Elogio do Zumbi (Guerra Mundial Z) – Gilles Dauvé & Tristan Leoni

 “Nós ainda temos que sofrer não apenas a parte dos vivos,
 mas ainda a parte dos mortos. O morto agarra o vivo!
[1]
(Le Capital, prefácio da primeira edição, 1867)

A Melilla, enclave espanhol na costa marroquina. Para atravessar duas barreiras de 6m protegida por soldados e policiais, uma multidão de homens e mulheres correm desordenadamente, por vezes amarrando ganchos a seus punhos e parafusos a seus sapatos para se prenderem melhor. “A maioria das pessoas interrogadas dizem terem subido umas nas outras para conseguirem passar.” Um dia foram 2000, dominando os defensores, porém a maioria falha, e recomeça.

Em Jerusalém, na cidade velha. Sob proteção militar, ao abrigo de um muro de 20m, judeus, muçulmanos e cristãos cantam hinos. Do lado de fora, milhares de seres em fúria escalam a muralha, caem, retomam o ataque, mas apesar de se agarrarem em corpos empilhados, alguns atingem o cume, outros seguem, o recinto é invadido, os soldados sobrecarregados, um massacre começa.

Imigrantes sentam-se em cima de uma cerca na fronteira após tentarem atravessar do Marrocos para o enclave espanhol de Melilla, em 10 de fevereiro de 2015 [Angela Rios/AFP via Getty Images]
Cena do filme Guerra Mundial Z (Marc Forster, 2013) que mostra os zumbis subindo o muro de Jerusalém.

Os acontecimentos de Melilla são apenas reais demais[2]. Cada dia, milhares de africanos arriscam a vida para emigrar para a Europa. De todas as fotos, as mais fortes mostram, talvez, ao longe, homens em equilíbrio periculoso no cume da barreira metálica, prontos a cair do lado “bom”, enquanto ao primeiro plano, sobre uma relva verde, duas pessoas jogam golfe tranquilamente.

Um jogador de golfe dá a tacada inicial enquanto imigrantes africanos se sentam em cima de uma cerca durante uma tentativa de entrar em território espanhol a partir de Marrocos. Fotografia: Reuters

A cena de Jerusalém é um trecho do filme Guerra Mundial Z (2013), inspirado no livro de Max Brooks, Guerra Mundial Z: Uma história oral da guerra mundial dos zumbis (2006)[3], relato pós-apocalíptico onde os zumbis teriam invadido quase todo o mundo; trata-se sobretudo de organizar a sobrevivência ao invés de aniquilá-los.

Realidade não é ficção, e os imigrantes não são zumbis. No entanto, os Estados (inclusive aqueles cujos imigrantes tentam fugir, como o Marrocos nesse caso) tratam esses proletários como seres indesejáveis, pragas, quase fora da humanidade, monstros… como zumbis.

O essencial do livro fica ausente no filme, e nós nos interessamos sobretudo pelo primeiro, composto de entrevistas recolhidas doze anos após o fim da guerra mundial anti-zumbis.

Na Guerra Mundial Z, o que ameaça a humanidade é muito diferente de uma catástrofe natural (meteoro gigante) ou de um perigo externo (invasão extraterrestre): a ameaça vem aqui de dentro da espécie humana.

A Guerra Mundial Z condensa numerosos horrores contemporâneos… e propõe soluções.

A tabela dos horrores

Quando a família deixa de ser um lugar a priori tranquilizador, quando alguns instantes são o suficiente para fazer de seu próprio pai um estrangeiro destinado a te agredir, cada um pode se transformar em um inimigo que te transforma por sua vez em inimigo. É o medo (ou o ódio) ao outro que domina, ou ainda, o medo de si, de se tornar outro, de se perder?

Sem dar nenhuma explicação científica à pandemia, o livro responsabiliza tudo e ninguém. A única certeza, o primeiro foco foi identificado na Ásia (retorno do perigo amarelo?).

Os seres infectados perderam a aparência humana. Da boca, sai uma baba, mas nenhuma palavra. Conseguimos ver apenas dentes que servem de arma. Essas criaturas movimentadas por uma pulsão destrutiva refletem a imagem que um burguês tem dos sub-trabalhadores da underclass[4], bárbaros embriagados, animais (pensamos em Zola e nas trabalhadoras-fêmeas): o medo da zumbificação é também um medo da desclassificação. As classes dirigentes sempre disfarçaram a grande revolta de pobres como uma demência selvagem, uma epidemia. Os comunardos? “Cachorros enfurecidos”, escrevia Flaubert[5].

