conceitos elementares como ponto de partida; a segunda é a do método pelo qual a estrutura conceitual do valor da mercadoria é revelada.

O ponto de partida é determinado pelo caráter da empreitada: como Marx o explicou em uma carta a Lassalle de 22 de fevereiro de 1858, uma “crítica das categorias econômicas ou, se você preferir, o sistema da economia burguesa criticamente apresentado. É uma apresentação do sistema e, simultaneamente, por meio dessa apresentação, uma crítica a ele” (Marx & Engels, 1975, p. 125). O Capital é, portanto, ao mesmo tempo uma tentativa de “revelar a lei econômica do movimento da sociedade moderna” (Marx, 1976, p. 92) e, como o subtítulo nos lembra, uma “crítica da economia política”. Como Marx a concebeu, sua empreitada constituiu em uma resposta a uma condição histórica específica. Os fundadores da economia política, como vimos, primeiro elaboraram as categorias elementares; essas foram então empregadas na construção dos sistemas teóricos. Mas a economia “só pode permanecer uma ciência enquanto a luta de classes permanecer latente ou se manifestar apenas em fenômenos isolados e esporádicos”. O desenvolvimento dessa luta depois de 1830 “soou a sentença de morte da economia burguesa científica”; doravante, o progresso científico só poderia assumir a forma da crítica dessa ciência (Marx, 1976, p. 96-97).

Ao designar seus escritos sobre economia com a palavra Kritik, Marx continuou o uso da palavra por Kant para denotar uma investigação sobre os limites da aplicação de um conjunto de conceitos em certas esferas de investigação. A questão dos limites surge quando a aplicação de um conjunto de conceitos em alguma área leva a problemas insolúveis por meio desse sistema[12]. Uma crítica neste sentido corresponde ao que Hegel chamou de Aufhebung (traduzido irremediavelmente, mas tradicionalmente, como “supercessão” ou “sublação”). Aufheben tem um duplo significado, como explica Hegel: “(1) limpar ou anular (…); (2) manter ou preservar” (Hegel, 1892, p. 180, §96). No que diz respeito à crítica de um sistema (ou teoria) conceitual, a ideia de Aufhebung envolve um novo sistema que substitui o anterior, mas o “preserva” ao mesmo tempo, no sentido de que explica tanto os fenômenos que formaram o assunto da teoria anterior como suas limitações.

Mas há mais coisas em jogo na obra de Marx do que uma relação entre duas teorias, mesmo quando o que se está em questão é do tipo agora comumente descrito como uma revolução científica. Uma vez que, na concepção de Marx, as teorias devem ser entendidas como representações da experiência socialmente regulada, a crítica teórica ecoa aqui a observação de Hegel de que a consciência dialética não está “peculiarmente confinada ao filósofo”, de modo que “seria mais correto dizer que a dialética dá expressão a uma lei que é sentida em todos os outros graus da consciência e na experiência geral” (Hegel, 1892, p. 149-50, §81). Nisso, a formulação da dialética de Hegel vai muito além da de Kant. Marx representa um desenvolvimento mais aprofundado, e distinto, da ideia, uma vez que considera a sua Aufhebung teórica, a crítica da economia política, como resposta não a alguma necessidade inerente localizada na inadequação da estrutura conceitual da economia clássica, mas como exigida e possibilitada pela experiência da tendência à crise do capitalismo e do movimento dos trabalhadores respondendo a ela. Foi a experiência dos limites do capital que sugeriu os limites da economia política.

A teoria de Marx da sociedade capitalista não deve ser uma substituta para a economia política. Ela tem como objetivo não apenas demonstrar os limites analíticos da teoria econômica, mas também explicar o domínio dessa teoria sobre os habitantes do sistema. Assim, o capítulo de abertura de O Capital termina com uma discussão, sob o título de “o fetichismo das mercadorias”, da forma como a forma-dinheiro obscurece o funcionamento do sistema, ocultando “o caráter social do trabalho privado e as relações sociais entre os trabalhadores individuais” (Marx, 1976, p. 168-69). A discussão da “Fórmula Trinitária” na conclusão do livro 3 visa demonstrar como não apenas a “economia vulgar”, mas até mesmo os “melhores representantes” da teoria clássica, ao aceitarem como categorias fundamentais para a análise social as representações das relações sociais desenvolvidas dentro do próprio sistema, inevitavelmente “caíram mais ou menos em inconsistências, meias verdades e contradições não resolvidas” (Marx, 1982, p. 969).

