Nem Interseccionalidade nem Economicismo: Por uma Política de Classe genuína – Donald Parkinson

O socialismo ainda é, essencialmente, uma subcultura nos Estados Unidos e, embora estejamos testemunhando a origem de organizações como os Socialistas Democráticos da América (DSA), emergem, dentro dessas organizações, diversas divisões e debates sobre a abordagem correta da política socialista. Um dos debates mais proeminentes (não apenas na DSA mas em toda a esquerda dos EUA) é entre perspectivas que podem ser separadas em dois campos principais: políticas de identidade e o economicismo que “prioriza a classe”[1]. Na política identitária, há um foco em questões extraeconômicas da opressão como meio de mobilizar ativistas em torno de grupos identitários específicos e daqueles que se posicionam como aliados desses grupos, baseando-se teoricamente no conceito de interseccionalidade. “Políticas de Identidade” é um termo frequentemente usado como adjetivo pejorativo para essas formas de ativismo e, muitas vezes, é difícil diferenciar a política dos direitos civis da política identitária como categorias separadas. Às vezes, é difícil distinguir quais críticas às políticas identitárias são meros ecos de discursos da direita e quais, de fato, perseguem uma agenda socialista e de emancipação humana, um fato frequentemente usado para refutar todos os ataques às políticas identitárias. Uma reação em voga à ascensão das políticas identitárias é uma espécie de economicismo social-democrata que visa construir a mais ampla coalizão política possível em torno de questões econômicas básicas, evitando, ao mesmo tempo, quaisquer questões políticas que possam ser consideradas divisivas. Meu objetivo aqui é argumentar que ambas as abordagens são becos sem saída.

Entre os autores criticados como exemplos de política identitária, incluem-se Ta-Nehisi Coates, bell hooks e Kimberlé Crenshaw. Para este artigo, focaremos em Crenshaw, que mapeou a teoria da interseccionalidade em seus artigos “Desmarginalizando a Intersecção de Raça e Sexo: Uma Crítica Feminista Negra à Doutrina Antidiscriminatória, à Teoria Feminista e à Política Antirracista” e “Mapeando as Margens: Interseccionalidade, Política Identitária e Violência Contra Mulheres de Cor.”[2] Em “Desmarginalizando”, Crenshaw foca na experiência de mulheres negras e na forma singular de opressão que enfrentam, algo que não pode ser compreendido apenas através do eixo de gênero ou raça. Ela oferece o exemplo do caso DeGraffenreid vs General Motors, no qual cinco mulheres negras processaram a General Motors por discriminação contra elas, citando que a empresa não contratou nenhuma mulher negra entre 1964 e 1970 e, posteriormente, demitiu mulheres negras de forma desproporcional devido ao sistema de antiguidade[3]. Crenshaw aponta como essas tentativas de processar a GM foram contestadas apontando que a empresa havia contratado mulheres, ainda que brancas, e mencionando também um processo anterior por discriminação racial envolvendo homens negros. Embora pudesse ser demonstrado que a GM não discriminava simplesmente com base em gênero ou raça, Crenshaw argumentou que a empresa discriminava, sim, a identidade específica das mulheres negras. Portanto, não bastava usar as categorias de raça ou gênero; era preciso compreender como essas opressões se intercruzavam de maneiras particulares. Para citar Crenshaw:

“A recusa do tribunal no caso DeGraffenreid em reconhecer que mulheres negras enfrentam discriminação combinada de raça e sexo implica que os limites da doutrina da discriminação por sexo e raça são definidos, respectivamente, pelas experiências de mulheres brancas e homens negros. Sob essa perspectiva, as mulheres negras são protegidas apenas na medida em que suas experiências coincidem com as de um dos dois grupos.”[4]