Nada consegue parar esse contágio. O “11 de setembro” tinha revelado do que é capaz um banal avião comercial. Aqui, o Boeing que em algumas horas transportava o turista para as praias tropicais lhe traz em troca um perigo mortal para casa. Os instrumentos da globalização retornam contra a civilização.

Mesmo os milagres da medicina são impotentes. Não apenas os laboratórios fracassam em encontrar um remédio, como a indústria enriquece vendendo uma vacina que sabe ser ineficaz. Não se pode mais confiar na ciência. Se a origem do mal permanece misteriosa, sua propagação se explicaria pela abundância de transplantes e pelo tráfico de órgãos. Como se fosse necessário punir a humanidade pelos seus excessos, por sua extravagância tecnológica, principalmente médica, e pela comercialização de corpos já desumanizados.

Pior ainda, deslocando a vida social, a proliferação de zumbis provoca um gigantesco pane democrático: quem decide? A guerra total não deixa nenhum papel ao parlamento.

O apartheid como salvação da raça humana

A epidemia multiplica as casas bunkers, sucessoras dos condomínios fechados para os ricos. Mas os zumbis são mais persistentes que os pobres. Para o refúgio da família, da cidade ou da região (como as tentativas de hoje em criar uma Flandres, uma Catalunha ou uma Escócia autônoma), o muro anti-zumbis só é viável se for organizado por um poder político que disponha dos meios necessários.

Melhor que a democracia parlamentar, segundo a Guerra Mundial Z, seria um Estado que tem a experiência de viver em uma fortaleza sitiada e que faça amplamente uso da força, que saberia melhor reagir contra os zumbis. Os democratas sabem tirar de regimes autoritários, senão racistas, as lições necessárias.

Na África do Sul, nos anos 1980, frente ao progresso do movimento negro, teria sido concebido um Plano Laranja: “imaginem”, dizia Redeker[6], seu inventor, “o que poderia ser realizado se somente a raça humana se despisse de sua humanidade”; trata-se na verdade de constituir um reduto onde sobreviveria uma minoria de africânderes… ao preço do sacrifício de muitos outros: assim seriam “preservadas legitimidade e a estabilidade do governo”. A hostilidade dos meios africânderes e o compromisso que colocou fim ao apartheid tornaram o projeto inválido mas, nunca aplicado contra os negros, acaba se tornando útil contra os zumbis. No início do século XIX, esse plano imaginário que visava abandonar territórios e populações ao caos para se retirar a zonas protegidas evoca irresistivelmente a Europa-fortaleza e as periferias esquecidas à miséria e à desordem: Somália, Líbia, Iraque…

Por sua vez, com base em sua experiência em matéria de muros anti-palestinos, Israel se constitui como campo entrincheirado, oferecendo asilo tanto aos judeus quanto aos palestinos originários de territórios ocupados, com a condição de que estejam saudáveis (os judeus infectados são imperdoavelmente rejeitados). Era necessário um inimigo comum mortal para que aconteça enfim a reconciliação judaico-árabe… sem dúvida o que há de menos crível no livro[7].

Outras cidades e bairros, e mesmo o Palácio de Buckingham, se transformam assim em fortalezas.

Um New Deal autoritário, solidário e ecológico

Uma vez em segurança, ainda é necessário sobreviver, apagar que é o supérfluo para manter o que é fundamental, ou seja, para Max Brooks, a autoridade do Estado, o dinheiro e o salariado: é dos Estados Unidos que vem a resposta.

A comparação com o New Deal é explícita no livro. O Estado federal toma medidas de inspiração “marxista” ou “coletivista”, não sem reencontrar resistências como outrora aconteceu com Roosevelt. Um Ministério de Recursos Estratégicos coordena a economia para transformá-la: essa guerra de um novo tipo exige qualificações práticas, materiais e uma reindustrialização seletiva. Mesmo não qualificada, o trabalho manual é um bem precioso. O trabalhador reencontra um reconhecimento. Produção e produtividade sofrem uma redistribuição completa, reflexos de classe e preconceitos de raça, antes “naturais”, mas agora contra-produtivos, se passam por artificiais: saber finalizar um plano financeiro se torna fútil comparado a consertar a privada. O ex-produtor de discos é hoje um limpador de chaminés feliz. O professor da universidade aprende a mudar um bloco quebrado.

65% da população tendo um “potencial nulo”, uma nova gestão da mão-de-obra se impõe, graças a um vasto programa de formação e a uma pedagogia mutualizada: aqueles que sabem jardinagem ou bricolagem ensinam os outros.

