Occupy, essa irritante interrupção do “Business as Usual” – Charles Reeve

Occupy, essa irritante interrupção do “Business as Usual”[1] [2]

Já não falam mais tanto deles, a pausa invernal obriga. Mas eles ainda estão aí – como prova, as 68 prisões realizadas pela polícia na noite do dia do ano, quando os participantes do Occupy New York tentaram reocupar o Zuccotti Park. A hibernação não é total, então. O momento certo para retornar às origens, sucessos e fracassos do movimento Occupy nos Estados Unidos.

As revoltas da Primavera Árabe derrubaram governos autocráticos, substituídos ao longo do processo por regimes de democracia parlamentar, nos quais as classes dominantes puderam preservar seu poder – confirmando, mais uma vez, a natureza comum dessas duas formas de governo dos pobres. O movimento dos Indignados propõe uma crítica dos sistemas representativos. E essa crítica é agora retomada e desenvolvida, do outro lado do Atlântico, pelo movimento Occupy. Que essas questões sejam colocadas na sociedade que constitui a pedra angular do sistema capitalista é em si de uma grande importância.

Nos Indignados espanhóis, os debates são centrados, no início, na crítica da democracia representativa, denunciada como imperfeita pela tendência majoritária, como uma isca para as margens mais radicais. Nos Estados Unidos, onde a esfera política é mais percebida como separada da vida social, os Occupiers pouco discutiram sobre o funcionamento do sistema político, visando desde o início um questionamento dos fundamentos desiguais do sistema econômico, identificados como a causa das crescentes injustiças sociais e da destruição do mundo (homem e natureza) em curso. Opondo os 99% aos 1%, eles imediatamente tocaram na falsa igualdade formal que é a base da democracia representativa.

Seu slogan, “Nós somos os 99%“, embora pareça simplista, traduz entretanto uma maior tendência comum às sociedades capitalistas contemporâneas, sejam autocráticas ou democráticas: a crescente desigualdade de rendas, a concentração das riquezas em setores cada vez mais reduzidos da classe capitalista e um empobrecimento generalizado[3]. Esse slogan incisivo é tanto unificador quanto mobilizador. Ele dá ao movimento Occupy uma dinâmica inesperada e modificou em algumas semanas o estado mental geral da sociedade estadunidense.      

A Surpresa do Imprevisto

A emergência do movimento Occupy surpreendeu o mundo. Particularmente na França, onde domina uma visão fixa da sociedade estadunidense que abraçaria de forma unidimensional os valores do capitalismo, visão sem dúvida herdada da ideologia dos anos da Guerra Fria e do peso da esquerda stalinista…

Várias testemunhas mencionam a mesma surpresa, o inesperado que faz Ken Knabb dizer: “Essas últimas seis semanas foram de longe as mais felizes da minha vida! Eu vivi todos os eventos dos anos 1960, mas nada do que aconteceu agora é comparável ao que está acontecendo aqui e agora. A propagação desse movimento foi absolutamente impressionante, isso ultrapassa meus sonhos mais loucos[4]. Da mesma forma, uma amiga nova-iorquina se alegra: “Enfim alguma coisa nova acontece, alguma coisa que se manifesta sob uma forma imprevista, alguma coisa carregada de promessas”.

Retrospectivamente, as potentes mobilizações contra o projeto de lei antioperária em Wisconsin, em fevereiro de 2011, podem ser interpretadas como a redescoberta da ação coletiva[5]. Há décadas, a sociedade norte-americana desliza inevitavelmente para a desestruturação, e tivemos dificuldades em identificar aí a emergência de uma força social de contestação[6]. O movimento Occupy fez essa sombria constatação se estilhaçar.

Me apoiando nas preciosas reflexões de amigos, e depois de fazer uma triagem na massa de informações disponíveis na internet, tentarei compreender aqui esse “imprevisto“, essas “promessas”. A distância, o afastamento do engajamento direto, permite por vezes em relação à crítica delimitar melhor as linhas de força e as tendências de um movimento, desagregar o antigo e o novo, tirar daí um sentido. Naturalmente, com o risco de erro inerente a qualquer exercício de análise de um movimento sempre em desenvolvimento.

Onde estão as reivindicações?

O movimento Occupy nasceu fora da vida política tradicional, dominada pelas discussões entre os dois partidos que compartilham o poder e que são percebidos como criaturas de Wall Street. Essa evidência conforta a ideia amplamente difundida de que as finanças dominam a política. Certamente, a maioria dos manifestantes parece defender a necessidade de um capitalismo regulado e até aceitar a noção de um “benefício justo”, “razoável”. No entanto, essas posições não se concretizam em uma reivindicação reformista endereçada à classe política. Os participantes do Occupy estão na verdade intimamente convencidos de que os políticos e o Estado não querem, ou não podem, aceitar esse pedido.