Crenshaw conclui que a opressão das mulheres negras não pode ser compreendida como baseada em gênero ou raça, mas sim como uma intersecção desses dois eixos. Ela se refere a isso como dupla discriminação, semelhante à discriminação enfrentada por homens negros ou mulheres brancas, mas, ainda assim, única e irredutível a qualquer uma delas. Usar qualquer uma das categorias de raça ou gênero isoladamente só pode obscurecer a discriminação real enfrentada. Para investigar mais a fundo essa questão, Crenshaw explora as experiências de vida de Sojourner Truth e como elas desafiaram não apenas as noções convencionais de feminilidade, mas também as noções de que mulheres negras são menos que mulheres. Nesse contexto, a experiência de Sojourner Truth enfrentando a opressão racial e de gênero indica a incapacidade da maioria das manifestações do feminismo de abordar as experiências de mulheres negras e, por consequência, abordar apenas as experiências de mulheres brancas. Quando o feminismo discute as questões das mulheres, de acordo com Crenshaw, a suposição não dita é que o assunto em discussão são as mulheres brancas. As mulheres negras, que enfrentam uma situação de opressão singular, são, portanto, deixadas de fora[5].

À primeira vista, há pouco de explicitamente questionável nas afirmações de Crenshaw. É evidente que as mulheres negras sofrem uma forma de dupla opressão. Crenshaw consegue demonstrar com sucesso como essas formas de opressão que se cruzam não só existem, como também são mascaradas pelo sistema jurídico. Contudo, o que seu argumento ignora, como aponta Mike Macnair, é o elemento da análise de classe. O caso DeGraffenreid vs. General Motors, por exemplo, é tanto uma expressão do poder de classe inerente ao direito burguês quanto uma expressão da incapacidade do direito de abordar adequadamente as experiências de opressões sobrepostas. O que Crenshaw não menciona é que esses processos judiciais foram uma expressão de empresas capitalistas usando o direito para manter a mão de obra como um recurso maleável, a ser contratado e demitido à vontade.[6] Isto não pode ser compreendido simplesmente em termos de discriminação, mas como um elemento de exploração estrutural devido às relações de classe que governam a produção capitalista. Quando a análise interseccional aborda a classe social, tende a fazê-la apenas em termos de discriminação contra indivíduos com base em sua origem de classe, conhecida como “classismo”.

Uma fragilidade adicional da interseccionalidade reside em sua função meramente descritiva, em vez de explicativa, da função. Ela demonstra que os indivíduos vivenciam a opressão de múltiplas maneiras que se sobrepõem, mas não explica como essas opressões são reproduzidas na sociedade. A análise marxista do racismo e do patriarcado busca compreender como essas opressões estão ligadas à reprodução social e, portanto, podem ser abolidas por meio da transformação da sociedade. A interseccionalidade, por ter sua origem na teoria jurídica, busca descrever a experiência de diversas opressões e pôr fim à prática dessas opressões dentro da estrutura da lei e da ordem burguesas. O resultado é que o objetivo principal da prática ativista associada à interseccionalidade, comumente conhecida como justiça social, é tornar as relações sociais existentes mais justas para os oprimidos, em vez de transformar os fundamentos da sociedade. Por não se basear em uma crítica à forma como as opressões são reproduzidas na divisão do trabalho e nas relações de classe da sociedade, ela tenta promover mudanças nas práticas jurídicas ou nos costumes da sociedade. Enquanto práticas legais e costumes sociais são certamente materiais e estruturais, e muitas das mudanças propostas a eles sejam desejáveis, é necessário que situemos as lutas por essas reformas dentro de uma estrutura maior e numa estratégia de mudança revolucionária a fim de desafiar não apenas certos aspectos injustos da sociedade, mas a base subjacente de nossa sociedade fundamentalmente opressora como um todo.

A prática política associada à interseccionalidade tende a assumir a forma de um ativismo unilateral e de coalizões, bem como formas individuais, focadas em questões de conscientização (como a verificação de privilégios, denúncias, etc.). A ênfase nas formas particulares de opressão vivenciadas por grupos específicos pode levar à crença de que apenas membros do grupo oprimido em questão podem liderar campanhas ativistas. Isto cria uma política fragmentada, na qual, em certos casos extremos, apenas o “grupo interno” pode falar sobre determinado assunto, enquanto o “grupo externo” só pode ouvir e apoiar suas lutas como “aliados”. Esse aspecto da política identitária ou “wokeismo” é o mais importante a ser criticado, pois, na prática, tende a ir em direção a um rompimento com a solidariedade e torna um projeto de emancipação humana universal fora de questão.