Em sua Contribuição à Crítica da Economia Política, de 1859, os primeiros frutos publicados dos trabalhos realizados nos Grundrisse, Marx descreveu a crise na teoria econômica na época como a seguir:

Uma vez que a determinação do valor de troca pelo tempo de trabalho foi formulada e exposta da maneira mais clara por Ricardo, que deu à economia política clássica sua forma final, é bastante natural que os argumentos levantados pelos economistas sejam principalmente direcionados contra ele.

Segue-se uma lista dos quatro pontos aos quais as discordâncias dos economistas pós-ricardianos podem ser reduzidas:

Um […] dado o tempo de trabalho como medida intrínseca de valor, como os salários devem ser determinados com base nisso?…
Dois […] como a produção com base no valor de troca determinado unicamente pelo tempo de trabalho leva ao resultado de que o valor de troca da mão-de-obra é menor do que o valor de troca do seu produto?…
Três […] O valor de troca de mercadorias é […] determinado não pelo tempo de trabalho contido neles, mas pela relação da demanda e da oferta. Na verdade, essa estranha conclusão só levanta a questão de como, com base no valor de troca, um preço de mercado diferente desse valor de troca surge…
Quatro […] como surge o valor de troca das forças naturais? (Marx, 1973, p. 61-63)

Um fato marcante sobre esta lista de problemas é que ela contém um resumo das principais questões às quais a economia política clássica se dirigira: uma explicação da distribuição do produto social entre as três grandes classes de trabalhadores, capitalistas e proprietários de terra, possibilitada por uma explicação do sistema de preços de mercado como regulador da produção social.

Assim, as dificuldades teóricas que produziram a “desintegração da escola ricardiana” e exigiram uma “revolução científica” (Marx, 1972, p. 8; Marx & Engels, 1975, p. 196-97) estão no cerne da própria teoria clássica e, de fato (como Marx iria demonstrar), no próprio conceito de trabalho usado para definir o conceito básico de valor. A crítica de Marx – sua “revolução científica” – envolveu, portanto, não apenas uma reformulação das categorias econômicas, mas a construção de outro conjunto de conceitos, explicitamente sociais e históricos. Como Engels explicou a ruptura efetuada na teoria da sociedade capitalista pela crítica da economia política, esse campo

começa com as mercadorias, começa a partir do momento em que os produtos são trocados uns pelos outros. […] O produto […] é, no entanto, uma mercadoria apenas porque uma relação entre duas pessoas ou comunidades se liga à coisa, ao produto. (Engels, 1970, 226)

O ponto de partida da crítica de Marx, portanto, deve ser a categoria mais elementar com respeito à sociedade capitalista como teorizada pela teoria clássica: a mercadoria. Sua conclusão será a substituição dessa categoria como fundamental por aquela da relação de classe entre trabalhadores e capitalistas.

Daí as frases de abertura d’O Capital: “A riqueza das sociedades em que predomina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’; a mercadoria individual aparece como sua forma elementar” (Marx, 1976, p. 125). A palavra “aparece” (erscheint) é o primeiro ponto em que nós podemos, se desejarmos, detectar a influência da Lógica de Hegel no livro de Marx, porque no uso de Hegel, o “aparece” indica uma distinção entre o fenômeno visível e essência subjacente (veja Hegel, 1892, p. 239, §131s). Aqui, ela aponta o lugar em que a crítica de Marx transformará a teoria clássica, ao demonstrar a inadequação do conceito de “mercadoria” para a análise do capitalismo como um modo de acumulação de riqueza.