Assim, a crítica dirigida à administração Obama permanece inicialmente tímida. Mas desde 21 de novembro, em uma reunião em New Hampshire, militantes do Occupy interpelam o presidente sobre a repressão exercida contra o movimento[7]. Dez dias mais tarde, a contestação se torna mais explícita: “Obama é uma marionete do patronato“, lê-se nos cartazes em frente ao hotel de luxo nova-iorquino, onde ele preside um banquete para o financiamento de sua próxima campanha.

Se é verdade que o movimento Tea Party[8] foi rapidamente integrado nas instituições políticas e no seio do Partido Republicano, o projeto de revitalizar o Partido Democrata através da recuperação do movimento Occupy se revela muito mais incerta, posto que suas naturezas são diferentes. Aliás, esse projeto está definitivamente comprometido pela cumplicidade de um certo número de prefeitos democratas (especialmente em Oakland e em Los Angeles) na repressão do movimento.

Desde os primeiros dias da ocupação do Zuccotti Park em Nova Iorque, alguns apelam abertamente para a rejeição do sistema político inteiro: “(…) as elites e seus porta-vozes na imprensa continuam a se perguntar o que nós queremos. Onde está a lista de reivindicações? Por que eles não nos apresentam objetivos precisos? Por que eles não são capazes de expressarem o que eles querem? Para nós, o objetivo é extremamente simples. E pode ser expresso em uma só palavra: a REVOLTA. Nós não viemos aqui para buscar trabalhar no interior do sistema. Nós não demandamos uma reforma eleitoral no Congresso. Nós sabemos que o eleitoralismo é uma farsa. Nós encontramos uma outra forma de sermos ouvidos e de exercer nosso poder. Nós não confiamos nem um pouco no sistema político nem nos dois partidos que compartilham o poder. E nós sabemos que a imprensa capitalista não propagará nossa voz, razão pela qual nós criamos nossa própria imprensa. Nós sabemos que a economia está a serviço dos oligarcas. Nós sabemos que para sobreviver a esse protesto, nós teremos que construir sistemas coletivos não hierarquizados que abrangerão todo mundo.[9]

Assim, a desconfiança do movimento em relação ao sistema político se encontra na ausência de plataforma reivindicativa, fato que preocupa particularmente os “especialistas” da coisa política. E enquanto os manifestantes dizem: “Nós temos milhares de reivindicações“, eles sugerem que eles já têm muito para que esse sistema político os satisfaça.

The Fucking Dangerous Music[10]

Os conflitos sociais são permanentes nos Estados Unidos. Para se convencer disso, a consulta aos sites militantes é suficiente – por exemplo, o da revista da esquerda sindical, Labour Notes[11]. Na maioria dos casos, essas lutas permanecem isoladas, de alcance local, ignoradas em outros lugares e acantonadas aos limites corporativistas. As dimensões do país e a potência do aparelho de propaganda do “1%” relegam toda oposição do bom funcionamento dos negócios a uma marginalidade insignificante. Contudo, pela primeira vez desde a Guerra do Vietnã nos anos 1970 um movimento se generaliza em escala nacional como um rastro de pólvora, atingindo até mesmo os pequenos municípios no interior dos Estados Unidos. O movimento Occupy, dando um sentido global às lutas já existentes e até então fragmentadas, sobre questões de exploração, de habitação, de imigração, decuplicou seu impacto.

A formação de coletividades, animadas pela ideia de que as condições individuais de cada um estão relacionadas com a situação geral, é uma dos sucessos do movimento. Nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro lugar, a pobreza e a exclusão estão imputadas ao fracasso individual: os marginalizados deveriam culpar eles mesmos. O movimento Occupy vai na contra-corrente dessa fatalidade culpabilizante. O sentimento de pertencimento dos 99% engendra a solidariedade, faz nascer valores de orgulho, de dignidade, de responsabilidade coletiva.

O caráter espontâneo, independente e novo do movimento seduziu, desde os primeiros dias, aqueles que estavam fatigados do individualismo, da mediocridade dos valores do mercado: “Em Zuccotti Park, era uma música antiga que ouvíamos (…). A música da dignidade humana, da solidariedade e de individualidades se transformando em uma só. Uma música (…) para um mundo melhor. Em outras palavras, uma puta música perigosa. Uma música que incomoda as elites (…). Elas nunca souberam o que fazer com isso. Desde o triturador de controle oculto à máquina de encarceramento, elas nunca foram capazes de silenciá-la. Pouco importa a quantidade de prisões que elas constroem, de bombas que soltam, de almas que compram ou de rios que envenenam, elas não conseguiram nunca fazer a música do povo desaparecer. O canto da verdade e da luz permanece como uma sentinela esperando o amanhecer.[12]