As restrições de produção e de consumação obrigam uma simplicidade feliz. Os cidadãos devem “se desagarrar dos hábitos de conforto”. Como convida o Guia de sobrevivência[8] abordado mais à frente: “Aprender a evitar o luxo desnecessário. Muitos de nós sonham com um regime mais rigoroso”. Sonho realizado quando as fronteiras fechadas interrompem a globalização e tocam o fim da bebida gaseificada em etapas sucessivas em 9 países e 3 continentes. A reciclagem é sistemática, o reparo encorajado, de preferência convivial, por exemplo o de bicicletas. Para a desordem global, soluções locais: um Programa de Autossuficiência Comunitária incita grupos locais a contar com seus próprios recursos. O que os ecologistas recomendariam em vão, a sobriedade energética forçada o ordena: o estadunidense descobre seus pés e, graças a eles, a densidade do tempo. Uma hora de carro se torna um dia de caminhada.

Até mesmo a justiça evolui. No início, a exposição dos desviantes choca, depois a opinião pública compreende que os delitos serão menores (e menores também as punições) se forem tratados dessa forma. Quando a justiça não é mais proferida por especialistas, mas pelo grupo, há a (re)constituição de uma comunidade.

Portanto, nada menos que uma transição ecológico-social: um declínio… forçado, mas a quem ousaria falar de ditadura, Max Brooks responderia que esse neo-New Deal depende de uma participação dos cidadãos.

Os Estados Unidos prevalecem porque eles instauraram a dominação benevolente de especialistas apoiados pelo povo, e porque através da guerra os negócios continuam: a tomada da economia pelo Estado garante a perpetuação da empresa, do salariado, do lucro, das classes…

Geopolítica anti-zumbi

O resto do mundo segue caminhos variados, às vezes inesperados.

Em Cuba, não é o mar que isola a ilha: os zumbis nadam melhor que os peixes e a Irlanda tem o privilégio de ser o local mais “infestado” da Terra. É seu regime ditatorial que salva Cuba. Uma vantagem econômica, além disso: o território estando seguro, fabrica-se em massa armamentos anti-zumbis ali, exportados para o mundo inteiro, e a ilha se torna “o arsenal da humanidade” (como os Estados Unidos o arsenal da democracia em 1939 – 1945). O capital não tem nenhum problema em investir em uma fábrica de armas em Cuba se o Texas está infestado de zumbis: a burguesia tem o hábito da deslocalização.

Essa prosperidade incita 5 milhões de estadunidenses a zarparem, novos boat people em busca de segurança e trabalho. Os cubanos começam a estacioná-los em campos. Depois, 10% desses imigrantes são empregados como mergulhadores, lixeiros ou em outros empregos subalternos que os cubanos recusam. Pouco a pouco, os ianques se integram. Agitada por um desenvolvimento que leva ao liberalismo, Cuba evolui, uma vida política renasce, greves, motins, símbolo de que o autoritarismo era mais propício aos negócios.

Sob a última ditadura “comunista” existente, a Coréia do Norte, o silêncio total. Imagina-se que ela resistiu melhor que qualquer outro país, protegida pelo isolamento geográfico devido à zona desmilitarizada. Nada vale um país separado do mundo. Sobretudo em comparação com a Coréia do Sul, devastada pelo distúrbio e agitação que, para a Guerra Mundial Z, acompanham inevitavelmente o individualismo democrático.

A guerra anti-zumbis fatia o debate recorrente sobre o futuro da China no primeiro lugar como potência mundial. Não, responde a Guerra Mundial Z. Pouco ou incapaz de desejar a aplicação de uma versão do plano Redeker, a China sai da guerra economicamente e politicamente fraca demais para disputar a liderança com os Estados Unidos. Quanto à Rússia (agora o Santo Império Russo), ela também permanece rebaixada ao nível de potência regional, ocupada tentando recuperar a Ucrânia…

No fim da guerra, de 200 milhões de zumbis, restariam de 20 a 30 milhões pelo mundo. Eles resistem a tudo. Nem mortos, nem vivos, envelhecer não é uma opção para eles. Só podem ser eliminados destruindo seu cérebro ou os esquartejando. O gelo os paralisa, o degelo os reanima, e os pais recomendam às crianças evitarem brincar perto demais do lago. O livro termina em uma coexistência e uma ameaça contida, mas provavelmente infinita.

O capitalismo e a utopia de sua sobrevivência

Como muitas histórias de ficção científica, a Guerra Mundial Z oferece uma gama de problemas de uma época tal como são percebidos pela opinião dominante, ao menos aquela que quer ser vista. Nos ensinam pouco sobre o que é o mundo, mais sobre o que o mundo teme e espera.