Deve se notar que Crenshaw afirma que a “interseccionalidade não está sendo oferecida aqui como uma nova, totalizante, teoria da identidade” e que ela não “pretende sugerir que a violência contra mulheres negras possa ser explicada apenas pelas estruturas específicas de raça e gênero consideradas aqui.”[7] Ela também acrescenta que as questões de classe e sexualidade são de grande importância, apesar de não serem mencionadas explicitamente. Todavia, independente de como Crenshaw pretendia que sua teoria fosse usada, ela indubitavelmente se tornou um dogma constantemente invocado pela esquerda.

Para entender os debates dentro da esquerda sobre política identitária, não se pode ignorar a obra de Crenshaw. Cabe acrescentar que Crenshaw não foi a primeira teórica a discutir a opressão singular das mulheres negras. Teóricas como Angela Davis e Claudia Jones também discutiram as formas como raça, classe e gênero interagiam, mas dentro de uma estrutura especificamente marxista. Ao abordarmos a interseccionalidade, referimo-nos às teorias específicas desenvolvidas por Crenshaw, e não a uma análise que envolva as categorias de raça, gênero e classe. Poderíamos até argumentar que a interseccionalidade é, essencialmente, uma apropriação liberal das críticas marxistas à opressão que já existiam no movimento socialista há bastante tempo.

Não faltam críticas de esquerda à teoria interseccional e à política identitária. “Exiting the Vampire Castle” (Deixando o castelo do vampiro[8]), de Mark Fisher, é um exemplo famoso. Trata-se de uma descrição e crítica do comportamento cruel e antissolidário associado ao “wokeismo”, onde os indivíduos policiam a linguagem uns dos outros de maneiras frequentemente arbitrárias e a atmosfera é marcada por um “cheiro de má consciência e um moralismo de caça às bruxas”. “Deixando o Castelo do Vampiro” foi recebido com muitas doses de hostilidade, pois foi visto como ecoando argumentos conservadores e um ataque à esquerda de um jeito que se concentrava em seus excessos e os exagerava. Outros descobriram que a análise de Fisher ressoava com suas experiências negativas na esquerda. Independentemente da opinião sobre os argumentos de Fisher, eles eram sintomáticos de um sentimento maior de insatisfação na esquerda com a política identitária, o que levaria ao surgimento de seu próprio contramovimento.

Um teórico fundamental desse contramovimento é Adolph Reed Jr. Embora Reed escreva desde a década de 1970, sua crítica à política cultural (especificamente à política negra) ganhou relevância quando muitos esquerdistas tentaram construir uma negação da esquerda “woke”. Outros, como Adam Proctor, do podcast Dead Pundits Society, e Angela Nagle, autora do livro Kill All Normies, seguiriam seus passos. Alguns de seus oponentes argumentam que esses escritores formam uma tendência conhecida como “esquerda que prioriza a classe” e os associam fortemente à “esquerda escrota”. Reed é o mais inteligente e relevante desses autores, portanto, analisaremos principalmente sua obra. Ele é mais conhecido por sua interpretação da política identitária como uma forma de política de classe neoliberal, representando uma facção da pequena burguesia. Ele resume sua avaliação da seguinte forma:

“[A política identitária] não é uma alternativa à política de classe; mas é uma política de classe, a política da esquerda do neoliberalismo. É a expressão e a atuação de uma ordem política e de uma economia moral em que as forças do mercado capitalista são tratadas como uma natureza inatacável.
Um elemento integral dessa economia moral é o deslocamento da crítica aos resultados nefastos produzidos pelo poder da classe capitalista para categorias igualmente naturalizadas de identidade atribuída, que nos classificam em grupos supostamente definidos pelo que somos essencialmente, em vez do que fazemos. Como argumentei, seguindo Walter Michaels e outros, dentro dessa economia moral, uma sociedade em que 1% da população controlasse 90% dos recursos poderia ser justa, desde que aproximadamente 12% desse 1% fossem negros, 12% fossem latinos, 50% fossem mulheres e quaisquer que fossem as proporções apropriadas fossem pessoas LGBT.”
Seria difícil imaginar um ideal normativo que expresse de forma mais inequívoca a posição social das pessoas que se consideram candidatas à inclusão na classe dominante, ou pelo menos a cargos importantes a seu serviço.”[9]