Portanto, Marx começa com a análise da mercadoria. Ele deixa claro que o que está sendo analisado é a mercadoria conforme teorizada pela tradição clássica, com notas de rodapé relacionando declarações básicas em seu texto aos escritos clássicos. O resultado desta análise é a descrição da mercadoria como um objeto tanto com valor de uso como valor de troca, “a relação quantitativa […] em que valores de uso de um tipo são trocados por valores de uso de outro tipo” (Marx, 1976, p. 126). A forma do valor de uso, o formato em que deve ser reconhecida, é a mesma que a da mercadoria como um tipo da coisa própria; para que o valor de troca seja conhecível ele deve também ter alguma “forma de aparência”. Como sempre, a “aparência” indica que o valor de troca representa alguma propriedade mais fundamental de uma mercadoria, seu valor. Na seção 3, desse primeiro capítulo, Marx considera o valor de troca como a forma do valor em detalhes. É aqui que seu flerte com o vocabulário hegeliano é mais visível, onde Marx deseja “traçar o desenvolvimento da expressão do valor contida na relação de valor das mercadorias desde seu contorno mais simples, quase imperceptível, até a deslumbrante forma-dinheiro” (Marx, 1976, p. 139). Aqui, mais que em qualquer outro lugar, nós encontraremos uma lógica dialética. Vamos olhar, portanto, para o modo deste desenvolvimento.

A dialética que Hegel busca seguir no argumento da Lógica pode ser descrita (com todas as distorções de concisão) como segue: uma categoria, encontrada originalmente em jogo na língua popular, é apresentada como necessária para a descrição ou realidade, mas também se considera que ela leva a uma caracterização incoerente, ou “contraditória”, da realidade. Isto proporciona a demonstração da indispensabilidade de uma categoria adicional, que possibilita a resolução da contradição descoberta na aplicação da categoria anterior. A cadeia de categorias construída dessa forma deve demonstrar (para citar o lúcido comentário de Charles Taylor) “que nossos conceitos categoriais, como normalmente os entendemos, não relacionados por necessidade radical, são de alguma forma contraditórios; e que essa contradição só pode ser resolvida (ou, de fato, reconciliada) vendo-as como ligadas em uma estrutura racional” (Taylor, 1975, p. 227). De fato, como Taylor, entre outros estudantes de Hegel, apontou, a sequência real de conceitos na Lógica de Hegel não segue rigorosamente este esquema e as transições de uma categoria para a próxima frequentemente também não se mostram convincentemente necessárias. Mesmo nos melhores casos, deve-se dizer, a necessidade, em oposição à plausibilidade ou caráter iluminador, da transição entre categorias na dialética hegeliana – e, portanto, de ser uma lógica – não foi feita convincentemente. Hegel, de qualquer forma, simplesmente afirma isso. No entanto, o padrão dessa “lógica dialética” parece o modelo para a análise de Marx da forma-valor em O Capital.

Assim, ele inicia a seção 3 do primeiro capítulo com os resultados como demonstrado (na seção 1) que as mercadorias têm uma dupla natureza, tanto como valores de uso quanto valores de troca, de modo que elas só podem “aparecer como mercadorias […] na medida em que possuem uma forma dupla, ou seja, forma natural e forma-valor”. A forma de valor exigida é conhecida por todos no dinheiro, o que representa os valores das mercadorias em contraste com “as variadas formas naturais de seus valores de uso”. O valor, uma propriedade de todas as mercadorias, é representado apenas na forma de uma mercadoria particular, a mercadoria dinheiro[13]. Mas como isso é possível? Como o dinheiro representa o valor das mercadorias? A Seção 2 demonstrou que, como valores, as mercadorias são expressões de uma “substância social”, o trabalho abstrato, de modo que seu caráter de valor das mercadorias “é, portanto, puramente social. Disso, segue evidentemente que ele só pode aparecer na relação social entre mercadoria e mercadoria”, ou seja, em valor de troca. Isso produz a seguinte contradição aparente: O valor, uma propriedade de mercadorias, é visível apenas na relação entre mercadorias. O valor, ou seja, parece ser ao mesmo tempo uma propriedade relacional e individual. É resolvendo essa contradição que Marx tenta explicar a forma do valor, do dinheiro, com base na categoria de valor de troca (Marx, 1976, p. 138-39).