A composição dos acampamentos do movimento Occupy varia segundo o momento e o local: jovens trabalhadores precarizados e estudantes desclassificados, desempregados, “sem-teto” e outros aleijados da sociedade – os quais participam nas discussões, nas tomadas de decisões e nas ações. Como resumia um slogan em Zuccotti Park, “Eu perdi meu trabalho, eu encontrei uma ocupação![13]. Nas cidades operárias como Oakland, um número importante de trabalhadores, desempregados, precários de todos os tipos, veio reforçar as fileiras de jovens que estavam na origem do movimento. Acontece até mesmo dos acampamentos acabarem por mudar nos imóveis que hospedam os lares de sem-tetos. No momento de sua destruição pela polícia no final de novembro, o mais vasto dos acampamentos, em Los Angeles, contava com milhares de ocupantes, dos quais um terço eram de sem-tetos ou sem domicílio fixo.

A decisão das autoridades de atacar os acampamentos das grandes cidades a partir da metade de novembro, sem dúvidas, não é estranha a essa mudança de sua composição sociológica, que produziu uma radicalização política do movimento. O que resume Ali, um proletário negro de Oakland, na véspera da intervenção da polícia, em 14 de novembro: “Para mim, as mudanças não são uma história de Wall Street, não são uma história de bancos, mas são uma questão social. Tudo o que acontece em Oakland – as mortes, os fechamentos de escolas, as bibliotecas que fecham suas portas, as supressões das vagas de professores, os licenciamentos de trabalhadores do setor público, as demissões técnicas – todas essas coisas cuja cidade devia se ocupar não são feitas. (…) Você sabe, é alguma coisa pequena no momento, se você considera do ponto de vista da cidade de Oakland, não? Mas não é pequeno: nós somos um modelo para o mundo inteiro. E é isso o que acontece.[14]

Contra o Copyright[15] das Lutas Operárias

A capacidade do movimento Occupy em estabelecer ligações com setores operários também ampliou suas perspectivas e modificou sua dinâmica. O exemplo mais esclarecedor é evidentemente o de Oakland. Em 2 de novembro, uma greve geral bloqueava o porto e uma parte do setor bancário durante um dia. Um mês mais tarde, em 12 de dezembro, ao chamado do Occupy Oakland, um novo movimento de greve – em sinal de solidariedade com uma greve local do sindicato dos trabalhadores portuários – afetou todos os portos do lado oeste dos Estados Unidos, de San Diego à Anchorage. É importante, antes de mais nada, não cair na idealização desses acontecimentos. Assim, em 2 de novembro, o porto foi paralisado pela manifestação de rua tanto quanto pela greve, na qual participaram apenas um número limitado de assalariados. Mesmo que delegados do sindicato dos trabalhadores portuários tenham exprimido sua solidariedade, o porto foi fechado pela decisão de sua direção, a fim de desarmar o confronto. A municipalidade, por sua vez, “tolerou” a participação dos trabalhadores na manifestação.

No entanto, essa realidade contrastada não deve diminuir o enorme alcance e as potencialidades de uma tal ação em uma sociedade pouco acostumada com a ação coletiva. “Para a maioria de nós, gerações nos separam de toda experiência diretamente vivida de confronto com o capital nos locais de trabalho, e ainda mais de um acontecimento de grande escala, em nível de uma cidade, decorrentes de ações de trabalhadores. Depois de dezenas de anos, nós sofremos uma campanha de operações psicológicas por parte da sociedade de consumo que nos diz que somos todos da “classe média”. (…) Esses fenômenos nos transformam pouco a pouco em indivíduos atomizados no centro de uma sociedade de mercado, e têm como efeito impedir a emergência de uma hostilidade generalizada, consciente, irreconciliável e coletiva ao encontro de nossos exploradores e de mecanismos políticos e ideológicos de seu poder. (…) O simples fato de ter realizado uma espécie de greve geral em Oakland em novembro de 2011 pode permitir a um público maior, tanto na região quanto nos Estados Unidos inteiro, de tomarem consciência desse tipo de ação.[16]

A ideia de greve dá uma nova orientação ao movimento Occupy, enfraquecido pela repressão policial contra os acampamentos e as ocupações de imóveis; ela traduz em ação a consciência do fato de que os 99% podem bloquear a produção da riqueza que é a base do poder do 1%. Em 12 de dezembro, milhares de manifestantes conseguiram bloquear totalmente os portos de Portland e de Longview, e parcialmente o de Oakland. E em outros lugares, piquetes de greve estavam presentes sobre os cais.

