
A Agressão Contra a Venezuela e a Política Estratégica de Dominação dos EUA
O ataque dos EUA à Venezuela chamou a atenção do Brasil e do mundo, tornando-se o grande destaque da mídia nacional e internacional neste início de janeiro. A operação durou poucas horas, culminando na captura do ditador Maduro, que supostamente será julgado nos EUA devido aos crimes dos quais está sendo acusado pelo governo estadunidense.
Como é comum no debate político brasileiro, a ação dividiu a opinião pública em dois polos: os que condenam a iniciativa, alegando que sua realização significou um ataque à soberania nacional do país, e os que estão aplaudindo, afirmando que a queda do ditador é uma grande vitória para o povo venezuelano. Porém, para além de defesas e condenações, é fundamental entender o que está por detrás dessa agressão e como podemos inseri-la em um contexto mais amplo.
Da parte dos que estão criticando e condenando, a premissa central é unânime: os EUA estão interessados no petróleo venezuelano e, diante da resistência de Maduro em cedê-lo, tomaram a iniciativa de realizar uma ação mais incisiva para dominar a commodity. O próprio Trump deixou isso claro após o ataque, afirmando que os EUA e suas companhias petrolíferas irão coordenar a exploração de petróleo na Venezuela[1]. Todavia, é preciso entendermos como essa ânsia por petróleo está vinculada às pretensões gerais dos EUA em busca da manutenção de sua hegemonia.
A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, à frente de países como Arábia Saudita e Irã. Dessa forma, tem um potencial imenso de exploração petrolífera, não sendo por acaso o fato de esse setor compor a maior parte do percentual do PIB venezuelano — representando cerca de 12,3% desse PIB —, quando comparado individualmente com outros setores[2].
No entanto, é importante destacar que a maior parte das reservas de petróleo do país é extrapesada, tornando o seu refino muito mais difícil, principalmente considerando o baixo nível tecnológico do país para realizar esse processo. Porém, no caso dos EUA, suas companhias petrolíferas são totalmente capazes de refiná-lo, tornando a reserva venezuelana uma grande mina de ouro para os estadunidenses.
Até 2019, a maior parte do petróleo venezuelano era exportada para os EUA, mas isso mudou devido às sanções aplicadas pelo próprio governo norte-americano. Assim, a Venezuela redirecionou grande parte do seu petróleo para a Ásia, especialmente para a China, que, em 2023, absorveu cerca de 68% das exportações venezuelanas do produto, tornando-se o maior importador do setor[3]. Em troca, os chineses concedem bilhões em empréstimos para a Venezuela pagar suas dívidas.
Assim, os EUA perderam espaço comercial nesse setor para o seu maior rival na divisão internacional do trabalho. Porém, essa redução de influência estadunidense e a ampliação da presença chinesa não são um processo que se dá apenas na Venezuela, mas também em outros países da América Latina, incluindo o próprio Brasil. Portanto, esse processo ameaça diretamente o poder que os EUA exercem historicamente na região, direcionando relevantes fatias de mercado para os chineses.
Dessa maneira, a pretensão dominatória em relação à Venezuela é a expressão particular de um contexto maior: a sua disputa contra a China pela hegemonia do capitalismo global. A maior prova disso é que, no início de dezembro, o governo Trump lançou um documento de 33 páginas[4], onde, entre outros aspectos, reforça a ideia de “América em primeiro lugar” e resgata explicitamente a Doutrina Monroe, que foi elaborada no século 19.
A Doutrina Monroe foi criada com o objetivo de não permitir a interferência da colonização europeia no continente americano, baseando-se na máxima “América para os americanos”. Essa política foi fundamental para a expansão imperialista dos EUA sobre o continente, consolidando seu domínio na região. O seu resgate deixa clara a intenção essencial dos EUA: controlar não apenas o petróleo venezuelano, mas toda a América Latina, afastando a influência chinesa. Portanto, a invasão na Venezuela foi apenas o processo inicial de uma política exterior mais ampla que pode atingir outros países latino-americanos.