Como o valor de uma mercadoria é representado? Em consonância com sua prescrição metodológica, Marx começa com “a relação de valor mais simples”, a de uma mercadoria para com outra de um tipo diferente. Básico para essa relação como a expressão mais simples do valor de uma única mercadoria é a diferença entre os papéis desempenhados pelas duas mercadorias envolvidas. Se y quantidade de mercadoria B é o valor de troca de x quantidade de mercadoria A, então, a forma natural de A representa seu valor de uso, e B representa o valor de A: y é o que, em termos de B, x quantidade de A vale. A equação de A e B como intercambiáveis representa seu caráter como valores em oposição ao seu caráter como valores de uso, com relação aos quais elas são diferentes e não podem ser substituíveis[14]. Mas o caráter de valor de cada uma é, portanto, visível apenas no corpo do valor de uso da outra.

A análise dos economistas clássicos do valor como trabalho explica por que as mercadorias têm valor, mas não explica por que devemos descobrir o que é esse valor no ato da troca. Mas, uma vez que percebemos que este ato, como uma equação de duas mercadorias, é, assim, uma equação dos tipos de trabalho que produziram as mercadorias, podemos entender por que o caráter geral de serem produtos do trabalho encontra representação na trocabilidade. “É apenas a expressão da equivalência entre diferentes tipos de mercadorias que traz à vista o caráter especial do trabalho criador de valor, reduzindo de fato os diferentes tipos de trabalho incorporados nos diferentes tipos de mercadoria à sua qualidade comum de ser trabalho humano em geral (Marx, 1976, p. 139-42). (Isso resulta da conclusão de Marx na seção 2 de que “apenas os produtos de atos de trabalho mutuamente independentes, realizados isoladamente, podem confrontar-se uns aos outros como mercadorias” (Marx, 1976, p. 132). Sob tais condições de produção não há representação do trabalho social na abstração dos tipos particulares que o compõem fora da troca).

Isto é: o valor pode ser expresso apenas na relação entre duas coisas diferentes igualadas pelo ato de troca; em sua relação de valor com B, A “significa mais do que significa sem B, assim como alguns homens contam mais quando dentro de um uniforme com alamares dourados do que fora dele” (Marx, 1976, p. 143). A analogia não é apenas um golpe de sagacidade. Como o uso dos alamares de ouro para significar autoridade, o uso da troca de mercadorias para significar o caráter social do trabalho é uma instituição social-histórica, não um fato da natureza. Isso é demonstrado, segundo Marx, pelo fato de que a troca de mercadorias não poderia ser totalmente compreendida, mesmo por um teórico tão brilhante quanto Aristóteles, até o advento de uma forma de sociedade na qual uma concepção geralmente aceita de igualdade humana tornou possível a ideia de igualar todas as formas de trabalho — uma concepção que se tornou “possível apenas em uma sociedade onde a forma-mercadoria é a forma universal do produto do trabalho, portanto, a relação social dominante é a relação entre os homens como possuidores de mercadorias”. Assim, “é apenas uma época historicamente específica de desenvolvimento [social], que apresenta o trabalho despendido na produção de um artigo útil como propriedade ‘objetiva’ desse artigo, isto é, como seu valor” (Marx, 1976, p. 152-54).

Até agora, o que Marx afirma ter demonstrado é que sob certas condições históricas — as do capitalismo, de fato —, o trabalho despendido em unidades individuais de produção é transformado em trabalho social (apenas) quando os produtos dessas unidades são trocados, de modo que o caráter social do trabalho despendido na produção de qualquer mercadoria é representado (apenas) por sua trocabilidade e a quantidade desse trabalho social é representada (apenas) pela quantidade de bens pelos quais ela pode ser trocada. No vocabulário da economia, o valor é representado (apenas) pelo valor de troca. Marx afirma, além disso, que ter explicado isto é já ter, em princípio, explicado o enigma do dinheiro. Ele introduz sua justificativa desta afirmação por um conjunto de frases das mais hegelianas:

Percebemos imediatamente a insuficiência da forma simples do valor: é uma forma embrionária que deve sofrer uma série de metamorfoses antes de amadurecer na forma-preço [na qual o valor é representado por uma quantidade de dinheiro]. (Marx 1976, 154)

Aqui temos uma das metáforas favoritas de Hegel para o desenvolvimento conceitual, aquela do crescimento orgânico e, mais fundamentalmente, a sugestão de que é a “insuficiência” da forma simples que requer o aparecimento da forma-preço — do dinheiro. Mas a aparência da “lógica dialética” aqui é enganosa. A insuficiência da forma simples não é lógica, mas prática e material: não bastaria como modo de representação de valor em um sistema no qual todos os bens são concebidos como produtos de trabalho (social) homogêneo. Para que isso seja realizado, o valor deve ser representado na forma de uma mercadoria à qual todas as outras mercadorias podem ser simultaneamente igualadas pela troca.