Em Nova York também, a presença de numerosos trabalhadores em Zuccotti Park e o apoio – prudente, é verdade – de sindicatos locais conduziram as ações. Após o dia do bloqueio de Wall Street, os grupos do Occupy Wall Street (OWS) foram reforçar os piquetes em frente às sedes de empresas (Vierzon, Sotheby’s), onde assalariados protestavam contra as medidas de austeridade. Outros, retomando uma forma de ação iniciada em Chicago, instalaram suas tendas nos salões dos grandes bancos, antes de serem expulsos de lá pela polícia. Entre a abundância de iniciativas coletivas originais, citamos igualmente a organização de debates no gabinete de estações de metrô, em 17 de novembro, uma ação conduzida pelos trabalhadores do sindicato dos trabalhadores de transportes públicos. No mesmo dia, sempre em Manhattan, a grande manifestação de protestos contra a expulsão de Zuccotti Park foi calorosamente acolhida pelos transeuntes, e o desfile do OWS terminou por se fundir ao dos sindicalistas sobre a ponte do Brooklyn.

Tanto nos Estados Unidos como na Europa, a cooperação entre os ativistas de novos movimentos e os sindicalistas é muito delicado, para não dizer conflituosa. A iniciativa, a energia e a imaginação criativa estão agora do lado de jovens ativistas, e não dos aparelhos sindicais esclerosados. Estes, por sua própria natureza, não podem ultrapassar a estreita moldura reivindicativa nacional em reação às orientações liberais do capitalismo. As direções burocráticas se protegem desses movimentos, talvez incitem sua criminalização. É o caso na Grécia e em Portugal. Nos Estados Unidos, os líderes sindicais que tiveram dificuldade em mobilizar os trabalhadores adotaram, em um primeiro momento, uma postura de solidariedade oportunista[17], buscando tirar benefício da energia dos movimentos.

Com os desenvolvimentos na costa oeste, suas atitudes mudaram e eles exprimem agora o medo de perder o controle da base “deles”, os trabalhadores mais combativos juntando-se às ações do Occupy. Para o dirigente do sindicato dos trabalhadores portuários, “trazer um apoio aos trabalhadores portuários é uma coisa, já grupos exteriores buscando recuperar nossa luta para salientar seus objetivos, é uma outra coisa![18]. Os ativistas do Occupy respondem: “Nós não recuperamos as lutas operárias, nós fazemos partes da classe operária“. E ainda: “Aqueles que estão no movimento Occupy também são a classe operária, e essas lutas são nossas lutas. Ninguém tem os direitos autorais das lutas operárias“.

O fato é que esses novos movimentos levantam questões que os proletários mais conscientes se colocam, sem encontrar respostas nas organizações burocráticas. Um amigo, operário em uma empresa próxima de Nova York, constata que o movimento Occupy abriu um novo espaço de debate e mudou o estado mental geral nos locais de trabalho. Ele enfatiza também que os operários negros e latinos se sentem mais interpelados pelo OWS, sendo os trabalhadores brancos mais vulneráveis ao fluxo de mentiras das mídias reacionárias, as quais fazem a OWS passar por um bando de drogados e de marginais que não querem trabalhar…[19]

Não há Festa como a Festa do Occupy

É surpreendente ver se generalizar um movimento que reivindica lutas distantes nessa sociedade tradicionalmente fechada nela mesma e vivendo no desconhecimento do mundo exterior. Já no momento das manifestações em Wisconsin, vimos eclodir cartazes relembrando a situação no Egito: “Eu volto do Iraque e me encontro no Egito!“. O movimento OWS reivindicou, desde seus primórdios, as revoltas gregas e dos Indignados espanhóis, donde assumiu o modelo de auto-organização dos acampados, sob formas moduladas pelo sentido prático norte-americano[20]. Em alguns dias, em Nova York e outros lugares, uma organização complexa foi erguida, de cozinhas aos serviços médicos e a famosa biblioteca de rua que inclui milhares de obras. Para compreender o significado real dessa auto-organização, é preciso ter em mente a decadência de uma sociedade onde as bibliotecas são raras, onde os centros de saúde fecham e onde a ajuda mútua é asfixiada pela violência do direito do mais forte. É porque, para além das atividades de auto-organização, os acampamentos se tornaram locais de felizes práticas coletivas de uma vida diferente. E é também porque a destruição pela polícia de Nova York dessa vila e local de debate permanente no coração do monstro urbano, sob as janelas de Wall Street, carrega em marca d’água essa mensagem: tudo o que é perigoso para o sistema não tem o direito de existir. Tanto mais que Occupy destacou um projeto inconciliável com a sociedade capitalista, na qual há uma coletividade não hierarquizada, sem reivindicações e que é regida, ao menos em teoria, por práticas de democracia direta.

No funcionamento dos acampamentos surge inevitavelmente desvios em relação aos princípios reivindicados, como problemas de manipulação, ações e práticas que contradizem o projeto igualitário. A questão do dinheiro é uma das mais complicadas de resolver para essas coletividades. Em uma sociedade onde o dinheiro é rei, a ideia de solidariedade se reduz rápido às doações. Em poucos dias, os acampamentos encontraram “proprietários” de centenas de milhares de dólares que eram necessários serem geridos e gastos fazendo escolhas difíceis – teste crucial da capacidade do movimento para se destacar da vida política estadunidense.