Reed desenvolveu essa tese em seus comentários políticos desde a década de 1970, e há muito mérito em seu trabalho. Sua crítica a uma política que se afasta da economia e de objetivos materiais concretos para se concentrar exclusivamente na mudança cultural é certamente válida quando consideramos a completa desconexão da esquerda com o movimento operário e sua incapacidade de obter vitórias reais além do simbólico. Grande parte do trabalho de Reed se concentra em questões da política dos afro-americanos, que ele vê como constantemente esbarrando em becos sem saída devido à sua ênfase na organização de coalizões baseadas na identidade em torno de questões antirracistas. O antirracismo, argumenta ele, tornou-se uma forma de política para reforçar a legitimidade de estratos específicos da elite negra que se desenvolveram após o movimento pelos direitos civis, remetendo a esse movimento e suas táticas, apesar de sua irrelevância para as circunstâncias atuais em que vivemos.[10]

Um dos alvos específicos de Reed é a demanda por reparações. Não pretendo repetir aqui o debate sobre reparações e seu papel em um programa político; o que é mais importante é a lógica geral do argumento de Reed. Embora aponte problemas como a dificuldade de determinar exatamente quem receberia reparações, o ponto principal de Reed é que isso simplesmente não é politicamente viável. Para lutar por reparações, seria necessário formar uma base eleitoral majoritária e, como os afro-americanos não formam tal maioria nos Estados Unidos, não há maneira viável de fazê-lo. Ele defende uma alternativa — algo como o New Deal, um movimento amplo que luta por “acesso a cuidados de saúde de qualidade, o direito a uma vida digna e decente, moradia acessível, educação de qualidade para todos… o que só pode ser alcançado de forma eficaz se nos empenharmos em unir uma ampla parcela da população americana que tem esses benefícios sociais essenciais negados ou vive com medo de perdê-los.”[11]

No cerne desse argumento está a afirmação de que a política deve se manter afastada de questões políticas divisivas e, em vez disso, concentrar-se em questões econômicas básicas e essenciais para construir uma base eleitoral. Se seguirmos essa lógica, então não faz mais sentido lutar pelo socialismo, pois ele é muito divisivo. Em vez disso, isso implica que devemos nos concentrar em campanhas reformistas simples para expandir o estado de bem-estar social. Reed defendeu explicitamente esse argumento. Na Convenção Internacional Platypus de abril de 2015, Reed admitiu que deseja o socialismo, mas argumentou que uma “nova Frente Popular” que “dê pequenos passos” para “desmercantilizar os serviços públicos”, evitando a questão do socialismo, é o que o momento exige, e somente após isso aumentar a conscientização é que o socialismo poderá ser abordado.[12]

O que Reed está defendendo é essencialmente uma repetição da social-democracia de direita da era do pós-guerra: um apelo aos interesses materiais mais básicos dos trabalhadores, evitando questões políticas de confronto. Obviamente, os socialistas devem lutar por esses interesses materiais básicos, mas abordar apenas essas questões incorre no problema do que Lênin definiu como economicismo em sua obra “O Que Fazer?”. O uso do termo por Lênin (e a forma como o usamos aqui) se deu no contexto de uma polêmica com os marxistas russos, que acreditavam que a organização socialista deveria se concentrar apenas nas lutas sindicais, deixando as questões políticas relacionadas à opressão extraeconômica para os reformistas liberais. Os economistas acreditavam que, somente por meio da luta econômica, os trabalhadores desenvolveriam espontaneamente uma consciência socialista, mesmo sem uma luta política ativa por parte dos socialistas. Contrariamente a essa abordagem, Lênin argumentava que “o ideal social-democrata não deveria ser o secretário sindical, mas o tribuno do povo, capaz de reagir a toda manifestação de tirania e opressão, não importa onde ela apareça, não importa qual estrato ou classe do povo ela afete”.[13] A maioria das reações à ascensão da política identitária popular é essencialmente uma forma de economicismo, que argumenta que devemos nos concentrar em questões econômicas e basear nossa política somente nessas questões.