Como Marx diz alguns parágrafos mais tarde, “a forma simples do valor passa automaticamente para uma forma mais completa” (Marx, 1976, p. 154). Embora essa retórica (“passa”) também derive de Hegel, Marx novamente tem algo muito simples em mente. Dado que o valor de uma mercadoria é representado na forma de outra, a forma natural dessa outra mercadoria não importa. O que importa é que alguma mercadoria desempenhe esse papel em relação a todas as outras, pois só assim o valor enquanto tal, em oposição ao valor de uma ou outra mercadoria particular, pode ser representado. A forma-valor não é, isto é, uma forma que o “valor assume” (como a aparência da essência em Hegel), mas uma forma na qual as pessoas representam algo, o caráter social de seu trabalho. O argumento depende não de uma suposta lógica de contradição e resolução, mas da exposição gradual dos requisitos (práticos) de uma prática social.

Para colocar nos termos dos dois métodos de Marx, a análise do dinheiro começa pelo isolamento conceitual da forma elementar da relação entre uma mercadoria e uma soma de dinheiro, a saber, a de uma relação de troca entre mercadorias. Em combinação com a outra concepção básica de que a troca funciona em uma economia capitalista como um meio para a socialização do trabalho privado, a necessidade de uma forma, baseada na relação de troca, para a representação do valor como uma propriedade compartilhada por todas as mercadorias (como contribuições para o produto social) é demonstrada. Desta forma, Marx explica o fato de que o valor da mercadoria é representável (em termos hegelianos, “aparece”) apenas na forma do equivalente em dinheiro.

É verdade que o vocabulário da Lógica está presente em todo este argumento em formas que não discuti aqui; assim, grande parte da discussão na seção 3 lembra a dialética da quantidade e da medida, que vincula a Doutrina do Ser à Doutrina da Essência. Mas aqui também a aparência de “uma construção a priori” devido ao modo de expressão é desmentida pela própria questão do argumento. Assim, por exemplo, a importante contenção de que “as magnitudes de coisas diferentes só se tornam comparáveis em termos quantitativos quando foram reduzidas à mesma unidade” (Marx, 1976, p. 141) não é em suas origens uma “inversão materialista” do tratamento de Hegel da quantidade, mas deriva diretamente da discussão de Sismondi sobre o valor no Études sur l’économie politique estudada e extraída por Marx em seus estudos preparatórios para os Grundrisse (Schrader, 1980, p. 128). Em suma, não há razão para não aceitarmos, como sugere Fred Schrader, a própria explicação de Marx do lugar da lógica de Hegel em sua obra dos Grundrisse em diante: “Não há recepção portentosa de Hegel, nenhum Espírito do Mundo desmascarado como O Capital, e nenhuma necessidade de decodificar uma identidade entre os movimentos do Ser e do Valor.” Há sim a utilização pragmática do modo de Hegel de expressar a interconexão sistemática de categorias “para trazer proposições da teoria do dinheiro, já elaboradas para todos os fundamentos” com base nas ideias de Storch e Sismondi, “em uma inter-relação sistemática” (Schrader, 1980, p. 136).

Isso ainda nos deixa com as questões de por que Marx achou o modo de expressão hegeliano tão agradável e o que, finalmente, poderia significar falar de uma dialética marxista.

