Teoria do Valor – Anton Pannekoek

[Nota do Crítica Desapiedada]: O presente texto insere-se no período social-democrata de Pannekoek, o que explica a presença da discussão sobre a escola do partido, de trabalhadores social-democratas e outras próximas. Para uma análise do desenvolvimento intelectual do autor, consulte: Introdução ao Pensamento de Anton Pannekoek (Nildo Viana).


Publicado em: Zeitungskorrespondenz, Nr. 40, 31. Outubro de 1908.

Teoria do Valor1Artigo publicado originalmente em alemão na Zeitungskorrespondenz, nº40, 31 de outubro de 1908 (pdf em alemão disponível aqui); no pdf que serviu de base para esta tradução há anotações a lápis, cuja origem não é clara, indicadas aqui entre chaves. [N. T.]

O proletariado socialista se gaba de possuir uma lente científica sobre a essência da sociedade que está oculta das classes dominantes e de seus representantes mais eruditos. Porém, toda ciência requer um estudo rigoroso, muito conhecimento prévio e educação de base; ela exige o ser humano inteiro e por isso pode alcançar apenas o especialista como patrimônio real. O leigo que tem outras coisas para fazer e ainda mais o proletário, ao qual falta a educação de base e cujo tempo e força são absorvidas pelo capital no trabalho forçado, não podem ser cientistas; {parece que} o máximo que ele pode fazer é papaguear o que outros lhe dizem.

Esta contradição está nos alicerces do ataque que foi dirigido nos últimos tempos contra os empenhos educacionais no partido e especialmente contra a escola do partido, a qual deseja dar a um pequeno número de defensores e porta-vozes uma compreensão rigorosa da teoria do socialismo. O que as massas devem fazer com a teoria? A teoria só pode ser para os teóricos, para os especialistas, para os intelectuais, os quais trazem consigo, além disso, o conhecimento necessário! Quem, que não conheça sua origem e sua relação com outras teorias, consegue entender uma teoria geral? Mas já que um proletário, muito embora ele gaste metade de um ano na escola do partido, não chega aos estudos de Adam Smith e Tomás de Aquino, é impossível que ele compreenda a crítica da teoria do valor e consiga defendê-la como uma certeza científica que foi conquistada por ele próprio.

Estas objeções se baseiam em uma concepção completamente equivocada que corresponde ao preconceito limitado de uma guilda de intelectuais fechados à vida prática. A sociedade burguesa separou teoria e prática e tornou a manutenção da teoria, do espiritual [geistig]2Sigo aqui a observação de John Paul Gerber em seu livro Anton Pannekoek and the Socialism of Workers’ Self Emancipation 1873-1960 (1989, p. 16) de que, a despeito de mental ser uma tradução melhor para geistig, o próprio Pannekoek traduzia geistig especificamente como spiritual [espiritual] para significar uma “combinação de qualidades subjetivas, mentais, intelectuais, psicológicas e morais”. [N. T.], um ofício especial dos intelectuais. Estes consideram seu departamento espiritual[geistiges]como algo evidente, separado da realidade material. Por um lado, isso traz consigo o fato de que a teoria e a ciência como fim em si mesma operam e perdem completamente de vista o fato de que a teoria sempre deve servir apenas à compreensão da realidade. Por “compreensão teórica” nós entendemos sempre uma compreensão rigorosa da prática. Toda teoria tem, é claro, suas questões específicas difíceis e não resolvidas, que são deixadas para investigação pelos cientistas. No entanto, o objetivo dos estudos teóricos da economia nacional não é poder escrever um tratado acadêmico sobre essas questões específicas, mas sim descobrir o mecanismo da sociedade capitalista, como ele é necessário para a luta de classes.

Por outro lado, especialmente nas áreas das ciências espirituais [geistigen], os estudiosos estão inclinados a conceber o desenvolvimento da ciência como um desenvolvimento espiritual [geistige] puro, único, óbvio. “Heróis da ciência” engenhosos ergueram o edifício da ciência, cada um deles construindo sobre a obra de seu precursor e corrigindo os erros da teoria antiga. Nesta perspectiva, para que se compreenda uma teoria deve parecer necessária, antes de tudo, a compreensão das outras teorias e das teorias precursoras. “O que se entende a partir da teoria marxiana que só a teoria marxiana pode saber?”, pergunta Bernstein. Na realidade, a ciência se baseia em fatos e o conhecimento dos fatos é mais importante para a compreensão de uma teoria do que a familiaridade com outras teorias. Isto é ainda mais verdadeiro porque as teorias econômicas anteriores eram reflexos das condições econômicas de então, as quais eram diferentes das nossas. A partir de sua própria experiência de vida, que lhe marcou abrasadoramente a alma com os fatos da vida econômica, o proletário reconhece a veracidade da teoria econômica.