O economicismo, por si só, é essencialmente incapaz de conduzir a algo além do sistema capitalista. As lutas pela expansão dos serviços de bem-estar social, salários mais altos e melhores condições de trabalho são uma base essencial para a luta de classes. Contudo, tais lutas são geradas espontaneamente pela própria dinâmica do capitalismo, visto que este é um sistema dinâmico capaz de se ajustar às novas demandas que lhe são impostas. Se buscamos lutar por uma nova ordem política, é necessário ir além dessas lutas espontâneas e, em vez disso, apontar para a necessidade de uma nova ordem política, para fazer da luta econômica uma luta política. Ao evitar qualquer tipo de questão política divisiva, concentrando-se apenas em demandas econômicas básicas, cai-se facilmente na lógica do chauvinismo social, onde o movimento evita assumir qualquer posição controversa à ordem capitalista em nome da manutenção da maior base eleitoral possível. Diante de questões políticas como imperialismo, racismo e opressão de gênero, essa estratégia resulta na aquiescência do movimento ao caminho de menor resistência pelo medo de entrar em contradição com as massas.

Essa lógica levou a resultados infames, como o apoio do SPD alemão à Primeira Guerra Mundial, o apoio da AFL nos Estados Unidos às leis de exclusão de chineses, ou os trabalhadores grevistas exigindo a exclusão das mulheres do mercado de trabalho para reduzir o desemprego durante a Grande Depressão. É uma lógica que nasce de um foco estreito em garantir apoio eleitoral e alcançar o máximo benefício econômico dentro da lógica geral do capitalismo. Pode-se argumentar que a Nova Esquerda, e posteriormente a política identitária interseccional, surgiram como uma reação a esse chauvinismo social de esquerda, identificando o foco na classe como a causa dessas traições. Mas, diante da fragmentação da esquerda em uma variedade de grupos identitários que só conseguem se unir por meio de coalizões, a lógica de se concentrar em questões econômicas tem certo apelo. É por meio das lutas econômicas que vários grupos identitários podem se unir, superando as diferenças culturais, em um projeto comum. O que os economicistas entendem errado é enxergar a classe não como um meio de unir a humanidade em um projeto comum, mas sim como uma categoria que (assim como os grupos identitários) precisa negociar a melhor posição possível na estrutura existente da nossa sociedade.

É importante para nós lembrarmos por que Marx e Engels viam a classe trabalhadora como a classe revolucionária. Não era apenas por sua capacidade de retirar coletivamente sua força de trabalho em greves para pressionar seus empregadores. Mas sim porque o proletariado, definido como aqueles dependentes do fundo geral de salários pago pelos capitalistas, só poderia alcançar a emancipação unindo-se como uma classe inteira além das diversas divisões setoriais, e substituindo coletivamente a apropriação privada dos meios de produção pela gestão democrática da sociedade. Através de sua existência coletiva como classe, o proletariado carrega em si a chave para a emancipação humana. Como Mike Macnair tão eloquentemente coloca,

“Não foi a força dos trabalhadores empregados no ponto de produção que motivou a crença de Marx e Engels de que a chave para o comunismo é a luta pela emancipação do proletariado e vice-versa. Ao contrário, foi a separação do proletariado dos meios de produção, a impossibilidade de restaurar a produção familiar em pequena escala e a consequente necessidade de organização coletiva e voluntária do proletariado que os levaram a supor que o proletariado é potencialmente uma “classe universal” e que as suas lutas são capazes de conduzir ao socialismo e a uma sociedade verdadeiramente humana.”[14]