Os Grundrisse, como Schrader demonstrou, fornece uma chave para a resposta à primeira dessas perguntas. É importante lembrar que Marx empreendeu sua investigação crítica da economia política não com o objetivo de elaborar uma lógica das categorias econômicas, mas por um desejo de compreender a natureza da tendência à crise da economia capitalista (sua “lei do movimento”). Isso o levou, através da literatura sobre dinheiro e o sistema bancário, a um confronto ao mesmo tempo com a teorização econômica burguesa e com as tentativas proudhonianas (e os socialistas utópicos ingleses) de elaborar uma política monetária socialista que revolucionaria as relações de produção e distribuição “por meio de uma mudança no instrumento de circulação, na organização da circulação”. Em oposição a tais visões, Marx argumentou que nenhuma forma de dinheiro “é capaz de superar as contradições inerentes à relação do dinheiro” e que tais projetos podem “apenas esperar reproduzir essas contradições de uma ou outra forma” (Marx, 1973, p. 122 – 23). Assim, foi em primeiro lugar uma questão política concreta que levou Marx a se concentrar nas questões: “O sistema de troca burguês não precisa ele mesmo de um instrumento específico de troca? Isso não cria necessariamente um equivalente específico para todos os valores?” (Marx, 1973, p. 127).

Isso Marx argumenta demonstrando que, em um sistema de mercado de mercadorias, o tempo de trabalho social não pode ser representado diretamente, mas apenas na forma do valor de troca, especificamente na forma-preço, de modo que qualquer tentativa de representar o trabalho abstrato, por exemplo, por “vales-tempo”, só resultaria na criação de uma nova forma de dinheiro. No curso do desenvolvimento desta demonstração, Marx chega de repente à compreensão que fornece a chave para sua teoria do dinheiro: “Porque o tempo de trabalho como medida de valor existe apenas idealmente, ele não pode servir como material para comparações de preços. (Aqui, ao mesmo tempo fica claro como e por que a relação de valor obtém uma existência material separada em dinheiro. Isso a ser desenvolvido ainda mais)” (Marx, 1973, p. 140)[15]. A compreensão do valor como uma ideia abstrata, que Marx havia descoberto em Sismondi, e a do dinheiro como um “termo comum de comparação” entre todas as mercadorias, que ele encontrou no Corns d’économie politique de Storch (Schrader, 1980, p. 126). A própria visão de Marx foi a ideia de que a relação abstrata entre as mercadorias como produtos do trabalho social tinha de ser representada por algo distinto das próprias mercadorias. O dinheiro como forma-valor fornece, assim, um meio para a representação do tempo de trabalho abstrato. É a encarnação material de uma ideia: “Tal símbolo pressupõe o reconhecimento geral; ele só pode ser um símbolo social; ele expressa, de fato, nada mais do que uma relação social” (Marx, 1973, p. 142).

Essa ideia surgiu, de fato, como uma representação das relações sociais que constituem o capitalismo como sistema. Embora “os indivíduos sejam agora governados por abstrações”, essas abstrações, ou ideias, “não são nada mais do que a[s] expressão[ões] teórica[s] dessas relações materiais que são seu senhor e mestre” (Marx, 1973, p. 164). Essas relações devem, em última análise – no progresso da teoria em O Capital (como antes nos Grundrisse) – ser descritas em termos da relação entre os controladores dos meios de produção e aqueles que não têm nada além de sua capacidade de trabalhar. Para dizer de forma grosseira, o trabalho só pode ser socializado como trabalho produtor de mercadorias quando a capacidade de trabalho se tornou também uma mercadoria. Para que o produto do trabalho tenha o caráter de valor representado por sua trocabilidade com o dinheiro, esse trabalho deve ser trabalho assalariado. Posto de outra maneira, o trabalho assalariado e o capital não são apenas tipos de mercadoria, mas os tipos fundamentais, cuja existência por si só torna possível a existência de um sistema social regido pelas relações de valor (ver Marx, 1973, p. 224-25).

A revelação dessa verdade é o resultado final da crítica de Marx da economia política. Essa crítica tem como objetivo demonstrar como as categorias da teoria econômica representam uma sistematização das representações das relações sociais definitivas da sociedade capitalista na linguagem cotidiana e no pensamento. Essas representações são tomadas como descrições logicamente definitivas de estruturas e forças – “a economia” – regulando a experiência social apenas porque, no capitalismo, as relações sociais de produção não têm outra forma de representação senão as de valor-mercadoria e dinheiro. Como Marx explicou isso na seção de conclusão do primeiro capítulo de O Capital:

O cérebro do produtor privado reflete [o] duplo caráter social de seu trabalho [como concreto e abstrato] apenas nas formas que aparecem no intercâmbio prático, na troca de produtos […] O caráter de valor dos produtos do trabalho torna-se estabelecido firmemente somente quando eles atuam como grandezas do valor. Essas grandezas variam continuamente, independentemente da vontade, do conhecimento prévio e das ações dos que efetuam a troca.