Em caso de catástrofe, o Estado não vale nada: eis a lição de Max Brooks. Se ele menciona bem coletivizações harmoniosas conduzidas por cidadãos libertários, a solução que tem sua preferência passa pelo Estado, pelo exército, pela hierarquia, pela autoridade, pela ONU, pela OMS, suavizados por um fio de autogestão temporário[9]. É mais fácil conceber uma invasão de zumbis que a auto-organização de seres humanos que rejeitam o retorno do Estado. Para Max Brooks, controlar a epidemia significa, em primeiro lugar, controlar a população, pelas armas se necessário. O livro invoca “humanos selvagens” que os militares têm dificuldade em raciocinar. Caso contrário são apenas “rebeldes organizados”. E se “um mundo sem dinheiro” dá o ar de sua graça, ele se limita à troca dos arquipélagos do Pacífico. O livro comporta algumas entrevistas de indivíduos relativamente marginais, mas sempre razoáveis: não se lê uma entrevista com um antigo ocupante de imóveis de Montreuil que lutou contra os zumbis depois contra as tropas de ocupação da OTAN, e que hoje apodrece em uma prisão nas Ilhas Kerguelen.

Em um livro paralelo, o Guia de sobrevivência em território zumbi[10], Max Brooks explicita o conteúdo político deixado no estado de “sub-texto” na Guerra Mundial Z. A invasão zumbi provocará o “desaparecimento da lei e a ordem”: “os últimos vestígios da polícia e do exército […] desertarão em massa para salvar suas famílias e se tornarão bandidos por sua vez”. Pois, menos que “rebeldes organizados”, trata-se de “saqueadores”: “Esses bárbaros dos tempos modernos não só se definirão pelo desrespeito à lei, pelo ódio à organização” e “um modo de vida niilista e parasitário”: “seu senso natural da anarquia lhes impulsionará a lutar uns contra os outros”. Quanto àqueles que não se dedicarão à violência, eles se aniquilarão no sexo: “A morte de uma civilização se acompanha geralmente de uma última e gigantesca festa. Por mais perverso que pareça, pessoas que acreditam viver seus últimos instantes se entregam a verdadeiras orgias.”

O escritor se crê o cérebro fértil, mas falta inteligência teórica. É falso que toda catástrofe quebra a ligação social e libera o seu pior e o meu. Estudando as reações frente a um conjunto de desastres no século XX, inclusive o furacão Katrina, Barbara Solnit mostra que frequentemente as calamidades interrompem o egoísmo “natural” e engendram práticas de ajuda mútua e de solidariedade[11]. Realidades que escapam de Max Brooks cujo humor veicula o conformismo mais banal. Sem ingenuidade, podemos acreditar em alternativas além da Guarda Nacional e uma barbárie ao estilo de Mad Max.

Tudo é permitido contra os inimigos do gênero humano

Ninguém acredita seriamente em zumbis. Cada um sabe o que ele representa: a imagem de uma possível catástrofe universal. A Guerra Mundial Z não é um livro gore, mas um livro político (biopolítico, diria um foucaultiano). Um ecologista veria aí uma metáfora da ameaça de destruição do planeta sob a ação da espécie humana.

O que fazer quando a humanidade corre o risco de desaparecer?

Se o Plano Laranja é ucrônico, ele não surge totalmente da ficção. Para além do sacrifício deliberado de uma parte da população, esse tipo de projeto tem seu lugar nas fantasias da extrema direita.

A democracia, como se sabe, se define pela sua rejeição do extremismo. Mas se a própria humanidade está ameaçada, os democratas não se privam de meio algum, mesmo autoritário, mesmo extremo, mesmo “desumano”. A questão do fim e dos meios mal é apresentada no livro[12]. Os métodos mais desprezíveis são eles mesmo justificados contra o mal absoluto encarnado pelos zumbis? (Ou por Hitler? Por Stalin? Pelos terroristas homens-bomba? Pelos islamistas assassinos de crianças?…)

Nesse drama, os zumbis são realmente os piores?

Zumbi e proletário

Versailles está em cinzas e dois países ao menos sofreram ataques nucleares: não se sai ileso de uma guerra mundial anti-zumbis.

A novidade, para Max Brooks, é que a humanidade (entenda-se, sua parte civilizada, o Ocidente, os estadunidenses à frente) soube se unir para sobreviver[13]. A existência se anuncia mais razoável, mais local, mais solidária, atenta ao meio-ambiente.

Infelizmente, adverte o autor, a paz nos torna egoístas, individualistas, consumidores extravagantes. Mesmo um apocalipse falhou em nos melhorar. Os homens não aprendem nada. Exceto se houver uma boa grande guerra…

Deixemos Max Brooks com seu triste moralismo.