Mini burocracias se constituíram aqui e ali, buscaram manipular as multidões. Segundo um participante nova-iorquino, elas são compostas de “veteranos de movimentos anti-globalização, de militantes de ONG, de “especialistas” autoproclamados em tomadas de decisões, assim como neófitos de todos os gêneros[21]. De fato, toda uma panóplia de organizações, pequenos grupos e seitas aparecem, devido à sua própria natureza, procurando manipular, controlar e dar conselhos e lições para as massas. Totalmente espontâneo em relação a esses grupos, o movimento Occupy parece ter conseguido mantê-los à distância sem contudo rejeitar sua presença.

Na medida em que a ideia de democracia de base é amplamente adotada pelas assembleias, as veleidades burocráticas dos líderes estrategistas lutam para se afirmar. A esse título, o método do “microfone humano” é inovador; ele exprime uma rejeição das técnicas modernas de difusão da palavra, reforça o sentimento de coletividade e permite, sobretudo, limitar a manipulação através do discurso, restringindo a duração das intervenções dos militantes. A consciência da manipulação política é hoje mais difundida, sendo um aspecto da rejeição da política tradicional. Um slogan em Zuccotti Park delimitava o lugar dos vanguardistas: “Nenhum partido parece uma Festa do Occupy!“; dito de outra forma, a direção do movimento está em sua prática. Para retomar um comentário pertinente do participante citado mais acima:

Não se diz que todas as formas de democracia em Zuccotti Park são tão vazias assim. Poderíamos defender que o elemento principal que contribuiu com o alargamento da ocupação não é nem a novidade de um movimento de protestos da esquerda nos Estados Unidos, nem os slogans atraentes dos ativistas do Adbusters[22] e os cartazes bonitos, nem mesmo a determinação com a qual os Occupiers tentam construir um pequeno mundo para eles no parque. Esses diferentes elementos bem poderiam suscitar o cinismo, sobretudo nos nova-iorquinos. De fato, para milhares de pessoas que visitaram o parque, o elemento chave parece ter sido a experiência das próprias assembleias gerais. Podemos dificilmente sobrestimar a importância de uma tal experiência em um contexto em que a maioria das pessoas nunca participaram de uma reunião ao longo da qual alguém as escutou. Por isso o que eles escutam são frequentemente histórias de grandes problemas econômicos (mesmo que sejam mais ou menos difíceis), vividos por todos, mas sistematicamente ocultados nas mídias, podemos afirmar que o que ocorre no parque ultrapassa uma “simples forma”[23].

Um Movimento Criativo e Imaginativo

A imaginação criativa e o humor são forças em um movimento. A primeira permite superar os obstáculos, saltar, ir mais além. A segunda diz respeito à capacidade crítica da comunidade em luta e exprime uma faceta da confiança coletiva. Desde os primeiros dias do movimento, questões antes restritas aos núcleos confidenciais se encontram frequentemente expressos por milhares de manifestantes. Aliás, elas são audíveis para toda uma parte da sociedade – sociedade que parecia no entanto insensível à injustiça social, mergulhada no consenso mais conformista e resignado, glorificando a vitimização dos perdedores.

Quando a polícia nova-iorquina se instala em Zuccotti Park depois de ter destruído o acampamento, milhares de pessoas cercam o parque gritando: “A polícia ocupa o parque! A polícia tem líderes. Quais são as reivindicações da polícia?“. Durante uma passeata – ideia ainda inspirada nos Indignados espanhóis – de Nova York a Washington através dos povoados da América profunda do lado leste, os participantes são frequentemente bem recebidos. Mas às vezes, são intimados a “Ir trabalhar!“; eles respondem então “Nos dê trabalho!” e veem os opositores se distanciarem rapidamente. Outro tipo de ação direta muito eficaz ocorre quando pequenos grupos de manifestantes, disfarçados de “convidados normais”, intervêm em reuniões de clubes de luxo da classe capitalista. Em 3 de novembro, 70 membros do Occupy Chicago[24] assim invadiram um clube da burguesia durante uma intervenção do governador conservador de Wisconsin.