Assim, embora apenas formas de pensamento, as categorias da economia burguesa são “socialmente válidas e, portanto, objetivas” (Marx, 1976, p. 166-69). Elas têm, isto é, o caráter de um sistema autônomo, mesmo que “a característica que os objetos da utilidade têm de serem valores seja tanto produto social dos homens quanto a sua língua” (Marx, 1976, p. 167).

Por esta razão, se pode compreender como a lógica dialética de Hegel forneceu a Marx uma retórica irresistivelmente atraente para retratar o sistema de categorias econômicas que estruturam a ação social na sociedade capitalista. A ilusão de Hegel de que seus conceitos geraram eles mesmos o movimento de seu tratamento sistemático da cognição espelha a ilusão da humanidade no capitalismo de que as relações sociais, que são seu próprio produto histórico, têm uma vida própria inelutável[16]. Ao mesmo tempo, embora não uma lógica estritamente falando, o sistema hegeliano incluiu um relato altamente sofisticado da construção teórica, em particular nas ciências sociais, enfatizando a interconexão das categorias teóricas.

Mas a característica fundamental do ponto de vista hegeliano pela qual Marx o considerou “um poderoso pensador” era a ideia da dialética como realizada na história social, como o princípio (como Marx expressou no Posfácio de O Capital) segundo a qual “toda forma historicamente desenvolvida” deve ser concebida como estando em um estado fluido, em movimento e, consequentemente, como “transitória”. A expressão de Hegel desta ideia representou certamente uma “mistificação”, devido, como Marx explicou dentro d’A Ideologia Alemã, à tendência dos intelectuais (Marx está pensando na tradição que começou com o Iluminismo e que assumiu novas formas com os filósofos alemães da primeira metade do século XIX) de ver as ideias, o material de sua profissão, como as determinantes da história. É demasiadamente fácil então para alguém como Hegel “trazer ordem para esta régua de ideias, provar uma conexão mística entre as sucessivas ideias que governam [em períodos históricos diferentes], o que é alcançado considerando-as como ‘formas de autodeterminação do conceito’ (isto é possível porque, em virtude de sua base empírica, essas ideias estão conectadas realmente umas às outras e porque, concebidas como meras ideias, elas se transformam em autodistinções, distinções realizadas pelo pensamento)” (Marx & Engels, 1976, p. 62).

Em contrapartida, a dialética marxista não é nem uma teoria da história nem um “método especial” de construção teórica, mas o princípio da crítica da ideologia. Esta crítica é não primeiramente lógica, mas antropológica e histórica, no sentido de que ela busca demonstrar que as insuficiências da teoria econômica para a compreensão da realidade capitalista devem-se à sua prática de tomar as formas das interações sociais – na realidade o produto da história humana – como estruturas inevitáveis. Em consequência, “algo que é válido somente para essa forma particular de produção, […] a saber, o fato de que o caráter social específico dos trabalhados privados realizados independentemente um do outro consiste em sua igualdade como trabalho humano e, no produto, assume a forma da existência do valor, aparece àqueles envolvidos nas relações da produção de mercadorias […] como tão definitivamente válido quanto o fato que a decomposição científica do ar em seus componentes deixou a atmosfera mesma inalterada em sua configuração física” (Marx, 1976, p. 167)[17]. A crítica dessa visão é uma tentativa, consequentemente, de não expor o “autodesenvolvimento dos conceitos”, mas de explicar o desenvolvimento dos conceitos pelos “indivíduos reais” (como Marx coloca n’A Ideologia Alemã) cuja atividade constitui a história da sociedade.

Referências Bibliográficas

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[1] Tradução do artigo Marx’s Dialectic, de Paul Mattick Jr., publicado originalmente em Fred Moseley (ed.), Marx’s Method in Capital. Atlantic Highlands, New Jersey, Humanities Press, 1993 (artigo disponível online em: https://libcom.org/library/marxs-dialectic-paul-mattick-jr.

[2] Para uma discussão detalhada das categorias hegelianas nos Grundrisse, ver Schrader (1980, p. 113-45).