Nesse sentido, o mundo está, fundamentalmente, diante de uma escalada imperialista dos EUA no continente, devido à ameaça representada pela China. Para entendermos melhor isso, é preciso elucidar no que consiste o atual estágio do desenvolvimento capitalista, que podemos denominar de regime de acumulação integral. Não é do nosso interesse discutir profundamente esse tema, o que é feito na obra O Capitalismo na Era da Acumulação Integral, de Nildo Viana[5]. O que é importante destacar, nesse momento, é que esse regime de acumulação tem como uma de suas características centrais a intensa exploração do trabalho, tanto nos países imperialistas quanto nos subordinados.
Esse processo é realizado, em nível internacional, pelo neoimperialismo, que extrai riquezas de países subordinados por meio da extração do mais-valor absoluto, via ampliação da extensão do trabalho realizado, e do mais-valor relativo, via intensificação da produtividade por meio do uso de tecnologias. Dessa forma, o capital transnacional de países como os EUA se infiltra em países subordinados para subjugá-los, com o auxílio de órgãos internacionais como o FMI.
No caso específico da Venezuela, os EUA buscam dominar todas as fases da produção de petróleo, desde a extração do petróleo bruto até o seu refinamento, dando protagonismo às suas companhias petrolíferas para garantir essa dinâmica. Nesse sentido, o interesse não é apenas pelo petróleo enquanto commodity, mas também pelos processos industriais associados a ele. Assim, ao passo que têm como objetivo superexplorar os trabalhadores venezuelanos no interior do país, também intencionam enviar remessas de lucro para o território norte-americano, em uma verdadeira drenagem parasitária das riquezas produzidas na Venezuela.
De maneira mais abrangente, os EUA têm focado na abertura comercial de diversos países da América Latina, buscando firmar e reforçar parcerias para ampliar o seu poder de influência, bem como obter vantagens econômicas e geopolíticas. Os movimentos do governo norte-americano em relação ao Brasil e à Argentina são um exemplo disso. Afinal, o diálogo de Trump com Lula não foi por amizade ou simpatia, mas para fortalecer laços comerciais e políticos em favor dos interesses norte-americanos, que, quando contrariados, desembocaram nas famosas taxações e outras ameaças contra o Brasil. Inclusive, além do interesse no petróleo brasileiro, o presidente dos EUA também já deixou claro seu desejo pelas terras raras do país[6].
Nesse processo que tenta retomar o poder de influência dos EUA na América Latina, os EUA almejam diversas vantagens, como: barateamento do preço do combustível para a população estadunidense, aumento da exportação de bens tecnológicos para países aliados, ampliação da importação de insumos estratégicos para disputar contra a China, expansão da lucratividade para apresentar bons índices econômicos e melhorar a aprovação do governo Trump, reforçando no imaginário estadunidense a posição dos EUA como uma “grande potência”, entre outros aspectos.
Como supracitado, isso é possibilitado tanto pela exploração do trabalho extensivo, a partir da superexploração da mão de obra — sobretudo contra trabalhadores mais vulneráveis de países pobres, como a própria Venezuela —, quanto pela exploração do trabalho intensivo, por meio da utilização tecnológica das empresas estadunidenses para ampliar a produtividade nos territórios do seu domínio, subsequentemente enviando as riquezas produzidas às suas matrizes. Essa dinâmica garante a acumulação integral e aprofunda o caráter selvagem do capital.
A ação realizada pelos EUA é inédita na América Latina, que até então era considerada um território de paz por conta da falta de intervenções diretas. Porém, com a ação na Venezuela, o governo estadunidense demonstrou-se disposto a utilizar o seu aparato militar para atingir seus objetivos. Paralelamente, Trump afirma que permanecerá no país até uma “transição apropriada”[7], o que, na prática, significa colocar no poder alguém que opere como marionete dos seus interesses.