Para Marx, a classe trabalhadora não era simplesmente um grupo oprimido, prejudicado por leis injustas ou discriminado, mas sim um segmento da sociedade cuja emancipação incluía “a de todos os seres humanos, sem distinção de raça ou sexo.”[15] O foco de Marx na classe não visava marginalizar as questões de opressão nacional ou de gênero, mas sim servir como um eixo para unir diversos grupos em um projeto social maior – a emancipação universal. Ao contrário da interseccionalidade de Crenshaw, a classe é uma categoria que desempenha um papel essencial na política socialista, superior ao de outros grupos identitários, e, contrariamente à ideologia do economicismo, a libertação do proletariado não se resume à libertação da classe trabalhadora, mas sim à destruição de “todas as condições desumanas de vida na sociedade contemporânea.”[16]

Isso não significa descartar ou marginalizar reivindicações políticas baseadas na identidade. Fazer isso por medo de divisões cria o perigo já mencionado de cair no chauvinismo social. Não podemos tolerar uma política que seja cega à questão da classe, assim como não podemos tolerar uma política cega à questão da raça. A opressão racial e de gênero tem uma base transversal às classes sociais, ou seja, não são apenas os proletários negros que sofrem racismo. Grupos identitários, portanto, compartilham uma experiência comum de opressão que transcende as classes sociais e, consequentemente, podem se unir em torno dessa experiência. Mas, dentro desses grupos identitários, existem divisões de classe que influenciam a experiência individual da opressão e as estratégias para lutar contra isso. É aqui que entram os aspectos mais importantes da crítica de Reed.

As elites dentro dos grupos identitários tendem a adotar uma política de “intermediação”, tentando navegar dentro do sistema para garantir uma solução para os problemas políticos, enquanto mantêm suas posições de classe. Como resultado, a política identitária pode gerar movimentos que servem principalmente à burguesia, deixando o proletariado para trás. Isso é mais bem exemplificado por movimentos que tendem a se concentrar puramente na ascensão social de grupos oprimidos.

Para os marxistas, a resposta a esse problema não pode ser ignorar as lutas dos grupos oprimidos em favor de uma concepção purista de luta econômica, mas revelar os antagonismos de classe dentro das políticas de identidade e lutar pela liderança do proletariado dentro dessas lutas. Parafraseando Lênin, como citado anteriormente, não podemos ser meros “secretários sindicais” mas “tribunos do povo” que “reagem a toda manifestação de opressão.” De fato, quando as lutas de classes interagem com as lutas políticas democráticas e extraeconômicas, isso pode apontar para uma direção revolucionária que transcende a negociação dentro do sistema vigente. Como Louis Althusser aponta em Contradição e Sobredeterminação, a Revolução Russa não foi produto da mera contradição entre trabalho e capital, mas sim resultado de uma acumulação de contradições relacionadas às lutas das nacionalidades oprimidas, às reivindicações camponesas por reforma agrária e à guerra imperialista, permitindo que a luta de classes se manifestasse de uma forma que apontava para além de seus limites.[17]

Nos Estados Unidos, onde o legado do racismo permanece, em grande parte, intacto, deixar as lutas dos grupos oprimidos sob a liderança das elites burguesas e empresariais é um risco que corremos. Em sua análise sobre a fragilidade do movimento operário estadunidense e a ascensão da política reacionária nos EUA, Mike Davis argumenta que “o fracasso do movimento operário do pós-guerra em formar um bloco orgânico com a luta de libertação negra, em organizar o Sul ou em derrotar a reação sulista no Partido Democrata, determinou, mais do que quaisquer outros fatores, o declínio final do sindicalismo americano e a reconstrução à direita da economia política durante a década de 1970”. A incapacidade de fundir as lutas democráticas das minorias oprimidas com a luta de classes só levará a uma política inócua. Não é surpresa que o Partido Comunista dos EUA tenha obtido maior sucesso quando lutou militantemente pelos direitos dos afro-americanos.

Nós devemos também entender que políticas identitárias não são uma conspiração da classe dominante buscando desarmar a consciência de classe, mas uma ideologia que nasce das reais experiências de opressão em um mundo sem coração. Nós vivemos em uma cultura individualista e atomizada. Portanto, as pessoas muitas vezes, por padrão, abordarão as questões de forma individualista. Em um mundo que já é brutal e cruel, corremos o risco de nos marginalizarmos dos oprimidos ao criticarmos essas políticas de maneiras cruéis e degradantes. Existe, é claro, oportunistas de má fé e carreiristas que desejam manipular questões de identidade, mas a verdade é que muitas pessoas entram na política por meio de comunidades online que falam diretamente sobre suas questões.