Se novas ideias se tornaram uma das forças do movimento Occupy, também é importante notar que a paixão das ideias é particularmente honrosa no movimento. Essa se manifesta primeiramente na intensidade de debates e de discussões. Mas também na criação de bibliotecas, uma das prioridades da maioria dos acampamentos. Apenas um dia depois que a polícia nova-iorquina jogou no lixo milhares de livros, uma nova biblioteca viu o dia em um banco do Zuccotti Park… Milhares de jovens, que vivem cotidianamente agarrados nas redes sociais e nas novas tecnologias, decidem assim que o livro é um elemento de reflexão e logo de luta, indissociável do desejo de um mundo novo. Uma jovem ocupante de Zuccotti Park relata: “De noite, quando eu volto para minha tenda, antes de dormir, eu pego um livro. E isso é para mim o momento de clareza!“.[25]

A criatividade do movimento Occupy é particularmente rica no domínio das novas tecnologias. Podemos destacar, entre outras, a criação de uma televisão online, Global Revolution[26], e a implementação de sistemas de projeção de slogans em imóveis da cidade de noite. “Nós somos os 1%” foi visível sobre a fachada da prefeitura de Nova York e das sedes de grandes empresas.

A questão da violência é, como na Europa, muito discutida. Para além das divergências políticas, a atitude adotada pela maioria é de não responder à violência policial com violência. Isto foi menos por pacifismo ideológico do que por pragmatismo e inteligência prática, considerando a relação de força existente e o caráter minoritário do movimento. Em Oakland, as discussões serão mais contraditórias e as discordâncias mais determinadas. Durante a greve geral, o Occupy Oakland anunciou sua intenção de mirar as empresas que tenham penalizado os assalariados por terem feito a greve. É assim que as vitrines da rede de lojas orgânicas “Whole Food”, que tinham ameaçado os empregados grevistas, receberam algumas pedras…

A violência da repressão policial foi um potente fator de mobilização. O engajamento de antigos combatentes das guerras que o capitalismo estadunidense lidera no mundo é aqui significativo. E assim esse sargento dos fuzileiros descobriu o que é estar do lado errado da barreira. Apesar dos horrores da guerra liderada pelo exército estadunidense contra o povo iraquiano, ele compara – sem dúvidas sinceramente – a violência que ele conheceu lá com as forças de ordem contra os participantes do Occupy: “Eu estive envolvido em uma revolta em Rutbah, no Iraque em 2004, e nós não tratamos os cidadãos iraquianos como os policiais tratam os civis desarmados em nosso próprio país“. Em um cartaz de outro antigo combatente que manifestava em Liberty Plaza, podíamos ler: “Segunda vez que eu luto pelo meu país. Primeira vez que eu conheço meu inimigo“.

De forma geral, o movimento procurou voltar sua própria violência contra a polícia para questionar sua imagem de “força protetora de cidadãos“. Desse ponto de vista, o slogan “Mostre-nos com o que parece a democracia!” é perfeitamente adaptado.

You Can’t Arrest an Ideia[27]

A repressão do movimento Occupy, coordenada pela polícia em nível nacional, tem consequências imediatas. A expulsão das ruas e dos locais inevitavelmente questiona o depois, a sobrevida do movimento. A próxima etapa é, naturalmente, a ocupação de imóveis, lugares protegidos em que o movimento pode retomar o fôlego durante o inverno. Desde o começo de dezembro, o movimento lança uma nova campanha, “As ocupações de imóveis são o sinal de uma nova etapa do movimento. Os ocupantes se deslocam ao interior“. Visto o estado de degradação do tecido urbano nos Estados Unidos, a escolha dos lugares nem sequer se coloca. Mas para as autoridades, a defesa da propriedade privada é um valor sagrado. Em Oakland, Washington DC, Portland e outros lugares, tentativas de ocupações de imóveis provocaram imediatamente a intervenção da polícia e prisões.

O Occupy tenta também responder às insuficiências do Estado no terreno da vida social. Em Oakland, durante os debates que precederam a greve geral de 2 de novembro, diversas vozes propuseram uma espécie de “socialização” galopante de escolas e de centros de saúde: “Eles os fecham. Nós os ocupamos. Nós os colocamos em funcionamento de novo!“. Essas iniciativas fazem eco ao que já se produz pontualmente e que o movimento gostaria de generalizar.

Para o Occupy, é indispensável estabelecer ligações concretas com os mais explorados, os trabalhadores pobres, os jovens precários e os marginalizados vivendo nas ruas – e com os proletários negros em particular[28], os quais constituem uma minoria nas mobilizações, exceto em Oakland. Dois tipos de ação são reveladores dessa preocupação. Em 18 de novembro, aprendemos que o governo Obama expulsou mais de 400.000 imigrantes desde o início de 2011; essa administração já atingiu o recorde de 1,1 milhão de pessoas expulsas. No mesmo dia, em Montgomery, capital do estado do Alabama que acaba de votar a lei mais repressiva do país sobre a imigração[29], os membros do Occupy Alabama se juntam a militantes de organizações de defesa dos imigrantes para bloquear as ruas do centro da cidade. Dando uma dimensão nacional a uma ação local, eles reforçam seu impacto.