Nesse contexto, a agressão ao território venezuelano e a captura de Maduro, que resistiu profundamente aos interesses dos EUA, fazem parte de um conjunto interligado promovido pelo governo Trump, que tenta sobrepor o crescimento da China na América Latina e assegurar a hegemonia estadunidense. Por isso, por um lado, não podemos cair na superficialidade de achar que a questão diz respeito apenas ao petróleo e, por outro, seria ingenuidade nos iludirmos quanto a possíveis melhorias na Venezuela após a queda do ditador.
A classe trabalhadora venezuelana necessita caminhar no itinerário da transformação social radical, superando tanto a tradição nacionalista iniciada por Chávez e continuada por Maduro quanto a força imperialista dos EUA, que nada mais é do que uma nova forma de dominação. Isso também é válido para os demais países latino-americanos, pois, com esta ação, precedentes imprevisíveis foram abertos, tornando os países do continente seriamente ameaçados pela escalada violenta estadunidense, sob a direção do trumpismo. Não há meio termo: as amarras da dominação e da exploração devem ser rompidas por completo.
[1] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/trump-fala-sobre-operacao-de-captura-de-nicolas-maduro.ghtml
[2] Disponível em: https://pt.tradingeconomics.com/venezuela/gdp-growth-annual
[3] Disponível em: https://atarde.com.br/politica/petroleo-china-e-poder-o-que-levou-trump-a-agir-na-venezuela-1374633
[4] Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/governo-trump-lanca-nova-estrategia-nacional-que-revive-doutrina-monroe-na-america-latina/
[5] VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2009.
[6] Disponível em: https://diariodocomercio.com.br/mix/trump-age-na-surdina-e-eua-podem-capturar-o-maior-tesouro-natural-do-brasil/
[7] Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/03/trump-pronunciamento-prisao-de-maduro.htm
Outros artigos sobre o tema podem ser consultados abaixo:
Posicionamentos recentes sobre a invasão (03/01/26)
- Não é apenas pelo petróleo – 10 teses sobre a Venezuela (Gabriel Teles)
- Venezuela: não ser idiotas úteis das oligarquias (de esquerda) (Rafael Uzcátegui)
- Outros Idiomas
- El castillo de naipes del progresismo. La caída de Maduro y la impotencia del pequeño capital
- Just ‘Cause (Alerta Comunista)
- La caída de Maduro (Panfletos Subversivos)
- Venezuela: A Laranja Ataca Novamente (Konflikt)
- Venezuela and the new division of the world (Colapso y desvío)
- Venezuela: cayó el tirano (Emancipación)
- Venezuela – Class struggle against imperialism and the myth of national independence (Angry Workers)
- Venezuela y el antimperialismo pendejo (Rafael Uzcátegui)
Análises críticas do “Socialismo” venezuelano
- A Venezuela tem futuro? (Nuevo Curso – Espanha)
- O mito da esquerda cai de maduro – El Mito da la Izquierda se cae de Maduro (La Oveja Negra) [2014]
- Poder Popular e Socialismo do século XXI: Os Modernos trajes da social-democracia (Proletarios Internacionalistas) – Poder popular y socialismo del siglo XXI: Los modernos trajes de la socialdemocracia
- Venezuela: Crise, protestos, conflito político interburguês e ameaça de guerra imperialista – Venezuela 2015: crisis, protestas, pugna política interburguesa y amenaza de guerra imperialista (Proletários Revolucionários) [2015]
Outras Abordagens
- “O madurismo é o chavismo em crise” (Omar Vázquez Heredia) [2019]
- Os acordos e alianças de Maduro para tentar permanecer no poder estatal da Venezuela, em 2025 (Omar Vázquez Heredia)
- Os protestos de trabalhadores mudam a agenda política de Maduro no início de 2023 (Omar Vázquez Heredia)
- Venezuela: Mais estatismo verticalista e pessoalista ou mais democracia e participação? (Edgardo Lander) [2011]
- Venezuela: resumo rápido para os curiosos e os pouco informados (Rafael Uzcátegui) [2014]
- Outros Idiomas
- Rolando Astarita: Venezuela y un argumento de burócratas, Venezuela, agresión imperial colonialista & Venezuela, hambre y progresismo
- Venezuela from Below (Tom Wetzel) [2011]
Faça um comentário