A rejeição automática de toda política baseada em identidade, sem compreender as condições reais que levam a essas políticas, só marginalizará as pessoas que pretendemos alcançar. Não é nenhum mistério o porquê as pessoas se organizam em grupos identitários em resposta aos problemas que enfrentam — por exemplo, a organização de pessoas negras como pessoas negras contra a violência policial racializada é completamente racional. Não nos beneficiamos em nada ao dizer a elas para abandonarem suas lutas, mas também não nos beneficiamos ao nos recusarmos a criticar as elites burguesas que visam lucrar com essas lutas. O que é necessário é uma política de classe universalista que possa atuar em todas as esferas da vida social, que seja capaz de desenvolver e praticar uma crítica à nossa sociedade como um todo e que possa unir o proletariado em toda a sua diversidade — para usar o termo de Asad Haider, uma universalidade insurgente. Tanto a política identitária quanto o economicismo buscam barganhar uma posição melhor dentro do mundo existente, mas os comunistas não desejam barganhar: desejamos subverter a ordem vigente e substituí-la por algo muito melhor.


[1] No original: “class-first”. Em sentido literal, a expressão pode ser traduzida como “em primeiro lugar a classe”, ou “a classe primeiramente”, o que não é uma expressão muito clara. Assim, optamos por outra expressão, menos literal, o que está em consonância com a ideia de uma esquerda que prioriza ou prima pela classe, em primeiro lugar. [N.T.]

[2] Há uma tradução brasileira disponível aqui. [N.T.]

[3] O seniority system (sistema de antiguidade) é uma prática organizacional que concede benefícios, prioridades e cargos superiores com base no tempo de serviço de um funcionário, em vez de apenas mérito ou habilidade. [N.T.]

[4] Desmarginalizando a intersecção de raça e sexo: uma crítica feminista negra à doutrina antidiscriminatória, à teoria feminista e às políticas antirracistas, págs. 138-139.

[5] Ibid, 153-154.

[6] Discutido por Mike Macnair aqui: https://weeklyworker.co.uk/worker/1206/intersectionality-is-a-dead-end/. [Este artigo está disponível no Crítica Desapiedada: O Beco sem Saída da Interseccionalidade – N.T.]

[7] Mapeando as margens: interseccionalidade, política identitária e violência contra mulheres de cor, p 2.

[8] Traduzido aqui. [N.T.]

[9] Adolph Reed Jr., From Jenner to Dolezal: One Trans Good, the Other Not So Much, disponível aqui: https://www.commondreams.org/views/2015/06/15/jenner-dolezal-one-trans-good-other-not-so-much.

[10] Adolph Reed Jr., Antiracism: A Neoliberal Alternative to a Left, disponível aqui: https://link.springer.com/article/10.1007/s10624-017-9476-3.

[11] Adolph Reed Jr., The Case Against Reparations, disponível aqui: https://nonsite.org/editorial/the-case-against-reparations

[12] Disponível aqui: https://platypus1917.org/2015/04/22/what-is-political-party-for-the-left/.

[13] Lenin, O que Fazer?, disponível aqui: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/iii.htm

[14] Mike Macnair, Estratégia Revolucionária, p. 25.

[15] Karl Marx e Jules Guesde, Programme of the Parti Ouvrier, disponível aqui: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1880/05/parti-ouvrier.htm.

[16] Marx, A Sagrada Família, disponível aqui: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1845/holy-family/ch04.htm.

[17] Althusser, Contradição e Sobredeterminação, disponível aqui: https://www.marxists.org/reference/archive/althusser/1962/overdetermination.htm.

Traduzido por Guilherme Henrique, segundo a versão disponível em: https://cosmonautmag.com/2019/08/neither-intersectionality-nor-economism-for-a-genuine-class-politics/

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