As ações contra as expulsões de habitações vão no mesmo sentido – principalmente em outubro de 2011, quando essas expulsões aumentaram ainda 7% em relação ao mês passado. Em Minneapolis, os membros do Occupy Minnesota se mobilizam por solidariedade com os expulsos dos bairros pobres. “Convidados” pelos proprietários, grupos de vinte pessoas “ocupam” os alojamentos e as casas que os bancos têm a intenção de expropriar. Frente a determinados grupos apoiados pela vizinhança, a polícia hesita em intervir e os bancos propõem frequentemente uma renegociação dos empréstimos. Outros grupos “abrem” casas abandonadas para instalar pessoas sem abrigo.

Como destaca uma amiga nova-iorquina, “o poder atingiu súbita e violentamente pois era necessário se livrar rápido dessa irritante interrupção do “business as usual”. Mas fazendo isso, corre o risco de se deparar com uma hidra de múltiplas cabeças. Você a esmaga em um lugar e eis que ela reaparece em vários lugares e sob diferentes formas“. Essa previsão encontra um eco nas bandeiras: “Você pode prender pessoas. Você não pode prender uma ideia!” ou “Nós somos muitos, nós não esquecemos, nós não perdoamos!”.

Quando o Silêncio Não paga mais

Para restituir a verdadeira dimensão do movimento Occupy, sua novidade e sua riqueza, é preciso colocá-lo em seu contexto: uma sociedade dominada ao mais alto nível pelo individualismo de mercado, onde anos de desestruturação e de empobrecimento das classes exploradas parecem ter sepultado o espírito coletivo. No mesmo dia em que a polícia destruiu o acampamento de Zuccotti Park, descobrimos pela imprensa o aumento do cálculo oficial da pobreza e o aumento do número de crianças estadunidenses vivendo em um lar pobre – um milhão a mais em um ano, ou seja, mais de uma criança em três.

O Occupy se integra em um crescimento dos movimentos de revolta a nível mundial. Assim como os Indignados na Europa, o Occupy foi animado por uma forte rejeição da vida sob o capitalismo e pela pesquisa obstinada de novas formas de confrontar o sistema. O movimento deve fortemente se construir fora das antigas formas de conflito, políticos e sindicais em primeiro lugar, que se tornaram ineficazes pela evolução contemporânea do capitalismo. Paradoxalmente, podemos apostar que a vitalidade e a capacidade inventiva do movimento Occupy estão diretamente ligadas à fraqueza de ideias de esquerda nos Estados Unidos. Na Europa, este conjunto de ideias é indissociável da existência de um estado social, fundamento sobre o qual se perpetua o sistema de exploração do trabalho, com variantes mais ou menos suportáveis. Esse modelo de integração está agora caduco. A capacidade do sistema de se reproduzir em período de crescimento se fundava outrora sobre um consenso negociado e caucionado por instituições políticas e sindicais. Esse consenso, que nos levou até aqui onde estamos, é agora ineficaz, ultrapassado pela violência da crise.

O 1% não conta mais com o reformismo razoável para consolidar seu poder. A resignação não paga mais, alerta um cartaz em Chicago: “O silêncio não te protegerá mais!“. Compreendemos que a reivindicação encontra pouco eco nos defensores do Occupy. É nessa constatação de falência das antigas formas de ações sindicais e políticas que se desenvolvem esses novos movimentos, os quais questionam a natureza das sociedades, buscando por tentativas de novas formas de confrontá-las. Movimentos que avançam sobre práticas positivas, integram a lentidão na ruptura social, contornando a ilusão da reforma. O que não é um exercício fácil. Na Europa, é justamente nas sociedades em que a esquerda teve maior domínio sobre o pensamento político que esses movimentos têm dificuldades em se afirmar. A sociedade francesa, onde temos dificuldade de pensar a ação política fora da dicotomia direita-esquerda, é exemplar a esse respeito. Diante da constatação de derrota das organizações sindicais frente às políticas de austeridade, nos refugiamos, entre angústia e medo, em uma ilusão remendada na qual poucos ainda acreditam verdadeiramente: o eleitoralismo.

Mais do que se afundar no desastre, nada nos impede de procurar novos caminhos. Seus contornos nos parecem ainda imprecisos, nós o vemos sobretudo em negativo. É a esse título que, à semelhança dos movimentos dos Indignados na Europa, o movimento Occupy é, apesar de suas imperfeições, contradições e fraquezas, entusiasmante e portador de esperança.


[1] A expressão “business as usual”, em tradução literal, “negócios como sempre”, foi mantida no original, e significa a execução normal das operações padronizadas de uma organização, empresa etc. (NT – Nota do Tradutor).

[2] Traduzido do francês por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://www.article11.info/?Occupy-cette-agacante-interruption.