Como frequentemente, o verdadeiro herói da história é o malvado, o perdedor.

O zumbi vem do humano. Ele perdeu, ou tirou-se sua humanidade. Negativo absoluto dessa sociedade, ele é apenas pura negação. Ele é o proletário tal como o burguês de outrora o alucinava, bruto capaz apenas de obedecer, senão de sepultar a civilização. O anjo negro de uma revolta cega que não poupará nada, nem mesmo seus autores[14]. Mas o que aterrorizava Flaubert, nossos contemporâneos o colocam em espetáculo. Se eles se agradam na imagem do zumbi, é porque eles têm dificuldade de imaginar que o mundo atual produz outra coisa além de sua autodestruição.

O apocalipse sairá de moda quando a revolução aparecer ao nosso alcance.

Cena do filme A Noite dos Mortos-Vivos (George Romero, 1968)

[1] Na edição brasileira da Boitempo (2017), O Capital, Livro I, o trecho citado por Gilles e Leoni foi traduzido da seguinte forma: “Além das misérias modernas, aflige-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes da permanência vegetativa de modos de produção arcaicos e antiquados, com o seu séquito de relações sociais e políticas anacrônicas. Padecemos não apenas por causa dos vivos, mas também por causa dos mortos. Le mort saisit le vif! [O morto se apodera do vivo!] (p. 79, grifos do autor). [N.T.]

[2] International New York Times, 24 de julho de 2014.

[3] O livro de Brooks foi publicado no Brasil com o título “Guerra Mundial Z: Uma história oral da guerra dos zumbis”, editora Rocco, 2013. [N.T.]

[4] Underclass é subclasse, a classe mais baixa na pirâmide social, segundo as abordagens sociológicas que utilizam como critério a estratificação social por renda. [N.T.]

[5] Carta à E. Feydeau, 29 de junho de 1871.

[6] O “Plano Redeker” (comumente conhecido como “Plano de Guerra Sul-Africano”) é uma medida anti-zumbi empregada no livro Guerra Mundial Z. O Plano Redeker consiste essencialmente no sacrifício intencional de uma grande parte da população para salvar uma população em uma localização mais defensável ou importante. Para mais informações, consulte: https://zombie.fandom.com/wiki/Redeker_Plan. [N.T.]

[7] Descrevendo a tomada de Jerusalém pelos zumbis (na cena espetacular resumida no início de nosso texto), o filme se afasta do livro.

[8] Este livro foi publicado no Brasil pela mesma editora responsável pelo livro Guerra Mundial Z. Consulte O Guia de Sobrevivência a Zumbis, editora Rocco. [N.T.]

[9] Se a reconstituição do Estado é evidentemente um alívio para os dominantes, ela pode também aparecer como uma esperança para os dominados. No universo pós-apocalíptico de The Postman de David Brin (livro de 1985, adaptado ao cinema em 1997), é se deixando passar pelo emissário de um imaginário Estado em reforma que o herói devolve a esperança à comunidades lutando com potências locais. Acrescentemos que uma situação catastrófica não é necessariamente a mais favorável para a instauração de um mundo melhor. O poder central se decompôs em parte ou totalmente na Líbia, no Iemen, Iraque, Síria ou Centráfrica, sem que haja um movimento social emancipador. O Estado pode se contrair, abandonar territórios insustentáveis e ingerenciáveis, mas se ele não foi destruído, ele retornará um dia e se estenderá novamente.

[10] Publicado nos Estados Unidos em 2003 (Calmann-Levy, 2009).

[11] A Paradise Built in Hell: the Extraordinary Communities That Arise in Disaster, 2009. O limite de B. Solnit é lamentar que depois esgotem essas fontes de liberdade e de comunidade. Entretanto, “o retorno à normalidade” significa necessariamente o renascimento da divisão social, interesses de classe e potência do Estado etc.

[12] Acontece a Max Brooks de se perguntar até onde podemos ir para parar os zumbis: soldados russos recusam a obedecer a certas ordens.

[13] Em 1985, Reagan relatava uma conversa com Gorbatchev onde ele lhe teria dito “o quanto sua tarefa e a [sua] seriam mais fáceis se nosso mundo fosse subitamente ameaçado por outra espécie” (Star, Jornal de Nebraska, 5 de dezembro de 1985).

[14] No cinema, não é raro que o zumbi incarne uma vingança contra os exploradores, por exemplo contra um promotor imobiliário em Noite Erótica dos Mortos Vivos (1977), filme, aliás, desprovido de crítica social.

Traduzido por Lucca Lobato, a partir da versão disponível em: https://ddt21.noblogs.org/?page_id=309.

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