Agora, esta verdade, de que o proletariado por meio de sua condição de classe está especialmente predisposto à compreensão da teoria do mais-valor e do capital, é reconhecida por todo social-democrata. É por essa razão que os ataques se baseiam acima de tudo {limitadamente} na teoria do valor. Pois a teoria do valor constitui, por um lado, o fundamento de toda a economia marxiana e, por outro, ela aparece como a difícil teoria abstrata mais adequada para dissertações acadêmicas do que para os cérebros proletários. Quem não puder resolver adequadamente as questões muito discutidas sobre qual é o trabalho formador de valor e o que se deve entender por trabalho socialmente necessário continuará verdadeiramente uma pessoa ignorante a quem falta o fundamento do conhecimento rigoroso!

O que chama a atenção em tais comentários é a visão burguesa da teoria do valor. A reposta à pergunta sobre para o que a teoria deveria servir é muito diferente para a burguesia e para o proletariado. À burguesia interessa a questão do por que as mercadorias custam tanto e tanto; o proletariado quer saber de onde vem sua exploração. A burguesia pergunta a respeito dos preços das mercadorias; o proletariado a respeito da organização da sociedade. Porque o objetivo da doutrina do valor para a economia burguesa é sempre a investigação dos preços das mercadorias, ela também interpreta a teoria marxiana desde o início como um teorema de que os preços das mercadorias são determinados imediatamente através do tempo de trabalho. Todos seus protestos giram em torno deste erro fundamental e quando se esclareceu por fim que os preços são, segundo Marx, apenas o resultado final de muitos efeitos complicados com os quais se lida apenas com o aspecto mais importante no terceiro livro, ela se perguntou irritada para que serviria, então, tal teoria.

A economia marxiana quer explicar o edifício da sociedade, a essência da exploração e do mais-valor e deve para isso antes de tudo investigar a essência do valor. Deste modo, a questão não é por que duas mercadorias são trocadas nessa proporção determinada, mas afinal por que elas se permitem trocar uma pela outra, de onde vem, então, sua igualdade qualitativa. Na troca, as mercadorias são iguais uma à outra, quantidades da mesma substância, a substância valor. A essência desse valor é revelada agora como trabalho social. Deste modo, o que chama a atenção não é a ênfase no trabalho – outros economistas também já haviam designado o trabalho como a medida do valor –, mas sim no social.

O significado da teoria marxiana do valor não está nisso, no fato de que ela fornece as normas para a determinação exata dos valores contidos em mercadorias diferentes, mas sim na revelação do valor mesmo como uma relação social. Em uma sociedade produtora de mercadorias, os seres humanos trabalham um para o outro; o que um consome, é por outro produzido. O trabalho é social, mas não aberta, e sim camufladamente; logo, cada produtor trabalha isoladamente por si próprio. Na troca, então, esta relação entre seres humanos emerge como uma relação entre os produtos de seu trabalho; elas são iguais uma a outra enquanto valores e este valor é a expressão da natureza social do trabalho de seres humanos isolados.

Este tema é abordado no primeiro capítulo de O capital. Apenas uma incompreensão a respeito de seu conteúdo pode tomar esta teoria do valor como uma teoria acadêmica abstrata que não é adequada para os cérebros proletários. Precisamente o contrário; a experiência demonstra que os economistas burgueses ainda não foram bem-sucedidos em compreender seu núcleo, ao passo que ela é o fundamento natural dos trabalhadores social-democratas para sua compreensão da sociedade capitalista.

(ap) [Anton Pannekoek]


[1] Artigo publicado originalmente em alemão na Zeitungskorrespondenz, nº40, 31 de outubro de 1908 (pdf em alemão disponível aqui); no pdf que serviu de base para esta tradução há anotações a lápis, cuja origem não é clara, indicadas aqui entre chaves. [N. T.]

[2] Sigo aqui a observação de John Paul Gerber em seu livro Anton Pannekoek and the Socialism of Workers’ Self Emancipation 1873-1960 (1989, p. 16) de que, a despeito de mental ser uma tradução melhor para geistig, o próprio Pannekoek traduzia geistig especificamente como spiritual [espiritual] para significar uma “combinação de qualidades subjetivas, mentais, intelectuais, psicológicas e morais”. [N. T.]

Tradução de Thiago Papageorgiou.

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