[3] Com razão, um estudo do INSEE (Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos) de 2010 relembra que, na França, os 10% mais ricos dispõem de quase metade do patrimônio e 1% das famílias francesas mais ricas detém 17% do patrimônio total (Libération, 24/11/11). Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), essa desigualdade de renda, relativamente estável na França há trinta anos, explodiu verdadeiramente na maioria dos países industrializados. O prêmio vai para a Grã-Bretanha, onde as rendas dos 10% mais ricos são quase doze vezes maiores que as dos 10% mais pobres. Mas os Estados Unidos não falham, com as rendas dos mais ricos quase cinco vezes maiores que a dos mais pobres (Le Monde, 6/12/11).  

[4] Declarações no contexto de uma entrevista concedida ao A11: http://www.article11.info/?Ken-Knabb-Il-ne-s-agit-pas-d-une. Ler também de Ken Knabb, “Le Réveil de l’Amérique” [O despertar da América], publicado no site de Claude Guillon: http://claudeguillon.internetdown.org/article.php3?id_article=326. Por fim, pode-se encontrar outros textos do mesmo autor em seu site: http://www.bopsecrets.org/.

[5] Sobre esse assunto, ver Paul Mattick: “Le déclin des syndicats et les limites de l’intervention étatique” [O declínio dos sindicatos e os limites da intervenção estatal], L’Echaudée, nº 1. E sobre o Wisconsin, “Le peuple veut renverser le système (entretien)” [O povo pode derrubar o sistema (entrevista)], Offensive, setembro de 2011.

[6] Ler o artigo de Charles Reeve, “Série américaine” [Série americana], Le Monde libertaire, 3, 10 e 17 de março de 2011.

[7] Ao final de novembro, mais de 5.000 pessoas tinham sido presas nos Estados Unidos por sua participação no movimento.

[8] Movimento Tea Party (Festa do Chá) é um movimento político dos Estados Unidos que se trata da ala radical do Partido Republicano, apoiando o neoliberalismo, o populismo e o reacionarismo (NT).

[9] Chris Hedges, “This Rebellion will not Stop” [Essa rebelião não vai parar], Occupied Wall Street Journal, 8/10/11.

[10] Em tradução livre, “A porra da música perigosa”, ou “uma puta música perigosa”. Decidi manter o título original, uma vez que o texto também saí de sua língua original para usar essa frase como título. Em inglês, o adjetivo “fucking” é difícil de ser traduzido, uma vez que apenas usar “porra” pode não soar com a exata entonação e efeito do original. (NT).

[11] https://www.labornotes.org/

[12] Jason Flores-Williams, “In the Battle of the Open Heart” [Na batalha do coração aberto], Brookyn Rail, novembro de 2011.

[13] Jogo de palavra, “ocupação” significando ao mesmo tempo passatempo e profissão.

[14] Entrevista de Ali, no site Democracy Now!, na data de 14/11/2011.

[15] A expressão em inglês “copyright” é traduzida como “direitos autorais”. Os direitos de autor garantem a propriedade jurídica e a utilização de determinada obra para fins lucrativos. (NT).

[16] Extrato de “Some critical notes on the Oakland General Strike” [Algumas notas críticas sobre a Greve Geral de Oakland], carta de 15 de novembro de 2011.

[17] Traduzimos aqui o termo “suiviste” como oportunista, adaptando a palavra para o português. Suiviste vem de “suivisme” em francês, que seria uma tendência a seguir determinada ideologia ou grupo de qualquer tipo sem espírito crítico. (NT).

[18] “The Port Actions, Occupy Oakland Texts Labor Leaders” [As ações portuárias, Occupy Oakland escreve aos Líderes Trabalhistas], The New York Times, 13 de dezembro.

[19] Para uma discussão em torno desse tema nos meios da esquerda sindicalista, ler Jane Slaughter, “Why the Occupiers have gained more support than Unions” [Por que os Occupiers ganharam mais suporte que os Sindicatos], Labor Notes, 17 de novembro.

[20] Vários ativistas do OWS tinham participado em Madrid nas manifestações dos Indignados.

[21] Trecho de uma carta enviada por um amigo.

[22] https://fr.wikipedia.org/wiki/Adbusters.

[23] Carta de um amigo.

[24] https://standupchicago.org/.

[25] The New York Times, 2 de novembro de 2011.

[26] http://globalrevolution.tv/.

[27] You can’t arrest an idea, em tradução literal do inglês, “você não pode prender uma ideia”. O título foi mantido em inglês, como no original, uma vez que se refere a uma frase específica do movimento Occupy. (NT).

[28] Entre 2005 e 2009, os lares negros perderam, em média, a metade de sua renda, contra 16% dos brancos.

[29] É agora proibido tanto contratar um trabalhador sem documentos quanto alugar para ele um alojamento ou até mesmo dar uma carona em seu carro… A apresentação dos documentos é necessária para abrir um medidor de água ou para matricular seu filho na escola. A polícia está autorizada a prender qualquer pessoa “suspeita de não ter documentos“, um convite aberto ao controle facial, da identidade visual.