[3] Ver O’Malley &Schrader (1977.)

[4] Cf. A crítica de Marx da tentativa de Lassalle de uma hegelianização da economia política: “Ele aprenderá a seu custo que trazer uma ciência pela crítica ao ponto em que ela possa ser apresentada dialeticamente é uma coisa completamente diferente de aplicar um sistema de lógica abstrato pronto a meros indícios de tal sistema”. Marx a Engels, 1º de fevereiro de 1858, em Marx & Engels (1975), p. 123.

[5] Como John Mepham observou, o tratamento do dinheiro em O Capital é bem diferente daquele nos Grundrisse, em que Marx realmente empreende “uma discussão minuciosamente hegeliana da ‘transição do valor para o dinheiro’”— uma discussão substituída no trabalho posterior pela análise do que Marx chamou de “relações reais” da sociedade (ver Mepham, 1979, p. 161).

[6] Para uma discussão mais aprofundada da negação de Marx de que ele tinha uma teoria da história, no contexto de sua rejeição da possibilidade de uma teoria geral da sociedade como um todo, ver Mattick Jr. 1986a, cap. 6.

[7] A tradução foi corrigida. Cf. Marx & Engels, 1962, p. 27.

[8] Portanto, ele escreveu nas “Notas sobre Wagner” em 1980 que em O Capital “eu não parto de ‘conceitos’, portanto, não parto do ‘conceito de valor’”, mas da “forma social mais simples em que o produto-trabalho se apresenta na sociedade contemporânea”, a mercadoria. Consequentemente, ele insiste que seu “método analítico […] não tem nada em comum com o método acadêmico alemão de conectar conceitos” (Marx 1975, p. 198 e 201).

[9] Algumas páginas antes, encontramos produção, distribuição, troca e consumo descritos como formando “um silogismo regular” como exemplos da tríade generalidade, particularidade e singularidade da Doutrina da Essência na Lógica. “É admitidamente uma coerência”, diz Marx – “mas superficial” (Marx 1973, 89). O mesmo modelo é seguido no arranjo do material em um dos planos para a análise do capital esboçado nos Grundrisse (Marx, 1973, p. 275), apenas para ser retirado de uma discussão posterior.

[10] Marx não negou, é claro, que os fenômenos conceituados pelas categorias mais simples podem “ter uma existência histórica ou natural independente e anterior” às mais complexas. Assim, o dinheiro, básico para o sistema capitalista de produção, existia antes que o capital surgisse. Mas não é geralmente o caso de que “o caminho do pensamento abstrato, passando do simples ao combinado, [corresponde] ao processo histórico real”. Assim, a prioridade explicativa de conceitos relativos à análise de um ou outro sistema social específico não reflete nem explica a sequência histórica das instituições sociais, mas é inteiramente uma função da natureza do sistema específico em investigação (ver Marx, 1973, p. 102).

[11] Compare a descrição de Hegel do progresso da noção de avanço dialético como “determinada a partir de determinações simples, as determinações sucessivas tornando-se cada vez mais ricas e mais concretas” (Hegel, 1969, p. 840).

[12] Veja a interessante discussão em Witt-Hansen, 1960, p. 9.

[13] Cf. Carta de Marx à Engels de 2 de abril de 1858: “A partir da contradição entre o caráter geral do valor e sua existência material em uma mercadoria particular, etc. […] surge a categoria do dinheiro” (Marx & Engels, 1975, p. 127).

[14] Isto significa que não posso usar valor de uso x pra fazer o que valor de uso y faz. [Nota da Tradutora]

[15] Tradução corrigida. Veja a discussão em Schrader (1980, p. 113).

[16]  Realmente foi sugerido certamente por Herbert Schnädelbach, em um ensaio muito interessante, que “a própria forma hegeliana de lógica não é como um sistema independente da visão do mundo em que a burguesia imagina suas próprias relações sociais” (Schnädelbach, 1970, p. 59).

[17] Uma discussão adicional deste princípio conduziria à concepção de Marx da relação entre o que se chamou “de fundamento material” e “de superestrutura ideológica” da realidade social; veja Mattick, Jr. (1986b), especialmente o cap. 5.

Traduzido por Jane Helen. Revisado por Thiago Papageorgiou.